
O doce Augusto
Nasceu palhaço, um grande palhaço, mas não se deu conta disso, e ninguém lhe disse. E então passou os anos fingindo uma seriedade que não tinha. Jamais prosperou: nunca foi capaz de cuspir nem dar pontapé no traseiro dos outros ou fingir que gostava de criança, pois gostava de verdade. Era mesmo um palhaço, só que não sabia que era. E por isso foi infeliz.
Um dia, numa reunião familiar sem importância, disse com voz de falsete: “Definitivamente, não sou ninguém-guém-guém.” E todos estavam de acordo, não merecia consideração um homem frouxo como ele, que não levantava a voz ou batia o punho na mesa para defender suas ideias. Quando por acaso alguém lhe dava ouvidos, não conseguia evitar um sorriso. “Você poderia ser um grande humorista, um palhaço”, costumavam lhe dizer, “sempre teve grande talento para o humor, deveria investir nisso, ganhar dinheiro, ficar rico fazendo graça.” Ele não acreditava e mudava de assunto. Sentia solidão com frequência, mas nunca perdeu o sorriso. E era um sorriso triste.
Numa dessas festas de casamento, teve oportunidade de exercitar sua verve humorística. Deram-lhe um microfone e ele subiu num pequeno tablado.
— Sabem qual é o menor circo do mundo? Uma bombacha, porque nela só cabe um palhaço.
Ninguém riu.
— E por que um bebê de proveta não pode ser palhaço, alguém sabe? Porque não nasceu gozado.
Novamente nenhum riso. Ele não conseguiu continuar, ninguém lhe dava a menor atenção.
A última vez que o vi foi num encontro casual. Ele usava um chapéu-coco de feltro preto. Nos abraçamos com carinho, ele sempre atrapalhado com os braços. Dei risada e quis saber como ia a sua vida, o que fazia para viver.
— Minha vida vai bem, muito bem, bem, bem. Sou zelador daquele prédio ali na frente.
— E o humor?
Ele ficou sério por um segundo. Depois sorriu: “Ora, isso acabou. Ninguém queria saber das minhas piadas. Achei melhor desistir. Aliás, você sabe o que um prédio falou para o outro?”
Fiz que não com a cabeça. E ele: “Você tem um andar lindo!”
Deu tchau com os dedos e foi embora, perdido nos pensamentos e tropeçando nos enormes sapatos coloridos.













