Poesias de 1 a 99

Poema #05: Não É Aqui, Mas Perto

Estou debruçado
sob a fagulha do instante.
Me distorço enquanto crio
a ilusão de um esboço para algo
que sequer sei o quê.

Ouso um salto, um pêndulo.
Giro de cá e de lá.
Laço-me à vertente de um vértice,
dobro os olhares e os reviro, o sintoma.
Tu, que me devoraste.

A vertigem do hoje faz hora
Há tempo…

Apressa-te, que o passo é passado.
Vagueia a tormenta, é futuro.
Perdoa o vivido, é achado.
Lamenta, já se fora perdido
feito pássaro garrido,
debatendo-se,
sangrando,
só,

estilhaçado.

Tomba-me a silhueta assombrosa.
Insinuo que assim continuo.
Pesa-me o pestanejo, pelos
entulhos do mundo, filhos
da moral errante,
do tocante instrumento de voz,
secularizado pelo silêncio
nas penumbras
corriqueiras, talhados em
estantes.

O momento que pulsa tenaz
é fruto bastardo, pauso.
Um entrave, acordo
em um lapso constante.
O retenho aguçado, assim apazigua-me a
centelha, o bastante.

Entrelaço
um acorde dentre as
frestas da forma.
Cravo o risco em páginas

onde clamo, se por forçosa a teima,
que ouça o riso da peste
que sofre, que sonha.

Estão cansados os poetas.
Aos retirados à pruma
surte o rumo da crença.
E quanto à verdade, meu pai..
É certo que dela me esqueça
perene, enquanto perdure
o delíquio de vossas cabeças
renques, trépidas de um senso
cabal,
diz-se amargo
o careta.

A estibordo este vórtice
que me devora, que me devora..
Sinuosa esta vida
que me despoja o agora
e que sopra, sopra…
Mas se por dizer
que escrever possa ser
velejo,

e se a vida for mar…
Viver seja tornar o sopro forte
E amar, amar bem depressa,
pois querer vê-la, já
é tocar
o amor
de toda a sorte.

Pedro D’Ambrosio

Pedro D’Ambrosio é ítalo-brasileiro, artista independente e assistente jurídico, atualmente habitando o interior do norte fluminense (RJ). Escreve entre a inquietação do pensamento e a delicadeza da forma, explorando temas como linguagem, existência, silêncio e travessia. Seu trabalho se movimenta entre a filosofia, a poesia, a música e a arte como gesto. É Licenciando em Filosofia pela UNINTER e também Bacharelando em Direito pela Universidade Candido Mendes, mas é no espaço sensível das ideias e das criações que constrói sua estrada. Fala inglês e italiano, e além da escrita, encontra nas viagens e no montanhismo experiências de escuta e abertura ao mundo.

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