Conto

  • Maria Mercedes se olha no espelho

    Nunca tinha ido à escola e se envergonhava quando perguntavam se sabia ler e escrever. Respondia Não e mudava de assunto. Agora, aos sessenta anos, começou a aprender as letras nas aulas noturnas da escola municipal. Saía da casa de dona Elza deixando tudo pronto: as panelas e o chão brilhando, a comida do jeito que a patroa gostava e a roupa passada. À noite, na escola, escrevia bem devagar o que a professora ditava, passando a língua nos lábios enquanto a mão desenhava as letras maiúsculas e minúsculas de seu nome: Maria Mercedes. Afastava os olhos do papel, entortava a cabeça para olhar por outro ângulo e dizia, satisfeita: Esta sou eu.

    Aprendeu também a escrever o que costumava ver todos os dias: mesa, panela, chão, comida, gato, copo, água, vassoura, feijão, menino. E já não sabia que outra palavra escrever, até que lhe ocorreu uma: espelho. Aprendeu a escrever espelho e olhou a curva de cada letra. Leu uma e outra vez em voz alta e ficou olhando a palavra, olhando e olhando. Admirou-se de não se ver refletida nela. E por que não se via naquele espelho escrito, se tudo o que escrevia antes certamente via? Quando rabiscou barriga, viu a dita cuja no filho lombriguento, e disso não tinha dúvida. Encafifou. Pensou que era porque ainda não sabia escrever muito bem e que, quando soubesse à perfeição, veria tudo o que quisesse, bastaria escrever. Se não fosse assim, que vantagem teria aprender a ler e a escrever?, perguntou. Ninguém na classe respondeu. Fizeram silêncio, como se Maria Mercedes tivesse dito algo estranho. Como se ela olhasse para um espelho e, feito um milagre, de repente se visse.

  • Urubu de pelúcia

    Mila Cox já nasceu em revolta contra o machismo e o racismo que via em muitos homens mais velhos e em muitos de seus contemporâneos.

    Ela praguejava ainda mais quando se tratava de pessoas mais jovens que ela, nascidos no século vinte e um, e com mentalidade tosca e medieval.

    Cox diz que apesar da obrigação de morrermos menos estúpidos do que nascemos, essa lógica parecia não se aplicar entre muitos jovens, na proporção devida.

    Exceção feita a Zimi, seu velho amigo e parceiro musical, esse era um problema recorrente na sociedade.  

    Conheceram-se através de Sara Cox, prima de Mila, pois Sara e Zimi estudaram jornalismo na mesma classe da faculdade.

    Zimi, apesar de já ter feito muito merda na juventude, era agora um exemplo de conduta para Mila Cox.

    Ele, tão criticado por uma inadimplência bancária que por décadas pareceu crônica, mas que foi superada por meio do desapego, quando vendeu a casa em que morava, herança de sua avó, para viver de renda, quitar a dívida no banco, comprar uma parte do sítio das Cox e morar numa quitinete alugada em São Paulo.

    Mila Cox era baixista e Zimi era baterista, e juntos atendiam pelo nome de Crop Circles.

    O sobrinho de Cox veio conversar sobre uma redação que precisava entregar no colégio, sobre sustentabilidade libertária, tema escolhido por ele mesmo, já que o professor passou a tarefa com o tema livre.

    Era um tema que o garoto conhecia satisfatoriamente para escrever sobre, porque era algo aplicado por sua tia e por Zimi, especialmente quando eles estiveram em quarentena durante a pandemia, no sítio que tinham em Itapecerica.

    Mila Cox desde criança já era tia. E mesmo sabendo que era jovem e aproveitando gloriosamente essa condição, ainda assim era tia.

    Ostentava, em sua cabeça, uma posição hierárquica superior, mas não opressora, na relação de parentesco  com o rapaz, sobretudo pela necessidade de não permitir que o jovem seguisse a cartilha machista que lamentavelmente ainda era seguida por alguns familiares.

    No entanto, era preciso ter cuidado para não se colocar naquela posição de soberba que tanto desprezava.

    No mesmo dia em que soube do trabalho escolar do sobrinho, resolveu escrever uma música sobre um dia do futu,ro em que ela estaria mais velha e tocando num festival europeu ao ar livre, numa tarde de sol, bem antes dos shows das novas atrações musicais desse período vindouro.

    Essas  atrações contemporâneas tocariam à noite, e os Crop Circles agora estava ali só para assistir e tomar umas bebidas atrás do palco.

    Ela havia sonhado com isso na noite anterior e gostou do sonho.

    Ela e a banda (na verdade era um duo formado por ela e Zimi, e que contava eventualmente com a participação de algum guitarrista em shows ao vivo) estavam escalados como coadjuvantes veteranos para o festival, embora tivessem prestígio de banda ‘cult’ na comunidade indie de então.

    Um sonho que lhe renderia viagens que jamais pagariam com um emprego comum de escravo assalariado.

    No sonho, sua aceitação entre os indies europeus do futuro, munidos de estrutura para um evento memorável, fariam finalmente com que a vida valesse a pena. 

    A partir daí, gostaria de se tornar um ser inorgânico, um espírito livre.

    Em contrapartida, o anonimato entre o grande público na vida acordada também podia ser vantajoso. Poder andar nas ruas sem serem abordados por quase ninguém (pelo menos no que se refere a tocarem em uma banda) era bom.

    Na vida real, quando ela ganhava algum dinheiro como copywriter, guardava um terço. pagava as contas com o segundo terço e gastava o resto.

    Os festivais europeus do futuro a encontrariam madura e entendendo que o envelhecimento é uma consequência dura e implacável, que demanda a busca de uma trajetória digna, de preferência com algum legado autoral.

    Mila Cox fez o trabalho escolar para o sobrinho e ainda não havia escrito uma linha sequer da música a que havia se proposto a fazer.

    O sobrinho pediu que ela fizesse o trabalho, pois estava ocupado gravando uma música, como uma monobanda. 

    Alegou que a ideia sobre o trabalho já estava cristalizado em sua mente, mas a música em que trabalhava ainda estava em desenvolvimento.

    Ele exercitava tal modalidade há algumas semanas, tendo um single gravado, sob o nome de Cox.

    Afirmou que Brian Wilson era futurista quando apostava na longevidade da sua obra, e que isso demandava tudo, principalmente tempo, e ela entendia o porquê.

    Para ela, enfatizar o que parece óbvio era um ingrediente na receita de hits.

    Uma receita que muitas vezes pode dar errado.

    O erro, nesse caso, nada tem a ver com sucesso ou fracasso comercial, mas sim poder ouvir a música anos depois sem ter vergonha de ter gravado.

    A consciência da finitude pessoal também é algo que apesar de óbvio, muitas vezes não é assimilado, mencionado e aceito. É algo, que no entanto deve ser levado em consideração caso haja a intenção de criar algo mais duradouro do que o autor.

    Mila Cox, que nos primórdios de sua banda, também teve em seu embrião uma fase dela como monobanda.

    Ser tia do estudante que ganhou fama de nerd com um trabalho feito por ela era bom.

    Ela sabia que o sobrinho realmente tinha conhecimento sobre o conteúdo do trabalho, antes mesmo de ter aceito a incumbência de fazê-lo.

    O garoto alegava que exercitaria seu poder de edição numa canção sua que lhe seria bem mais exigente do que escrever sobre uma ideologia que já havia assimilado.

    A tia, em troca, prometeu jogar duro na avaliação da música.

    Era uma responsabilidade, pois o sobrinho sabia que carregaria aquelas palavras para o resto de sua vida artística.

    O que lhe preocupava era saber da importância da dosagem de confiança que se deve imprimir numa empreitada como aquela, e  não era o caso de estar abusar dessa confiança naquele momento.

    Se a tia tivesse acesso ao rascunho que existia da música até então, saberia quem ele estava tentando plagiar. 

    Havia, portanto, uma parte significativa da música a ser feita.

    Ele precisava apenas distorcer o que parecia óbvio com outra influência que fosse obscura a ponto de sua menção como influência se tornasse exagero, tornando o produto final aceitável no que diz respeito à originalidade.

    Tentaria aplicar a fórmula de um hit, mas sua equação para isso era mais complicada do que os padrões de produtores clássicos.

    Envolvia camuflar influências, que apesar de soarem óbvias para sua tia, pesando negativamente em seu critério de avaliação.

    Mas confiava que se safaria alegando plágio involuntário, na pior das hipóteses.

    Ele lembra de ouvir a tia praguejar os piores horrores sobre os artistas que desprezava, e sabia o quão doloroso seria ouvir aquilo sobre sua própria criação artística.

    Ele havia escolhido o nome da família para batizar o projeto, o que também pesaria na avaliação de sua tia.

    Acabou por fazer um trabalho satisfatório, mas não escapou da observação de Mila Cox, que comentou que a música parecia uma mistura de Brian Eno com a primeira fase do Ultravox.

  • Uma grande amizade

    Estava prestes a entrar na casa do Ricardo. O calafrio bateu, com a força do vento gélido, de um dia de chuva, que dava do décimo primeiro andar, de um prédio no nascente. Fiquei minutos paralisado, sem saber como proceder, o que dizer, para o meu tão grande amigo. Nós nos conhecemos no colégio, quando tínhamos cinco para seis anos. Estudávamos na mesma sala, fomos alfabetizados e seguimos para o primeiro, segundo e terceiro anos do ensino fundamental, à época. O colégio era grande, tínhamos outros amigos, mas nos identificávamos, éramos quietos e sabidos, os primeiros da sala. Mas não competíamos, coisa nenhuma, éramos amigos que se ajudavam em algum perrengue. Geralmente, quando ia à sua casa, ia para estudar, e acabávamos brincando. E nossas brincadeiras eram banais, coisas de criança mesmo, não éramos arteiros. Ele era de família abastada, enquanto eu vinha da classe “média-média”, pode-se dizer. Ainda assim, morávamos no mesmo bairro — sendo que ele vivia em uma casa grande, no centro do bairro, cercada com grandes muros e vigiada pelo porteiro e faz-tudo. Alberto, um senhor muito gentil e amigo das crianças. Ele tinha dois cachorros, o primeiro e único Pointer Inglês que vi na vida, e um Weimaraner, lindos, lindos. Segundo seu pai, eram cachorros de exposição, hiper bem-tratados, com ração da melhor qualidade. Naquele período, tudo era caríssimo, mas Ricardo e sua família podiam bancar o luxo. Brincávamos de bola com os cachorros. Escolhemos o mesmo time de futebol, pois seu pai, muito amável, paulista, era torcedor fanático do São Paulo Futebol Clube, e nos incutiu a paixão pelo Zetti, por Müller e Raí, além do grande Telê Santana. Era, de fato, um time de ouro. Eu jogava invariavelmente no gol. Pedi ao meu pai para comprar as luvas do Zetti e a camisa de goleiro, para estar a rigor. Jogávamos vídeo game também — não preciso dizer que ele era o único a ter o Mega Drive. E o principal, de que não me esqueço, pilotava, na sua casa, o seu pequeno carro a motor. Era uma ostentação. Eu me sentia no filme Riquinho, uma mera empolgação pueril. E tudo era repartido, inclusive a comida boa da Sra. Socorro. Sua casa era o céu, me sentia super à vontade. Inventei de criar um álbum com figurinhas e vender. Ele topou o meu empreendimento e comprava as figurinhas horrorosas que eu desenhava — nunca fui bom em desenho —, para se ver o nível da amizade. Hoje, Ricardo tem uma linda família. Encontrei-o no shopping outro dia. Batemos um papo rápido e ele me chamou para conhecer a sua casa. Estou frio, ainda, aqui na porta. Não tive, por ora, coragem de apertar a campainha. Há o medo de que tudo tenha mudado. Claro que tudo mudou, penso, amuado. Devo insistir no reencontro? Sim, darei o primeiro passo, para nossa amizade continuar. Não o deixarei escapar.

  • BORNOUT

    Nasci um nada. Fui criado para ser um nada. Desde pequeno, nunca soube que o dinheiro pode ser usado para o lazer. Aliás, qual o significado disso? Meus pais só trabalhavam e tudo era minimamente economizado para podermos pagar as parcelas de nossa casa em um condomínio classe média e do carro do ano, a grande paixão do meu genitor. Objetos nos quais ele empregava seu tempo livre e sua matéria.

    Enfim, fui criado para ser insignificante e decidi vencer esse destino.

    Logo aos dez anos de idade comecei a trabalhar vendendo doce na porta da escola. Era onde eu estudava? Não. Para sustentar seus desejos de aparência, meus pais sempre me matricularam em escolas públicas. Longe da minha casa, é claro. Ninguém tinha grana para comprar doce de criança. Então, eu não podia vender lá. Por isso, ia para um colégio de bacanas onde a playboyzada sempre comprava tudo. Nunca soube se era por pena ou só para se livrar rápido de mim. Foda-se, isso não importava, estava fazendo o meu dinheiro.

    Minha relação com a grana sempre foi de respeito. Ao mesmo tempo em que eu queria juntar cada vez mais, tinha medo de ficar deslumbrado e gastar tudo. Por isso, deixava ela lá, guardada, bem no cantinho dela. O único motivo justificável para mexer nas economias era para investir. Sempre buscava novas formas de aumentar minhas economias.

    Trabalhei durante toda a minha infância e adolescência, nunca tive tempo para brincadeira ou para perder tempo com inutilidades. O trabalho era meu único foco. Quando fiz dezoito anos, peguei o que tinha, comprei uma moto, aluguei uma quitinete e sai da casa dos sonhos. Nunca mais voltei a falar com meus pais, apesar de eles terem tentado muito. Eu não tinha raiva deles. O que não tinha era tempo.

    Passava os dias fazendo entregas em meu “amigo” de duas rodas, quase nunca ia para a casa. Quando raramente estava livre, ficava pensando em qual era a utilidade de pagar aquele lugar. Entretanto, logo caia na real. Ali, ao menos, poderia jogar meu corpo cansado quando precisasse. Não dá para morar em uma moto.

    Por esse motivo, meus anos como motoboy foram sempre objetivando comprar um carro. Não queria um modelo pra aparecer para ninguém. Queria um econômico que não quebrasse muito. Trabalhei como boy por cinco anos até tingir esse objetivo.

    Agora, eu precisava de mais, eu sempre quis mais. Meu objetivo era conseguir juntar o meu primeiro milhão. Dá para juntar isso sendo motorista de aplicativo? Impossível? Eu não conhecia essa palavra. Se alguma hora ela viesse em minha cabeça, eu ligava o celular, colocava um vídeo de motivação e assistia focado. Meu pouco tempo livre era unicamente dedicado a assistir um canal de um cara que saiu do nada e ficou rico. Ele ensinava os outros a fazerem o mesmo. Eu ouvia aquilo até cansar para ver se acontecia
    comigo.

    Comecei trabalhando dez horas, muito pouco. Passei para doze, dá pra aumentar. Quatorze, posso fazer um esforço. Dezesseis, foca no seu objetivo. Dezoito? Tá puxado, quase não pareço um ser humano, mas preciso aguentar.

    Certo dia, eu já estava completando umas dezesseis horas de trabalho, meu corpo pedia arrego, mas minha mente me chicoteava pedindo pra aguentar mais. Faltavam “só” duas horinhas. No meio dessa briga, eu apaguei. Quando fui acordar, estava em cima de uma cama de um hospital. Quando acordei, meus pais logo se aproximaram. Olhavam com uma puta cara de tristeza de merda. Eu fiquei puto, falei “o que ta acontecendo“. Minha mãe apenas falou “Filho, sinto muito, você perdeu todos os movimentos da cabeça para baixo“.

  • O gato subiu no telhado

    O gato subiu no telhado. Na sala. Na lareira. E na janela.

    Brigou com as gatas, espantou o sono, o frio, rompeu a madrugada, fez barulho, fez rosnar, assustou. Fez miar.

    O gato preto e branco queria comida, queria carinho, queria estar. Queria o lugar das gatas, queria mudar o rumo, queria dominar o mundo, queria brincar.

    O gato subiu no telhado e desceu na lareira para apavorar. Botou terror na madrugada, tirou meu sono, tirou o sossego do meu lar. Ficou preso na janela, morto de raiva sem cumprir seu plano, sem mais apavorar.

    O gato subiu no telhado e desceu pela janela, tirando meu sono, meu sossego, mas sem conseguir me dominar.

    Sem sono, sem festa. Só me resta contar.

  • A trama

    Assim que chega a manhã, as esposas dos pescadores se dirigem às docas e ali se sentam, os pés dentro d’água. Todas trazem linhas e agulhas de tamanhos variados e se dedicam à tarefa de fechar os buracos das redes que seus maridos utilizam no trabalho. Cantarolam enquanto cosem, e cosem com diligência e sem distração: ao entardecer, seus homens precisarão das redes prontas antes de saírem para o mar em busca do alimento e do sustento de todos os dias.

    Em determinados pontos da trama, que escolhem cuidadosamente tal qual um segredo bem urdido, elas substituem a linha de tecer por fios dos próprios cabelos, arrancados da cabeça num puxão seco e dolorido, e prosseguem a costura, embaladas pela cantoria que sai das dezenas de bocas em uníssono. Dessa maneira, um pequeno pedaço de cada uma — seus cabelos — acompanha o marido quando o barco em que ele está toma a direção do desconhecido, noite e mar adentro.

    Na manhã seguinte, repetem o ritual da costura e da cantilena e, quando necessário, em conjunto, solidárias, tratam de decapitar as sereias que, por atrevidas e insolentes, sem serem convidadas, aparecem na rede de vez em quando, no meio de centenas de milhares de sardinhas e outros peixes maiores. Deram-se mal, as tais, se tinham por objetivo alcançar a terra firme para seduzir homens que têm dona.

  • Silenciosa

    Toda noite uma mulher atravessa minha casa por dentro. Passa pela sala, alcança o corredor e sai pelo terraço dos fundos. Pede desculpas assim que me vê, diz que este é o seu caminho até o trabalho e que não conhece nenhum outro. Com o tempo me acostumei com sua presença. Ela é linda, e nem em sonho vi mulher igual. Espero-a todas as noites, e todas as noites ela vem. Algumas vezes cheguei a pedir que fizesse uma pausa e gastasse uns minutos comigo. Poderíamos beber algo juntos, rir sem preocupação, esquecer o mundo um pouco. Ela nunca aceitou.

    Hoje resolvi fazer-lhe uma surpresa. Preparei um jantar caprichado. Arrumei a mesa, acendi velas, arranjei flores. Ela não veio. Nem nessa noite nem nas seguintes. Talvez tenha descoberto um caminho diferente ou foi despedida do trabalho. Ou então retornou, tão silenciosa quanto viera, para o sonho do qual saiu.

  • O NEVOEIRO

    Metáfora. Figura de Linguagem que consiste em comparar dois ou mais elementos de forma indireta.

    Conforme o dicionário, a metáfora nos presta este favor. Aliás, um grande favor! Sem a metáfora, a imagem do que falamos ou escrevemos não teria a mesma expressividade!

    Aqui, nestes rascunhos e esboços de um tempo, a metáfora nos serve como uma imagem de alerta, de reflexão e, por que não, de perplexidade! Como podemos ignorar o óbvio?

    Outro ponto importante a considerar antes do exemplo, é que fatalmente repetimos os mesmos erros ao longo da história!

    Elementos de comparação: nevoeiro e visão.

    NEVOEIRO: Quando a temperatura do ar cai até o ponto de saturação da umidade do ar, formam-se as chamadas gotículas de água em estado líquido que, de tão pequenas, ficam em suspensão, reduzindo a visibilidade!

    VISÃO: Um dos cinco sentidos. Por meio desse sentido, temos a capacidade de enxergar tudo à nossa volta.

    Remexendo os espaços e as gavetas do tempo, a história que se segue já foi contada por muitas gerações. A propósito, ela se repete indefinidamente… a despeito da inteligência e da sagacidade de algumas criaturas…

    Conta-se que há muitos anos, um grande nevoeiro tomou conta da cidade.

    Entretanto, o nevoeiro não veio abruptamente, mas aos poucos…

    Conta-se que as pessoas nem estranharam.

    Uma neblina pequena se formou em pontos isolados, o que não chamou a atenção de ninguém.

    Depois, outros pontos passaram a apresentar também uma fina e frágil neblina…

    O calor sempre foi uma grande reclamação e, para muitas pessoas, estava bom, o calor havia diminuído. Isso era bom! Afirmavam muitos!

    Depois, pontos e mais pontos da cidade foram sendo tomados pela mesma neblina. Até que a cidade inteira foi envolvida.

    Os carros, desde cedo, já saíam de suas casas com os faróis acesos. As pessoas saíam com casacos e se encolhiam. As luzes das ruas ficavam acesas por muito mais tempo.

    E assim foi que, quando o nevoeiro chegou, denso, forte, espesso, ninguém reclamou, ninguém se surpreendeu… todos estavam já acostumados com seus casacos e gorros e luzes e frio.

    O nevoeiro assumiu o cenário da cidade e, como se a própria cidade fosse, como um prédio, uma ponte ou uma rua, era já algo comum, banal, corriqueiro…

    Um dia, o nevoeiro tornou-se ainda mais denso… Voos cancelados. Viagens adiadas.

    O nevoeiro impedia a visão das pessoas. Elas?

    Elas continuaram seus afazeres, mesmo que se machucassem ou esbarrassem em alguém.

    E elas se batiam e se esbarravam e se cortavam até.

    Elas tropeçavam e caiam e se levantavam muitas e muitas vezes.

    E assim viviam.

    Simplesmente viviam, indiferentes às coisas…

  • Sílvia Maria

    Toda noite o barulho dos saltos de Dona Sílvia estalava no assoalho de madeira. O ritual era sempre o mesmo: ela conversava alguns minutos ao telefone, abria uma garrafa de vinho, tomava um banho demorado, se arrumava e esperava o próximo chegar. Ele tocava o interfone, ela calçava os saltos e saía apressada para abrir a porta. Parecia recuperar o fôlego antes de dar o primeiro “Oi!”, e o que se passava depois era sempre abafado por barulhos de beijos e outros um pouco mais comprometedores. Tudo durava no máximo duas horas e aí outro ritual começava: o rapaz se despedia, ela guardava as taças, abria a porta, talvez o beijasse, e descalçava os saltos no meio do corredor. Ligava a TV, abria mais uma garrafa de vinho e chorava vendo algum filme meloso até o dia raiar.

    Nunca vi Dona Sílvia sair de casa antes do meio-dia. Os motivos eram meio óbvios, mas ela estava sempre radiante no meio da tarde. Viúva, bonitona, ia sempre à academia, e talvez pela endorfina, parecia até estar de bem com a vida. Parecia. Dizem que nunca esqueceu o marido e todas as noites chamava um rapaz diferente para, digamos, conversar. Não sei exatamente se era falta de carinho ou mesmo de sexo. A questão é que ela era uma mulher realmente solitária. Os filhos quase nunca a visitavam e pareciam não aprovar essa nova forma de diversão da mãe. Mas, essa forma seria realmente nova?

    Menina bem-criada, educada em um conceituado colégio interno, aprendeu a tocar piano, sabia bordar como ninguém e se casou com aquele aprovado pelo pai. Não era só por amor, mas também por conveniência. Uniam-se sobrenomes, fortunas e filhos de maneira prática e constante naquela época.

    Como eu sei de tudo isso? Bem, isso é quase – ou bastante – constrangedor, mas um dia precisei entrar às pressas no apartamento dela. Digamos que algo saiu um pouco do controle e Sílvia se machucou com um dos rapazes. Como sou o vizinho mais próximo, acabei ganhando a missão de levá -la até o pronto socorro e trocamos algumas palavras – por educação, a princípio – mas nas visitas que lhe fiz, também por educação, fui me encantando com aquela mulher e seu modo de viver nada tradicional. Como consequência do ato impensado, Dona Sílvia quebrou o braço direito, o que a impossibilitava de fazer a maioria das atividades domésticas. Ela não me pediu diretamente, mas fez parecer que estava me fazendo um favor aceitando a minha presença em sua casa diariamente. Como eu estava tralhando em um livro e não tinha horários fixos – muito menos rígidos – para sair ou fazer algo na rua, podia dar a ela o privilégio da minha presença. Ou vice-versa, como ela colocou desde o início. O que poderia ganhar em tão insana companhia?

    No primeiro dia que fui ajudá-la encontrei a porta aberta e um cheiro doce de café e algum quitute que parecia estar sendo feito na hora. Dona Sílvia cantarolava uma canção e não parecia nada impossibilitada, mesmo com o gesso no braço direito. Sua casa era repleta de lembranças do que pareciam ser os seus áureos tempos. Além de várias fotos, provavelmente de filhos e netos, na parede principal da sala um quadro imponente se destacava. O homem retratado era tão imponente quanto e, tanto a moldura dourada quanto o semblante rígido traziam uma aura quase imperial. Quem poderia ser? Móveis pesados contrastavam com a leveza das cortinas e o colorido das almofadas. Tudo parecia requintado, caro, menos as imagens de Nossa Senhora que surgiam em diferentes estilos e tamanhos. Uma devota, com certeza. Sílvia também era Maria e naquela tarde ela vestia um robe salmão de cetim e parte do seu corpo podia ser vista entre uma e outra conferida no forno. Não me entendam mal, não poderia ter nenhum tipo de atração por aquela senhora que muito bem poderia ser minha mãe ou uma tia mais velha. Mas devo admitir que, para seus anos de experiência, ela estava mesmo em forma.

    – Você gosta de broa de milho? – Ela me perguntou entre uma estrofe e outra de alguma música de Maria Bethânia. Ou era do Roberto Carlos?

    – Adoro. Lembra as tardes da minha infância!

    – A mim também! Mas tenho certeza de que você nunca comeu nada igual à minha broa.

    Pode parecer loucura, mas percebi uma certa malícia na palavra “broa”. Ok, eu poderia estar delirando, pelo total marasmo sexual que se tornara a minha vida.

    – Esta receita é de uma beata que sempre fazia broa para os lanches de domingo na igreja que eu frequentava na minha terra. Era o primeiro quitute que acabava… não sobrava nem farelo!

    Realmente, nunca tinha provado nada igual. A broa de milho do Rio é seca, apenas com milho e farinha. A de Dona Sílvia vinha recheada de pedaços de queijo minas e ainda tinha raminhos de erva -doce. Ela derretia na boca e enchia todos os sentidos com novos cheiros e sabores. Acompanhada do café fresquinho, era quase um orgasmo gustativo. Ok, vou parar de fazer comparações sexuais. Dona Sílvia podia ser minha avó!

    – Nem sei como agradecer a sua presença, querido. Não sei o que faria sem você!

    – Pelo visto, a senhora está se saindo muito bem sem poder usar o braço direito!

    – Claro, querido! Sou canhota!

    Ardilosa, aquela mulher.

    – E, na minha época, ser canhota era como ser bruxa. Ou até mesmo o próprio belzebu. A mão esquerda sempre foi tida como coisa do capeta. Na escola, amarra- vam a nossa mão “errada” e nos forçavam a fazer tudo com a mão direita. Acabei aprendendo a usar as duas e nunca tive dificuldades em usar ambas. Ou cada uma delas da maneira que fosse preciso. Você sabia que até mesmo fazer o sinal da cruz com a mão esquerda era pecado? Nem sei se ainda é… Ainda se faz isso?

    – Sinceramente, não sei, Dona Sílvia…

    – Sílvia! Pelo amor de Deus! Não é porque tenho idade para ser sua mãe que você precisa me tratar como uma viúva italiana. Acho que devo fazer mais sexo do que você… Não tenho ouvido muitos ruídos vindos do seu apartamento!

    Sinceramente, não sei se estava comendo a broa ou tomando o café naquele momento, mas me senti tão envergonhado que só me recordo de ter cuspido alguma coisa… Ou ambas. Dona Sílvia, que poderia tanto ser minha mãe como uma das minhas professoras do ginásio, falava sobre sexo com a ousadia de uma ninfeta ninfomaníaca. Como assim, não escutava ruídos do meu apartamento? E a noite em que… E a que… Bem, venhamos e convenhamos que as coisas estavam um pouco paradas, eu estava concentrado no livro – que ainda estava no primeiro capítulo – mas ser humilhado por uma quase anciã era demais!

    – Dona Sílvia… – ou melhor, Sílvia –, me desculpe, mas eu não falo muito sobre esse tipo de assunto com pessoas com quem não tenho muita intimidade. Na verdade, acho que nunca falei sobre esse tipo de coisa com ninguém!

    – Meu Deus, mas por quê? Temos todos a mesma origem, somos seres sexuais, gostamos mais ou menos das mesmas coisas. Ou você não gosta de transar? Tem gostos bizarros?

    Minha cabeça parecia que iria explodir a qualquer momento e sentia um calor febril nas faces. Devia estar muito vermelho e gostaria apenas de sair daquele apartamento.

    – Realmente não entendo essa frescura toda quando o assunto é sexo. Se seu pai e sua mãe não tivessem feito nada disso, você não estaria aqui. Apesar de que, na minha época, a mulher transava mesmo para procriar. Você sabia que ninguém se importava se a mulher gozava ou não? E não tinha esse negócio de preliminar, não! Nosso corpo era como um santuário: não podia ser explorado, apreciado, revirado… Quanta bobagem, meu Deus! Algumas camisolas que usávamos na noite de núpcias tinham apenas uma
    abertura na… Bem, você sabe onde. Todo o resto do corpo ficava coberto, não tinha função. Fui descobrir as delícias de uma boa chupada no peito depois de viúva. Dá para acreditar? E é um manjar dos deuses, pode acreditar! Ainda atônito com a imagem de meus pais me concebendo, fiquei imaginado como uma pessoa poderia conjugar no mesmo parágrafo tanto Deus com um quase nome do órgão sexual feminino. Desculpem, mas me recuso a falar buceta. Que seja, então. Estava tonto demais com tanta informação.

    – E você? O que mais gosta na cama?

    Entendi como uma deixa: percebi que era hora de ir.

    Perguntei se ela precisava de mais alguma coisa, agradeci o lanche e deixei meu telefone para qualquer emergência. Nem meu terapeuta havia tentado invadir a minha intimidade com tamanha fúria. Levei um pedaço de broa para o café da manhã – ela insistiu – e ainda tentava esquecer a imagem de meus pais em atos obscenos quando cheguei em casa.

    Mas não foi exatamente essa imagem que não me deixou dormir. Tentava descobrir quem era aquela nova Dona Sílvia. Sílvia. Sabia que ela recebia seus amantes, que não era muito bem vista pelas outras mulheres do prédio, mas nunca imaginei que ela teria tamanha naturalidade ao falar sobre assuntos que me envergonhavam até em pensamento. Com certeza ela não teve uma criação liberal, não na época em que nasceu. Havia se tornado hippie? Era adepta do amor livre? Tinha uma vida secreta que escondera dos filhos e do marido? Quem era realmente Dona Sílvia? Ou melhor, Sílvia Maria.

    Esse era o nome que constava na conta de luz que usei como desculpa para rever a minha misteriosa vizinha. Toquei a campainha com a conta e uma vasilha com outro pedaço de bolo, esse comprado na confeitaria da esquina. Posso não ser um lorde, mas aprendi algumas coisas com minha mãe. E uma delas é que nunca se devolve um prato ou uma forma de bolo sem alguma coisa dentro. Comestível, de preferência.

    – Ei, menino! Que bom que voltou! Acho que te assustei um pouco ontem, não foi? Desculpa, mas fico muito tempo sem ter com quem falar e acabo extrapolando.

    – Imagina, Don… Sílvia. Gostei muito das nossas conversas. Talvez não estivesse mesmo preparado, mas…

    – Prometo que não vai se repetir, meu caro. Obrigada pelo bolo e pela conta.

    E fechou a porta. Como se algo urgente lhe esperasse do outro lado, como se minha presença fosse dispensável – de fato era – como se sua total independência houvesse voltado. Me senti um grande idiota. Um idiota careta, o que é pior.

    Alguns dias se passaram e não conseguia achar uma desculpa para voltar à casa de Dona Sílvia. Queria ouvir mais, falar sobre os meus dramas, os porquês da minha cama e de as páginas do meu livro estarem sempre vazias. Pensei na minha falta de inspiração e como ela poderia me ajudar. Resolvi ser sincero, me retratar. Talvez outro bolo me ajudasse. Ou uma broa de fubá.

    – Boa tarde, Sílvia. Tudo bem? Acabei de voltar da rua e não resisti ao cheiro dessa broa… Será que ela chega aos pés da sua?

    Ela sorriu de um jeito como quem não precisa de mais explicações e disse:

    – Só há um jeito de saber!

    Da cozinha vinha aquele cheiro familiar de café – parecia ter adivinhado a hora do lanche – e Sílvia Maria cantarolava uma nova música. Essa parecia ser de Gal.

    – O segredo da broa está no recheio. Esse pessoal novo não sabe disso. Broa, na minha terra, tem excesso de queijo, e queijo bom, fresco. Não queijo de supermercado, dentro de plástico. Queijo precisa respirar…

    Eu, como bom carioca da gema, nunca havia tirado leite de vaca, muito menos sabia como fazer um queijo.

    Mas Sílvia parecia ser uma expert no assunto:

    – Por exemplo: você sabe a diferença do queijo frescal para o curado?

    – Curado? O que é isso?

    – É um tipo de queijo, menino… Ele tem mais sal do que o frescal, é mais firme, mais amarelado…

    – Interessante. – Não consegui demonstrar nenhuma empolgação.

    – Mas você parece que não veio aqui falar sobre queijo, não é?

    Ela me olhou da mesma maneira maliciosa do dia da broa e – juro – eu não estava vendo coisas. Fiquei ruborizado e apenas mudei de assunto.

    – O braço da senhora está melhor?

    – Está tudo melhor, meu filho! Eu me sinto ótima, pronta para outra!

    – Por favor, Sílvia. Não vá se machucar novamente!

    – Se for da mesma maneira que da outra vez, vou adorar!

    Senti novamente aquele incômodo, e ela percebeu.

    – Me desculpa, querido… Não quero te constranger, mas não sou muito boa com as palavras… Sempre falei mais do que devia, fiz o que não podia e me dei mal quase todas as vezes.

    – Você não parece ter se dado mal na vida, Sílvia.

    – Ser mulher não é uma coisa fácil, meu filho. E para uma mulher que não se encaixa nos padrões, é muito pior.

    Sofri muito por ser diferente, por gostar demais das coisas ditas “erradas”. Hoje vejo que os errados são os outros, os que fingem sentimentos, escondem as emoções e passam pela vida alimentando mentiras. Nunca fui assim, mas não me arrependo de nada.

    – Mas a senhora parece ter tido uma vida tão normal… Foi casada, teve os seus filhos…

    – E logo, logo, serei avó…

    – Avó?

    – Na minha época, a gente se casava muito nova. Faz as contas, Carlos: tive o meu primeiro filho ainda menor de idade. Então, com 54 anos, já posso ser avó!

    Fiquei pensando que o seu corpo não condizia mesmo com a sua idade. Ela devia malhar ou aquilo tudo era fruto de uma excelente genética. Mas me desfiz dos próximos pensamentos, e continuei:

    – Que coisa boa! Está vendo, não tem como ser mais… comum!

    – Vamos deixar de ser hipócritas, Carlos. Você sabe muito bem o que eu faço todas as noites. Você me levou para o hospital depois de me ver na posição mais não-ortodoxa do Kama Sutra. Talvez nem você mesmo tenha experimentado a “Toda Poderosa”. É claro que eu não sou… comum!

    Quando ela me chamou pelo nome, me senti como se minha mãe estivesse me levando para o castigo. Mas esse sentimento desapareceu assim que ouvi a palavra “Kama Sutra”. Não sabia como tratar essa mulher. Não me sentia homem suficiente perto dela. Não era filho, não era amante… Seríamos amigos?

    – E eu até entendo esse espanto todo, pois com certeza você nunca ouviu uma mulher da minha idade falar sobre esses assuntos com tanta franqueza. E sabedoria, claro! Na minha época, a gente não tinha vez nem voz.

    Éramos apenas enfeites, seres não confiáveis, carnes penduradas no açougue para serem compradas. Só tínhamos valor se acompanhadas de um homem, fosse pai, irmão ou marido. Se não tivesse marido, depois de certa idade ficava para cuidar da mãe, porque não tinha outra serventia. Já imaginou?

    Claro que eu já tinha ouvido histórias assim, mas nunca de alguém tão próximo a mim. Apesar de ter nascido em plena revolução sexual, meus pais não eram de falar muito sobre esses assuntos e o máximo de conhecimento que obtive foi em filmes e documentários sobre algumas mulheres notáveis e o movimento feminista. Era chocante!

    – Só que eu nasci na época errada, entende? Nunca abaixei a cabeça para o meu pai; questionava todas as ordens que me eram dadas; tinha uma curiosidade feroz. Nunca aceitei não como resposta e era muito atrevida. Nossa empregada, uma senhora doce e sábia, neta de escravos, sempre dizia que o meu nariz empinado era sinal de que ninguém iria me domar. Se fosse hoje, eu acreditaria. Na época, apanhava sempre que me negava a obedecer. Um dia, talvez cansado de me bater ou de brigar, meu pai resolveu me mandar para o colégio interno com a esperança de que voltasse domada e pronta para me casar.

    Ledo engano. No primeiro dia de internato, machuquei as mãos na queda em um balanço e não conseguia me fazer entender. As freiras, francesas, viam minhas mãos sangrando e fingiam não ter como ajudar. Desesperada e com dor, fugi pela mata que circundava a escola. Me acharam toda suja e me levaram de volta. Fiquei uma semana de castigo por desobediência e lambia as mãos para acalmar o ardor das feridas. Quer mais café?

    Eu ainda sorvia as últimas informações e o derradeiro gole de café. Aceitei mais, para continuar a conversa e experimentar a tal broa que eu mesmo levara.

    – Claro! Está uma delícia! E vamos comparar as broas? Mas você acha que todas as freiras são ruins?

    – Você tem alguma dúvida de que a minha é melhor?

    Mas vamos experimentar a sua…

    Enquanto servia fatias generosas daquela broa que, com certeza, não tinha nada de queijo no recheio, ela continuou:

    – Sinceramente, acho que foi aí que começou o meu pavor por freiras. Bem, claro que nem todas. Durante um inverno muito rigoroso, meus lábios estavam muito rachados e não tínhamos acesso a quase nenhum remédio. Eu passava a língua, mas quanto mais a saliva entrava em contato com as freiras, mas meus lábios sangravam. Uma dessas freiras, bem novinha… – Não, ela ainda era noviça, ou seja, não havia se tornado freira – … pegou um pouco do óleo que alimentava as luminárias da igreja em que rezávamos e passou de maneira abundante na minha boca. As rachaduras sugaram aquele manjar e, em dois dias, eu já estava curada. Mas ela não precisava ser freira para fazer uma boa ação. Quem disse que para ser fiel a Deus temos que fazer voto de castidade? Quem disse que sexo é pecado? Você realmente acha que Jesus era casto?

    – Bem, diz a Bíblia que sim…

    – Bobagem, meu filho! Ele seria casto por quê? Na época dele não existia a tal Igreja Católica com todas essas regras sobre todas as coisas. Você acha mesmo que Deus nos daria tantas possibilidades de prazer se não pudéssemos usufruir delas?

    – Esse é um ponto interessante…

    – Mas é claro! O pecado está na cabeça de cada um. Errado para mim é proibir alguém de ser feliz. Imagina quantos padres não devem ter deixado de viver suas paixões por outros homens ou mulheres por acreditarem que era pecado? Muitos entravam para a Igreja porque as famílias eram pobres e não tinham como arcar com uma educação de qualidade. Na minha cidade mesmo tinha um que sempre almoçava nas casas das famílias mais abastadas. Minha mãe, carola que era, fazia questão de convidá-lo e sempre que ele ia embora, ela lhe emprestava um livro da coleção Saraiva. Eu era encarregada de buscá -los, mas não podia sair sem meu irmão mais velho. Em uma dessas idas até a casa paroquial, ele pediu que eu buscasse outro livro e deixasse meu irmão lá. Quando voltei, ele estava nu e meu irmão lhe acariciava o pênis. Fiquei tão chocada que deixei o livro escapar e os dois se assustaram com o barulho. Saí correndo e nunca contei a ninguém. Sabe por quê? Porque ninguém iria acreditar em mim. Também nunca perguntei se aquilo era consensual ou não para o meu irmão. Acho que prefiro não saber.

    – Mas os seus pais nunca desconfiaram?

    – Pai e mãe nem olhavam direito para os filhos. Imagina. Éramos sete, meu pai ficou viúvo quatro vezes, eu dava trabalho pelos outros seis. A gente nem abria a boca; tinha medo até de respirar mais alto.

    – Mas, e o colégio interno? Conseguiu endireitar à senhora?

    – É claro que não, né, Carlos? Fui expulsa por ter modos lascivos já no primeiro mês. Eu tinha comichão sexual, se é que posso dizer assim. Queria entender o meu corpo, tinha um prazer louco quando me tocava. Mas em um local com 20, 30 pessoas dormindo em camas muito próximas, era loucura se manifestar. Como tudo era pecado, abafava meus gritos no travesseiro e me esfregava no lençol depois que todas já estavam dormindo. Mas eu gozava de maneira abundante e meus lençóis amanheciam sujos e com cheiro de sexo. As freiras começaram a desconfiar e passavam a noite me observando. Me descobriram e me expulsaram.

    – E como seu pai aceitou isso?

    – Ele não aceitou. Me mandou para outro colégio, em outra cidade, pagou uma fortuna para que as freiras me endireitassem e deu ordens expressas de que eu só sairia de lá casada. Não o culpo, coitado. Ele não tinha a menor condição de cuidar de tantos filhos e ainda de uma fazenda. Não existiam pais solteiros nessa época; os homens não eram criados para essa função.

    – E então? Esse outro colégio deu certo?

    – Bem, para o meu pai, sim. Saí de lá casada com um bom moço. Muito bom, na verdade. Meu marido se apaixonou pela minha impetuosidade, mas não sabia o que fazer comigo na maior parte das vezes. Ele estudava em um colégio militar, bem próximo ao meu. À tarde, quando tínhamos permissão de ficar no pátio, alguns dos alunos desse colégio passeavam próximos às altas grades e deixavam bilhetinhos para as suas escolhidas. Se fossem aprovados pela família, os relacionamentos evoluíam – sob os olhares rígidos das freiras – e bons casamentos eram arranjados. Era uma excelente solução para a maioria das famílias, que garantiam filhas virgens e os rapazes não eram desmoralizados na sociedade.

    – Deve ser muito estranho se casar com alguém que você nem ao menos transou.

    – E transar com alguém garante que vocês serão felizes para sempre? É por isso que tudo hoje em dia termina tão rápido. As pessoas já perderam o mistério, não conversam mais, se impacientam rapidamente com os defeitos um do outro. Na minha época, o primeiro beijo era um acontecimento! Pegar na mão tinha a sua magia! Hoje, vocês mudam de parceiros como mudam de roupa.

    – E transar com alguém garante que vocês serão felizes para sempre? É por isso que tudo hoje em dia termina tão rápido. As pessoas já perderam o mistério, não conversam mais, se impacientam rapidamente com os defeitos um do outro. Na minha época, o primeiro beijo era um acontecimento! Pegar na mão tinha a sua magia! Hoje, vocês mudam de parceiros como mudam de roupa.

    – Olha, Carlos, o que eu faço todas as noites não tem nada a ver com amor. E o amor, de verdade, não tem a ver só com sexo. Eu já vivi o tal amor com o pai dos meus filhos. Não éramos exatamente Romeu e Julieta, mas nos amávamos. Construímos uma bela família e tivemos uma vida feliz. Nunca lhe faltou sexo, porque eu gostava até mais do que ele. Gostava não, gosto! Se não tivesse me casado com Augusto, acho que seria puta. Você já foi a um puteiro?

    – Não…

    – É tão alegre e festivo! Claro que nunca entrei em um, aí também seria demais. Mas um dia, voltando da escola – devia ter uns sete anos –, quis saber o que tinha em uma rua sem saída, um pouco afastada da praça principal da minha cidade. Sempre quando passava por lá com a minha mãe, ela se virava para o outro lado e fazia o sinal da cruz. Eu nunca entendia o porquê e morria de curiosidade de saber o motivo. Nesse dia, tomei coragem e entrei pelo beco. As putas ainda estavam se levantando após a noite de trabalho – e prazer – e pareciam seres quase angelicais. Elas estendiam as roupas íntimas nas janelas e lavavam os cabelos com água de alfazema. Era um mundo paralelo, com cores vivas e canções misteriosas, que nunca havia escutado nas missas dominicais. Mas todas, sem exceção, tinham expressões felizes. Muito tempo depois consegui entender o motivo.

    – Não vai me dizer que elas tinham uma vida fácil?

    – Claro que não. Mas eram livres! Exatamente por serem tão marginalizadas e colocadas de lado pela sociedade, elas podiam fugir dos padrões e usar calcinhas vermelhas e cantar músicas de cabaré sem nenhum pudor. Muitas apareciam nuas nas janelas e varandas, mas aquilo não me assustava, porque elas não tinham vergonha do seu corpo. Era tudo natural, livre, como deveria mesmo ser.

    – A senhora acha que deveríamos ficar nus nas janelas?

    – Ai, Carlos! Você é muito literal! Claro que não. Mas o que deveria causar mais vergonha? Um seio nu ou uma criança morrendo de fome?

    – Acho que não estamos preparados para as suas ideias!

    – Nem hoje, nem naquela época. Quando cheguei em casa e fui perguntar à minha mãe por que ela fazia o sinal da cruz quando passava pelo beco das moças alegres, levei um tapa no rosto que me feriu a alma. Entendi menos ainda o porquê de tanta raiva daquelas mulheres e fiquei algum tempo sem conversar com minha mãe. Ela morreu meses depois e não tive tempo nem de me desculpar. Ou de me fazer entender. Hoje, sei que a felicidade das putas era algo que deveria irritar profundamente uma mulher que só fazia parir e obedecer ao meu pai. Será que minha mãe gozou alguma vez na vida?

    – A senhora já?

    Sílvia me olhou, pela primeira vez, assustada. Não imaginava que eu, logo eu, seria capaz de constrangê -la.

    – Sim, Carlos, já gozei. Algumas vezes, com meu marido. Outras, com um belo amante que tive enquanto éramos casados.

    – A senhora teve um amante?

    – Ah, Carlos… Chegamos a um ponto do nosso casamento em que os filhos estavam criados, meu marido estabilizado e eu ainda me sentia inquieta. Chamei Augusto para conversar e acredito ter sido a precursora do tal “relacionamento aberto”. Mas não poderia imaginar que ele só aconteceria para mim. Meu marido ainda era apaixonado pela menina que conhecera no colégio interno e não admitia sentir desejo por outra mulher. Ou, então, fingia muito bem. Mas ele sabia que não poderia me segurar por muito tempo, e como não cogitávamos nos separar – não por comodismo, longe disso, éramos grandes amigos –, fomos até o final. Resolvi propor um acordo. Se eu me sentisse muito atraída por outro homem, proporia a ele termos um relacionamento consensual e discreto, apenas em locais que não seríamos descobertos, muito menos que pudesse expor Augusto de alguma forma.

    – E deu certo?

    – Deliciosamente! Conheci meu amante em um jantar da Sociedade Brasileira de Medicina. Ah, sim! Augusto era cardiologista, renomado. Ao sermos apresentados, esse homem beijou a minha mão de tal maneira que imediatamente criou uma corrente elétrica. Ela percorreu todos os recantos do meu corpo e conseguiu arrepiar a minha nuca. Tive a certeza de que seria ele, e Augusto também notou. Fiquei eufórica a noite toda, tomava champagne sem parar e quase fiz uma bobagem. Era correspondida de maneira eletrizante e flertávamos sem parar. Mas meu marido era um homem muito elegante; me chamou para conversar longe de todos e disse: “Se você quer tanto dar para ele, pelo menos marque em um local que ninguém os conheça”.

    Consegui me conter pelo resto da noite, mas logo pela manhã, com o cartão dele em mãos, liguei. Trocamos poucas e necessárias palavras e já estávamos juntos naquela mesma tarde. Me senti como a Belle de Jour, a própria Catherine Deneuve do filme de Buñel.

    – Quem?

    – Ah, Carlos! Se você soubesse mais eu seria sua…

    Alguns dias até me inspirava nas roupas da Belle de Jour para me encontrar com meu amante. Queria ter aqueles belos cabelos louros…

    Bem, tínhamos tardes tórridas, sempre em locais diferentes e longínquos. Dávamos nomes falsos, algumas vezes cheguei a usar perucas louras e ruivas para despistar algum curioso e, também, satisfazer as fantasias do meu novo homem. Éramos felizes por instantes eternos antes de voltarmos para as nossas realidades.

    – E por que vocês não ficaram juntos? Não se amavam?

    – Não sei se o que tivemos foi amor. Sei que eu precisava do sexo, da aventura. Ele concordava com a situação; também era casado e parecia mais carente do que exatamente com tesão. Tivemos uma atração muito forte no início, como duas almas que buscam a liberdade. Mas era só aquilo, tudo terminava no seu princípio. Não imaginava apresentá -lo aos meus filhos, refazer minha vida com ele. Era uma fuga, um… Momento feliz.

    – A senhora foi feliz?

    – Eu SOU feliz, Carlos. Por mais que todos pensem que sou uma mulher vulgar por pagar para ter prazer, sou uma pessoa totalmente realizada. O dinheiro é meu, faz parte da minha herança, e se posso ajudar alguns rapazes bonitos e me satisfazer, que mal tem? Cansei de lutar contra a minha natureza. Meus filhos até hoje não me aceitam. Acham que sou escandalosa, criticam meus decotes, minha risada alta, meu batom vermelho, minha alegria estampada. Acham que eu não respeito a memória do pai. Como não, se eu dei a ele, em vida, tudo que ele me pediu e mereceu? Se até na hora de trair eu o fiz com respeito? Tínhamos nossas diferenças, mas nunca deixamos de nos amar e de confiar um no outro. Nunca passamos dos limites que colocamos para a nossa relação. Já tentaram me exorcizar, Carlos. Já tentaram me podar de todas as maneiras possíveis e imagináveis. Diziam que eu tinha o capeta no corpo, que nada daria jeito em mim, que ninguém jamais me escolheria do jeito que eu era. Mas fui escolhida, amada e respeitada como merecia. Nunca condenei ninguém, mas sempre me condenaram por crimes que não cometi. Pelo menos, não eram crimes para os meus valores. Hoje, eu canto para esquecer a saudade dos meus amores. Meu marido, meu amante, meu pai, que nunca me entendeu. Se me relaciono com garotos é para fugir um pouco da solidão, sentir um corpo quente no meu, receber um carinho. Meus filhos nem ao menos me abraçam. É muito fácil julgar as pessoas sem conhecer as histórias, os caminhos. Não quero ser exemplo. Só quero ser feliz. Já sofri muito, querido. Não preciso de mais dor nesta vida. Com um suspiro, percebi uma chuva chorosa através da janela. A tarde havia passado e a noite já chegava. Minha cabeça rodava entre desabafos e cenários que fui montando em minhas histórias. Repensei toda uma vida em uma tarde e mesmo assim não sentia cansaço, mas uma vontade louca de encher páginas e páginas dos mais delirantes diálogos. Já Sílvia Maria parecia exausta. No fim da última frase, uma rouquidão surgia e sua voz ficou quase sexy. Juro que não havia nenhuma intenção, apenas uma constatação. Precisava ir embora, mas não sabia exatamente se queria. Ficamos em silêncio por alguns segundos, como se digeríssemos todas as informações.

    – Já está tarde, Dona Sílvia, eu…

    – Mas é claro, querido. Te prendi aqui tempo demais. Já está tarde. Quase na hora da minha novela.

    – A senhora gosta de novelas?

    – Você mesmo não disse que eu sou bem normal?

    – Rs… Ainda temos que comparar as broas!

    – Volte quando quiser para tirarmos a prova… Mas acho que a minha ainda é imbatível!

    – Volto sim, Dona Sílvia.

    Voltamos a ser como no começo de nossas conversas e nos demos um abraço, como há muito eu não dava em ninguém, e que ela também não recebia. Foi rápido, como em novos amigos, mas suficiente para um bom começo.

    E durante toda a madrugada em que escrevi, com uma inspiração fluida, o meu novo romance, e durante todas as outras tardes e noites que trocamos impressões sobre bolos e memórias, ninguém mais subiu para o apartamento de Dona Sílvia. De uma forma estranha e até meio torta, nos bastamos.


  • O Beco

    Dia frio, chuvoso, cair da tarde. Penido se preparou para a volta à casa, depois de um expediente na repartição que lhe rendera uma tremenda enxaqueca. Não era para menos, pois o contato com o público lhe estressava. Na maioria dos casos ignorava as queixas desses “infelizes”, como bem dizia, que lhe importunavam e canetava um “indeferido” na petição. A têmpora direita latejava. Tomou uma dose dupla dos comprimidos que sempre guardava na gaveta, fechou os olhos por alguns segundos para esperar o efeito do medicamento.

    O barulho dos pingos no vidro da janela aumentou, invadiu seus tímpanos causando um temporal de dor. Lembranças afogadas em poças d’água foram tomando conta de sua mente. Os sintomas da cefaléia cresciam, uma névoa lhe toldava a visão.

    ***

    De paletó, galochas, e guarda-chuva só lhe restava enfrentar o caminho até o ponto de ônibus, caminhando atento ao chão. O percurso era grande, a noite baixava sem luar, deserta, soturna. Começou a tremer de frio e desconforto, sentindo os pés mergulhados na água enlameada que cascateava pelos paralelepípedos irregulares da ruela em frente ao escritório. A cabeça pesava e um reboliço gasoso começou a lhe importunar o estômago.

    Se viu frente à entrada da viela estreita e íngreme que dava acesso à avenida. Sentiu as pernas bambalearam. Sempre teve maus pressentimentos em relação a essa viela tortuosa, furtiva.

    Pelas paredes molhadas, o reflexo dos raios pipocando no céu formavam figuras fantasmagóricas. As criaturas bruxuleavam a cada rajada de vento e aqueles seres aprisionados, emparedados em sua mente, sopravam lamúrias, blasfêmias, ameaças.

    A ruela tinha uma curva fechada e dali se deparou com um fim de linha – a viela havia se transformado em um beco sem saída.

    Viu se aproximarem as criaturas que se despegaram das paredes, e a elas foram se juntando outras, e mais outras que o alcançaram. Não tinha para onde fugir, se esconder.

    Esse círculo de algozes com olhos ameaçadores, bocas peçonhentas, corpos desformes, desferiam golpes em sua cabeça. A cada machadada, evocavam uma das injustiças, descasos, desrespeitos, ilegalidades, por ele cometidos.

    ***

    Banhado de suor, sentiu uma mão lhe sacudir os ombros.

    — Penido, que está a fazer aí cochilando? Não vê que a fila está imensa atrás do balcão?


  • Vertigem

    Se olham, se pressentem, se desejam,
    se acariciam, se beijam, se desnudam,
    se respiram, deitam juntos, se cheiram,
    se penetram, se chupam, se demudam,
    adormecem, despertam, se iluminam,
    se apalpam, se mastigam, se babam,
    se confundem, se encaixam, se machucam,
    se apertam, se beliscam, estremecem,
    se tateiam, se grudam, desfalecem,
    se repelem, se chutam, se provocam,
    se irritam, se cospem, se esbofeteiam,
    se enlaçam, se apartam, se procuram,
    se lambem, se mordem, se ferem,
    se apressam, se perfuram, se injetam,
    desmaiam, revivem, resplandecem,
    gritam, se querem, se perseguem,
    se inflamam, enlouquecem, se abrem,
    se derretem, se soldam, se incendeiam,
    se maldizem, se xingam, mentem,
    sentem cãibra, torcicolo, tendinite,
    estrebucham, arregaçam, empinam,
    praguejam, se odeiam, se matam,
    ressuscitam, se buscam, se esfregam,
    choram, se acalmam, respiram
    e se amam.


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