Poesias de 1 a 99

Poema #05: Procura dos sentidos

Terminantemente cego pelo brilho da sua voz,
custei a compreender que o farol era oco.
Lançam-se às ondas os que não veem.
Os olhos,
mal acostumados à claridade nua,
não distinguem o contorno do timbre que os feriu.
Perfil de muitos rostos
ou nenhum.

Vem de lá o jogral que arranha os ouvidos.
As letras,
maiúsculas e resolutas,
marcham e cantam
cantam e marcham
em fileiras que se entrelaçam e colidem

até se emaranhar em mil espinhos
aptos a ensurdecer o toque.
O ruído das opiniões encarece o silêncio.

Mas não há trégua.
A pele sem pausa se arrepia
ao cheiro que escorre das redes.
Pouco se aproveita da pescaria.
Aqui uma lesma
ali uma pedra
o resto é areia
que os dedos espalham até perder as digitais.

Melhor seria se recendesse a sal.
Na disputa amarga das fragrâncias,
ao nariz resta a fratura.
E antes que alguma possibilidade de cura se apresente,
impregna o ambiente o perfume insípido dos infalíveis.

A língua não quer assepsia.
Tampouco a visão da terra firme.
Temperos novos
híbridos
em vão buscam os lábios que os perseguem.
O encontro jamais consumado
afinal se junta ao rol das coisas que,
embora não devoradas,
consomem.
Qual apetite desaparecido.

Despojado enfim de todos os sentidos
o corpo perde a conexão com algo além do sensível.
Sonâmbulo entre sonâmbulos
pisoteia bússolas e dicionários

enquanto flana
em meio à multidão da praia deserta.

Felipe Duarte de Paula

Felipe Duarte de Paula nasceu em 1987. Formado pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, é promotor de justiça. Mora com a família em São Paulo. Em 2024, lançou o livro de poemas Vida selvagem, pela editora Patuá, disponível em https://www.editorapatua.com.br/vida-selvagem-poemas-de-felipe- duarte-de-paula/p e em https://www.amazon.com.br/Vida-selvagem-Felipe-Duarte- Paula/dp/655864794X

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