Poesias de 1 a 99

Poema #46: Um Cão

Um cão latindo na noite
é sempre um cão.
Sem cor, sem nome e sem
significado
para quem o está ouvindo.

No entanto este cão
traz em seu latido,
sombras de milhões de outros cães
sintetizados
em uníssono noite adentro.

A chuva não consegue abafar
este inquietante latir,
profanando o sono dos homens
e o sectarismo estático
das coisas e dos seres.

Alguém para se ver livre
do incômodo latido
desfechou tiros na escuridão,
e a noite se arrastou em insônia.

Da boca sangrenta daquele cão morto
brotaram ruídos confusos
que invadiram as ruas e as casas,
mostrando a todos a inutilidade do ato.

O Acaso das Manhãs

Milton Rezende

Milton Rezende, poeta e escritor, nasceu em Ervália (MG), em 23 de setembro de 1962. Viveu parte da sua vida em Juiz de Fora (MG), onde foi estudante de Letras na UFJF, depois morou e trabalhou em Varginha (MG). Funcionário público aposentado, morou em Campinas (SP), Ervália (MG) e retornou a Campinas (SP). Escreve em prosa e poesia e sua obra consiste de quinze livros publicados e quatro e-books. Fortuna crítica: “Tempo de Poesia: Intertextualidade, heteronímia e inventário poético em Milton Rezende”, de Maria José Rezende Campos (Penalux, 2015).

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