
Sucesso ou o quê?
Linete não tinha nada a perder, pensava. Ela jurava que conseguiria rápido um emprego melhor, apesar de sempre escutar que o mar não estava para peixe, que o certo mesmo, e garantido, era fazer um concurso público, como o seu pai dizia, sendo funcionário público e ganhando um salário de miséria. Linete sonhava que podia mais do que uma simples carreira pautada no ostracismo e na continuidade das coisas. De fato, no estado atual, não aguentava a cara de enjoo do chefe, todo dia ao chegar; que sequer dava bom-dia, sempre exigindo mais absurdos. Era bem instruída, tinha cursos e mais cursos de pós-graduação, e se achava, como era, uma boa conhecedora do mundo corporativo, afinal ela tinha construído uma carreira baseada nisso, era o seu sonho. Com cinco anos de empresa, mal vividos, pelas circunstâncias, foi o jeito arranjar o momento certo para pedir para sair, e esse momento, emblemático, para que o seu chefe sentisse, foi no dia de pagamento. O espanto foi geral. O chefe ofereceu uma mísera contraposta, de imediato descartada; não valia a pena. O que valia para ela era estar bem, se sentir bem e útil para a empresa. Nesse caso, a empresa não se importava com as suas imensas conquistas, que faziam o bolso do patrão ficar mais vultoso – mas ele não lembrava disso. O rigor era quase militar: trabalhar, rente à parede, sem conversar, e obter resultados. Planilhas inúteis eram feitas aos borbotões. Como disse, o chefe só se importava com o dinheiro que iria cair na conta, e, bem dizer, quem fazia a empresa rodar era Linete, com sua habilidade, com sua forma de tratar os clientes e, lógico, com o seu conhecimento. Roberto, seu colega, sem esperar, entrou em pânico: “Como será isto sem você, sem a sua alegria?!”. Roberto era um amigo para todas as horas. Linete até pensou em desistir por causa dele, só por ele, a quem tinha um carinho muito grande. Foi ele quem ensinou os primeiros passos na empresa, pegando praticamente na sua mão, apresentando os programas e as divisões de tarefas da empresa. Só que Roberto era acomodado, tinha dez anos de empresa e não pensava em sair porque tinha medo. Linete não poderia estar presa por causa do receio dos outros. Janice, insegura, não teria mais as suas orientações, sempre acertadas. Linete queria mais, sem dúvida. Em todas as suas atitudes foi ostensiva, intrépida. Mas o mercado estava difícil, Roberto avisou. Passou meses entregando currículo, sem sucesso. Chegou a entrar em leve depressão, que tentava reverter, determinada, com atividades físicas regulares. Foi chamada, enfim, para uma entrevista. Exigiram demais, mas ela deu o melhor de si e venceu a concorrência. Após os perrengues, continua a pensar que não se deve ter medo de buscar o melhor. Ainda se sente aliviada de não ter de olhar para a cara do antigo chefe. Que glória! Lembra-se e sorri. É um caso de vitória.













