Crônicas Cariocas

  • Ficar de repouso

    Desconheço três palavras do nosso idioma que, juntas, formam uma pequena sentença de morte. Em vida. Ela me assombra como uma prisão para maus comportamentos que parecem surgir até de vidas passadas. Um castigo para as travessuras, repouso para mim é inferno na terra e ainda me deixa de mau humor.

    Essa pequena frase que para muitos pode soar com um alívio no caos consegue me tirar totalmente do sério, apesar de serem necessárias, principalmente depois de uma cirurgia delicada que não foi exatamente como esperávamos. Ok. Mas para uma sagitariana com elemento “fogo no rabo” e ascendente em comichão, ficar de repouso é puro castigo. Com a mente inquieta e o corpo curioso, nada me deixa mais mal-humorada quanto não poder fazer qualquer coisa a toda e qualquer hora. Toda bobagem vira uma luta e as pequenas coisas se tornam um desafio de paciência que chegam a me dar nervoso.

    Inocentes vão dizer: aproveite esse tempo para ler e relaxar! Claro! Mas, e aquelas roupas no armário que teimam em se misturarem seguindo uma lógica que não é a minha? E as surpresas pela casa – em obra – que surgem apenas quando estamos por perto e incapacitadas de resolver? Mas, claro, temos uma lista de belos e cultuados filmes que sempre almejamos assistir e precisávamos exatamente desse momento tão reconfortante de repouso absoluto para realizar esse velho sonho. Mais inocência! No primeiro dia até vá, mas nos outros simplesmente perco o bom senso e me inebrio com vídeos de gatinhos e comédias bobas que parecem me acalmar os sentidos e me fazer esquecer o inesquecível: PRECISO FICAR DE REPOUSO.

    Resolvo então colocar o papo em dia. Ligo primeiro para os filhos. 10 minutos com um e quase 3 com o outro. Com o mais velho o papo até engrena, ele conta novidades, destila sua fina ironia e termina com um – Adeus! marcando claramente o seu tempo comigo e mostrando que ele tem – graças a Deus – mais o que fazer. O mais novo já atende com aquela voz entediada mostrando que não estava nem um pouco a fim de falar com a mãe. Tudo bem, tudo bem, tempo, planos, o que vai fazer hoje, te amo e tchau. Me contento com pouco. Pelo menos ainda me amam. Resolvo ligar para uma grande amiga que me pergunta sobre um bazar na nossa cidade. Estico a prosa o máximo que posso e ainda tenho uma outra chance: preciso ligar para minha mãe para mais informações sobre o tal bazar. Meia hora falando com a amiga e uma hora falando com a mãe – nunca pensei que fosse gostar tanto das suas redundâncias – já deu para passar o tempo e acalmar o coração.

    A noite vem e me inebrio com filmes até dormir no sofá. Na cama, lado certo para dormir, tampão protegendo o olho e a inquietude volta. Porque não conseguimos engatar o mesmo sono gostoso que já nos acalentava no sofá? O corpo deveria ter algum dispositivo que nos fizesse apenas mudar de lugar sem nos acordar. O sono continuava intacto e a mente calma não se abriria para novas possibilidades, como guloseimas escondidas espalhadas pela casa – esconderijos estratégico de chocolate para momentos de fúria ou tristeza – que são explorados a revelia apenas pelo fato deu estar em casa achando que tudo me convém. Disparates de gula na madrugada que cobram seu preço quando o repouso acaba.

    Tudo começou com um arsenal secreto para momentos de TPM, iniciativa que julguei ser da mais absoluta utilidade pública, principalmente para a saúde mental do meu marido. Fazia pequenas matulas de bombons e M&M´s e colocava naquele local no fundo do armário da cozinha que a maioria dos homens nem sabe que existe. Mas como toda prática leva a perfeição, comecei a elaborar novos esconderijos, cada vez mais ousados, mas que se mostraram ainda mais eficientes. O óbvio normalmente não é descoberto exatamente por ser óbvio. E me lembrei que havia comprado um pacote daquelas bolinhas mágicas de chocolate ao leite e branco antes da cirurgia. Com muita cautela, fui até o seu esconderijo e me deliciei com algumas tantas delícias vendo o último capítulo de Tieta. Prazeres mundanos que ainda valem à pena.

    No outro dia, mais jornais acumulados, revistas separadas, palavras cruzadas empilhadas ao lado da cama, todos à espera desse momento de paz e repouso. Menos eu. Me decido pelo livro do mês do meu clube de leitura e me deixo levar pela história de uma dona de casa italiana que começa a escrever um diário com os acontecimentos do seu dia a dia no pós segunda guerra mundial. Trivialidades da vida de toda mulher, mas com aquela profundidade que só boas escritoras conseguem imprimir. Enquanto isso, no Instagram, a vida acontece, os eventos transbordam, o sol é para todos e o céu azul me convida para mais. Tudo me aflige e me chama para fora. Leio mensagens de encontro entre amigas, cafés no meio da tarde, calçadas novas para explorar.

    Mas nego, sem dó nem piedade, me privando de tudo e todos para ficar no tal repouso.

    — Não posso fazer nada, doutora?

    — Não, apenas ler e ver televisão. Fica como se fosse uma velha.

    Já me sinto uma. Quase retruco: posso jogar bingo então? Mas prefiro não piorar a minha situação. Apesar de que, conheço algumas velinhas que são mais ativas que muitos jovens que vemos por aí. Idade é mesmo coisa da nossa cabeça. Mas os 50 ainda estão sendo digeridos por mim.

    Aproveita para descansar! Os amigos insistem. Não me sinto com mais tempo para descansar. Apesar de estar adorando algumas regalias que esses dias promovem, como café na cama e a falta de compromisso de dar conta de tudo, conto os minutos para poder fazer tudo que gosto de novo. Esse meio século – bem – vivido parece ter me atropelado, como se ligasse os motores para uma nova era. Os 50 chegaram com tudo e com ele uma sede imensa de mais. Vou descansar dormindo ou na sala de espera do dentista. Quero arte e movimento, expansão e criatividade; quero vida correndo, amor, amigos, filhos, sonhos… Tudo por perto, junto e misturado. Quero sair sem ter hora para voltar – sendo que às 10 já estou dormindo, claro – e emendar um compromisso no outro com sorriso no rosto e vento nos pés. Como o menino maluquinho. Ou uma menina que ainda posso ser.

    E, claro, com muito fogo no rabo!

    Que seja breve o meu repouso.

  • #012 – ATÔMICO

    .

    Nossos filhos nascem cegos
    pela poeira do nosso tempo.
    Nós ainda enxergamos
    porque já entendemos o mundo
    a partir da poeira que há nele,
    e que não nos incomoda muito.

    Areia (À Fragmentação da Pedra)

  • Dilema

    Uma decisão da maior importância para uma mulher é qual o formato vai dar para o seu penteado. Primeiro porque ele é um cartão de visitas, a primeira coisa que as outras mulheres vão reparar e comentar. Ele diz muito a respeito do estilo da pessoa, demonstra o quanto ela está antenada com as tendências da moda, e, muitas vezes, dependendo do grau de maldade das amigas “intimas”, é uma pista sobre o tipo de salão que a pessoa frequenta, ou seja, um salão de primeira ou de segunda linha.

    Até aí, nada de novo. Outro dia, porém, me vi em frente ao espelho, cabelos molhados e uma decisão a tomar: “devo pentear o meu cabelo com as pontas viradas para fora ou para dentro?” falta esclarecer que se trata de um cabelo bastante liso, portanto esse detalhe das pontas é que dá o toque ao visual.

    Comecei a pensar que essa escolha não é somente estética; existe aí algo mais subjetivo que norteia o ímpeto de virar as pontas para dentro ou para fora. Passei a lembrar em que momentos decidi pelo estilo mais Channel, e aqueles em que a decisão pendeu para o mais esvoaçante, ajudada por algumas fotos.

    A relação da direção das madeixas com o estado de espírito ficou claríssima! A escolha dos cabelos voltados para dentro estava relacionada a momentos de maior introspecção, maior formalidade, sugerindo até um certo romantismo.

    Os cabelos com as pontas jogadas ao vento estavam presentes em situações de alegria, diversão, informalidade, passavam uma impressão mais jovial.

    Essa descoberta me trouxe um sério problema — comecei a aplicar a regra para analisar os cortes de cabelos masculinos e fui buscar algumas relações.

    — Cabelo comprido? Pessoas criativas, mais sonhadoras. Entre os mais velhos, denota uma tentativa de manter a eterna juventude, resquícios da vivência nos anos 70.

    — Cabelos raspados? Mais comum entre homens inteligentes e decididos, que gostam de marcar presença, serem notados e criar um estilo marcante.

    — Topete? O preferido dos sonhadores, nostálgicos, românticos.

    Virou um vício, uma coisa terrível da qual não consigo me livrar. Fico observando as pessoas na fila do caixa do supermercado, no ponto de ônibus, no trabalho, e acabo fazendo outras relações entre a personalidade e estilo de cabelo, tanto dos homens como das mulheres.

    Solução? Pelo menos em relação ao meu cabelo, decidi usar reto, nem para fora nem para dentro. Interpretem como quiserem.

  • Ilusões

    Surgem como uma pulsada, naquela subida de sangue que invade o cérebro, insufla as veias, tonteia, bambeia as pernas.

    Se fazem presentes no sonho desperto, no pensamento à toa, na dispersão do foco. Se estabelecem, prosperam.

    Na quentura do coração, fermentam. Levain que cresce a cada dia. Da própria farinha imaginária se alimentam. Regadas por nossos sonhos se multiplicam, se agigantam.

    Atingem seu auge, ocupam os vazios, preenchem, inebriam. Esplendor colorido de uma bola de chiclé sabor tutti-frutti.

    Pingue-pongue! A costura da vida alfineta, impiedosa. A esfera estala, murcha. Lá se vão as quimeras com que inflamos nosso balão de ilusões.

    Resta só uma goma indigesta que gruda na nossa cara, perplexa.

  • UMA CRÔNICA PARA ANNE FRANK

    Olá Anne!

    Bem, eu imaginei diversas formas para começar esta crônica e, na verdade, creio que o melhor começo seja agradecer a sua resistência!  

    E eu começo com uma pergunta que você mesma faz: “…por que as pessoas não podem viver juntas em paz? Por que toda essa destruição?”

    O seu diário fez toda a diferença pra mim! O seu diário fez diferença para milhares de pessoas! É um sucesso em todos os lugares do mundo! Acredito que não há um lugar que não conheça a sua história!

    E, voltando às perguntas feitas, o ser humano, nas suas complexidades, frustrações e influências, age de maneira irracional, por vezes, busca a guerra…

    Como você observou muito bem, “há uma necessidade destrutiva nas pessoas, a necessidade de demonstrar fúria, de assassinar e matar. E até que toda a humanidade, sem exceção, passe por uma metamorfose, as guerras continuarão a ser declaradas…”

    Estou escrevendo esta crônica porque, infelizmente, mesmo passado tanto tempo da guerra que você viveu e conheceu, o mundo parece não aprender nunca. No tempo em que estou, bem distante da Europa de Hitler, ainda vivemos com guerras. Pior, os homens maus nunca desistem do poder. Os homens maus não deixam de existir

    Muitos homens maus já passaram desde então, no entanto, neste meu tempo de absurdos, há um homem sem sorriso que definitivamente assusta boa parte de nós. E, não, ele não é da Europa! Ele é o presidente dos Estados Unidos! O nome dele é Donald Trump.

    O mais estranho, trágico, triste, enfim, são tantas as palavras que não consigo escolher apenas uma… O mais estranho é que esse homem parece ter aberto uma espécie de caixa de Pandora. Uma caixa do passado, com todos os fantasmas da Grande Guerra: autoritarismo, intolerância, perseguições, soberba e um olhar de superioridade que você enfrentou e conheceu muito bem!

    Anne! Falo de você para as pessoas! Falo do seu diário e da importância de tudo o que você viveu! E eu fico com esperança quando vejo o brilho nos olhos de todos os que ouvem e se emocionam com a sua história.

    Anne! Esta crônica não é um relato pessimista, mas uma forma de te dizer que é necessário resistir e acreditar nas pessoas, apesar do contrário! Olha que este mundo em que vivo parece virado de cabeça para baixo!

    Temos muitas tecnologias neste tempo, contudo, elas não nos aproximaram, ao contrário, deixaram maiores as distâncias, modificaram as relações e estão roubando de cada um de nós, a cada dia, um pouco do que insistimos em chamar de humanidade!

    Em muitos momentos, quando vejo que os erros do passado se repetem, me sinto anestesiado, confuso, desanimado, mas sei que não posso desanimar! Isso não seria justo com o seu diário, com a sua história ou com a história de tantas pessoas que passaram pelo que você passou.

    Aprendi a resistir escrevendo. Alinhando as palavras, juntando sons, criando sentidos e costurando, em prosa ou em verso, o que importa dizer: a vida e as suas cores! A vida e as suas dores!

    Anne, seu diário atravessou o tempo e chegou ao meu tempo e continua reverberando, atual e tocante, sincero e certeiro, simples, mas verdadeiro…

    Obrigado por ter resistido!

    Este cronista segue resistindo neste tempo de corações duros e verdades descartáveis…

  • Viagem no Tempo

    13 de fevereiro é o Dia do Rádio. Aquele que já foi essencial nas casas das famílias, por mais simples que fossem.

    O pai ouvia as notícias através da Voz do Brasil.

    A mãe encantava-se com as vozes dos heróis e heroínas das novelas de rádio.

    Ah, Albertinho Limonta, como você pôde renegar seu filho em O Direito de Nascer?

    E as mocinhas sonhadoras?

    Encantavam-se com as músicas apaixonadas dos cantores que se tornavam ídolos da juventude:

    “Quero beijar-te as mãos, minha querida
    És o maior enlevo da minha vida.”

    O rádio era um passaporte para outros mundos e, ao mesmo tempo, reunia a família ao redor de suas ondas sonoras. Juntos, apreciavam a música, vibravam com partidas esportivas e acompanhavam programas de entretenimento. Ah, e não se perdia o horóscopo! Na sala de casa, ocupava um lugar de destaque, e os locutores de rádio tornavam-se quase membros da família, de tão conhecidos que eram.

    O próprio aparelho era um símbolo de status. Famílias mais abastadas das décadas de 70 e 80 passaram a ter o rádio vitrola em suas salas e, posteriormente, o famoso três em um, o auge da ostentação.

    Com o tempo, o rádio perdeu seu trono na sala de estar. Pequeno e portátil, deixou de ser um evento coletivo para se tornar uma companhia individual. Depois, a televisão assumiu o protagonismo, e aquele brilho dourado das ondas sonoras foi se apagando no cotidiano das famílias.

    O Dia do Rádio. Não sei exatamente o significado dessa data, mas sei o que ela me traz: uma enxurrada de lembranças.

    Lembrei-me da caixa com brilho de verniz, com os alto-falantes escondidos pela tela entremeada de linhas douradas e, em cujas ondas, eu sonhava com o futuro.

    Lembrei-me do meu pai, no final da tarde, com seu rádio portátil preto, onde talvez ele rememorasse o passado.

    Hoje é o Dia do Rádio. E, entre tantas transformações, ele permanece. Talvez não mais no centro da casa, mas sempre no coração e na memória.

  • O agora é o antídoto da frustração

    Telma acordou cedo para cumprir tudo que havia programado: passear com seu cachorro, ir ao pilates, mercado, banco. À tarde pegar a roupa na costureira e depois tomar um café com Silvia, sua amiga de infância. 

    À medida que realizava o seu cronograma, experimentava aquela alegria fagueira dos que honram as promessas feitas para si mesmo. 

    Telma se encaminhou para o ponto de ônibus embalada pela leveza de não cair nos cambalachos da procrastinação. Tudo resolvido. Tudo pronto. Tudo perfeito. Mal podia acreditar que em trinta minutos estaria com sua amiga de uma vida inteira. Quanto tempo… quanta saudade. 

    Acostumada a dar vazão às emoções, embora sua mãe chamasse isso de ansiedade, enviou um áudio para Silvia declarando sua felicidade com o reencontro que estava para acontecer. 

    — Silvinha, já estou chegando. Tô doida pra te ver. Te amo, amiga!

    Silvia ouviu a mensagem aliviada por não ter desmarcado o encontro com Telma, embora ainda estivesse um pouco indisposta. Pensou em responder, mas estava atrasada, deixou para falar pessoalmente. Queria chegar logo e abraçá-la como nos velhos tempos. 

    Na saída de casa, a dor aumentou. Foram três passos e mais nada. 

    Telma jamais saberá o quanto sua amiga desejou revê-la. 

    Silvia tinha planos para um futuro que a vida decidiu não aguardar.

    Uns vão dizer que Telma não deveria ter criado expectativas para não se decepcionar com o desfecho.

    Outros vão achar que Telma não deveria se entregar tanto às relações para não se frustrar.

    Eu digo que Telma, pelo menos, vivenciou a alegria de esperar pela festa. Ainda que a festa não vá acontecer.

    A vida sem expectativa é um jardim sem flor. 

    Um corpo sem movimento. Um olhar sem brilho. Uma alma sem voz.

    Um texto sem leitor.

    Um salve para todos os corajosos do agora.

  • O CACHORRO ENCADERNADO

    Tenho uma relação antiga com o livro. E feliz. Eu acredito que ninguém é obrigado a ler tudo. O básico de cada um é o resultado de suas predileções e inclinações. Momentâneas ou não, ditadas por tantas coisas que reúnem um pouco de tudo que se chama você. Mutante por natureza, esponja que absorve e que despeja os excessos pelo caminho.

    O olhar muda com o tempo porque é forjado por nossa maturidade. Não ter idade para ler alguém é uma verdade, mesmo que incomode nossa vaidade intelectual. Acontece. As vezes você retorna ao livro mais adiante na sua vida. As vezes ele desaparece pelo caminho.

    Nossa estante de livros, a metafórica quero dizer, não é melhor nem pior do que a dos outros. São nossas escolhas, sem competir com ninguém.

    Na adolescência uns amigos se tornaram fãs do J.R.R. Tolkien e sua saga “O Senhor dos Anéis”.

    Eu descobrira Garcia Marques a partir de “Cem anos de solidão”. Nossos caminhos literários não se cruzavam.

    Eles insistiam em me dizer que eu não sabia o que estava perdendo por não conhecer a Terra Média. Lá em Macondo eu balançava minha rede e suspirava.

    Influências externas podem te empurrar na direção de uma estante. Ou te afastar dela. Mas o que dizer dos estalos que nos chegam de repente? Sabe quando nosso olhar examina a obra e uma voz baixinha nos diz “acho que vou experimentar esse ai”…

    Ser leitor é muito bom.

    Houve uma época da minha vida em que levava, por baixo, uma hora e meia de casa ao trabalho. E para voltar também, não tinha refresco.

    Pegava duas conduções e na primeira, a de uma hora, eu conseguia viajar sentado. Como sempre pegava o ônibus no ponto final, tanto na ida quanto na volta, era tranquilo. E para ocupar o tempo, eu lia.

    Foram mais de seis meses nesse trajeto até mudar de casa. Nesse tempo, Guimarães Rosa me fez companhia. Li “Grande Sertão: Veredas” nessas duas horas diárias de viagem. Lembro até o que eu fiz no dia em que Riobaldo uivou de tristeza. Interrompi a leitura, completamente afogado pelas emoções do jagunço e lancei um olhar perdido na cidade à minha volta. Sertão bruto me cercava. E Riobaldo uivava.

  • Errata celeste

    Os que acreditam na influência dos astros em suas vidas devem ter ficado chateados com Parke Kunkle, professor de uma instituição americana. Segundo ele, “está errada a interpretação dos movimentos celestes usada pela astrologia para determinar os signos de acordo com a data do nascimento das pessoas”. Isso porque os mapas astrológicos, produzidos 3.000 anos atrás, estariam há muito defasados. Com a mudança no posicionamento do eixo da Terra, uma pessoa que se imaginava capricorniana, por exemplo, é na verdade de Sagitário. Um suposto taurino, como eu, pertence ao signo de Áries.  

    Sem querer ser presunçoso, confesso que no íntimo eu desconfiava disso. Sentia certo descompasso entre o meu modo de ser e o desenho do meu signo, que me colocava sob a égide de um touro (bicho grosso e intratável), quando em minha alma pasta um cordato carneirinho. Não exagero se disser que essa foi uma das razões para eu nunca ter dado muita importância aos astrólogos. Sempre confiei mais nos genes e na força das circunstâncias. 

    Imagino a confusão que esse quiproquó planetário está causando na cabeça daqueles que programam suas vidas conforme o alinhamento da Terra em relação às estrelas. Eles têm na cartografia celeste um roteiro que, revelando-se ou não acertado, lhes serve de guia. Alguns a primeira coisa que fazem, antes de sair da cama, é consultar o horóscopo para ver se devem ou não fechar um negócio, fazer uma viagem, iniciar um caso amoroso. De repente vem esse professor e os deixa sem chão, ou melhor, sem céu em que possam ver delineado seu mapa existencial.    

    Não deixa de ser estranho que pensemos que Marte, Vênus ou alguma daquelas constelações distantes tenham a ver com o emprego que devemos assumir, a roupa que devemos vestir ou a mulher com quem devemos nos casar. Crer nisso não tem fundamento, mas para muitas pessoas faz todo o sentido. O mecanismo pelo qual tais crenças lhes parecem coerentes é o mesmo que fundamenta as religiões; explica-se pelo desejo de fugir ao desamparo, à incerteza quanto ao futuro e, sobretudo, ao medo da morte.   

    Ninguém pense que a descoberta de Kunkle vai mudar a crença de quem depende dos astros para conseguir a paz interior. Desde quando se crê em alguém, ou em alguma coisa, com base em evidências racionais? A  razão serve de esteio para o que se conhece, e não para aquilo em que se acredita. O fermento da ciência é o saber; o da crença é a ilusão.

    No máximo os adeptos da astrologia farão um pequeno ajustamento em seus signos – há os que vão continuar lendo as previsões segundo o mapa antigo. Se mudou o lugar das constelações, endireite-se o eixo da Terra, corrija-se o Cosmo. O importante é que, ao acordar, eles possam iniciar o dia com a certeza de que farão as escolhas certas. E, sobretudo, de que alguma força transcendente os protege contra as armadilhas do Acaso.

  • Porque a escola não é só a classe!

    O neurocientista Miguel Nicolelis publicou o livro “O verdadeiro criador de tudo”, onde tratou sobre aquilo que são as criações do cérebro humano (dinheiro, religião, ideologia, entre outras). 

    Esse órgão que deveria ser o centro do universo, desenhou nossa existência e se mantém evoluindo num caminho adverso e sem volta. 

    Como não somos máquinas ou sistemas digitais, nosso sistema nervoso opera em um estado analógico muito oposto ao digital. 

    Algumas pessoas acreditam que podemos aproximar nosso cérebro dos sistemas digitais, mas nunca chegaremos ao ponto ideal, porque a inteligência é uma propriedade de um sistema orgânico, que não foi construído, mas evoluiu em relação ao ambiente e durante o contato com outros membros de sua espécie. 

    Não há nada de inteligente na inteligência artificial, ela é um imenso amontoado de memória que opera através de estatística, e não cria nada, é um grande golpe de “marketing” para o mundo. 

    Os neurocientistas já sabem disso, porque em seu meio científico todos entendem que isso é balela. 

    Porém, essa imersão na lógica digital está alterando fisicamente e funcionalmente a forma do cérebro operar. 

    Na Universidade de Helsinki, os finlandeses estão revertendo o uso de computadores em sala de aula, porque descobriram que os efeitos são mais deletérios do que positivos para o cérebro das crianças.

     Essa história de todo aluno ter um computador é quase um fetiche, foi, na verdade, um grande projeto americano.

    A educação é um processo que você interage para aprender, e o peso da palavra depende muito do seu vínculo humano, social, emocional, com seus professores e colegas. 

    Essa experiência social faz parte da grande força evolutiva que moldou nosso cérebro primata, que é adaptado para o aprendizado em comunidade.

    Na questão educacional, o que realmente pega é o contato humano, a presença de pares numa classe e de um professor presente.

    Porque a escola não é só a classe e a sala de aula, é o recreio, a conversa das crianças, a troca de experiências individuais que passam a ser parte do coletivo. 

    Nós confundimos educação com transmissão de conteúdo, mas se fosse somente isso, poderíamos sentar na sala, ouvir o dia inteiro e decorar. O movimento humano segue rumo a quebra de paradigmas sociais, por isso não invente a desculpa de estar ocupado ao celular, ou computador, ao invés de encontrar novos amigos.

  • Carmen, a faxineira prática

    Os familiares da morta explicam que querem a casa limpa o mais breve possível, já há um comprador interessado. O imóvel precisa virar dinheiro logo e ser dividido entre eles. Perguntam a Carmen se não tem medo de entrar sozinha na residência de uma defunta. Ela responde que deixou o medo lá na terra dela, depois da chacina que matou seu pai e seus irmãos. Que necessita trabalhar, que trabalha desde criança e que não escolhe serviço. Que gente morta não faz mal a ninguém, só gente viva. Que faxina é faxina, não tem segredo nenhum, é só deixar limpo o que está sujo e pronto. Que pede a Deus para nunca lhe faltar trabalho, seja em casa de vivo ou de morto, tanto faz. Que, brinca ela, um leproso nunca reclama de uma ou duas feridas a mais num corpo todo cheio de chagas. Carmen não se mostra disposta a alongar a conversa fiada e trata logo de combinar dia, horário e pagamento para fazer o trabalho. Informa que levará o próprio material de limpeza. Dizem para voltar no dia seguinte, às dez horas.

    Carmen gira na fechadura a chave que lhe deram, empurra a porta de madeira escura e olha o ambiente por alguns segundos. Casa pequena, em dois palitos eu limpo isso aqui e recebo o pagamento, ela calcula. O silêncio lhe agrada. Morte recente, parece que ninguém da família mexeu em nada ainda. Devem ter medo de entrar aqui, pensa a faxineira. É a primeira vez que limpa casa de defunto. Isso é bom, avalia Carmen, não vai ter patroa enxerida e de mau humor vigiando o serviço nem espreitando se a gente rouba alguma coisa. Fecha a porta com o calcanhar. Veste o avental, prende os cabelos, coloca as luvas de borracha e começa a faxina pelo banheiro.

    A falecida deixou meio rolo de papel higiênico no suporte e um tubo de pasta de dente quase cheio em cima da pia. Carmen pega os dois e os guarda no bolso do avental. Os tempos não estão para se ter nojo de nada e ninguém vai notar a falta. Esfrega o vaso sanitário e a banheira com limpa-manchas abrasivo e depois aplica desinfetante perfumado. Passa pano no chão, que brilha. Fecha a porta e vai para outro cômodo.

    Na cozinha, encontra um saca-rolhas e uma garrafa de vinho pela metade sobre a mesa. Põe o saca-rolhas no bolso. Essas coisas custam barato no mercadinho, Carmen avalia, mas se não precisar pagar por elas, tanto melhor. Cheira a boca da garrafa e faz careta: O vinho azedou, que merda! Joga a bebida fora e lava a garrafa. Esfrega tudo com detergente antigordura. Enxuga a pia, recolhe o lixo, limpa o piso e sai.

    Na sala quase sem móveis, Carmen olha para a cortina listrada de tecido grosso. Decide levá-la, deve servir para alguma coisa. Sobe num banquinho para tirá-la do varão, sacode a poeira e a dobra. Pode virar uma toalha de mesa ou uma colcha de cama. Se alguém perguntar, ela dirá que não havia nenhuma cortina na janela. Na pressa de vender a casa ninguém vai reparar nesse detalhe.

    Por último, o quarto da falecida. Carmen encontra uma bonequinha de pano jogada no chão. Guarda-a no bolso do avental, porcarias assim sempre têm alguma utilidade. Decepciona-se ao ver a cama sem lençol e sem colcha. Avalia o colchão: pesado e grande demais, não teria como levar, a família daria pela falta. Suspira e se conforma. Vasculha as gavetas da cômoda à procura do que mais interessa: as pílulas. Essas mulheres remediadas são loucas por remedinhos tarja preta pra dormir, pra acordar, pra ficar alegre, pra ter energia, pra relaxar. Tomam remédio pra tudo, onde será que estão escondidos? Não tem nada aqui, vai ver algum parente já pegou, que azar! Passa o aspirador no piso e um pano com lustra-móveis nas portas do guarda-roupa. Ouve um ruído parecido com um gato arranhando a madeira, vindo de dentro do armário. Abre a porta. Uma menina de presumíveis três anos está encolhida e parece assustada. Carmen olha a criança e tem vontade de pegá-la no colo. Antes, porém, faz cálculos: é bonitinha e parece saudável, mas cuidar dela vai custar um bocado de dinheiro, além do tempo necessário até crescer, criar corpo e conseguir trabalhar. Não valia a pena. Empurra a menina de volta para o fundo do armário e fecha a porta. Termina de tirar o pó e limpar o chão do quarto. Dá a faxina por encerrada e sai para devolver a chave e receber o pagamento.

  • Sobre quando os negócios vão bem (ou nem tanto)

    Não é novidade para ninguém: a Burrice está em alta. Tão em alta como nunca antes. Embora existam os alienados que afirmem o contrário, nenhum argumento contorna a verdade, mesmo sendo complexo e recheado de palavras bonitas, técnicas e pomposas. E a verdade é que a Burrice cresce rápido. E é moda.

    Correndo sério risco de extinção, a Inteligência tem se escondido nas vielas pouco movimentadas e andado, quando necessário, camuflada na multidão, de cabeça coberta e passos ligeiros, se esguelhando entre um e outro, sem dar chances para o azar nem cogitar paradinhas despreocupadas em frente às chamativas vitrines que ornam a realidade. Não tem sido fácil a sua jornada.

    A morada da Inteligência é desconhecida há muito. Ao que tudo indica, nas últimas duas ou três décadas fez seguidas mudanças. Talvez tenha incorporado uma veia um tanto desbravadora e passou a buscar novos horizontes de tempos em tempos, talvez tenha se enfastiado ou assustado com a evolução da concorrente, optando pela reclusão.

    A concorrente, de fato, decolou. Diferente de alguns analistas mais afobados, não acho que seu crescimento foi abrupto, tampouco acredito que tenha sido por acaso. Minha teoria defende a evidência de um planejamento milimétrico e execução perfeita de cada passo dessa evolução. Não impressiona ter construído um império multinacional, aniquilando ou incorporando todo e qualquer corajoso opositor.

    Antigamente a Inteligência estava sempre disponível nos corredores das bibliotecas, mas até ali passou a se sentir ameaçada. Aos poucos foi se isolando e se apertando nos cantos mal iluminados. A chegada de caminhões de best-sellers, livros de autoajuda com palavrões no nome, livros de autoajuda sem palavrões no nome, livros de autoajuda financeira, livros de influencers e livros de religião rasa, diferentes dos antigos, com quem costumava conversar, a deixaram enclausurada e restrita a uma lateral, depois a uma estante, depois a uma prateleira, depois a um quartinho reservado nos fundos e então teve de devolver as chaves. Aquele não era mais o seu lugar.

    Sejamos razoáveis. A Inteligência tem vivido um verdadeiro inferno nos últimos tempos. Sempre que achada é rapidamente trucidada. Nem sequer lhe dão o benefício de um interrogatório. Não há hipótese nem cogitação de anistia. Trata-se vulgarmente de uma condenação sem crime. Há alguns dias, encontrada dentre os livros da biblioteca do poeta Jorge de Lima, foi logo levada à reciclagem, junto com todos os que a acompanhavam. Sem tempo para uma resposta, um argumento ou mesmo a fuga. E assim se desfez. Ninguém ousou se interpor ao martírio.

    Achar os outros poucos exemplares da Inteligência é uma tarefa para Sherlock e Watson, talvez para Poirot quando inspirado ou, em terras tupiniquins, para o elegante Espinosa. Mas também é tarefa complicada e um tanto sem sentido. No mundo do TikTok só faz doutorado quem não sabe rebolar. É o novo real. A Burrice domina os meios de atuação, produção e distribuição. Buscar a Inteligência é encargo difícil, por princípio desmotivador.

    A Inteligência cambaleia escondida enquanto os negócios da Burrice vão bem, obrigado. A Inteligência míngua, fingindo demência em buracos. Não bastasse o extermínio sem prerrogativas nem repreensões de qualquer espécie, a Burrice ainda vende cursos na internet, a custo baixíssimo e, vez ou outra, com um descontinho supimpa. É a fatia que lhe convém, já que todos querem estar com ela e ser como ela. Um exemplo vivo de sucesso, um exemplo perfeito do triunfo, da prosperidade e da felicidade. E, além disso, seguir os seus conselhos é mais fácil que aguentar as nuances, os devaneios, as angústias e os poréns da Inteligência. E, vamos falar sério, quem não gosta de uma recompensa fácil?

  • #011 – Quando acordei do coma parece que entrei num pesadelo

    Quando acordei do coma
    eu já não tinha mais
    a mobilidade de antes.
    Olhei para as paredes
    de vidro do isolamento
    e já não tinha a mesma visão
    de antes
    a mesma audição
    de antes.

    O mundo parecia ser outro.

    Perna e braço direitos
    estavam paralisados,
    dormentes e um sono
    de letargia na noite
    fria com pedras de gelo
    no peito, do lado
    esquerdo, assim penso.

    O mundo já não era o mesmo.

    Dois dedos do pé esquerdo
    haviam sido afetados
    e minhas afeições e
    percepções já não eram
    as mesmas. Fúria de
    não ter sido antes.

    Minha intimidade
    e meus defeitos haviam
    sido expostos como
    escaras do tempo.

    Nunca mais quis tirar fotografias.

    Havia um corpo estranho
    no meu corpo fragilizado
    e uma tela no estômago
    de baixo para cima eu havia
    sido atingido por um golpe
    do destino e várias cirurgias.

    Não tinha mais condições
    suficientes para poder
    trabalhar, sobreviver
    e tive que depender
    de apoio, de cestas básicas
    da vida como um doente
    a quem falta alguma coragem.

    Remédios para a goela grande das farmácias.

    Acordei como quem entra no pesadelo
    e já não podia sonhar acordado ou dentro
    de uma noite normal e previsível.
    O eixo de tudo continuava gasto
    como o eixo do mundo, ANTES.

    Da Essencialidade da Água

  • Chapéu revelador

    Gosto muito de usar chapéus, tanto no verão como no inverno, mas nunca me preocupei em destrinchar o significado dessa minha predileção. Depois do evento em que Melania Trump apareceu com um chapéu cobrindo os olhos e gerou uma série de interpretações sobre o significado dessa escolha, passei a pensar um pouco mais sobre o assunto.

    Se for analisar esse meu gosto por cobrir a cabeça sob um ponto de vista racional, os chapéus de feltro que adoto no inverno pretendem agasalhar a cabeça, sem colocar aqueles gorros de lã que me deixam com o visual de um gnomo velho. Já as peças de verão são plenamente justificadas pela proteção da pele do rosto. Por ser muito clara e ter um fator genético envolvido, mesmo com a proteção de um filtro solar potente, não tem como evitar os spots marrons que a velhice só faz ressaltar.

    E o que mais estaria por trás desse encantamento meu com chapéus? Achei interessante pesquisar o que se falou sobre o chapéu da primeira-dama e daí puxar o fio da meada.

    Descobri que o estilo de chapéu de palha de lã adotado, com as abas obscurecendo quase totalmente os olhos, foi projetado pelo chapeleiro Eric Javits, de Nova York. Segundo o próprio estilista, “era um floreio austero para um conjunto elegante de estilo militar”. Qual o recado que Melania queria passar com esse estilo militar? Minha curiosidade aumentou, fui um pouco mais a fundo na história do chapéu de palha que serviu de inspiração para o estilista.

    Cheguei ao Chapéu Panamá. Originário do Equador, é feito de palha toquilla, mas foi associado ao Panamá devido à sua exportação através do porto lá localizado. O nome se popularizou quando o presidente dos Estados Unidos, Theodore Roosevelt, usou o chapéu durante a visita de inauguração do Canal do Panamá, em 1906.

    Opa! Melania de Chapéu tipo Panamá cobrindo o rosto e traje estilo militar na posse do Presidente. Declarações polêmicas de Trump sobre expansão territorial e retomada do Canal, mesmo que haja necessidade do uso de força militar para recuperá-lo. Coincidência ou tudo estilosamente planejado?

    Voltei aos meus chapéus, acho que está na hora de revisitar cada um deles e, talvez, ter mais cuidado com o recado que cada um pode passar.

  • A magia nos persegue (Ou será o contrário?)

    Alguns de nossos antepassados adoravam o sol, outros atribuíam almas a objetos inanimados. Se você acha que está muito acima disso, é melhor pensar duas vezes: o pensamento mágico nunca saiu de moda. A tecnologia muda cada vez mais depressa, mas a natureza humana muda lentamente – se é que muda.

    Afirmamos que o verdadeiro poder está na fé, no entanto insistimos em dialogar com símbolos. Conversamos com medalhinhas e imagens mesmo sabendo não passam de artefatos comuns. Não parece ser muito diferente de falar com pedras sagradas ou escutar espíritos de lobos.

    Suponho que, a não ser em filmes de ficção, não mais se imolem carneiros, porém continuamos fazendo oferendas aos deuses em forma de votos e promessas. Prometemos sacrifícios, rezamos terços, lançamos flores ao mar, damos pão aos pobres em nome de Santo Antônio. Outras culturas fazem de outros jeitos, mas a ideia é a mesma.

    Rimos quando nos falam em sereias e duendes, mas acreditamos em anjos protetores. Em situações extremas vale tudo: recorremos a curas milagrosas e a medicações que nos dizem ser boas para isto ou aquilo. Ansiamos por fórmulas mágicas que nos farão emagrecer sem esforço e sem abrir mão do chocolate.

    Cultivamos superstições. Justificamos a derrota do time para o qual torcemos dizendo que foi porque não vestimos a tal camiseta da sorte. Damos três pulinhos para encontrar coisas perdidas. Colocamos vassouras atrás de portas para nos livrarmos de visitas indesejadas. Na virada do ano pulamos sete ondas, comemos uvas e lentilhas, usamos dourado para atrair dinheiro, entramos com o pé direito. Comemos romã no Dia de Reis. Evitamos treze pessoas à mesa. Você não leva nada disso a sério, mas faz assim mesmo. Alega que é divertido e arremata com a máxima de que não crê em bruxas, ‘pero que las hay, las hay’. Muita gente acredita naquilo que sabe que não existe. Aliás, me ensinaram esta semana uma simpatia ótima para comprar ou vender imóveis – vou fazer porque estou precisando.

    Pai Cláudio de Oxalá, aquele que promete trazer de volta a pessoa amada em três dias, continua ativo. Um jovem distribui suas filipetas em pleno coração de Ipanema e diz que a procura é grande. Se não fosse verdade o rapaz já teria perdido o emprego.

    A explicação é óbvia: a fé está no nosso DNA. Ajuda a suportar a vida, essa luta incessante contra a Natureza que nos cria e nos descarta, uma batalha perdida desde o início. Não acreditar em nada é para os muito fortes. Estou fora.

  • O BALÃO E O MENINO

    Esta é a história de um menino. Não sei o seu nome. Entre tantos meninos que vivem nas ruas, embrulhados pela fumaça dos carros, continuam caminhando.

    Um menino, um sonho e algumas palavras.

    Esse menino sonhava com um balão, mas não um balão qualquer, um balão comum. Um balão que revelasse o tamanho do mundo, que mostrasse, do alto das nuvens, a paisagem perfeita. E tudo poderia ver e sentir e imaginar.

    Um balão que levasse toda a tristeza embora.

    Balão no céu, balão no ar. Céu azul, céu quase azul. Confundindo-se com o mar…

    Sonhava o menino com fúria, com vontade e se achava solto no tempo, voando atrás do balão, atravessando o céu.

    Grito estridente de um vendedor ambulante, buzinas ecoam… Com esforço e movimentos repetidos, o menino manobrava a carroça de papel para não ser atropelado. Tudo o que tinha era uma carroça que carregava todos os dias: papel, papelão, papelote. Assim era a vida. Muitos papéis. A vida inteira.

    Uma senhora de expressão fechada e casaco marrom reclama com o policial.

    Um carro passa.

    Pessoas passam.

    A vida passa.

    O menino sonha com um balão, mas não um balão qualquer. Nunca o deixaria. O sonho era maior que tudo. Os outros meninos estavam ocupados com o cheiro ácido das colas e com as bolsas de couro das madames.

    Ele não.

    O gosto pelo balão se mostrava maior que suas próprias forças…

    Carroça, mãos que apanham o papel sujo e amassado. Papel, papelote, papelão. Muitos papéis. Muitas palavras que não dava pra ler direito. Letras grandes e pequenas. Papel amassado. Rostos jovens e bonitos. Balão. Céu.

    Vagava o menino.

    Vagava.

    Passava pelas ruas estreitas, pelas ladeiras, atrás de papel.

    Passava pelas ruas estreitas, pelas ladeiras, atrás do balão. Queria-o tanto.

    Seus olhos imaginavam já a terra dos sonhos, a terra do fogo, a terra luminosa dos raios de sol. Nunca tinha visto raios mais dourados. A terra de flores coloridas, montes verdes e céu azul. O balão subia, subia mais alto, mais alto… E mais… Longe estava, bem longe ia. Não percebeu o carro… O balão mais alto subia, mais e mais. Não viu o carro. O céu se tornou amarelo e depois vermelho, um vermelho intenso, o sangue brotava mais e mais.

    As pessoas se aglomeraram ao redor do pequeno corpo…

    No entanto, o balão continuava subindo, cada vez mais alto.

  • Sobre não saber

    Chegou a hora de escolher o esmalte a ser usado amanhã para o ensaio técnico da minha escola de samba, a verde e branco, Imperatriz Leopoldinense. Parece uma questão tosca, sem relevância social, mas para mim não é. Imagino, inclusive, que para vocês, leitores, seja uma situação desprezível, o que não diminui o poder de impacto da maldita dúvida no meu dia: verde-claro com glitter ou verde-bandeira? Postei a questão no grupo de amigas do zapp. “Escolha qualquer um”, disse uma amiga. “Quem vai ver sua unha no meio da multidão?”, argumentou outra querida. “Não perca tempo com isso. O importante é estar lá”, falou a mais objetiva. 

    Enquanto isso, na minha cabeça, batucava a dúvida: o claro divertido ou o escuro classudo?

    As manifestações no grupo não pararam por aí. Mais amigos queriam resolver o meu problema, cessar a minha angústia: “No casamento do meu filho, fiquei na dúvida entre branco e nude e acabei usando o rosa.” “Pior sou eu, não posso usar nenhum esmalte porque estou com unheiro.” “Eu nem esmalto mais a unha, tenho alergia. Larguei pra lá.”

    De fato, não posso elevar a minha dúvida à categoria de catástrofe ou considerá-la um problema real diante de tantas coisas sérias no mundo: fome, guerras, violência. Acontece que, para uma coisa nos atormentar, ela não precisa de aval ou relevância social. Porém, somos mestres em julgar a dimensão e profundidade dos problemas dos outros, usando a régua das dores existenciais para medir e validar a angústia de cada um.

    À parte as boas intenções, quem me ajudou mesmo foi a única que não apresentou soluções nem exemplos pessoais sobre o tema. Apenas lançou: 

    — Posso ajudar de alguma forma?

    Tanta empatia implícita nessa pergunta…

    Escolhi o verde-claro. Acho que já o queria desde o início. Mas a conclusão mais importante foi perceber que a dor da escolha mora na dificuldade de perder. Se escolhemos A, perdemos B e vice-versa.

    Resolvi o impasse quando mudei o enfoque. Não era qual eu deixaria de usar, mas qual eu não abriria mão de ter.

  • A Pauta

    A pauta está em alta. E, por favor, caros leitores, puxem bem o L para não parecer que estou fazendo uma rima…

    Hoje, a frase da moda é: “Essa é a pauta” ou “Não é essa a pauta?”

    Os adjetivos, substantivos e tudo o mais que aprendemos nas aulas gramaticais estão praticamente reduzidos a frases e expressões prontas.

    As conversas estão fora de moda? Longas e gostosas conversas, em que há respeito aos pontos de vista divergentes; em que seja possível discordar sem que o outro entenda isso como agressão; diálogos com escuta atenta, perguntas e respostas sem sarcasmo ou ironia.

    As pessoas parecem estar desacostumadas ao antigo costume de trocar ideias ou mesmo “jogar conversa fora”. Ao contrário, o novo normal é o destempero, o cancelamento, as indiretas e, principalmente, a exposição ao mundo virtual antes de qualquer tentativa de conversa.

    O que antes era tratado entre quatro paredes — traições, términos de relacionamentos, cenas de ciúmes, mal-entendidos — está ali, “na rua” da internet, pronto para receber likes, na busca por sensações de sucesso ou aprovação.

    Reconhecer o valor do diálogo, das conversas profundas, dos bate-papos leves, não nos apequena — ao contrário.

    Antes que me digam “Vamos encerrar logo com este assunto” ou “Essa não é a pauta”, termino sempre com a expectativa de que tenhamos tido uma boa troca de ideias!

  • Notas para um jovem professor

    Meu prezado aprendiz. Deixo esses apontamentos na esperança de tornar sua jornada pelo magistério mais suave. Você sabe e eu sei que isso é impossível. Mas enganar a si mesmo é um dos passatempos dos viventes e eu, eventualmente, o pratico sem pudor quando a causa me interessa.

    Portanto, preste atenção que seu sucesso na carreira acadêmica pode depender de seguir ou não meus venerandos conselhos.

    Quando 50 pares de olhos apontarem na sua direção não faça movimentos bruscos. Seja suave, cordial, mas mantenha distância. Em geral eles não mordem mas como no ato de matrícula não é exigido carteira de vacinação atualizado é bom se prevenir.

    Não alimente os alunos porque pode viciá-los, mas equilibradamente passe pílulas bem calibradas de conhecimento de maneira que eles não se saciem.

    Escute, ouça e fale. Não preciso dizer que deixe eles falarem porque a maioria ou não abre a boca ou só fala coisas sem noção. Raramente alguém dirá mais de três palavras em linha reta. Esses, marque-os bem pois vão garantir sua entrada no reino dos Céus das graças da Reitoria.

    Seja resiliente, se aborreça com o que vale a pena e encontre forças para ignorar o restante. E sobretudo aprenda a cultuar a deusa Frigg, esposa de Wotan, deusa da fertilidade, do amor e da união. Um dos três atributos dela te serão úteis ou, na falta deles, basta honra-la às sextas-feiras.

    Não entendeu? Frigg é Friday, sexta-feira, captou agora?

    Enfim, qualquer dúvida não me procure. Aqui no refúgio que separei para mim, em meio às belíssimas escarpas da serra da Mantiqueira, sinal de wi fi não chega nem por decreto e as cartas são muito raras porque o carteiro se aposentou e mudou para Treze Tílias, em Santa Catarina. E além do mais você não sabe nem onde é o correio perto da sua casa.

    Ah senhor, como é abençoada a ignorância da modernidade!

  • Andarilho urbano

    Já fui um adepto da corrida. Comprei o livro de Kenneth Cooper e o li com aplicação, procurando seguir seus conselhos para melhorar a capacidade cardiorrespiratória e ganhar mais anos de vida. Costumava acordar cedo para trotar cinco ou mais quilômetros na calçadinha da praia. Quando cursava pós-graduação no Rio participei da corrida Leblon-Leme e não fiz feio, embora terminasse o percurso esbofado como um touro de arena antes do golpe fatal.

    A corrida se tornou para mim uma espécie de vício; era impossível abdicar do prazer propiciado pela endorfina, que chamei num texto de “vinho do suor” (nesse tempo eu queria ser um literato e achava que só chegaria a isso se produzisse imagens esdrúxulas). Com o tempo, fui aumentando a frequência das corridas e estendendo o trajeto. Os joelhos se ressentiram do excesso. Certa manhã, depois de um exercício mais puxado, senti uma dor violenta no joelho esquerdo e tive que parar. Voltei para casa mancando e tratei de procurar um médico, que foi curto no diagnóstico: lesão meniscal. Passei por fisioterapia e infiltração, mas o que resolveu mesmo foi a mesa cirúrgica.  

    Após essa traumática experiência, deixei a corrida e passei a caminhar. Com o tempo fui me dando conta dos benefícios dessa prática mais modesta, que exercita o copo e ao memo tempo o poupa dos excessos. O próprio Cooper, num dos seus últimos livros, desencoraja as corridas e aconselha que se caminhe. Tenho confirmado a sabedoria desse conselho. No ato de caminhar é menor a preocupação com o desempenho, o que libera a mente para reflexões ou simples devaneios. Daí ele ser frequente em filósofos e escritores.   

    Rousseau, por exemplo, costumava fazer longas caminhadas. Durante elas amadurecia as ideias que iria incorporar ao seu sistema filosófico – ideias sobre a natureza humana, que ele considerava a priori boa, e a importância da educação para ajustar o homem à sociedade. Montaigne também percorria longos trajetos antes de se enfurnar na sua torre e escrever os Ensaios. Machado de Assis, geralmente acompanhado por Dona Carolina, preferia um passeio pelas calçadas do Cosme Velho após o jantar.

    As caminhadas não precisam ocorrer na praia ou em algum local ermo. Podem acontecer mesmo no burburinho da cidade, entre gente apressada e automóveis pestilentos. Nesse caso pode-se nadar (ou melhor, andar) contra a corrente, sem pressa, flanando. Foi Walter Benjamin quem chamou a atenção para o flâneur; a partir de escritos baudelairianos, ele cunhou esse termo para designar o misto de andarilho e observador que vagava pelas grandes cidades.  

    Flanar é andar a esmo. É poetar com os pés. É ser um peregrino sem promessas, a não ser a de voltar ao ponto de partida depois de distrair o espírito com a gratuidade do percurso. Quem flana se liberta por um tempo de deveres e obrigações. Vai por ir, e não para cumprir um roteiro com uma meta específica. A mente também vagueia, deixando que os pensamentos fluam sem aparente conexão. Uma ideia puxa outra ao sabor do inconsciente, uma imagem desencadeia outra estimulada pelo que é visto ao longo do percurso. 

    Seguir por uma rua que a gente costumava percorrer desperta recordações que alegram ou entristecem. Outro dia, num dos meus passeios, deparei-me com uma casa onde moravam umas garotas que atraíam os meninos do bairro. Eram três, uma mais loura e espevitada do que as outras. A casa tem agora paredes enegrecidas, parte do reboco desfeita e mato crescendo onde antes foi o jardim. Como estariam os que nela moravam? 

    Voltei para casa com essa pergunta martelando-me o espírito, num vagar melancólico que me fez meditar sobre a inclemente passagem do tempo. Coisa de flâneur.

  • Nosso espelho franco e claro!

    A desesperança dói e prejudica nossos rumos quase sempre que escolhemos sozinhos um caminho tortuoso, que torna-se um entrave para novos planos e projetos, passíveis de execução entre o antes e o depois do infinito.

    O ser humano descobre sua própria diversão quando essa lhe é retirada, por isso o desmame de uma colaboração mental ou financeira, a busca de solução para nossos problemas, traz uma oportunidade no pensar em si com mais esforço e dedicação, na busca do aprimoramento de habilidades da melhor forma em caráter solitário. 

    Como fizeram os jovens escritores americanos, que lutaram voluntariamente na Primeira Guerra Mundial na França, onde passaram sua vida adulta até a grande depressão. 

    Eles buscavam realização intelectual no outro continente porque os EUA era um país jovem demais, imaturo, que impedia o surgimento de uma civilização e um clima favoráveis ao crescimento da cultura literária e artística. 

    Na França ganharam o rótulo de “geração perdida”, da escritora Gertrude Stein, se referindo a falta de direção às suas vidas nos anos seguintes ao final da primeira Guerra.

    Outros jovens naturais de regiões em torno de Paris, moldaram gerações apaixonadas, identificadas com cada ponto do território que tinham construído, amado, defendido com armas, irrigado com prantos de alegria e rios de sangue durante as batalhas sangrentas.

    Como escreveu John Donne “nenhum homem é uma ilha”, por isso qualquer morte me diminui, deixando clara a narrativa do valor que podemos ter aos outros, imaginem para nosso espelho franco e claro. 

    Em 6 de abril de 2011, o fotojornalista Anton Hammerl foi sequestrado e morto pelas milícias de Muammar Gaddafi na guerra da Líbia. Seu grande amigo Edgar Martins, recebeu o título de fotógrafo do ano no Prêmio Sony de 2023, justamente com ensaio realizado sobre a investigação da morte de Anton. 

    Edgar buscou refazer os passos do amigo nos lugares que ele visitou, conversando com quem ele se encontrou, no lugar onde se deu seu fim. 

    Provavelmente a qualidade das fotos apresentadas tragam a saudade e a força de uma amizade vivida intensamente. 

    O que mais temos para sentir aqui em nossos dias ásperos e pouco iluminados, senão momentos oferecidos pela empatia e semelhança, no desejo do apego pela vivência de um prazer único e muito raro de repetir.

     Escolha para você privilegiar quem lhe toca com sentimentos diferenciados, são possíveis de tocar, porém, a espera de um estímulo.

  • Silenciosa

    Toda noite uma mulher atravessa minha casa por dentro. Passa pela sala, alcança o corredor e sai pelo terraço dos fundos. Pede desculpas assim que me vê, diz que este é o seu caminho até o trabalho e que não conhece nenhum outro. Com o tempo me acostumei com sua presença. Ela é linda, e nem em sonho vi mulher igual. Espero-a todas as noites, e todas as noites ela vem. Algumas vezes cheguei a pedir que fizesse uma pausa e gastasse uns minutos comigo. Poderíamos beber algo juntos, rir sem preocupação, esquecer o mundo um pouco. Ela nunca aceitou.

    Hoje resolvi fazer-lhe uma surpresa. Preparei um jantar caprichado. Arrumei a mesa, acendi velas, arranjei flores. Ela não veio. Nem nessa noite nem nas seguintes. Talvez tenha descoberto um caminho diferente ou foi despedida do trabalho. Ou então retornou, tão silenciosa quanto viera, para o sonho do qual saiu.

  • #10 – TECNO-POEMA

    .

    – Fala o poeta de vanguarda:
    A estrutura do verso
    está invertida
    em meu caleidoscópio.
    Preciso de uma máquina
    rápida e perfeita para
    fazer uma circuncisão mental:
    “Quero que a estrofe
    gravada ao jeito
    do vídeo cassete
    saia nítida,
    sem um defeito”.

    – Fala a crítica especializada:
    A infraestrutura do verso
    está evoluída
    em meu laboratório.
    Preciso de um computador
    rarefeito e sem defeito
    para efeito de análise poética:
    “O crítico é um digitador,
    digita tão completamente
    que chega a digitar a dor,
    a dor que sua mãe sente”.

    – Fala o homem pensante:
    A superestrutura dos acima
    está equivocada
    em minha concepção histórica.
    Preciso de uma filosofia
    autêntica e própria agora
    para escrever um poema-amostra:
    “A sombra projetada de um homem
    exclui o mecanismo da repetição alheia,
    pois a condição intrínseca dele mesmo
    exige que seu poema se faça de ideias
    e despreze a vida enquanto justificativa
    para o erro de se caminhar junto ao tempo”.

    – Fala um observador imparcial:
    Poesia significa
    abrir caminho para o abismo
    e pedir que nos devolvam
    o nosso sonho antiatômico.

    O Acaso das Manhãs

  • Chuvas de verão: esquetes de improviso urbanos

    Chove. Uma menina corre em meio aos paralelepípedos e às gotas jovens, excitadas e insistentes. Usa um vestido branco curto, melissas azuis nos pés e cabelos longos e soltos. Corre sorrindo e dizendo “chuva, Pascal, chuva! Casa! Chuva, Pascal, vamos!”, e um chow-chow com sua intrépida lingua roxa reúne todas as forças – de onde, não se sabe; talvez do instinto, talvez da ligação afetiva com a sua humana; mais provável a associação do comando “casa” à ideia de conforto: bem mais interessante relaxar em sua almofada aconchegante do que andar pelas ruas sujas e enlameadas, alimentadas por toda a água que está por vir. Do outro oposto da calçada, um senhor carrega sacolas de mercado, sem conseguir andar muito rápido.

    Uma das alças arrebenta e rolam laranjas pelos quatro cantos e os que ninguém contou. Todos correm para se proteger da chuva. As laranjas parecem dançar e agradecer o banho em meio a um dia tão insuportavelmente quente. O senhor, apressado na tentativa de reaver as indisciplinadas frutas, é vencido pela sua descoordenação e tropeça no próprio sapato. Sem perder o compasso do acaso, um rapaz, com roupas de jogging, em um movimento impensado, projeta-se como um vulto e amortiza o impacto da queda do idoso. Uma criança de 8 anos solta-se das mãos da mãe. Dá alguns passos rápidos com suas perninhas pequeninas, agacha-se e começa a reunir as laranjas, repetindo os passos de correr, agachar-se e recolher. Uma das rechonchudas críticas, um tanto quanto amassada após a travessura em prol da liberdade, se encontra no meio da faixa de pedestres. O sinal sobre a faixa ilumina-se de verde. O menino reinicia às ações.

    Com os olhos alheios ao mundo, uma mulher, em seu Ford Ka preto, dirigia apressada, sem se dar conta de que o destino, disfarçado de menino, lhe tocava os freios: um susto de borracha, grito materno, metal e sorte. Dez centímetros separam o pára-choque frontal de um dos pés do menino. Um casal se põe à frente do carro, o homem repassa as recém resgatadas frutas dos bracinhos heróico e diminutos do menino para uma bolsa ecológica que retira de dentro da bolsa da namorada; esta leva o menino até a mãe, que treme da cabeça aos pés.

    O corredor ergue o senhor, aceita a bolsa reutilizável como quem recebe um bastão em uma corrida invisível e segue, ao seu lado, passos lentos. O destino do idoso é apenas a duas quadras dali. Todos se agradecem em seus diferentes estados de espírito e se ensopam. A chuva pesa nos ombros, as sacolas balançam contra as pernas, e a cidade, insensível e bela, junto às pessoas que vão e vem e param quase todas encolhidas contra os pingos -, engolem ambas as silhuetas entre as duas esquinas. Um entregador de aplicativos, que nada tinha a fazer, registrou todos esses acontecimentos em uma live em suas redes sociais. Apenas 5 visualizadores. Nenhuma reação.

    Tantas outras pequenas estórias poderiam ser apreendidas parcialmente e tomado o rumo que fosse pelos olhos de um observador atento. Como o casal que cruza o semáforo quase fechado, de motocicleta. Ela segura o motorista pela cintura com o branço direito, um bouquê de flores do campo envolto em plástico com a mão esquerda. No dorso deste mesmo braço, uma bolsa e uma sacola plástica rosa transparente, na qual se pode perceber a certidão de casamento recém retirada do cartório, cujo endereço era bem perto dali. Oficialmente recém-casados. Sem que percebam, as jovens gotas tornam-se mais maduras e profissionais. Chove de verdade. Um caramelo boceja dentro de sua casinha de papelão debaixo da marquise de uma loja. De repente, o burburinho cessa. O barulho da chuva toma conta. Apenas isso. Chove.

  • Anônimo

    A cena do interrogatório de Eunice Paiva no filme Ainda Estou Aqui provocou um clarão em minha memória, como se estivesse ainda sob efeito do medo das denúncias que ocorriam no período, entre amigos, colegas e mesmo parentes. Qualquer comentário que fugisse ao discurso aceito pela ditadura poderia ser motivo para delação.

    Ato contínuo, o encarceramento para averiguação, que resultaria no desaparecimento e morte de alguém cujo crime fora somente o de se opor ao regime. De um cidadão anônimo, passava-se a suspeito, investigado e culpado em fração de segundos.

    Esse tipo de memória fica adormecida, mas não se apaga nunca. Trazendo a questão para o presente e para fora de um contexto de perseguição política, me veio à cabeça o que está ocorrendo com o avanço da Inteligência Artificial (AI).

    Os algoritmos substituíram o álbum de fotografias que Eunice era obrigada a olhar e identificar quem conhecia, numa delação forçada a que muitos, após dias de tortura, sucumbiam. Uma inocente postagem nas redes sociais da foto de uma confraternização entre amigos, mesmo sem identificar o nome de cada um, é suficiente para “fichar” todos os presentes.

    Quer eles participem das redes ou não, são rastreados e investigados pela AI. Tudo o que essa pessoa, teoricamente anônima, gosta, fala, pesquisa na Internet, compra, com quem se relaciona e sua postura político-social, ou seja, todo o seu perfil, é monitorado pelos detentores dos códigos de rastreamento que direcionam a informação desse ID aos interessados.

    Hoje, podemos afirmar que não existem anônimos, e aqueles que teimam em afirmar que estão protegidos porque não frequentam as redes sociais estão redondamente enganados. A vida não é mais privada, e sim compartilhada, bisbilhotada, escancarada, e não há necessidade de nenhuma tortura para obter tudo o que se quer saber a respeito de qualquer pessoa.

    Basta um clique nos chats de AI para descobrir quem cantou gás de pimenta, quem delatou o marido num podcast, qual é a comida preferida do presidente americano, que declarações estão provocando mudanças na disputa do Oscar, e assim por diante.

    Vivemos num outro tipo de porão onde somos espionados dia e noite, sem trégua. Por ironia, essa versão moderna de encarceramento é chamada de AI e o local de confinamento de nuvem. A família Paiva, assim como outras que vivenciaram esse período triste da história do Brasil, tiveram uma alternativa de fuga, de autoexílio, quando divisaram o perigo, e muitos assim o fizeram.

    E nós, temos como fugir da AI?

  • #07 – O Homem dos Muros

    O homem dos muros
    É um ser sombrio,
    Sua imagem causa arrepio
    E gera confusão.

    O homem dos muros
    Grita e divide
    E com força Insiste
    Em mais desunião.

    O homem dos muros
    É uma grande desgraça
    Incita arruaça
    Morte e destruição.

    O homem dos muros
    Nem parece um homem
    A razão e o senso somem
    Na sua louca ambição.

    O homem dos muros
    É um menino mimado
    Birrento e enjoado
    O caos é a sua motivação.

    O homem dos muros
    É o pior presidente
    Não gosta de gente
    Não tem empatia nem coração.

    Coitado do mundo!
    Que dano profundo
    Se um outro discípulo
    Medonho e ridículo
    Pudesse aparecer!

    Coitado do mundo!
    Que dano profundo!
    Se um louco varrido
    De pedra cingido
    Pudesse crescer!

    Ainda bem que no Brasil
    Um país muito gentil
    Isso não há de suceder!

    Aqui o buraco é mais embaixo!
    Tão incerto e tão escuro
    Que não dá nem pra ver!

    Coitado do mundo
    Que dano profundo
    Se outro homem dos muros
    De atos impuros
    Pudesse aparecer!

    Não haveria mais poesia
    Seria tudo monotonia
    Difícil sobreviver!

    Mas enquanto for possível o poema
    Mas enquanto for possível a escrita
    A palavra liberdade estará em cena
    A palavra resistência terá vida!

  • Folga

    Uma empresa chinesa criou, recentemente, a licença infelicidade. Cada funcionário, ao longo do ano, tem direito de faltar ao serviço, por um período de até dez dias, caso se sinta triste, irritado, angustiado ou infeliz.

    De primeira, questionei a ingenuidade da proposta. Como eles não desconfiam das artimanhas da procrastinação? Eu, sem dúvida, anualmente, seria acometida por uma certa tristeza, às segundas e sextas. Naqueles dias de sol em que os infelizes trabalham, meu caminho seria o mar. Pé na areia. Mate Leão. Biscoito Globo. Livro do mês e celular desligado. Sim, cada vez mais me convenço de que a telinha quebra o clima de intimidade em qualquer situação, inclusive comigo mesma. Sem culpa de enganar o chefe.   

    Pensando bem, no mercado não se joga para perder. É possível que a empresa tenha criado o direito à licença infelicidade sabendo que ninguém tirará proveito, por medo de represálias. Aqui no Brasil, tenho certeza que o benefício seria gatilho de insegurança e ansiedade, pois funcionaria, subliminarmente, assim: o funcionário que tirar licença de um dia para cuidar do seu sofrimento será, imediatamente, incluído na lista de demissão do fim do ano. Isso para não citar outras complicações, como, por exemplo, a possibilidade de um setor inteiro fechar devido à competição entre os pares: se Marcela não veio, não sou eu quem vou trabalhar por dois. Tô indo. Eu também não. Nem eu.

    Brincadeiras à parte, a iniciativa chinesa, ainda que saibamos da desvalorização da mão de obra por lá e, provavelmente, justo por isso, denuncia a consequência nefasta — para o trabalhador, empresa e sociedade — da obrigatoriedade de sermos produtivos em dias difíceis ou a despeito de qualquer dor existencial.

    Lembro de uma senhora que descobriu na emergência de um hospital que teria que ficar internada, em função da gravidade do seu caso, e ela respondeu:

    — Entendo, doutor. Mas agora não posso. Tenho reunião no escritório. Assim que acabar, eu volto.

    Para onde estamos indo? Que lógica é essa que ignora a própria morte em nome da soberania da exploração e do lucro? 

    A medicalização da tristeza (não me refiro à depressão) é prova da manobra de urgência para que a máquina não pare. Não há tempo para digerir términos, perdas, decepções, frustrações. Engula o choro junto com o remédio e siga em frente. Rápido. Rápido!

    Para uma empresa criar esse mecanismo de despressurização, no mínimo, já se deu conta da epidemia que se agiganta a nossa frente.

    E quanto a você? A julgar pelo seu estado emocional, amanhã será dia de trabalho ou de licença? 

  • O teatrólogo e o apresentador de tv

    Qual elo poderia unir duas figuras tão distintas quanto o teatrólogo Zé Celso (1937 – 2023) e o apresentador Sílvio Santos (1930 – 2024)?

    Agitador cultural, artista libertário, inovador, ousado, Zé Celso Martinez Corrêa dedicou sua vida às artes cênicas e a difundir cultura para esse país tão carente, um sujeito transgressor e revolucionário que jamais se submeteu aos padrões estabelecidos, tendo batido de frente com a ditadura. Faleceu bestamente num incêndio em seu apartamento, aos 86 anos.

    Sílvio Santos, ou melhor, Senor Abravanel, um dos homens mais ricos do Brasil, dono de uma portentosa rede de comunicação, o SBT, com programação voltada para as classes mais humildes, é um homem desprovido de ideais e motivações políticas, conhecido por bajular os donos do poder, foi um dos veículos de que serviu de sustentáculo ao ex-presidente Bolsonaro. Após mais de 60 anos de carreira, retirou-se dos palcos por conta de sua idade avançada aos 92 anos, em 2023. Vindo a falecer um ano depois.

    A fatalidade colocou frente a frente essas personalidades tão díspares numa pendenga judicial que se arrasta por mais de 40 anos em torno do destino de um terreno no bairro do Bixiga em São Paulo. Trata-se de uma área de 10 mil m2 que contorna o teatro Oficina, marco cultural da cidade, onde Zé Celso com outros companheiros iniciou sua carreira e no qual foram encenadas peças importantes como o Rei da Vela de Oswald de Andrade e outros clássicos da dramaturgia.

    Ocorre que a área em questão foi arrematada pelo Grupo Sílvio Santos que nele pretendia erguer um monstrengo imobiliário com cerca de mil apartamentos e outro tanto de vagas de garagem, empreendimento que iria impactar severamente um bairro com tantas tradições, além de desconfigurar o arrojado trabalho da arquiteta Lina Bo Bardi para a casa de espetáculos, tida pelo jornal Guardian o melhor projeto arquitetônico do mundo para um teatro.

    A mastodôntica iniciativa comercial desagradava não apenas Zé Celso como todos aqueles que gostariam que fosse dada uma destinação mais nobre para a área, mais especificamente, a criação de um parque, que melhor se harmonizasse com a icônica casa de espetáculos que circunda.

    São Paulo é uma das cidades mais caóticas e desajeitadas do planeta, cuja expansão desordenada avança a reboque dos interesses das incorporadoras como demonstra a famigerada revisão do Plano Diretor do município, recentemente aprovada. O bairro do Bixiga é um dos últimos redutos que ainda resiste e mantém-se ativo com seus teatros, sua vida boêmia, suas cantinas e padarias italianas, seus marcos históricos, suas pitorescas construções e uma famosa feira de antiguidades.

    Para resolver o impasse do terreno, foi promovido em 2017 um surreal encontro que colocou frente a frente Zé Celso e Sílvio Santos. A inusitada reunião (que pode ser apreciada no Youtube) mediada pelo então prefeito João Dória mostrou o quão difícil é chegar a um entendimento já que confronta concepções de vida bastante distintas. Sílvio repetidamente afirmava: “mas o que você pretende fazer com o terreno?”, insistindo que, a despeito de ser rico, pagou caro pelo investimento do qual não pretendia abrir mão. Zé Celso, por sua vez, retrucava não querer tomar posse do terreno e sim que se tornasse um espaço livre para realização de atividades culturais e não conseguia entender a falta de sensibilidade do empresário.

    Curioso que Sílvio Santos, ao contrário do que se possa imaginar, não é assim tão avesso ao tema tanto que ergueu a poucos metros do local, o Teatro Imprensa, que se manteve em atividade com sucesso por mais de 20 anos e só fechou as portas para reduzir as despesas do grupo numa época de vacas magras, não obstante fosse superavitário. Afora isso, Sílvio criou no SBT um núcleo de dramaturgia, sua esposa Íris é autora de novelas, sua filha Cíntia roteirista e seu neto Tiago um consagrado ator.

    Honrando essa trajetória, o que custaria ao Homem do Baú, num gesto magnânimo de desprendimento, brindar o terreno à capital paulista na qual o apresentador construiu seu império, num parque que poderia até ganhar o seu nome? A cidade ficar-lhe-ia eternamente grata e ele fecharia com chave de ouro seu currículo.

    Grandes magnatas como Bill Gates, Warren Buffett e George Soros doaram ou comprometeram-se a doar mais da metade de sua fortuna para causas filantrópicas. Sílvio não precisa chegar a tanto. Dono de um patrimônio de quase 2 bilhões de reais, o terreno representa uma fraçãozinha de suas posses.

    O dono da Tele Sena que já batalhou por quase um século de vida, poderia encerrar brilhantemente sua jornada terrena com essa louvável demonstração de generosidade. Mostraria que poderia trocar o ‘Topa Tudo por Dinheiro’ por uma iniciativa nobre que lhe eternizasse como homem público. Ou imagina o apresentador que vai levar seus bens para um baú da felicidade a sete palmos do chão?

  • Videomakers ou a arte de surpreender seu pai (mais uma vez)

    Minha competente editora me manda um recado por escrito: tu precisas fazer um vídeo promocional do teu livro para jogarmos no Tik Tok. Ela é gaúcha, do Alegrete, e com gente da fronteira não se brinca. Se ela disse “tu precisas” é porque nem quero pensar o que pode me acontecer se não o fizer.

    Me aprumei decidido a cumprir a tarefa. Peguei o celular, olhei para ele e ele para mim. E nada. Fiz uma careta pensativa imaginando como fazer o vídeo. Ante o vasto deserto de idéias que se apossou do meu ser admiti para mim mesmo: sou analfabeto em fazer vídeo ou selfie.

    Quando seguro a câmera tenho a firmeza de uma gelatina e transformo qualquer depoimento em noticiário de terremoto. Não rola química entre nós dois.

    Mencionei o pedido para minhas filhas que riram de mim. Diante da chacota juvenil, não pensei duas vezes. Convoquei as duas para a tarefa. Já que ficam tirando onda com a minha cara dizendo que papai é um dinossauro agora quero ver. Sabidas!

    Bom, me surpreendi. Sem perder tempo já foram posicionando a cadeira onde me sentaria, trouxeram luz, ajustaram o ângulo para tirar o reflexo nos meus óculos. O texto do vídeo era meu mas elas corrigiram e, quando derrapei e quis fazer de novo foram autoritárias: nada disso, precisa ser natural, pai!

    Obediente, não insisti. Ainda gravamos imagens sem fala para o pessoal da edição ter material. E pronto. Recolheram tudo e se foram tratar de suas vidas cada uma em seu quarto.

    Eu fiquei mais uns minutinhos na sala, livro na mão, suspirante. Mudo.

  • A cinta

    Trinta anos de casamento, Nicanor pensou em fazer uma surpresa à mulher:

    – Que tal a gente voltar ao motel em que dormimos juntos pela primeira vez?

    – Motel?! Que ideia!

    – Por que não? Vai ser gostoso relembrar a sensação daquele encontro.

    Tanto insistiu, que Matilde terminou concordando. Meio a contragosto, é certo, mas não custava satisfazer esse capricho do marido, que ainda veio com outro:

    – Você podia vestir aquela cinta vermelha… Lembra?

    A mulher aparentemente fez que não ouviu.  

    E numa noite de sábado (tal como da primeira vez), inventaram uma mentira para os dois filhos adolescentes e se mandaram para o motel. O letreiro não era mais o mesmo (Nicanor teve a sensação de piscava menos), e uma parte fora reconstruída. Mas dava para reavivar antigas sensações. 

    Pediram um quarto com o mesmo número daquele em que dormiram da primeira vez. O marido achava que isso daria sorte. Depois de passar pela portaria, ele estacionou na garagem que havia ao lado. Era muito escura, certamente para preservar a identidade dos frequentadores.

    Mal entraram no quarto, Matilde fez um ar de quem não gostou:

    – Hum… O cheiro. Isso está com cara de que há tempos não passa por uma boa faxina.  

    Dirigiu-se ao banheiro e voltou de lá com uma expressão escandalizada:

    – Venha ver, Nico!  

    Puxou o marido até o local.

    – Está vendo? Parece até que tem limo.

    – Não é tanto assim, Matilde. Você exagera.

    – E o vaso sanitário? Está precisando de uma boa bucha.  

    Após uma breve pausa, deliberou:  

    – Vamos ligar para a portaria e pedir uma vassoura com detergente.     

    – Esqueça o banheiro – ponderou o marido. – Vamos voltar para o quarto.

    Tentando fazê-la entrar no clima, ele perguntou sobre o que lhe pedira:  

    – Trouxe a cinta?

    – Não. O Dr. Amoedo disse que eu devia evitar qualquer tipo de roupa que prejudicasse a circulação. Por causa das varizes. Acabei jogando no armário da despensa.

    – Tudo bem, dispensamos a cinta. O importante é que você… se sinta bem.

    Esperou que a mulher sorrisse do jogo de palavras, mas ela pareceu nem perceber. Depois de olhar atentamente a cama, Matilde exclamou com um novo ar de protesto:      

    – Me deitar aqui!? Deus me livre. Veja o colchão.  

    – Não é tão ruim. E você, que é calorenta, pode ficar perto do ar-condicionado.

    – Se é que eles costumam limpar o filtro…

    Estavam nesse impasse, quando o celular da mulher tocou. Era o filho mais velho:

    – Onde vocês estão?

    – A gente está num restaurante que seu pai queria muito conhecer.

    – Estou ligando por um motivo grave. Desconfio de que Isolda saiu para se encontrar com alguém. Pode ter ido a um motel.

    – Como?!   

    – Pois é. Ela tentou disfarçar, mas vi que levava aquela cinta, lembra? Aquela que você guarda como uma relíquia erótica dos tempos em que namorava o velho.

     Matilde mal esperou o filho terminar. Desligou e contou a conversa ao marido. Depois, preocupada, comentou:  

    – E se ela foi mesmo a um motel?

    – Tolice. Não se pode fazer nada. Só não gostei de ela ter levado a cinta.

    – Eu devia ter escondido melhor…   

    – Deixe. Ela é jovem.

    Vendo que estavam perdendo tempo ali, Nicanor teve uma ideia:    

    – Vamos embora? Ainda temos tempo de ir àquele restaurante.

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