O precursor da carta dos direitos humanos, foi o Cilindro de Ciro que é uma peça rara cunhada em forma de barril e argila cozida, descoberto nas ruínas de Babilônia na Mesopotâmia em 1879.
Ele foi criado em vários estágios, mede 22,5 centímetros por 10 cm no seu diâmetro máximo. Data do século VI a.C. (539 a.C.), e o texto talhado sua estrutura elogia Ciro, o Grande, e lista sua genealogia como um rei de uma linhagem de Reis. Nele foi declarada a liberdade de religião e a abolição da escravatura, apesar de que alguns estudiosos e o Museu Britânico, rejeitem essa interpretação de protagonismo sobre as normas que reconhecem a dignidade humana.
Porém, seu brilhantismo salta os olhos e mantém informações importantes sobre a liberdade dos homens, já pensada naquela época mais primitiva de nossos povos.
A ideia de estabelecer “direitos humanos”, tem origem no conceito filosófico de direitos naturais, que seriam atribuídos por Deus porque são as normas que reconhecem e protegem a dignidade de todos.
Os direitos humanos regem o modo como os seres individualmente vivem em sociedade e entre si, bem como sua relação com o Estado e as obrigações em relação a eles.
A “Declaração Universal dos Direitos Humanos” é um dos documentos básicos das Nações Unidas, e nela são enumerados os direitos que todos possuem, de ir e vir livres em sociedade com dignidade, com espírito de fraternidade.
Esse curto espaço de tempo, nossa vida, que é o intermédio entre o tempo e a eternidade, nos foi concedido para usufruir com fraternidade e pulsão pela paz, por isso, devemos lembrar que ninguém deverá ser mantido em escravidão ou servidão; e que devem ser proibidos em todas as suas formas.
O escritor e filósofo germânico, Georg Wilhelm Friedrich Hegel, nos deixou uma frase cunhada em um de seus livros dourados: “viver com medo é ser escravo”, é por isso que o escravo não se rebela, e acaba por não perceber que sua vida já é puro sofrimento.
Diante de rebelar-se e morrer, ou submeter-se e sofrer, o escravo encontra uma nova forma de liberdade, desenvolvendo melhor consciência pessoal.
Valorizando a equidade e não a igualdade, encontramos menos dor e sofrimento, mais realizações e benesses aos que teimam em respirar em nosso planeta azul.
Frutos do amor, não poderíamos deixar de nos submeter ao amor sem ressentimentos, mas sim do resultado de mãos estendidas, que poderiam ser as suas.
Na página aberta de um livro, está um desenho de linhas curvas entrelaçadas. O menino percorre com os olhos cada pedaço da imagem, procurando memorizar o caminho sinuoso de cada pincelada dada pelo artista. Pega uma folha em branco e fecha os olhos. Quer se certificar de que o desenho que acabou de ver está inteiro em sua memória. Traça linhas retas e curvas na folha branca. De vez em quando retorna ao desenho original, e percorre novamente, com os olhos e também com os dedos, os movimentos da figura. Ele está sozinho no quarto e desenha. Nada parece perturbá-lo. Não se trata de um simples traçado, mas de uma imitação livremente inspirada na sedução que uma linha curva sinuosa exerce sobre quem a vê. O desenho que começa a surgir na folha é peculiar: uma espécie de mesa oblíqua formada pelo entrelaçamento de numerosas linhas muito leves. Na superfície, um vaso redondo; abaixo, uma roda cheia de segmentos amorfos. Se não estivesse sozinho, o menino seria interrompido por sua mãe, chamando-o para comer; por seu pai, fazendo perguntas bobas sobre o significado do desenho em vez de perceber a beleza das linhas curvas e das linhas retas; ou por sua irmã menor, que poderia, só de pirraça, rasgar a página. Mas ele estava sozinho, desenhando em uma folha de papel as figuras que viu num livro aberto. Ele se concentrou em seu mister e só o interrompeu quando ficou escuro. Foi até a cozinha e se serviu de um copo de leite. Quando voltou ao quarto, por mais que procurasse, não encontrou a folha de papel. A mesa, a roda e o vaso estavam lá, na página aberta do livro, mas não a folha branca com o desenho que ele criara. Esse jamais reapareceria. O vaso, porém, perguntou-lhe se ele havia jantado; a mesa o abraçou, beijou-o e depois o carregou para a cama; a roda chorou a noite toda, mantendo-o acordado. No dia seguinte, a vida continuou dando voltas, como de costume.
Larissa me pregou uma peça. Chegou em casa com uma gatinha filhote, embrulhada em sua camisa da malhação. Disse que a pobrezinha estava embaixo de seu carro, no centro da cidade, abandonada, que ela não poderia ficar assim. Logo rebati, mandando que levasse para doação. Larissa, com mil beijinhos e abraços – é assim que ela faz quando quer alguma coisa –, suplicou que ficássemos com a “neném”. Fiquei emburrado e desajeitado com a nova integrante, mas, aos poucos, coisa de horas, ganhou a minha afeição. Ela de fato é muito meiga e carente, está sempre nos meus pés, pedindo algo – penso que a ânsia da fome por que passou a deixa assim. Achei estranho que nos primeiros dias ela procurava um lugar para se esconder. Arranjou um esconderijo dentro do nosso guarda-roupas. Fez do lugar um ninho, literalmente. Um mês depois, já estava com a barriga por acolá. Meu Deus, entrei em pânico, a neném estava doente ou o quê? Levamos à veterinária, nossa amiga, a Sara. Assim que tocou na neném, disse que estava grávida. Que no primeiro cio teria engravidado! Ou seja, uma gravidez adolescente, complicada, no mínimo, pois não tinha mais do que seis meses de idade. Eu não queria bicho nenhum em casa e agora teria uma grande família de bichanos. Que horror! Como seria possível isso? Tivemos uma conversa séria, e disse à Larissa que a pequena teria os bebês, mas não ficaríamos com nenhum, iriam todos para a adoção. Larissa ainda implorou para que ficássemos com pelo menos um, para fazer companhia à neném. Não disse que sim nem não. Eu estava completamente alvoroçado com essa notícia, e não sabia agir diante de tamanha questão. Era, para mim, um grande desafio, já que teria criado, na adolescência, somente um cachorro, o Téo, que morreu com treze anos e deixou muita dor. Prometi a mim mesmo que não queria outro bicho, porque não tinha capacidade emocional para lidar com a situação, de alguma doença ou mesmo a morte. Fato é que, na verdade, só teríamos que esperar e ver no que ia dar. Fomos à veterinária no sábado, e a neném teve os bebês na segunda, sozinha. Chegamos em casa, e vimos cinco miúdos, lindos, parecendo uns ratinhos. Me empolguei e quis arranjar um lugar no nosso quarto para ela ficar. Aliás, separei o lugar que ela, a neném, já tinha escolhido. Larissa estava tão feliz quando um pinto no lixo. Mas não conseguia pegar as criaturinhas. Eu que seria, portanto, o intermediário entre a mãe e o mundo dos humanos. Os dias foram passando, e os bebês foram crescendo. Eu já repensava em doá-los. Mas claro que não dizia à Larissa. Com um mês e meio os lindinhos estavam prontos para a adoção e resolvemos, em conjunto, ficar com todos. Isso já faz dois anos. Temos maravilhosos seis gatos, que amamos muito. Cada um com sua personalidade, mas todos amáveis e carinhosos.
Tenho um amigo que não gosta de nada. Comprou um livro, mas não leu porque precisa descansar. Descansar do quê? Nem ele mesmo sabe.
Certo dia, chamei para um cinema. — Nossa, cinema é tão chato. — Mas é filme do Almodóvar. — Pois é. Cor demais, e muita pouca vergonha.
Veio o carnaval. Sugeri uns bloquinhos. — Eu não. Aquele monte de gente. — Uai, mas você não gosta de gente? — Gosto, mas vou preferir ir pra roça, descansar. — Descansar do quê? — Ah, sei não. Descansar só.
Aí veio uma banda de rock, num pub legal, um lugar escondido em BH. — E aí, topa? — Vai, e depois me conta. — Mas você adorava rock. — Ah, seria bom, mas roqueiro, em geral, grita muito. E fora o flanelinha, não é? Sempre de olho nas moedinhas da gente.
Sugeri uma ida para a praia. — Mar? Não acho a menor graça. — Mas com este calor? — Ah, muito sol. Mar é perigoso. Outro dia, vi na televisão que três banhistas…
Última tentativa. — E se a gente saísse pra comer? — Onde? — Naquele restaurante de sempre. — Vixe, estou de dieta. — Mas lá tem comida vegetariana. — Não é a mesma coisa. — Por que não? — Porque eu só como carne de hambúrguer e alface, e tem que ser do alface aqui perto de casa, que é mais saudável, nutritivo, e o hambúrguer no mesmo sacolão.
Não gosta de samba, de sol, de chorinho, de mar, ou de lagoa. Desliguei o telefone, olhei para o garçom, e ele disse: — Mais um chopinho? — Pode trazer.
O chope estava absurdamente gelado, e era só o que eu precisava.
Dona Maria era uma mulher metódica. Todos os dias cumpria seu ritual sem faltar. Acordava pelas manhãs logo que o dia raiava, preparava um café bem preto, forte e aguardava por Zequinha, o menino que vinha trazer seu pão, sempre quentinho e fresquinho. Quando chegava, ela despejava o líquido, ainda quente, em sua xicara e ia bater ponto em sua janela. Maria jamais atrasava nesse compromisso matinal.
Gostava sempre de chegar em seu “serviço” bem cedo, pois o tempo perdido poderia ser o causo não presenciado.
Geralmente, logo pela manhã era difícil que algo acontecesse. Todo mundo da vila passava em disparada para que não atrasasse no seu dever sagrado diário. Cada pessoa que passava pela janela daquela casa falava “Bom dia Dona Namoradeira” e ela retrucava “Meu nome é Maria, fio(a) de satanás”. A verdade é que todos sabiam que já havia adotado aquele apelido carinhoso, mas ela fazia questão de demonstrar que não gostava nada daquilo.
Certa vez, um garoto que costumava passar o dia brincando naquela rua e era bem do atrevido decidiu lhe perguntar de onde vinha aquele apelido. Brava, ela respondeu:
— Foi um sujeitinho saidinho que andava por essas bandas faz muito tempo e era doidinho pra se engraçar pro meu lado. Como eu nunca dei bola, ele tentou criar essa história de namoradeira, vê se pode meu fio?
Nada que acontecia por naquela vila passava despercebido aos olhos da senhorinha. Por esse motivo, o povo da vila criou o hábito de logo de noitinha, um pouco depois da noite tomar conta da cidade, se reunir na casa de Maria. Nessa hora, ela se dedicava a contar os causos do dia. As histórias eram diversas, como no dia em que o marido da vizinha voltou mais cedo pra casa e encontrou sua mulher na cama com o carteiro. Ela contou, a quem estava naquela sala a seguinte história:
— Meus fios, hoje aconteceu por aqui a tragédia que estava se anunciando faz é tempo. Todo dia eu percebia que o carteiro trazia uma carta pra Celinha e ficava lá dentro da casa dela de proza. O ritual era sagrado. Até que hoje, o Gumercindo, coitado desse homi trabalhado que só ele, decidiu voltar pra casa mais cedo, Trouxe até flores! Só que quando chegou viu a danada da Celinha no rala e rola com o carteiro. Que confusão meus fios. Vuou foi roupa e mala pra todo lado. Tadinho do seu Gumercindo, tão trabalhadô.
Geralmente, ela procurava contar as histórias e acontecimentos do dia, mas nem sempre seu radar conseguia apurar notícias fresquinhas. Nesse caso, era comum que ela contasse histórias do passado, de uma época em que nenhum dos que se faziam presentes naquela sala viveu. Foi assim que descobriram que certa vez morou naquela vila um homem bem estranho que, como muitos falavam na época, todo dia de lua cheia saia de sua casa uivando atordoado igual a um animal descontrolado.
Certo dia, o povo daquela vila passou pela janela da namoradeira e viu que ela não estava cumprindo seu dever diário. Todo mundo estranhou, mas, na correria do dia, ninguém teve tempo de ir perguntar a senhora o que havia acontecido.
De noite, ao perceberem que ela não apareceu em sua janela durante nem uma hora daquele dia, os moradores decidiram bater em sua casa. Batidas sem nenhuma resposta… Alfredo, o fortão da vila, decidiu arrombar a porta e, quando todos entraram, se depararam com Dona Maria totalmente em paz em sua cama dormindo um sono eterno. Ao lado, na cabeceira, havia um bilhete que dizia “meus fios, o homem e a muié morrem, a carne vira comida pra bicho, mas as histórias nunca podem morrer. Eu estou indo, mas nunca deixem que morram as histórias que contei e as histórias que ainda acontecerão nesse lugar.”
Mila Cox estava filmando e gravando uma entrevista a que seu parceiro musical Zími estava sendo submetido.
Estavam na sala do apartamento que dividiam no bairro da Liberdade.
Eram cinco horas e sete minutos de uma tarde de chuva e São Paulo estava caótica.
Notícias de alagamentos e quedas de árvores eram a tônica dos noticiários locais.
Fazia tempo que não sentiam tanta satisfação por poderem trabalhar em casa e poderem ficar de boa quando as condições climáticas tornam a cidade inviável.
Moravam no sexto andar de um prédio na Rua da Glória, e o barulho que vinha da rua durante os dias influenciava diretamente no som que faziam.
A entrevista era para um universitário que foi ao show dos Crop Circles em Registro, no sábado anterior.
Era parte de um trabalho para a faculdade de jornalismo que o jovem cursava, e tratava sobre música alternativa.
Crop Circles é a banda formada por Mila Cox e Zími.
Eles tinham piadas internas sobre quando eram chamados para entrevistas.
Cox toca baixo e sintetizador, e Zími toca de pé um kit minimalista de bateria, como fazia Bobbie Gilespie nos primórdios do Jesus and Mary Chain.
Os dois eram vocalistas, alternando as músicas em que cada um cantava.
Eles pagam as contas trabalhando como copywriters.
Nunca davam entrevistas juntos.
Mila Cox era quem geralmente atendia esses jovens.
Dessa vez Zími aceitou falar, a pedido do universitário, porque no dia do show em que eles se conheceram, o jovem tentou uma aproximação com Mila Cox, e prontamente levou um toco.
Agora ela estava acompanhando a conversa, porque sentia que seria necessário editar o resultado antes que o estudante o mandasse para o professor.
À certa altura, já conversando pela webcam, o rapaz perguntou sobre a motivação de Zími para fazer música com uma parceira musical mais jovem.
(Zími tem quarenta e oito anos, e Mila Cox tem vinte e três. O estudante que está entrevistando Zími tem dezenove.)
A entrevista havia demorado alguns minutos para decolar, mas de repente, com aquela pergunta, o jeito que Zími se mexeu na cadeira, de frente para o computador, fez Mila Cox saber que naquele momento ele começaria um grande discurso, que logo se transformaria numa metralhadora verbal que poderia perder a linearidade e fugir do assunto a qualquer momento, caso sua raiva seguisse aumentando.
Então, enquanto Cox já suspeitava de encenação, Zími começou a falar, quase exaltado:
“Algumas pessoas podem pensar que há algum tipo de glamour a ser alcançado, mas isso não existe. É um trabalho sério, porque é a sua imagem entregue a um público, seja qual for seu tamanho. E se a internet serve muito bem pra divulgar a qualidade artística da pessoa, serve ainda mais para expor milhares de cretinos ao ridículo eterno. A minha vida melhorou depois que montamos essa banda. Melhorou inclusive financeiramente. Mas nós nunca lucramos com a banda. Eu estava bastante falido, e agora provavelmente sou um pobre premium. Provavelmente nunca pagaremos as contas tocando. A questão é que para que a banda pudesse existir, era preciso que eu mudasse de vida antes mesmo de ter uma música pronta pra lançar na internet sob o nome de uma banda. Estarmos vivos também é uma motivação fantástica. Nosso vizinho morreu na pandemia, ainda jovem, sem nunca ter bebido, fumado ou dado um teco. Eu reclamo muito, mas prezo demais pela vida. Tento aproveitar. Mas uma coisa que nunca conheci foi o que chamam de ‘zona de conforto’. As pessoas que podem fugir pra essa zona quando o negócio fica louco não vivem a mesma realidade que eu, e provavelmente a maioria das pessoas não conhecem de verdade essa área. Mas me surpreende que eu ouça tanto falar sobre isso.”
Zími então fez uma pausa em sua fala, deu um trago no cigarro e soprou a fumaça mirando a tela do computador, diretamente na cara daquele jovem.
Estava imaginando que ele fosse criado pela avó, que tinha cabelo de algodão e fazia uma vitamina para ele tomar antes de ir para a escola.
Possivelmente teve babá até pouco tempo atrás, e talvez até motorista.
Ele tinha o cabelo penteado e não podia confrontar as expectativas da família, e muito menos expectativas sociais mais abrangentes.
Então, sem falar ainda, Zími fez uma careta ao imaginar que aquele cara deixava a cama desarrumada e cheia de farelo, e a encontraria arrumada quando voltasse.
Ele vestia uma camiseta desbotada da banda Carniça de Bode, a mesma que usou no dia do show em Registro.
Mila Cox sabia que ali Zími, quando voltasse a falar, responderia de uma só vez a todas as perguntas que o estudante poderia conceber, antes que ele perguntasse qualquer coisa novamente.
E então Zími voltou a falar.
“Quando montamos a banda, ela tinha dezoito anos e queria se tornar inesquecível. Eu tinha quarenta e três, e queria mesmo era ser esquecido, e viver do jeito que eu quisesse, muitas vezes pagando caro por escolher esse caminho. Para muito além do gosto musical, o que nos atraiu pra esse projeto de vida e de arte foi reconhecermos um no outro a completa impossibilidade de ser domesticado. Continuei vivendo do jeito que eu quero, embora continue insatisfeito com certas bizarrices , que lamentavelmente existem ou ocorrem independente da minha vontade. A sociedade já estava falida desde muito antes de eu nascer, eu sei que há coisas sobre as quais não temos controle, e que nunca vão mudar. Já tive bandas antes, uma delas antes de existir internet. Eu não tinha qualquer ilusão sobre encontrar glamour nessa atividade. E repito: O que deve haver é um propósito muito mais verdadeiro, porque sendo popular ou não, é a sua imagem que está ali, premeditadamente exposta. As bandas legais ficam soterradas pelo lixo de quem não tem a menor ideia do que está fazendo e nem ao menos gosta de arte. Hoje o perigo de fazer um papel ridículo e virar meme é, ou deveria ser, muito mais assustador do que um fracasso comercial. E para quem já tem algum legado, o esforço pra mantê-lo deve ser tão intenso quanto a vontade que se tinha pra emergir. Um legado pode se tornar algo tentador pra ser vendido, quando se quer resolver o setor financeiro da vida. No meu caso, esse sempre foi o setor que me causou depressão e desespero. A lida com algumas pessoas também pode ser um pesadelo, mas que muitas vezes pode ser remediado justamente pelo dinheiro. Comprando o conforto de um isolamento que só é rompido por quem desejamos.”
Depois disso, combinaram que o universitário editaria a entrevista e enviaria para Zími e Cox, antes de mandar para o professor.
Mila Cox falou para Zími:
“Tem que aguentar mesmo. O cara é parte do nosso público. Talvez esteja logo na imprensa.Isso será editado a fim de cortar partes machistas, por exemplo. Toda semana tenho que conversar com um deles.Esse aí parece mais playboy, tem alguma coisa estranha nele que não gostei.”
Zími falou:
“Ainda bem que se aparecer alguém da imprensa mesmo é você que vai falar.”
Ela respondeu:
“Talvez com eles seja mais fácil e certamente a repercussão será melhor também.”
Cox se levantou e foi fazer café.
Zími então atentou novamente para o barulho que vinha da rua e foi olhar pela janela.
Bateu o cheiro do café e ele ficou feliz, mas não só pelo café.
Ele estava bem alcoólatra, e até os bêbados mais clássicos do bairro falavam isso para ele.
À noite ele beberia com certeza, mas naquela hora ele queria café, porque ainda não estava tremendo.
Ele achou que Mila Cox tinha sorte por beber pouco.
No momento em que ela implicou com o universitário, ela bebia depois do show.
Zími pensou em puxar esse assunto, mas Mila Cox era uma das pessoas que o alertava sobre o abuso de cachaça.
Zími resolveu que beberia na padaria do outro lado da rua, que estava enchendo porque à noite haveria um jogo do campeonato brasileiro.
Da padaria ele podia ver a janela de seu apartamento e isso era muito confortável para ele.
Então, justamente ele, que praguejava horrores apenas por ouvir o termo ‘zona de conforto’, talvez estivesse descobrindo que a sua era a calçada da padaria, onde ficava bêbado e estaria perto de casa.
Zími tomou banho e desceu.
O porteiro daquela noite em seu prédio era gente fina.
Atravessou a rua, e na padaria ninguém parecia estar com medo de ingerir metanol.
A alienação ali era tão completa, que Zími se sentia livre de qualquer culpa.
Ele estava com a sua caderneta e no dia seguinte estaria entregando à Mila Cox a ideia de uma nova música, que ela concluiria.
Mesmos problemas; vida que se derrama enquanto pensamos demais e, talvez, ajamos de menos.
Descomplicar é sinônimo, em ação, do substantivo vazio. Que também pode ser um adjetivo. O vazio dói. O apartamento ficou vazio. A vida descomplica quando menos nos esforçamos.
O vazio é repleto de tudo; é o próprio caos.
Descomplicar é o verbo de ação para que a estafa necessária possa agir em meio ao vazio.
Tudo o que nos torna nós mesmos padece do esquecimento: troca da derme, pele nova, ar que sai e que entra. Roupas que já não cabem ou não representam.
Pessoas que se vão, memórias que se quebram, se apagam, acabam no lixo. Reciclar — é possível?
Eco. Vibração repetitiva. Repete e distorce. Perde. Se esvai. Some.
Elas escolheram sempre a mesma mesa, no canto da cafeteria — aquela perto da janela, com vista para a rua movimentada. Um ritual silencioso: dois cappuccinos, celulares na mesa e o feed de notícias aberto. Foi entre um gole e outro que o suspiro da mais falante das duas anunciou o assunto do dia:
— Você conseguiu descobrir do que faleceu Diane Keaton?
A outra levantou os olhos da tela, com a seriedade de quem comenta a morte de alguém da própria família.
— Eu não, amiga. Já li todos os posts sobre a morte dela, até a declaração dos filhos… mas ninguém revela nada. Justo pra nós, que somos quase íntimas dela. Intimidade de fã, daquelas que atravessa décadas de filmes, romances, premiações e fofocas de revista.
— Quase íntimas mesmo! — completou a primeira, já animada. — Assistimos a maioria dos filmes, acompanhamos aquele romance com Woody Allen…
E você reparou na cara do Al Pacino no enterro?
A amiga assentiu com um ar grave, como se tivesse estado lá.
— Sim! Agora não adianta se arrepender de não ter se casado com ela. No fim, ela acabou não casando com ninguém. Mas convenhamos, uma mulher como ela não nasceu pra se amarrar.
Riram discretamente, como quem partilha segredos de bastidores.
— Pena não estarmos lá… — ela disse, olhando para o nada. — Queria muito ter dado um último adeus.
Havia uma ternura estranha naquilo: choravam a morte de alguém que nunca tinham encontrado.
— Pena mesmo. E o Robert Redford então? — a outra retomou, aquecida pelo drama. — Ontem revi Out of Africa e chorei só de lembrar. Não é à toa que a Meryl Streep se apaixonou por ele ali mesmo.
— E viu a homenagem do Andrea Bocelli? Fiquei arrepiada com o gesto dele de ficar com o cachorro de estimação dele… como era mesmo o nome do cachorro?
A pergunta ficou suspensa no ar. A resposta veio, seca:
— Menina… fiquei chocada quando soube que essa história é fake. Tudo inventado por IA.
O silêncio que se seguiu foi mais eloquente que qualquer indignação.
— Jura? — sussurrou a primeira, como quem perde o chão. — Mas então tudo aquilo que saiu no Facebook era falso?
As duas se encararam por um instante, os celulares quietos sobre a mesa. O cappuccino já esfriava.
— Bom… — disse por fim a outra, tentando reorganizar o mundo. — Pelo menos a história da mãe da Preta Gil é verdadeira. Achei lindo ela ser amparada pela Flora Gil.
— Lindo mesmo — concordou a amiga, retomando o fôlego. — Pena não morarmos no Rio, senão teríamos ido ao enterro, né? Riram de leve, cientes da contradição, mas sem coragem de desmontá-la.
— Lógico! — disse ela, com convicção. — Somos quase íntimas dela. Quer dizer… nem conhecemos pessoalmente, mas eu me sentia da família.
Do lado de fora, carros passavam, pessoas seguiam seus trajetos, alheias àquele luto emprestado. A última frase veio quase como um suspiro:
— É aquela coisa de alma, né? — ela completou, com doçura.
A amiga levantou os olhos da tela e sorriu, agora com ironia calma:
Ah! Carlitos! Se você soubesse da correria desse mundo!
Corremos ainda mais! E não prestamos atenção em quase nada! Acelerados em quase tudo! Sentimos com pressa! Amamos com pressa! Brigamos com pressa! Desviamos com pressa! Olhamos com pressa! Chegamos ao despudor de morrermos com pressa!
Os tempos pós-modernos são intensos e corrosivos! Tempos controversos e destrutivos!
Ah! Carlitos! Se você soubesse…
O seu humano máquina se transformou ainda mais em produto! Ele não aperta mais os parafusos, mas continua sendo vigiado, monitorado, controlado, etiquetado… incansavelmente!
E não dormimos direito! E não descansamos direito! E não comemos direito! E não vivemos direito!
Ah! Carlitos! Se pudéssemos mudar isso tudo!
O mundo precisa com urgência da poesia do seu andar.
O mundo precisa com urgência da poesia dos seus gestos.
Como temos pressa para tudo, não temos mais tempo para a poesia! Ela, coitada, está em algum lugar que não é possível ver na confusão das coisas.
Mas ainda há esperança…
Existem criaturas teimosas que leem e que procuram a poesia nas ruas, nas casas, nos muros, nos becos, nos rostos…
Estas criaturas, resistência destes tempos apressados, não têm pressa e, por isso, procuram a poesia de cada dia em tudo que encontram.
Ah! Carlitos! Saudade do vagabundo, do garoto, das risadas e brincadeiras ingênuas.
O mundo já estava se transformando e não tínhamos a menor noção de tudo o que viria, entretanto, no seu tempo, a poesia era mais visível e palpável…
Em meio aos chips e à fumaça poluidora, a poesia se esconde…
Em meio ao tremor da luz azul das telas, a poesia se fragmenta…
Em meio aos gritos e delírios das redes sociais, a poesia se encolhe…
Mas, de todo o jeito, esse ofício de escrever é de uma teimosia sem igual…
E enquanto houver olhos que leem e entendem palavras, a poesia será a porção de sensibilidade de que precisamos durante a caminhada…
Afoitas, apressadas, querendo passar à frente umas das outras.
Delas, sou fã, parceira e amiga.
Pois venham, achem seus lugares, enfeitem, enfeiem, traduzam, confundam.
Ahhh, as palavras…
Com o seu poder, destroem impérios, apaziguam corações quebrados, animam os desesperados, fazem felizes os apaixonados.
E os sons? Variados, engraçados, escrachados…
O ritmo? Esse é um capítulo à parte!
Arranham as letras, como a palavra arara, por exemplo,
ou são sedutoras, como veludo.
A intensidade de grito, a elegância de néctar.
Acho surpreendente também como elas se tornam moda, autoridade, prestígio.
Vou exemplificar com o que tenho ouvido: “ponto focal”.
Alguém poderia me explicar o que seria um ponto não focal?
Me lembra muito o “estado da arte”, que em época passada, era uma expressão obrigatória no linguajar de quem queria soar moderno, no mundo corporativo.
Mas essas não me ocupam a mente.
Eu gosto mesmo daquelas que me acalentam.
Falando nisso… olhem a lindeza da palavra acalentar!
Ela tem um som que embala, um jeito de colo, um gesto de abrigo.
Parece que, ao pronunciá-la, o mundo sossega — e o coração também.
Quando surgiu o papo de que 60+ era a melhor idade, eu não levei a sério. Julguei se tratar de ironia social ou brincadeira de mau gosto.
A maioria de nós, obviamente, não deseja morrer. Mas, daí a achar que a velhice é a esperada sobremesa ao final do jantar, já é demais.
Envelhecer, decerto, não é o fim do mundo, mas exige traquejo e criatividade para que o processo seja vivido como percurso e não como chegada.
O discurso social não facilita o trabalho nem suaviza o trauma: você ainda está se familiarizando com as rugas, com o ganho de peso, lapsos de memória, ressecamento generalizado e já se depara com a placa de sinalização da vaga para idoso. Pelo amor de Deus, aquele boneco envergado, de bengala, é um algum tipo de mau presságio? Me causa calafrios de horror. Não teria outra forma de nos representar?
Ouvi dizer que um supermercado aqui no Rio vai adotar outros símbolos como. por exemplo, um boneco surfando ou jogando tênis para sinalizar a vaga de idoso em seu estacionamento. É bem verdade que a figura do esportista está longe de me representar, mas prefiro. Pelo menos, me inspira. Além disso, a médio prazo, iniciativas como essa ajudarão a “descriminalizar” a velhice.
Sabemos que envelhecer não é um exercício de baixa intensidade, pelo contrário, é uma acrobacia de alta complexidade. Para executá-la é preciso treino e persistência.
Pensando bem, gosto da ideia de ter um(a) acrobata como símbolo da vaga de idoso. Como segunda opção, sugiro aquela trave de equilíbrio, o cavalo com alças ou as barras assimétricas da ginástica olímpica. Também simbolizam bem o desafio dessa fase da vida. Envelhecer é um exercício árduo. Nos exige foco, controle emocional e, acima de tudo, uma vontade enorme de bater recordes, vencer e escrever seu nome na história.
Um grande filme deve vir acompanhado de uma trilha sonora à altura. A música tem o poder de potencializar as sensações a nós repassadas pelas cenas assistidas. Em alguns casos, fica tão intimamente vinculada às imagens que delas se torna indissociável. Muitas obras cinematográficas devem seu sucesso à trilha sonora, havendo casos em que esta chega a ofuscar o próprio filme. Meu destino foi moldado pelos filmes que assisti. A música que os acompanhou faz a trilha sonora da minha vida.
1) BLADE RUNNER (Ridley Scott), 1982
Ridley, responsável por filmes icônicos como ALIEN O OITAVO PASSAGEIRO, GLADIADOR e THELMA & LOUISE, atingiu seu ápice com o ficção científica BLADE RUNNER, um dos maiores filmes de todos os tempos, em que Harrison Ford encarna um caçador de androides. Recebeu uma trilha sonora compatível com sua excelência, assinada por Vangelis Papathanassiou. O músico grego começou sua carreira no grupo pop Aphrodite’s Child e acabou enveredando pelo caminho da música orquestral eletrônica batizada inapropriadamente de “new age”. Mas o auge veio com as trilhas sonoras como as de 1492 A CONQUISTA DO PARAÍSO, ANTARCTICA e a vencedora de Oscar CARRUAGENS DE FOGO (CHARIOTS OF FIRE). Em BLADE RUNNER, Vangelis acertou a mão no acompanhamento da ambientação futurista criada pelo diretor. E ainda esnobou fazendo uma das canções românticas mais calientes da história, LOVE THEME, mesclando sax com sintetizador.
2) NOVIÇA REBELDE (Robert Wise), 1965
Clássico dos clássicos, esse musical continua fascinando gerações com melodias compostas pela dupla Rodgers/Hammerstein que já emplacara vários sucessos na Broadway. A música está estampada até no título original, THE SOUND OF MUSIC. A saga da família Von Trapp comandada militarmente por Christopher Plummer e a irrequieta freirinha a ela agregada (Julie Andrews) é contada através de melodias que parecem não envelhecer como a que acompanha grandiosa abertura (num verdíssimo gramado tendo os Alpes austríacos ao fundo) ou a singela DO RE MI. Wise dirigiu outro famosíssimo musical, WEST SIDE STORY, com temas compostos pelo maestro Leonard Bernstein. Aventurou-se também pela ficção científica dirigindo O DIA EM QUE A TERRA PAROU e posteriormente, STAR TREK com uma grandiosa trilha orquestral conduzida por Jerry Goldsmith.
3) AMARCORD (Federico Fellini), 1973
O compositor italiano Nino Rota fez trilhas antológicas para o cinema como as d’O PODEROSO CHEFÃO de Coppola, ROMEU E JULIETA e A MEGERA DOMADA de Zefirelli, MORTE SOBRE O NILO de Guillermin e O LEOPARDO de Visconti. Mas seu colaborador mais fiel foi Federico Fellini com quem trabalhou em praticamente toda sua vasta filmografia: OS BOAS-VIDAS, 8 ½ , SATYRICON, AS NOITES DE CABÍRIA, BOCCACCIO 70, CASANOVA, JULIETA DOS ESPÍRITOS, LA DOLCE VITA etc. A nostálgica e comovente trilha de AMARCORD certamente é seu mais belo trabalho. O filme autobiográfico que retrata a infância do diretor num pequeno vilarejo italiano é considerado uma das maiores obras do cinema. Impossível não a associá-la à belíssima música tema.
4) MÁGICO DE OZ (Victor Fleming), 1939
OVER THE RAINBOW tornou-se uma das canções mais adoradas de todos os tempos com centenas de gravações por artistas dos mais variados gêneros, de Frank Sinatra a Eric Clapton, de Ella Fitzgerald a Mariah Carey, de Nara Leão a Paula Fernandes. A gravação original foi composta nos anos 30 pela dupla Arlen/Harburg, integrando a trilha do filme THE WIZARD OF OZ especialmente para a interpretação de Judy Garland, então com 16 anos. Naturalmente faturou o Oscar (a trilha e a canção original). No mesmo ano, Fleming viria a dirigir outro clássico, E O VENTO LEVOU, com trilha de Max Steiner (com o famosíssimo TARA’S THEME). Max é outro campeão de trilhas com 24 indicações ao Oscar. São dele as trilhas de CASABLANCA e do primeiro KING KONG (1933).
5) LARANJA MECÂNICA (Stanley Kubrick), 1971
Stanley Kubrick foi um dos maiores diretores de todas as épocas, senão o maior. Era aficionado por música clássica. Quem não se lembra de ALSO SPRACH ZARATHUSTRA e da valsa DANÚBIO AZUL de Strauss em 2001 UMA ODISSÉIA NO ESPAÇO? E também Schubert (BARRY LYNDON), Chopin (LOLITA), Bartok (O ILUMINADO). Em sua última produção, DE OLHOS BEM FECHADOS, flerta com arrojadas composições do húngaro György Ligeti com fragmentos de uma liturgia ortodoxa cantada em romeno. Mas a trilha mais cativante permanece sendo a de LARANJA MECÂNICA (CLOCKWORK ORANGE) em que funde peças tradicionais de Beethoven com música eletrônica. A cena de abertura em que o personagem central vivido por Malcolm McDowell se delicia com sua gangue de arruaceiros na leiteria Korova ao som da peça composta por Wendy Carlos é de arrepiar.
6) OS INTOCÁVEIS (Brian de Palma), 1987
Ao lado de John Williams, Ennio Morricone é o mais importante ‘trilheiro’ do cinema contemporâneo. Dentre as memoráveis, CINEMA PARADISO (Tornatore), ERA UMA VEZ NA AMÉRICA (Sergio Leone) e A MISSÃO (Joffé), obras dos Irmãos Taviani, Pasolini, Almodóvar além, é claro, dos famosos temas para os ‘western spaghetti’ como POR UM PUNHADO DE DÓLARES, O BOM O MAU E O FEIO e QUANDO EXPLODE A VINGANÇA. E filmes com conteúdo político como SACCO E VANZETTI, INVESTIGAÇÃO SOBRE UM CIDADÃO…, 1900, BATALHA DE ARGEL e QUEIMADA. Trabalhou até com Tarantino em OS OITO ODIADOS (que lhe rendeu o único Oscar, reparador, já que é uma trilha “menor”). A comovente trilha de THE UNTOUCHABLES nos conduz ao enfrentamento do quarteto liderado por Kevin Costner e Sean Connery contra o poderoso Al Capone (Robert de Niro). Palma tem uma respeitável filmografia, destacando-se sua colaboração com Pino Donaggio em CARRIE A ESTRANHA, VESTIDA PARA MATAR e DUBLÊ DE CORPO.
7) TUBARÃO (Steven Spielberg), 1975
O maestro John Williams é o compositor mais requisitado de Hollywood. O único concorrente que lhe fez frente em número de indicações ao Oscar é Alfred Newman. Entre suas famosas trilhas orquestrais épicas, as sagas de HARRY POTTER e STAR WARS. Spielberg é seu amigo particular e o mais assíduo colaborador. Grande parte de seus filmes, inclusive ET, JURASSIC PARK, A LISTA DE SCHINDLER, CONTATOS IMEDIATOS e a série completa INDIANA JONES é dele. TUBARÃO (JAWS) foi uma das primeiras colaborações entre os dois (e possivelmente a mais bem sucedida). A sequência mais marcante é a que precede as investidas mortais do sinistro esqualo, criando uma tensão no espectador que, ao escutá-la, prepara seus nervos para o impiedoso ataque.
8) PANTERA COR-DE-ROSA (Blake Edwards), 1963
Henry Mancini é um nome que não poderia deixar de figurar em primeiro plano. Os temas cômicos para duas trilhas tornaram-se famosíssimos. A PANTERA COR-DE-ROSA e HATARI (com a famosa DANÇA DO ELEFANTINHO). Compôs ainda as trilhas dos clássicos CHARADA (Stanley Donen) com Cary Grant e Audrey Hepburn, VICTOR OU VICTÓRIA com Julie Andrews e BONEQUINHA DE LUXO com Hepburn (ambos de Blake Edwards), incluindo MOON RIVER, uma das mais belas melodias de todos os tempos. Não bastasse tudo isso, é dele também o famosíssimo tema de abertura da série televisiva Peter Gunn.
9) VERÃO DE 42 (Robert Mulligan), 1971
O pianista, maestro, compositor e arranjador francês Michel Legrand foi um dos mais respeitados músicos do século XX, responsável por mais de 200 trilhas, como as de O MORRO DOS VENTOS UIVANTES, THOMAS CROWN AFFAIR e YENTL de Barbra Streisand, com destaque para 2 clássicos da nouvelle vague de Jacques Demy, OS GUARDA-CHUVAS DO AMOR e AS JOVENS DE ROCHEFORT, além de trabalhar com diretores cultuadíssimos como Orson Welles, Malle, Godard e Wajda. Fez ele uma ponte entre a chanson francesa e os musicais de Hollywood. A trilha de SUMMER OF 42, película que retrata a paixão proibida de um adolescente por uma mulher mais velha, cujo marido estava afastado, rendeu-lhe um Oscar, com destaque para o belíssimo tema THE SUMMER KNOWS. O diretor Mulligan é o mesmo de O SOL É PARA TODOS com Gregory Peck (trilha de Bernstein)
10) EM ALGUM LUGAR DO PASSADO (Jeannot Szwarc), 1980
John Barry é outro nome imprescindível quando se trata de música para o cinema. Dentre suas trilhas, DANÇA COM LOBOS, ENTRE DOIS AMORES (OUT OF AFRICA), CHAPLIN e KING KONG (versão de 1976). Mas duas são absolutamente magistrais: PERDIDOS NA NOITE (MIDNIGHT COWBOY), incluindo o melancólico tema executado com gaita (a trilha traz também a famosíssima EVERYBODY’S TALKING interpretada por Harry Nilsson); e SOMEWHERE IN TIME, cuja música tema é indissociável do drama do sonho desfeito vivido pelo personagem de Christopher Reeve. Além disso, Barry assinou temas para os primeiros filmes de 007, tendo inclusive elaborado os arranjos do famosíssimo tema original de James Bond. O diretor Szwarc é o mesmo de TUBARÃO 2.
11) BUTCH CASSIDY AND SUNDANCE KID (George Roy Hill), 1969
Burt Bacharach é um celebrado compositor, com pérolas do cancioneiro norte-americano, reconhecido sobretudo nas vozes de Dionne Warwick, Aretha Franklin e os Carpenters. Quem ousa dizer que não gosta de I’LL NEVER FALL IN LOVE AGAIN, THE LOOK OF LOVE, I SAY A LITTLE PRAYER, CLOSE TO YOU? E naturalmente RAINDROPS KEEP FALLING ON MY HEAD que integra a trilha desse filme estrelado por Paul Newman e Robert Redford (a mesma dupla protagoniza outro sucesso do diretor, GOLPE DE MESTRE, que também possui uma trilha genial com base no ragtime de Scott Joplin). Bacharach compôs mais duas trilhas memoráveis, HORIZONTE PERDIDO e CASSINO ROYALE (não confundir com o filme de 007 de 2006).
12) PSICOSE (Alfred Hitchcock), 1960
A obra máxima de suspense de Hitchcock, à época causou furor e pânico nas salas de projeção, especialmente a tétrica cena do assassinato a facadas no chuveiro, um dos takes de maior tensão da história do cinema. O grau máximo de apreensão ocorre em função do famosíssimo acompanhamento de violinos estridentes criado por Bernard Herrmann. O maestro nova-iorquino tem um precioso currículo tendo composto trilhas de obras primas do cinema como CIDADÃO KANE de Orson Welles, FAHRENHEIT 451 de François Truffaut, TAXI DRIVER de Martin Scorsese e TRÁGICA OBSESSÃO de Brian de Palma. Mas o maior destaque refere-se à filmografia de Hitchcock que inclui dentre outros VERTIGO e O HOMEM QUE SABIA DEMAIS.
13) LAWRENCE DA ARÁBIA (David Lean), 1962
Maurice Jarre é outro colecionador de indicações ao Oscar. Venceu em DOUTOR JIVAGO, PASSAGEM PARA A ÍNDIA e LAWRENCE DA ARÁBIA, três clássicos do diretor David Lean. Esse último é considerado uma das mais ambiciosas obras da história do cinema e ganhou de Jarre uma trilha com a grandiosidade compatível com o esplendor das imagens. Jarre inovou agregando instrumentos étnicos e eletrônicos em seus arranjos, constituindo-se um dos precursores da world music da qual seu filho Jean Michel tornou-se celebridade. Maurice assinou também as trilhas de A TESTEMUNHA, SOCIEDADE DOS POETAS MORTOS e GHOST (embora a canção que identifique o filme seja UNCHAINED MELODY com a dupla Righteous Brothers). Quanto a Lean, deve-se citar também A PONTE DO RIO KWAI que revelou a memorável marcha COLONEL BOGEY.
14) A PRIMEIRA NOITE DE UM HOMEM (Mike Nichols), 1967
Mike Nichols estreou na direção com o icônico QUEM TEM MEDO DE VIRGÍNIA WOOLF? com intensas atuações de Elizabeth Taylor e Richard Burton. Mas sua trilha mais famosa é a de THE GRADUATE, filme onde o jovem Dustin Hoffman mantém uma relação complicada com a sedutora Sra. Robinson, vivida por Anne Bancroft. As desventuras do personagem são acompanhadas por canções de Simon & Garfunkel que se tornaram verdadeiros hinos pop dos anos 60, como SOUNDS OF SILENCE, MRS. ROBINSON e SCARBOROUGH FAIR. A dupla norte-americana não tem tradição de compor para o cinema. Nem precisa, já que vendeu dezenas de milhões de discos.
15) AMÉLIE POULAIN (Jean-Pierre Jeunet), 2001
Os trabalhos do multi-instrumentista francês Yann Tiersen receberam influência do compositor clássico Erik Satie e dos minimalistas, sobretudo Michael Nyman (que também se tornou conhecido pelas trilhas que compôs). Tiersen ganhou repentina projeção mundial justamente pela belíssima trilha de AMÉLIE POULAIN. A composição para piano, violino e harmônica consegue transportar para a música com perfeição o pequeno, porém fascinante mundo, vivido pela personagem representada por Audrey Tautou e suas peraltices pelas coloridas ruas de Montmartre. Tiersen não é um grande habitué de trilhas. Além dessa, destaca-se apenas a trilha de outro grande filme, o alemão ADEUS LÊNIN que guarda semelhanças com a de AMÉLIE.
16) CABARET (Bob Fosse), 1972
Musical de Bob Fosse (que também é coreógrafo e dançarino) estrelado por Liza Minelli que retrata com maestria e fidelidade o ambiente vaudeville de um cabaré de Paris durante o período de ascensão do nazismo. Só não ganhou o Oscar porque o concorrente era nada menos do que O PODEROSO CHEFÃO de Coppola. As canções de John Kander e Fred Ebb (que também compuseram para NEW YORK NEW YORK, FUNNY LADY e CHICAGO), boa parte executada no palco da casa de espetáculos, ao lado do mestre de cerimônia representado pelo impagável Joel Grey, são inesquecíveis. Bob ainda dirigiria outro grande musical, ALL THAT JAZZ (Palma de Ouro em Cannes) com outra bela trilha sonora (assim como CABARET, supervisionada por Ralph Burns) com destaque para ON BROADWAY com George Benson.
17) PINÓQUIO (Walt Disney), 1940
O compositor Alan Menken é o preferido dos estúdios Disney para trabalhar trilhas de êxito como A PEQUENA SEREIA e A BELA E A FERA. A ele minhas desculpas, mas a melhor trilha Disney continua sendo a do clássico PINOCCHIO de 1940 de criação coletiva, que traz a maravilhosa canção WHEN YOU WISH UPON A STAR (Jiminy Cricket), ganhadora do Oscar. Segunda superprodução dos Estúdio Disney (a primeira foi BRANCA DE NEVE E OS SETE ANÕES que também possui uma trilha excepcional que inclui HEIGH OH: “Eu vou, eu vou, pra casa agora eu vou”), o longa de animação marca o auge da perfeição técnica do desenho animado.
18) WOODSTOCK (Michael Wadleigh), 1970
Aqui a trilha é o próprio filme. Oscar de documentário, a película registra o mais importante festival de música de todos os tempos, ocorrido em 1970 na fazenda de Woodstock, Califórnia. Na pauta, o surgimento do movimento hippie, amor livre, consumo de drogas e protestos contra a guerra do Vietnã. No cardápio, canções memoráveis, sobretudo rock, que fizeram a cabeça da geração ‘flower power’, executadas por nomes como Jimi Hendrix, Santana, The Who, Ten Years After, Jefferson Airplane e Joe Cocker. Mas havia também o funk de Sly and Family Stone, o blues de Canned Heat e o folk de Crosby, Stills Nash & Young, Joan Baez e John Sebastian. As canções foram reunidas num álbum triplo. Posteriormente, saiu um volume 2, duplo com canções relegadas no primeiro registro.
19) KOYAANISQATSI (Godfrey Reggio), 1982
Esse é um dos exemplos em que a trilha, assinada pelo compositor erudito Philip Glass, tornou-se tão celebrada e impactante que praticamente empanou o brilho do filme. Trata-se de um documentário, se é que podemos assim o definir, “narrado” através de um painel de imagens que mostra o alvoroço da vida “moderna” (refere-se ao ano de 1982, quando a produção foi rodada). A música desempenha presença crucial na retratação da paranoia. Aliás, no filme não há diálogos, apenas uma sequência frenética de cenas desconcertantes. As peças minimalistas executadas por um mestre do gênero casaram perfeitamente com as imagens. O filme foi o primeiro da trilogia “qatsi” que inclui POWAQQATSI e NAQOYQATSI do mesmo diretor, também “trilhadas” por Glass. Após a bem sucedida empreitada, Glass tornou-se bastante requisitado, assinando trilhas de filmes importantes, como AS HORAS, MISHIMA, KUNDUN e TRUMAN O SHOW DA VIDA.
20) PARIS TEXAS (Wim Wenders), 1984
Além do icônico ASAS DO DESEJO, o diretor alemão Wim Wenders realizou obras-primas como BUENA VISTA SOCIAL CLUB, documentário que resgatou uma geração esquecida de artistas cubanos. O produtor musical foi o guitarrista californiano Ry Cooder, com quem Wenders já havia trabalhado em PARIS TEXAS, Palma de Ouro em Cannes. Aqui, os cortantes solos de guitarra de Cooder fornecem o clima melancólico e agreste dos rincões desérticos do Texas onde se desenrola a trama. Outro documentário a destacar de WW é O SAL DA TERRA sobre a obra do fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado.
É domingo e ele vai à casa de um tio. Não gosta de visitas familiares, mas nem sempre é possível evitar. Para aumentar o desconforto, o fato de desprezar tais encontros já é motivo de culposos sentimentos – e o menino sofre duas vezes. Primeiro consigo mesmo, devido a essa intolerância aparentemente inexplicável e injusta – sobretudo injusta; depois pela ocasião mesma do encontro, confusão de afagos e venenosas ironias. E sempre o mau jeito, ou o pejo, de revelar ao menos por indícios o amor.
Talvez a prévia decepção é que se converta em hostilidade, de que ele no fundo queria desarmar-se para se abrir à necessária ternura. Necessária, possível. Por que era sempre mais fácil com os estranhos?
É domingo e o menino vai. Entufado, mais menino do que nunca, engolfado em mágoas que não consegue explicar (nem direito sentir!), vai ao dever social como para um sacrifício. Vai compor as aparências mas, por que negar?, vai também pela curiosidade de se ver pelos olhos e gestos e tiques dos que lhe são carne e sangue. Acaso ele era melhor? Vai como quem tenta, mais uma vez, descobrir o caminho que leva à aceitação, para umidificar o deserto interior em que há muito vinha se crestando.
E vai até como quem se arrepende de ter criado o drama – ele, o imaginoso e difícil –, os fios e nós cegos que acabaram enredando-o numa teia de incompreensão e espanto. Queria desatar-se, respirar.
No caminho se conversa risonhamente sobre tudo, a euforia dominical tornando os parentes camaradas. Faz sol, venta um pouco, e todos (o menino também) parecem transfigurados pela força dessa manhã. Agora não é ocasião de mágoa ou medo; agora é para esquecer o ranço dos anos, a indelével inscrição na carne, na alma. Agora é como um entreato que faz parte da encenação mas desobriga as pessoas do papel – isso que foi se convencionando devagar, e com força, ao longo do tempo. Agora parece um instante gratuito, autônomo, do qual emerge um estranho desejo de absolvição.
Quando chegam à casa do tio, ainda estão inebriados. Vem o parente que se tornou distante e manda todos entrarem. Nem precisava. Respondendo e perguntando, era mui cordato o dono da casa; ficava-se bem à vontade. Ele estava entre os humildes da família e vivia essa condição com uma alegria que poupava aos outros o remorso. Sua casa devia ser lugar de concórdia. O menino se penitencia por não ter lembrado isso, confundindo um manso, uma ovelha boa, com alguns os parentes maus.
Sentam-se todos e se põem a conversar. Lembranças vêm à tona, e o domingo retrocede a outros cenários; a família curte uma espécie de saudade jovial. Tudo leve, sem sombras. Mas não por muito tempo. De repente salta o comentário suspicaz e malévolo de alguém vigilante:
— A mulher dele, cadê? (A mulher desse tio, realmente, ainda não dera as caras.) Será que não quer ver a gente?
A insinuação fica no ar como um pássaro tentador que logo os parentes, vorazes, se apressam em segurar.
Como perspicaz observador do seu tempo, Gregório de Matos soube compreender bem o papel da aparência naquela sociedade, o que o levou a compor um soneto intitulado “Remédios para enfidalgar”. Os tempos são outros, a sociedade é outra e os estratos sociais são outros. É verdade. Porém, embora com lugar diferente e mais distante do “ser”, o “aparecer” continua presente. Tem, inclusive, efeito curioso em determinados sujeitos inconscientes de sua classe.
Assim, gostaria, agora, de propor uma receita para se aburguesar (na aparência).
Ostente algum sobrenome. Se soar minimamente gringo, melhor. Caso tenha nascido no período de decadência da família e aquele penduricalho em seu nome nada mais possa significar, não há problema, continue a se gabar dele.
Há parentesco com certa personalidade conhecida? É forçoso falar: “sou parente de fulano de tal”, mesmo que o tal fulano nem saiba quem é você. Os familiares defuntos são mais úteis para isso, pois já não podem dizer “Meu parente? Conheço não”. Lembremos, aqui, do nosso boca do inferno: “saiba a todo o cavalo a parentela, o criador, o dono e o defeito.”
É necessário se endividar, não sendo a dívida a da necessidade. Quando não tem, mas precisa mostrar, o caminho é um só, o encalacramento. Apesar de seu salário não comportar os costumes frívolos dos sujeitos de pompas nobres, é inescusável não procurar os reproduzir. Acima de tudo, nunca aperte os cintos, você tem uma imagem a zelar. O bom remediado que se acredita burguês sempre tem um débito a saldar e a esconder.
Nos tipos que observei, é muito comum o tal “ser chique”. Admito ao leitor, não consegui compreender bem o que seria isso. Todavia, alcançar esse ideal não parece difícil, tirar foto com uma taça de vinho é o suficiente.
Despreze tudo que seja nacional, principalmente se for popular, e glorifique o que é de fora. Dizer que vai à roda de samba não pega bem. “Madame não gosta que ninguém sambe”, como o objetivo é se assemelhar a madame, adote a mesma opinião.
Além de tudo, finja intimidade com outros países. Sem esquecer de os enaltecer, fale da Itália ou dos Estados Unidos no almoço como se lá ocorresse o seu passeio dos finais de semana. Comparações são sempre bem-vindas, até quando não possuem qualquer sentido de existir e a valorização do estrangeiro menos ainda.
Esses são só alguns exemplos, vejamos o fundamento: a mimese. Pelo menos, a sua tentativa. É imprescindível a pose, saber fingir ser. “Faça mesuras de A. com pé direito.” Claro, faltará o essencial, o que faz o burguês ser burguês. Tudo bem, macaqueie; no fundo, é disso que se trata.
Não se importe com os verdadeiros lordaços, que lhe olham com o ar de desdém que lançam a todos os trabalhadores (como você), mas com o acréscimo do ridículo imputado às suas práticas. Não ligue para isso. Afinal, tu crês que é um deles, então, seja firme, siga seu devaneio.
Acreditando corresponder ao que não é, repugne os seus, como o burguês autêntico lhe repugna. Procure se aproximar desses e se distanciar daqueles; quando, na verdade, está colado com os que trata como outros e apartado dos que você vê como seus irmãos. Nisso, pode até tentar criar (na sua mente) uma nova classe, uma suposta média.
Não dê atenção ao que os outros irão pensar; ademais, haverá sempre “quatro asnotes de bom ouvir e crer”, que irão se juntar a você, a fim de completar a manada. Porém, se sonha com os ricos, vive entre os pobres e compartilha com eles os mesmos pesadelos.
Nos enredos de futuro catastrófico um dos temas mais recorrentes é a invasão da Terra por alguma raça alienígena ultra avançada. Os aliens chegam enfurecidos e destroem a humanidade e o que chamamos de civilização. Nem sempre por completo porque sobram alguns homo sapiens que se organizam e por fim derrotam o invasor mega tecnologicamente avançado.
Bom, eu penso eventualmente nessa ideia. Não a extinção da raça humana mas a ameaça vinda de algum ponto do espaço. No livro “3001: A última odisséia”, do Arthur C. Clarke, ele trata dessa ideia usando personagens que conhecemos desde “2001: uma odisséia no espaço”. A saber, os astronautas, HAL 9000 e o monolito.
O motivo dos extraterrestres no livro do Clarke para nos exterminar é bem conhecido de todos nós: nossa selvageria e capacidade crescente de eliminarmos uns aos outros. Não vou contar de quem parte a iniciativa de nos varrer do universo nem como termina tudo. Vai lá e lê o livro.
Mas me pego pensando o seguinte: e se um dia nos depararmos com essa situação? Ali, diante da encruzilhada entre a vida e a extinção, o que ou quem nos salvará? Para mim a resposta é simples: Bethoven.
O gênio alemão nos tirará do patíbulo, livrando nossos pescoços selvagens do cutelo alienígena.
Por que? Basta que a missão punitiva extraterrestre escute “Ode a alegria”. Ela é o quarto movimento da Nona Sinfonia e tem um coro que entoa os versos de outro alemão, Friederich Schiler. O poema apela à fraternidade e busca o melhor lado do ser humano.
Dito assim eu não disse nada a respeito dela. Porque ela é indescritivelmente bela. Confesso, diante da meia dúzia de leitores que gentilmente passeiam seus olhos por minhas crônicas, que eu choro quando escuto “Ode a alegria”.
E minhas lágrimas se reuniriam as dos aliens que enxugando os olhos – ou algo de mesma função – diriam entre eles: são selvagens mas se fizeram música assim merecem uma segunda chance.
Até os dez anos me chamei Donato, embora meus pais nunca tivessem gostado desse nome. Por que me batizaram assim é um mistério. “Não está com o rosto definidoainda”, diziam. “Quando for adulto e sua cara indicar que nome deve ter, mudaremos.” E assim foi. Aos doze, com a mudança de voz, decidiram que Donato já não combinava comigo, e que o melhor nome para meu rosto recém-estreado na adolescência seria Adalberto — Beto para os amigos. Esse nome durou até a noite de núpcias, quando, no momento crucial, minha mulher me chamou de César. “Céeeesar!”, gritou ela, antes de largar o corpo na cama, suado e satisfeito. Ela casou com o Beto e tirou a virgindade do César, meus amigos faziam sempre a mesma piada.
Desde então mudei de nome em outras três ocasiões: no escritório em que fui trabalhar eu me sentia Oswaldo, e assim me apresentava a todos; na faculdade, Péricles; na mesa de jogo, antes de bater o punho e gritar ‘Truco!”, Evanildo.
Meus amigos se confundiam. Para facilitar a vida deles, aceitei que colocassem no meu pescoço uma tabuleta com o nome vigente e, mesmo assim, ficavam pouco à vontade quando tinham de me chamar. Achavam essa mudança de nome uma bobagem. “A gente nasce, ganha um nome e fica com ele até o fim, até morrer, não é esse o normal?”, perguntavam sempre. Eu respondia que eles tiveram sorte, que o rosto deles se moldou ao nome que ganharam no batismo e não havia necessidade de mudar. Não era o meu caso, meu rosto não era sempre o mesmo e, por isso, o meu nome precisava se adequar. Para tranquilizá-los, eu acrescentava que, um dia, seríamos todos iguais, teríamos o mesmo rosto e o mesmo nome gravado na pedra.
Um grupo de cientistas japoneses criaram o sistema ferroviário que uniu Tóquio a 36 cidades vizinhas.
Eles tiveram a colaboração de Blob, um sincício multinucleado macroscópico, amarelo brilhante, que também propôs resultados semelhantes nas redes rodoviárias no Reino Unido e na península ibérica.
Seu nome científico é Physarum polycephalum, e já vivia na Terra há 500 milhões de anos antes dos seres humanos.
Esse é um exemplo de como a sabedoria do idoso jamais deve ser ignorada.
Ele não possui cérebro, mas sua habilidade em encontrar caminhos mais curtos, sem conhecer o destino, é impressionante.
Sua locomoção é lenta porém precisa, e se dá a uma velocidade de 1cm/minuto, permitindo-lhe avaliar cuidadosamente seu trajeto.
Seu apelido vem do filme clássico The Blob (A Bolha Assassina) de 1988, que narra a história de uma estranha substância gelatinosa que dissolve a carne humana.
No entando, o Blob, especialista em meios de transporte, não come gente, tem apenas uma semelhança em termos de forma com a Bolha.
Um artigo de 2010 descreveu que flocos de aveia foram dispersos em uma representação de Tóquio e das cidades, e Blob criou uma rede semelhante ao sistema ferroviário de forma eficiente e tolerante a falhas.
Como é possível essa forma de mofo nos ensinar diversas alternativas para solucionar problemas práticos em nossos árduos dias e mostrar o valor da adversidade e multiplicação de seres, sem um cérebro?
Sua reprodução se dá mediante a produção e liberação de esporos, que se tornam novos “Blobs”. Eles possuem 720 sexos diferentes, sendo assim um ser com orientação sexual ilimitada e centenas de identidades de gênero.
Como na maioria das espécies, a sobrevivência é impulsionada pela diversidade genética, que no caso do “Blob” acontece quando dois organismos geneticamente diferentes se encontram e se fundem em um novo “Blob”.
Será que no futuro muito distante, nos transformaremos em uma ameba sábia sem a necessidade de um cérebro no crânio?
Se não vingarmos nos próximos milênios o cofre do apocalipse, que preserva culturas a fim de proteger a segurança alimentar global, garantirá nosso DNA pastoso.
Por vezes o menos é mais, e surge como o aspecto mais relevante em um ser simples e despretensioso, muito a frente de alguns convencidos que tudo sabem.
Era setembro. Estava ela diante do espelho a mirar-se. Já estava bem habituada a ouvir elogios mencionando a sua beleza, mas não era certo em suas formulações o que isso significava exatamente. De pé, frente ao espelho. Olhos grandes e bem abertos a olhar no vidro vivo e desafiador um rosto dotado de beleza semi-exótica – porém inquestionável – quase que como procurando pelo alheio. Estava séria e não caberiam sorrisos naquele momento. Na verdade, ninguém em seu estado normal ri diante do espelho. E ela era quase-normal. Quase.
Ela dançava, lecionava, contava histórias e atuava. Mas sentia-se mais como atriz do que como qualquer outra coisa – ah, a legião de artistas que se alimentam dos seus míseros salários de funcionários públicos que parecem ter saído do poema “Não há vagas” de Ferreira Gular. E como atriz era uma excelente filósofa. Dessas que buscam o tempo todo o “algo além” perdido nas entrelinhas da vida. Seu corpo grande e intranqüilo buscava na dança acalmar-se. Sua voz macia buscava expressar-se – a si e a voz em si – para dar sua contribuição ao mundo em forma de som verdadeiro. Ela pretendia que tudo o que viesse a dizer fosse verdadeiro, mesmo que as palavras não fossem suas ou não pertencessem ao grupo das verdades absolutas. Ela autorizava palavras de outros, mas era criteriosa para essa autorização. As histórias que contava eram histórias para um mundo melhor. E atuar.
Atuar completava sua paleta de busca por auto-conhecimento. Sua última peça, contudo, não havia tomado a direção do verdadeiro prático, ficando sua atuação presa no nível de intenção. E como quando sentimos que a nossa verdade não atingiu muitos metros além do nosso corpo – não porque não tenhamos sido verdadeiros, mas pelo fato triste de que interlocuções podem ser mais cabos de guerra ou muros, mais isso do que estradas retas.
Dar um tempo com teatro seria necessário. Chegando em casa depois da última apresentação, olhou desconfiada para o velho companheiro de vidro reflexivo e tomou a decisão: “Preciso mudar um pouco”.
Novo corte de cabelo. Nova cor. Feito. Olhos nos olhos no espelho mais uma vez – e isso era sempre meio constrangedor, pois não se confia em espelho. Os olhos do espelho pareciam-lhe mortos, como olhos de tubarão. Quase pediu conselho ao espelho, até lembrar que não se pode confiar neles – em nenhum deles. Abaixou a cabeça e virou-se, andando noutra direção, para poder assim melhor pensar. Pensou em viajar. Sair da cidade por uns dois dias. Talvez três. Talvez um primeiro passo para uma temporada bem maior que o imaginável. Fazer mala. Embrulhar-se para viagem. Mala feita. Ser físico devidamente embrulhado. Mulher devidamente embrulhada e estômago também. A essa altura já hesitava em dar uma última olhada no companheiro de vidro vivo. Medo dele. Saiu sem se conferir a beleza. Pés no corredor do prédio, trancou a porta. Elevador ou escada? Escada.
Desceu. A descida foi longa, mais do que seria uma subida. Pensou dezenas de pensamentos por degrau, como uma metralhadora giratória cega. Chegando lá fora – no ante-começo de lá fora – perturbou-se com a monstruosa luz cinza da tempestade que se anunciava com suas músicas de vento. Parou. Pensou: “Esqueci algo. Não posso sair assim”. Voltava. Subiu com a mente menos cheia e menos giratória. Desta vez de elevador.
Fechadura. Tapete. Portal a ser atravessado rumo ao espelho. Espelho triste pela ausência de sua dona. É isso. Ela era, sem que percebesse ou lembrasse, dona do espelho. Passou um batom vermelho. “Espelho. Meu espelho” – o chamou finalmente de seu. O vermelho do batom lhe trouxe uma súbita alegria. Quase sorria para o rosto que ficava mergulhado na parede, como mágica.
Antropologicamente, entendeu porque os índios do século XVI foram vencidos pelos espelhos. Espelhos de mão nos aprisionam dentro do nada.
Espelhos de parede aprisionam nossos dobros dentro da parede. Só bebês e animais sabem que quem vemos dentro da parede através do espelho não somos nós. Terminou então de passar seu batom vermelho e fez seu movimento louco: sorriu finalmente para o espelho, com os olhos felizes direcionados aos da outra na parede – a mulher bonita que mora dentro da parede.
Alívio. Enxergou a beleza da mulher-gênio dentro da parede, e das belezas dentro de si como mulher pensante de carne, osso e desejo. Fome. Geladeira. Televisão. “Amanhã viajo”, pensou, desta vez alegre e em paz. Na última caverna da alma o doce som dos aplausos. O que houvera antes esquecido era a mulher que morava dentro da parede. Era setembro.
Daniele sabe me intimidar. É uma mulher sem par. Ela tem um quê de melindrosa, sarcástica, que eu adoro. O timbre de sua voz flutua até os meus ouvidos, é algo divino como uma canção de Debussy, e eu me sinto inebriado e confuso. Toda vez que a vejo é um desconcerto total, fico abestalhado, sem reação. Talvez seja porque ela não dá a menor bola pra mim. Não sou estragado, me considero mediano, “bem parecido”. Tenho me esforçado bastante para ter uma vida, até certo ponto, segura. (Ouvi de meu pai que mulher gosta de segurança e fiquei com essa frase cravada na cabeça). Ela já está estabilizada, “com a vida ganha”; é servidora pública federal, passou nova, ou seja, cedo sabia o que queria e correu atrás. A sua garra me dá ânimo para continuar na trilha do sucesso. Filha de dona Fátima, grande amiga de mamãe, frequentou muito a minha casa quando menina. Tivemos um namorico, coisa de adolescente, mas ela me dispensou, ou me trocou por um famosinho do bairro. Foi uma dor torturante. Chorava ouvindo as nossas músicas prediletas da banda The Cranberries. Era o auge do CD que tinha a música Animal Instinct. Ainda hoje me emociono ao escutá-la… Em sua defesa, digo que mudou muito de gosto: é refinada e exuberante em seus trajes minimalistas, e namorou homens maduros e educados. Conheci à distância um a um. Não a mereciam, fato! Eram miúdos para a sua bendita inteligência. Inclusive sei que Daniele Belfort é sapiossexual. Não há chance para quem não tenha o mínimo de intelectualidade. É por isso que me aperfeiçoo. Há dois anos está solteira, por vontade própria, porque, como disse, é extremamente bem resolvida, linda e inteligente. Interessante é que teve um rápido caso com Anna, sua colega de trabalho, mas viu que não era a sua praia. Ainda chegaram a se juntar, por dois meses, o que me atormentou profundamente, porque, assim, as minhas chances eram pouquíssimas. Acho, agora, que o que me desfavorece são a idade e as conquistas tardias. Em termos de estudo, ando bem, concluindo o doutorado em Psicologia e termino, neste semestre, meu curso de Psicanálise. Vou convidá-la para a minha formatura, se é que me dará ouvidos – certo, você já percebeu que sou inseguro, e isso me atrapalha muito. Ainda sonho com o dia em que ela irá olhar para mim de um jeito diferente. Vivo por isso. Sonho com isso a todo instante. Daniele é minha obsessão. Sei de todos os seus passos. Acompanho de longe. Não pretende ter filhos (eu também não). E, como disse, é bem resolvida financeiramente. Tem um apartamento lindo, em que nunca entrei montado; conheci, com o corretor de imóveis, antes de ela morar. Essa próxima semana será triste, porque ela viajará para Buenos Aires com as amigas. Estará longe de mim, mas nunca dos meus pensamentos.
A internet é a cama desarrumada do mundo. Ou melhor: o quarto desarrumado do mundo. Dá na mesma, mas eu precisava começar minha crônica de hoje com alguma bobagem. Sinceramente, abrir um site hoje é como entrar na casa de um adolescente: panela suja, meia em cima do roteador e um cheiro indefinido de pizza com desespero. Cada link é uma gaveta aberta; cada anúncio, uma roupa esquecida da ex. E o pior: a gente fica à vontade nesse caos, como se fosse nosso.
Recentemente, precisei do endereço de um médico antigo, que já tinha saído da clínica onde me consultava, mas, quando percebi, estava navegando por outros mundos: quatro lançamentos de livros que não pretendo ver — porque, se eu for comprar tudo que lançam, e meu Deus, como lançam, num país em que quase ninguém lê, meu orçamento não aguenta. Fora isso, a quantidade de coaches disso ou daquilo é insuportável. Cada página é uma palestra ambulante. Eu só queria um endereço e ganhei uma maratona de autoajuda e promoções que nem pedi.
Navegar na internet é, muitas vezes, como ir ao supermercado e, no meio das compras, esquecer o item mais importante. É como sair com o guarda-chuva, passar no banco, engatar uma conversa com um estranho e, quando percebe, o guarda-chuva ficou lá, abandonado. Aí você sai molhado. Só que, na internet, o guarda-chuva perdido é a informação que você realmente queria, e a chuva é uma enxurrada de links inúteis, anúncios e distrações.
Outro dia, abri meu direct do Instagram para ver uma mensagem de um amigo, alguém de quem estava com muita saudade, e me surge uma sugestão de “quem você talvez conheça”: uma ex-namorada. Eu ali, lembrando daquele pé na bunda horrível, dos pitis, dos bate-bocas, relembrando cada detalhe como se fosse replay de novela ruim. Fiquei um tempo atolado na memória até que, gato escaldado, removi a notificação. E pronto: paz de espírito instantânea — pelo menos até o próximo algoritmo me sacanear de novo.
E quando, no meio de uma crônica, o teclado decide que sabe mais de gramática do que eu e escreve a palavra que eu mais queria errada? Eu reescrevo, ele muda de novo. Tento outra vez; ele insiste. Parece até que o teclado tem personalidade própria — e um prazer especial em me irritar.
E quando eu vejo, já é de manhã; quando vejo, já é hora de almoçar; quando vejo, anoiteceu. Passou uma semana, duas, um mês, um ano. E eu ali, navegando, como se estivesse dentro de um looping infinito de distrações, com o mundo girando lá fora e eu preso na bagunça do meu próprio quarto virtual.
Eu me lembro de que, antes da internet, o mundo era pequeno. Tão pequeno que cabia em dois amigos — três, se muito — que ligavam no fim de semana, chamando para um chope. Na falta de um celular na mão, sobrava tempo para bater papo com a moça do bandejão, o passageiro do banco ao lado no ônibus, o sujeito da fila do banco. A gente socializava mais. Afinal, conversas reais alimentavam mais que Wi-Fi.
Sei que o que eu mais queria mesmo era que alguém desinventasse a internet, que as pessoas voltassem a ter mais conexões entre si do que esse monte de notificações que não servem para nada. Mas não vai dar. O jeito é cada um de nós — eu e você — decidir o papel que a vida real vai ocupar na nossa vida. E, principalmente, aprender a hora certa de silenciar as notificações.
Ele nasceu em Brusque (Santa Catarina), no dia 17 de março de 1928. Estão fazendo as contas? Pois é. Edino Krieger, esse mesmo que pede que “por favor” não o chame de “Édino”, com esse “E” maiúsculo acentuado, um dos maiores compositores do mundo. Pois é. O Maestro passou por aqui.1 Por acaso — o convite veio em forma de Rosa — também fui convidado para o mesmo aniversário em que o Maestro convidado também fora. Um encontro festivo e familiar. Ou vice e versos. Nesse dia, muito bem acompanhado, recebi do Maestro Edino uma alegre e divertida aula sobre a vida e a música. Tudo sem esquecer a minha bela e gostosa música nordestina, essa que para o Maestro é uma das mais ricas do mundo.
— Ah, 1berto! Eu gosto muito da música de vocês! Admiro muito o Repente. As Emboladas e Cantadores de viola. Maravilhosos! As imagens poéticas que eles conseguem criar são maravilhosas! Tem mais: métricas perfeitas e versos redondos!
O Maestro ainda contou boas histórias sobre os nossos Eleazar de Carvalho (Iguatu – CE) e José Siqueira (Conceição-PB). Sobre o primeiro, lembrou as “peças” pregadas por alunos e regidos. “Eleazar tinha uma memória fenomenal! Bastava uma leitura da peça e… estava tudo na cabeça!”. José Siqueira? “Ah, esse teve uma importância histórica na valorização do músico brasileiro! Não era muito de composição. Mas, nesse campo, – valorização – os músicos devem muito a ele”.
O papo com Edino, aos 89 anos ou quase isso, considerando que na próxima semana a essa idade chegará, graças a Deus, mesmo com toda a erudição musical que o mundo conhece, respeita e admira não tem nada de professoral. É todo sorriso a flor da pele. E se não bastasse, livre gargalhada espalhada entre uma história e outra.
E a do filho Edu, versado nos “mistérios existenciais” ou coisa parecida, que lhe perguntou no dia em que fazia 68 anos, sabendo que nessa idade ele perdera o pai, se não entrava em crise pelo fato de estar fazendo exatamente a idade em que o seu “mestre da banda” trocou de roupa e se mudou para outra cidade?
— Não tenho a idade do meu pai, seu avô, como parâmetro. Mas a da minha mãe, sua avó, que viveu por aqui quase 100 anos!
Edino é assim. Nada de professoral nas conversas. Sempre o mesmo. Estando em festa de aniversário ou depois de uma de suas muitas apresentações por aqui e alhures. Nunca destoa. Assim, por mais que insistam em dizer que de perto ninguém é normal, o maestro Edino Krieger é normalíssimo. Não existe entre ele e o mais leigo dos fãs aquele que se sinta constrangido numa aproximação.
Se essa sua rara qualidade por si não bastasse, simplicidade a toda prova, coisa mesmo de gênio, pessoa capaz de contar uma piada e sorrir com a piada contada como se estivesse contando a referida pela primeira vez, tem ao seu lado a companheira de mais de 40 anos, Neném, por todos assim chamada carinhosamente, que é somente sorriso e alegria. Um fato, esse perceptivo por todos, que a torna dezenas de anos mais jovem.
Mas nada melhor que ouvir esse mestre sem nenhuma pretensão de ser engraçado. Edino não precisa. O seu humor é tão natural quanto o seu “Canticum naturale” (1972), composto em “parceria” com os pássaros, esse fazendo coro, e os sussurros da Amazônia.
Sem aquele chato ar a professoral, repito, o maestro discorreu sobre a sua terra e família, e contou histórias que mereciam ser encerradas em um “capa dura”. Um homem de mil histórias vividas. E todas merecedoras de um livro somente para elas.
Ali, nesse dia, sábado passado, num papo entre sorrisos e suaves doses de uísque, não se encontrava o crítico de música e colunista do Jornal do Brasil (caderno B) e Tribuna da Imprensa. Mas o menino que contava – sem mesmo que fosse perguntando — sobre o porquê do seu “estranho nome”. “O Edino foi uma homenagem do meu pai a um colega de farda”.
Em Brusque, cidade natal, não havia o que chamamos por aqui de Quartel ou departamento outro parecido. Era “Tiro de Guerra”. Instituição militar do Exército Brasileiro encarregada de formar atiradores e ou cabos de segunda categoria (reservistas) para o exército, Voces sabem. Assim, o seu pai, Aldo Krieger, foi enviado para servir (de verdade) em outra cidade. E saiu dela já como “maestro” de banda de música da cidade.
Assim, por lá, graças a um superior hierárquico, o musico foi descoberto enquanto executava serviços gerais no quartel onde servia. Resultado: em pouco tempo era quase o “dono” da banda. Pois bem. Foi lá que conheceu o “Edino”, nome esse que mais tarde, em homenagem ao mesmo, batizou o seu musical filho.
O papo com Edino não tem nada daquele ar professoral nem clima de erudição, Ele não posa de “professor”. Mestre? Nem pensar. Nenhuma importância se não encontra no meio um ouvinte no mesmo nível do papeador. Suas histórias são todas contadas com o humor típico de quem estar s de bem com a vida. Sempre. Todas assimiladas por todos. Em atos rápidos e engraçados.
Nessas historias são muitos os personagens famosos que merecíamos conhecer. Não digo gozar da amizade que esses tinham – muitos tem ainda – com o maestro. São muitos. Paulo Moura, para quem escreveu/transcreveu obras para o seu sax alto, (brasiliana?) e ele gostou tanto que “fugiu” com a partitura. Vinicius de Moraes, o poetinha de quem ainda guarda boas histórias, parceirinho seu na instigante “Fuga e antifuga, quarto lugar no Festival Internacional da Canção, do ano de 1967. Maestro Hans-Joachim Koellreutter, Claudio Santoro, Guerra-Peixe e Eunice Catunda, esse que formavam o Grupo Música Viva… Mas falar sobre o compositor, o crítico musical e o produtor cultural é correr risco de ficar pelo caminho sem mostrar toda a “genialidade” do virtuose menino que iniciou estudos de violino aos sete anos com seu pai, realizando recitais no Estado dos nove aos 14 anos.
Depois do papo com esse “jovem” de 89 anos, isso mesmo, lucidez em cada frase e marcando essa com um humor típico de quem estar sempre de bem com a vida, não se leva a impressão de que ali estava um dos mais importantes compositores eruditos do mundo em atividade. Mas aquele colega que acabou de contar mais piada sobre o amigo Vinicius de Moraes. Esse mesmo que lamentava o fato de ser grande poeta, mas pequeno no essencial que tanto desejava: “Se houver reencarnação, acreditem, desejaria voltar como Vinicius mesmo. Só uma coisa: quero voltar com o pau um pouquinho maior”. E encerra a história numa gargalhada incontida.
Esse sem dúvida é o maestro Edino Krieger, um exemplo acabado da simplicidade que faz dos mestres e/ou gênios merecedor de todo o nosso respeito e admiração. Edino é esse exemplo acabado.
A minha benção, maestro!
O maestro e compositor Edino Krieger morreu na noite de terça-feira, aos 94 anos, em decorrência de complicações respiratórias e renais. Ele morreu no Centro de Terapia Intensiva da Casa de Saúde São José, no Humaitá, Zona Sul do Rio de Janeiro.↩︎
*Texto publicado originalmente em 17 março de 2017, no portal Crônicas Cariocas.
Zími entregou a Mila Cox uma sacola para discos com um LP dentro.
Ele não a havia presenteado em seu aniversário, dois dias antes.
Conhecem-se desde o nascimento de Mila Cox, e trocavam presentes eventualmente, mas sempre com alguma zoeira sutil envolvida.
O LP era uma edição nacional e comum de uma coletânea da Siouxsie and the Banshees, em bom estado de conservação.
A contracapa, no entanto, trazia uma dedicatória escrita com esferográfica, que deixava claro que alguém ganhou o disco de presente e passou adiante sem remorsos.
A dedicatória tomava quase a metade da contracapa, e Zími havia comprado por dois reais, por conta de depreciação.
Zími havia esquecido a sacola na Kombi de Silvano no dia anterior, e a encontrou naquele momento, num compartimento oculto que há no banco traseiro.
Zími falou: “Não é um disco raro, mas essa edição vem com um texto na contracapa.”
Mila Cox: “Nossa! Dedicatória de 1985! Amei! Valeu!”
Eram onze horas da noite do sábado, fazia frio e o camarim e ponto comercial dos Crop Circles era a kombi do camarada Silvano, uruguaio que morava no mesmo prédio que Mila Cox e Zími.
Mila Cox e Zími eram os Crop Circles. Um duo, com baixo, sintetizador e bateria.
Silvano definia o som deles como uma mistura de Violeta de Outono com X-Ray Spex.
Ele era músico também e atuava como uma monobanda.
Tocava sentado, usando violão microfonado ou guitarra, e fazia a bateria com os pés, uma gambiarra com caixa, bumbo, chimbal e muita silver tape.
Zími também usava um kit minimalista de bateria e tocava de pé. Era apenas caixa, prato e chimbal.
Silvano falava português sem sotaque porque vivia em São Paulo desde os quatro anos de idade.
Para pagarem suas contas, Mila Cox era copywriter, assim como Zími.
Silvano fazia carretos e entregas com sua kombi.
Ambas as atrações se apresentaram numa festa junina nessa noite de sábado.
Silvano tocou antes. Os Crop Circles haviam encerrado seu show às dez horas. Ambos os shows agradaram o público.
Esses shows aconteceram na casa de Miro, um agitador cultural do bairro da Casa Verde, que já teve uma banda de Hard Core chamada ‘Colaterais’, e queria fazer uma festa junina com rock alternativo.
Era uma casa grande, a última de uma rua curta e sem saída. Os demais moradores da rua endossaram a ideia e tudo correu dentro do previsto.
Conheceram-se num show dos Crop Circles ocorrido meses antes, em Santo André.
Tinham outro show marcado para o fim da tarde do domingo, em São Caetano.
Era como se estivessem no intervalo entre o primeiro e o segundo tempo de um jogo de futebol.
Mila Cox tinha vinte anos e sabia que a vitória só se consolidaria ao término do show do dia seguinte, caso tudo fosse mantido sob controle.
Zími e Silvano tinham quase cinquenta.
Os dois sabiam que muitos artistas com a idade deles, nos dias de hoje, começam a se preocupar com excessos, especialmente naquele momento em que uma agenda estivesse apenas parcialmente cumprida.
Quando bebiam, sempre repetiam um ao outro, em meio a gargalhadas, que só não eram completamente inúteis para o sistema, porque ainda faziam mercado e pagavam por gasolina.
Com medo de que os dois ficassem muito loucos e dessem milho no show de domingo, Mila Cox buzinava na kombi parada a cada vez que um deles cochilava de bêbado, enquanto ficavam vendendo camisetas dos Crop Circles por mais um tempo depois do show.
Quando ela buzinava, o som era tão estrondoso dentro e próximo ao veículo, que os dois pulavam de susto e ela ria.
Zími e Silvano estavam felizes porque estavam com gasolina paga e alguma bonança financeira com o show de sábado. Tomavam Domecq, cada um com sua garrafa, bebendo no gargalo.
Era o dia de aniversário de Gene Vicent, e naquele dia Silvano tocou clássicos desse mestre e de alguns de seus contemporâneos, em versões mais aceleradas, para complementar seu repertório de músicas próprias.
Silvano falou para Mila Cox: “Você deveria ter paciência conosco, e entender que sair pra tocar num sábado sem ter prejuízo financeiro como muitos artistas que pagam pra tocar, e ainda lucrar com camisetas e discos, e além de tudo ter um show no dia seguinte, num ambiente completamente diferente, com o tanque da kombi cheio! Amanhã não tem cachê. Terá o pagamento do valor de um tanque de kombi cheio de gasolina, mesma coisa que foi hoje. Amanhã quando voltar pra São Paulo e estacionar na garagem do prédio, teremos lucrado com essa logística bem elementar. Eu e o Zími somos coroas, mas você sabe que mesmo que um de nós morrer hoje, vai levantar e fazer o show assim mesmo, zumbi. Então fique sossegada. A gente já vai voltar pra casa, quando miar o movimento aqui.”
Zími falou: “Eu adoro a ideia de ter show amanhã. Eu descanso na segunda. Estou vivendo um momento sublime. Na segunda dormirei, enquanto algum escravo assalariado contemplará o próprio retrato na parede de alguma firma por ter sido eleito o funcionário do mês, enquanto seus verdadeiros superiores hierárquicos estarão em orgias, em plena manhã de segunda. E em seguida um gerente patético o chamará de mocorongo e o fará voltar ao trabalho. E nós poderemos lamentar essa condição social mórbida criando mais uma música.”
Mila Cox: “Eu tenho paciência suficiente. Sei que a Carole King não gravou o ‘Tapestry’ do nada. Foi preciso passar por muita coisa antes de entrar definitivamente pra história. Está tudo bem, agora nós temos uma kombi. Antes de mudarmos pro apartamento e conhecermos o Silvano, foram dois anos com um Chevette 79, e naquele tempo o Zími tinha pavor de fazer shows em dias seguidos. Vocês já estão cozidos por essa bebida e nem sentem o frio que está fazendo. Mas eu não reclamo. Fazer merda virar adubo tem que ser um lema quando ainda se está construindo uma reputação.”
Zími: “Alcançamos alguma prosperidade sem sucumbir a ideias megalomaníacas de estrelato. Seguirei com essa postura em tudo que eu fizer. Lembre-se sempre que se nós tivéssemos nos transformado naquilo que nossos pais sonharam pra gente, teríamos um destino tão diferente que nem é bom tentar imaginar. Então estar aqui é uma glória. Expectativas exageradas sobre o futuro diminuem a importância do nosso presente vitorioso. Além do mais, São Caetano é perto.”
Mila Cox: “Você pelo menos fez faculdade. Pelo menos um de nós. Eu ainda sofro com esse tipo de pressão. A vida acadêmica me tomaria um tempo precioso.”
Zími: “Fiz a faculdade de jornalismo apenas pra me livrar dessa pressão. Não reclamo daquele tempo. Hoje eu vejo no que meus colegas se transformaram e agradeço ainda mais pela minha sorte. Com diploma, ainda que inútil pra minha vida prática, sem filhos, com uma banda, e tentando prolongar a juventude sem fazer um papel ridículo.”
Ao redor da kombi, estacionada na frente da casa de Miro, adultos conversavam e bebiam, crianças brincavam, cachorros passavam farejando alimentos que caíam no chão, e uma trilha sonora mais tradicional em festas juninas era o que se ouvia naquele momento.
Pessoas que sabiam que a segunda feira chegaria rápida e impiedosamente, dançavam bêbadas sabendo com o sossego de estarem próximas de suas casas.
Eram cerca de duzentas pessoas.
Silvano pensava secretamente se realmente valeria a pena voltarem para casa, ou se seria vantajoso dormir na kombi com os equipamentos, e na tarde seguinte seguir para São Caetano e fazer o show.
Dessa vez, mais duas bandas tocariam: Silvícolas e Secreção.
Zími falou: “Amanhã será outro dia de glória. Vamos tocar antes das duas bandas. É um jogo ganho. Há um sabor especial em fazer a nossa parte e ter mais dois shows pra assistir. Gosto de tocar domingo. A atmosfera não é carregada daquela urgência em se divertir a qualquer custo. Os Silvícolas são ‘posers’, certamente vai ser engraçado de assistir. Ouvi umas músicas na internet e não consegui entender se eles fazem sátira com o ‘hair metal’ ou se realmente se levam a sério. Espero que seja sátira. O Secreção tem umas músicas boas, mas vamos ver se ao vivo chamam a atenção. Mas gosto da forma como eles desprezam o sistema e todo tipo de estrelismo no comportamento de quem se torna afetado por ter uma banda e consegue agendar um show. Musicalmente são de uma linhagem derivada do Minor Threat.
Eu não sei se a pessoa que chamou essas bandas tão diferentes fez de propósito ou se faltou critério. O antagonismo entre eles é brutal. Mas é bom misturar. Não é possível que vá rolar alguma treta. Mas se rolar, o Silvano vai filmar pra colocarmos num documentário futuro.”
Silvano: “Ainda existe treta desse tipo? São moleques criados pela avó, não vai ter nada disso. Além do mais, será outra festa junina!”
Mila Cox: “Existe gente cretina o suficiente pra tudo que se imaginar, mas eu conversei com eles pela internet, vai ser sossegado. O público que eles vão levar será as namoradas e meia dúzia de amigos também criados pela avó.”
Zími: “Sim, são moleques da sua idade. Vão ficar com vergonha de fazer qualquer merda juvenil depois que o Silvano e nós tocarmos. Provavelmente eles têm grandes expectativas sobre o futuro, e como quase ninguém os conhece, não vão querer queimar o filme.”
Por volta da meia noite, as pessoas começaram a se despedir e ir embora.
Mila Cox falou: “Vamos embora, temos que atravessar o rio Tietê pra chegar no centro. É um rolê. Antes que fiquem ainda mais bêbados.”
Ao ver abortada sua ideia secreta de estacionar perto de alguma loja de conveniência e dormir na kombi, Silvano se ajeitou ao volante resmungando sutilmente.
acredito que haja dentro em mim uma separação entre corpo e espírito, espírito e mente. a cabeça pensa de uma forma e o corpo age de maneira diversa, nunca se coadunam em alma de ser. sou o intervalo exato, inexpressivo, entre o talvez e o se e o quando será sendo que sou este ser, de si ausente, defeituoso e desengonçado.
Se te olhasse de novo, te perceberia Se eu soubesse enxergar, ah, se soubesse… Quão terrivelmente felizes Seriam meus dias
Temo não saber o depois. Pois quem nunca se perguntou… “E agora, o que vem”?
Deixo vir. Mas temo… Não saber receber.
Temo a teima de não saber Ser para saber. Temo ter de temer, e temer… E não viver outra coisa, Não ver a beleza, Fazer do outro jeito, Viver ao contrário,
Não acertar nunca, Estar sempre ocupado De erros e não saber fazer Outra coisa senão ser.
Mas se eu soubesse te ver Bastaria um olhar.
Atravessado por um longo suspiro Ver-te-ia. Como se fosse a mais bela Maneira de errar.
E desejaria que em todos os meus confusos desejos Não sobrassem acertos. Te teria em meus segredos E através de tais erros Não haveria mais medo, nem dúvida Coisa alguma que não fosse Sem jeito, sem tropeço
Sem ter onde cair e me levantar. Desejaria esta vida E não outra.
E por desejar esta, E não aquela, Não teria de ver assim, pelos olhos De quem sabe tudo A miséria, A quem errar lhe pareça tamanho absurdo Que se atam os olhos Para nunca ver transbordar a vida No olhar.
Pois é assim que vivo: Ao meu ver, Sem saber e sem querer. Quando queres, aprisiona-te. Pois precisas ver. Quando enxergas, então sabes como amar.
E por viver assim, Quiçá fosse o fim E tu, serias o começo. E pelos meus primeiros erros Saberia, enfim, a quem olhar.
E por te olhar assim não sobraria a pressa. A vista seria o preço. E a ti, infinda razão de meus erros, Achegar-me-ia Para onde te pudesse enxergar.
E por tua chegada Contar-te-ia tudo o que, por acaso, Me fizeste ver. Não restaria outra coisa. Quando chegaste, me fizeste aprender a amar.
E por ver o amor, voaria E passaria os meus dias A amar tudo o que, pela falta de ti, Não via;
E na evidência de tamanhos erros Não restaria outra coisa a se ver.
Se por amar-te estivesse, assim, errando, Escolheria errar todos os dias, E em todos eles, Errar te amando, E te amar.
Quando amo, entregam-me os olhos. Já não detém-me o discurso e Não prefiro mais a palavra. Basta-se a ponta do sorriso, Basta-se a força da risada.
E desse modo, percebendo-te, vi Que tudo o que mais temia Era ver o que não sabia como. Mas tu, só tu Sempre me alcançavas.
Não importa se demoras… Cada hora sempre atinge seu lugar.
Quanto a mim, Agora que a vejo, já não mais me enganam os lábios: Só aprendendo a ver, com você, Tive onde o amor Encontrar.
O vazio, cujo endereço é nômade (na pressa), é também essência humana — carrega-se como um caramujo.
O vazio como morada, cuja forma é o fazer nada.
O desespero da entrega que não afeta a vida do consumidor final.
Tanto se fazer por nada.
O suor total por um gesto que o mundo faz corriqueiramente: levar à boca e engolir, sem mastigar.
O vazio é o que se encontra quando já se leu demais.
Já fez demais.
Já deu demais.
E mesmo, ainda, depois de tanto, insiste.
O vazio é o resultado de sustentar uma imagem de força, quando se pede, aos
mais próximos, por favor, um pouco de ajuda.
É o troféu dos fortes: ninguém leva a sério a fraca franqueza de quem é visto como forte, porque o vazio é um canto de sereia rouca — estabilidade em vertigem.
O vazio é ensurdecedor.
O vazio é pesado, é surdo, é cheio, é muito, é tanto.
É estática.
E dói — dói ancestral. Dói além. Dói de dói pungentemente, palavra retrógrada, não é mesmo?
Qual o problema em usá-la, se um dia fez sentido? Bonita, intensa, fora de moda.
À palavra cabe o espaço em que repousam as outrora vitórias, agora normal[t]izadas como excesso — o mesmo espaço dos erros ortográficos: lápides em um cemitério de condecorações.
O vazio é um conjunto de excessos que ninguém quer mais.
O vazio é o lixo — todo o lixo — o fundo fétido do lixo.
O vazio é o que se encontra quando, após mil diferentes formas de se fazer estar presente — com amigos, familiares, relacionamentos profissionais —, se olha no espelho e se enxerga apenas as olheiras, a palidez, o opaco dos olhos, o silêncio.
O vazio sangra.
É onde estou agora.
Os dias amanhecem lindos, indecentes de tão lindos.
Permanecem lindos. Intocáveis, para mim.
Música alguma é capaz de alterar a dinâmica.
Todo e qualquer outro esforço, aqui, é dor e mais falta.
O alcance do vazio é uma frequência do
tudo.
Sintonizá-la não é tarefa simplória.
No vazio não há oxigênio.
Atmosfera rarefeita, há luz demais quando se quer dormir.
A cabeça jamais pausa: desgasta o pouco de vida que resta tentando se calar.
Vida como incontinência urinária: constante e desagradável, dominadora e… desfeita.
O reflexo da imagem sempre despertou curiosidade e encantou o ser humano. Ele é a metáfora perfeita para dizer a forma como nos vemos, qual a nossa autoimagem.
Estima-se que ele tenha surgido, ainda que de forma rudimentar, há cerca de cinco mil anos, na antiga Suméria. De lá para cá, vem assombrando principalmente as mulheres, inconformadas com seu reflexo no Espelho de Cleópatra, símbolo da beleza e dos cuidados femininos, desde a antiguidade.
Em O Espelho, um dos mais brilhantes contos de Machado de Assis, Jacobina lança uma tese de que as pessoas não teriam apenas uma alma, e sim duas: “Uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro”.
Sem entrar em uma discussão filosófica sobre a tese do autor, talvez seja esse o motivo pelo qual a relação das pessoas com o espelho seja de amor e ódio.
Vivemos cercados por esse olhar invertido. Não bastasse os exemplares que temos em casa, os espelhos proliferam também nos ambientes externos, expondo nossa imagem sem autorização, com a maior desfaçatez. Lojas, shopping centers, restaurantes, elevadores, a cada passo nos deparamos com um exemplar, normalmente gigantesco, a nos desnudar.
Amamos quando eles nos favorecem, odiamos quando o que reproduzem está muito longe de nossa autoimagem. E, aí, não podemos deixar de concordar com Jacobina que estamos frente ao embate entre duas almas: a de quem somos realmente, e a da aparência que pretendemos passar ao mundo.
Raramente estamos satisfeitos com a versão que o espelho retrata. Por isso mesmo, os designers e arquitetos têm toda uma estratégia para tentar acariciar nossa autoestima. Tudo é estudado no momento de escolher um exemplar para colocar na parede, no teto, ou atrás daquela porta do armário que nos diz se devemos ou não sair com o visual escolhido. Uma inclinação de poucos milímetros pode ser suficiente para dar um comprimento extra para as pernas; vidros com corte côncavo afinam a imagem, luzes pelo lado de trás realçam o brilho da pele.
Os subterfúgios são inúmeros, mas a realidade é que nunca estamos totalmente em paz com aquele que escancara o que nos esforçamos por disfarçar. Em casos extremos, a vontade é de, simplemente, quebrar o espelho para eliminar totalmente o algoz.
Mas… todo o cuidado é pouco! A superstição popular, oriunda de uma crença dos gregos antigos, adverte que quebrar um espelho é destruir uma parte da própria alma, o que pode indicar mau agouro, ou mesmo a morte. Morte de qual de nossas duas almas? Só perguntando ao Jacobina.
Na última aula de Pilates, o assunto que movimentou os ânimos foi: quem matou Odete Roitman?
Quando Beth trouxe a questão à baila, imediatamente, Tatiana revirou os olhos, fechou o sorriso e lançou:
— Acho essa novela um lixo. Nem de longe se parece com a original. Não assisto. Me recuso.
O clima pesou mais do que os halteres. Deu para perceber o mal-estar de Beth ao se dar conta de que puxou uma conversa que não despertou interesse, ou pior, causou nítido desagrado.
Sabe aquele gosto amargoso da rejeição? Pela carinha dela, ela sentiu.
Nilce, mais simpática e mais compreensiva com os pecados do cotidiano, amenizou o clima:
— Também prefiro a novela original, mas tô gostando de Vale Tudo. Pra mim, quem matou foi a Celina. Ela sempre invejou a Odete.
Beth, aliviada por encontrar eco para o seu interesse, mas ainda receosa de tomar outro golpe, disse quase sussurrando:
— Eu desconfio da Maria de Fátima. Aquela é má de verdade.
Tatiana, decidida a inundar o ambiente com seu mau humor ou apenas se aproveitando do disfarce da sinceridade para trucidar a colega do Pilates, soltou:
— Essa novela é tão ruim que eu acho que a Odete se suicidou. — Um risinho debochado acompanhou a afirmativa.
Eu, que até ali estava calada, resolvi me meter. Aquela gosma de superioridade já estava me incomodando. Mandei na lata:
— Com um marido maravilhoso daquele, acho difícil ser suicídio.
— Nunca achei o Cauã bonito.
— Ah, Tatiana, aí já é um problema de mau gosto seu.
A gargalhada da amiguinha oprimida rasgou a atmosfera da sala.
Continuei:
— Concordo com você, Tatiana, que a novela é fraca mesmo, mas adoro. Não perco um capítulo. A vida é assim, tem coisas que não prestam, mas a gente gosta.
— O corpo dele é bonito, mas a cara é feia — confessou Tatiana, de forma menos árida.
— Então, deixa ele para mim.
Rimos todas juntas.
Moral da história:
1. A amargura tem poder de contágio, mas o humor é um antídoto potente.
2. Algumas pessoas saem de casa dispostas a nublar o tempo de quem encontrar. Sejamos solares!
3. Gente que gosta de se gabar do que é, ou tem, ou se acha dona da verdade, é desagradável, desinteressante e solitária. Se tiver que conviver, emane energia positiva, humor e criatividade. O bem precisa vencer.
4. Convivência é lugar de troca, não de exibição. Podemos discordar, não se identificar, se opor, mas com responsabilidade emocional e respeito. Para palavras-espinhos, revide com palavras-pétalas.
Ele andava triste, sem ânimo, às vezes com vontade de morrer. Os amigos notaram o seu estado e o aconselharam a procurar um médico. Recusou com veemência, pois não acreditava em medicina para a alma.
Mas uma noite teve um sonho esquisito. Sonhou que era um macaco pequeno, o único macaco entre seus irmãos. A mãe o olhava com indisfarçável repugnância e hesitava entre alimentá-lo ou deixá-lo morrer de fome. Ele então chorava, gritando e agitando uma campainha. Isso provocava a raiva do pai, que abraçava a mulher e o ameaçava com um facão. Enciumado, ele procurava um canivete para matar o pai mas era impedido pelos irmãos, que resolviam levá-lo para um zoológico. Lá o enfiaram numa cela, onde ficou se debatendo até que um funcionário chegou junto dele e perguntou: “O que é que está havendo? Fale! Fale!”. Não conseguia dizer nada.
Ficou tão intrigado com o sonho, que decidiu vencer o preconceito e consultar um psicólogo. Mas quem? E, sobretudo, de que linha? Resolveu divulgar o sonho na internet e aguardar sugestões. Eis alguns e-mails que recebeu:
1) Seu sonho reflete um complexo de Édipo mal resolvido. Você e o seu pai disputam o amor da sua mãe, daí o ódio que sente por ele e o desejo de matá-lo. A oposição entre o facão e o canivete é uma representação metafórica da inveja do pênis associada ao temor da castração. Sua terapia deve ser psicanalítica, e de base freudiana.
2) Impressionou-me, no seu sonho, a repugnância da mãe ao constatar o aspecto simiesco do filho. A dúvida entre alimentá-lo ou não é uma clara metonímia do conflito entre o seio bom e o seio mau. Você ainda hoje não sabe se ela o ama ou o odeia, e precisa resolver esse conflito. Do contrário, a sensação de desmamado o acompanhará pelo resto da vida. Sugiro-lhe uma psicoterapia kleiniana.
3) Seu sonho é carregado de significantes — a referência ao som da campainha, por exemplo. Uma das onomatopeias para esse objeto é “ding”, que remete à Coisa (Das Ding), ou seja, ao Objeto Perdido. Sintomaticamente, você não fala. Se não fala, não tem o falo, o que não é nenhuma falácia (talvez uma faloácia). A ausência da fala/falo o deixa fulo e mostra que você se encontra numa posição infantil diante do Nome do Pai. É preciso trabalhar isso. Procure já um terapeuta lacaniano.
4) O sonho é claríssimo, ora. O macaco representa a porção animal que você se recusa a inibir diante do pai opressor. É preciso dar vazão a essa torrente de instinto por meio de uma terapia regressiva, que o reconduza à liberdade da horda primeva. É preciso soltar o grito primal.
5) Esqueça qualquer tipo de simbolismo para esse sonho. O motivo do seu sofrimento são pensamentos errados. Posso acompanhá-lo a um zoológico, em cinco sessões, para mostrar que você não é macaco coisa nenhuma. Compararemos seu comportamento com o dos símios, e você se convencerá de que gosta de mais coisas além de banana e não consegue andar com tanta destreza sobre o tronco das árvores. Recomendo-lhe (e me apresento) um terapeuta cognitivo-comportamental.
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