Crônicas Cariocas

  • Obra aberta a ser reeditada!

    A experiência de Nietzsche com seus aforismos em relação à utilização da linguagem como produtora de verdades, esclarece que os benefícios de um banho de banheira com água fria não deve ser evitado, e que devemos entrar e sair rapidamente, porque saímos modificados com o choque da temperatura, sem necessidade de se aprofundar.

    Os inimigos da água fria não recomendam essa experiência, porém, o frio pode tornar veloz seu pensamento. 

    Por vezes o desejo de nos livrar de uma intensa dor emocional ou física, instiga desistir do pouco que temos, encurta o semblante, e promove poucas vistas a esperança. 

    É como o segurar de um copo na mão por alguns minutos, não vai afetar nenhum de nossos músculos. Porém, permanecer com o mesmo copo dias a fio sem esvaziar nenhuma gota, com certeza fará tão mal quanto um pesadelo diário não resolvido.

    Nossas vidas penetram os olhos e vagueiam nos pensamentos após muito passarem por um mastigar de opiniões e ideias no entorno de uma sociedade consumista de informação, vinda de todos os lados. 

    Por isso a dúvida se mantém acesa no cuidar ao tomar banho gelado e no esforço muscular. 

    Estamos constantemente à busca da melhor informação.

    O novo leitor atento é ao mesmo tempo, consumidor e produtor, é um “prosumidor”, expressão de Alvin Toffler, que outros preferem interpretar com uma visão de que o momento é do “produser”, produtor usuário, pois, o que há é um usuário da informação. 

    Esse novo consumidor lê, ouve, assiste o noticiário e compartilha, recomenda e critica conforme seus critérios. A passagem a frente do que foi entendido segue em moto continuo como releitura e reedição com novo crivo, temperado com as experiências desse atual divulgador, seguindo até que se esgote o interesse social no tema. 

    A origem apresentada inicialmente em texto e forma dados pelo indivíduo criador do assunto, não passa de uma obra aberta a ser reeditada, reelaborada em sucessivas redes sociais.

     Mesmo assim o conteúdo não será entendido como aquele da origem, fica entregue às conclusões e escolhas do próximo leitor sob a influência de sua vivência, que passa adiante a visão construída com nova liberdade de interpretação.

    É assim com a salada mista que escolhemos para viver nossa caminhada, por vezes gelada e outras com fibra, segue sempre atenta a saúde do corpo, que se cansa da falta de vibração e da mesmice.

  • Os dedos de fogo de Angústias

    Angústias é uma menina com dedos de fogo e por isso é uma menina triste. Tudo o que toca arde. Vive longe do mar, num lugar parecido a um deserto, mas muito frio, com terra avermelhada como tingida de sangue. Pouco chove ali e, quando isso acontece, a terra se transforma num espelho e lança brilhos que chegam às nuvens. Só em ocasiões assim Angústias fica feliz, chora de alegria e passa horas admirando as poças d’água, tocando-as com a ponta dos dedos que, assim, ficam livres do fogo por algum tempo. Angústias é uma menina sem amigos.

    Agora é inverno onde Angústias mora e o frio tem sido impiedoso. As aves e os roedores foram embora em busca de paragens mais quentes. A menina sofre com o vento e o ar gelado, que lhe trincam os dentes, mas sai de casa mesmo assim, ao menor sinal dos primeiros e débeis raios de sol. Sai para admirar os montes esbranquiçados de geada e orvalho, as lágrimas que pendem do olho verde das folhas, a manada de búfalos correndo com elegância e fúria pelo descampado. É dessa forma que ameniza a tristeza que traz na testa franzida e no olhar que busca lonjuras. Mas hoje os búfalos não apareceram, e Angústias se fechou em melancolia profunda. Ficou sem sua pequena alegria. Teria gostado de escutar de novo o barulho do galope dos animais enormes tremendo na sola de seus pés e em seu coração, como se todo o seu corpo galopasse junto. Para a menina, os búfalos são força e poder, nada fica em pé na frente deles, ninguém consegue domá-los ou prendê-los. São bichos valentes, corajosos, truculentos, destemidos. Angústias queria um dia ser como eles.

    Mesmo sem querer, Angústias provoca fogo no que está ao seu redor. Por isso não pode fazer tarefas corriqueiras como colher uma flor ou ler um livro sem destruir o objeto sobre o qual se debruça. Não pode fazer nada sem luvas corta-fogo. Se não usá-las, tem que molhar os dedos o tempo todo. Até se vestir é arriscado, mas com as mãos protegidas, evita incendiar o vestido.

    Em sua cama de pedra, Angústias costuma sonhar com pássaros de grande envergadura, sobre os quais, agarrada ao pescoço delgado e duro, pode subir e subir e subir mais alto, planando sobre o descampado até chegar ao mar imenso. E essa imensidão líquida a acolhe e a abraça como faria uma mãe. É quando ela sente que nada mais pode representar perigo, nem mesmo a terra avermelhada do deserto, onde as florestas e bosques estão em risco permanente com sua presença. No sonho, Angústias está carregadinha de mar, as mãos ensopadas, e as árvores e toda a vegetação estão a salvo de seu toque: não arderão, não crepitarão como antes, quando bastava um leve roçar de seus dedos no tronco, nas ramas, nas folhas, nas flores, no sumo, e tudo virava labareda e, depois, cinza.

    É um sonho recorrente esse, que traz um pouco de felicidade ao rosto de Angústias. Quando acorda, percebe que as coisas não mudaram e seus dedos continuam quentes, faiscantes, capazes de provocar tragédias. Ainda assim, fica quieta e pensa nos búfalos. Todo dia espera vê-los em corrida destrambelhada pelo campo, só parando quando sentirem fome; então se aquietarão e comerão o almoço já servido ali mesmo, ao pé deles. A grama que pisotearam com fúria minutos antes é agora a sua refeição.

    Enquanto eles não vêm, a ela, Angústias, só resta passar as horas e brincar perto do rio que circunda a cidade (a cidade que mais parece um deserto): ali não há perigo de incendiar tudo e transformar um povoado inteiro num terreno devastado, cheio de fumaça e cheirando a queimado, como uma grande fogueira que lentamente perdesse labaredas, faíscas e brilhos e, no fim, se apagasse.

    Angústias já nasceu com as ilusões mortas. Sabe que não é como as outras meninas de sua idade. É perigosa. Desde cedo intuiu que era preciso ter coração de ferro para suportar o inferno, ou não ter coração. Enquanto houver água por perto, porém, ela ficará tranquila e seus dedos não causarão mal a nada nem a ninguém.

  • Alegoria do pitaco

    Diria o maluco que cada um tem sua loucura. Uma das minhas é ler crítica literária. Mesmo quando espremido num cotidiano atribulado, um artigo de quatro ou cinco páginas sempre encontra uma brechinha entre canecas de café. E desde muito tenho essa mania. Outra louquice é inventar desafios relacionados à leitura. O último é ler os treze (ou quatorze?) volumes do compêndio intitulado Pontos de Vista, contendo cinquenta anos de críticas literárias do Wilson Martins. Provavelmente esse seja o trabalho sistemático mais longevo da área. Por si só, uma baita empreitada.

    O autor me chamou atenção desde a primeira leitura pela profunda fundamentação do seu argumento, sempre escrevendo com estilo singular e sem receio de magoar o escritor em questão. Pela análise do Wilson passaram as obras de todos (ou quase todos) os escritores que estudamos na escola e outros que agonizam em bibliotecas antigas. Há também textos sobre obras cujos escritores nunca ouvimos falar porque foram esquecidos ou subjugados sem jamais terem uma reedição. Inclusive perdi a conta de quantos autores conheci nessa campanha.

    Dizem que Moacyr Scliar andava com um recorte de jornal no bolso, pronto para mostrar às pessoas o elogio do temido crítico a um dos seus primeiros livros. Wilson tinha o respeito de leitores e escritores (por esses, vez ou outra, era evitado, talvez odiado). Imagino como seriam recebidos seus artigos no mundo atual, sobretudo se terminassem dessa forma: “Marcos Rey afirma ter escrito para livrar-se de um pesadelo, ‘apenas porque não sabia compor música ou pintar quadros’. Por que não tenta?”. De fato, não deixava pedra sobre pedra, nosso querido Wilson.

    Não lembro se li algo escrito por Marcos Rey; mas, ao me deparar com esse comentário, ao fim de um artigo detalhado, exemplificando em minúcias as características do texto e destacando as inconsistências, não sei se hoje compraria seus livros. Não digo que a minha opinião dependa da indicação do Wilson, mas também não nego que a anuência dele pese um bocado quando estou vagando nos sebos por aí.

    Quando soube, por outra leitura, que o Wilson havia tecido comentários acerca da obra Cogumelos de Outono, de Gladstone Osório Mársico, busquei rápido essa referência. Não me decepcionei, de todo. Na crítica, disse que Gladstone errava ao perder tanto tempo com obras satíricas, pois tinha talento para apresentar algo de maior envergadura à literatura brasileira. Um tanto dúbia a minha alegria: por um lado, reconhecia Gladstone como um bom escritor; por outro, rechaçava os romances satíricos de que tanto gosto. Enfim, anos e anos depois, Gladstone continua sendo um dos meus autores preferidos e Cogumelos, um dos meus romances preferidos. E também não é reeditado há décadas (alô, amigos editores).

    Nessa empreitada de treze livros (ou quatorze? Jamais encontrei esse último), perdurarei por seis ou sete anos e, para dizer a verdade, não tenho nenhuma pressa em terminá-la. Trata-se de um daqueles prazeres à conta-gotas para os quais não há muita explicação. Se é verdade que encontramos a felicidade (ou qualquer coisa parecida com ela) quando não queremos que algo acabe, talvez eu a tenha achado lendo crítica literária. Pois é, cada doido com sua doidera.

    O fato é que poucas alegrias se comparam à leitura de uma crítica elogiosa a um livro de que tenha gostado. Aconteceu na semana passada com A assunção de Salviano, do Antônio Callado. A exaltação do Wilson a um romance apreciado de antemão me serve como um afago, uma saudação afetuosa de reconhecimento, confirmando que a minha opinião vale alguma coisa e está correta (ainda que envolta a muitos poréns, como toda opinião literária correta). Por fim, mostra ao meu ego um tanto inflado como sou um bom leitor e transforma a leitura num regozijo intelectual, por assim dizer. E, para completar, me sinto como um aprendiz de trombadinha que arruma briga na rua, com o irmão mais velho à espreita, pronto para intervir, garantindo a impossibilidade da surra, do pontapé e da vergonha. Mas, voltando ao assunto das reedições, por que mesmo ninguém reeditou ainda as obras do Wilson Martins?

  • Rosa, verde e rosa

    Rosa. Apenas Rosa. Nascida e criada na Estação Primeira de Mangueira. Primeira estação do trem e do seu coração.

    Rosa ganhou esse nome por duas paixões do seu pai. O samba de Cartola e a Mangueira. Rosa nasceu em 1980, ano em que Cartola morreu e seu pai resolveu lhe prestar essa homenagem. Ele assobiava “As rosas não falam”, quando se lembrava da mulher, que havia lhe abandonado alguns anos após Rosa ter nascido. Dizem que sua mãe era uma mulher linda, sorridente, mas não tinha nascido para ser mãe. Depois de ter parido Rosa, ela estava sempre triste, pelos cantos, como se não gostasse mais de viver.

    Seu Reynaldo tentava de tudo. Fez até um canteiro de rosas para ela, inspirado por Cartola. Dizem que a letra de “As Rosa não falam” foi quase totalmente composta quando Cartola levou à Dona Zica, sua esposa, umas mudas de rosas que plantou no jardim. Dias depois, ao abrir a porta pela manhã, ela percebeu que muitos botões haviam desabrochado e ficou deslumbrada com tanta beleza e quantidade. Chamou seu amado e perguntou:

    – Cartola, venha aqui! Venha ver o jardim! Por que é que nasceu tanta rosa?

    E o sábio respondeu:

    – Não sei, Zica. As rosas não falam!

    Mas a mãe de Rosa parecia imune a qualquer beleza. Nada mais lhe interessava, lhe fazia sorrir, lhe animava. Sua última lembrança da mãe foi no desfile que consagrou a Mangueira, em 1984, na inauguração do Sambódromo. Quem puxava o samba era um tal Jamelão – puxava não, porque ele não gostava de ser chamado de puxador – um senhor mal-humorado com a voz de trovão, que assustou Rosa quando ela passou ao lado do carro de som. Ele parecia estar sempre bravo e a menina se agarrou ao pai com cara de choro, enquanto sua mãe se misturava ao mar verde e rosa da ala das passistas. Depois disso, ela nunca mais a viu. Nesse ano, aconteceu um dos feitos mais marcantes da história da escola: Depois de desfilar, a escola retornou pela Sapucaí, sendo aclamada pelo público. A comunidade toda ficou em festa, mas seu Reynaldo não conseguiu comemorar. Procurava sua amada em todos os cantos, parecia um louco a procura do nada. Só encontrava o vazio e se enfurecia gritando por ela.

    Mas será que alguém tinha perguntado para a sua mãe se era isso que ela queria? Mulher negra da favela, casou-se com o seu primeiro homem para sair de casa e da fúria do pai. Queria pôr fim ao ciclo de humilhação e violência que vivia com a mãe, que tinha um filho atrás do outro pelo simples motivo de que não apanhava enquanto estava grávida. Se tornou uma mulher fria, sem brilho. Paria como um bicho e fazia de tudo para engravidar novamente. O marido se gabava, enquanto ela só queria sobreviver.

    Nair era o contrário. Seu sorriso cativava a todos, seu brilho era natural. Mas precisava ser livre, desfilar, cantar seu amor pela vida. O casamento com Reynaldo ia muito bem até a notícia da gravidez. Apaixonados, nunca pensaram em evitar. Muito pelo contrário, Reynaldo sempre dissera que queria ter muitos filhos, um para cada ala da sua escola. Mas sua amada começou a se sentir como a mãe, presa pelo ventre, amarrada pela obrigação. Não falava sobre o bebê, não queria saber de pensar em nomes, não se importava se seria menino ou menina. Tinha pesadelos constantes e, por mais que Reynaldo lhe acalmasse e jamais tivera coragem de lhe erguer a mão, a barriga crescendo era muito mais um fardo do que um acalanto.

    Nesse dia em que ela sumiu na multidão, fazia 3 anos que ela não saia de casa. Depois de muita conversa de amigos e parentes, ela resolveu voltar para a sua escola. Seu Reynaldo imaginava que ela só precisava voltar a sorrir, voltar a brilhar. Como se todos os seus fantasmas fossem desaparecer na magia verde e rosa do Carnaval. Ela se aprontou com esmero especial. Vestiu-se como se fosse a última vez. Se despediu do marido e da filha com lágrimas nos olhos. Acharam que era a emoção. Mas era um adeus.

    Depois que a mãe de Rosa foi embora, Seu Reynaldo a criou do jeito que pode. Pedindo ajuda para a mãe e as irmãs que se revezavam enquanto ele trabalhava, fazendo bicos pela comunidade de pintor, eletricista e o que mais precisassem. Rosa cresceu cercada de amor, mas a falta da mãe parecia uma chaga aberta, um afago que nada conseguia substituir.

    Rosa foi se tornando uma bela moça e fazia vista pelas ladeiras da Mangueira. Mas enquanto todas as suas amigas sonhavam em desfilar na escola do coração, Rosa queria escrever o samba enredo. Queria cantar sua tristeza, colocar para fora a falta da mãe, as aflições do pai, o abraço que não encontrava parceria, o choro que só encontrava eco.

    Fazia versos como quem ama. Como quem padece. Mas não mostrava para ninguém, sabia que não tinha lugar no meio dos adultos, nem dos homens. Se deslumbrava quando seu pai entoava os clássicos da escola, imaginava novas rimas, corria para anotar suas ideias em um bloquinho cor de rosa estrategicamente guardado sob o seu travesseiro. Se escondia no barracão enquanto os homens bebiam e batucavam na mesa imaginando novas canções.

    Nas festas de família, todos gostavam de mostrar os seus talentos. Sua tia Ana cantava enquanto seu primo José tocava violão. A alegria era enredo fácil e as reuniões de família iam até o dia amanhecer. Era aí que o morro ficava mais bonito, com os tons de rosa inundando os becos e iluminando os corações.

    “Mangueira, teu cenário é uma beleza. Que a natureza criou…”

    Seu primo José era parte importante na vida de Rosa. Como um irmão mais velho, era ele quem a defendia dos outros meninos, fazia às vezes papel de pai quando seu Reynaldo viajava para fazer serviços em outras cidades e lhe dava sempre bons conselhos. Era mesmo um bom primo. Um dia, ao voltar da escola, deu de cara com ele deitado na sua cama com o bloquinho cor de rosa na mão. Ela deu um pulo e o arrancou da mão dele:

    O que você está fazendo aqui?

    Minha mãe mandou dar uma olhada em você, parece que seu pai vai voltar tarde. O que você escreve nesse caderno?

    Não interessa!

    Interessa sim. É lindo!

    Você acha mesmo?

    Acho sim. Para quem você escreve isso?

    Antes que José imaginasse que ela estava apaixonada por alguém, Rosa tratou de inventar algo. Ela não queria dizer da saudade da mãe, da tristeza do pai, mas também não queria fazer papel de boba dizendo que queria ser compositora de samba. Seu primo ia rir da sua cara.

    Fala, Rosa. Já sei, você está apaixonada!

    Claro que não! Só…escrevo.

    Pois eu acho que tem poesia aqui. Posso copiar algumas coisas? Vou hoje no barracão e acho que dá para fazer um samba.

    Os olhos de Rosa se iluminaram.

    Fazer um samba com as minhas letras?

    Claro. Mas, olha só. Melhor eu dizer que é meu. Você sabe, os coroas não iam aceitar uma menina na roda de samba.

    Pode fazer o que quiser. Será que eles vão gostar?

    Só podemos tentar.

    À noite, José foi se encontrar com os outros compositores já com um samba na ponta da língua.

    Vocês precisam escutar isso!

    E José foi, pouco a pouco, emendando frases, batucando aqui e acolá, falando mansinho…E as palavras foram se tornaram música e ganhando som. Seus companheiros de roda, já munidos com seus instrumentos, foram dedilhando acordes e cobrindo o silêncio. Era uma melodia triste, como todo samba deve ser.

    Rapaz, ou você está muito apaixonado ou sofrendo muito. O que, no fim, dá na mesma!

    Todos riram enquanto José não se aguentava:

    Gostaram mesmo?

    Falta um arranjo melhor, mas tem cheiro de sucesso!

    Rosa não tinha conseguido dormir. A todo momento esperava o retorno do primo que havia prometido lhe falar sobre o que acontecera no barracão. O pai, seu Reynaldo, abriu a porta da frente, cansado de mais um dia de labuta e Rosa estava lá de pé, achando que fosse José.

    O que você faz acordada, Rosa? Seu primo não lhe avisou que eu iria demorar?

    Sim, papai, mas não conseguia dormir. Estava preocupada com o senhor.

    Isso não era de todo mentira, mas Rosa queria mesmo era saber notícias do seu samba. Fingiu um bocejo, abraçou o pai e voltou para o quarto. Espiava a lua longe, se escondendo por nuvens finas que pareciam se desfazer com um sopro. De repente, um barulho na janela. Deu um pulo tão rápido que quase caiu da cama.

    Rosa…tá acordada?

    José, pelo amor de Deus! Como poderia dormir com tanta ansiedade no peito?

    Vou falar rápido para não acordar o seu pai. Eles adoraram a letra, vamos fazer os acordes e a música amanhã. Vai ser um sucesso! Agora vai dormir.

    Dormir? Como Rosa poderia dormir depois de uma notícia como aquela? Ela se revirou na cama até os primeiros raios de sol e não conseguia parar de sorrir e pensar e compor até na hora de fazer o café até chegar na escola e ainda depois. Tinha que dar um jeito de ir até o barracão naquela noite para ouvir – imaginem só! – o seu samba ser tocado, apreciado e amado pelos melhores músicos da escola. Tinha a sorte de ser sexta feira e não ter escola no dia seguinte. Seria mais fácil convencer o pai.

    O dia passou devagar, a tarde chegou preguiçosa e quando os últimos raios de sol inundaram o morro e todo o rosa que fazia a tristeza ir embora se dissipou, Rosa já estava pronta e faceira na espera do pai chegar para pedir autorização para ir ao barracão. Sorte das sortes, seu Reynaldo chegou cedo naquele dia e muito bem humorado, o que era novidade.

    Pai, que bom que chegou cedo. Preciso lhe pedir uma coisa.

    Onde você está pensando em ir tão arrumada assim? Não me diga que está namorando!

    Claro que não, pai! Só quero ir no barracão ver o meu primo tocar um samba novo.

    José voltou a compor? Essa eu quero ver. Podemos ir, mas tem certeza que não tem namorado por aí?

    Juro, papai!

    Esse comportamento da filha, ao mesmo tempo que deixava seu Reynaldo aliviado, também o deixava pensativo. Será que a menina tinha medo do amor?

    Os dois chegaram cedo no barracão e os músicos ia aparecendo aos poucos, vindos do trabalho, alguns ainda famintos, pois a vontade de chegar logo no local do samba era maior do que a de jantar em casa. Todos tinham um trabalho formal, pois viver de samba ainda não dava dinheiro. Mas eram tão apaixonados pelo que faziam, que talvez até se arriscassem.

    Uma figura diferente estava na roda naquele dia. Uma mulher sorridente, forte, com lenço colorido amarrado no cabelo. Seu pai correu para cumprimentá-la:

    Zica, quanta honra ter você aqui!

    Reynaldo, meu amigo…Como você está? E a pequena Rosa?

    Rosa não conseguia acreditar no que via. Era dona Zica, viúva de Cartola. E ainda sabia seu nome!

    De pequena ela não tem mais nada, Zica!

    Rosa foi se aproximando devagar como quem chega no fim de uma peregrinação. Como toda a sua vida se resumisse naquele momento.

    Mmmuiito pprazer, dona Zica. Sou muito sua fã!

    Reynaldo, sua filha já é uma mulher! Estamos ficando velhos! E ela sorriu, enquanto puxava Rosa para perto em um abraço com cheiro de peixe e cebola.

    Vieram para o meu vatapá? Ela era famosa pelo prato.

    Nem sabia, mas viemos também pelo samba novo do José.

    Samba novo? Essa eu quero ver.

    E no meio do preparativo para o vatapá, o barulho das latinhas de cerveja abrindo e os instrumentos se afinando, chegou José. Muito bem arrumado, penteado e perfumando, como um mestre sala à espera da sua porta bandeira.

    Caprichou, hein?

    Todos os homens fizeram questão de brincar com a aparência de José, pois era o único que havia tido o cuidado de ir em casa antes de chegar no barracão.

    Só pode estar mesmo apaixonado!

    Mas a farra durou pouco. Eles queriam era escutar o samba. Até Dona Zica saiu da cozinha e pediu para outra pessoa ficar de olho no vatapá. Rosa se sentou perto do primo, que com um aceno carinhoso, a chamou para mais perto.

    A música falava de perda, de amor, mas também de esperança. Rimava a vida com alegria e Rosa a cantava baixinho, com aquela segurança de compositora. Seu Reynaldo tentava segurar as lágrimas, pois não conseguia parar de pensar na sua amada Nair. O “Jorge da Cuíca” fingia tirar um cílio do olho esquerdo que teimava em não cair. Seu Jair, no violão, viu uma lágrima descer pelas cordas e quase desafinou. Na verdade, todos os homens tentavam segurar alguma emoção escondida – homem não chora, afinal – mas Dona Zica estava atenta aos lábios de Rosa. Ela cantou a música toda transbordando de sentimentos. Quando a última nota entoou e todos aplaudiram José, Dona Zica perguntou?

    Quem fez essa letra linda?

    Fui eu, Dona Zica. – Respondeu, cheio de orgulho, José.

    E Rosa?

    A menina, que estava ainda celebrando em silêncio o seu sucesso, foi tirada daquele torpor pelo seu nome dito daquela maneira tão certa.

    O que eu fiz, Dona Zica?

    Eu que te pergunto. O que você fez? Esse samba?

    Todos se entreolharam como se aquilo fosse uma brincadeira. Seu Reynaldo, quase envergonhado, correu para intervir.

    Imagina Dona Zica. Rosa é uma criança, onde ia arrumar imaginação para isso?

    Rosa continuava calada, sem saber onde era o seu lugar naquela situação. Mas José, consciente do talento da prima, disse:

    Foi Rosa que escreveu sim, Dona Zica. Eu só dei uma ajeitada, meus parceiros fizeram a melodia, musicamos… Mas a letra é de Rosa.

    Seu Reynaldo não sabia se abraçava a filha ou a colocava de castigo, Quanta ousadia escrever aquele samba. Mas quanta tristeza também na vida dessa menina, meu Deus!

    Os outros sambistas também não sabiam como lidar com aquela menina que, de repente, se mostrava uma grande compositora. A filha do Reynaldo, quem diria! Mas ainda era uma menina, no fim das contas.

    Parabéns Rosa. Você foi aprovada no mundo do samba! – Disse Dona Zica como para dar um fim àquela confusão de valores – É isso o que você que fazer?

    É sim, Dona Zica.

    Então tem a minha benção e de todos aqui. Concorda Reynaldo?

    Mas é claro que sim. Se é isso o que ela quer!

    Ninguém iria discordar de Dona Zica e nem mesmo José ficou chateado por ter a prima alçada quase ao estrelato do samba em uma noite. Ficou feliz em não precisar mentir mais e prometeu ajudar Rosa nas próximas composições.

    Sempre falta alguma coisa, né?

    Rosa sorriu como estivesse em um sonho. Mal sentia o seu corpo, parecia levitar por entre todos. A música recomeçou e Dona Zica pediu a vez. Queria homenagear Rosa, com o seu segundo intérprete favorito.

    Que Cartola não me ouça, onde ele estiver. Mas eu sempre fui apaixonada pelo Orlando Silva! – Todos riram e ela entoou:

    Tu és divina e graciosa
    Estátua majestosa
    Do amor, por Deus esculturada
    E formada com ardor.


    Da alma da mais linda flor
    De mais ativo olor
    Que na vida é preferida
    Pelo beija-flor.


    Se Deus me fora tão clemente
    Aqui neste ambiente
    De luz, formada numa tela
    Deslumbrante e bela…

  • #09 – EXPURGO

    hoje eu mordi
    um chumaço de
    papel higiênico
    para estancar
    (ou tentar conter)
    o sangramento
    da língua dilacerada:
    como um cadáver
    antecipado que devora
    o seu próprio sudário.

    Um Andarilho Dentro de Casa

  • Nada será como antes

    Olhei para o bolo de chocolate com aquela cobertura de brigadeiro escorrendo pelos cantos. Peguei um prato e já ia me servindo, quando fui assaltada por um pensamento aterrorizante — esse é o último pedaço. Uma sensação de finitude me invadiu; como liquidar essa fatia que ainda pode durar até amanhã? Não, não posso fazer isso, vou dividir para ela durar mais. E, assim, fui me satisfazendo com uma terça-parte da delícia, até que não restasse nada além de migalhas.

    Depois do último pedaço, pensei com o melado que ainda restava na boca: será que isso é sinal de demência? Gula? Ou, quem sabe, avareza?

    Demência, ao que tudo indica pelo próprio fato de estar aqui me questionando, certamente não é. Avareza? Não, nunca fui daquelas que reutilizam cinquenta vezes o mesmo envelope de papel. Muito menos do tipo que compra em excesso um produto em promoção no final da validade sem a menor precisão, pelo simples prazer de economizar.

    Muito menos gula, pois não me atiro nem sonho com doces, muito menos salivo de alegria frente a uma confeitaria. Mas deve haver uma explicação para não querer encarar o final dessa fatia de bolo, então tentei ir mais a fundo. Se não é por avareza, por gula, ou porque estou entrando num processo de demência senil, o que me moveu a um comportamento tão esdrúxulo?

    Passei em revista minhas atitudes em relação ao desapego, com rigorosa autocrítica. Não, nunca tive problemas em me descartar de coisas como roupas, sapatos, móveis, ou mesmo mudar de casa. Então por que motivo esse apego a um simples bolo de chocolate?

    Após vasculhar meus sentimentos, cheguei à conclusão de que comer de uma só vez a última fatia do bolo de chocolate teve, para mim, um significado emocional de deixar de sentir aquele prazer. Tudo bem que é muito simples fazer ou comprar outro bolo para repor, mas o risco é de que o próximo não esteja tão gostoso como esse.

    Isso pode ser estendido não só para o prazer sensorial, mas para muitos prazeres emocionais, como o último dia de uma viagem, o último capítulo de um seriado, a última festa da faculdade, a última gravidez, só para citar alguns deles. Creio que me apego a esse último momento pela consciência de que ele significa a ruptura a partir da qual nada será mais o mesmo.

    Muitas teorias foram escritas a esse respeito por psicólogos, analistas do comportamento humano, e até por escritores como o Tolteca Miguel Ruiz, no livro “Os cinco níveis de apego”.

    Em uma das passagens do livro, ele coloca: […] “Sei que estabeleci um apego a algo exterior quando o medo da mudança toma conta de mim”.

    A antevisão de um final, seja da vida terrena em si, ou de qualquer coisa a que nos apegamos, pode ser angustiante. Aprender a lidar com isso é uma sabedoria que tenho que adquirir, portanto, daqui para frente, seja do bolo ou da vida, vou comer minha fatia de uma só vez.

  • Anotações sobre rotina e/ou fim do mundo

    Existe um filme premiado em Cannes que conta, de forma incrivelmente poética, o fim do mundo. Sob a perspectiva de choque entre dois corpos celestes, sendo um, a Terra e ‘Melancolia’, o nome do outro, o evento é uma dança de aproximação e afastamento, de medos e alívios, de insanidade e lucidez, tudo acontecendo a uma velocidade intangível, em que nós mesmos nos aproximamos e nos afastamos internamente. Detemo-nos nas consequências, ao passo que o esplendor da bela e enorme visão no horizonte nos reconforta.

    A beleza, às vezes, pode ser devastadoramente melancólica. Perceber o belo pode nos tornar nostálgicos, artistas, ensandecidos. Raciocinar e fazer planos é uma das grandes consequências ruins de ser humano: sofremos ao nos dar conta de que existimos, de que temos um futuro (ou não, pela carga duramente certeira de finitude).

    Entre as problemáticas que fabricamos ao planejar, muitas vezes sem viver o presente, há seres iluminados que se contentam em viver sem postagens em redes sociais, sem tornarem-se rostos produzidos aos passos da moda e do mundo – e que muitas vezes são ‘borrados’ por leis de proteção à privacidade. A mulher que passeia com um carrinho de bebê a sua frente, transportando latinhas e outros recicláveis, traja um vestido rosa bebê com motivo de jogo de cartas.

    Passeia espalhafatosa e desapercebida pela manhã de comércio fechado do centro de uma cidade qualquer, o cenário que melhor se delinear em sua mente, agora. Ninguém sabe de onde vem e para onde vai. Sorri, mas, ao mesmo tempo, não é vista e nem vê ninguém.

    É segunda-feira; em outros tempos, a informação do dia seria dada pela impressão da data no jornal diário. A mulher do vestido de cartas, se quisesse tal informação, teria que:

    1. saber ler, ao menos os números;
    2. aguardar o descarte do periódico, pois certamente não teria moedas a desperdiçar com papéis intocados.

    Aqui, no tempo e na cidade presentes, ela não porta celular, tampouco parece se importar com o passar do tempo. Ela é o próprio tempo, destemido, que não se subemete a julgamentos nem caminha para trás.

    Assim como a melancolia do filme, a mulher passeia como se encenasse a clássica e conhecida ópera de Wagner, Tristão e Isolda. Um guerreiro, uma princesa, um mundo à beira do extermínio, uma mulher que não joga, mas veste-se com as cartas do destino, em cores, a primeira vista, inocentes. As andanças da mulher das cartas segue a frequência da dança cósmica, dedilhada tal qual uma profecia entre 1857 e 1859, tocado pela profundidade de um conto da Idade Média. Um filme recente. Uma mulher contemporânea, e não.

    Entre guerras, guerreiros, princesas, prisioneiros, fadas e pessoas anônimas, a liberdade e a ideia de enganação podem levar ao amor. Ou ao fim do mundo. Ou simplesmente, a um manhã de segunda-feira.

  • O NEVOEIRO

    Metáfora. Figura de Linguagem que consiste em comparar dois ou mais elementos de forma indireta.

    Conforme o dicionário, a metáfora nos presta este favor. Aliás, um grande favor! Sem a metáfora, a imagem do que falamos ou escrevemos não teria a mesma expressividade!

    Aqui, nestes rascunhos e esboços de um tempo, a metáfora nos serve como uma imagem de alerta, de reflexão e, por que não, de perplexidade! Como podemos ignorar o óbvio?

    Outro ponto importante a considerar antes do exemplo, é que fatalmente repetimos os mesmos erros ao longo da história!

    Elementos de comparação: nevoeiro e visão.

    NEVOEIRO: Quando a temperatura do ar cai até o ponto de saturação da umidade do ar, formam-se as chamadas gotículas de água em estado líquido que, de tão pequenas, ficam em suspensão, reduzindo a visibilidade!

    VISÃO: Um dos cinco sentidos. Por meio desse sentido, temos a capacidade de enxergar tudo à nossa volta.

    Remexendo os espaços e as gavetas do tempo, a história que se segue já foi contada por muitas gerações. A propósito, ela se repete indefinidamente… a despeito da inteligência e da sagacidade de algumas criaturas…

    Conta-se que há muitos anos, um grande nevoeiro tomou conta da cidade.

    Entretanto, o nevoeiro não veio abruptamente, mas aos poucos…

    Conta-se que as pessoas nem estranharam.

    Uma neblina pequena se formou em pontos isolados, o que não chamou a atenção de ninguém.

    Depois, outros pontos passaram a apresentar também uma fina e frágil neblina…

    O calor sempre foi uma grande reclamação e, para muitas pessoas, estava bom, o calor havia diminuído. Isso era bom! Afirmavam muitos!

    Depois, pontos e mais pontos da cidade foram sendo tomados pela mesma neblina. Até que a cidade inteira foi envolvida.

    Os carros, desde cedo, já saíam de suas casas com os faróis acesos. As pessoas saíam com casacos e se encolhiam. As luzes das ruas ficavam acesas por muito mais tempo.

    E assim foi que, quando o nevoeiro chegou, denso, forte, espesso, ninguém reclamou, ninguém se surpreendeu… todos estavam já acostumados com seus casacos e gorros e luzes e frio.

    O nevoeiro assumiu o cenário da cidade e, como se a própria cidade fosse, como um prédio, uma ponte ou uma rua, era já algo comum, banal, corriqueiro…

    Um dia, o nevoeiro tornou-se ainda mais denso… Voos cancelados. Viagens adiadas.

    O nevoeiro impedia a visão das pessoas. Elas?

    Elas continuaram seus afazeres, mesmo que se machucassem ou esbarrassem em alguém.

    E elas se batiam e se esbarravam e se cortavam até.

    Elas tropeçavam e caiam e se levantavam muitas e muitas vezes.

    E assim viviam.

    Simplesmente viviam, indiferentes às coisas…

  • Berlin

    Cada vez que assisto a uma tentativa de calar as vozes dissidentes me lembro de Berlin: foi lá que me deparei com as reais consequências de um regime político onde falta liberdade.

    Percebi que a política é problema de todos e que, de uma forma ou de outra, é preciso participar (o que pode ser algo pequeno como votar conscientemente ou fazer parte da associação de bairro).

    É importante defender com unhas e dentes a liberdade de expressão, desde que não se caia na armadilha de dar liberdade completa a quem quer tirar a liberdade dos outros. O assunto é polêmico, os limites são tênues, há paradoxos envolvidos. Já me horrorizei muito mais quando via um político contrariar hoje o que havia dito ontem. Pode ser oportunismo, mas reconheço que esse é o tipo de coisa que supera conflitos: se todos se mantiverem firmes em pontos de vista imutáveis acabaremos indo às vias de fato com frequência e com maiores prejuízos para os envolvidos. Se é voz do povo que os políticos não são confiáveis, deveria também ser dito que são necessários.

    Mas voltemos a Berlin, uma das minhas cidades preferidas.

    Na primeira vez que fui a Berlin o muro ainda existia. Como estrangeira tive permissão para visitar a zona oriental, proibida aos alemães ocidentais. A paranoia era completa e amigos me aconselharam a não levar comigo escritos que não fossem de fácil compreensão porque poderiam ser interpretados como mensagens cifradas. Mesmo duvidando segui a recomendação e pude constatar, pouco tempo depois, que eles tinham razão: no aeroporto de Moscou vi retirarem da mala de um turista objeto por objeto, com ênfase nos papéis, incluídos aí meros cartões postais ou folhas soltas com anotações de números de telefone.

    A ligação entre os dois lados de Berlin se fazia em um local chamado Checkpoint Charlie.

    Na zona ocidental, os edifícios eram encostados na fronteira, mas na oriental foi criada uma larga faixa de terra de ninguém, desértica para facilitar a visão dos guardas nas torres que vigiavam dia e noite quem tentasse fugir. Como se não bastasse, retiraram os moradores dos prédios no entorno do muro, que permaneciam vazios e abandonados.

    Próximo ao Checkpoint Charlie (do lado ocidental, é claro) havia um pequeno museu onde se podiam ver os mais diversos estratagemas usados pelas pessoas para fugir da zona oriental, alguns bem-sucedidos, outros não. O museu existe até hoje e, apesar de não ser grande nem bonito, é imperdível.

    Berlin era habitada dos dois lados pelo mesmo povo, mas vivendo em condições bem diferentes. Na zona comunista os museus se mostravam lindos e bem cuidados, no entanto aquelas ruas tristes e vazias, os edifícios residenciais mal conservados, as lojas com mercadorias pouco atraentes, de vitrines horrendas ou mesmo sem vitrine alguma, eram deprimentes. As pessoas não vivem só de cultura e ciência, as pessoas também gostam de se cercar do que é belo.

    Berlin oriental ficou com a parte mais importante da cidade e era considerada a joia do bloco comunista, o local onde os altos membros do partido gostavam de passar férias.

    Contudo era desolada e até comprar água mineral para uma turista sedenta requeria paciência. As ruas do ocidente, ao contrário, apesar das construções mais modestas, eram cheias de vida, havia música e artistas performáticos, cafés ao ar livre, gente passeando.

    Se Berlin me ensinou que o comunismo é falido, também me lembrou porque foi arrasada: o combate a uma ditadura de direita radical que, com seus discursos de ódio e glória patriótica, arrebatou o povo alemão.

    Quando voltei a Berlin, anos depois, a cidade estava recém reunificada, eufórica, vendendo pedaços do muro como lembrança. O Checkpoint Charlie e a zona de ninguém continuavam lá, mas agora eram passagens abertas, passava-se à vontade de um lado a outro. Os alemães ocidentais já tinham matado a curiosidade e pouco cruzavam a antiga fronteira por ali, porém os orientais faziam compras desenfreadamente no lado ocidental.

    Havia um movimento em massa de pessoas voltando a pé para o lado oriental carregadas de embrulhos grandes que pareciam ser eletrodomésticos e artigos para a casa.

    Os prédios próximos ao muro derrubado começavam a ser de novo habitados, mas permaneciam em estado precário. Berlin ocidental continuava uma festa, enquanto o lado oriental continuava sisudo. Os alemães estavam naquele momento em lua de mel uns com os outros, ainda não haviam começado as desavenças que se seguiram até que as duas Alemanhas se ajustassem.

    Voltando pela terceira vez encontrei Berlin parecendo um canteiro de obras, a maior concentração de gruas por metro quadrado que já vi. Tive imensa dificuldade de localizar o Checkpoint Charlie: o entorno estava irreconhecível, a zona de ninguém completamente modificada. O museu, antes facilmente detectado, passava completamente despercebido no meio das ruas. O progresso na integração das duas Alemanhas era visível embora houvesse muita discussão. Livre e democrática. Até pequenos detalhes, como qual design de bonequinhos prevaleceria nos semáforos luminosos da cidade, se o oriental ou o ocidental, estavam sendo debatidos.

    Recentemente revisitei Berlin. Floresceu, continua cumprindo sua vocação para a vanguarda. No local do muro foi construído um lindo memorial. Ficou para trás a época em que vários alemães, para espanto meu, se desculparam comigo (?!) pela guerra, mesmo alguns que nem eram nascidos quando ela começou, e em que muitos lamentavam os compatriotas atrás da cortina de ferro. Tomara que as novas gerações se lembrem de aprender com o passado. Lá e cá. O assunto é sério.

  • Entrevista exclusiva com Trump (II)

    Nosso portal publicou em 27 de novembro de 2020, com exclusividade, uma entrevista com o então presidente Trump que acabara de ser derrotado nas urnas por Joe Biden. Em vista da volta de Trump à presidência (e às manchetes), julgamos oportuno, como documento de valor histórico, republicar a entrevista que segue abaixo:

    Sérgio Sayeg – Pleased to meet you, Mr. Trump.

    Donald Trump Excuse me, I know you?

    Sérgio Sayeg – I´m a blogger from Brazil. Can you say a few words to the brazilian people?

    Trump – Você brasileiro?

    Sérgio Sayeg – O senhor fala minha língua!?

    Trump – Sure. Eu aprender brasileiro quando fazer curso on line de ‘marxismo cultural’ e ‘terraplanismo avançado’ com mestre Olavo de Carvalho. Amazing! Ele dizer eu ser popular in Brazil.

    Sérgio Sayeg – Sim, o senhor tem muitos admiradores entre os seguidores de Bolsonaro?

    Trump – Who?

    Sérgio Sayeg – Bolsonaro, brazilian president.

    Trump – Oh, yes, Bolzonero, um leal servant. Eu brincar ser um ‘TRUMPolim’ para carreira dele. Hahaha. Em 2022, depois ele perder eleiçon to Lula, falar para ele non se preocupar com tribunal de Haia por ele destruir Pantanal, matar yanomamis e não fazer nada para acabar pandemia. Eu arrumar Green Card para ele morar in América, longe Xandão. Dar para ele emprego de capataz em minha fazenda no Oklahoma. Para filho Edward que ter know-how em fry hambúrgueres, eu conseguir trabalho no Trump Tower Grill em New York como ‘chapeiro’. Ele sempre querer ser meu ‘chapa’ hahaha. By the way, Edward me pedir para financiar international rede de brazilian barbecue.

    Sérgio Sayeg – Churrascaria…

    Trump Right! Ele indicar como partner ex-minister Richard Salles que fazer frigorífico em Xingu para produzir baby beef for exportation. Ele expulsar selvagens Amazônia, tirar mato e colocar gado e soja. Eu também pensar em fazer in the jungle the largest campo de golfe of the world, o Tropical Trump Golf Club. Eu adotar prática social e ambiental: dar empregos seringueiros como gandulas e plantar muita grama verde.

    Sérgio Sayeg – E o muro do México, presidente?

    Trump – Presidente Obrador, my left fellow in Latin America, me convencer: ‘no more muros’. Minha vitória on Flórida provar que hispânico agora aliado. Eu resolver consentir chicanos ilegales trabalhar para famílias americanas que non poder pagar previdência para employees. Melhor que fazer muro in México, fazer de México quintal do Texas. Criar novo slogan: ‘MAKE AMERICA EVEN GREATER: ATTACH MÉXICO’.

    Sérgio Sayeg – Anexar o México aos States?

    Trump Why not? ‘ATTACH’ México is better than ‘ATTACK’ México. Hahaha. México, estado 51: ‘una buena idea’, hahaha.

    Sérgio Sayeg – E a eleição de Biden, presidente?

    Trump – É uma question para psychology.

    Sérgio Sayeg – Psicologia?

    Trump – Yes. Vitória de Biden só Fraude explica.

    Sérgio Sayeg – Mas ele teve mais votos?

    Trump – Eu presidente legítimo. Se contar votos de white men, eu ganhar.

    Sérgio Sayeg – E as mulheres não contam?

    Trump – Mulher ficar em casa, non entender nada política e ser contra armas e guerras. Negócio de mulher is FFF.

    Sérgio Sayeg – Força, foco & fé (force, focus & faith)?

    Trump – FILHOS, FOGÃO & FUCK. Hahaha.

    Sérgio Sayeg – E os negros? Eles também são americanos.

    Trump I don´t think so. Quando eu ser presidente again, eu exportar niggers para Canadá e Austrália. Mão-de-obra barata para trocar oil, carvon and fossile fuels para acelerar aquecimento global e enfurecer Greta e Greenpeace. Já ter até slogan: “VIDAS NEGRAS EXPORTAM”.

    Sérgio Sayeg – E a história do vírus chinês?

    Trump Bullshit! ‘Vírus chinês’ ser apenas fake news para engajar anticomunists internetters. Eu assinar tratado my great friend Xi Jinping: governo americano liberar 5G da Huawei e governo chinês abrir capital empresas chinesas na bolsa Nasdaq: Xing-Ling Holding Company. Produto baratinho com três meses garantia, sem nota fiscal. Chinese new comunism impulsionar american capitalism.

    Sérgio Sayeg – E Putin?

    Trump – Putin maior líder europeu desde Goebbels. Ele comandar hackers que invadir celulares com ataques contra that disgusting Hillary em 2016. That man saber resolver problemas. Quando aparecer opositor, ele injetar cianureto no vinho dele e resolver queston quickly, sem vestígios. Ele usar arma química também para liquidar muçulmanos na Chechênia e crianças sírias em Alepo. Terrific! Eu ter muito aprender com ex-agent of KGB.  

    Sérgio Sayeg – Uma palavra final para seus fãs no Brasil, presidente.

    Trump – Eu gostar Brazil, principalmente a capital, Rio de Janero. Eu combinar Bolzonero ajudar construir nova Cancun em Angra com dois big empreendimentos: ‘South America Trump Shore Resort’ e ‘Trump Carnival Casino’. Contratar nativos com sombreros e beautiful mulatas para dançar mambo, samba, bolero e chá-chá-chá. As brasileñas son calientes. Desde que perder Cuba, american tourists non ter lugar para gastar dólares. I’ll be there. Wait for me! Adiós, muchachos.

  • O hoje do ontem

    Aproveitei o final de ano e mandei estofar o sofá. Chegou ontem. Interessante o impacto que uma simples mudança causa na sequência aleatória dos dias. Aliás, a espera pela entrega do “novo”, por si só, me provocou alvoroço. Não sou capaz de imaginar o resultado final do serviço a partir do pedacinho de pano da amostra. Por sorte, deu certo.

    A novidade trouxe animação, beleza, vontade de decorar a sala com novos objetos. Valeu o custo. O velho estava surrado de uso, a espuma sem firmeza, o tecido soltando o alinhavo e as amarras da história. O desbotado teimava em gritar o que se foi. Perdeu a graça, o charme e, na tristeza do seu envelhecer, passou a incomodar.

    Agora, o sofá azul de céu noturno assume sua imponência vestido de novos tempos. Do seu posto de belo, encara a tevê como se ordenasse um brinde ao que virá. Dono de um vigor encantador, ele brilha, orgulhoso de si. A mesa de jantar, a de centro, a luminária velha de guerra, na timidez da falta de viço, parecem nutrir um amor platônico. Não sei se o sofá inveja a intimidade, a cumplicidade e a vivência dos objetos que aqui estão desde o início.

    Ele é sedutor, instigante, atraente, classudo. Porém, feito namorado novo, exige formalidades. Estamos no início, fase em que se exercita as pequenas falsidades próprias a toda conquista. Sorriso contido, pernas cruzadas, costas erguidas, almofada sobre a coxa. Eu e o poderoso prontos para o frescor da paixão. Acontece que felicidade não é produto de fácil consumo… sinto saudade do passado. Nele, eu me jogava sem medo. Acariciava seu rosto com a sola dos pés. Mesmo empoeirado de rotina, éramos íntimos. Não reclamava da minha falta de jeito ou do peso das minhas pernas em suas costas.

    Será que a belezura do momento desconfia do que foi vivido em outros panos? Será que sabe que o novo é tempo que passa?

  • Promessas e Cotidianos

    Ano novo anda de mãos dadas com promessas. Não fugi à regra, quando enumerei minha lista de boas intenções. Passada a euforia refleti sobre esse costume. Eu estou me enganando! Claro que sim, ora se bem me conheço, nenhum rol ou plano de ações vai mudar a minha forma de ver o mundo, de agir, de errar e acertar.

    Que alívio! Vamos então ao meu ponto de equilíbrio: escrever. Essa é a minha terapia, o meu exercício diário de conexão com o mundo, com a vida.

    Na apreciação do cotidiano, no fascínio pelo simples, pelas belezas da natureza, e das pessoas eu encontro o meu refúgio. Vejo, crio ou invento pequenos milagres ou grandes feitos no que ninguém mais viu. Me comovo e me surpreendo com novas e antigos costumes.

    Não é assim de estalo, que família e amigos, em rotinas ou viagens me entendem ou correspondem. E tudo bem!

    O comum, o rotineiro me encantam, mesmo em lugares onde estou só a passeio. O pequeno grupo de alunos que passa em frente ao hotel, os uniformes com emblemas em outro idioma, as frases que não entendo, a alegria, o riso.

    Ao sumirem na próxima esquina levam o meu olhar entre curioso e amoroso; nem por isso evito o sorriso maroto quando penso não ter nada a  ver com tarefas, almoços e problemas do dia seguinte. Sou espectadora apenas. E da minha lista de intenções, sou “grandinha” o suficiente para saber o que me faz bem, o modismo ou necessário. Então eu confesso:  só ao final do ano vou revê-la e se necessário adequar a rota!

  • Para sempre Urca

    Naquela tarde quente de verão ele desceu do táxi na avenida Portugal, um pouco depois da igreja de Nossa Senhora do Brasil. Parou na mureta de pedra de frente para o mar apreciando a vista da enseada de Botafogo, do Iate Clube até a curva em direção ao Aterro. Suspirou sorrindo e disse para si com o peito estufado do mais genuíno orgulho carioca: incomparável.

    Virou o rosto para dentro do bairro, olhou para as casas e prédios baixos e caminhou lentamente até achar o que procurava. Um dos prédios de três andares de arquitetura tradicional do bairro, charmosinho e típico da Urca. Sim tinha sido em frente a você, meu amigo de outros tempos, que eu sonhara com ela. Sentou-se de lado na mureta de maneira a ver tanto a enseada de Botafogo, com a estátua do Cristo Redentor no alto do Corcovado compondo o cartão postal, quanto aquele endereço tão presente em sua memória afetiva. Não tinha a menor idéia de quem morava ali nem como eram os apartamentos daquele pequeno edifício de três andares. Mas fora em frente a ele que fez alguns dos mais doces planos de sua vida. Planos jamais cumpridos.

    Uma gaivota passou fazendo barulho e ele a acompanhou com o olhar. Quanto tempo fazia mesmo? 15 anos? 20 anos? Talvez mais.

    Mas foi ali, naquela mureta de pedra, que ele fez planos com ela. Sorriam, riam e se beijavam enquanto escolhiam onde iriam morar ali. Na Urca.

    O ideal seria ali de frente para o mar. Mas a grana não daria. Teria de ser em uma das ruas menores, mais para dentro do bairro. Mas a Urca não é grande então tudo bem, riam felizes.

    Faziam a contabilidade dos filhos. Ela perguntava enigmática se ele preferira menino ou menina. Ele respondia apaixonado que tanto faz desde que fossem quatro. Ela ria alto, contente.

    Na época ela tinha dito que queria engrenar o mestrado e o doutorado de uma vez. Ele concordara dizendo que se desdobraria como pai. Imaginavam a rotina diária, a escola dos filhos, os passeios a dois e depois crescendo aos poucos até chegarem a seis. Os dias quentes, os dias frios, os dias mornos e os dias felizes. Todos passados ali, na Urca.

    Depois veio o depois com seu fim amargo. Poucas palavras tristes trocadas entre si. Olhares decepcionados, silêncios doloridos e suspiros amargos. E sua bela estória de amor tinha naufragado.

    Cada um tomou seu rumo. Nunca mais se viram. Ocasionalmente ouvia falar dela mas aos poucos, como não queria mais saber nada a respeito de sua antiga bem amada, o rastro foi sumindo até que simplesmente esqueceu dela. Ele imagina que ela também o esqueceu.

    Saiu do Rio, morou em outras cidades. Ainda mora longe mas naquela semana veio por compromissos profissionais. Um misto de reunião de negócios com lançamento de seu livro de contos. Sim, sorri para si mesmo, esse era um dos planos que fizeram naquela mureta de pedra. Ele tocaria em paralelo sua vontade de escrever para, quem sabe, se tornar uma sólida carreira de escritor. O tempo passou, vieram os livros mas a carreira de escritor ainda segue paralela à sua atividade principal. Menos mal, acaba dando um certo charme.

    Suspira, confere a hora e mira o horizonte na direção do Corcovado. Tenho de ir embora. As pessoas me esperam na livraria.

    Sentado ainda aciona pelo celular um táxi. O lançamento com noite de autógrafos será em Ipanema. O carro não demora a chegar e antes de embarcar ele lança um último olhar à paisagem completa. A enseada de Botafogo, aquele trecho da avenida Portugal e suspira. Esse é o seu lugar que nunca mais voltará, que foi uma possibilidade de felicidade que agora jaz no fundo de sua lembrança.

    Triste, se acomoda no carro que parte rumo a Ipanema. Mas pouco antes de passar pela ponte do Quadrado da Urca ele sorri para si mesmo e pensa: a lembrança nunca desparecerá da minha memória porque está eternamente gravada. Na mureta de pedra da Urca.

  • Cada um é o que fala

    A linguagem nos define. Dize-me como falas e te direi quem és. A identidade entre pessoa e discurso tanto revela a personalidade do indivíduo, quanto reflete a classe ou profissão a que ele pertence. Um médico não usa as mesmas palavras que um economista, nem esse tem o mesmo discurso de um advogado.

    A variedade dos dizeres reflete a multiplicidade dos estilos, ou seja, dos específicos modos de ser; nas várias situações da vida, é impossível a cada um fugir ao seu. Entre duas ou mais palavras sinônimas, a que se escolhe indica a apreciação que fazemos dos seres e das coisas. 

    Os exemplos são inúmeros. Quem usa “ósculo” em vez de “beijo” tem uma determinada visão sobre o que é “pressionar os lábios contra o rosto ou a boca de alguém”. “Ósculo” tem uma dimensão ritualística, é solene e assexual. “Beijo” é explícito, franco, erótico. Por vezes se reveste de romantismo, como se vê em certos filmes de Hollywood.

    Machado tem um famoso personagem, José Dias, cujo traço singular de personalidade é o gosto pelos superlativos: boníssimo, famosíssimo, amaríssimo. José Dias é um ser diminutivo e busca compensar essa condição exagerando em tom sapiente e doutoral as qualidades e os defeitos dos que encontra no mundo. O “íssimo” da linguagem é uma forma de disfarçar o seu “inho” interior.

    Sempre fico intrigado quando escuto alguém usando, por exemplo, “procrastinar” em vez de “adiar”. “Colendo” no lugar de “respeitável”. “Apedeuta” em substituição a “ignorante”. Tão simples escolher a forma simples, que todo mundo entende.

    Por que a preferência pelo termo raro e erudito? Se não for por ingenuidade, é por presunção. Pelo desejo de mostrar que se conhece a palavra pouco usual. O provável mesmo é que seja para disfarçar a insignificância das ideias, que de tão desmilinguidas precisam de uma vestimenta que as inche. Quanto mais raso o pensamento, mais denso o aparato verbal com que buscamos traduzi-lo.

    Outro dia vi num convite de casamento a referência aos “senhores Fulano e Fulana de Tal”, “nubentes que iam convolar de estado civil”. Depois “festejariam as bodas” no salão de festas de um famoso “sodalício” da cidade.

    Espero que se gostem mesmo e que o empolamento do discurso não seja uma imagem da relação entre os dois. Afinal, embora muitos se casem de olho nos sobrenomes, o que conta mesmo na intimidade de um casal são os apelidos.

  • Quando o nosso nome estiver gravado na pedra

    Até os dez anos me chamei Donato, embora meus pais nunca tivessem gostado desse nome. Por que me batizaram assim é um mistério. “Não está com o rosto definido ainda”, diziam. “Quando for adulto e sua cara indicar que nome deve ter, mudaremos.” E assim foi. Aos doze, com a mudança de voz, decidiram que Donato já não combinava comigo, e que o melhor nome para meu rosto recém-estreado na adolescência seria Adalberto — Beto para os amigos. Esse nome durou até a noite de núpcias, quando, no momento crucial, minha mulher me chamou de César. “Céeeesar!”, gritou ela, antes de largar o corpo na cama, suada e satisfeita. “Ela se casou com o Beto e tirou a virgindade do César”, meus amigos faziam sempre a mesma piada.

    Desde então mudei de nome em outras três ocasiões: no escritório em que fui trabalhar eu me sentia Oswaldo, e assim me apresentava a todos; na faculdade, Péricles; na mesa de jogo, antes de bater o punho e gritar “Truco!”, Evanildo.

    Meus amigos se confundiam. Para facilitar a vida deles, aceitei que colocassem no meu pescoço uma tabuleta com o nome que eu usava no momento e, mesmo assim, ficavam pouco à vontade quando tinham de me chamar. Achavam essa mudança de nome uma bobagem. “A gente nasce, ganha um nome e fica com ele até o fim, até morrer, não é esse o normal?”, perguntavam sempre. Eu respondia que eles tiveram sorte, que o rosto deles se moldou ao nome que ganharam no batismo e não havia necessidade de mudar. Não era o meu caso, meu rosto não era sempre o mesmo e, por isso, o meu nome precisava se adequar. Para tranquilizá-los, eu acrescentava que, um dia, seríamos todos iguais, teríamos o mesmo rosto e o mesmo nome gravado na pedra.

  • Alguns convencidos que tudo sabem!

    Um grupo de cientistas japoneses criaram o sistema ferroviário que uniu Tóquio a 36 cidades vizinhas. 

    Eles tiveram a colaboração de Blob, um sincício multinucleado macroscópico, amarelo brilhante, que também propôs resultados semelhantes nas redes rodoviárias no Reino Unido e na península ibérica. 

    Seu nome científico é Physarum polycephalum, e já vivia na Terra há 500 milhões de anos antes dos seres humanos. 

    Esse é um exemplo de como a sabedoria do idoso jamais deve ser ignorada. 

    Ele não possui cérebro, mas sua habilidade em encontrar caminhos mais curtos, sem conhecer o destino, é impressionante.

    Sua locomoção é lenta porém precisa, e se dá a uma velocidade de 1cm/minuto, permitindo-lhe avaliar cuidadosamente seu trajeto.

    Seu apelido vem do filme clássico The Blob (A Bolha Assassina) de 1988, que narra a história de uma estranha substância gelatinosa que dissolve a carne humana. 

    No entando, o Blob, especialista em meios de transporte, não come gente, tem apenas uma semelhança em termos de forma com a Bolha. 

    Um artigo de 2010 descreveu que flocos de aveia foram dispersos em uma representação de Tóquio e das cidades, e Blob criou uma rede semelhante ao sistema ferroviário de forma eficiente e tolerante a falhas.

    Como é possível essa forma de mofo nos ensinar diversas alternativas para solucionar problemas práticos em nossos árduos dias e mostrar o valor da adversidade e multiplicação de seres, sem um cérebro?

    Sua reprodução se dá mediante a produção e liberação de esporos, que se tornam novos “Blobs”. Eles possuem 720 sexos diferentes, sendo assim um ser com orientação sexual ilimitada e centenas de identidades de gênero.

    Como na maioria das espécies, a sobrevivência é impulsionada pela diversidade genética, que no caso do “Blob” acontece quando dois organismos geneticamente diferentes se encontram e se fundem em um novo “Blob”. 

    Será que no futuro muito distante, nos transformaremos em uma ameba sábia sem a necessidade de um cérebro no crânio?

    Se não vingarmos nos próximos milênios o cofre do apocalipse, que preserva culturas a fim de proteger a segurança alimentar global, garantirá nosso DNA pastoso.

    Por vezes o menos é mais, e surge como o aspecto mais relevante em um ser simples e despretensioso, muito a frente de alguns convencidos que tudo sabem.

  • Minhas melhores companhias e eu

    .

    Da minha varanda imaginária contemplo o novo tempo que chega.

    Por circunstâncias da vida, a convivência com minhas melhores companhias vai duplicar. O que antes era “semana sim, semana não” agora ser torna “semana sempre”. Será intenso e mais profundo.

    Seremos nós três. E isso conta a favor.

    Minhas melhores companhias crescem a olhos vistos. Sou testemunha e me sinto privilegiado.

    Modos, falas e atitudes. Gostos, desgostos, ações e reações. Cores, nomes e sabores. Decisões, dúvidas e incertezas. Sons, silêncios, risadas e rosnados.

    Crescimento, simplesmente.

    E eu agora mais próximo do que nunca. Me ajustam, me criticam, me perguntam, me exigem, me solicitam, me propõem, me observam, me falam, me calam. Daqui para frente será assim e muito mais porque a vida vai se abrir para elas e as novidades vão jorrar.

    Algumas até virão em casa. Outras serão despachadas para o passado na seleção natural da efervescência natural da existência.

    Os dias que virão serão cheios e intensos. A mim, só peço ar puro para respirar e bom juízo para decidir. Ouvidos para escutar mais e olhos para enxergar até quando estiverem fechados.

    Sexto sentido será pouco.

  • #08 – A Ilha

    .

    A ilha com seu silêncio
    me comunica a morte
    dos seres espectrais
    que nela vivem ou já viveram.

    A ilha cercada por mangues
    é um poço de lama e óleo.

    Os pescadores da ilha
    me comunicam o fim
    dos pescadores da ilha.

    Os pescadores da ilha
    me apresentam a pesca de um dia,
    nada.

    A ilha com sua morte
    me comunica o silêncio
    dos seres superiores
    que a mataram e matam.

    A ilha abandonada pelos banhistas
    é um deserto de espuma e água.

    Os frequentadores da ilha
    me comunicam o desastre
    das praias da ilha.

    Os frequentadores da ilha
    me apresentam o bronzeado de um dia,
    petróleo.

    A ilha com sua sorte
    me comunica o crime
    dos seres continentais
    que seguem impunes.

    Os pescadores da ilha
    me comunicam o fim dos peixes
    e voltam tarde para casa.

    O Acaso das Manhãs

  • Tâmaras, vinho branco e gatos

    Há algumas semanas a bandeja de tâmaras – com caroço, tal qual informava a identidade visual da embalagem – repousava paciente sobre a bancada da cozinha, no aguardo do momento especial que tanto se preparava Theobaldo. Amante de história e das descobertas da gastronomia dos tempos passados, planejava dar à fruta uma espécie de protagonismo em um quitute da Roma Antiga. Mas faltava-lhe o mel e as nozes, e com sua atual situação financeira não conseguia juntar todos os ingredientes ao seu carrinho de compras essenciais. Em um sábado à noite deste janeiro desconcertadamente quente, deu mil desculpas diferentes aos amigos, recusou educadamente um convite de festividade de aniversário e se deu ao luxo de matar a garrafa de vinho branco, um Chardonnay 2018, resfriado dentro de seu frigobar retrô. Theo ficou na ponta dos pés, com algum esforço, e alcançou a prateleiras das taças, no alto.

    Passou uma água rápida no delicado vidro, ajeitou-o sobre a bandeja de madeira e cortiça – herança do enxoval dos pais -, pôs a bandeja de tâmaras e a garrafa de vinho, já consumida além da metade. Apagou a luz, acendeu um abajur e um incenso de odor madeira do oriente, escolheu uma playlist de “músicas tradicionais japonesas” no celular, pareou com sua caixa portátil de som e sentou-se em seu decrépito sofá, pernas esticadas e apoiadas em um escabelo improvisado, de frente ao ventilador – que girava e girava, de um lado para o outro, incessantemente, desconcertado, ele também, com a quentura daquela noite.

    Com as mãos, rasgou a embalagem plástica de fina espessura e sentiu o peso daquele romance japonês, primeira publicação em português de renomada escritora oriental, e sorriu – ao fundo, tambores e flautas embalavam o momento infinitamente poderoso que é o de um leitor abrindo o portal do mundo de um novo livro. Rasgou também a película protetora das tâmaras, e levou tal fragmento de sol concentrado – e enrrugado – à boca.

    Eu sou um gato. Ainda não tenho nome.

    As duas primeiras sentenças impressas em papel de pólen estalaram na mente como onsabor da fruta pousou na língua, um segredo antigo, uma textura que desliza e adere – metáfora também para a movimentação própria dos felinos -, quase um veludo caramelado, mas com a resistência sutil de algo que já foi vivo e pleno.

    Um gole do vinho e a língua brinca com as sensações; a estória não é pura e simplesmente sobre um gato, mas uma narrativa pela perspectiva de um. Outra tâmara: o paladar, de pronto, é invadido por uma doçura profunda, quase envergonhada de si mesma, como se fosse uma afronta ser tão doce e, assim, guardasse um toque de terra no final, um sussurro de suas origens áridas.

    [Pausa para esticar pernas e braços, já que o vinho chegou ao fim; uma rápida caminhada até a bancada da cozinha e a garrafa é preenchida com água gelada, sem que o resíduo da bebida anterior fosse descartado – uma espécie de água saporizada].

    Tóquio é a paisagem trazida pelas palavras que ganham vida através da conexão mente e olhos; os dentes recebem a tâmara com um pequeno estranhamento inicial – há maciez, sim, mas também uma firmeza discreta, um lembrete de que algo precisa ser rompido antes do banquete. E então gato e seu mestre entram em uma van prata, simbólico objeto de seu encontro, e iniciam uma viagem por vias expressas, mar, plantações e diferentes cidades, aventura de evolução e descobertas de desventuras que não afetaram a leveza de vida de um solitário japonês adulto, cuja única companhia é a de seu gato, batizado então por Nana, que significa 7, o literal formato de seu rabo.

    É nesse instante que a tâmara revela seu truque: a densidade da sua carne, que não cede de imediato, mas se entrega aos poucos, num misto de resistência e rendição. Como mastigar um poema, cada pedaço é uma linha que se dissolve, doce e incomensurável, até desaparecer.

    E assim, entre o degustar das tâmaras, do vinho branco que humanamente é transformado em água, o romance também vai desaparecendo da brochura, dissolvendo-se na construção da essência de quem o lê.

    Há quem diga que sábado à noite é momento fértil para mudanças. No entanto, nem sempre são as grandes epopeias que nos moldam: pode ser em uma cerimônia íntima, ou ritual de solitude – o abrir de um livro, o degustar de uma modesta refeição – que o doce e a esperteza das coisas penetra a carne e nos devolve ao mundo mais humanos – e, quem sabe, muito mais inteiros.

  • Semancol Homeopático

    Medicamento fitoterápico de amplo espectro, indicado para pacientes que perderam a autocensura e para aqueles que sofrem de compulsão verbal, podendo ser administrado também em pacientes com quadros de perda de cerimônia, falta de educação e traços de inconveniência.

    Ação esperada do medicamento

    Semancol Homeopático se mostrou extremamente eficiente no combate à boca solta, diminuindo sensivelmente a incidência de comentários inapropriados, grosserias, risadas fora de hora, ditos desabonadores sobre pessoas presentes em tom alto, entre outros sintomas.

    Seu efeito se estende também à inibição do desejo de ser íntimo de pessoas que nem conhecem o paciente, de permanecer em uma visita depois que todos já se despediram e da compulsão por furar filas e empurrar os outros para se colocar em primeiro lugar em eventos públicos.

    Há relatos de êxito na aplicação do Semancol Homeopático em casos que o paciente sofre de franqueza rude, tece comentários em momento inoportuno, faz perguntas constrangedoras e insiste em colocar sua posição política ou religiosa como dogmas em redes sociais.

    Indicações

    Semancol Homeopático é indicado para pacientes que apresentem qualquer dos sintomas acima, com uma frequência maior do que uma vez por mês.

    Medicamento de uso adulto e geriátrico, sendo que, nesse último caso, deve ser administrado somente àqueles pacientes que não apresentam quadros de Alzheimer ou Demência senil.

    Apesar de não pertencerem ao quadro de risco, é recomendável o uso de Semancol Homeopático para o tratamento de adolescentes a partir de 15 anos, que já apresentem tendência a desenvolver uma das síndromes acima relacionadas.

    Composição

    Semancol Homeopático reúne em sua fórmula extrato de boas maneiras, emulsão bloqueadora da fala e acetato inibidor de saliva, agindo diretamente no superego repressor do paciente.

    Por ser um medicamento fitoterápico não tem contraindicações, podendo ser ministrado juntamente com ansiolíticos em casos extremos.

    Formas de apresentação:

    Comprimidos de uso oral.
    Posologia: 1 comprimido a cada 6 horas, podendo essa dose ser aumentada para até 1 comprimido cada 2 horas, para pacientes que apresentem uma regularidade de incidentes maior do que uma vez por período do dia.

    Supositório: indicado em casos agudos e recidivos, devido ao seu efeito imediato. Posologia: aplicação imediatamente após o incidente. Recomenda-se portar o medicamento, para que possa ser aplicado em situações fora de casa.

    Precauções e advertências

    Ainda não testado o uso em pacientes do alto escalão político, altas patentes militares, ou cidadãos que subitamente ascenderam a uma posição de poder e apresentam a síndrome da boca solta. Considerando o crescimento de pacientes com essas características, porém, testes laboratoriais com o Semancol Homeopático estão sendo realizados com abelhas rainhas, galos de briga e pavões, com bons resultados.

    Reações adversas

    Em alguns casos, especialmente em pacientes com tendência à obesidade, o medicamento pode potencializar a compulsão alimentar, uma vez que trava a língua, mas não a boca. Nesses casos, o quadro mais comum é de pacientes que se comportam como se nunca tivessem visto comida na frente: passam a se servir primeiro que os outros, atacar os aperitivos em festas, encher os bolsos e bolsas de doces e bem casados em casamentos, entre outros sintomas.

  • CRÔNICA CAMONIANA

    Quando dois olhos se olham de uma maneira inesperada e se encontram e se sabem tão íntimos e tão inteiros, sente-se o fogo que arde sem se ver. Quando dois seres se veem próximos o bastante para dizer e celebrar o momento, vive-se o não contentar-se de contente. Quando duas bocas esperam, ansiosas, o suave toque ou o roçar de leve, percebe-se a dor que desatina sem doer. Quando duas almas dançam a canção imaginária dos amantes e ninguém os vê, e ninguém os interrompe porque há um tempo só deles, entende-se o solitário andar por entre as gentes.

    Quando duas histórias se entrelaçam e se fazem uma. Risos, brincadeiras, beijos e abraços, contemplação. O céu não é céu. As estrelas não são estrelas. Tudo é invenção. E inventam-se horas e coisas. Inventa-se a sensação. Quando duas mãos se aproximam e se querem. Quando dois sonhos se cruzam. Não importa o real. Importa a imaginação.

    Quando tudo isso acontece, a gente chama ou acha ou pensa ou diz que é amor. E vemos e vivemos intensamente o mundo inteiro. Os filmes, as músicas, os poemas, os comerciais, os bilhetes e o cartaz. As flores e a cena congelada do beijo entre a mocinha e o rapaz, Tudo é nada e nada é tudo ou tanto faz. Há muitos riscos, há muitos medos, mas queremos mais.

    E quando, enfim, acaba o quase infinito sentimento, o coração está ao chão, despedaçado. Como causar pode seu favor nos corações humanos amizade, se tão contrário a si é o mesmo amor?

    Calma! Não há motivos para o eterno sofrimento. Novos capítulos são escritos e novos personagens se inserem à trama. Suor, olhos arregalados e calafrio. Calor, contentamento e desafio.

    Mais uma crônica, mais um poema e mais uma canção…

  • Eu, produto de valor

    Abriu uma nova sorveteria no shopping perto da minha casa. Por estratégia ou atrevimento, a novinha fica em frente à geladinha oficial.

    Disposta a conhecer a gostosura da hora, entrei na imensa fila que se formava. Tentei me distrair com as opções de sabor, designer da loja, mas, na consciência, pesava a culpa da traição. Para agravar a tensão, pertinente ao momento de flerte que não deveria acontecer, me acompanhava o olhar da atendente da sorveteria antiga. Pude ouvir seus pensamentos:

    — Tá fazendo o quê aí, sua falsa? 

    Juro que pensei em desistir. Rejeitar a oportunidade de saborear uma nova experiência e, com o rabo entre as pernas, voltar para a queridinha oficial. Mas o tédio é um encosto nos traidores. 

    O cansaço da rotina desperta o pior de cada um. Pensar nisso, construiu a coragem necessária para rebater os resquícios da minha ética amorosa:

    — Merece o chifre. Enquanto era única na minha vida, nunca fez uma promoção, me deu brinde ou ofereceu um cupom de desconto. Agora, aguenta a dor de me perder. 

    Peguei minha casquinha, ergui os ombros, joguei o cabelo, empinei o bumbum e passei bem devagar na porta da ex.

    A lógica do mercado também rege as relações amorosas. A concorrência sempre favorece o consumidor. 

  • O óbvio como argumento

    Ao escrever, deve-se em princípio fugir do óbvio. Nada irrita mais o leitor do que se deparar com informações que ele já conhece ou pode facilmente deduzir. Elas parece que estão no texto para “encher linguiça” e completar o número de linhas.

    O óbvio está para o conteúdo assim como o clichê está para a forma. É um lugar-comum mental. Indica pobreza de ideias mais do que de estilo e concorre para baixar a informatividade. Dizendo o que todos já sabem, o redator dá a entender que não tem um pensamento próprio. É uma espécie de “maria vai com as outras” (escrito agora sem hífen, em razão dessa esdrúxula reforma ortográfica).

    São óbvias afirmações como as de que “o Estado deve promover o bem-estar dos cidadãos”, “o capitalismo aumenta a desigualdade social”, “o homem precisa continuamente rever os seus conceitos” etc. etc. Informações desse tipo, de tão batidas, nada acrescentam ao que o leitor já sabe.

    Mas nem tudo no óbvio é inútil. A evidência que ele representa pode ter valor argumentativo, ou seja, servir de reforço a um ponto de vista. Existe um nome para esse recurso: argumento de presença. Por meio dele se realça uma verdade indiscutível, um conceito ou ideia que as pessoas devem ou deveriam ter em mente.   

    Esse tipo de argumento aparece, por exemplo, nesta passagem da redação de um aluno: “A adolescência é uma idade de conflitos e insegurança, por isso o adolescente deve ser orientado em suas escolhas”. O que ele afirma na primeira oração não é novidade. Psicólogos, pedagogos, terapeutas (e os pais, pelo que experimentam em casa!) sabem que os conflitos e a insegurança em boa medida caracterizam o universo mental dos adolescentes.   

    Geralmente quem formula o argumento de presença não o faz apenas para “dizer de novo” o que já se sabe. Procura associá-lo a outros recursos argumentativos. No exemplo que acabamos de mostrar, a verdade enfatizada pelo estudante serve de reforço ao apelo que ele faz na segunda oração (no sentido de que se devem orientar os indivíduos nessa faixa de idade).

    Por que precisamos trazer à tona o óbvio? Porque o ser humano comumente se alheia de princípios que não poderia nem deveria esquecer. Isso o leva a negligenciar deveres, distorcer valores, praticar injustiças contra si ou contra os outros. Repetir antigas verdades é sempre uma forma de chamá-lo à razão.

  • Ouse ser Sábio!

    A solidão está no noticiário como uma dor social frequente, e acabou indo a público através da imprensa, que despertou atenção desse problema de saúde nos EUA. 

    O sr. Vivek Murthy, Ex-cirurgião geral dos Estados Unidos, publicou um relatório de 82 páginas que chama atenção para esse tema. 

    O documento intitula-se “Nossa epidemia de solidão e isolamento”, com o subtítulo “Os efeitos curativos da conexão social e da comunidade”

    O que choca é saber que a falta frequente de conexão social, pode prejudicar a saúde física de forma tão perigosa quanto fumar 15 cigarros por dia. 

    Quando a vida é vista pelo ângulo da juventude, parece um teatro de marionetes à distância. Mas quando vista pelo prisma do adulto, parece estar dentro do palco, com detalhes reais e desgastados. 

    No entanto, as ligações sociais tornam mais leve o conviver com os pregos e parafusos, o óleo esparramado no chão, e as portas abertas sem tranca, que poderiam esconder a intimidade e nos proteger dos perigos.

    No contexto das relações de trabalho, é onde o homem cria suas habilidades sociais e a capacidade de interagir, o que não conseguiria desenvolver trabalhando somente em home office

    Desde 1990 o número de homens que relatam não ter amigos próximos saltou de 3% para 15% e suas redes sociais encolheram mais do que as das mulheres.

    A raiz do problema é profunda e longa, mas atualmente deve-se em parte ao colapso dos “terceiros espaços” que costumavam sustentar as amizades. 

    Os lugares como bares, academias, parques e igrejas, permitem desenvolver amizades profundas porque não envolvem status, poder e competição, como em um ambiente de trabalho muitas vezes estressante. 

    Na solidão do home office surgem pensamentos do tipo “porque certos absurdos acontecem somente comigo” e não com os outros ao meu redor? 

    Este é o momento que devemos realizar um acordo com esse absurdo e encontrar paz e sentido em nossas vidas e passar a entender que mesmo um dia carregado de desafios seja compreendido como feliz.

    Assim devemos procurar novos laços em outros ambientes. Como disse o pensador Michael Foucault, para que isso ocorra, é necessário ter um gesto de grande força para se separar do seu eu doentio, e não comprometer sua vida.

     Portanto “Sapere aude” que significa “atreva-se a conhecer”, termo utilizado pelo filósofo Immanuel Kant, mas que também foi traduzido de uma forma vaga como “ouse ser sábio” e “tenha coragem de pensar por si mesmo.

  • A difícil arte de aceitar afeto

    O homem com a cicatriz no rosto viu quando ela ia descalça e mancando pela estrada. Parou o carro e a pôs no banco de trás, encolhida feito um novelo. Ela tremia de frio, ele a cobriu com uma manta. Dirigiu o mais devagar que pôde, nenhum solavanco a perturbasse. Não trocaram palavra. Em casa, deu-lhe banho quente, segurando-a pela nuca, como a um defunto. Observou que ela tinha novas tatuagens, gostou de algumas, não de todas. Preparou-lhe um mingau suave de aveia, para não machucar seu estômago, sabe-se lá desde quando não comia. Meteu-a na cama em silêncio, cuidando para não tirá-la do torpor em que estava imersa. Foi até o jardim e queimou as roupas que ela vestia. Eram roupas de homem. Enormes, como as dele.

    Deitou-se no sofá da sala e demorou para pegar no sono. Pensou e pensou, mas não conseguia chegar ao que poderia ser a melhor solução para tirá-la do poço em que tinha se metido. Passou a mão pela cicatriz no rosto: não deixaria que ela o machucasse de novo.

    Pela manhã, o homem com a cicatriz no rosto acordou no sofá já sabendo que ela tinha ido embora, certamente vestindo roupas dele, como da última vez. Também sabia que, no espelho do banheiro, escrito com batom vermelho na caligrafia ainda infantil, encontraria o pedido para que não voltasse a socorrê-la: Por favor, não me ajude mais. A mesma súplica que, horas atrás, o homem da cicatriz no rosto tinha ouvido dos lábios dela antes de se deitar no sofá e mergulhar no sono mais profundo de toda a sua vida.

    Nem ele nem a filha sabem prever quando será o próximo encontro entre os dois.


  • Qual o Papel do Adestrador?

    O adestrador não é um encantador de cães, um mestre de comandos ou um mágico que resolve todos os seus problemas num estalo. Um treinador canino é, antes de tudo, um tradutor de almas. Ele observa o que, para muitos, é invisível: uma dança sutil entre o ser humano e o cão, onde cada movimento esconde um significado, cada latido indica um pedido, e cada gesto humano expressa uma intenção, seja ela consciente ou inconsciente. O papel do treinador é como o de um guia silencioso que, em vez de apontar o caminho, revela o mapa que sempre esteve encoberto, à espera de ser decifrado. O olhar de um profissional atento percebe o que só os cães sabem.

    No coração dessa relação está a reciprocidade. O cão, com sua determinação e sua linguagem instintiva, ensina lições que o ser humano só perceberá ao aprender a compreender o que se esconde por trás de cada movimento do seu cão. O adestrador, como um maestro, orquestra esse diálogo, mostrando ao dono que o problema nem sempre está no comportamento do cão, mas no reflexo da rotina, na ausência de presença, nos detalhes, no silêncio que nunca se preencheu.

    Há um segredo que o bom treinador carrega em suas ações: educar um cão é, antes de tudo, conscientizar as pessoas. É um ato de transformação e evolução. O cão aprende a se adaptar ao caos da sociedade, enquanto o humano redescobre o valor do aqui e agora. Nesse vínculo, nasce uma lição filosófica: a de que a paciência não é espera, mas cuidado; a consistência não é repetição, mas sensibilidade; e o amor — ah, o amor — é a chave que tudo conecta e transforma.

    Inspirados por essa jornada, percebemos que o treinador canino não foca seu trabalho em treinar apenas cães, mas em cultivar relações saudáveis e harmoniosas, dentro e fora de casa. Ele semeia confiança em terreno árido e colhe uma conexão que transcende o adestramento. Ao final, desaparece como um guia invisível, deixando no coração de quem aprendeu a certeza de que a transformação nunca foi imposta, e sim revelada. Assim, como ensina Aristóteles, “a excelência não é um ato, mas um hábito” — e nessa constância, cuidado e amor, a verdadeira conexão entre homem e cão encontra sua expressão mais sublime.

    E você, já parou para ouvir o que o seu cão está tentando dizer? Talvez, no silêncio que parece comum, ele esteja convidando-o para olhar o mundo com uma nova perspectiva — mais instintiva, mais autêntica e, quem sabe, muito mais humana.

  • Desde aquele dia

    Em 2010 eu morava em Gaurama e não sabia o que fazer da vida dali pra frente. Aos vinte anos a gente acha que pode tudo e acredita cegamente que as questões da vida têm soluções simples, num otimismo nada mais que adolescente. Eu estava perdido e assim fiquei talvez por mais um ano ou dois, pois tinha abandonado uma faculdade, concluído dois cursos técnicos dos quais pouco aproveitei e seguia vivendo na crença de que teria um futuro promissor como baterista. Embora hoje, década e meia depois, me orgulhe de uma empreitada ou outra, ando com a certeza de que jamais me dediquei tão fortemente a algo como ao instrumento.

    A bateria me era uma religião. Estudava como se apostasse todas as fichas numa única jogada e criei uma rotina que ultrapassava dez horas de prática por dia. Lia todas as revistas, buscava referências, bandas e músicos, fazia aulas com os bateristas mais experientes da região e viajava seguidamente para workshops em Porto Alegre e Caxias do Sul. Vez ou outra, além disso, compunha músicas para a banda da qual fazia parte, chamada General Lee.

    Nessas idas e vindas, conheci muita gente e sempre foi comum a surpresa quando falava sobre a minha cidade. Acredito que era, e ainda é, relativamente estranho viajar de um lugar com seis mil habitantes para um grande centro por conta de um workshop de bateria, que tem duração de, quando muito, duas ou três horas.

    Numa dessas o Rubens, baterista que encontrava nos workshops pelo estado e com quem converso até hoje, liga no telefone fixo de casa ao meio dia. Eu almoçava com a minha avó. Jamais soube como ele conseguiu aquele número. O fato é que não tive tempo para me surpreender com a ligação porque ele foi direto ao ponto. Um conhecido músico gaúcho acabara de entrar numa polêmica das brabas e tinha de sumir por uns dias. Gaurama seria o lugar perfeito. Concordei sem pensar e só quando desliguei percebi que não sabia o nome do fugitivo. Ao ser indagado, segundos depois, disse apenas: “vamos esconder alguém”.

    Pelo extinto MSN, combinamos o restante. Na sexta de tarde, eles viriam com um Punto preto, eu aguardaria sua chegada em frente ao posto de combustíveis na entrada da cidade e os guiaria até a minha casa. Soube quem era o tal músico só quando estacionamos. A minha avó era cúmplice e até gostou da história, acabou preparando uma macarronada para o jantar.

    Organizamos um quarto isolado, no sótão, com vários cobertores, pois aquela foi uma das semanas mais frias do ano. Ansioso e um tanto tenso porque, afinal, mal conhecia o Rubens, e, sejamos sinceros, aquilo tinha tudo para dar errado, quase mijei nas calças quando vi o Humberto Gessinger saindo do carro. Trazia uma mochila e uma edição antiga do Crônica da casa assassinada, do Lúcio Cardoso. Ao me ver, no looping de uma surpresa paralisante. gargalhou e agradeceu a parceria.

    A sensação de pânico não me abandonou naquela noite. O Humberto e a minha avó conversavam sobre os mais variados assuntos como velhos amigos. Eu mal acreditava no que via. Na manhã seguinte, mostrei a cidade ao forasteiro que, de touca e óculos escuros, fazia várias perguntas. De tarde descemos ao porão de casa, onde estavam os equipamentos da General Lee. Ele olhou tudo com calma e, ao ver o baixo na parede, pediu de quem era. Eu respondi que era do Joel, o baixista da banda, que geralmente o deixava ali para os ensaios. O Humberto o mirou por mais alguns instantes e, com a mão no queixo, sem virar para mim, disse: “Será que ele se importaria se fizéssemos um som?”. Aquele era um dos raros fins de semana em que não ensaiaríamos e, não preciso dizer que ficamos por horas, Humberto e eu, tirando um som no porão de casa. Só paramos quando a minha avó nos chamou para o jantar.

    Depois, por sugestão dele, fomos ao Maruag Pub. Ele estava de touca, manta e óculos, tapando quase completamente o rosto. Naquela noite, o Pub promoveu o show de uma banda de Passo Fundo, mas teve pouco público. O frio assustava. Assistimos sentados, num canto meio escondido, tomando seguidas latinhas de Coca-Cola, com raros comentários, pois o Humberto não tirava os olhos da banda. Quando a apresentação acabou, o vi escrevendo um SMS no celular, pagamos a conta e voltamos para casa, em silêncio.

    Jamais pensei em revelar essa história, mas creio que o Humberto já não se importe. Ninguém o reconheceu naquele fim de semana e não houve aborrecimentos posteriores. Acho até que o pedido de sigilo tenha jubilado. No domingo bem cedo ele partiu. Autografou alguns discos e pediu para que não contasse da visita a ninguém. A minha avó o convidava seguidamente para retornar enquanto se despedia. Eu via aquele Punto saindo pela estrada sem entender o que havia acontecido, com a certeza de que ninguém acreditaria caso contasse. Pouco me lembro dos dias subsequentes, mas fui alvo de piadas no ensaio da banda por estar feliz. E nunca pude contar o porquê. No fim das contas, a vida é mesmo cheia dessas coisas difíceis de explicar.


  • Deus e o Diabo na Terra do Sol

    Uma antiga lenda indígena relata como se deu o surgimento da vida.

    No início, havia apenas trevas e do interior do nada, Tupã fez germinar a luz. No negro céu, em meio a um infindável vazio, o poderoso senhor dos trovões criou o sol, fonte incandescente de luminosidade, a lua e as estrelas com seu brilho ameno.

    Durante o dia, sob a égide do deus Guaraci, a vida pulsaria fulgurante, multicolorida. À noite, envoltos no manto da escuridão e da quietude, os seres viventes se recolheriam, repousariam e recuperariam suas forças, acolhidos pela terna proteção da deusa Jacy.

    Curupira e Caipora foram designados guardiões das matas e dos animais. À divina Yara, coube a missão de reger os mares, lagos, rios, pororocas, piracemas, igapós e igarapés, através dos quais a sabedoria perene das águas espalharia o sêmen da vida ao longo do Solimões para além das terras de Marajó.

    Rupave e Sypave, respectivamente o pai e a mãe de todos os humanos foram moldados no barro. Um sopro divino conferiu-lhes o dom da anima. E puderam assim gerar homens e mulheres que se multiplicariam pelos vales e colinas.

    Advertiu-lhes com severidade o sábio criador:

    “Deixo-vos este Eldorado para ser vossa morada, para que possais nele criar vossa prole com fartura. Que a terra fértil possa abastecer de tudo o que vossas necessidades rogarem.

    Os frutos da terra nutrirão a todos e dela emergirá o maná abençoado em profusão para os vossos filhos e para os filhos dos vossos filhos. As águas puras, frescas e cristalinas a brotar magicamente das pedras aplacarão prazerosamente vossa sede. As árvores exalarão bálsamos revigorantes e vos guarnecerão proteção contra os efeitos abrasivos do sol e um ninho acolhedor quando precisardes descansar vossos corpos. O fogo propiciará aquecimento para enfrentardes o frio e tornará palatáveis os alimentos.

    Essas oferendas a vós concedidas farão das terras um éden para usufruirdes de uma existência plena e radiante, ainda que efêmera. Confio que usareis sabiamente as dádivas para fazerdes jus à felicidade que elas vos proporcionarão.

    Tais bênçãos, todavia, não são privilégio de seres como vós, mas proverão as necessidades das demais formas de vida com quem convivereis, animais e plantas que convosco partilharão o espaço: borboletas, besouros, araras, andorinhas, arapongas, periquitos, tucanos, tamanduás, jaguatiricas, macacos, antas, capivaras, sucuris, sapos, jacarés, pirarucus, tucunarés, tambaquis, pacus, açaís, buritis, cupuaçus, ingás, jacarandás, ipês, cedros, jatobás…”

    E assim os primeiros homens e mulheres, deslumbrados com a abundância de cores e formas que o generoso deus lhes havia oferecido, sentiram-se gratos pela bem-aventurança de que foram beneficiários e preservaram com zelo o que lhes cercava.

    Essa harmonia entre entes tão distintos não chegou a ser gravemente abalada quando advieram aos humanos sentimentos de cobiça e rivalidade que colocaram irmão contra irmão e puseram em pé de guerra as tribos, surgindo os primeiros embates, sob o olhar reprovador de Tupã.

    Ainda assim, o misericordioso relevou tais transgressões e entendeu que os seres, imperfeitos e mortais que eram, não chegariam mesmo a um congraçamento universal como seria de seu agrado. E a vida manteve seu tênue equilíbrio por muitas e muitas luas.

    A situação não perdurou quando jovens guerreiros, tomados pela ambição, fizeram aliança com os espíritos malignos que sempre estiveram rondando, esperando a oportunidade para infundir a discórdia.

    Abdicando da coexistência pacífica, prepararam-se para a guerra em busca de maior poder. Para ampliar seu domínio, subjugaram as espécies mais dóceis e eliminaram diversas formas de plantas e animais, empobrecendo a diversidade.

    O boto rosa não mais foi avistado. A harpia alçou as asas em direção ao infinito. E o canto de Uirapuru nunca mais pôde ser ouvido.

    Ervas utilizadas secularmente pelos xamãs em seus preparos foram extirpadas. Foram abolidos os rituais de pajelança e desdenhada a sabedoria milenar dos ancestrais. Sem os elixires, os males e as pragas divinas se espraiaram.

    Rompido o equilíbrio, os mares ficaram revoltos, os ventos cada vez mais furiosos, a aridez da terra alastrou-se, a vida fragilizou-se.

    Com seu uso desvirtuado, o fogo transformou-se em arma de extermínio e a fumaça cobriu a luz do sol e o brilho das estrelas. O ar e a água foram envenenados. O vívido azul dos mares e o cintilante verde das matas tornaram-se cinzentos e opacos.

    Tupã assistiu tristonho o ocaso da vida que fizera brotar ao longo de rios, campos e montanhas. A obra da sagrada divindade fora corrompida pela ganância. As ruínas do seu reino foram apropriadas por Anhangá, o deus da morte que assumiu o comando.

    Conta-se que o criador ao ver sua obra desfeita pela criatura, não a castigou nem reagiu. Deixou o inexorável destino cumprir sua sina, sem impedir que as ações insanas dos humanos sobre eles próprios revertessem seus nefastos efeitos, provocando sua auto-destruição.

    Tupã se recolheu. Diz-se que se transmutou em espírito protetor de uma floresta distante, fora do alcance da insensatez. Sua voz grave porém ressurge retumbante e assustadora no ribombar dos trovões, quando as tempestades, cada dia mais fortes e avassaladoras, desabam sua fúria sobre os herdeiros da terra devastada.


  • #07 – ANDARILHO DEITADO

    .

    cheguei cansado para deitar
    sobre a cama de papelão no chão
    e debaixo da marquise gotejante.

    uma poça de água da pingadeira
    sobre o passeio do mercado desativado
    onde dormiam indigentes à espera do fim.

    dormir é dócil como o bebê embriagado
    desapercebido dos planos de Deus.

    Um Andarilho Dentro de Casa


  • Cento e vinte e duas folhas

    122 folhas caíram sem aviso prévio, de um dia para outro, do Manacá que resiste às intempéries da vida, aos seus altos e baixos, junto a outras tantas plantas, que já somam mais de 4 dezenas espalhadas pelas varandas e cômodos de um apartamento situado em rua tranquila, que nem parece centro de cidade média. Cercado por árvores urbanas, cujas copas privatizam a vizinhança, garantem a qualidade de vida e o cantar dos pássaros a um sem número de pessoas e situações, o número de folhas parece um número pequenino: cento e vinte e duas — não cento e vinte, nem cento e vinte e cinco: exatamente cento e vinte e duas. Seria tal montante uma mensagem do acaso ou um capricho da própria planta, que, desconfiada da mão humana que a cuida – aquela que escolheu tê-la em sua rotina, pelo prazer de cuidar e ver seus frutos como recompensa – decidiu ensaiar uma pequena rebelião?

    O verde da paisagem predomina. Mas são as folhas pontiagudas, firmes – de maioria idosa, outras que sequer chegaram ao seu tamanho final – que, mesmo jazendo no piso frio, transformados os seus verdes, vistosos e habituais, em amarelentas folhas, enrugadas folhas, são o foco da atenção – não as copas vibrantes do entorno, mas estas formas já amorfas ao rés-do-chão da varanda da casa de quem é responsável por as fazer florescer, e assim ter sombra, e receber a visita de pássaros, a bagunça causada pela passagem do vento, ambientando mais natureza ao lugar cinzento que configura as construções do homem, que tanto destrói pela simples ganância em criações. A morte ou a interrupção do que é esperado é instantaneamente mais interessante do que toda a beleza vivente ao redor. Colhidas na palma de uma das mãos enquanto a outra pinça as recém defuntas folhas, o subconsciente humano se questiona;

    – Foi o vento, foi o calor, foi a falta d’água?

    O Manacá então, com tantos galhos desfolhados, que casou-se com um copo de leite branco e anda trançando sua copa aos pecíolos da samambaia – no auge de sua fase esporófita – vai acabar perdendo a esposa para o jovem pé de café, destemido e energizado, que cresce aumentando vagarosamente suas folhas – sem as perdê-las – enquanto não tira os olhos das formosas folhas alongadas que já não tem forças para fazer brotar sequer um único copo de leite.

    – Um bom café com leite é uma combinação das mais perfeitas!

    – Sussurra o pé de uma das bebidas mais consumidas do mundo a sua amada, ao enxergar a traição injusta.

    A queda concomitante de cento e vinte e duas folhas pode ser por culpa. Não necessariamente excesso de vento, o sopro de uma consciência superior, ou do calor intenso deste verão (metáfora de uma paixão desmedida de férias): há o equilíbrio das chuvas, há o zelo da rega constante. A culpa, ou melhor, sua confissão, pode ser porque, quanto menos folhas, menos consegue o Manacá esticar seus braços em direção à amante. No fundo, a culpa pode ser por um ímpeto natural, cuja consciência o faz sofrer.

    As percepções podem ser tantas que, não fosse a necessidade do funcionamento humano de fazer sentido, o copo de leite poderia ser o adúltero, e a perda das folhas um sintoma de depressão do Manacá sofredor. A samambaia poderia apenas tentar ajudar um amigo, sendo sua confidente. O café poderia ser o grande vilão, disfarçado de herói.

    Ou, simplesmente, poderia tratar-se de uma troca de folhas necessária: caem as folhas como caem os dias. E a relação das plantas não ser outra que a organização preferida por seu cuidador, que brinca de ser Deus até na narração de tantas possíveis estórias.


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