Crônicas

Ser surpreendido

Não tenho vergonha alguma em ser surpreendido. Já superei faz muitos anos aquela necessidade de ter que mostrar que sabia de tudo antes de todos.

Desprezo a sensação de poder que a clarividência traz.

A verdade é que adoro não saber das coisas antes que elas aconteçam.

Toda vez que eu converso com alguém que me diz “eu já sabia” eu me alegro por nada saber antecipadamente. Sou curioso, como todo mundo, mas não perco meu tempo tentando adivinhar.

Por dever de oficio de escrita sinto prazer em imaginar situações, futuros alternativos, caminhos diferentes. E se ao invés de entrar naquela pizzaria às moscas eu tivesse ido embora para casa? E se ela tivesse jogado fora meu bilhete ao invés de ler o pedacinho de papel, sorrindo com a ousadia? Pois é, esse exercício é legal porque não antecipa algo na sua linha do tempo mas propõe alternativas para o que já passou.

Voltando.

Não quero ser adivinho. Não desejo ser blasé ou falar com tom morno e fazer aquele ar superior que acompanha as três palavrinhas “eu já sabia”. Dispenso o pedantismo expresso nessas palavras.

Antecipar o trivial, o cotidiano é perder a oportunidade de voltar a se portar como criança. Sim, criança mesmo, rindo do novo porque é novo, é inédito. Com aquele riso frouxo carregado de esperança porque a novidade veio para nos alegrar.

Por isso repudio a soberba dos que olham altaneiramente a vida, com eterno ar de deja vu.

Quero ser testemunha da estréia.

Quero participar dos fatos.

Quero me emocionar com as novidades.

Quero sorrir ante a surpresa.

Quero deixar o coração saltar alegre pelo inesperado.

Quero porque quero nada saber e tudo descobrir.

Fernando Neves

Fernando Neves é carioca, nascido em 24 de setembro de 1965, na cidade do Rio de Janeiro, RJ, Brasil. Mora na cidade de São Paulo, continua Tricolor de Coração, é separado duas vezes e tem filhas gêmeas do segundo casamento. Jornalista profissional, desde os tempos no Colégio Pedro II sempre se interessou pelas letras, seja como leitor ávido seja como aprendiz de escritor. O jornalismo abriu a oportunidade de escrever e praticar mas não foi suficiente para seu desejo de escrever cada vez mais. As opções de forma são a mininovela e o conto. O estilo adotado pelo autor compreende um arco que inclui suspense, humor, conspiração e realismo fantástico. Semanalmente ele exercita sua paixão pela crônica e poesia publicando em seu instagram @fernandonevesescritor.

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