Contos

O velho piano

Com as costas curvadas e as mãos apoiadas nos joelhos, o velho Amadeu contabilizou o produto de sua semeadura: recolheu duas cenouras que tinham brotado no meio das alfaces e das couves. Gostou da surpresa. Analisou e viu que as cenouras eram boas. Preparou e comeu uma salada fresca no almoço. No mesmo dia, resolveu experimentar algo novo: plantou no meio das abobrinhas uma flauta, um violino, duas partituras de Bach e um Dó Maior. Cobriu tudo com muito cuidado, apalpou com força a terra, regou e foi descansar. Sentou-se na varanda e contemplou o bom trabalho que fizera. Cuidou da plantação por dias, semanas. Arrancou as ervas daninhas e nunca deixou que faltasse água. Uma manhã, quando abriu a janela, gritou de alegria. Chamou os vizinhos e apontou sua horta, onde reluzia um majestoso piano de cauda.

Tinha brotado ali, por sua dedicação e cuidado, o mais belo piano de cauda que todos jamais viram. A notícia correu a cidade e virou assunto de todas as conversas. Logo a multidão chegou para ver e passar os dedos sobre a madeira cintilante. Discutiram sobre a excelência da marca, a qualidade das teclas, o branco tão branco e o negro tão retinto que até doía nos olhos. Que instrumento imponente! Não tardou os professores e artistas da cidade organizaram concertos, aulas de música a preços camaradas, concursos para descobrir novos talentos musicais em toda a redondeza. O velho Amadeu não cabia em si de contentamento. Quando perguntavam, dizia que o segredo daquilo tudo era… um segredo. E mais não contava.

Numa tarde de abril, o velho Amadeu levou as mãos ao peito e fechou lentamente os olhos. Estava sentado na varanda olhando o piano no meio de sua horta. Pensava nas belezas sonoras que brotariam daquela madeira reluzente. Quem o encontrou disse que ele partira com um sorriso.

O tempo e sua crueldade se encarregaram de diminuir o viço daquela novidade extraordinária. Uma manhã, quando somente os passarinhos visitavam o piano e o limo cobria quase todo o teclado, veio uma máquina e levou o velho instrumento para o depósito municipal de sucatas e ferro velho. E lá ele permanece até hoje, silencioso e coberto de poeira, ao lado do projetor de filmes, dos aparelhos de som, do foguete espacial e de outros objetos que já não têm mais nenhuma importância ou serventia nos dias de hoje.

Mário Baggio

Mário Baggio é jornalista e escritor. Nasceu em Ribeirão Claro-PR. Mora em São Paulo-SP desde os anos 70. Tem 7 livros de contos publicados: “A (extra)ordinária vida real” (2016), “A mãe e o filho da mãe (2017), “Espantos para uso diário” (2019), “Verás que tudo é mentira” (2020), “Antes de cair o pano” (2022), “A vida é uma palavra muito curta” (2024) e “Vozes para tímpanos mortos” (2025). Publicou contos em várias revistas eletrônicas (Germina, Gueto, Ruído Manifesto, Subversa, entre outras). Escreve semanalmente na revista Crônicas Cariocas. Participou da “Antologia Ruínas” (2020), “Tanto mar entre nós: diásporas” (2021), “Brevemente Infinito” (2024) e Antologia de Contos da UBE-União Brasileira de Escritores (2021 e 2023).

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