Contos

Como no Cinema

De pé na frente do último cinema de rua da cidade, Seu Alírio leu mais uma vez, com vagar, o cartaz que anunciava a demolição daquele edifício. Do seu edifício, hoje mais decadente que ele próprio e tão velho quanto. Aquele lugar tinha sido sua casa por quase oitenta anos e não podia permitir que viesse abaixo sem se despedir. Triste, respirou fundo e entrou.

Percorreu os corredores escuros já conhecidos de memória, abriu a cortina que dava acesso à sala de projeção e avançou. O ruído estrondoso dos aplausos fez com que encolhesse os ombros, tão pesado era. Olhou em volta e reconheceu os amigos com quem convivera ao longo dos anos. Todos estavam ali por ele, e sorriam, e Seu Alírio lhes devolveu o sorriso, comovido. Não faltou ninguém: os elegantes Rhett Butler e Scarlet O’Hara o cumprimentaram com um aceno de cabeça; Don Corleone, sempre fiel a seus amigos, fez-lhe um gesto gentil com a mão; Norman Bates e sua adorada mãezinha apenas o olharam com discreta admiração; Gilda, a mais bela de todas, tirou as luvas antes de mandar-lhe um beijo com os dedos; o senhor Charles Foster Kane deu-lhe uma piscadela e apontou para Rosebud, encostado num canto da parede, como se dissesse: “Viu só o que eu quis dizer?”; Ilsa Lund, vestida como se fosse viajar de avião pra muito longe, sussurrou: “You must remember this, a kiss is still a kiss…”; a senhorita Mary Poppins veio até ele levitando sobre as poltronas e o conduziu a seu lugar de honra, no centro da sala. As luzes se apagaram, a grande tela se iluminou e Don Lockwood apareceu dançando e cantando debaixo do maior toró que já houve naquela cidade.

Horas depois, quando as lembranças já não cabiam em sua memória e a saudade iria a qualquer momento fazer seu coração explodir, Seu Alírio deixou a sala, percorreu de volta os corredores escuros e ganhou a rua. Foi devagar para casa, arrastando o peso quase centenário de seu corpo. Ia cruzar a avenida quando um homem baixinho, vestindo um terno preto muito sujo e amarrotado, lhe ofereceu uma flor. Não disse nada. Apenas sorriu, coçou o bigodinho, virou as costas e saiu com seu andar desajeitado, fazendo piruetas no ar com a bengala. Seu Alírio aproximou a flor do nariz e aspirou. Fechou os olhos e compreendeu que a vida pode ser, sim, como no cinema: basta que se acredite nisso. E ele acreditava. Entrou em casa assoviando baixinho a canção Smile.

Mário Baggio

Mário Baggio é jornalista e escritor. Nasceu em Ribeirão Claro-PR. Mora em São Paulo-SP desde os anos 70. Tem 7 livros de contos publicados: “A (extra)ordinária vida real” (2016), “A mãe e o filho da mãe (2017), “Espantos para uso diário” (2019), “Verás que tudo é mentira” (2020), “Antes de cair o pano” (2022), “A vida é uma palavra muito curta” (2024) e “Vozes para tímpanos mortos” (2025). Publicou contos em várias revistas eletrônicas (Germina, Gueto, Ruído Manifesto, Subversa, entre outras). Escreve semanalmente na revista Crônicas Cariocas. Participou da “Antologia Ruínas” (2020), “Tanto mar entre nós: diásporas” (2021), “Brevemente Infinito” (2024) e Antologia de Contos da UBE-União Brasileira de Escritores (2021 e 2023).

3 comentários

  1. Que lindo! Fiquei emocionada com o seu conto. Sou cinéfila daquelas que saem do cinema somente após passarem os créditos, aliás, sou expulsa da sala. Assisti a todos os filmes que você mencionou e tenho uma saudade imensa dos cinemas de rua que fizeram parte da minha infância e juventude. Parabéns pela sua escrita, Mario!

  2. Que beleza de conto, Mario. Sim, quando envelhecemos a vida pode ser o sonho que queremos criar a partir das memórias.
    Parabéns!

    1. Obrigado, Ana, por sua leitura e comentário. Estou ficando velho, hehehe! Muitas memórias vêm povoando minha cabeça ultimamente. Beijo.

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