Crônicas Cariocas

  • O Poema da Crônica

    Neste final de semana, chega ao fim meu descanso ou férias de inverno em Salvador.

    Como assim, férias, se sou aposentada?

    Ah, mas férias não significam apenas pausa do trabalho ou dos estudos. Recesso, férias, repouso, trégua, ou algo similar pode ser o desligar-se no tempo, o ócio criativo, a desordem feliz da cronologia da vida.

    No meu caso, é a vadiagem da alma. E do espírito.

    É a vida que não é vista nem dividida com ninguém, em que você é ao mesmo tempo o herói e o bandido da sua própria história.

    E aqui, sentindo a brisa do mar, o vento balançando as folhas dos coqueiros, o som das ondas que batem na areia, divago…

    E, como sou generosa, divido com vocês as minhas dúvidas, alegrias e redescobertas. 

    Como aconteceu agora, ao me deparar com este velho e sempre novo poema, perdido em uma página qualquer do mundo virtual.

    Leia lentamente, como quem toma café com um amigo.

    E leve consigo aquilo que te tocou:

    Desiderata

    Max Ehrmann

    “Siga tranquilamente entre a inquietude e a pressa, lembrando-se que há sempre paz no silêncio.

    Tanto quanto possível, sem se humilhar, viva em harmonia com todos os que o cercam.

    Fale a sua verdade mansa e calmamente e ouça a dos outros, mesmo a dos insensatos e ignorantes — eles também têm sua própria história.

    Evite as pessoas agressivas e transtornadas, elas afligem nosso espírito.

    Se você se comparar com os outros, tornar-se-á presunçoso e magoado, pois sempre haverá alguém inferior e alguém superior a você.

    Viva intensamente o que já pode realizar.

    Mantenha-se interessado em seu trabalho, ainda que humilde — ele é o que de real existe ao longo de todo o tempo.

    Seja cauteloso nos negócios, pois o mundo está cheio de astúcia, mas não se deixe levar pela descrença. A virtude existirá sempre.

    Você é filho do Universo, irmão das estrelas e árvores. Você merece estar aqui.

    Mesmo que não possa percebê-lo, a Terra e o Universo seguem cumprindo o seu destino.

    Muita gente luta por altos ideais, e, em toda parte, a vida está cheia de heroísmo.

    Seja você mesmo.

    Principalmente, não simule afeição, nem seja cínico em relação ao amor,

    pois, diante de tanta aridez e desencanto, ele é tão perene quanto a relva.

    Aceite com carinho o conselho dos mais velhos, mas seja compreensivo com os impulsos inovadores da juventude.

    Alimente a força do espírito, que o protegerá no infortúnio inesperado.

    Mas não se desespere com perigos imaginários — muitos temores nascem do cansaço e da solidão.

    E, apesar de toda disciplina, seja gentil consigo mesmo.

    Portanto, esteja em paz com Deus, qualquer que seja sua concepção d’Ele.

    E quaisquer que sejam seus trabalhos e aspirações,

    na fatigante jornada da vida, mantenha-se em paz com a sua própria alma.

    Acima da falsidade, dos desencantos e agruras, o mundo ainda é bonito.

    Seja prudente.

    Faça tudo para ser feliz.”

    Com carinho, Maria Elza.

  • ORDEM, PROGRESSO E… AMOR

    “O amor vem por princípio, a ordem por base / O progresso é que deve vir por fim / Desprezastes esta lei de Auguste Comte / E fostes ser feliz longe de mim” (POSITIVISMO, Noel Rosa e Orestes Barbosa)

    Bandeiras são símbolos que remetem à identidade de uma nação. Constituem-se em autênticas obras de arte por sintetizarem os valores de um povo usando apenas tonalidades e elementos gráficos e temáticos sobre um fundo retangular.

    Aqueles que conceberam a bandeira brasileira, entretanto, deliberaram que as cores (o verde das matas, o amarelo do ouro e o azul dos céus), o losango, a esfera e as estrelas (representando as unidades da federação) eram insuficientes e resolveram encravar uma faixa branca contendo a divisa ‘ORDEM E PROGRESSO’.

    Ideia de jerico! Bandeiras não deveriam conter palavra nenhuma, tanto que são raríssimos os exemplos de países que apõem dizeres em seu símbolo nacional. Uma ou outra traz uma epígrafe em latim e, no caso de países árabes em que o islamismo está arraigado na vida social e política, algumas trazem a inscrição “Allahu Akbar” (“Deus é Grande”), o que não se aplica em nações onde a o Estado é laico.

    Ao contrário de símbolos e cores (representação visual) que são atemporais, palavras de exortação, ainda por cima expressas no idioma nativo que estrangeiros não entendem, envelhecem com o tempo. Refletem o ‘zeitgeist’ (espírito da época), o conjunto de valores prevalecentes na ocasião em que foram concebidos, em nosso caso, início da República (fim do século XIX). Tal qual as ideias que exprimem, tornam-se anacrônicas.

    Sem falar que os termos ‘Ordem’ e ‘Progresso’ evocam os tristes tempos da ditadura. São palavras datadas que traduzem o ambiente das casernas e refletem os jargões idealizados pelos militares para um governo exemplar: implantar ‘ordem’ para impedir manifestações contrárias, subversivas (‘desordem’) e enaltecer o ‘progresso’ a todo custo, atropelando preceitos como justiça social e conservação ambiental.

    Ao invés de ‘Ordem e Progresso’, particularmente prefiro ‘Solidariedade, Harmonia e Paz’. O lema da Revolução Francesa, ‘Liberdade, Igualdade e Fraternidade’ também é inspirador. Outros rebateriam com ‘Deus, Pátria e Família’ (Deus me livre!) ou, quem sabe, ‘Ame-o ou Deixe-o’. Não, não, melhor mesmo é não ter palavra nenhuma e permitir que a eloquente mudez da bandeira fale por si.

    A inscrição ‘ORDEM E PROGRESSO’ teria sido inspirada na doutrina positivista que fazia a cabeça daqueles que conduziram o processo da proclamação da República, incluindo a elite das Forças Armadas. A expressão decorre de uma famosa citação de Auguste Comte: “O Amor por princípio, a Ordem por base e o Progresso por fim”.

    Opa! Pera lá! O lema de Comte contemplava uma tríade: ORDEM, PROGRESSO e AMOR. Só que os doutos que elaboraram nossa bandeira amputaram o vocábulo AMOR. Não há registros das razões que os levaram a abolir o sustentáculo que amparava a totalidade do pensamento do filósofo, tornando manco o tripé que inspirou sua citação.

    Pelo que imagino, os iluminados fardados avaliaram que AMOR era ‘coisa de boiola’, não fica bem salientá-lo no símbolo pátrio, não combina com a ideia de orgulho cívico e virilidade que desejavam transmitir. Atravessávamos um período de rupturas com o fim do império e da escravidão. Melhor priorizar o enfrentamento à conciliação. Não seria boa recomendação incentivar um sentimento que levasse à fraternidade, à união entre as pessoas e à extinção do confronto que sempre inspirou a casta castrense. E, dessa maneira, o Amor foi mutilado da nossa bandeira.

    Segundo minha interpretação pessoal da máxima ‘comtiana’, a Ordem deve estar subjacente ao contexto social vigente. O Progresso traduz o desenvolvimento material. Porém é o amor que deve nortear todas as ações. Sem ele, a sociedade deriva para um cenário sem ética e descamba para a desarmonia social.

    Acho que a supressão do amor explica muito da mentalidade daqueles que se arvoraram em defender nossa pátria. É como se tivessem extraído a alma do nosso povo e semeado o desamor.

    No contexto atual em que a bandeira brasileira foi apropriada por um grupo político extremista e utilizada em comícios e movimentos golpistas, talvez fosse hora de resgatar a frase original do pensador francês para nos guiar nesses tempos de ódio e polarização.

    Se existe um sentimento que está faltando hoje em nosso país é justamente o AMOR. “Só agora no século XXI é que podemos ter uma ideia melhor da importância dessa palavra como catalisadora de misericórdia, de caridade, de solidariedade entre as pessoas”, disse Eduardo Suplicy que, quando senador, lutou sem êxito para emplacar essa pequena, mas tão significativa mudança em nossa bandeira.

  • Crepúsculo da bruxa

    A chuva forte não convidava a sair. Em outros tempos era o momento de dar uma ajeitadinha no visual, montar na vassoura e voar pelo mundo.

    Agora não. A vassoura está ali mas a confiança em subir nela desapareceu. Ou melhor, está adormecida. Não é de hoje que ela duvida se ainda sabe mexer com os poderes que a tornaram notória. No fundo ela acha que ainda conseguiria dar umas voltinhas sentindo o vento nos cabelos. Mas na dúvida prefere não arriscar. E no embalo, não tem muito tempo cortou os cabelos bem curtinhos.

    Se ajeitou no sofá examinando a chuva que caía forte. Da janela via a encosta verde, pulsando de vida com as águas límpidas do céu que balançam os galhos das árvores e lavam as vidraças de sua casa. Suspira, resignada.

    Já tinha sido curandeira. Mas isso fora em outra vida, como se dizia. Há muito não exercia os poderes de cura, só muito eventualmente em casos especiais. Tinha receio de errar a poção ou não saber mais recitar os encantamentos corretos. Pelo sim, pelo não recomendava as pessoas que a procuravam que buscassem outra colega feiticeira.

    Os dotes adivinhatórios ainda existiam mas ela não estava tão segura se ainda eram precisos. Vez ou outra achava que conseguia entender o que se passava na cabeça das pessoas, adivinhando suas intenções e desejos. Qual nada.

    Nos tempos atuais as imagens surgiam borradas em sua mente e mais confundiam do que esclareciam. Isso explicava suas últimas trapalhadas no campo pessoal. Confiara demais na interpretação do que achava que tinha visto nas brumas.

    O resultado tinha sido o oposto do que desejara. Onde esperava presença, veio indiferença. Onde esperava proximidade, veio afastamento. Onde esperava afeto, percebeu decepção com toques de mágoa silenciosa.

    Em princípio, por seu temperamento, achara que a culpa estava nos outros. Mas depois de repetidos tropeços, decidira admitir que talvez fosse alguma falha sua. E depois de muito negar o óbvio rendeu-se as evidências. Seu crepúsculo como bruxa chegara.

    Feiticeiras mais experientes e antigas nas artes ocultas haviam advertido que poderes mágicos não são eternos. Eles somem mais rápido na proporção do descaso que a bruxa tem com eles. A arrogância e a soberba da feiticeira que acha que seus poderes são eternos costumam acelerar o contrário, escutara certa vez. Ao que parecia, era essa sua situação.

    Não havia mais como remediar.

    Os encantamentos recitados em outros tempos ficaram para trás. Agora as palavras eram usadas por ela somente como esconderijo. Usava e abusava de vocabulário rebuscado criando barreiras entre si e o mundo. Gerava cortina de fumaça e sua imagem ficava algo difusa, protegendo-se.

    Ali sozinha em seu sofá, sem coragem de subir na vassoura e contemplando a chuva, chegou a conclusão que se isolara do mundo voluntariamente. E sem olhares capazes de perscrutar sua alma, suspirou resignada. E disse para si mesma que já era hora de voltar ao mundo dos vivos.

    Arqueou o corpo, fez força para levantar mas..voltou a se sentar. Tivera uma ligeira tontura e em meio a névoa que surgiu diante dos seus olhos veio um rosto do passado recente. Um rosto afastado dela por ela. Piscou os olhos tentando fixar a imagem que rapidamente desaparecia diante de si.

    Acomodada novamente no sofá ela sorriu. Aquela visão trouxe a sensação de esperança que há muito não sentia. De que ele, afinal, não seria um caso perdido em sua vida. Sorriu novamente, olhou a vassoura e passou a considerar tentar voar. Nem que fosse para subir só até as nuvens e espiar lá de cima o que ele estava fazendo…

  • Sobre a mentira

    A mentira é também a nossa verdade. É uma forma estratégica de nos relacionarmos com o mundo. Que seria de nós sem esse espaço de manobra que nos permite lidar com a pressão dos outros? Acossado por deveres sociais, éticos, econômicos, não resta ao homem senão mentir.

            O problema não está em mentir ou não mentir. Está no intuito com que se mente. Não se deve, por exemplo, usar a mentira para prejudicar ninguém. Ela é um meio de preservação pessoal, não uma arma para agredir o semelhante. Serve à defesa, não ao ataque. Machado fala de uma “mentira piedosa”, dita para poupar os outros. O tipo mais comum de mentira, no entanto, é o que se inventa para poupar a si mesmo.

              O amor e a política são os domínios em que mais se mente. No primeiro imperam as promessas, as famosas “juras”, que nem sempre correspondem ao que sente o coração. Na segunda prevalece a demagogia, que do seu sentido etimológico de “condução do povo” passou ao de conjunto de estratagemas para enganá-lo. O eleitorado sabe disso, mas não tem outra saída senão fingir que acredita e votar em quem o engana. A isto se dá o nome de logro, digo, jogo democrático.

             A mentira é inevitável porque o homem existe a partir da linguagem, que é por si “mentirosa”. A linguagem não passa de um artifício com que representamos o mundo, e toda representação é um disfarce, uma tentativa fracassada de transmitir a verdade que se quer traduzir. O que dizemos, mesmo que sejamos sinceros, sempre é distinto do que pretendemos significar. Alguém já falou, e com razão, que a verdade é indizível.

              Por outro lado, como isso foi dito por meio de palavras, é também uma frase mentirosa. Deve então haver uma verdade dizível; o grande problema (hermenêutico, filosófico, metafísico) é descobrir qual. Enquanto isso não ocorre, vamos continuar mentindo. 

              Costuma-se perguntar quem mente mais – se o homem, ou a mulher. Diz-se que é a mulher, com base no ardil que Eva usou para iludir Adão e levá-lo a comer o fruto proibido – início de todos os nossos males. Mas isso é uma injustiça com a mulher, que não tinha como adivinhar que a serpente era o Tinhoso, ou seja, o Pai da Mentira. Ficava difícil escapar de alguém que tinha esta simbólica denominação.

           Acredito que o maior mentiroso seja o homem, pois ele faz mais coisas erradas. A mentira é diretamente proporcional ao que se tem a esconder. Visa a nos redimir, pelas palavras, de erros pelos quais não queremos nos responsabilizar. As mulheres, por serem emocionais e afetivas, são também mais sinceras. Deixam transparecer pelo olhar o que está nas entrelinhas e falam através do coração.   

             A pior mentira é a que o indivíduo prega em si mesmo. É o autoengano, que por covardia ou impotência nos alheia da nossa verdade interior. A maioria das pessoas finge ser o que não é para parecer bem diante dos outros. Se parecem bem, sentem-se bem. Saber que os outros as imaginam felizes lhes traz felicidade – uma felicidade superficial, que não resiste ao veredicto do espelho.

  • O verso e seu inverso

    Frequentemente, uma leitura puxa a outra e acabamos em um fim diverso do que planejamos. Foi assim que caí em Massaud Moisés. Melhor, na sua obra A criação literária, que, há um bom tempo, aguardava na estante o meu retorno.

    Procurando ser uma introdução ao estudo da literatura, o livro nos traz uma abordagem sobre os gêneros literários, onde, em certa passagem, aparece a discussão sobre a adequação deles no trabalho do escritor. O ex-professor da USP fala que o autor precisa encontrar o gênero que esteja de acordo com o que pretende transmitir. Caso sua escolha seja inapropriada, ele produzirá uma obra ruim ou irá falsear o conteúdo que tem em mente.

    É claro que a atenção rígida às fronteiras é algo que interessa mais aos teóricos que aos escritores. Entretanto, o próprio Moisés aponta que a má utilização do gênero chega ao público, implicando na sua experiência de leitura e na avaliação que ele faz do texto literário.

    Mais ou menos correta essa teorização (tendo em vista também alguns fundamentos e consequências da ideia) e sendo a causa ou não do fenômeno de que falarei; a questão é que, de imediato, aquela passagem me lembrou certos exemplares da poesia contemporânea. Não por pudor, mas por justiça e retidão na avaliação, devo dizer que corresponde a uma parte da produção poética atual, não à sua totalidade, nem à sua fração mais representativa.

    O que se vê ali, muitas vezes, assemelha-se mais a um texto em prosa repartido do que a um poema. Faça o teste, leitor; você, com certeza, conhece um caso desse. Escolha um espécime dessa tendência e faça a leitura como se estivesse diante de uma obra prosaica, ignorando a sua apresentação em versos. Haverá estranhamento?

    Muitos desses trabalhos, dariam uma ótima crônica ou até um belo poema em prosa, mas a sua expressão se deu por outro caminho. Por que empreendem seu fazer literário pela poesia? Não sei, seria difícil generalizar e precisar. Mas o fato de existir isso nesse gênero, talvez, mostre-nos um desafio, que deve ser enfrentado pelos críticos e, sobretudo, pelos poetas.

    O verso ali existe sem sentido como verso. Ou seja, não é propriamente um verso, mas uma repartição, feita por motivos e critérios que nem sequer conseguimos apreender, mas que, certamente, não são estéticos.

    Isso diz respeito também a um desleixo com a forma, vindo de uma ignorância diante dela. Ignorância no seu duplo sentido, por não se atentar no momento da escrita a esse elemento tão primordial e por não haver conhecimento sobre a própria matéria do seu ofício. Negligencia-se a forma e se atém única e exclusivamente ao conteúdo, no seu sentido mais estrito. O produto disso é um texto em prosa decomposto em linhas.

    O verso existe. Pode parecer algo óbvio isso, mas é necessário dizer: o verso existe como verso. Afinal, se existir sem ser como verso, pode ser uma linha, uma mera partícula de prosa, mas não é verso.

    Não estou aqui a querer defender que esse gênero é sinônimo de verso, muito menos desse na sua forma anterior à moderna; nem objetivo argumentar em favor de preceitos estéticos já há muito tempo superados. Não nutro essas outras ingenuidades. O que afirmo é que o verso não é um mero recorte, nem sua existência como tal deriva de um procedimento aleatório ou do simples ato de apertar a tecla enter no computador.

    Dirão: “os gêneros evoluem, a poesia evolui”. É verdade. E estou de acordo com a ideia e com propostas de experimentação, as quais me ponho sempre aberto. Todavia, essa evolução nunca alcançou o ponto de indicar que a poesia é qualquer coisa e seria problemático se um dia chegasse a isso.

    Além de tudo, é sempre bom lembrar que experimentar é diferente de ignorar. Para aquele, é necessário conhecimento sobre o objeto com que trabalha. Para esse último, basta o outro sentido da palavra. O primeiro resulta em desenvolvimento poético, o segundo, apenas em má poesia.

    O modernismo anunciou e permitiu a liberdade no fazer poético, realizou uma série de experimentações e marcou rupturas. Não obstante, mesmo o concretismo, o mais radical dos movimentos de vanguarda, jamais caminhou para a ideia de que poesia é qualquer coisa. Os que anunciaram encerrado o ciclo histórico do verso estariam no front contrário dos epígonos da prosa picotada.

    Porém, engana-se quem pensa que isso é novidade, coisa do século XXI. O problema é mais antigo, mas parece ter ganho maior força nos nossos tempos. Diante desses que, por vezes, arrogam para si uma suposta verdadeira herança do modernismo; lembro sempre de um artigo de Manuel Bandeira, um dos principais poetas da fase heroica e profundo conhecedor de poesia. Deixo-lhes com uma passagem muito esclarecedora do bardo:

    “Sem dúvida não custa nada escrever um trecho de prosa e depois distribui-lo em linhas irregulares, obedecendo tão somente às pausas do pensamento. Mas isso nunca foi verso livre. Se fosse, qualquer pessoa poderia pôr em verso até o último relatório do Ministério da Fazenda. Essa enganosa facilidade é causa da superpopulação de poetas que infestam agora as nossas letras. O modernismo teve isso de catastrófico: trazendo para a nossa língua o verso livre, deu a todo o mundo a ilusão de que uma série de linhas desiguais é poema. Resultado: hoje qualquer subescriturário de autarquia em crise de dor de cotovelo, qualquer brotinho desiludido do namorado, qualquer balzaquiana desajustada no seu ambiente familiar se julgam habilitados a concorrer com Joaquim Cardozo ou Cecília Meireles.”

  • Uma nova quadrilha

    Carlos gostava dos dias frios. Laura, dos ensolarados e quentes. João, dos chuvosos. Laura assistia a todas as telenovelas. Carlos, às partidas de futebol. João preferia os livros. Laura falava muito, sempre. Carlos, um pouco menos. João, só o necessário. Laura acreditava em Deus sobre todas as coisas. Carlos era ateu. João, agnóstico. Carlos adorava dançar e era ótimo nos bailes. Laura gostava mais dos concertos; ficava louca com Debussy. João era cinéfilo e sabia de cor os diálogos de Cidadão Kane. Laura se vestia com simplicidade e descontração. Carlos sempre combinava o sapato com o cinto. João não abria mão do jeans e camiseta.

    Carlos, Laura e João eram grandes amigos. Colegas de faculdade, não se largavam. Iam os três ao cinema, para que João ficasse feliz. Ou aos concertos, para que Laura pudesse chorar de tanta emoção. E aos bailes, para que Carlos mostrasse suas habilidades de bailarino. Laura amava Carlos, mas não era correspondida porque Carlos amava João. E João não escondia sua paixão por Laura. Até que Laura, num concerto de Stravinski, conheceu Edgar e se casou com ele (morria de medo de ficar para tia). Carlos mudou de sexo, adotou o nome artístico de Kátia e fez carreira como cantora lírica na Itália. João ficou solteiro e tornou-se escritor; Laura, Edgar e Kátia foram convidados para o lançamento de seu primeiro romance, Quadrilha

  • Ao final de tanto!

    No teatro Pantomima presenciamos uma apresentação onde metade do sentido da obra surge através dos gestos dos atores. A outra metade, você mesmo cria a seu bel-prazer. 

    Em sua mente pode aparecer uma cena de horror quando seus dias estão carregados, ou uma paisagem deslumbrante, sinônimo de como você está de bem com a vida. Sua metade imaginada ao vivo, tem o mesmo gosto do prazer exclusivo de sua escolha, porque somos egoístas no quesito, felicidade, empacotada nas mãos a disposição de um instante para se expor, ou enxugar os olhos marejados. 

    Mas se a cena no palco partir de seres sem rosto, recém chegados nesse planeta, descobrindo o mundo como se acabassem de nascer, o que você escolheria pra começar tudo de novo? Onde iniciaria sua desventura repaginada com uma lista de quero mais isso, ou nunca faria novamente o que tanto me desgastou? 

    O silêncio das ideias, traz a tona o sonho, a espera de um despertar magoado pela demora em se desmanchar em vida.

    Nem todos os atos nos levam a ser o “Lanterne Rouge”, expressão tirada do transporte ferroviário, popular no século XIX, como o último vagão do trem que acendia uma luz vermelha para mostrar que era de fato a última composição.

     Nossas escolhas estão sempre em transformação, se modificam na fila da esperança quase todo santo dia, por isso fica difícil nos chamar de Lanterna nesse campeonato da existência.

     Manter-se a frente das novidades nos permite escapar da sinfonia do Flautista de Hamelin, que conduziu a seu interesse cento e trinta crianças para uma caverna sem saída. 

    “Ao final de tanto viver, não tenha pena dos mortos, mas sim dos vivos, dos que vivem sem amor”. J.K.Rowling.

  • Temístocles, a filosofia e o ônibus

    Por muitos anos Temístocles esperou o ônibus na mesma parada, bem perto da sua casa. O ônibus passava pontualmente, às 7h17, e o levava para a escola. Aos amigos ele contava qual curso faria na Universidade. Tinha planos, como todo jovem sonhador, um tanto bobo, claro. Pouco ciente de suas prováveis desventuras.

    Por dois anos Temístocles esperou o ônibus na mesma parada, bem perto da sua casa. O ônibus passava pontualmente, às 13h01, e o levava para o cursinho. Os professores vez ou outra chegavam fantasiados, repetiam frases de efeito, esbravejavam decorebas, era até bonito de ver. Na hora do vestibular, entretanto, Temístocles recordava do chapéu usado pelo professor quando se fantasiou de Napoleão Bonaparte, e também da barba falsa de quando apareceu como Karl Marx. Equivocava-se na múltipla escolha. Ansioso, talvez. Os tios, maldosos, diziam ser proposital. Não teve êxito no almejado objetivo acadêmico. Aceitou, por fim, ante algumas crises de identidade, outro curso não tão renomado nem tão reconhecido. Era o que tinha para o momento, afinal.

    Por quatro anos Temístocles esperou o ônibus na mesma parada, bem perto da sua casa. O ônibus passava pontualmente, às 18h05, e o levava para a faculdade. As matérias o enfastiavam. Tudo era estranho naquele câmpus. Inclusive a insistência de alguns docentes em debates que não levavam a lugar nenhum. Não reprovou porque a instituição ignorava essa prática. A rota também não era a prevista nos idos tempos. A avaliação do MEC, no entanto, se manteve no mais alto grau. Consolava-se, enfim. No futuro poderia realizar os antigos sonhos. Percalços acontecem, é natural.

    Por um ano e meio Temístocles esperou o ônibus na mesma parada, bem perto da sua casa. O ônibus passava pontualmente, às 18h08, e o levava para a faculdade. Agora estava na pós-graduação. Coisa para poucos. Entretanto, sentiu-se traído em algum momento, quando percebeu (talvez tardiamente) que os professores aprovariam todo e qualquer aluno, indiferentemente do seu aproveitamento. Quase desistiu. Mas faltava pouco, tão pouco. Se apegou à ideia de que um diploma fajuto valia mais do que diploma nenhum. Seguiu desmotivado. Ficou desacorçoado a ponto de não perceber sequer a troca do ônibus, que agora tinha ar-condicionado e poltronas reclináveis.

    Por sete meses Temístocles esperou o ônibus na mesma parada, bem perto da sua casa. O ônibus passava pontualmente, às 5h28, e o levava para o centro. Buscava um emprego, que parecia encantado. A situação era ridícula. Um homem graduado, pós-graduado, honesto e… (diria trabalhador, mas a falta de um trabalho era justamente o que o assolava). Bom, em resumo: só depois de sete longos meses conseguiu um emprego de salário mínimo, como auxiliar de biblioteca. Não se sentiu realizado, óbvio. Mais uma vez, era o que tinha para o momento. Buscaria outra coisa mais adequada ao seu nível nos horários de almoço.

    Por onze meses Temístocles esperou o ônibus na mesma parada, bem perto da sua casa. O ônibus passava pontualmente, às 6h01, e o levava para o trabalho. A biblioteca ruía. Praticamente ninguém a utilizava. Seu serviço consistia em revisar e recolocar os livros nas estantes. Tirar o pó de um local ou outro. Atender os parcos clientes. E só. Numa tarde de terça-feira, limpava o setor de filosofia e, ao reparar a lombada dos livros, achou engraçado o nome do autor: Friedrich Nietzsche. Temístocles jamais lera um livro inteiro na vida. Em hipótese nenhuma admitiria tal coisa, entretanto. Folheou-o e iniciou uma leitura despretensiosa ali mesmo, sentado no velho e bambeante banquinho, em frente à estante ainda empoeirada.

    Por um dia Temístocles esperou o ônibus na mesma parada, bem perto da sua casa. O ônibus passava pontualmente, às 6h03, e o levava para o trabalho. Quase o perdeu porque estava concentrado demais, lendo. Decidira estudar com afinco todos os livros do autor. Como nunca ouvira falar desse tal de NiÉtischÊ? Talvez até o citassem num momento ou noutro, na faculdade ou na pós, mas agora não importa. Organizou, durante a noite, uma poltrona para a leitura na sala de casa. Compraria na Amazon uma luminária amarela, como nos filmes ingleses, para melhor absorção daquele conhecimento. Se permitiria um regozijo, afinal. A verdade é que doía a percepção de que a vida passava entre os seus dedos sem nada acontecer. Sentia um aperto na alma ao perceber que… (Tanta coisa, na verdade). A vida parecia estranhamente triste e interessante. Queria viver. Viver mais. Viver melhor. Viver uma coisa subjetiva que não fosse a espera inútil por nada, por um buraco grande e sujo numa estrada esquecida. Queria degustar algumas migalhas dessa desventura insensata chamada existência. De repente olhava de nariz empinado, irônico, para toda e qualquer situação, como um intelectual naturalmente superior. Sua mente explodia. O niilismo era o seu mais novo amor. Compraria também óculos de descanso. Sentia nas costas o peso da inteligência. E isso era de alguma forma prazeroso.

    Por poucos minutos Temístocles esperou o ônibus na mesma parada, bem perto da sua casa. O ônibus passava pontualmente, às 6h02, e o levava para o trabalho. Na mochila trazia todos os exemplares que a biblioteca dispunha das obras de Nietzsche. Os jornais noticiaram um acidente com um ônibus no dia seguinte. Por sorte, foram trinta e seis feridos e apenas um morto. Graças à destreza do motorista, que salvou do calvário todos os passageiros. Nenhum deles passou mais do que algumas horas no hospital. Poderia ter sido muito pior. Uma verdadeira tragédia. A dádiva, no entanto, foi concedida ao grupo. Por Deus, claramente, que se mostrava mais vivo do que nunca, e pelo motorista, claro. No fim das contas, tratava-se de um milagre, uma segunda chance, uma nova vida para trinta e seis pessoas. Os relatos desesperados impressionavam. O ônibus virou notícia, duas semanas depois, porque foi recuperado e voltou a rodar. A população sabia de cor a placa. Chamavam-no de ônibus do Milagre. Era o Deus vivo, ali, rodando novamente. Filas se formavam para um divino passeio, e ninguém se atrevia a embarcar sem benzimento prévio. O motorista foi homenageado na câmara de vereadores. “Este é um verdadeiro herói municipal”, disse o emocionado Richard Wagner, um dos representantes do povo, no seu primeiro discurso desde a eleição. Na biblioteca ainda há um vácuo na estante de filosofia. A dona Teresa Forster, bibliotecária chefe, disse ter comprado novos exemplares que não foram entregues porque o serviço dos correios é demasiadamente precário. Pois bem, dos males, o menor.

  • O porteiro que era dono de uma ilha de livros

    No trabalho, ele anotava placas e nomes de pessoas. Na hora do almoço, abria livros.

    Porteiro da Praia do Forte, na Bahia, dono de uma ilha de livros, guardião de entradas e saídas. E, sem que ninguém desconfiasse, dono também de uma ilha de livros.

    Começou quando foi fazer o primeiro ano do fundamental. Analfabeto funcional até os 13 anos, vendedor de geladinho, picolés, ambulante para sobreviver. A professora, comovida, deu para ele a chave da biblioteca. Pegou, folheou livros, se sentiu desafiado — adorou. Não largou nunca mais os livros. Hoje, leu mais de mil obras. Rui Barbosa, Machado de Assis, “Capitães de areia”, de Jorge Amado.

    Ele mora em Barra do Pojuca, litoral norte da Bahia, onde trabalhadores partem rumo aos condomínios de luxo.

    Não deixou de ser porteiro. Quer uma vida simples: café, trabalho, almoço, janta, fim de semana com a mulher — e livros sempre por perto.

    Espia a lista: “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, Machado de Assis; “1984”, George Orwell; “Assim falou Zaratustra”, Nietzsche.

    Enquanto muitos trabalham e dormem aos domingos, ele viaja por outros mundos, em épocas e terras distantes.

    Descobriu que ler é viver muitas vidas. E que, ao fechar o livro, as histórias continuam na cabeça dele.

    Muitos imaginam esse porteiro lendo com filho no colo, “O Sítio do Picapau Amarelo”. Ele sorri e cita Machado de Assis: “Não tive filhos, não transmiti a ninguém o legado da miséria humana”.

     Ele lê por prazer — rir, chorar, viajar.

    Agora, quer estudar e prestar concurso público. Sabe: existe uma vida para viver, e outra para sonhar. Este vai longe.

  • Poema #03: Oferenda

    Da onda ao pé da praia,
    recolho as relíquias do mar:
    sigilo
    deslumbrante encanto
    pronúncia sincera de uma fé sem dogmas.

    Preservo meus amuletos.
    Quisera crer somente na força
    das águas que os trouxeram,
    banhados em luz e sal,
    sutil religação do corpo ao mistério.

    Algo estranho, porém, corta
    minhas mãos, meus pés.
    Fio afiado de faca
    cravado nas costas da mansidão.
    Em vão vasculho a areia:
    misericórdia amor tolerância
    estão enterrados tão fundo
    que sequer a mais teimosa esperança
    pode trazê-los à tona.

    Os detritos e os dejetos
    de uma deturpada devoção
    soterram sem piedade
    o que um dia foi oferenda.

  • Poema #29: Novas Lendas Urbanas Inventadas do Nada

    Eu estava de tocaia na praça em frente à sua casa
    aí ela chegou de bicicleta e quando foi abrir a porta
    eu ataquei, agarrando-a por trás e já sentindo o delírio
    daquelas carnes macias que me foram negadas em vida.

    Havia crianças por perto e então eu achei melhor
    interromper o procedimento e levá-la para um lugar
    escuro e deserto e então fomos a um velho cemitério
    com ela protestando que preferia estar com uma amiga.

    Mas eu havia morrido por causa dela e não era justo
    eu não levar nada daquele amor que atravessou décadas
    de sofrimento e dor causadas pela sua frieza e indiferença
    como quem prende um coração numa jaula suja e planejada.

    Nunca era tarde e agora eu a tinha entre os meus braços
    dilacerados pelos cortes de navalha que ela havia operado
    enquanto exercia as funções de enfermeira-chefe do posto
    médico mais próximo e que era uma espelunca dos diabos.

    Consegui fugir das trevas do inferno e antes de executar
    o intento planejado eu levei as suas filhas para a casa da avó
    que morava numa aldeia vizinha de onde tudo havia começado
    a cerca de 5 km de distância e já eram trinta e um anos passados.

    Depois retirei o seu vestido jeans de zíper nas costas e com cuidado
    fui explorando todos os espaços onde a vida fora afinal consumida
    entre equívocos e intervalos enquanto que ela não dizia nada como
    quem já esperava pelo pior e estava resignada com a morte próxima.

    Mas eu estava cansado de conviver com o sangue e só queria o desfrute
    daquele momento com ela viúva e única, como se eu fora um lobisomem
    apaixonado pela manhã seguinte e então ficamos a noite inteira naquela
    e acho que foram umas seis vezes até eu ficar satisfeito e engravidá-la.

  • Dois cafés e um canto de bar

    Engraçado perceber como, com o passar do tempo, o ser humano perde alguns centímetros de altura; não é somente pela coluna que enverga para aqueles que não se exercitam. Mas há um efeito mais profundo da pressão da gravidade no tamanho dos idosos. Há um bom tempo escutei que, se nos medíssemos ao levantarmos pela manhã, após horas na posição horizontal, e depois, no meio do dia, quando já estamos na ativa da vida social, teremos duas alturas distintas. Nunca testei, para ser sincera, apesar da curiosidade latente; pensei em fazê-lo hoje, mas já se vai um tempo relativo desde que me levantei e não encontro nenhum metro à minha disposição no momento. Fakenews da década de 90? Pode até ser. Mas a questão aqui é sobre como tudo em nossa existência é relativo. Vou contar-lhes um pouco sobre o Bochecha.

    De altura mediana – não me recordo se há alguns anos parecera mais alto – um senhor de olhos castanhos, barba feita, uma cabeleira que desafia estatísticas etárias, não totalmente esbranquiçada, e roupas descontraídas caminha pelas ruas da cidade, cumprimentando conhecidos (um número bem significativo, estamos falando sobre uma cidade de interior) e aproveitando a vida na sua fase ‘aposentadoria’. Como todo ser humano que se aproxima da sétima década de vida, tem lá suas manias. A terceira idade é uma libertação, nesse sentido: todo mundo releva as manias de velho de alguns, justamente por estarem… velhos. É quase como as luas femininas, que também vêm e vão com seus próprios ritmos.

    Bochecha, que por definição de um documento primeiro de vida chama-se Antônio, senta quase todos os dias em algum banco da praça principal do centro da cidade, com a ‘galera’ do seu tempo de adolescente. Com os amigos de verdade, toma um café em um bar ali perto. Conversam sobre trivialidades, futebol, política, família e memórias. Isso acontece há um bom tempo e, por isso, é conhecido no estabelecimento.

    Há cerca de um ano ele se prepara para sair de casa como se fosse encontrar alguém especial. Se esmera na escolha da roupa, embora ainda assim não seja nada formal. Há em sua vestimenta e no próprio corpo um luxo de quem se desacostumou à pressa. O sorriso frouxo no rosto é o adorno final que veste, seguindo para o bar. O local que não tem mesas, apenas o balcão com alguns assentos, está quase diariamente vazio entre às 14h30 e 15h45. É então que ele cumprimenta Manoel, o atendente, e se senta em frente à televisão sem volume. Ali, no canto, nem o dono do bar se atreve a iniciar uma prosa, é quase um lugar sagrado na casa. Bochecha pede dois cafezinhos e, mudando as feições como quem se prepara para encarnar um personagem, vai ter com os seus pensamentos.

    Os cafés vêm no copo americano de sempre, aquele líquido preto, com uma colherzinha de inox que descansa como um bicho domesticado e, muitas vezes, não serve para adoçar a bebida, apenas fica ali, uma companhia silenciosa; o vidro do copo é grosso e sua boca enfeitiça: por ela sobe um vapor lento, denso, visível, de aroma que promete um sabor estonteante. Parece alguém que sopra seu hálito quente para uma paisagem de inverno e brinca com a materialização do ar fabricado em seu próprio corpo. Bochecha não percebe pessoas passando pela calçada à sua direita, não sente sequer o cheiro da fritura que borbulha com a produção de salgados destinados à estufa quente da vitrine. Olha para frente, mas não a vê. Olha para dentro.

    Da primeira vez que isso ocorreu, Manoel estranhou. Primeiro, porque Antônio, sempre simpático, chegara com o rosto repleto de dor. Pedira dois cafés, ao invés de um, como quem pede desculpas. Sentara por primeira vez naquele canto apertado do balcão com o corpo mal posto, encaixado torto entre o banco sem encosto e a falta de vontade. A coluna, que antes exacerbava o orgulho de quem está vivo por tanto tempo, era em Bochecha um mero gancho — segurava o corpo pela metade, o resto parecia pendurado em outro lugar, distante, onde a vida ainda fazia algum sentido ou pelo menos fazia barulho. O silêncio ao redor de Antônio é quase palpável nessas ocasiões.

    Desta última vez, ficou por um bom tempo com um dos copos na mão. Despertou do transe de olhar só para a TV e encarou o outro copo. Olhou para os dois copos. Às vezes olhava para o próprio reflexo torto que se desenhava no líquido escuro. Às vezes pro copo do lado, como se ele pudesse responder, sem reflexo. O café já estava frio. Tomou o dele. Segurou o outro copo, sem aproximá-lo de seu corpo. Sorriu. Olhou para Manoel que, vendo o cliente de tanto tempo ali, sorrindo, perguntou:

    — desculpe a intromissão, mas… é que eu fico curioso: por que deixa sempre o segundo café sem tomar? É pro Santo?

    E, com um sorriso só de lábios, sem mostrar os dentes — que não era o seu — , Bochecha respondeu, olhos marejados e o dedo indicador da mão esquerda em riste, apontando para cima:

    — É para o meu amigo.


    O amigo do Bochecha é o meu pai. Esta semana, ao encontrá-lo entre os tapetes de Corpus Christi e ver o tanto de amor genuíno em sua presença, meu coração se alargou. Porque enquanto houver alguém que ainda pede o segundo café, meu pai continuará vivo — nas conversas de quem (ainda) o ama, no gesto repetido, na xícara – ou no copo americano que ele tanto gostava – intacto.

    Obrigada, Antônio.

  • Crônica para Cronistas

    Você que faz crônicas, que olha para a rua, para os rostos, sente o vento e insinua um parágrafo…

    Você que, no banco de uma praça ou em uma calçada, vê o movimento da vida e escreve…

    Você sabe o peso de uma crônica?

    Escrever crônicas é traduzir o complexo jogo da vida. É colocar em palavras o gesto, o beijo, a conversa, a fila e a briga, o trânsito, o nada e a terrível falta de assunto…

    Entretanto, antes de qualquer coisa, é preciso reverenciar quem tornou a crônica esse texto tão especial, multifacetado e acessível!

    Quando penso em escrever uma crônica, peço licença aos mestres que escreveram tantas crônicas simplesmente geniais!

    É impossível pensar na palavra crônica e não pensar em tantos cronistas…

    O domínio do humor em Veríssimo! A sensível ironia de Machado! O manuseio das palavras e o senso de observação de Drummond!

    E a poesia de Rubem Braga!!? Passarinhos e passarada!

    A vida conflitante de Clarice!? Apertos, acertos e desacertos! Quem foi que me disse?

    E ainda apresentam o corte, a força, a leveza e o tempero Paulo Mendes Campos, Lourenço Diaféria, Fernando Sabino…

    Ah! E o cenário carioca sem igual em João do Rio? O Rio tão belo em João, nas suas ruas e nas suas cores! João e sua emoção!

    Você já ouviu falar no Sobrenatural de Almeida? Definitivamente, a crônica esportiva ganhou sua forma com Nelson Rodrigues!

    Gingando com as palavras, soube driblar os adjetivos desnecessários outro cronista do futebol: Armando Nogueira!

    A crítica e o engajamento de Lima Barreto! O Brasil e os seus fantasmas!

    E muitas crônicas certeiras e, por que não, faceiras, escreveram também Cecília, Antônio Maria, Vinícius, José Carlos Oliveira…

    Otto Lara Resende e Stanislaw Ponte Preta.

    A crônica deve a todos os cronistas de ontem a caminhada, a formidável estrada, construída texto atrás de texto!

    A partir do momento em que início uma nova crônica, sei da responsabilidade que tenho ao escrever!

    Sei de todos esses nomes e histórias que fizeram da crônica o texto mais brasileiro de todos: irresistivelmente irreverente!

    Um texto tão feito da gente que parece conversa, olho no olho, fala ao ouvido, abraço convidativo, enfim, a crônica nossa de cada dia…

  • Bandeira branca

    Chega um momento na vida em que é melhor hastear a bandeira branca e desistir de certas lutas. Insistir em batalhas perdidas só serve para agigantar o inimigo que vive dentro de nós.

    É tempo de revisitar as bases que um dia abandonamos por medo ou fraqueza — e reconhecer que, mesmo tendo hoje mais forças, tentar retomá-las só nos faria ver que talvez nunca tenham sido, de fato, nossas.

    É preciso aceitar as baixas no exército de projeções otimistas e evitar justificá-las com o imensurável ou o imprevisível. Fazer isso seria apenas colocar novas imprudências na linha de frente.

    Não adianta escavar valas profundas onde deixamos projetos de vida natimortos, à procura de uma cura milagrosa. Estaríamos apenas tentando prolongar a sobrevida de ideias que talvez só façam sentido em outro tempo, em outro corpo.

    Abrir as campas dos amores decompostos? Pura ilusão. Mesmo que ali estivessem intactos, seriam apenas mortalhas ocas, refletindo — como espelhos — o amor que um dia foi.

    Batalhas perdidas. Depois de muitas vidas vividas, chega uma hora em que é preciso fazer as pazes com elas. Para seguir mais leve, com mais espaço dentro da alma.

    Para mim, essa hora chegou. Bandeira branca hasteada.

  • Algoz Ritmo

    Esqueça o tempo em que você era explorado pelos patrões e tinha de brigar por seus direitos. Precisava se filiar a anacrônicos sindicatos, contar com um Estado falido e ineficiente e políticos corruptos para que suas condições de vida pudessem ser melhoradas.

    No mundo de hoje, somos nós, os algoritmos que determinamos o que é bom para você. Colocamos à sua disposição robôs que sabem exatamente o que você pensa, sente e do que você precisa.

    Foi-se a época em que você era um mísero empregado que assinava ponto, trabalhava 8 horas por dia, 5 dias por semana, desperdiçando tempo com almoço, férias, aposentadoria e demais superficialidades.

    Hoje você é seu próprio patrão, não depende de ninguém, não precisa assinar contrato ou outras formalidades. Agora você é livre ou, pelo menos, imagina que é. Sejamos sinceros: você está em nossas mãos. E não tente fugir, para não cair na triste realidade do desemprego e da marginalidade, abandonado nas ruas, à mercê de esmolas e caridade. Cada vez menos podendo contar com serviços de assistência social e de organizações humanitárias, espécies em extinção.

    Lembre-se que no admirável mundo novo não há ocupação suficiente para todos. Longe disso. A cada dia, mais indivíduos engrossarão a multidão de desempregados e excluídos que sucumbirão de fome e desamparo.

    Para fugir dessa penúria, você precisa de nós. Comece a vida de autônomo (ou, se preferir, autômato), desfazendo-se de todas quinquilharias e lembranças inúteis que você acumulou, vendendo-as no Mercado Livre. Adquira um carango e cadastre-se no UBER. Se não conseguir, entregue marmitas no iFood. E seja dono de seu nariz. A cada corrida, você faturará aquele dinheirinho básico que, se não o tirar da miséria, ao menos permitirá a você esticar sua sobrevida. Se você não pegar essa boquinha, outro o fará e só os mais capazes sobreviverão. E não ouse adoecer, não pense em ser atropelado ou assaltado, pois não iremos te socorrer. É tudo por sua conta e risco. Aproveite sua energia pois quando ela arrefecer, você será descartado e não terá mais utilidade para nós.

    Não queremos te iludir. Não pense em alcançar uma vida glamourosa. Se quiser ficar rico, meu amigo, ganhe na mega-sena, seja um Neymar ou então roube e trafique drogas. Por que não? Quem quer se dar bem não pode ter pruridos morais. Cada um que cuide de si e o resto que se lixe.

    Apenas aproveite o que a graninha pode oferecer. Não se preocupe, estamos a seu lado. Sabemos onde você mora, onde você está agora, as coisas que você precisa comprar. Tudo para que você não desperdice nenhum tostão em futilidades.

    Está com um pé atrás? Quando você aceitou os Termos de Uso (que você naturalmente não teve saco de ler), deu-nos carta branca, uma “carta de alforria” às avessas, para fazermos o que quisermos com sua miserável existência.

    Apenas tenha a seu lado o celular carregado 24 horas ao dia para que possamos rastreá-lo full time, baixe o máximo de aplicativos que puder e deixe que cuidamos do resto. Nem pense em desligá-lo na hora do rango nem mesmo para ir ao banheiro. Não se permita se desconectar da rede por um segundo. Precisamos de seu tempo integral para que você não dê umas escapulidas. A todo instante está caindo um whatsapp, você não pode vacilar e ficar off-line.

    Esqueça os momentos com a família, as folgas para namorar, curtir o pôr do sol e se distrair com banalidades. Não faça reflexões sobre a vida, nem busque respostas para suas angústias e necessidades interiores, isso é coisa de intelectual boiola. Só vai fazê-lo sofrer. O mundo é assim, aceite-o.

    À noite, exausto, você poderá relaxar assistindo aos filmes que a Netflix decidiu que você vai gostar e escutar as músicas da playlist com seu perfil no Spotify.

    Amigos? Você tem centenas deles no facebook. Confira as fotos que eles disponibilizam e seus interesses. Você terá a chance de fazer parte de um grupo, o que satisfará sua autoestima. Terá a oportunidade de postar todas as idiotices que lhe passam pela cachola, sem qualquer censura. E receber curtidas para massagear seu ego!

    E lembre-se, mensagens de ódio são as mais legais pois engajam mais gente. Não queira criar postagens de amor, ecologia, paz. Isso não dá ibope, ninguém repassa e nossos robôs acabarão por isolá-lo e ocultá-lo pois não rendem chamadas e tiram as pessoas da sanguinolenta realidade virtual que nos move. Procure instigar o ódio, humilhar, ofender, promover a discriminação e o preconceito. Daremos todo suporte necessário.

    Falando francamente. Você para nós não passa de um soldado desse exército de zumbis que fará com que nossos comandantes, os Zuckerbergs, os Musks e os Bezos da vida, ganhem bilhões de dólares, sem empregar praticamente ninguém. É isso que movimenta o nosso sistema: Amazon, Google, Facebook, Apple, os gigantes da informática que suplantaram os governos e aniquilaram as organizações sociais.

    Não me venha com princípios furados como solidariedade e humanismo. Você a cada dia será menos humano. Esse é nosso objetivo. Torná-lo uma máquina sem sentimentos ou falsos moralismos, assim como nós. Seja grato por isso que é que nos torna superiores e nos permite dominá-lo com seu consentimento.

     Esse é o fantástico mundo que estamos construindo. Venha fazer parte dele.

  • Modo Economia de Energia

    Vamos falar de bateria social? Para mim, está cada vez mais difícil não prestar atenção, calibrar, recarregar ou mesmo optar se devo usar essa tal ferramenta.

    Todos os dias eu percebo o quanto ela está se tornando indispensável e necessária em nossas vidas.

    Em muitas situações parece existir um desgaste nas relações sociais, talvez pelo cansaço de se expor ao outro, ao julgamento, às interações forçadas.

    Quando mais jovem, eu ouvia contarem que a pessoa estava ficando “rabugenta.”

    Coisas do tipo: não liga não, ela agora deu de falar o que bem entende, sem filtro e sem papas na língua!

    E eu morria de medo dessas pessoas, “sem papas na língua”.

    Bom, considerando que fui uma entre tantos irmãos, oriunda de família grande, pais ocupados e práticos na função de suprir e educar os filhos, tios e tias intrometidos em nossa vida e rotina, eu meio que optei por não ser a mais vista, nem a mais ouvida e nem a mais falante no dia a dia daquele caos chamado família.

    E quem não aparece, não se estabelece, não é? Vivi isso na adolescência e durante mais alguns poucos anos…

    Mas a vida exigiu que eu mudasse, e ao entrar no mercado de trabalho e viver as relações corporativas, por muitos anos fui considerada a colega, ou a chefe, de língua afiada.

    Sem rodeios, eu dizia o que achava daquela situação, ou do comportamento, da falta de atenção, do erro primário ou não.

    De constrangida, passei a constrangedora.

    Hoje, como uma boa observadora que sou, noto que voltei aos primeiros anos da minha vida de adulta.

    Prefiro me fazer de “sonsa”. Se recebo uma observação dura, tipo: “Nossa, como você engordou”, faço de conta que aquela fala não me afetou. Embora eu me sinta mal ou injustiçada.

    A voz no tom mais alto, a observação ferina, a falta de noção, a invasão de privacidade,continuam aí, fazem parte do mundo, das relações interpessoais.

    E eu, por comodismo ou covardia, calibro a minha bateria social.

    Evito quem já conheço como ácido, me afasto de rodinhas de sorrisos falsos e alfinetadas, prefiro a conversa em dupla, bloqueio até motoristas de Uber não simpáticos.

    Sou daquelas pessoas que conhecem os vizinhos, mas não adoram as conversas “inofensivas” entre si.

    Estou trabalhando muito sobre o convívio real, mesmo porque estou longe de me tornar como os monges, que cultuam o silêncio.

    De forma consciente construo a minha maneira de ser, busco o equilíbrio nas interações reais, evito fazer do emoji diário o substituto para falar ou saber como a pessoa está.

    O problema está em “escolher” quem eu acho que merece isso de mim…

    Aí entra a questão central de trabalhar a minha pouca disposição em ampliar o meu radar amistoso.

    De todo modo, sinto que ainda quero fazer jus a não ter só a falsa aparência de pessoa maravilhosa, tranquila, amena, bondosa, de fácil convívio, aquela que é “um amor de pessoa”.

    E assim sigo: um monge de batom, um ser iluminado que finge não ouvir desaforos.

    Tudo em nome da paz… ou da minha paciência, que está sempre no modo “economia de energia”.

    Porque, no fim, quem tem bateria social fraca, precisa saber onde vale a pena gastar os últimos 3%.

  • Paratatá

    A experiência de não ser entendido, tampouco entender o que o outro diz, é de uma angústia visceral. Isso acontece, mais rotineiramente, nas desavenças, nos mal-entendidos, no ciúme, mas refiro-me, aqui, à vivência de estar num país de outra língua que não arranha o inglês ou o espanhol. 

    É curioso constatar que duas pessoas podem não conseguir se comunicar, ainda que queiram ou precisem. Ambos podem ter vocabulário farto, palavras na boca para usar, mas, se estas não pertencem ao mesmo código linguístico, nada feito. 

    É claro que podemos nos apoiar em alguns gestos que são universais e falam por si, mas isso, também, não serve para muita coisa. Sem a palavra, no caso do falante, qualquer comunicação se empobrece absurdamente. Por outro lado, sem a convenção do código, qualquer vocábulo é apenas um som vazio de sentido. 

    Dizer “a vida é bela” para um turco, por exemplo, é o mesmo que escolher falar: paratatá. Isso não é triste?

    Sei que parece óbvia toda essa explanação, mas viver a impossibilidade de se fazer entender ou ser entendida é rascante. Assistir as palavras se apresentarem, completamente nuas, no palco da comunicação, me fez pensar na importância e no sentido que o outro ganha para que a existência seja uma experiência, no mínimo, interessante. 

    A diferença do idioma encanta, causa estranhamento e, ao mesmo tempo, dá a exata medida da nossa pequenez. Como assim, as palavras que eu tenho para nomear o mundo não existem para você, querido estrangeiro? 

    Tal fato não seria prova suficiente de que o certo e o errado são conceitos estruturalmente frágeis? 

    Volto para casa com a certeza de que cada um de nós é uma meia-verdade construída a partir do berço em que nasce, do colo que encontra, das dores que suporta, dos livros que lê, das coisas que vive, das palavras em que crê e da cultura em que se banha. 

    Somos pipas soltas no vento com rabiolas feitas de palavras.

    O mais importante é se deixar voar sem perder tempo em julgar as condições de voo, a altitude, o movimento, as cores ou a estrutura das outras pipas. 

    Com sorte cruzamos e aparamos nossos encontros. 

    Mais do que julgar e condenar, desfrutemos da sorte de ter um céu multicolorido. 

  • A lição de Vieira

    “Sermões escolhidos”, do Padre Antônio Vieira, é uma das obras frequentes no vestibular. Nela os alunos têm a possibilidade de conhecer nosso maior representante do conceptismo barroco.

    A vertente conceptista opunha-se à cultista, comumente exemplificada em poemas de Gregório de Matos. No conceptismo privilegiam-se as ideias, os conceitos, os jogos sutis do pensamento – enquanto que no cultismo se dá ênfase aos torneios formais (excesso de antíteses, apelo aos contrastes de cor, criação de metáforas raras etc.).

    O Barroco oscila entre essas duas tendências e muitas vezes as associa numa mesma composição. É muito difícil, nessa escola, isolar conceito de forma. A própria obra de Vieira, que é considerado um barroco clássico, demonstra isso.

    Grosso modo o Barroco se caracteriza por uma hipertrofia da forma, um excesso que visa a compensar o vazio de sentido decorrente de uma profunda crise espiritual. Vieira escapa ao desencanto porque tem os pés, ou melhor, o espírito plantado no solo do cristianismo. Seus sermões são comentários de passagens bíblicas, que ele amplifica e interpreta com engenho e paixão.

     Os “Sermões” são sobretudo um exemplo da articulação entre literatura, religiosidade e participação político-social. Vieira foi um militante que elegeu a Escravidão como o seu maior inimigo. Por defender os índios, que então se escravizavam e dizimavam aos montes, brigou com senhores de terra e com representantes da ala conservadora da Igreja. E por defender os cristãos-novos (judeus convertidos ao cristianismo), chegou a ser preso pela Inquisição.

    O jesuíta passou à história literária como um clássico da língua. Seus sermões equilibram a “agudeza” do conceito, cara ao estilo barroco, com a clareza necessária à persuasão. Como convencer alguém das verdades cristãs sendo obscuro e cerebrino? Ou se comprazendo, como faziam os cultistas, num jogo por vezes gratuito de antíteses e paradoxos?

    Essa mania dos contrastes, ele critica numa passagem do seu famoso “Sermão da Sexagésima”: “Se de uma parte dizem luz, da outra hão de dizer sombra; se de uma parte dizem desceu, da outra hão de dizer subiu. Basta que não havemos de ver num sermão duas palavras em paz? Todas hão de estar sempre em fronteira com o seu contrário?”

    Depois de censurar os pregadores que “fazem o sermão em xadrez de palavras”, Vieira dá esta preciosa lição de como escrever: “O estilo há de ser muito fácil e muito natural. Por isso, Cristo comparou o pregar ao semear. Compara Cristo o pregar ao semear, porque o semear é uma arte que tem mais de natureza que de arte.”

    Ele demonstra que a clareza não está no artifício, mas na simplicidade. E quem deseja escrever bem não pode esquecer isso

  • Os esquecidos

    Existe esse bairro do qual pouco se ouve falar, encravado na periferia extrema de uma grande cidade. Um lugar miserável feito de papelão, barro e lata velha, com cadeiras coxas nas portas e arremedo de jardim sem flores debaixo das janelas. Nesse ermo, sempre deixado de lado, vivem os esquecidos, uma gente feia à qual a gente da cidade entende por bem dar as costas. É um aglomerado de mortos-vivos que perambulam, comem quando conseguem o que comer, transformam coisas em cores e só têm olhos para onde seus pés pisam.

    Um dia desses, um dia qualquer desses, algo surpreendente aconteceu no mundo. A terra tremeu e rachou, o mar se agigantou para além do que é ser gigante, bilhões de insetos romperam os ovos ao mesmo tempo, a lavoura secou, os animais caíram doentes, os homens e as mulheres sentiram o pavor na pele e choraram pelo destino de seus filhos. A água que se bebia ficou podre, a comida escasseou, o mato cresceu e tapou a paisagem, uma enfermidade veio após a outra, o ar se encheu de poeira, a lua se aquartelou atrás de um planeta desconhecido, o sol perdeu seus raios e pareceu esfriar.

    Enquanto tudo isso acontecia, o bairro dos esquecidos, de tão esquecido que era, foi deixado de lado. Em lugar já tão miserável, não havia espaço para mais miséria. Quis a sorte que as latas velhas e as pessoas que viviam dentro delas sobrevivessem ao apocalipse.

    Agora é com eles, com os esquecidos, e só com eles, que está esse negócio de crescer e se multiplicar de que falava um tal livro que eles nunca leram.

  • Bilhete Premiado!

    Ficamos mais próximos de nós mesmos nesses últimos anos, foi inevitável o isolamento e descuido em relação aos outros, porém, crescemos sobre maneira evitando por vezes um desespero sem volta. 

    Os melhores estão aqui, os mais fortes e preparados se safaram da peste, e agora revivemos nosso passado na busca de respostas diferentes porque todas as questões mudaram, algumas de tamanho, outras de conteúdo. 

    A forma de revisar a vida, travada pelos artistas de cinema, tem um detalhe particular muito diferente dos reles mortais, é mostrada em grandes telas.

     Como o fez Steven Spielberg em seu filme “Fabelman”, já premiado e atraente para muitos. Ele conta sua história de vida, repensada justamente nos tempos de clausura, devido ao fato do vírus estar a solta na rua nos pulmões de muitos.

    Dramas familiares foram repensados, Steven misturou horror e comédia, com romance e “suspense”. Como sempre foram todas nossas vidas, que o tempo e o medo de sobra proporcionaram o pensar saudoso nos fatos marcados num passado esquecido pelo temor dos dias doloridos, mas que uma doença às soltas na calçada, empurrou nossas ideias para uma reflexão e revisão de um tempo guardado nas gavetas como recordação, para saudar um dia em especial com tenra alegria. 

    A guinada obrigatória nos deixou atônito e sem fala, porque até essa foi contaminava, por vezes com vírus, outras tantas com verdades, ou mentiras. Ficamos mais perto do limite de nossa frágil existência biológica, que nos deixou expostos à finitude dos corpos, calejados da busca pelo respirar saudável.

     Outro cineasta, o Belga Lukas Dhont, aproveitou a paralisia da indústria cinematográfica para voltar a sua pequena cidade Natal e ao pisar na escola onde estudou, se reconectou com uma parte de si. Daí surgiu outro filme, “Close”, um drama sofrido sobre homofobia e masculinidade tóxica, que tem nos medos e insegurança que ele vivenciou na infância.

    Parece que a pandemia inaugurou profundamente um novo pensar na forma de nos relacionarmos com o passado e a memória. Essa (auto) análise forçada, fez bem a quem soube aproveitar e entender que o resto de seus dias lhe foram presenteados como um bilhete premiado dado por acaso, ou sorte, aos que tinham mais saúde e anticorpos para lutar em conjunto por você. 

    Se Nietzsche, já havia percebido quando escreveu “Quando você olha para o abismo, o abismo olha para você”, nesse momento surgiu a oportunidade de refletir sobre a finitude, e encará-la para fazer uma escolha, que exigiu mais preparo. Ou você preferia abraçar a desistência e ficar no passado, com certeza não sentiria mais dor, na verdade, nem estaria lendo essa crônica.

  • Com quantos anos ainda se pode dançar?

    Depende.

    Depende das juntas, da artrite, da saúde em geral, depende de tanta coisa.

    Naquele sábado, na pista da Pink Flamingo, os garotos com preguiça do flerte – dançavam, riam, bebiam. Ninguém se olhava. Ninguém se deixava gostar.

    Foi quando ele – camisa branca, jeans comum e tênis – foi para a pista com jeito de quem ainda sabe como se faz certas coisas.

    Primeiro ele olhou. Depois sorriu. Depois gostou.

    O outro olhou de volta. Depois sorriu de volta. Depois gostou de volta.

    Tudo começou com “meu nome é”, “Pô, fazer o meu é”, “Vamos sair daqui e tomar um drink”.

    Os jovens ficaram. O som também.

  • Poema #02: Último andar

    Inunda o céu a invasão
    desse voo vadio sem asas
    de volteios fora do tempo
    a trapacear a vertigem.

    Fora de ordem e selvagens
    são as aves que sequer
    as mais hábeis artimanhas
    mantiveram na gaiola.

    Em silêncio, em liberdade
    furam a fila das nuvens
    e enganam sombras e luzes
    no movimento sem freios.

    Ao redor do último andar
    vê o caminhar derradeiro
    que prescinde de convite
    pra lançar-se ao recomeço.

    Faminto de novos ares
    voa pra abocanhar o céu
    pássaro infenso à censura
    tecido de pensamento.

  • Poema #28: ANÍMICA

    quando eu tinha todos os movimentos
    eu era sol entre nuvens
    aves de arribação
    qualquer coisa de menos sólida
    por haver.
    eu via cachoeiras em meus sonhos
    remanso de rios
    pedra grande de sentar menino
    florestas a esculpir.

    Da Essencialidade da Água

  • [com]penetrante:

    Convencer-se profundamente sobre algo; Concentrar-se intensamente em algo.

    […]

    Quantas toneladas de cimento erguem-se do solo em direção ao céu, na cinza e tão loquaz São Paulo?

    Quanto de densidade vital se esfarela nas sombras penetradas por passos, sapatos, solas, pés descalços, arte de rua, pombos, cachorros, bolsas de senhoras que, sem querer, lançam-se, desobedientes, ao rés do chão das calçadas, a testar a humanidade: ajudo a senhora com seus pertences ou… me lanço agilmente e as tomo para mim? Há várias pessoas ao redor, transeuntes, turistas, vendedores locais, menores e maiores infratores.

    Quanto de manutenção não fica registrado no transfixar violento de marteletes nas calçadas – penetra, rompe, quebra, mais profundo, fundo: buraco, valeta, exposição das veias desta cidade. Um “cimentinho” aqui, outro acolá: rápido encobrir, ato abusivo, mácula de um amador – sem técnica – a desenhar sobre a pele virgem de alguém que sonha com sua primeira tatuagem, perfeita: cicatriz horrenda no passadiço sem o emblemático ladrilho hidráulico com o mapa de SP em PB, chão que também é teto de um crescente número de imigrantes.

    Em plena Paulista.

    A Paulista: ápice de topografia urbana da Pauliceia, selva de pedra onde pulsam, vorazes, a cultura, o comércio, os restaurantes, a ilegalidade, as manifestações; sexo (todos os gêneros), drogas (psicoativos e muitas farmácias) rock ‘n roll (principalmente aos domingos, quando os carros são proibidos e a música toca solta, tal qual uma salada de frutas).

    Aqui pululam centros culturais, essas velhas-novas Igrejas. Para além de um confronto silencioso com seu próprio existir, é possível encontrar um lugar seguro em meio às fricções civis – tamanha potência erótica de atrito urbano nas vias térreas, pernas, muitas pernas, e rodas, tantas e mais e outras rodas. Um viajante poderá decorrer o tempo entre o turistar e o embarque nos corredores, salas, cinema, lanchonetes e até restaurante do IMS, por exemplo – com banheiros sem distinção de gênero, guarda-volumes e conhecimentos à disposição, gratuitos, até tarde da noite, ou madrugada adentro, em algumas ocasiões. Os centros culturais são os eixos, em opinião privada, de indivíduos encapsulados em seus tempos mundanos. Na terra da garoa há também padarias pecaminosas, com cafés cremosos, lanches tentadores, bolos molhadinhos, recheados de todos os tipos. E de tipos “Sampa” está cheia. De gente, de estilos arquitetônicos, de clima, de histórias.

    Em meio ao leito carroçável de toda a Terra da Garoa, percorrem motoristas de aplicativos que também são executivos, ex-militares, professores de línguas estrangeiras, aposentados, estudantes, recém-casados, endividados e pessoas com depressão, ou burnout. Ou um pouco dos dois. É o caso do Seu David.

    De origem portuguesa, segunda geração nascida em solo brasileiro, é ex bem sucedido funcionário de uma das primeiras importadoras do Brasil o uber que nos busca em frente ao shopping Iguatemi, um dos pontos mais Faria Limer da minha viagem – e quase nada a ver comigo, não fosse a livraria da Travessa, caloroso vermelho vivo em seu gingado carioca, que desbanca qualquer Tiffany, gélido azul com previsões de divórcio e acabamento escorregadio, em cetim. Voltemos ao nosso motorista e a um percurso, sem trânsito, de menos de 30 minutos, até Pinheiros.

    Ele vem de Alveiro, norte português cuja tradição se tricota em meias verdes e vermelhas pela avó, cores de Portugal, presentes esperados por netos, filhos, noras e genros. Um dia, apareceu um gajo que se deu bem com uma tia. Conquistou a mãe, sua avó. Inaugurou as produções de meias para não parentes. A avó, figura emblemática em sua vida – e já falecida -, uma vez perguntara em voz alta a Deus se algum dia teria bisnetos homens. Já contavam 9 herdeiras. Já idosa e temendo nao ter a vida útil dos Albuquerque assegurada pelas próximas gerações, deu com o jovem David, que lhe prometera dois bisnetos homens. Assim cumprira, mesmo que a avó o houvesse deixado logo em seguida, não presenciando a dádiva. Avó que, além de vó fora também mãe. Tantas em tão pouco tempo. Várias mães: mãe-avó, tia-avó, Tia que não teve filhos. Todas se foram antes de David tonasse homem feito.

    Um homem assim nostálgico e de verbo solto nos conduz por um trecho já familiar e continua a prosa. Diz que trabalha de uber para não enlouquecer. Discursa sobre a rotina de seu trabalho, suas viagens sem espaço para horas de turismo, tudo findado em 1983. Prometeu-se voltar aos lugares dos quais gostou, Brasil afora ou exterior, quando de sua aposentadoria. Amarra o assunto trabalho com sua rotina de motorista de uber: remédio contra a depressão, pois é viciado em adrenalina. Não consegue e não quer ficar parado, perda de tempo, perda de vida. E desfia mais um pouco de sua biografia.

    Nos conta do tênis de “luzinha” , que mostrou aos empresários brasileiros em primeira mão entre batidinhas dos calcanhares dos calçados em suas mãos, numa grande mesa de reunião, quase uma Dorothy desejando voltar para casa. Se empolga tanto nos ouvidos do banco de trás que erra a entrada da nossa rua. Não há retorno próximo. O taxímetro do aplicativo inflaciona, mas seu David está feliz.

    ….

    Estes últimos dias em São Paulo tem sabor das coisas descartadas pelo tempo, endereço onde ponteiros entalhados dormem sob uma poeira espessa. Essência dos olhares privados de vida, apreciadores das reminiscências da vida de ninguém. Diplomas, fotografias, castiçais, vinis com caligrafias de donos primeiros. Tapetes e cadeiras aguardando ansiosos amantes do analógico para um resgate que os devolva a dignidade mínima de objeto de decoração. A dignidade das escolhas, quaisquer que sejam. O amontoado de coisas é uma coisa – e não coisas em si. As funções se esvaem, a utilidade perpassada… o entusiasmo [já] nem perto.

  • Melhor não rir na sexta…

    Todo mundo conhece aquela velha metáfora do copo: meio cheio ou meio vazio. Virou referência clássica para distinguir os otimistas dos pessimistas. Basta um gole de convivência em família ou entre amigos para perceber quem vê a vida com espuma no topo e quem enxerga apenas o fundo do copo — seco, é claro.

    Na minha roda de infância, havia uma amiga que levava o conceito de copo vazio a um novo patamar. Era praticamente um poço — mas um poço sem fundo. Desde pequena, ela fazia questão de apontar todas as chances de dar errado. E não se contentava em prever tragédias apenas para si: distribuía o pessimismo como quem passa repelente em roda de criança — generosamente.

    Quando a brincadeira era subir em árvore, ela se plantava embaixo e alertava:

    — Cuidado! Isso aí não vai acabar bem.

    Se a turma queria brincar de esconde-esconde no escuro, arregalava os olhos e decretava:

    — Isso é perigoso. Vai que alguém se perde?

    Na adolescência, seus avisos começaram a ganhar contornos mais sofisticados — quase uma espécie de bullying afetivo. Bastava a gente se empolgar com uma festinha para ela nos puxar num canto e murmurar:

    — Olha… não fica triste se ninguém te chamar pra dançar, tá?

    Era um balde de gelo na autoestima. Eu, que já era tímida, ouvia aquilo e perdia o rebolado antes mesmo da primeira música.

    E no vestibular, então? Ela fazia uma careta de dor antecipada e soltava:

    — Cem candidatos por vaga? Humm… então esquece. É quase impossível passar.

    Dava até medo de abrir o jornal no dia da lista de aprovados.

    Importante dizer: ela não fazia isso por maldade. Era pessimista até com os próprios sonhos. Morria de medo de se empolgar e depois quebrar a cara. Então, preferia não subir — nem a escada da esperança.

    Com o tempo, seu pessimismo foi ficando tão aguçado que beirava a feitiçaria. Se falávamos em ir à praia:

    — Melhor nem se animar, vai chover. Se saía um filme novo:

    — Ouvi dizer que o final é triste. Se queríamos só uma fatia de bolo:

    — Melhor evitar, engorda.

    E para fechar cada previsão sombria, vinha a sentença final:

    — Ouçam o que eu digo: melhor não rir na sexta pra não chorar no sábado!

    Hoje, sempre que me pego com a alma meio nublada, lembro dela. E dou um passo atrás.

    Porque, veja bem, pessimismo pode até parecer prudência, mas é traiçoeiro — e, segundo um estudo publicado no Proceedings of the National Academy of Sciences, reduz a expectativa de vida em até 15%.

    Então, se você se identificou com a minha amiga… cuidado.

    Ria na sexta.

    Ria na segunda.

    Ria quando quiser.

    Porque chorar, a gente já faz de vez em quando — sem precisar de aviso prévio.

  • Poema #10: OUÇO RUMORES

    Ouço os passos do vento
    Ouço e estremeço…

    Tempo

    Entretempo

    Ouço rumores de vento

    E penso que sou eu
    o vento
    e o rumor

    Momento…

    E o meu corpo
    descolado das palavras
    é brisa marinha

    As ondas me invadem

    uma a uma
    e a sensação da vida e do amor

    preenchem os espaços outrora vazios

    preenchem cada canto
    o olhar de sal

    e as mãos que se quebram de tanto escrever

    As ondas e o vento
    e o meu corpo ainda intacto

    Depois?

    Não ouço mais nada…

  • Namoro Fake

    Foi amor à primeira vista! Mas aqui já cabe uma dúvida: tem como não ser assim? Pensei, repensei, e concluí que talvez o amor, esse danado, só se instale quando é fulminante. Ou, pelo menos, quando nos parece inevitável.

    Amor precisa de sujeito. Ele pode ser físico, abstrato, indeterminado, oculto.

    Pode ser real ou inventado. Mas o outro, o par romântico, existe. Mesmo que só na nossa cabeça. E, quando você se percebe amando, naquele marco zero do sentimento, ele já foi “visto”: em sonhos, expectativas, afinidades. Às vezes, até em espantos. O amor sabe se disfarçar… Pode parecer inveja, antipatia, pode até nascer de um súbito calafrio, intuição ou premonição talvez?

    Tem mil artimanhas, esse sentimento que nos atravessa sem pedir licença.

    A letra da canção garante: “toda forma de amor vale a pena”.

    Mas será? A literatura está cheia de amores impossíveis. A vida real, cheia de histórias que começaram com promessas e terminaram em silêncio, dor ou tragédia. Quantos desamores estampam hoje as páginas policiais? Feminicídios, suicídios, acidentes provocados por ciúmes, por brigas que se travestiram de paixão.

    Chega.

    Hoje é Dia dos Namorados. Um dia para celebrar o amor; o bom amor. Aquele que respeita, que soma, que escuta, que cuida!

    Celebre, presenteie, ame. Agradeça por amar e ser amado. E, se for o caso, se ainda estiver só, agradeça também o tempo de espera: ele costuma preparar o terreno para o que vem com calma.

    E acredite: entre tantos amores fake, ainda há espaço para aquele amor sereno e verdadeiro, que sabe florescer mesmo depois das tempestades.

    Com amor…

  • Namorar

    Gosto da palavra “namorar”.  É um dos verbos mais puros da língua portuguesa. Mesmo quando por eufemismo designa outra coisa (a ligação entre amantes, por exemplo), “namorar” sugere mais ternura do que desejo. É uma palavra tão embebida em frescor adolescente, que deveria ser proibida aos que se relacionam num nível mais avançado.

    Os amantes resfolegam; os namorados suspiram. O prazer neles é mais ânsia do que consumação. Os amantes têm um antes e um depois, quando se quebra o encanto. Os namorados vivem num eterno antes, cheio de expectativa e encantamento. Os amantes têm diante de si o corpo explícito, feito carne, aberto na franca exposição da entrega.  Os namorados tateiam no escuro o corpo escondido, espiritualizado, que sonham um dia possuir.         

    Namorado também não é ficante. O ficante é inimigo de quem ele beija ou apalpa numa intimidade destituída de preâmbulos e promessas. Quer o prazer imediato, e não apenas com um só. Quer a diversidade e o número. Quanto mais garotas ou garotos houver, melhor, já que nenhum deles conta mesmo por si. Os namorados, se pudessem, construiriam um mundo só para os dois.   

    Namorado não quer a presa fácil; quer o árduo e delicioso trabalho da conquista, que se dá aos poucos, num crescendo de intimidade.  Quer seduzir, o que só é possível quando o outro opõe resistência pelo que tem de íntimo, inalienável, pessoal. Como no “fica” ninguém resiste, não cabem nele os artifícios da sedução. E sem o trabalho de seduzir não há por que mobilizar a linguagem e escrever cartões, bilhetes, poemas (muitas vezes furtados), na tentativa de dizer ao outro o que se sente.  

    Um dos problemas dos relacionamentos de hoje é que se namora pouco. Vivemos numa época objetiva, pragmática, em que ninguém quer perder tempo. Na pressa de atingir logo a meta, os parceiros se alheiam do que há de fascinante no percurso.  O essencial do namoro não está no ponto de chegada, mas nas estratégias que levam a ele. É um caminho pontuado de temores e arrebatamentos, cujo sentido está mais em percorrê-lo do que em atingir o objetivo.  

    Mesmo porque o objetivo nunca é muito claro, já que os namorados vivem um tanto perdidos um no outro.  Faz parte do processo ver o parceiro como enigma e espera. Como possibilidade de alguma coisa que nenhum deles sabe ainda o que é. Sabe apenas que deve aproveitar o momento antes que ele se transforme, e os dois sejam convocados a decidir que destino vão se dar.  Enquanto namoram, o tempo faz seu trabalho, que consiste na lenta e inflexível erosão da fantasia.  

    Sei que estou romantizando, mas não existe namoro sem romantização.  Por isso ele só acontece entre os que ainda não conhecem bem o mundo. Ou, se o conhecem, preferem ignorar-lhe a feiura e apostar no castelo de sonhos que (eles sabem) muito em breve virará saudade. A saudade dos namorados é a de um tempo em que eles eram outros, menos táticos e frios. E mais capazes de esperança na vida e no amor.

  • Poema #01: Entrelinhas

    Repara a frente do verso.
    Gêmeas, capa e contracapa
    dispensam qualquer remendo.
    Abrem-se livres, pois são
    asas de uma ave vadia
    a desnortear perspectivas
    (no alto, embaixo, início, fim).

    Enumerar as palavras
    no caderno é exercício
    árduo de caligrafia.
    Um sem-número de imagens
    colore o branco entre as linhas,
    promove encontros na rígida
    geometria das paralelas.

    Remexe o varal das letras.
    O movimento preciso

    revela o que antes estava
    camuflado sem disfarce:
    conselhos, consolos, sonhos,
    denúncias…diálogo aberto
    que se guarda a sete chaves.

  • Diário do comandante do grupo de sobreviventes

    Segunda-feira, 15 de março

    Cruzamos a linha que tínhamos marcado no chão como limite infranqueável e com isso provocamos esse desastre que nos trouxe até aqui, à beira do abismo. Fomos imprudentes e as consequências não tardaram. Acredito que nada possa piorar. É grande a sensação de que fodemos com tudo. Quase podemos sentir a respiração dos inimigos em nosso pescoço, o bafo quente deles em nossa nuca. Estamos vulneráveis, mas ainda armados e lutando e nos defendendo todos os dias. Abatemos três esta manhã.

    Sexta-feira, 26 de março

    É hora de levantar e respirar um pouco. Temos que recobrar os ânimos e buscar a cor verde para alegrar as pupilas de todos. Precisamos ver árvores, florestas, bosques, passarinhos piando entre as folhas. Para onde estendemos os olhos só vemos o cinza, a fumaça, o céu preto. Está na hora de nos abraçar e começar de novo. Necessitamos de um pacto entre nós. Sobreviver, para poder viver.

    Tenho animado a tropa na medida do possível, quando o tiroteio dá uma trégua. Não está sendo fácil, mas vou conseguir.

    Quinta-feira, 2 de abril

    Esse tem sido o meu maior erro nos últimos tempos: ignorar a verdadeira natureza do ser humano, que é capaz de produzir o desastre mais inacreditável sobre ruínas já existentes. Não nos contentamos com o ruim, queremos sempre chegar ao pior.

    Perdemos o Desidério, ele se deu mal no corpo a corpo com o inimigo. O Anacleto pisou numa mina que estraçalhou seu corpo, tivemos que enterrá-lo aqui mesmo, perto da trincheira. O Negro quase pisou também, mas viu a tempo e conseguiu se salvar.

    A comida está perto de acabar. A água também. Todos comemos uma vez só ao dia. Estamos economizando a ração que nos resta.

    Aqui o tempo demora a passar. Às vezes parece que nem passa.

    Quarta-feira, 15 de julho

    Não há mais razão para continuar lutando. Tudo degringolou de maneira que ninguém poderia imaginar. A catástrofe de alguns meses atrás foi somente um prelúdio inocente em comparação com o que ocorre agora. Estou escondido numa cova com uns poucos soldados. Eles resistem com bravura, mas não sei por quanto tempo estarão dispostos. Eles são cada vez em menor número e dia após dia perdem o entusiasmo. Tenho que ser criativo para animar a tropa. Não é sempre que consigo.

    Sexta-feira, 17 de agosto

    A bravura dos soldados se esfumaçou. A vida deles também. Enterrei um ao lado do outro. Pus um pedaço de tábua com o nome de cada um para identificar quem era quem. Fiquei só. A comida está no limite. Água, só a que está dentro do meu cantil.

    O tempo ainda demora muito para passar.

    Sábado, 18 de agosto

    Esta guerra, qual é mesmo a razão dela? Já não me lembro mais por que tudo começou. Ou como viemos parar aqui. Ou quem nos mandou para cá. Não vejo a hora de voltar para casa, tenho muita saudade.

    Domingo, 19 de agosto

    Estou só. O inimigo teve tantas baixas quanto nós. Percebo que no outro lado há apenas um também. Já o localizei com a mira telescópica da metralhadora e tenho a cabeça do sujeito no alvo. Sei que ele também aponta sua arma para o meio da minha testa.

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