Crônicas

Na extrema curva do caminho extremo

Eu não deveria escrever sobre se a terra é de fato esférica…

Eu não deveria dizer o óbvio!

Eu não deveria repetir tantas coisas…

Eu não deveria escrever e me esforçar para que as pessoas saibam e entendam que o nazismo foi um movimento de extrema direita.

Eu não deveria escrever e me fazer entender que QUALQUER regime de exceção, que tira direitos e persegue pessoas é chamado de ditadura…

Eu não deveria escrever sobre a desgraça que é o racismo, posto que as pessoas sabem e TEM CERTEZA de que isso é um câncer…

Eu não deveria escrever sobre TODAS as coisas que, em uma sociedade dita civilizada, são ditas e certas como INDEFENSÁVEIS…

Hoje, lamentavelmente, o que era indefensável toma forma, cor e se concretiza em palavras, atos, ideias e o que mais vier!

Hoje, a mediocridade é exaltada, escancarada, premiada…

Hoje, o medíocre espalha a sua mediocridade com cursos, palestras e verdades descartáveis…

Agora, sem pudor, preconceitos são verdades e colocados como franqueza, como sinceridade…

Na extrema curva do caminho extremo, brutalmente, escolhemos a intolerância.

Na extrema curva do caminho extremo, fatalmente, desconstruímos um país, uma sociedade…

Na extrema curva do caminho extremo, apagamos a história conforme nossas conveniências e fabricamos heróis…

Na extrema curva do caminho extremo, matamos a voz, o abraço, o beijo e o afago e ficamos com o ódio, a violência pura, o conflito e o atraso…

Na extrema curva do caminho extremo…

Campista Cabral

Campista Cabral, leitor assíduo dos portugueses Camões e Pessoa, do poetinha Vinícius, herdou deles o gosto pelo soneto. A condensação dos temas do cotidiano, assim como a reflexão sobre o fazer poético, parece procurar a sua existência empírica ou, nas palavras do poeta, um rosto perfeito, na estrutura do soneto. Admirador e também leitor obsessivo de Umberto Eco, Ítalo Calvino, José Cardoso Pires, Lobo Antunes, do mestre Machado de Assis e do moçambicano Mia Couto, retira dessas leituras o gosto pela metalinguagem, o prazer em trabalhar um espaço de discussão da criação literária em sua prosa. A palavra, a todo instante, é objeto base dos contos e das crônicas. A memória, o dia-a-dia, o amor, as sensações do mundo e os sentidos e significados da vida estão presos nos mistérios e assombros da palavra.

Um comentário

  1. Na exrema curva do caminho extremo vamos conseguir, nem que seja um pouquinho a mudar alguma coisinha, afinal somos professores! Tenho fé!

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