COntos

  • Eternidade

    Quanta solidão. A todo tempo me vejo irremediavelmente só. O meu quarto é o meu abrigo, de onde vejo o céu escasso, tetos e paredes rachadas. Ainda me pergunto, qual foi o grande mal que fiz? Não sei. Mariazinha, minha irmã, muito preocupada, se derretia em atendimentos a mim, seu único irmão, doente. Vinha pelo menos umas três vezes na semana para me visitar. Ficou doente, de uma hora para outra, e eu que ia lhe visitar aos sábados ou domingos, pois na semana não costumo sair. Meus sobrinhos a enchiam de mimos, porque, realmente, ela era uma mulher muito digna e boa. Mas a doença logo se espalhou e Mariazinha morreu se vendo de dor. Ela não merecia isso. Pedi tanto a Deus para me dar o sofrimento dela. Quando ela se foi, me vi mais perdido. Passei meses em casa sem receber uma visita sequer, a não ser de Raimunda, a empregada da casa vizinha, que vez ou outra se compadecia de mim e deixava uma sopinha. Não fui capaz de amar, eis a questão crucial. Todos os meus relacionamentos foram baldados, curtos e ínfimos. Logo eu me enjoava dos pedidos de amor eterno, etc e tal. Podia ter suportado mais a Anna, que era a mais cautelosa, de poucas palavras, mas, com minha ira sem nome, me fartei de sua palidez. Ela foi boa, até demais, a ponto de me impregnar de desejo de ter um filho. Mas ela saiu muda, e para sempre se foi de mim, nunca mais tive notícias. Mariazinha, que parece que mantinha ainda contato, disse que ela, de desgosto, teria ido morar no interior, em Mauriti, voltado ao aconchego dos pais. Agora estou aqui, velho, doente, sem um socorro. Não tive filho algum. Era o meu sonho, mas em nenhuma barriga a minha semente vingou. Foi assim que pensei por anos. Até que na terça-feira passada me surgiu um homem de seus quarenta e tantos anos. Disse que me conhecia por fotos. Pediu para entrar. Não permiti, dado que não o conhecia e que a casa estava uma bagunça. Então, soltou que era meu filho e queria me conhecer melhor; que sua mãe Anna o teria prevenido de que eu era uma pessoa muito difícil de lidar; que tivesse cuidado para não ser escorraçado de sua casa. Na hora, chorei feito uma criança. Mostrei a ele o meu lado sensível, humano, escondido há anos, que só ele merecia ter e ver. Teria um colo e um abrigo, quando precisasse. A minha fome era tanta, de ter alguém ao meu lado, que não pedi exame de DNA, já o considerei aí meu filho. Agora estamos buscando aplacar o tempo, porque, além de tudo, sou avô de duas crianças lindas. Tenho fé de que teremos condições de recuperar o nosso processo, inacabado. Falei a ele, ali, ainda do outro lado da porta, que o amava muito; que tinha pena dele, de não poder ter tido tempo de me conhecer antes, para eu paparicá-lo. Veja, não sou um homem mal, mas iracundo, ranzinza, pela crueza da vida. Pedi que entrasse e me desse um abraço. Um abraço que durou a eternidade.

  • Errância

    Os parceiros musicais Mila Cox e Zími haviam conversado sobre adotarem ou não temas mais políticos em suas músicas.

    Para ela, as músicas tinham abordagem política, mesmo com letras minimalistas e sem serem panfletárias, mas sempre enfatizando, entre outras coisas, uma posição antifascista.

    Ela falou: “Não precisamos ser chatos como o Bono”.

    Mas para Zími, era preciso amplificar essa abordagem, pois estavam passando por um período perigoso e ameaçador, num país que nasceu de um projeto que podia ser chamado de proto-fascista, com invasão das terras e extermínio de uma civilização.

    A conversa se deu na volta de um show que fizeram como o duo Crop Circles numa festa junina em Catanduva que deu espaço para quatro bandas de rock, de diferentes subgêneros.

    Ele já tinha quase cinquenta anos e começou um outro dia praguejando sobre quanta merda uma pessoa tem que aguentar apenas para se manter viva.  

    Dessa vez a queixa era por conta de um pagamento não realizado por um trabalho que realizou como freelancer, como porteiro substituto num prédio residencial na Rua Aurora.

    Então enfiou a mão entre o assento e o encosto do sofá, onde havia dormido à noite.  

    Correu-a por ali e encontrou uma moeda de dez centavos, um pente e uma tampa de caneta.

    Logo tomou algum ânimo para procurar se atualizar um pouco sobre a situação do resto do mundo, através de fontes que ele confiava, para que isso melhorasse sua estima, pois isso o fazia lembrar que não tinha tantos motivos para lamúrias.

    Era estranho, mas em dias ruins, ele ganhava sobrevida ao se deparar com notícias tristes, outras trágicas e outras constrangedoras, lembrando que problemas do cotidiano são para todos, mesmo que em diferentes circunstâncias.

    Cada uma dessas notícias, um resultado crônico de repetidas ações que ele repudiava, idealizadas e comandadas por gente que ele também repudiava. Tudo isso seguido e praticado por um imenso rebanho humano cego, burro e passivo, desprovido de qualquer autonomia intelectual.

    Nativo de um país agora regredido ao agrarismo da soja, sob ameaça de fascismo, e com o planeta à beira de um colapso climático.

    Entendia a razão de poder ser considerado um fracassado, pois só seria vencedor no sistema excludente e perverso em que vive se não fosse a pessoa que é.  

    Apesar de estar cansado de lembrar que a falência do sistema é a origem de muitas mazelas humanas e saber que utopias não o tirariam daquela miséria existencial, sabia também que elas serviam ao menos para que não mandasse tudo às favas de uma vez, entrando propositadamente numa overdose letal.

    O sistema educacional estimula a todos que a ele tem acesso, a buscar por um tipo de vitória, que por questão de índole, nunca o estimulou.

    É necessário que haja milhares de derrotados para cada vencedor.

    Milhares de almas atormentadas com pensamentos suicidas que também se perguntam o porquê de tudo isso, apenas para adiar a morte, que levaria a um esquecimento absoluto, até para quem era próximo, e que provavelmente terá o mesmo destino.

    Isso tudo enquanto o que há de verdadeiramente heroico num ser humano é não pertencer a nenhum rebanho.

    Não há lugar algum para chegar, não ser a tumba, e para depois disso, talvez a distinção pós morte para aqueles que deixam na Terra algum legado que também não caia no esquecimento, caso de um entre milhares, sendo que muitos dos quais chegaram a sonhar com a tal vitória, buscada por uma fé cega que os moveu até lugar nenhum.

    Algo típico de quem é enganado durante muito tempo, e que tende a rejeitar qualquer prova de fraude, se desinteressando em descobrir a verdade, pois é doloroso reconhecer, ainda que para si mesmo, que fora enganado, às vezes por toda a vida.

    Pelo menos as manhãs não eram todas iguais, porque para ele também havia aquelas em que podia acordar calmo, com o apagamento das urgências, das angústias e dos receios de irrealização, resultado de alguma pequena vitória recente ou da própria insolubilidade de questões perturbadoras.  

    O dia anterior havia sido de derrota, com muito tempo na porta de um supermercado esperando pelo pagamento do freela, fumando e verificando a todo momento o aplicativo do banco do qual era cliente, para ver se finalmente o pagamento havia sido efetuado.

    Havia agora, na porta de qualquer mercado de toda a região central de São Paulo, um número cada dia maior de pessoas desesperadas de fome, pedindo algum tipo de ajuda, e olhadas com perplexidade e rancor pela maioria dos que ainda saiam de lá com sacolas de comida para levar para casa.

    Algumas dessas pessoas ainda são capazes de ostentar certos privilégios, em plena crise aguda numa terra sem deus nem lei.

    Sempre que ele saía de algum desses lugares depois de alguma compra, carregava com sua sacola de mantimentos um tipo de culpa bastante incômodo, ao ver tanta miséria.

    Nessas horas lembrava novamente do sistema, porque sabia que a miséria é culpa dele, e não de simples fracassos pessoais, como tanta gente está condicionada a acreditar.

    Foi obrigado a desistir da espera quando a bateria de seu celular vagabundo acabou, de tanto que verificava o aplicativo do banco à espera do dinheiro.  

    Então, voltou pra casa, abriu as bitucas de cigarro de sua lixeira e bolou o recheio delas em guardanapos de boteco, como se fossem baseados, e depois dormiu com fome.

    Nem mesmo esse tipo de perrengue era capaz de fazê-lo desistir de fazer esses bicos em vez de algum emprego com carteira assinada numa empresa que chama o empregado de “colaborador”, com longas jornadas de trabalho, baixa remuneração e assédio moral.

    Enquanto isso, Mila Cox apenas se lembrava da frase que ouviu dele certa vez, em que dizia ter se enganado apenas uma vez, ao pensar estar enganado sobre um tema menos importante que a conclusão tirada dele.

    Era um indício de que o problema dele não era falta de autoestima.

    E aquele dia seria bom para ele, que ao encontrá-la, sempre revive sua sociabilidade, tão comprometida por tempos de escassez de tempo e dinheiro, o que então lhe fazia ter que gastar energia, completando a tríade que tanto prezava, que era tempo, dinheiro e energia.

    Ela era muito mais jovem, e isso o levava, andando com ela, a fazer coisas que jamais faria sem sua influência.  

    Servia também, até certo ponto, como renovação no ânimo de viver.

    Sair de sua zona de “conforto” não era tão dramático para Zími, porque não havia ali, de fato, muito conforto.  

    Havia, sim, uma rotina razoavelmente previsível, até para se preparar com certa antecedência para a chegada de perrengues, que para ele, eram sempre financeiros.  

    Vivia sozinho num apartamento no centro da cidade, sendo um consumidor minimalista e praticante do desperdício zero.

    Já Cox tinha seus próprios problemas, e carregava bastante insatisfação, não exatamente pela vida que levava individualmente, mas pelas mazelas da conjuntura.

    Mas ainda era jovem o bastante para gritar um pouco mais, por causa do retrospecto de vida mais curto e por teoricamente ter mais tempo pela frente, para enfrentar desdobramentos malignos de eventuais tendências equivocadas dos dias atuais e anteriores.

    Tinha vinte e um anos, e apesar de ter um porte físico pequeno, era o tipo de pessoa que se reconhece de tão longe, quanto se possa enxergar, com o cabelo curto cuja cor era mudada quase semanalmente.

    Ela tem um Chevette Jeans 79 que chama atenção por onde passa, desde shows que faz pelo interior de São Paulo, até estacionamentos de supermercado.

    Quando questionada se era tímida ou premeditadamente antissocial, respondia que costumava conversar com quem realmente interessava, pois muitas pessoas hoje em dia vivem se sentindo insultadas, e quando não tem a resposta que querem ouvir, a tomam como uma afronta, e que a música a ajuda nessa questão, mesmo quando suas músicas geram dúvidas sobre o que realmente querem expressar.

    Estudava Letras e era uma copywriter freelancer, com ganhos sempre superiores aos de Zími, e mora com os pais numa boa casa na Penha.

    No atual momento, ambos apenas vivem, cada um à sua maneira, esperando o que há por vir para a humanidade, sem tanta esperança de dias melhores, mas com a certeza de que ainda não vimos nada em termos de tempos surreais, e que o pior ainda está por vir.

  • Maria Quitéria

    Boca aberta, torta para um lado, os olhos para o outro, parados na morte.

    “Não faça isso comigo. Volte, Paizinho.”

    Olha para a esquerda, vesgo na eternidade.

    “Paizinho, eu prometo ser boazinha. Eu faço tudo.”

    A ponta da língua no canto da boca, quer sair. O safado.

    “Eu prometo, Paizinho. Nem na igreja, nunca mais.”

    – Na igreja, eu sei. Dava para o padre.

    – Olha, parece que vai rir. Morto mais sacana.

    – Perseguia a filha em tudo quanto era canto.

    – É. No bar, eu vi erguendo o vestido. A mão na bunda.

    – Boazuda, a Quitéria.

    – Boa moça. Trabalhadeira. Vivia na igreja.

    – Verdade que andava com o padre?

    – Bobagem. Andava é fugindo do pai.

    De mãos postas no centro do tapete, se faz de santo. O revólver do lado. As mãos rezando, debaixo o buraco da bala.

    “Eu não queria, juro que eu não queria. Você disse: Atira.”

    – O revólver não tinha bala. Decerto pensou que o revólver não tinha bala.

    – O diabo atenta, minha mãe dizia.

    – Um tiro só, bastou um, na barriga, e puf! O diabo murchou, se apagou.

    – Até soltava fumaça, tanto que bufava.

    – Está virando os olhos, está virando os olhos.

    – Que nada. Esse está longe, com os anjos e os santos.

    – Ou com os diabos amigos dele.

    “Paizinho, que eu faço da minha vida? Se o revólver tivesse mais bala, eu me matava.”

    – Não é uma lágrima que cai do olho?

    “Aguinha azul, vontade de beijar, beber essa aguinha da morte.”

    – Deve ser azul, a morte.

    – É negra. Preta que nem um urubu, um morcego.

    – Que frio! Um gelo o coração.

    – Um morcego te chupando o sangue. Só fica essa aguinha azul, morcego não gosta.

    “Pai, e se eu me enforcar? Tem uma corda na cozinha.”

    – O vestido rasgado, que vergonha! Não é um seio de fora? E esses dois lambendo carniça? Os dois, o contista bisbilhoteiro.

    “Feito louca pela casa. Tenho as mãos manchadas de sangue. Quero morrer, quero morrer.”

    “Você foi-se embora, Paizinho, por quê? Não dá para entender. Queria me violentar? O revólver estava tão pesado!”

    “Atira, sua cadela.”

    “Eu atirei, o revólver pesado.”

    Não tinha bala? Umazinha só, esquecida no tambor. A bala que o diabo pôs lá.

  • Pelos olhos de um cavalo

    Subi até o Morro do Gavião e de lá olhei a cidade. Não era uma cidade grande, mas era bela, e mais bela ainda vista de cima em toda a sua extensão. Abraçar uma cidade inteira com o olhar não é simples, exige senso de contemplação e silêncio. Vi o rio marrom que a corta pelo meio, observei o lado norte, a parte sul, as casas iguais, esquadrinhei seus telhados. Era mesmo bela aquela cidade.

    A poucos passos de mim estava um cavalo olhando quieto a paisagem estendida lá embaixo. Parecia uma estátua, não fosse o vento balançando seu rabo e sua crina. Quando me aproximei dele, percebi que era cego. Matutei um instante: ali estava um cavalo cego olhando uma cidade do alto de um morro. Isso não era pouca coisa, era um acontecimento.

    Perguntei a ele o que fazia ali sozinho, sem sela nem monteiro. Ele respondeu, na linguagem dos cavalos, que sempre quis ver a cidade de cima, por inteiro, mas nunca pôde; precisava puxar carroça, função para a qual tinha nascido. Que quando se puxa uma carroça só se olha para a frente e o que se vê é pouco, só alguns metros adiante. Que a visão dos cavalos é curta, limitada. Que não se conhece o céu tendo uma carroça às costas. Que só houve uma maneira de se livrar dessa sina: tornando-se imprestável, inútil. Que cegou-se por vontade própria. Tornei-me cego. Cego não vê por onde anda e, se não vê, não pode puxar carroça nem fazer outra coisa. Cego não presta para nada. Foi assim que ganhei minha liberdade, completou ele.

    — Mas, cego desse jeito, você não consegue enxergar o céu nem a cidade lá embaixo — retruquei.

    — Não tem importância. Eu posso imaginar — o cavalo encerrou a conversa.

  • Sacripantas

    Zími acompanhou Silvano num sábado pela manhã, para que fizessem um serviço de carreto na Vila Mariana. Às oito horas saíram da garagem do prédio onde moravam, no centro de São Paulo.

    Era um trabalho rápido, e já estariam livres na hora do almoço.

    Zími, com uma camiseta dos Circles Jerks feita em casa, receberia um pagamento modesto, talvez simbólico, mas seria suficiente para as suas necessidades imediatas, até que recebesse mais algum dinheiro trabalhando como copy writer ao longo da semana seguinte.

    O trânsito estava esquisito, mas era perto e logo descarregaram da Kombi caixas de cosméticos para um salão de beleza.

    Naquela rua, numa distância pequena, três bares disputavam clientes entre as poucas pessoas que passavam ali, sob o sol forte que fazia naquele dia.

    Um dos bares tinha um bom público e era o maior deles. 

    Era também o mais novo dos três, tendo sido inaugurado semanas antes.

    O outro era intermediário e ainda assim grande, e havia ali um sujeito tomando cerveja junto ao balcão.

    O terceiro bar era o menor e mais modesto, e também o mais antigo entre eles, e estava vazio desde o momento em que Silvano estacionou a Kombi por perto.

    Fazia muito calor em São Paulo.

    Silvano disse que Zími precisava ver o show que aconteceria no bar intermediário às catorze horas. Silvano explicou que assistiu ao show do mesmo sujeito que tocaria ali naquela tarde, e talvez em todos os outros sábados.

    Disse que aquilo era uma inspiração e um encorajamento para começar uma carreira musical independente, como o duo Crop Circles, banda em que Zími é baterista e vocalista, junto de Mila Cox, que era baixista, vocalista e também usava sintetizadores.

    Eventualmente usavam guitarra nas gravações, mas não nos shows.

    Então estavam Zími e Silvano fumando um baseado encostados na Kombi depois de feita a entrega dos cosméticos.

    Terminaram o baseado e Silvano tirou de algum lugar de dentro da Kombi uma garrafa de cachaça de amora, que havia sobrado de um lote comprado no dia de um show em Itatiba.

    Por volta das catorze horas, sob calor excessivo, um cara estacionou uma Parati na frente do bar intermediário. 

    O sujeito que tomava cerveja desde cedo ainda estava lá. A kombi estava na mesma calçada, poucos metros adiante.

    Silvano pediu que Zími prestasse atenção a tudo que o sujeito fizesse.

    Ele montou o kit do banquinho, microfone e um amplificador, de onde saíam bases pré-gravadas, sobre as quais ele tocava violão.

    Zími pensou que Silvano estava fazendo piada com ele.

    O cantor nem havia começado o show e Zími já havia visto nele toda a canastrice e picaretagem possíveis.

    Do outro lado da rua, o bar menor e mais antigo continuava vazio, e o proprietário estava ali na frente, observando o cantor com a cara de quem sabia que uma presepada estava por vir.

    Oficialmente o público era de apenas uma pessoa, o sujeito que bebia ali sozinho desde a manhã. Ele parecia desinteressado.

    Zími entendeu na primeira música a razão pela qual Silvano havia pedido a ele para que assistisse àquilo. Pegou uma folha do caderno  que levava para onde quer que fosse, e escreveu algo.

    Ficaram ali encostados na Kombi sorvendo a cachaça, até que Silvano foi até o balcão do bar em que o cantor se apresentava, pegou duas latas de cerveja e voltou para a Kombi.

    Zími estava num ótimo momento, vadiando sábado à tarde, depois de trabalhar pela manhã.

    Silvano lhe deu a lata de cerveja, para se refrescarem da cachaça de amora, e disse a Zími que no fim de semana anterior o show do cantor também foi um fracasso, mas havia algumas pessoas a mais.

    Embusteiro que era, o cantor contava para quem estivesse em volta que tinha agenda lotada de shows, que vivia exclusivamente de música e já tinha tocado na Europa. Silvano ouviu as conversas, mas na ocasião não participou.

    Dessa vez só havia os dois ali para que o cantor puxasse conversa. O sujeito que bebia no balcão não demonstrava qualquer reação às tentativas do cantor para estimulá-lo.

    Depois que Silvano voltou com a cerveja para a Kombi, o cantor ainda tocou mais uma música, antes de dar uma pausa, que acabou sendo definitiva.

    E antes dessa pausa, Zími comentou com Silvano que o cantor estava bem cheirado. Comentou ainda que tinha certeza que ele mandava com a narina esquerda.

    Silvano constatou que o cara realmente parecia estar tentando morder a orelha.

    O cantor tirou o violão do colo, e se levantou tentando inutilmente disfarçar seu constrangimento.

    Pediu uma cerveja à garçonete, que do lado de dentro do balcão parecia estar lamentando demais por estar ali naquele sábado à tarde quente, ouvindo o sujeito cantar Legião Urbana em ritmo de pagode e outras aberrações, até que finalmente desistisse.

    Quando o cantor, com a cerveja na mão, fez menção de se dirigir á Kombi, Zími disse a Silvano: ‘Agora!’

    O sujeito então começou a falar, se apresentando como ‘o cantor’, e os dois apenas olhavam para ele, sem falar nenhuma palavra, e nem esboçar qualquer reação que não fosse fumar e se tomar goles de cerveja e do drink de amora.

    A garçonete observava do lado de dentro do balcão, tentando disfarçar o riso quando percebeu o que poderia estar acontecendo.

    O cantor repetiu a conversa ouvida por Silvano, sobre agenda de shows, ter tocado na Europa e sobreviver como músico.

    Até que mencionou alguns artistas que gostava, e quando citou a Janis Joplin, Zími se levantou, tirou a folha de caderno dobrada do bolso de trás e a entregou ao cantor.

    No papel estava escrito que a Janis Joplin é muito chata, e que a música ‘Mercedes Benz’ é a mais chata da história, dividindo o pódio com ‘Hotel California’ dos Eagles e ‘Sultans of Swing’, do Dire Straits.

    O cantor leu, e embasbacado, virou-se e foi de volta para o bar em que tocou. Encostou-se no balcão, sob o olhar não menos embasbacado da garçonete, que trabalhava olhando para o relógio sem parar.

    Antes de entrar na Kombi com Zími e voltar para casa, Silvano foi até a bela área de self-service do local, que estava vazio.

    Pegou um recipiente de isopor, para marmita e o encheu com todos os ovos de codorna que haviam ali.

    Então pegou mais uma lata de cerveja para ele e outra para Zími, pagou e então foram para a Kombi

    No caminho curto entre a Vila Mariana e a República, Silvano comunicou a Zími que se lançaria na música.

    Aquele cretino que eles haviam assistido tinha algo que Silvano não tinha até então, que era coragem de se apresentar em público.

    Como assistiram ao que de mais patético poderia acontecer numa tentativa mal sucedida de entretenimento, agora Silvano, sabendo que poderia contar com as estratégias de Mila Cox para se apresentar ao vivo deixando a timidez de lado, e os pitacos de Zími na produção do disco no estúdio caseiro, estava encorajado e poderia abrir os shows dos Crop Circles.

    Compor as músicas e gravá-las não seria problema, pois ele já tinha idealizado o que seria o primeiro disco Músicas de dois minutos, psicodelia dos anos sessenta, misturada com punk rock e alguma canastrice latina seriam suficientes para a estréia em disco.

    Dez faixas e menos de meia hora de duração.Sairia em vinil, cd e K7.

    Chegaram ao prédio em que moravam e cada um foi para sua casa.

    Zími contou para Mila Cox sobre o rolê.

    Ela falou que já tinha pensado em Silvano como músico, seguindo a linha de Bob Log lll ou Dead Elvis.

    Ela disse que estava apenas esperando o momento oportuno para dizer isso a ele.

    Zími começou a contar a história do cantor e ela começou a fazer café.

  • A Manquinha

    Pulava numa perna só – bicando um grão aqui, um grão ali, enchendo o papo.

    Arrulhava, cabeça no ar, o peito cheio – com um orgulho triste.

    Os moleques espantavam as outras pombas – “Suas cagonas!” Ela, não; era respeitada – ou a gente tinha dó.

    Que pena a Manquinha, com o seu coto de perna! Fosse gente, teria uma muleta. Uma filhinha, que lhe traria um prato de comida. Ou nem teria essa filhinha – e ficaria, pobrezinha, num canto pedindo esmola.

    Já imaginaram uma pomba de muletinha? Não acham que tinha até um ar alegre, a Manquinha? Será que pomba chora? Uma lagrimazinha escorrendo, já pensaram? Pé aqui, pé acolá, enchendo – upa! quase cai – o papo. Gorduchinha.

    Não ia bem com arroz? Um croque na cabeça, moleque da peste!

    Onde a Manquinha? Sumia tempos, como as outras. Depois voltava – mais velha?

    Pombas, todas iguais. Ela, pernetinha, era ela só. Me afeiçoei à bichinha. Se uma tarde ela não estava lá – na frente do açougue, pinicando os grãos de milho, ou a quirerinha, o farelinho – ah, eu já ficava arreliado: “O que será que aconteceu?”

    Não pode ser: ela está olhando para mim? – Eu imaginava. Aquela brancura manquitola quebrava a monotonia da vida. Eu me culpava: “Então, feliz com a desgraça dos outros? Está certo isso?” Mas se ela nem era um outro! Era só uma pombinha! E eu sentia remorso – me mordia de raiva de mim.

    O caso é que a danadinha me alegrava. Até que um dia – são assim todas as histórias – voou para muito longe, não voltou nunca mais. Onde estará? Em que frincha negra da vida…? Será que foi comida? Ah, se eu pego o filho de uma…

    Eu procurava, sempre, sem fim. Ainda hoje – quantos anos rolaram nas águas sujas sob a ponte! Ainda hoje fico procurando. Dou por mim, estou numa perna só – pernetinha.

  • O peregrino

    Levanta-te e anda!, disse aquele visionário de barba crespa e suja e olhos que anunciavam divindade. Lázaro, farto de mentiras sobre a vida e a morte, levantou-se e começou a caminhar. No meio da tarde estava já longe de tudo, do povoado coalhado de casebres, das hortas envelhecidas, de suas duas irmãs confusas e atônitas. Estava longe de si mesmo, e isso lhe deu algum alívio.

    No meio do caminho, parou e olhou para trás. De boa vontade teria dado graças e até beijado os pés daquele visionário maltrapilho, mas não tinha retrovisor em sua memória poeirenta. Além disso, o barbudo, àquela altura, estava ocupado em suster nos ombros um pesadíssimo pedaço de madeira e não poderia lhe dar atenção.

    Bebeu um gole d’água do cantil amarrado à cintura e contemplou o horizonte estendido como um tapete diante de seus pés. Chegou a novas terras, conheceu novas gentes. Ninguém o conhecia, porém. O tempo de quando estava morto e usava sudário já havia passado e não havia naquelas paragens ser vivente que tivesse ouvido falar dele. Para os outros, ele era só um viajante que tinha aparecido por lá. Percebeu que nunca se sentira tão leve como agora. Atravessou a nova terra e continuou a andar, seguindo seu destino e a ordem do visionário barbudo: Levanta-te e anda!

  • Nova idade

    Nunca imaginei que fosse me apegar. Não fui do tipo dado a animais. Não porque os odeie, mas, sim, porque achava que os bichos não deveriam ser criados como gente e por gente. Tia Beta trata os seus cachorros melhor que muita gente por aí, e isso nunca entendi. Ela tem para além de oito animais, juntando até papagaio, e os cria com roupinha, chazinho e tudo o mais. Achava um exagero sem tamanho, me enojava da paparicada. Onde já se viu dormir na cama com um gato? Pensava e a recriminava. “Titia, isso pode dar alguma doença para a senhora! A senhora não tem mais idade para brincar!”, e queria convencê-la de que lugar de bicho é na natureza. Penso que o trauma veio justamente por conta de meu pai, que criava inúmeros passarinhos silvestres e empestava a casa de gaiolas. Eu me sentia literalmente numa delas. O velho fazia questão de mostrar um a um às visitas que chegavam, e não se importava de deixá-los presos: “Se cantam, é porque estão gostando do tratamento…”, dizia mil e uma baboseiras como essa, para justificar sua sina de sacrificador. Naquela época eu era doido para ter um cachorro, e não conseguia, porque podia interferir nas relíquias de papai, machucá-los, e ele fazia de tudo para subordinar a minha mãe às suas vontades. Mamãe não se importava com os bichos, era indiferente, nem amava nem odiava, meio-termo. Uma vez, com raiva de papai, prometeu dar boa parte dos pássaros, aí o velho se empetecou, disse que era ele e os animais, que, se quisesse, era assim. Mamãe, a partir daí, criou uma aversão por bichos de qualquer tipo, nem um porquinho da índia, que ganhei do meu primo, pude criar; ela o soltou literalmente na rua. Até hoje não sei do seu paradeiro. Mas, voltando ao que eu queria contar: tudo mudou até Bem chegar. Ele veio para me fazer repensar a vida em suas minúcias. Foi amor à primeira vista. Ajuda a sarar as minhas feridas, depois da morte de Inara, minha esposa, que sofreu uma longa luta baldada contra o câncer – e talvez avalio que tenha sido ela quem colocou Bem no meu caminho. Encontrei-o na rua, num dia de chuva, embaixo do meu carro. Eu tinha ido ao supermercado. Ao sair, notei o vendaval e corri para o carro. Fiquei todo ensopado. Num lance, vi o pequeno saindo debaixo do veículo e vindo à minha direção, como se precisasse de socorro. Ele pedia, com os olhinhos brilhantes, para ter um lar. Pensei e resolvi em segundos. Levaria na condição de dá-lo à adoção. Mas, com um pouco mais de dois meses, se chegava manhoso, pequeno e frágil, para se aninhar nos meus braços. Dormia muitas vezes aos meus pés. O amor cresceu, naturalmente. E o que mais me anima são as suas brincadeiras, que me fazem rir leve e ir além dos problemas cotidianos. Hoje faço questão de tê-lo ao meu lado. Somos crianças, amantes da vida. Reaprendi a viver.

  • Obscuros

    No dia seguinte à festinha de lançamento do primeiro single da banda Hollow Clowns, Zími ficou sabendo por redes sociais que Samir, baterista da banda, havia morrido por overdose de cocaína.

    Era considerado grande baterista, pela força, influência e domínio técnico do instrumento.

    Samir tocava numa banda de punk rock, mas poderia tocar numa banda de rock progressivo.  

    Ele tinha trinta e oito anos.

    Samir era discreto e aparentava ter boa saúde, o que potencializou o impacto de sua partida.

    Foi apenas nesse momento, após uma sucessão de bizarrices na vida pessoal de Zími, e também no cenário mundial, que uma depressão se abateu sobre ele.

    Sabendo que é impossível se manter animado o tempo todo, Zími considera que o mercado motivacional vende uma farsa, e não uma utopia.

    Ele era movido por certas utopias, com ideais muito mais nobres do que tentar mudar essa característica comportamental humana.

    Quando acordava em frangalhos, o resto do mundo continuava funcionando da mesma maneira débil e acelerada em direção a um penhasco que se aproxima assustadoramente enquanto o rebanho humano devora a si mesmo para cumprir metas que enriquecem os verdadeiros patrões, ausentes da feiura cotidiana das cidades.  

    Muitas vezes estão, em plena terça-feira à tarde, em suas lanchas cheias de putas e garrafas de uísque, lamentando com razão a finitude de suas vidas.

    Eles têm alguns bonecos remunerados para dar as ordens e que são chamados de chefes, e que muitas vezes também são escravos.  

    Estão, no entanto, hierarquicamente acima do grande rebanho, cuja diferença em relação ao período oficial de escravidão está apenas nos nomes pelos quais são chamadas as respectivas condições, assim como o percentual de pessoas escravizadas, muitas das quais nem ao menos se dão conta disso.

    Muitos, inclusive gostam e agradecem a esse modelo contemporâneo de escravidão.

    Os bonecos acima deles servem de modelo para a massa, determinando o que vulgar e popularmente se chama de ‘vencer na vida’.

    Mas os capitães do mato, os feitores, as senzalas e as casas grandes também continuam presentes, com outros nomes.  

    O fato de noventa e oito por cento da população é composta por escravos, dando à massa uma impressão de nivelamento, ainda que sejam nivelados no fundo de um poço frio, sujo e úmido.

    O rebanho humano é passivo apenas na relação com esses patrões, mas é bastante selvagem e agressivo na relação com seus semelhantes, que na melhor das hipóteses acordam às cinco da manhã, enfrentam a saga do transporte público, depois cumprem as metas, voltam para casa enfrentando novamente o trânsito dentro de ônibus e vagões de metrô lotados, chegando em casa com a energia vital sugada, e às vezes até agradecem pelo dia.

    Essa massa anônima que devora a si mesma perece e é substituída facilmente, pois na fila por uma ‘oportunidade’ há milhões de desesperados.

    E Zími não escapará vivo dessa desgraça, pois não espera por uma vida melhor após a morte, despreza pastores picaretas que vendem terrenos no céu e exploram o rebanho através do medo.

    E as escolas sucateadas continuam a formar analfabetos que saem dali sem ler, escrever ou fazer contas, prontos para serem esmagados pela grande máquina de moer carne.

    Zími fez faculdade de Jornalismo e ali só recordou que está na mesma cilada que seus semelhantes, e essa consciência lhe serve apenas para tentar um caminho menos tortuoso, permeado pela arte, especialmente música e literatura, com predileção por gêneros que esclarecem essa condição humana precária.

    O suicídio não é solução para ele, pois sabe que a vida dará conta facilmente de matá-lo, e ele quer ver até onde consegue chegar vivo, e ver até que ponto as coisas podem chegar, e talvez presenciar o fim de toda essa farsa, por meio de uma iminente hecatombe.

    Sua fé e esperança consistem em viver até que isso aconteça, para que finalmente, pelo menos por um momento, sejamos todos iguais e nas mesmas condições.

    Zími considerava repugnante o fato de ter sido gerado, e consequentemente não teve filhos, o que o ajudava a lidar com tanta desgraça.

    Sabendo que a vida em si não tem sentido algum a ser descoberto filosoficamente, ele procurava dar a ela esse sentido.

    Ele trabalhava em casa, não enfrentava trânsito, nem chefes, nem colegas de trabalho.

    Sabia que era pobre, mas pagava aluguel, comprava comida e ia ao cinema.

    Podia viajar, porque tinha uma banda, o duo Crop Circles, que ia de chevette pelo interior para shows pequenos, em troca de cerveja e gasolina, e onde podiam vender algum merchandise, para pagar pela comida ao longo do rolê.

    Mila Cox era a parceira musical de Zími no projeto, e também sobrinha de Samir.

    Zími recebeu a notícia da morte de Samir e ainda não sabia como Cox havia reagido ao fato. 

    Sabia apenas que a partir de então, era mais importante do que nunca levar o projeto adiante.

    Conseguiam vender os cd’s e camisetas que levavam, o que parecia um sinal de aprovação por parte do público, embora durante as apresentações houvesse um silêncio causado por um misto de curiosidade e perplexidade, sem nenhum murmúrio de aprovação ou dissidência.

    Muitas vezes, nessas viagens, dormiam no carro, desde que arrumassem algum lugar para cagar e tomar banho.

    Não raro, o público era composto por gente que nunca viu uma guitarra na vida.

    Nos shows da banda eles continuavam ser ver guitarra, pois a banda era composta por ele na bateria e Mila Cox no baixo, no Moog e no sintetizador.

    Na fase embrionária da banda, tentaram vários guitarristas, mas por considerarem que todos pecavam pelo ego inflado, adaptaram o som para que a guitarra fosse substituída por efeitos sonoros do Moog.

    Seus temas eram destruição em massa, apocalipse, extinção, dor e o circo de horrores do cenário político, com letras minimalistas entre ruídos aparentemente aleatórios.

    Ele morava no centro de São Paulo, tinha uma bicicleta e além de trabalhos acadêmicos que fazia para os outros em troca de algum dinheiro, também comprava, trocava e vendia livros.

    Revoltava-se contra a arquitetura urbana da região em que morava, pois esta é bastante hostil para pessoas em condição de rua, que em número cada vez maior, ocupavam a região do centro.

    Era muito mais velho que Mila Cox, que nasceu no século vinte e um e usava a tecnologia que tinha disponível para fazer música, gravá-la e distribuí-la partir de um computador.

    Ela era copywriter e ainda nem sabia se cursaria alguma faculdade ou não. Morava com a avó no bairro da Penha, e fazia cookies de aveia e chocolate amargo nas horas vagas.

    Gostavam de Alex Chilton e Leonard Cohen, mas faziam um som completamente diferente desses artistas, que embora atemporais, não se enquadravam na realidade com a qual tinham que conviver, seja na vida prática do cotidiano ou na parte artística de suas existências.

    Tinham grande paixão pelos discos gravados entre 1966 e 1972 pelos Beach Boys.

    Álbuns que nunca são lembrados e permanecem quase obscuros, apesar da beleza das composições. 

    Essa quase obscuridade dentro da obra de uma banda famosa talvez seja uma das razões para o culto por parte deles.

    Para Zími, Mila Cox era uma espécie de Laurie Anderson. Para ela,  Zími era uma espécie de Slim Jim Phantom.

    Ela usava redes sociais para divulgar a banda e marcar shows, principalmente em cidades pequenas, e ele, que tinha grande desprezo pelas redes, tinha como foto de perfil uma 3×4 em que aparece com uma batata frita enfiada na narina esquerda.

    Zími agora estava preocupado com Mila Cox por causa da morte de Samir, e esperou que ela o procurasse para se manifestar, enquanto fazia a letra de uma música em homenagem ao amigo. 

  • O Ouriço

    Estou grudado no alto da porteira da mangueira das vacas. Lá embaixo o Duque late feito doido. Avança, negaceia, avança de novo – uma bruta valentia. É um ouriço acuado junto ao mourão da porteira. Ele rodopia, se eriça todo – coisinha indefesa, só tentando fugir do ataque. Mas de cada ataque o Duque é que foge, ganindo – um choro longo e fino de doer na gente.

    Estou tremendo inteirinho aqui escanchado na tábua de cima da porteira.

    O Duque não pode morder o ouriço; mas não desiste. Que dó que isso dá! Bicho besta, por que não vai embora? Aí, teimando e se machucando. Também, que mal que fez o coitado do ouriço, esse bichinho inocente. O quê? Inocente? Um monstro que caiu em cima do Duque, todo escalavrado.

    Um tiro de repente. E a voz do meu pai:

    – Menino, desce daí!

    E eu desço, fazer o quê?

    – Por aí não, pelo outro lado.

    – Por quê?

    – Desce logo.

    Eu sei que não tem espinhos no chão. Ele deve estar cismado; eu obedeço.

    – Vai lá dentro buscar um alicate. Corre.

    – Alicate?

    – Tem que ficar perguntando as coisas? Vai, vai duma vez.

    Eu obedeço. O Duque está lá encolhido num canto da cerca. Geme, geme baixinho.

    Meu pai sabe fazer as coisas direito, por que então não trata do Duque, fica pedindo alicate?

    – O que você quer?

    – O alicate, mãe.

    – Por que você quer alicate?

    – O pai que quer, mãe.

    – Põe no lugar depois, hein?

    – Sei.

    – E não revira esse baú.

    Pego o alicate, levo correndo. Na porta da cozinha escorrego, me esparramo no chão.

    – Cuidado! Sempre estabanado. Não precisa correr tanto.

    Levanto, saio mancando. Tinha que ir apressado. É que me lembrei do Duque.

    Meu pai está agachado. Está fazendo um carinho, consolando, passando a mão na barriga do Duque; com a outra mão segura firme no pescoço, agarrando a pele.

    Não fala nada.. Pega o alicate, segura mais forte, põe o joelho prendendo bem o Duque. Pacientemente, devagar, com mão sábia, depois num arrancão tira espinho por espinho.

    O Duque deixa, nem se mexe. Só chora, um chorinho desconsolado, lá do fundo. O focinho pingando sangue.

    Depois, some um tempo. Não muito; na hora da janta esta lá num canto da cozinha.

    Minha mãe põe a sopa de mandioca na mesa. Oba. Comemos com uma senhora satisfação. Mas logo meu pai se irrita, está olhando o Duque:

    – Bicho imprestável!

    – Ele não tem culpa, pai.

    – Por que é que não tem?

    Lá no seu cantinho, aqueles olhos de dor. A gente percebe, uma aflição bem de dentro.

    – E o ouriço, pai?

    – Que é que tem?

    – Que é que o senhor fez com ele?

    – Ara! Nada.

    Terminamos de comer sem vontade, a sopona fumegando numa gosto-sura.

    Não paro de olhar para o Duque:

    – Como que o ouriço faz isso?

    – Ara! Faz.

    – O espinho vai que nem flecha?

    – É.

    – E fura a carne?

    – Vai furando. Se não tira vai indo para dentro.

    – E agora?

    – Agora vamos fazer o quilo. Logo é hora de dormir.

    – E o Duque, pai?

    – Ele sara.

    – Ele não comeu nada.

    – Quando a fome apertar, ele come. Sossegue, isso passa.

    Meu pai acaba de enrolar um cigarro, vamos para a varanda. Ainda olho o Duque; ele abre os olhos, se bate de leve – uma tremura.

  • Lurdinha

    No exato instante em que Lurdinha nasceu, exclamaram Coitada!

    Com o passar dos meses, acrescentaram ao Coitada! a frase Olhe a cabecinha dela, que pequenininha! Lurdinha cresceu com sua pequena cabeça e foi feliz, mesmo que não entendesse tudo o que a mãe lhe dizia e ensinava. Chegou à avançada idade de oito anos sem assimilar muita coisa, embora compreendesse o necessário.

    Se tivesse que perguntar algo na rua — por exemplo, onde ficava a casa de chocolate em que morava sua amiga Filó — Lurdinha, coitada! não conseguia prestar atenção ao que lhe diziam. Fixava os olhos nos gestos do interlocutor, escutava sua voz e divagava. As palavras que ouvia passavam como brisa fresca por seu cérebro e iam embora. Filó certamente se cansará de esperar pela amiguinha.

    Lurdinha saboreava com os olhos apertados os gestos, os silêncios, o jeito e o olhar daqueles que falavam com ela. Descobria os segredos, os desejos, as tristezas, as esperanças, as mágoas, as alegrias. Seu corpo às vezes doía com tanta informação. Outras vezes sentia o coração pulsar mais rápido com a poesia que, sem esforço nenhum, conseguia criar na brevidade de uma pergunta.

    Em sua meninice, e com a cabeça tão pequenininha, Lurdinha, coitada! usava a lógica natural: Acho que não vou encontrar a casa da Filó assim, de primeira, mas com poesia o caminho até lá vai ficar bem mais bonito.

    E lá ia Lurdinha, coitada! procurar a casa de chocolate da amiga Filó lambendo com gosto um picolé Chicabon.

  • Beleza

    Naiana não me deixa em paz. Quer que eu mude de vida. Mesmo sabendo que ando muito sedentário, não tenho o menor interesse de ir à academia. Ela chegou a me levar três vezes. Para mim, que tenho autismo, nível de suporte um, é algo arrasador ter de lidar com aquela multidão de gente descolada, revezar máquina, ter de escutar músicas horríveis – levei um fone tapa-ruído, mas não teve o menor efeito ante a descarga de som eletrônico. Bati o pé e disse, novamente, que não iria mais. “Mas você já tem quarenta e três anos, Alberto!”, vem ela com a sua repetida argumentação. Não sou obrigado a fazer academia, mas, me exercitar, sim. Botei na cabeça de comprar uma bicicleta ergométrica, para fazer exercícios em casa, e me matricular no Pilates. A verdade é que ainda não tive tempo de ir ao Pilates. Sempre as prioridades me atulham, tanto do trabalho quanto da minha vida acadêmica, de pesquisador. Não tenho muito tempo. Ainda dou atenção, de muito bom grado, ao meu filho Albertinho, que agora completou seis anos. Estou consciente de que devo mudar, a “catatonia” tem me colocado cada vez mais no buraco da depressão. Compreendo, agora, que o corpo foi feito para se movimentar, como faziam os nossos antepassados Neandertais, em suas caçadas para se alimentarem. Mas ruim, ruim mesmo, é ter de ouvir as queixas de Naiana, que, segundo ela, dentro de vinte quatro horas sempre há tempo para “treinar”. Não minto quando digo que Naiana é um exemplo. Por ser mãe e trabalhar dois expedientes, é uma guerreira, de quem eu me orgulho bastante. Mas esta semana ela me veio com outra ideia singular, para tirar a minha cara dos livros. Naiana me impôs sete dias de beleza. O que isso significa? Contemplação. Olhar os mínimos recursos naturais e encontrar graça mesmo numa caixinha de fósforo, que Naiana pega para transformar em arte – de fato, uma bela arte, que ela junta para dar ao nosso filho, e assim também o orienta a fazer. Naiana é inventiva, e coloca nosso filho para pensar, o que é grande coisa. Eu mesmo, ocupado com as minhas atividades, tenho feito o trivial para Albertinho, e isso me pesa, pois desejo ser lembrado, mais lá na frente, como um pai participativo e brincalhão. Não quero que meu filho reclame da minha ausência. Por ele tenho percebido o mundo, em suas minúcias, como tem, também, me norteado Naiana… Por último, ela veio com a novidade de pedir que eu olhe o mundo com olhos de criança. Talvez pelo fato de eu reclamar muito da dureza do dia a dia. Falou-me de Manoel de Barros e suas delicadezas. Tenho visto coisas fascinantes. Já não sou mais o mesmo, felizmente. Pequenos gestos me fazem chorar. Naiana tem razão. E agora tenho para mim que serei um simpático ermitão.

  • Menções honrosas

    “O conforto é o pior dos vícios!’

    Essa foi a primeira frase que Mila Cox ouviu ao entrar no apartamento que dividia com seu parceiro musical Zími.

    “Hoje valorizo muito mais a vida que levo e as coisas legais que eu tenho, graças àquele período difícil da minha vida.”

    Ele conversava com o amigo e vizinho, o multiinstrumentista uruguaio Silvano, que era uma banda de um homem só, e fazia apresentações junto dos Crop Circles, projeto musical de Cox e Zími.

    Zími falava sobre o tempo em que viveu em ocupações e pensões decadentes da região central de São Paulo, antes de morar com a parceira musical num apartamento bem mais limpo e organizado.

    Ele falava sem parar, e Mila Cox achava que ele e Silvano estavam cheirando pó. Ela achava ridículo que eles fizessem isso na idade em que estavam. Ambos beiravam os cinquenta anos, e ela tinha vinte e um. Os dois bebiam rum com hortelã e limão.

    Silvano preparava os drinks com a mesma euforia que Zími tinha para falar sem parar. O gringo estava usando uma camiseta com a cara do Gil Scott-Heron que ela queria, mas ele comprou antes.

    E Zími agora falava sobre como sofria com os banheiros coletivos, e principalmente com quartos compartilhados. Morria de medo que esse período chegasse em sua vida, e chegou tão logo deixou a casa dos pais para se autogerir.

    “Eu sei que os ricos são muito piores pra aguentar, mas em qualquer horário que eu entrasse nos quartos sórdidos em que morei, havia um filho da puta dormindo, e eu tinha que me virar sem fazer barulho. Era como pisar em ovos no escuro. No prédio em que eu morava com meus pais, achavam que eu era maloqueiro, e nas pensões e cortiços, pensavam que eu era playboy”.

    Falava sobre como aquele período serviu de escola para ele, quando aprendeu na prática o valor da privacidade, algo que ele já valorizava enquanto tinha alguma.

    Quase chorava ao falar do desconforto em que viveu e sobre o quanto as pessoas com quem conviveu eram clinicamente loucas.

    Sobre banhos frios no inverno, banheiros imundos, falta de grana, brigas entre vizinhos, sobre viver um dia de cada vez por falta de alternativa e de qualquer perspectiva de melhora na qualidade de vida.

    A falta de privacidade era um fantasma personalizado em pessoas vazias, que também os esvaziavam As exceções eram tão raras quanto os dias felizes daquele período.

    Ressaltava a todo momento que muitas vezes sua salvação era saber que tudo podia ficar ainda pior de uma hora para outra. Para ele, isso só seria possível se virasse um morador de rua.

    Convivia com vários deles, pois frequentava diariamente as bocas de rango do centro de São Paulo para economizar o dinheiro do almoço. Ainda frequantava esses lugares com Silvano, como medida de economia e para não se aburguesarem.

    Ele falava sobre medo, e sobre como a coragem significa resistência ao medo, e não a ausência dele.

    Era um período em que Zími havia deixado a música de lado, numa pausa que pensava ser definitiva.

    Ele se dizia impressionado com o quanto a religião era presente naqueles lugares. E não podia falar muito sobre o que pensava sobre o assunto.

    Nas pensões, não dizia a ninguém que era ateu, só para não criar polêmica.

    Nesse momento, Silvano fez uma rara intervenção: “Não nos deixar cair em tentação é o mesmo que não nos deixar ver quem realmente somos.”

    E Zími prosseguiu, dizendo que as pessoas agiam de forma antagônica ao que pregavam.

    “O que tornou a história tão violenta foi a fé nas convicções, e não o conflito de opiniões.” — falou.
    Mila Cox o deixava falar. 

    Ela gostava de ouvir o que ele dizia quando Zími parecia uma metralhadora. 

    Não era exatamente pelo que ele falava, mas pelo modo como o fazia.

    Naquele dia, ela simplesmente gravou o que ele dizia, para depois usar algumas partes em letras de música.

    Depois comentou com ele sobre um cara da vizinhança que conhecia os Crop Circles, e que percebeu a influência da banda Suicide na música que eles faziam.

    “Deve ser um coroa, só por saber que o Suicide existe.” — falou Zími.

    “Sim, ele tem mais ou menos a sua idade.” — Respondeu Cox.

    “Um coroa com bom gosto musical e algum conhecimento. A maioria desses velhos não sabe nada, só ouve esses sucessos instantâneos horrorosos do momento, ou música antiga grosseira, sexista e machista.” — disse Zími.

    “Mas isso vale pra qualquer idade!” — ela respondeu.

    “Sim, por isso nossa vida social é restrita a quem tem o mínimo de decência. Uma andorinha só não faz verão, mas voa sozinha. Tem que ter paciência pra encontrar outra andorinha com cérebro, e aí fazer algo decente pra  um dia ser lembrado na lápide. A minha vida pregressa à formação dos Crop Circles é o exemplo disso.” — ele falou, e agora olhando diretamente para Mila Cox, acrescentou: 

    “Se eu não te conhecesse, apenas a visse no metrô durante uma viagem de quinze minutos, talvez pensaria que você é fria e distante, quando na realidade você é seletiva, pois sabe o trabalho que dá a companhia de uma pessoa não apropriada. O sossego pode sumir, e nenhum prejuízo é maior do que esse. Ter logo tomado conhecimento de que o disco da sua vida é ‘Radio Ethiopia’ também ajudou a saber melhor sobre você.”

    Agora Mila Cox reparou que Zími vestia uma camiseta do Killing Joke que ela ainda não tinha visto.

    Já estava gasta e tinha um furo de brasa de baseado.

    Eles estavam com o computador ligado e havia na tela uma foto do Trump com o curativo na orelha, e Mila Cox começou a imaginar o quão grotescas devem ter sido as piadas que eles fizeram antes dela chegar.

  • Fabulazinha

    O velhinho enfiou os pés na água fria, distendeu os dedos doídos, espreguiçando-os, e saiu um pouquinho de dentro de si mesmo. Foi até ali em frente, no meio do lago, onde um pato nadava.

    Era um velhinho muito velho, com uma barba compridíssima – a pontinha bulindo na água – e branquinha, da cor do pato que deslizava mansamente, mal se movendo.

    As grandes árvores copadas coavam a luz finíssima do sol, restiazinhas de bem-querer.

    O velhinho punha os olhos no pato, navegava com ele no manso lago azul – pensava um menino com roupinha de marinheiro, mas o lago era verde, não tinha céu azul refletido nas suas águas, tinha o verde das árvores, a sombra verde e fresca das árvores nas águas friíssimas.

    O velhinho se sorria do lago que era essa sombra verde e fresca. Sem perceber, se encantava – fazia parte do encanto da paisagem.

    O pato que vinha vindo, naturalmente, aproxima-se do velho, mais perto, pertinho.

    Chega, ergue o pescoço, com displicência, e mergulha. Nada de extraordinário, mas o velhinho fechou os olhos, e era como se o pato mergulhasse nos olhos do velhinho, compondo lá dentro o musgo da sombra, a dança dos feixezinhos de luz, a água calma e o próprio velhinho. O encantamento foi tão profundo que o velhinho não mais reabriu os olhos.

    “Que belezura, mamãe, aquela estátua!” – disse o menino com roupinha de marinheiro que precisava ter entrado na fabulazinha. E apontava o velhinho com a sua barba branquíssima e um pato nos joelhos – o velhinho pobríssimo que esquece a dor do mundo com um pato no coração, e sorri para sempre um sorriso beatífico.

  • Como no Cinema

    De pé na frente do último cinema de rua da cidade, Seu Alírio leu mais uma vez, com vagar, o cartaz que anunciava a demolição daquele edifício. Do seu edifício, hoje mais decadente que ele próprio e tão velho quanto. Aquele lugar tinha sido sua casa por quase oitenta anos e não podia permitir que viesse abaixo sem se despedir. Triste, respirou fundo e entrou.

    Percorreu os corredores escuros já conhecidos de memória, abriu a cortina que dava acesso à sala de projeção e avançou. O ruído estrondoso dos aplausos fez com que encolhesse os ombros, tão pesado era. Olhou em volta e reconheceu os amigos com quem convivera ao longo dos anos. Todos estavam ali por ele, e sorriam, e Seu Alírio lhes devolveu o sorriso, comovido. Não faltou ninguém: os elegantes Rhett Butler e Scarlet O’Hara o cumprimentaram com um aceno de cabeça; Don Corleone, sempre fiel a seus amigos, fez-lhe um gesto gentil com a mão; Norman Bates e sua adorada mãezinha apenas o olharam com discreta admiração; Gilda, a mais bela de todas, tirou as luvas antes de mandar-lhe um beijo com os dedos; o senhor Charles Foster Kane deu-lhe uma piscadela e apontou para Rosebud, encostado num canto da parede, como se dissesse: “Viu só o que eu quis dizer?”; Ilsa Lund, vestida como se fosse viajar de avião pra muito longe, sussurrou: “You must remember this, a kiss is still a kiss…”; a senhorita Mary Poppins veio até ele levitando sobre as poltronas e o conduziu a seu lugar de honra, no centro da sala. As luzes se apagaram, a grande tela se iluminou e Don Lockwood apareceu dançando e cantando debaixo do maior toró que já houve naquela cidade.

    Horas depois, quando as lembranças já não cabiam em sua memória e a saudade iria a qualquer momento fazer seu coração explodir, Seu Alírio deixou a sala, percorreu de volta os corredores escuros e ganhou a rua. Foi devagar para casa, arrastando o peso quase centenário de seu corpo. Ia cruzar a avenida quando um homem baixinho, vestindo um terno preto muito sujo e amarrotado, lhe ofereceu uma flor. Não disse nada. Apenas sorriu, coçou o bigodinho, virou as costas e saiu com seu andar desajeitado, fazendo piruetas no ar com a bengala. Seu Alírio aproximou a flor do nariz e aspirou. Fechou os olhos e compreendeu que a vida pode ser, sim, como no cinema: basta que se acredite nisso. E ele acreditava. Entrou em casa assoviando baixinho a canção Smile.

  • Espectro

    Laura é do tipo cismada e encabulada. Quando quer as coisas, vem logo no colo do pai pedir para que eu resolva. Desde pequenininha é assim, manhosa. No começo, eu aceitava, por ser tão pequena e não ter condições de resolver suas questões. Agora, com dez anos, isso me incomoda profundamente, porque eu mesmo fui criado para me virar por mim mesmo: desde cedo morando no interior, com parcas condições de vida, arranjava trabalho do que se pudesse imaginar. Na idade que ela tem, eu já roçava, capinava, fazia de tudo, só para ter o de comer no dia. Meu pai se debandou com um rabo de saia e deixou uma família de sete pessoas, contando com a minha mãe, coitada, que mal sabia limpar a casa. Mamãe tinha algum problema mental, não diagnosticado – hoje eu entendo porque ela passava o dia zanzando pela cidade e deixava os filhos ao deus-dará. Era uma mulher de poucas palavras. Já eu, jurei sair de casa quando ela estava barriguda de um novo filho; se lhe perguntássemos de quem era, ela não dizia – ou, de fato, não o sabia. Em outras palavras, a situação se complicava dia após dia, e por isso tive de me virar ainda mais. Não fosse meu irmão Airton, teria ficado no interior, só que, como gostava muito de mim – eu era o caçula –, me trouxe junto para a cidade. Ele já tinha mais de quinze anos, podia trabalhar naquela época, e foi ser engraxate no Fórum; acompanhei-o, para aprender o ofício. Logo sabíamos que tínhamos de estudar, e voltamos às primeiras letras. Foi duro, sofrido, mas conseguimos avançar rápido, principalmente com o curso de madureza – como se fosse o supletivo de hoje. Dormíamos de primeiro nas ruas, mas, depois, uma senhora bondosa, dona Rita, permitiu que passássemos um tempo em sua hospedagem, e em contrapartida eu arrumava a casa e lavava a louça, para ela se sentir agradada. Mais adiante, arranjamos um local insalubre para alugar. Era na favela do Dedê, mas dava direitinho para as nossas necessidades. Lá também tive de provar que era homem, mesmo sendo criança, porque um rapaz que morava ao lado queria abusar de mim. Não tive opção: esfaqueei-o com um canivete que tinha. Não deu em nada. Segui a vida no mesmo ritmo, e foi dura a batalha até chegar aqui. Por isso minha preocupação com Laura. Sempre pensei que iria criar filhos independentes, mas Laura veio para me provocar. Semana passada, no restaurante, disse que pedisse o seu prato, e ela quase se recusou a comer. O garçom perguntava, e Laura não respondia, só de birra. Muitos pensam que é uma menina mimada, mas não é nada disso; ela não tem tudo o que quer. Lúcia, minha esposa, deseja que ela faça uma avaliação cognitiva, para saber se isso tem a ver com autismo. De início, não dei bola, mas pensei e vi que tem fundamento. Nossa filha pode ser assim justamente por conta de uma condição inata. Ou seja, não tem culpa. E eu que a forcei tantas vezes a se virar sozinha, fico com peso na consciência. Se for, Laurinha será o resto da vida protegida por mim, fiz essa promessa.

  • Rupestres

    Zími saiu para comprar cigarros e desceu pela escada porque o elevador estava demorando.

    Morava no sexto andar, e quando passava pelo terceiro, parou para pegar, perto da lixeira, um suplemento de cultura do jornal do dia anterior, com a Patti Smith na primeira página.

    O assinante daquele jornal leu apenas o caderno de esportes, que estava desmembrado, deixando o resto dos suplementos intocados.

    Antes de guardar o jornal na mochila e sair, estava lendo uma parte da matéria principal, enquanto havia uma conversa alta naquele andar, dentro do apartamento que ficava mais perto da escada.

    Um cara falou para uma mulher: “Eu me casei com a sua filha só pra destruir o seu marido”.

     Zími morava naquele prédio com Mila Cox havia cinco meses, mas ainda não conhecia todos os vizinhos.  

    Não soube identificar a voz do sujeito, e sem esperar para ver se conseguiria contextualizar aquela fala com o desenrolar do diálogo, desceu o resto das escadas até o térreo.

    Então foi buscar o cigarro e na volta lá estava Mila Cox, sua parceira musical, na sala do apartamento parcialmente isolado acusticamente, em concentração obsessiva para uma missão que ela mesmo tornou árdua.

    Precisavam terminar mais uma música naquele dia, para que a faixa entrasse no split que lançariam com a banda Major Flops.

    O disco teria duas músicas de cada lado, um lado para cada banda, com a duração de um EP.

    Já estavam demorando porque uma das músicas já havia sido gravada antes. Nela Zími apresentou o esboço, Mila Cox concluiu, então foi logo depois gravada num único take concluído ainda pela manhã.

    Na música a ser gravada à tarde, a ideia partiu de Mila Cox, que se recusava a dar a gravação como concluída. Segundo ela, a canção era sobre desinventar tudo o que era desprezível, tanto na música como na vida.

    Tinham sorte por não precisarem pagar em estúdios mais profissionais.

    Zími sabia que quando isso acontecia, a pessoa acaba desistindo sem que considere que o trabalho teve resultado pleno, ou que foi realmente finalizado. Mas para aquela ocasião, havia um prazo que estava por vencer.

    Ele já havia gravado a sua parte de bateria e poderia até sair dali até que ela terminasse, mas ele jamais perderia as coisas que ela falaria ao longo do processo.

    Ela havia dito logo no começo do projeto, que dividir o disco com outra banda aumenta ainda mais a responsabilidade do lançamento.

     Seria a estreia dos Major Flops em disco. Zími gostou do que viu sobre eles, mas nada lhe faria parar de pensar que em alguns momentos havia uma influência exagerada de Cabareth Voltaire.

    Zími gostava de Cabareth Voltaire, mas naquele caso, a semelhança era proporcional à que havia entre o Mighty Lemon Drops e o Echo and the Bunnymen.

    Ele sabia que provavelmente Mila Cox percebeu essa semelhança, mas sabia também que para ela isso pouco ou nada os desabonava, e haveria benevolência com uma banda que estava começando.

    Mas Mila Cox estava furiosa porque Zími escolheu colocar uma cover como sendo uma das músicas dos Crop Circles no split. Ela só admitia isso para lado b de singles, e ainda assim com ressalvas.

    Mas para aquele caso, a música era ‘Fixin to die’, de Bukka White.  

    Zími passou os dias anteriores fazendo carretos com Silvano e também passando horas no Sebo do Messias, e não teve como fazer uma música, mesmo porque Mila Cox combinou esse split de última hora.

    Mila Cox fez a guitarra, que aprendeu rapidamente, ouvindo a música original duas vezes.

    Antes, repudiou a ideia de chamar o guitarrista virtuose que conheciam e que morava no mesmo quarteirão que eles. 

    Ele andava na rua com um estojo retangular da Gibson.

    Mas ele não seria necessário porque era uma música simples.

    A rapidez com que ela gravou sua parte naquela faixa lhe deu confiança e credibilidade para seguir sem chamar músicos convidados, principalmente para a guitarra.

    Ela gostava de tocar e gravar guitarra, mas ao vivo prefere ser baixista e se desdobra até com instrumentos de brinquedo adaptados para preencher a falta de um guitarrista nos shows.

    Já fizeram isso mantes, mas a principal ideia a ser seguida é a de trabalhar com o que há disponível.

    Os dedos de duas mãos eram suficientes para contar os shows que fizeram com participação de guitarristas. 

    Mila Cox não chegava a repudiar esses episódios, mas prefere não falar sobre as lembranças que tem dessas ocasiões.

    Havia algo nos guitarristas que ela conhecia, desde o mais virtuoso até o mais tosco, que parecia travar o processo criativo para compor ou gravar uma música.

    Talvez fosse algo relativo ao ego deles.

    Ela também tinha vontade de ter controle sobre o direcionamento artístico da banda, mas curte fazer parcerias. 

    Zími era importante para não deixar que ela fique eternamente tentando finalizar uma única música. 

    Ele fazia intervenções importantes.

    Os Major Flops eram uma banda de Taubaté, e o baterista é neto da ex- vizinha de Mila Cox no bairro da Penha, onde ela até meses antes vivia com a mãe e a avó, que vivem lá até hoje.

    Fariam um show em São Paulo dois dias depois, e chegariam na cidade no dia seguinte, se hospedando na casa da avó do baterista, que é a vizinha da avó de Mila Cox.

    Os Crop Circles enfim terminaram a música, chamada ‘When monday comes’.

    No dia seguinte iriam buscar os Majos Flops na rodoviária, ao meio-dia, na Kombi do vizinho uruguaio Silvano, que os levaria para a Penha.

    Eram dez e meia, quando Zími, Mila Cox e Silvano entraram no elevador, no sexto andar, onde moravam. Iam para a garagem, sair com a Kombi, a caminho da rodoviária.

    O elevador parou no terceiro andar, e um sujeito incrivelmente parecido com o Brian Ferry entrou e deu bom dia.

    Quando ouviu aquela voz, Zími ainda processava em seu cérebro qual seria a zoeira sobre a semelhança do sujeito com o Brian Ferry.

    Foi quando soube que aquele era o cara que se casou com a filha de alguém para destruir o marido dessa pessoa.

    Mila Cox já saiu do elevador segurando uma risada, e Zími agora pensava que o fato do cara parecido com o Brian Ferry provavelmente ser um canalha merecia ser mencionado.

    Já estavam ouvindo o primeiro álbum do Roxy Music quando a Kombi saía do prédio.

    Na rua, durante a música ‘If there is something’, Zími contou sobre o que o vizinho parecido com o Brian Ferry falou, e ninguém falou mais nada até chegarem à rodoviária.

  • A CULPA

    Não estavam cômodos nem se sentiam confortáveis naquele lugar, mas nenhum dos dois tomou a iniciativa de se levantar e sair dali. Olhavam, cheiravam, procuravam com a ponta dos dedos a origem do desconforto, tudo em vão. Não era a temperatura (que estava apropriada), nem a cor das paredes (que era acolhedora), nem as poltronas (que eram adequadas e anatômicas). A razão não era outra senão eles mesmos. Mas isso eles não admitiam, ainda. Sabiam, no fundo, que quem sentia o incômodo eram a temperatura, as paredes e as poltronas — se tivessem vida e pudessem, sairiam dali e deixariam os dois no meio do nada, até que se consumissem no vazio de sua última respiração e do seu silêncio, como a fruta que apodrece debaixo do sol.

    Eram eles que incomodavam tudo ao redor e, embora soubessem disso, fingiam que não. Eles eram os observados com desdém e até repugnância pelas poltronas e pelas paredes daquela sala, pelas praias ensolaradas do Nordeste e pelas ruas geladas de Londres — onde quer que estivessem, incomodariam o entorno. Nas páginas dos livros que milhões de pessoas leem, há duas pessoas que se sentem desconfortáveis dentro de uma casa e não adivinham a origem desse desconforto. Mas a história impressa nas páginas tem que prosseguir, então eles permanecem como sempre estiveram e fingem que procuram a razão que justifique tanta melancolia. Fingem até chegarem ao ponto de se matarem de ódio e angústia, perto da página 250. Até lá, até esse desfecho trágico, seguirão dissimulando e, em voz alta dirão, na última linha, que a culpa é sempre do lugar, nunca deles.

  • Diarista

    Ana me sensibilizou. Foram só cinco ou seis palavras para ela mostrar a que veio. Num dia gris, apareceu em minha casa. Chamei por intermédio de uma colega, para a qual ela já era diarista e muito bem recomendada como uma “exímia profissional”. À primeira vista, Ana não parecia carente ou necessitada de bens materiais, pobretona – foi essa a imagem preconceituosa que fiz dela e de que me arrependo profundamente. Foi, no entanto, uma surpresa encontrá-la, vista pela janela, com um carrinho velho, mas em bom estado de conservação. Chegou no horário marcado. Veio só e com alguns apetrechos para limpeza, para facilitar o seu trabalho, como um aspirador de pó e vassouras. Pelo visto, ela contava só com os materiais de limpeza que o dono do apartamento devia comprar, como desinfetante, água sanitária e afins. Quando insinuei perguntar se era mesmo diarista, ela, adivinhando, me disse que entrou nas diárias por opção. Já que gostava de limpar a sua casa, preferiu incrementar no serviço e indicar para as pessoas. Simplesmente Ana, ela pede para chamá-la assim. Não adentrei muito em sua vida, deixei que a contasse, se fosse conveniente, se se sentisse em paz para isso. Moro sozinho, com os meus gatos, e acho que também ela sentiu pena de mim. Não há motivo para pena, tentei demonstrar, sem que perdêssemos o rumo da conversa. Estava interessante saber sobre a sua vida – fato é que sou frustrado por não ser antropólogo ou psicólogo, por gostar tanto de saber das histórias das pessoas. Ela me disse que tinha um único filho doente, com síndrome de down e outras complicações, como problemas cardíacos, e que talvez fosse preciso, às vezes, trazê-lo em alguma diária ou levá-lo ao médico… O tempo foi passando e me acostumei ao sorriso envergonhado de Luan, seu filho – além disso, ele não esboçava muita reação, só um certo enjoo à mãe, que o paparicava. Ele não dá um pingo de trabalho, fica sentadinho na sala assistindo à televisão. Ana disse que, quando não está nas diárias, leva o filho à APAE. Que ele adora o lugar, como se fosse a sua segunda casa. Há dias em que Luan não vem, e sinto sua falta. “Por você não trouxe o Luan, Ana?!”. Ela me respondeu que o filho fica uns dias com o pai e outros com sua irmã, também Ana, que ela chama de D’Lourdes. Faz duas semanas que Ana não vem, está doente dos rins, vai precisar ficar em casa e fazer exames, para ver o quadro. Não deixei de passar o valor das suas diárias. Combinamos que, depois, quando isso tudo passar, ela irá repor – mas jamais vou cobrar isso. Fiz assim para que ela recebesse. É muito cavilosa, como minha avó chamava as pessoas escrupulosas demais. Espero que ela venha logo. No apartamento, nos viramos, eu e os gatos; não tenho tanta fixação por limpeza. Só quero que minha amiga volte bem.

  • Seu Paventino

    Seu Paventino, um idoso aposentado e viúvo, não gosta de ficar em casa. Por isso, seu maior passatempo é passar os dias no boteco do João, na esquina de sua casa. Lá ele é figura tão presente que já faz parte do folclore local.

    O maior divertimento de Paventino é abordar novos clientes de João e fazer uma pergunta bem clássica:

    — Quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha?

    Esse senhor possui um ritual próprio. Sai de sua casa assim que o boteco abre pela manhã, vai até a banquinha do Seu Altair comprar o jornal do dia, para depois ir bater ponto na sua segunda morada. Lá, ele coloca o jornal no balcão, pede um chopp gelado e fica a espreita. Quando percebe a entrada de alguém novo, lá vai ele fazer sua pergunta. Se a pessoa responde que foi a galinha, ele pergunta: e quem foi que chocou o ovo? Se responde o contrário, de onde veio esse ovo? Ou seja, independente da resposta, a diversão de Paventino estaria garantida.

    Um dos seus únicos desgostos era não conseguir fazer sua piada com os clientes costumeiros do bar. Como todos eles já conheciam muito bem seu costume, ninguém dava muita bola. Restava esperar por novos alvos.

    Um certo dia, ele fez exatamente tudo igual. Já deviam ser quase três horas da tarde e entrou no bar um senhor de cabelo bem branco, com uma camisa florida, bermudão e papete de couro. Ele logo pediu um chopp. Paventino, então, se aproximou, puxou assunto e indagou se o outro idoso seria capaz de responder uma pergunta. Ele respondeu positivamente. Esse era o momento de consolidar sua alegria e então perguntou:

    — Quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha?

    O senhor parou por poucos segundos (que soaram como horas) e respondeu:

    Os ovos, que são estruturas reprodutivas amniotas, existiam há milhões de anos antes da galinha. O primeiro indivíduo da espécie Gallus, o gallus domesticus, chocou de um ovo posto por um animal de uma espécie ligeiramente diferente.

    Dessa resposta, surgiu um silêncio apavorante no Boteco de João. Todos que ali estavam pareciam olhar para aqueles dois senhores que ali conversavam. Na realidade, o olhar era voltado para o novo cliente que ousou dar aquela resposta a Paventino. Esse, por sua vez, ficou branco, mais branco do que costumava ser e durante um tempo ficou sem resposta. No entanto, não poderia deixar aquilo barato. Sentindo vontade de dar um grande brado retumbante, ele decidiu ser um pouco mais elegante e só falou:

    — Pombas, meu camarada, ciência? Não vem com essa que não quero saber disso não.

    Paventino, então, levantou e foi se sentar em uma outra mesa onde acabava de chegar ao bar um jovem que, provavelmente, veio se refugiar daquele calor infernal que fazia na cidade naqueles dias. Então puxou assunto e fez a pergunta clássica:

    — Quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha?

    E assim se passava mais um dia na vizinhança e no Boteco do João.

  • Negra Lili Marlene

    Negro,

    Escrevo-te estas mal traçadas pra me despedir. Não me culpe, não me leve a mal nem me mande catar coquinho. Fiz, sim, e não me arrependo, e tu sabe por quê? Pra te ajudar, homem. Não faça juízo errado da minha pessoa nem me deseje má sorte, porque isso não vai ser bonito. E depois tu me conhece, sabe que eu não sou dessas, mesmo que pareça.

    Fui embora do cafofo, tu já deve ter percebido que peguei umas mudas de roupa e caí fora. Foi para o teu bem, Negro. Algum dia tu vai compreender todo o tremendo sacrifício que fiz para que tu fizesse sucesso como compositor de samba. Sabe quando tu chega num lugar e todo mundo começa a cantarolar o sambinha que tu fez? Então. Isso tu nunca teve, nunca provou dessa cereja, nunca encostou a língua nesse manjar. Eu te via na dificuldade de inventar uma música para o gosto da comunidade e ganhar algum dinheiro, eu sofria junto de ti, pode acreditar. Então resolvi ajudar te dando um motivo pra ganhar inspiração. Sou boa ou não sou?

    Perdida por ti já fui, que maluca não seria? Tu foi o homem que me deu felicidade, Negro, e isso é coisa que ninguém pode negar. Mas lata d’água já deu, não quero mais. Quero o teu samba, e que tu seja realizado. Faz o teu samba, homem, motivo eu te dou: tua mulher deu o fora. Satisfeito?

    Não pense que te deixei por que ficando do teu lado eu estaria condenada a uma vida de pobreza eterna, e que se eu continuasse no cafofo acabaria me acostumando a comer o reboco das paredes. Não, Negro, não é nada disso, credo! Fui embora porque queria te ver sozinho, triste e abandonado, sem nada ter de teu mais que o violão velho e lascado, porque só assim tu sofreria e conseguiria fazer um samba precioso, e na letra tu falaria sobre a malandra ingrata e cruel, traidora, que só te fez mal. Garanto pra ti que não vou me ofender por isso. Porque o samba só nasce do sofrimento, não é? Então, te faço sofrer pra florescer. Sabe a carta de alforria que o teu avozinho ganhou no passado? Agora sou eu que te dou alforria, Negro. Se quiser, pode me chamar de Isabel, a princesa. Sou a tua princesa que tá te fazendo um bem maior que o mundo, pra que tu conquiste esse mundo mesmo. E agora tu me diz: sou boa ou não sou?

    Ainda, se quiser mais motivo pra incrementar a tua composição, comunico que fui embora na companhia de um cavalheiro que conheci outro dia no Largo da Carioca. Estava vendo vitrine e pensando se aquela saia vermelha ficaria muito justa no meu quadril quando ele se chegou e me disse “Senhorita tão simpática merece ganhar um sorvete duplo de baunilha com morango e um colar de pérolas.” Arrepiei, sabe como? Aí eu respondi “É mesmo? Quero ver se tu não tá mentindo, bonitão de paletó branco. Pode ser framboesa no lugar do morango? Gosto de fruta chique. Tanto calor, não? Ando morrendo pelas tabelas com tanta quentura, Jesus Cristo!” Ele beijou a minha mão e sorriu, o dente de ouro bem na frente. “Evilásio, um seu criado, para servi-la.” Eu não me fiz de rogada: “Marlene, para ser servida.” E beijou mais a minha mão. Escute bem, Negro: beijou a minha mão, igual se beija a mão de uma senhora de respeito. E como uma palavra puxa a outra e as duas lavam as mãos e a cara, no final concordamos que eu iria viver com ele e seria tratada como uma rainha. Sabe rainha? Então. Ele até prometeu me comprar um ventilador pra suportar esse verão, que disseram que esse ano o calor vem pra abrasar a gente. Um ventilador, viu só que luxo? E a francesinha também, toda semana, no pé e na mão. Tu sabe que eu sempre adorei uma francesinha.

    Bota isso no teu samba. Diga que tua negra se vendeu. Não é verdade, mas pode dizer mesmo assim, não levo como ofensa. Não é uma alforria? Eu dei a tua liberdade, Negro. Fala pra todo mundo que eu fui a tua Isabel, te deixei livre pra que tu brilhasse. E agora tu me diz se eu não sou boa. Sou ou não sou boa? Anda, fala!

    Sei que tu deve tá aí chorando as tuas mágoas sobre o violão, e é assim que deve ser: chora tua saudade, tua dor de corno, chora a falta que tu sente de mim. Chora na melodia, molha as cordas do teu instrumento e tira daí a canção mais linda, aquela que te fará famoso. Tu consegue, o motivo tu já tem. Depois descansa e pensa na tua Negra. É assim que tem que ser.

    Adeus, Negro, não jogue a culpa em mim e pensa que tudo o que fiz foi pra que tu conhecesse um pouco de sucesso com uma canção contra mim, contra a tua Negra… Falando mal de mim, ah, que bonita vai ser tua música! E cuida de pagar o aluguel pro seu Vicentino, senão vem ordem de despejo e ele te tira do cafofo. Tem dois meses de atraso, o terceiro ele não deixa passar. Tu não quer morar embaixo do viaduto, quer? Te manda um beijo e um abraço esta companheira que é capaz de tudo pra te ajudar.

    Negra Marlene (agora Lili)

  • Melancolia

    A melancolia me invadiu e fez morada – há tempos, desde que me entendo por gente. Pequeno, ainda, me apegava a objetos desimportantes e canções tristes, principalmente, que me levavam ao processo de reflexão. Não participava da maioria das brincadeiras que meus amiguinhos brincavam no colégio. Colecionador, mantinha intactos álbuns de figurinha e ficava lendo e observando cada uma delas na hora do recreio. Tinha, por isso, todas as mais raras, que eram objeto de troca, literalmente, somente para dar aos coleguinhas mais chegados a figura que lhes faltava. Uma vez meus pais viajaram com meu avô materno, para Uruguai, Argentina e Paraguai, em um passeio muito realizado à época, pela empresa Soletur, de ônibus, que saía exatamente do Rio de Janeiro com direção ao Sul do País e adjacências. Não conto as vezes em que chorei amalgamado às perturbações e tristezas provocadas pela solidão e abandono. Não entedia que meu pai e minha mãe fossem voltar. Minha avó, já idosa, não dava muita bola, mas me deixava escutar as canções que passavam no rádio. Uma bem famosa era Hunting High and Low, do a-ha, que me fazia chorar em desabalada desesperança. Talvez por isso, na vida adulta, tenha me apegado às músicas desse gênero, que trazem uma dorzinha no coração, como as da banda Toto também. Para falar mais sobre a melancolia, devo dizer que não me esqueço das palavras do poeta João Cabral de Melo Neto, que dizia ter a melancolia entranhada – e parece que já se acostumara com isso; relatara o fato a seu psiquiatra, que já não sabia o que fazer. De fato, com o tempo, aprendi, a partir de estudos aprofundados, que a melancolia é diferente da depressão. Na Psicanálise, a depressão é a perda da experiência, do desejo, da vontade, enquanto a melancolia é possuir um corpo sensível muito aguçado, para o bem ou para o mal. Mas não vim aqui falar de teorias. As pessoas não entendem que nasci assim, e que não é culpa minha ser melancólico. Já perdi amizades por isso, pela minha introspecção, por não entenderem que não estou sempre à disposição, que tenho meus momentos de angústia e solidão, necessários à minha sobrevivência. Quando criança, fui tido como depressivo e, pasmem, “um projeto de homossexual”, dada a minha hipersensibilidade. Nunca liguei. Coisa de gente pequena. Meu pai mesmo comprava revista de mulher pelada para um menino de cerca de dez anos e me dava, para me “divertir”; sem nem eu saber o porquê disso. Descobri tantas coisas, como a minha capacidade para as Artes… E não há nada que me impeça de viver da minha forma, neurodivergente, pois que, além do mais, sou autista, nível 1 de suporte. Levei tempo para me acostumar comigo. Agora quero ser feliz assim.

  • Ímpios

    Zími e Silvano tinham várias piadas sobre o fato de Mila Cox às vezes pensar em inglês.

    Quando criança, ela conviveu bastante tempo com sua tia Sara Cox, que havia morado muitos anos na Inglaterra, depois de viver a juventude numa casa proletária no bairro da Penha.

    Sara tinha ido para lá aos dezoito anos, para estudar. Seus pais economizaram dinheiro por muito tempo para que isso fosse possível, assim que ela atingisse a maioridade.

    Então casou-se com um inglês funcionário de pub para viabilizar uma permanência mais longa no país.

    Sara foi fundamental na educação musical da sobrinha. Foi quem lhe apresentou os discos que vieram a moldar o gosto musical da garota. Estava à frente do tempo das outras pessoas de sua família.

    Previu que o futuro seria de luta e resistência contra a barbárie fascista.

    Conversavam em inglês, e Mila Cox, ainda criança, aprimorava o entendimento do idioma traduzindo as letras das músicas que ouvia.

    Sara dizia para a sobrinha que muitas pessoas se irritam com aquelas que adotam padrões de vida mais individualizados. Sentem-se insultadas, humilhadas e reduzidas a seres ordinários.

    Já naquela época, Mila Cox já pensava que a falta de uma resposta definitiva parar o sentido da vida era algo a ser encarado como liberdade  Não havia a pressão e nem a tristeza de um futuro pré-decidido.

    Certa vez, ouviu da tia que a vida é uma longa preparação para algo que nunca acontece. Diversas vezes ouviu também que a utopia é algo que está sempre no horizonte, e que se afasta à medida que avançamos, e que serve justamente para não ficarmos parados no mesmo lugar.

    A tia lhe contava coisas do século vinte, fazendo comparações com fatos ocorridos no presente. Sempre lembrava que também há riqueza potencial naquilo que não precisamos ter.

    Havia uma foto das duas na sala do apartamento que Mila Cox dividia com Zími. Mila Cox tinha quatro anos, e Sara tinha vinte e oito.

    A tia usava uma camiseta do Television, que dizia ser melhor que Talking Heads. A sobrinha nunca havia chegado a nenhuma conclusão sobre isso, e gostava igualmente das duas bandas.

    Então, em 2024, com vinte e um anos, ao saber da morte de Wayne Kramer pela internet, Mila Cox disse: “Oh fucking god!”, na sala do apartamento que dividia com Zími. Ele e Silvano estavam presentes.

    Os dois sabiam que se tratava de algo sério, e portanto fizeram as piadas antes que ela contasse o ocorrido.

    Enfim, ela contou e foi feito silêncio por trinta segundos.

    “Caiu mais um pilar de resistência. Tinha sonoridade e atitude.” – disse Zími.

    “Pelo menos ele teve uma longevidade razoável para a vida que levou, e provavelmente terá mais sossego agora do que teve em vida. E fica o legado. Falava para as ruas, era mais próximo da nossa realidade, mesmo em outro país e em outra época, diferente de gente que fazia parte de bandas que tinham aviões, falavam de escadas para o céu e tinham contas bancárias milionárias. Medalhões que eternizaram sua obra e estão com idade muito avançada, ou mortos. “– disse Silvano, que é uruguaio mas não tem sotaque, porque vive no Brasil desde muito criança.

    “Ainda esse ano cairão outros pilares, entre eles, medalhões que no nosso imaginário pareciam eternos. Pessoas que quando eu era moleque já estavam consolidadas na carreira, com grana e que há algumas décadas causavam em mim um sentimento que beirava a inveja. Hoje, alguns ainda são milionários, mas estão no fim da vida. Deve ser triste para eles, porque para esse caso o dinheiro não é solução” – disse Zími.

    “A melhor idade é estar vivo. Os próximos pilares a cair podem ser até mesmo vocês, isso seria devastador pra mim. E apesar de eu ainda ser jovem posso ser eu a próxima a morrer, sabe-se lá como. Nesse ponto estamos todos nivelados. Viver contra a existência de música marqueteira popularesca é uma boa causa.” – disse Mila Cox.

    Dias depois, quando ela escrevia uma música sobre tabus que oprimem a sexualidade feminina, souberam da morte de Damo Suzuki.

    A tristeza foi ainda maior, especialmente para Zími, que o tinha como exemplo, quase como um guru artístico. Ele havia presenciado um show de Suzuki em São Paulo, já em carreira solo.

    Agora que moravam na região central, viviam perto do local onde aquele show aconteceu.

    Na ocasião, Zími havia ficado surpreso com o número de garotas presentes na platéia, o que só fez aumentar sua admiração por esse artista magnífico.

    No dia da morte dele, os três reouviram discos do Can, antiga banda de Damo Suzuki.

    Durante a audição, Zími fazia anotações num caderno, para depois editá-las e transforma-las em alguma música nova para o projeto musical Crop Circles, que mantinha com Mila Cox.

    Ela, que à noite ficou embasbacada ao saber que um censor da ditadura brasileira chegou a emitir um mandado de prisão para o filósofo Sófocles, pela autoria da peça Édipo-Rei, escrita cerca de quatrocentos e vinte e sete anos antes de Cristo, e que seria encenada naquele período, no Brasil, caso a censura liberasse.

    Pensou então na maluquice que seria viver num tempo em que teria que enviar suas músicas para censores completamente senis, reacionários e ignorantes, sabendo que nenhuma delas seria aprovada para lançamento.

    Sem contar as outras dificuldades. O alto custo de qualquer gravação feita na época, além da absurda falta de informação, por conta da censura à imprensa e a outros artistas da época, e isso somado ao fato de que muitos discos internacionais relevantes não eram lançados no Brasil, e quando eram, custavam caro.

    Foi logo trazida à realidade de seu tempo por Zími, que insistia em dizer que sua vida jovem no último quarto do século vinte foi uma experiência nada saudosa, ao mesmo tempo em que tinha sérias críticas e restrições ao primeiro quarto do século vinte e um, em que a informação abundante e fácil formou uma geração fútil, que não lê, ouve músicas ruins e tem uma vida social debilitada pela tecnologia.

    Para Mila Cox, Zími e Silvano, a tecnologia trazia benefícios e algumas desvantagens.

    Assim como a tia de Mila Cox, tanto Zími como Silvano. falavam para ela coisas do século vinte e faziam comparações entre o presente e o passado.

    Ela ouvia muito deles também sobre o fato dela ter nascido no século vinte e um. Ela aprendia com eles o uso de recursos primitivos em casos de emergência. Coisas do século passado, que eram corriqueiras.

    Já sabia o que era gambiarra antes que conhecesse a palavra.

    Tinha a vantagem de considerar desde sempre que todo o Rock da segunda metade do século vinte foi criado em condições gerais que não mais se aplicavam.

    A convivência com gente mais velha também lhe ensinou que sempre há um limite além do qual a tolerância deixa de ser uma virtude.

    Então foi à padaria e a televisão estava ligada num programa popularesco da programação aberta.

    Viu uma pseudo celebridade do momento, que ela não sabia porque tinha fama, e muito menos qualquer motivo decente para que aquele retardado tivesse espaço na televisão aberta, falando para milhões de pessoas.

    Falava  de si na terceira pessoa, e era ainda mais jovem que ela.

    Mila Cox lembrou mais uma vez de sua tia Sara, que desmistificava para a sobrinha, desde cedo, a fama e os meios de comunicação convencionais, que apresentam conteúdo capaz de convencer milhões no rebanho humano, deixando a grande massa retardada  e facilmente manipulada.

    Matando uns aos outros por motivos de fé cega em coisas sobre as quais nada sabem., especialmente o charlatanismo religioso ao qual estão sujeitas, futebol, política e música.

    Ela tomou uma cerveja e ficou olhando a televisão e os circunstantes à sua volta.
    Saiu e foi comprar cerveja no mercado antes de voltar para casa, pois era mais barato.

  • Maria Mercedes se olha no espelho

    Nunca tinha ido à escola e se envergonhava quando perguntavam se sabia ler e escrever. Respondia Não e mudava de assunto. Agora, aos sessenta anos, começou a aprender as letras nas aulas noturnas da escola municipal. Saía da casa de dona Elza deixando tudo pronto: as panelas e o chão brilhando, a comida do jeito que a patroa gostava e a roupa passada. À noite, na escola, escrevia bem devagar o que a professora ditava, passando a língua nos lábios enquanto a mão desenhava as letras maiúsculas e minúsculas de seu nome: Maria Mercedes. Afastava os olhos do papel, entortava a cabeça para olhar por outro ângulo e dizia, satisfeita: Esta sou eu.

    Aprendeu também a escrever o que costumava ver todos os dias: mesa, panela, chão, comida, gato, copo, água, vassoura, feijão, menino. E já não sabia que outra palavra escrever, até que lhe ocorreu uma: espelho. Aprendeu a escrever espelho e olhou a curva de cada letra. Leu uma e outra vez em voz alta e ficou olhando a palavra, olhando e olhando. Admirou-se de não se ver refletida nela. E por que não se via naquele espelho escrito, se tudo o que escrevia antes certamente via? Quando rabiscou barriga, viu a dita cuja no filho lombriguento, e disso não tinha dúvida. Encafifou. Pensou que era porque ainda não sabia escrever muito bem e que, quando soubesse à perfeição, veria tudo o que quisesse, bastaria escrever. Se não fosse assim, que vantagem teria aprender a ler e a escrever?, perguntou. Ninguém na classe respondeu. Fizeram silêncio, como se Maria Mercedes tivesse dito algo estranho. Como se ela olhasse para um espelho e, feito um milagre, de repente se visse.

  • O Sol

    A fluidez da manhã me capacita a digressões. Ainda me espanto e me encanto com o nascer do sol. Sinal de estar vivo. Sinal de uma tal de esperança que ainda vive em mim. Vou tomar uma medida para ser, sempre, amante do sol – desta feita, rigorosamente, como um penitente eterno. Apreciar, tomar o meu bom café, calmamente, para, só assim, encarar as profundezas do dia. Lorena não tem me deixado escapar da fadiga do dia como desejaria. Ela acorda tarde – e reclama de insônia –, e é um auê para arrumar o nosso filho. Portanto, como bom apreciador do nascer do sol, acordo invariavelmente às cinco da manhã. Já é o relógio biológico ativado que me desperta, não dependo, portanto, de apetrechos maquinais. Carlos Augusto volta e meia acorda mais cedo que a mãe e quer assistir à televisão, antes de ir ao colégio. Faço uma merendinha rasa, para que não fique morrendo de fome – já que a merenda do colégio é às 10h –, e o pobre infante não dá bola ao Sol. Fico chateado. Tento entretê-lo com a beleza do raiar do dia, mas ele, já com oito anos, diz que isso é besteira, que o dia nasce todo dia, e por isso não há nada de novo e interessante. Lorena, quando quer me irritar, inventa um exame pela manhã, e temos de sair aos sopapos cedo de casa. Semana passada fomos eu e o Carlos Augusto fazer um bendito exame de sangue. Não que isso atrapalhasse completamente a minha sanha de ver o Sol, mas o via de relance, sem o contemplar, e isso me aborrecia profundamente. Lorena, às vezes, só para me chatear, diz que eu preste atenção ao volante, que eu tenho filho e mulher para criar. Verdade seja dita, fico abobalhado, mas não amalucado. São duas coisas completamente diferentes. Mas o melhor dos mundos é quando pego Luna, a nossa labradora, para passear pela manhã. Tenho preguiça, gosto de acordar levemente como o Sol, mas, para agradar a minha bela cachorrinha, vou pelo menos três vezes na semana passear pela manhã com ela. Isso varia, também, pela tarde, no pôr do sol. Mas o pôr do sol é difícil para mim, porque ainda estou voltando do trabalho, e, por vezes, tenho de quarar na janela do carro vendo o Sol “se amostrar”. Já me chamaram de doido e de bestalhão – Lorena, principalmente. Ela, incauta, pensa que fé é só para os santos e congêneres. Não, me apego ao Deus Sol, como os Maias e tantas outras civilizações. O Sol é o meu Deus, e não há de se questionar, porque não existe explicação que me faça demover disso. Quando o Sol se deita, irradia beleza – uma luz que, ao se apagar, lentamente, se expande – e eu me abro às facetas de uma bela vida. Não me distraio muito, admiro, para melhor saber da sua sina; sobre o que ele tem para mim. Acredito no sol para acreditar em tudo que há.

  • Marinhas de Vinna

    Tábuas e pincéis compondo perspectivas de azuis caminhos nas águas de Mina. Walls and bridges interrompendo os verdes dos juncos, ao redor de paisagens recuperadas. Cavalos a toda brida nos levam a estreitos caminhos cavados nas encostas dos morros: paisagens nórdicas, mineiras e paulistas equivalem-se no absoluto do mundo, afinal diluído em contornos de magia, de luz e sombras em meio aos destroços do navio, como se a vida fosse isso – árvores de frio, anjos com substância de crianças, orquídeas de vidro, estampas de pátinas brilhando à sombra dos mistérios e pássaros de lata despertando Maras. Fileiras de peixes nas trilhas do universo e os sinais e os signos que saltam ao chamamento das águas. Estenografia de códigos rompendo o silêncio e o diário de Jonathan esquecido nos caixotes do castelo de Mairiporã. Nada afinal daquilo que fosse submerso, subterrâneo: tudo dista. A esperança atravessou a quilha e não encontrou nada além da terra nativa pulverizada de cinzas e os fantasmas. E parecia simples seguir o diário de bordo. O capitão já estava morto e amarrado ao leme. A meia linha inteira que nunca se concretiza. O camarote, o beliche e aquela escotilha que nunca se fecha de noite, as vagas do mar bem dentro, o meu esforço supremo de escrever e o ateliê de sensibilidades de Vinna.  

    Uma Escada que Deságua no Silêncio

  • Urubu de pelúcia

    Mila Cox já nasceu em revolta contra o machismo e o racismo que via em muitos homens mais velhos e em muitos de seus contemporâneos.

    Ela praguejava ainda mais quando se tratava de pessoas mais jovens que ela, nascidos no século vinte e um, e com mentalidade tosca e medieval.

    Cox diz que apesar da obrigação de morrermos menos estúpidos do que nascemos, essa lógica parecia não se aplicar entre muitos jovens, na proporção devida.

    Exceção feita a Zimi, seu velho amigo e parceiro musical, esse era um problema recorrente na sociedade.  

    Conheceram-se através de Sara Cox, prima de Mila, pois Sara e Zimi estudaram jornalismo na mesma classe da faculdade.

    Zimi, apesar de já ter feito muito merda na juventude, era agora um exemplo de conduta para Mila Cox.

    Ele, tão criticado por uma inadimplência bancária que por décadas pareceu crônica, mas que foi superada por meio do desapego, quando vendeu a casa em que morava, herança de sua avó, para viver de renda, quitar a dívida no banco, comprar uma parte do sítio das Cox e morar numa quitinete alugada em São Paulo.

    Mila Cox era baixista e Zimi era baterista, e juntos atendiam pelo nome de Crop Circles.

    O sobrinho de Cox veio conversar sobre uma redação que precisava entregar no colégio, sobre sustentabilidade libertária, tema escolhido por ele mesmo, já que o professor passou a tarefa com o tema livre.

    Era um tema que o garoto conhecia satisfatoriamente para escrever sobre, porque era algo aplicado por sua tia e por Zimi, especialmente quando eles estiveram em quarentena durante a pandemia, no sítio que tinham em Itapecerica.

    Mila Cox desde criança já era tia. E mesmo sabendo que era jovem e aproveitando gloriosamente essa condição, ainda assim era tia.

    Ostentava, em sua cabeça, uma posição hierárquica superior, mas não opressora, na relação de parentesco  com o rapaz, sobretudo pela necessidade de não permitir que o jovem seguisse a cartilha machista que lamentavelmente ainda era seguida por alguns familiares.

    No entanto, era preciso ter cuidado para não se colocar naquela posição de soberba que tanto desprezava.

    No mesmo dia em que soube do trabalho escolar do sobrinho, resolveu escrever uma música sobre um dia do futu,ro em que ela estaria mais velha e tocando num festival europeu ao ar livre, numa tarde de sol, bem antes dos shows das novas atrações musicais desse período vindouro.

    Essas  atrações contemporâneas tocariam à noite, e os Crop Circles agora estava ali só para assistir e tomar umas bebidas atrás do palco.

    Ela havia sonhado com isso na noite anterior e gostou do sonho.

    Ela e a banda (na verdade era um duo formado por ela e Zimi, e que contava eventualmente com a participação de algum guitarrista em shows ao vivo) estavam escalados como coadjuvantes veteranos para o festival, embora tivessem prestígio de banda ‘cult’ na comunidade indie de então.

    Um sonho que lhe renderia viagens que jamais pagariam com um emprego comum de escravo assalariado.

    No sonho, sua aceitação entre os indies europeus do futuro, munidos de estrutura para um evento memorável, fariam finalmente com que a vida valesse a pena. 

    A partir daí, gostaria de se tornar um ser inorgânico, um espírito livre.

    Em contrapartida, o anonimato entre o grande público na vida acordada também podia ser vantajoso. Poder andar nas ruas sem serem abordados por quase ninguém (pelo menos no que se refere a tocarem em uma banda) era bom.

    Na vida real, quando ela ganhava algum dinheiro como copywriter, guardava um terço. pagava as contas com o segundo terço e gastava o resto.

    Os festivais europeus do futuro a encontrariam madura e entendendo que o envelhecimento é uma consequência dura e implacável, que demanda a busca de uma trajetória digna, de preferência com algum legado autoral.

    Mila Cox fez o trabalho escolar para o sobrinho e ainda não havia escrito uma linha sequer da música a que havia se proposto a fazer.

    O sobrinho pediu que ela fizesse o trabalho, pois estava ocupado gravando uma música, como uma monobanda. 

    Alegou que a ideia sobre o trabalho já estava cristalizado em sua mente, mas a música em que trabalhava ainda estava em desenvolvimento.

    Ele exercitava tal modalidade há algumas semanas, tendo um single gravado, sob o nome de Cox.

    Afirmou que Brian Wilson era futurista quando apostava na longevidade da sua obra, e que isso demandava tudo, principalmente tempo, e ela entendia o porquê.

    Para ela, enfatizar o que parece óbvio era um ingrediente na receita de hits.

    Uma receita que muitas vezes pode dar errado.

    O erro, nesse caso, nada tem a ver com sucesso ou fracasso comercial, mas sim poder ouvir a música anos depois sem ter vergonha de ter gravado.

    A consciência da finitude pessoal também é algo que apesar de óbvio, muitas vezes não é assimilado, mencionado e aceito. É algo, que no entanto deve ser levado em consideração caso haja a intenção de criar algo mais duradouro do que o autor.

    Mila Cox, que nos primórdios de sua banda, também teve em seu embrião uma fase dela como monobanda.

    Ser tia do estudante que ganhou fama de nerd com um trabalho feito por ela era bom.

    Ela sabia que o sobrinho realmente tinha conhecimento sobre o conteúdo do trabalho, antes mesmo de ter aceito a incumbência de fazê-lo.

    O garoto alegava que exercitaria seu poder de edição numa canção sua que lhe seria bem mais exigente do que escrever sobre uma ideologia que já havia assimilado.

    A tia, em troca, prometeu jogar duro na avaliação da música.

    Era uma responsabilidade, pois o sobrinho sabia que carregaria aquelas palavras para o resto de sua vida artística.

    O que lhe preocupava era saber da importância da dosagem de confiança que se deve imprimir numa empreitada como aquela, e  não era o caso de estar abusar dessa confiança naquele momento.

    Se a tia tivesse acesso ao rascunho que existia da música até então, saberia quem ele estava tentando plagiar. 

    Havia, portanto, uma parte significativa da música a ser feita.

    Ele precisava apenas distorcer o que parecia óbvio com outra influência que fosse obscura a ponto de sua menção como influência se tornasse exagero, tornando o produto final aceitável no que diz respeito à originalidade.

    Tentaria aplicar a fórmula de um hit, mas sua equação para isso era mais complicada do que os padrões de produtores clássicos.

    Envolvia camuflar influências, que apesar de soarem óbvias para sua tia, pesando negativamente em seu critério de avaliação.

    Mas confiava que se safaria alegando plágio involuntário, na pior das hipóteses.

    Ele lembra de ouvir a tia praguejar os piores horrores sobre os artistas que desprezava, e sabia o quão doloroso seria ouvir aquilo sobre sua própria criação artística.

    Ele havia escolhido o nome da família para batizar o projeto, o que também pesaria na avaliação de sua tia.

    Acabou por fazer um trabalho satisfatório, mas não escapou da observação de Mila Cox, que comentou que a música parecia uma mistura de Brian Eno com a primeira fase do Ultravox.

  • Sobre Ester

    Tarde de sexta-feira. Dia dos namorados. Leve frio de começo de junho, nesse clima nunca radical do Estado do Rio, sudeste do Brasil, sul da América, entre os trópicos. Ponho roupa preta, acabada com meu paletó, preto, alemão, de fino corte. É meu único paletó, usado em ocasiões especiais apenas – e, na maioria das vezes, nem nestas. Saio então pelas ruas. Chuva fina. Abro meu guarda-chuva e vou, fugindo das rodas dos carros nas poças. É uma tarde triste. Mas não estou triste, embora meu estado seja, digamos, solene. Meu último encontro com Ester foi na quarta-feira, na casa dela. Naquela tarde, por horas eu a ouvi em seu lindo quartinho branco, com flores e listras verde claro.

    Não estávamos sós, eu e Ester. Éramos quatro naquele pequeno cômodo que mais parece um pequeno templo: eu, dois amigos e ela. Um dos amigos fazia as perguntas. Outro apontava sua câmera de filmar fixada em tripé. Eu apontava também uma outra câmera, também num tripé, mas com movimentos de ida e volta nos detalhes do corpo de Ester, que estava sentada numa confortável cadeira. Imagens em ida e volta, zoom e não-zoom. Detalhes das mãos que não paravam de gesticular, com braços que moviam-se pela emoção daquilo que ela nos falava, terminando em um dedo em riste. Detalhes de sua boca com honrosos dentes amarelados. Detalhes de seus olhos expressivos por trás das lentes que refletiam, às vezes, e de forma mal calculada por nós, a luz difusa de um refletor. Seus cabelos brancos, suas rugas impregnadas de história e poesia, dor e cultura. Cultura poderia ser o nome dessa mulher. Uma mulher, espantosamente, não-triste. Na quarta-feira eu não estava com meu paletó preto.

    Só que hoje meu novo aguardado encontro com Ester seria apenas virtual. Marcamos às quatro na casa do amigo, a fim de dar uma primeira olhada nas imagens captadas na quarta-feira. Ester na tela. Ela ficou bem na tela. E o que ela faz na tela do televisor não pode ser feito por qualquer mulher. Ela nos conta sobre sua infância no Egito, sobre sua vida. Ela nos fala sobre morte. Sobre a morte de parentes ante a foice do nazismo na Alemanha. Sobre a morte do pai – a qual presenciou. Sobre sua passagem na Inglaterra, por Oxford, se não me engano. Reclama que na escola primária, ainda no Egito, as crianças aprendiam “apenas” três idiomas, e que o resto ela teve que aprender sozinha. Ela tem muita história pra contar. Muita. O muito que nos conta, vira e mexe é arrematado com um sorriso maravilhoso – não que ela seja de rir à toa.

    Em nossa frente fotos que ela deixou em nosso poder, para serem digitalizadas. Muitas fotos em preto e branco, evidentemente, de pessoas em sua maioria mortas. Algumas delas mortas em circunstância que não é difícil imaginar. Acho que não me convém – nem a mim e nem a ela – entrar em detalhes agora.

    O que conto é parte da pré-produção do documentário que começa a ser realizado numa parceria entre eu e meu amigo Elano Ribeiro, e com a valiosíssima colaboração de um novo amigo, Janér Baptista. Esther (sim, com “h” no meio) é o verdadeiro nome de uma incrível senhora que conhecemos, a qual nos oferecerá, para um novo projeto, a matéria prima: ou seja, o “livro aberto” de sua vida. De família Judia, nascida no Cairo, formada na Inglaterra, Esther é uma mulher brasileira com oitenta e seis anos. Uma cidadã do mundo. As nuances do mundo de Esther, só poderão saber aqueles que assistirem ao trabalho pronto, que pretendemos entregar ao público ainda este ano.

  • Para que a chuva deixe de doer

    Se naqueles dias de aguaceiro eu tivesse uma corda, e se eu não fosse pouco mais do que uma criança crescida, e se eu pudesse e tivesse coragem, amarraria minha mãe na cama e lhe daria uma surra para ver se ela parava de chorar e de gritar de dor. Quando chovia, os ossos de minha mãe latejavam e ela ficava louca. E me enlouquecia também. Mas eu não tinha uma corda.

    ***

    E agora, quantos dias me aguentando? Demasiados. Já são onze dias que chove sem parar, onze dias de confinamento. Devo ser muito resistente, só pode ser isso. Mas sinto que estou próxima do meu limite. E aqui nesta casa não há ninguém que me ajude. Estou sozinha. O que necessito é deixar de sentir dor. E que pare de chover. Olho o chão do corredor à minha frente, penso num poema para me distrair:

    tábua
    irmã gêmea de outra tábua
    assoalha
    todas as tábuas dão-se as mãos de madeira
    e assoalham
    uma casa inteira

    Onze dias! É a primeira vez que aguento tanto tempo sem chorar. Talvez pudesse aguentar um dia mais: doze. Será? Acho que não. Tudo me pesa e dói: a infância — a lembrança da infância, quero dizer, porque já não sou mais criança —, minha mãe, que enlouquecia de dor em dias assim molhados, meu pai, isolado em sua cabana perto da lavoura em que trabalhava e sempre alheio ao que se passava na casa, minha irmã mais velha — e muito mais esperta, porque soube dar o fora no momento certo —, e esses onze dias com suas onze noites de água.

    É difícil acreditar que uma cidade e seus habitantes possam suportar algo assim: onze dias de chuva ininterrupta, obrigando as pessoas a se encerrarem em casa, quando o que elas mais necessitam é sair para trabalhar, para estudar, para fazer negócios, para tocar a vida. Mas a chuva tem linguagem própria e escreve sua história como bem entende.

    Vejo pela janela embaçada alguma gente corajosa e seus guarda-chuvas no meio das poças, amaldiçoando o céu por despejar tanta água. Vejo uns poucos moleques pulando os charcos, vejo três ou quatro automóveis passando pela rua e espirrando água para todos os lados. Vejo a rua transformada em rio, cortando a cidade com sua correnteza e arrastando consigo lixo, coisas soltas, animais mortos, a paciência e a capacidade das pessoas de aguentarem esse aguaceiro bíblico.

    Já suportei muita chuva, mas nunca uma igual a essa. Onze dias! De verdade, não posso mais! Além disso, meu cabelo eriça com a umidade, pareço um leão alucinado querendo meter os dentes na primeira presa que passe pela frente. Não há nada capaz de domá-lo, alisá-lo para eu parecer ao menos uma pessoa normal, com quem se possa manter uma conversa comum sobre qualquer assunto. Não há normalidade possível quando chove dessa maneira.

    ***

    Minha mãe se desesperava com a dor nos ossos por causa da chuva. Uma dor que brotava de dentro dela mesma e a enraivecia e quase a cegava. Ninguém em casa sabia o nome dessa enfermidade. Para saber, era necessário dinheiro, coisa que não tínhamos. Dinheiro para ir a um bom médico e ouvir dele do que padecia minha mãe quando chegava a temporada das águas. Sabíamos que era uma coisa muito ruim. Se soubéssemos o nome da enfermidade, iríamos providenciar um remédio, um calmante para acabar com seu sofrimento. Mas não sabíamos o nome.

    Doía. Mas não doía só nela, doía em mim também. Não doía em minha irmã mais velha no tempo em que ela morava conosco. Não sei dizer se agora dói, já que nos abandonou e sabe-se lá por onde anda. Com o meu pai posso garantir: ele não sente nada, nem poderia, sempre carrancudo e preocupado só com suas coisas. Quanto a mim, digo: doía muito, doíam os ossos, o coração e o corpo inteiro junto com minha alma. Acho até que a chuva doía mais em mim do que em minha mãe. Ainda dói.

    ***

    Quando minha irmã chegou à maioridade, pediu à mãe e ao pai que a deixassem estudar na capital. Queria ser professora. Dizia que, quando tivesse o diploma, voltaria para ensinar as crianças da cidade. A professora Cris. Porque minha irmã se chama Cristiana, mas ela gosta que a chamem Cris. Se ela tivesse ficado em casa e não tivesse usado todo o dinheiro da poupança para se tornar professora, estaríamos agora juntas e nossa mãe teria chance de ao menos conhecer o nome de sua doença. Mas não foi assim. Cris partiu e disse que voltaria já formada e pronta para trabalhar. No começo mandou cartas, tenho todas até hoje e de vez em quando leio. Depois parou, não enviou mais nada, nem um presente. Não soubemos mais dela. Às vezes acho que morreu, mas só penso nisso quando quero desculpar minha irmã por ter nos abandonado.

    Cristiana recebeu o mesmo nome do pai. Um nome como herança de família.

    ***

    Meu pai se chama Cristiano, mas ele não gosta que o chamem Cris. Ele argumenta: Cris é minha filha, não eu. Trabalhou a vida inteira na lavoura e passava pouco tempo em casa. Não o vi envelhecer, e ele não me viu crescer. Tinha uma cabana perto da plantação de trigo e de milho e sempre ficava lá quando anoitecia, depois de podar a plantação e rastelar as folhas secas. Voltava só no dia seguinte. Gostava de estar perto de suas coisas. Era assim que a vizinhança se referia ao trabalho do meu pai: Cristiano, como vão as suas coisas?

    As coisas de meu pai eram sua lavoura e sua cabana no meio do mato. Não eram minha mãe e eu nem as nossas dores nos ossos.

    Meu pai gostava muito da Cris, mais do que de mim. Gostava dela antes de ela nascer, por isso a batizou com seu próprio nome, um nome digno, segundo ele. Era a herança de família que a filha mais velha carregaria enquanto vivesse. A mim ele batizou Maria. Não havia outra Maria na família. Meu nome não era homenagem a ninguém. Quando Cris foi para a capital e deixou de mandar cartas, meu pai quis ir até lá e trazê-la de volta, mas não foi. Ele não sabia como ir. Tentou pegar o trem, mas ficou com medo de se perder e desistiu. Foi para a cabana do mato. Permaneceu lá vários dias, não sei quantos, talvez onze, lidando com sua solidão. Como eu agora, há onze dias encerrada em casa, vendo a chuva cair e sentindo a dor que ela causa em meus ossos. Meu pai não trouxe a Cris de volta porque não sabia como. Ele nunca soube de nada, só sabia das suas coisas. É que ele é homem.

    ***

    Bem diferentes eram os dias em que não havia chuva, nem gritos, nem dor. O pai ficava mais tempo em casa, a mãe fazia comida e me chamava para ajudar. Pedia para cortar as batatas, depois lavar e secar a louça, varrer o chão, deixar tudo limpo. Não tínhamos empregada. Eu era a empregada.

    Saíamos para passear, cumprimentávamos os vizinhos, líamos as cartas da Cris e dormíamos com a janela aberta. Não me incomodava ser a rejeitada de sempre nem ser só a Maria, a que veio ao mundo sem ter sido querida.

    ***

    Minha mãe sentia nos ossos a aproximação da chuva. Assim que as nuvens escureciam, seus cotovelos e joelhos inchavam e começavam a latejar. Primeiro vinham as reclamações dissimuladas, um “ai, que dor!” baixinho a que eu e meu pai já estávamos acostumados. Bastava o céu despejar a água, ela abraçava a loucura. Esfregava unguento pegajoso nos ossos das mãos, das pernas, dos ombros, do quadril, dos pés, falava que tudo doía, que iria morrer de dor. Ela parecia mesmo morrer. Um dia ela morreu. Eu já estava crescida. Cris não estava mais conosco havia muito tempo e meu pai, já nos primeiros pingos, partira para o mato. Ele, ao contrário de minha mãe, gostava da chuva, dizia que ela fazia bem às suas coisas. A água é uma bênção, faz crescerem as minhas coisas, ele costumava falar assim. Também crescia a dor nos ossos de minha mãe, mas ele nunca deu muita importância a isso.

    Nesses dias de aguaceiro em que minha mãe e eu ficávamos confinadas em casa, ela virava bicho. Chorava, gritava, amaldiçoava as paredes, me espancava. Enchia a casa toda com sua dor e, como alucinada, me agarrava pelos cabelos e me sacudia. Não havia nada nem remédio algum que a livrasse dessa tortura. Eu recebia as bofetadas em silêncio, ela gritava por nós duas. Se eu tivesse uma corda, e se tivesse coragem, amarraria minha mãe na cama e lhe daria uma surra para que parasse de chorar e de gritar de dor. Mas eu não tinha uma corda.

    Quando a chuva cessava, a calma voltava milagrosamente à nossa casa. Como se fosse estrangeira chegando a uma terra desconhecida e agradável, minha mãe se lavava e vestia roupa limpa. Fazia chá e comíamos juntas o bolo feito dias antes de começar o aguaceiro. Esperávamos em silêncio pela volta do meu pai.

    ***

    Ela morreu há dois invernos, quando choveu onze dias sem parar. Estávamos novamente presas e sozinhas dentro de casa, duas mulheres em convívio forçado, uma delas fora de si de tanta dor, vendo a água cair sem trégua. A casa ficou pequena para nós e para todo aquele sofrimento. Os ossos de minha mãe trincaram feito cristal. Seu esqueleto desmoronou. Ela se foi, mas não levou sua dor consigo: deixou-a para mim como herança de família. Porque meus ossos também doem quando chove.

    ***

    Estou há onze dias aguentando a dor sem chorar. Talvez pudesse suportar um dia mais: doze. Será? Acho que não. Confinada em casa e em completa solidão, esqueço as tábuas do corredor e olho pela janela embaçada. Vejo alguns guarda-chuvas, vejo os moleques, vejo o rio correndo pela minha rua. Escrevo com o dedo no vidro gelado:

    a casa
    a rua
    os olhos
    o abraço
    é tarde
    mas ainda dá tempo

    Limpo o embaçado do vidro com a manga da blusa e apago os versos. Só necessito que deixe de chover e de doer.

  • Apocalipticamente

    “Subverter a ordem, apocalipticamente!”. Foi assim que Luan nos apresentou, numa conversa desleixada, “o projeto”. Devíamos chocar, como os Mutantes e Secos e Molhados – indicou-nos, inclusive, as referências, que eu nem conhecia. Não vou mentir: tive medo. Agarrei-me a certos exageros para continuar. Já tocava e queria tocar mais. Era o baterista do colégio e tinha, inclusive, o meu fã-clube. O sonho era viver de música, “da minha arte”, e esse era o medo de meu pai, que queria me afastar da vida mundana, me colocando, forçosamente, na trilha dos estudos: “Ou estuda, ou nada!”.

    Luan era nosso líder e queria uma banda de rock subversiva, “apocalíptica”. O nome da banda, obviamente, já estava dado, era “Apocalipse Now”. A divisão de tarefas foi feita no ato da primeira reunião, no parquinho, enquanto espantávamos as crianças que queriam se divertir. A única certeza era a de que eu ficaria na bateria, pela lógica. Luan queria ser vocalista e guitarrista, como Max Cavalera, mas, infelizmente, não tinha a voz rouca – e falava que, para ser igual ao seu ídolo, teria de “esfarrapar” as cordas vocais, com muito cigarro. Só que ele não conseguia fumar; tossia e ficava doente, ficava doente e tossia. Junior foi para o baixo, e Marcos para a guitarra solo. Os nossos ensaios eram, no começo, no salão de festas. Alguns seres sobrenaturais apareciam para bagunçar a cabeça com o nosso rock incompreensível e diabólico. Lembro de um namoradinho de uma amiga, peruano, que sabia cantar em inglês e fazia os vocais mais pesados de Nirvana. Quase entrou para o grupo, se não tivesse acabado o namoro.

    Deixamos de falar com a menina, porque teria arruinado o nosso sonho. Por conta da zoada e da impregnação de alguns moradores, invadimos o que era uma sauna desativada, para colocar os nossos instrumentos e caixas de som. Tocávamos moídos e suados, no verdadeiro caminho do rock. Com pouco tempo, já atacávamos em festinhas de colégio e de bairro. Era o auge dos Titãs (Cabeça Dinossauro) e do Nirvana.

    Sabíamos tudo. Ensaiávamos como loucos – inclusive em horários escolares, porque faltávamos às aulas de inglês e o caralho. Ainda assim, na sauna hermeticamente fechada, éramos motivo de reclamação. Arranjamos um novo lugar, num estúdio que ficava na casa de um amigo de um amigo. Para compensar os ensaios, emprestávamos nossa aparelhagem de som. O que aconteceu no primeiro mês: o bandido, dono do estúdio, vendeu os nossos bens. Ficamos sem nada. Não podíamos mais tocar. Bateu a depressão e a impotência. Mas roqueiro não podia se abater. Prometemos explodir o espaço, e assim o fizemos. Numa noite, fomos lá na casa do bandido e soltamos bombas preparadas por nós. Já sabíamos que não seríamos presos, porque éramos menores de idade. Os pais do bandido pensavam que o mundo estava acabando. Ríamos, histéricos, vencedores. Nunca mais vimos nosso som, mas não deixamos de tocar o terror.

Botão Voltar ao topo

Adblock detectado

Desative para continuar