Crônicas

O verso e seu inverso

Frequentemente, uma leitura puxa a outra e acabamos em um fim diverso do que planejamos. Foi assim que caí em Massaud Moisés. Melhor, na sua obra A criação literária, que, há um bom tempo, aguardava na estante o meu retorno.

Procurando ser uma introdução ao estudo da literatura, o livro nos traz uma abordagem sobre os gêneros literários, onde, em certa passagem, aparece a discussão sobre a adequação deles no trabalho do escritor. O ex-professor da USP fala que o autor precisa encontrar o gênero que esteja de acordo com o que pretende transmitir. Caso sua escolha seja inapropriada, ele produzirá uma obra ruim ou irá falsear o conteúdo que tem em mente.

É claro que a atenção rígida às fronteiras é algo que interessa mais aos teóricos que aos escritores. Entretanto, o próprio Moisés aponta que a má utilização do gênero chega ao público, implicando na sua experiência de leitura e na avaliação que ele faz do texto literário.

Mais ou menos correta essa teorização (tendo em vista também alguns fundamentos e consequências da ideia) e sendo a causa ou não do fenômeno de que falarei; a questão é que, de imediato, aquela passagem me lembrou certos exemplares da poesia contemporânea. Não por pudor, mas por justiça e retidão na avaliação, devo dizer que corresponde a uma parte da produção poética atual, não à sua totalidade, nem à sua fração mais representativa.

O que se vê ali, muitas vezes, assemelha-se mais a um texto em prosa repartido do que a um poema. Faça o teste, leitor; você, com certeza, conhece um caso desse. Escolha um espécime dessa tendência e faça a leitura como se estivesse diante de uma obra prosaica, ignorando a sua apresentação em versos. Haverá estranhamento?

Muitos desses trabalhos, dariam uma ótima crônica ou até um belo poema em prosa, mas a sua expressão se deu por outro caminho. Por que empreendem seu fazer literário pela poesia? Não sei, seria difícil generalizar e precisar. Mas o fato de existir isso nesse gênero, talvez, mostre-nos um desafio, que deve ser enfrentado pelos críticos e, sobretudo, pelos poetas.

O verso ali existe sem sentido como verso. Ou seja, não é propriamente um verso, mas uma repartição, feita por motivos e critérios que nem sequer conseguimos apreender, mas que, certamente, não são estéticos.

Isso diz respeito também a um desleixo com a forma, vindo de uma ignorância diante dela. Ignorância no seu duplo sentido, por não se atentar no momento da escrita a esse elemento tão primordial e por não haver conhecimento sobre a própria matéria do seu ofício. Negligencia-se a forma e se atém única e exclusivamente ao conteúdo, no seu sentido mais estrito. O produto disso é um texto em prosa decomposto em linhas.

O verso existe. Pode parecer algo óbvio isso, mas é necessário dizer: o verso existe como verso. Afinal, se existir sem ser como verso, pode ser uma linha, uma mera partícula de prosa, mas não é verso.

Não estou aqui a querer defender que esse gênero é sinônimo de verso, muito menos desse na sua forma anterior à moderna; nem objetivo argumentar em favor de preceitos estéticos já há muito tempo superados. Não nutro essas outras ingenuidades. O que afirmo é que o verso não é um mero recorte, nem sua existência como tal deriva de um procedimento aleatório ou do simples ato de apertar a tecla enter no computador.

Dirão: “os gêneros evoluem, a poesia evolui”. É verdade. E estou de acordo com a ideia e com propostas de experimentação, as quais me ponho sempre aberto. Todavia, essa evolução nunca alcançou o ponto de indicar que a poesia é qualquer coisa e seria problemático se um dia chegasse a isso.

Além de tudo, é sempre bom lembrar que experimentar é diferente de ignorar. Para aquele, é necessário conhecimento sobre o objeto com que trabalha. Para esse último, basta o outro sentido da palavra. O primeiro resulta em desenvolvimento poético, o segundo, apenas em má poesia.

O modernismo anunciou e permitiu a liberdade no fazer poético, realizou uma série de experimentações e marcou rupturas. Não obstante, mesmo o concretismo, o mais radical dos movimentos de vanguarda, jamais caminhou para a ideia de que poesia é qualquer coisa. Os que anunciaram encerrado o ciclo histórico do verso estariam no front contrário dos epígonos da prosa picotada.

Porém, engana-se quem pensa que isso é novidade, coisa do século XXI. O problema é mais antigo, mas parece ter ganho maior força nos nossos tempos. Diante desses que, por vezes, arrogam para si uma suposta verdadeira herança do modernismo; lembro sempre de um artigo de Manuel Bandeira, um dos principais poetas da fase heroica e profundo conhecedor de poesia. Deixo-lhes com uma passagem muito esclarecedora do bardo:

“Sem dúvida não custa nada escrever um trecho de prosa e depois distribui-lo em linhas irregulares, obedecendo tão somente às pausas do pensamento. Mas isso nunca foi verso livre. Se fosse, qualquer pessoa poderia pôr em verso até o último relatório do Ministério da Fazenda. Essa enganosa facilidade é causa da superpopulação de poetas que infestam agora as nossas letras. O modernismo teve isso de catastrófico: trazendo para a nossa língua o verso livre, deu a todo o mundo a ilusão de que uma série de linhas desiguais é poema. Resultado: hoje qualquer subescriturário de autarquia em crise de dor de cotovelo, qualquer brotinho desiludido do namorado, qualquer balzaquiana desajustada no seu ambiente familiar se julgam habilitados a concorrer com Joaquim Cardozo ou Cecília Meireles.”

Lucas Arroxelas

Lucas Arroxelas é poeta, cronista e historiador. Nascido em João Pessoa, hoje, divide-se entre esta cidade e Recife, onde realiza o seu doutoramento na UFPE. Sua produção literária perpassa especialmente a poesia e a crônica. Além de textos em livros coletivos e revistas, publicou De tudo, nada (poesia, 2021, Editora Ideia) e Quadro crônico(crônicas, 2023, Penalux). Formou-se em História na UFPB e desenvolve pesquisas sobre o período colonial, notadamente acerca da Paraíba nos séculos XVII e XVIII. É também membro da UBE-PB.

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