
Entre
A arte salva momentos.
A frase foi construída por Matilde Campilho, num vídeo brevíssimo — desses que carregam a tônica do fulgaz que uma gravação de Instagram faz reverberar por nossas pupilas. Prendeu-me num eco posterior ao instante do encontro com a postagem, enquanto eu dedilhava a tela com a ansiedade tão comum — e tão normalizada — no comportamento contemporâneo.
A arte salva.
E, às vezes, sem que sequer nos demos conta de que precisávamos ser salvos. Tomemos o exemplo da poetisa portuguesa Matilde,
- que: contou a história de um dia em que, ainda criança, resolveu dar um passeio sozinha, desbravadora assim, acompanhada apenas por sua mochila — artista desde sempre;
- entrou num museu e se estarreceu diante da enormidade de uma pintura imensa, instalada numa sala igualmente imensa;
- não, não era apenas a diferença de escala entre a menina pequena e a obra monumental que fez seus joelhos fraquejarem;
- ali ela se deixou ficar. “Trinta minutos, um quarto de hora”;
- quando voltou para a família e contou, com os olhos brilhando, que havia visto algo incrível, não soube responder aos adultos o que exatamente era.
A arte não precisa significar, propriamente.
Ela é um todo que se percebe pelos sentidos, não pela razão. Racionalizar o mundo tende a retirar-lhe a beleza. Explicar demais, mostrar demais, produzir conteúdo a torto e a direito — numa onda que, inevitavelmente, vai quebrar mais adiante — também. A arte tem como propriedade o encantamento. E o encantamento se retém apenas por percepções: tato, olfato, visão, audição, paladar. E, sobretudo, na dimensão do tempo.
O tempo.
Ele vem regendo meu modo de encarar o mundo desde que meu pai se foi. Parece que se chocaram em mim — ou por mim — as três vertentes conhecidas: a do ontem, a do agora e a do amanhã de manhã, esse futuro imediato. O presente, então, pulsa em outra frequência. Acaricia meu rosto com mãos delicadas e, ao mesmo tempo, quando me olho com profundidade, faz com que eu me apaixone perdidamente pela vida, sem saber ao certo que rumo tomar.
Estou viva.
É final de 2025 — ano torto, ano obscuro, ano adoentado e, ainda assim, tão necessário no intramundo de cada um. A mente, como os livros, as pinturas, as instalações artísticas, os filmes, é uma máquina do tempo literal e literária.
E alguém aqui já leu… H. G. Wells?













