Poesias de 1 a 99

Poema #06: De tudo o que não sei dizer

Se te olhasse de novo, te perceberia
Se eu soubesse enxergar, ah, se soubesse…
Quão terrivelmente felizes
Seriam meus dias

Temo não saber o depois.
Pois quem nunca se perguntou…
“E agora, o que vem”?

Deixo vir.
Mas temo…
Não saber receber.

Temo a teima de não saber
Ser para saber.
Temo ter de temer, e temer…
E não viver outra coisa,
Não ver a beleza,
Fazer do outro jeito,
Viver ao contrário,

Não acertar nunca,
Estar sempre ocupado
De erros e não saber fazer
Outra coisa senão ser.

Mas se eu soubesse te ver
Bastaria um olhar.

Atravessado por um longo suspiro
Ver-te-ia.
Como se fosse a mais bela
Maneira de errar.

E desejaria que em todos os meus confusos desejos
Não sobrassem acertos.
Te teria em meus segredos
E através de tais erros
Não haveria mais medo, nem dúvida
Coisa alguma que não fosse
Sem jeito,
sem tropeço

Sem ter onde cair e me levantar.
Desejaria esta vida
E não outra.

E por desejar esta,
E não aquela,
Não teria de ver assim, pelos olhos
De quem sabe tudo
A miséria,
A quem errar lhe pareça tamanho absurdo
Que se atam os olhos
Para nunca ver transbordar a vida
No olhar.

Pois é assim que vivo:
Ao meu ver,
Sem saber e sem querer.
Quando queres, aprisiona-te.
Pois precisas ver.
Quando enxergas, então sabes como amar.

E por viver assim,
Quiçá fosse o fim
E tu, serias o começo.
E pelos meus primeiros erros
Saberia, enfim, a quem olhar.

E por te olhar assim não sobraria a pressa.
A vista seria o preço.
E a ti, infinda razão de meus erros,
Achegar-me-ia
Para onde te pudesse enxergar.

E por tua chegada
Contar-te-ia tudo o que, por acaso,
Me fizeste ver.
Não restaria outra coisa.
Quando chegaste, me fizeste aprender a amar.

E por ver o amor, voaria
E passaria os meus dias
A amar tudo o que, pela falta de ti,
Não via;

E na evidência de tamanhos erros
Não restaria outra coisa a se ver.

Se por amar-te estivesse, assim, errando,
Escolheria errar todos os dias,
E em todos eles,
Errar te amando,
E te amar.

Quando amo, entregam-me os olhos.
Já não detém-me o discurso e
Não prefiro mais a palavra.
Basta-se a ponta do sorriso,
Basta-se a força da risada.

E desse modo, percebendo-te, vi
Que tudo o que mais temia
Era ver o que não sabia como.
Mas tu, só tu
Sempre me alcançavas.

Não importa se demoras…
Cada hora sempre atinge seu lugar.

Quanto a mim,
Agora que a vejo, já não mais me enganam os
lábios:
Só aprendendo a ver, com você,
Tive onde o amor
Encontrar.

Pedro D’Ambrosio

Pedro D’Ambrosio é ítalo-brasileiro, artista independente e assistente jurídico, atualmente habitando o interior do norte fluminense (RJ). Escreve entre a inquietação do pensamento e a delicadeza da forma, explorando temas como linguagem, existência, silêncio e travessia. Seu trabalho se movimenta entre a filosofia, a poesia, a música e a arte como gesto. É Licenciando em Filosofia pela UNINTER e também Bacharelando em Direito pela Universidade Candido Mendes, mas é no espaço sensível das ideias e das criações que constrói sua estrada. Fala inglês e italiano, e além da escrita, encontra nas viagens e no montanhismo experiências de escuta e abertura ao mundo.

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