Poesias de 1 a 99

Poema #48: Instante de delírio

Olho para o vazio
de meus olhos.
O espelho
não reflete mais o amor,
outrora visível.

Imagens tão nítidas
se me afloram perdidas
na incongruência do vidro,
uma vez descascada sua tinta
prateada de reflexão.

E agora as manhãs
trazem o hálito da perda,
do que fui e que no meu delírio
se esgotou em fome.

Não a fome dos homens
do nordeste, biológica.
Tampouco a fome dos homens
civilizados, que inventaram a fome
para dois terços do mundo.

Mas fome ela mesma,
que não se come e me digere.
Não se alimenta e me fez assim
um antropófago de mim.

Fome que se reverte em morte
e não me assusta, pois construí
a vida a partir dela.

Sou um desses seres que acreditam
que na sombra se esconde a morte,
e se perde a vida e se ganha a vida.

A vida ganha com a morte
não é metafísica.
Por isso eu me mato a cada dia,
consciente de que um vazio com outro
não se compatibiliza.

O Acaso das Manhãs

Milton Rezende

Milton Rezende, poeta e escritor, nasceu em Ervália (MG), em 23 de setembro de 1962. Viveu parte da sua vida em Juiz de Fora (MG), onde foi estudante de Letras na UFJF, depois morou e trabalhou em Varginha (MG). Funcionário público aposentado, morou em Campinas (SP), Ervália (MG) e retornou a Campinas (SP). Escreve em prosa e poesia e sua obra consiste de quinze livros publicados e quatro e-books. Fortuna crítica: “Tempo de Poesia: Intertextualidade, heteronímia e inventário poético em Milton Rezende”, de Maria José Rezende Campos (Penalux, 2015).

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