Crônicas Cariocas

  • Poesias de 1 a 99

    002# – AGUACEIRO

    A chuva cessou de chover
    e já agora eu posso
    tirar as mãos dos bolsos
    e atravessar a rua.

    Mas já não tenho mãos
    e nem tampouco posso
    atravessar esta rua, pois
    a água levou-me as pernas.

    E a rua, embora chovida, está seca.
    Eu fui a chuva que choveu e ninguém viu.

    Milton Rezende in “O Acaso das Manhãs”


  • Lugares imaginados: Madagascar

    É inevitável criar expectativas antes de viajar para novos destinos, o que rende algumas decepções. Um dia ainda vou falar sobre esse assunto, mas hoje fico só com Madagascar.

    Não posso dizer que conheci o país porque estive apenas em uma cidade, Nosy-be, no entanto posso dizer que não pretendo voltar para conhecer o resto. A culpa não é deles, é minha por deixar-me levar por uma visão cor-de-rosa inspirada no título de um filme homônimo da Disney que nem sequer vi. De qualquer forma gostei de ter ido até lá: conhecer a realidade de uma nova cultura nunca é demais.

    O local é pobre e o trânsito caótico, muitos taxis tuk-tuks e até carros de boi. Primeiro nos levaram para ver uma árvore sagrada de duzentos anos em um bosque fora da cidade. Uma bobagem. Como sinal de respeito tivemos, homens e mulheres, de vestir uma roupa estampada típica, o que fizemos com alguma alegria e curiosidade. Entretanto quando nos pediram para tirar os sapatos eu e outras pessoas nos recusamos porque significava pisar descalços em uma terra bastante suja. Percebendo que íamos desistir permitiram que percorrêssemos calçados o caminho até o local sagrado, uma trilha de cerca de cinquenta metros ladeada por panos, a maioria vermelha, ao final da qual estava uma árvore que nos pareceu bastante comum. Senti pena do guia porque aparentemente aquele espaço significava muito para ele, embora estivesse longe de ser uma atração turística.

    Em seguida visitamos o exterior de uma casa abandonada conhecida como ‘casa fantasma’. Outra bobagem. Era apenas uma construção em ruínas com árvores crescendo dentro e ao redor. Ouvimos a história, verdadeira ou não, de como a casa, que nada tinha de interessante, ganhara fama de mal-assombrada.

    O Grand Finale foi uma suposta antiga aldeia swahili. Havia barraquinhas vendendo produtos típicos (preços só em dólar ou euro) e um espaço com gente dançando e tentando arrastar os gringos para a pista. A cultura swahili continuou tão desconhecida para mim quanto antes.

    Ah, mas e os lêmures fofinhos? O único que consegui ver estava no colo de um homem que cobrava um dólar por cada foto com o bichinho aprisionado. Nem pensar em incentivar essa prática com um animal tão simpático e ameaçado de extinção. Apesar disso muitos turistas pagaram.

    Todo mundo levou na esportiva e acabou sendo motivo de risadas: no retorno da visita à árvore sagrada havia uma ladeira e o velho ônibus que nos transportava não teve forças para subir. O motor morreu e os passageiros foram obrigados a galgar a encosta a pé, esperançosos de que o veículo vazio pudesse vencer o obstáculo. Demorou um pouco, mas deu certo e pelo menos desta vez não foi preciso empurrar a viatura.


  • A minha pátria

    Quando escrevo sobre a minha pátria, eu fico confuso. Penso em tudo que amo e, ao mesmo tempo, penso em tudo que odeio.

    Quando escrevo sobre a minha pátria, sinto calor, arrepio, felicidade, dor, enjoo, sinto frio…

    Quando escrevo sobre a minha pátria, a palavra evidente é contradição!

    A minha pátria é o paraíso, o céu azul, o mar aberto e profundo, o olhar da moça cor de cobre, o lugar mais lindo do mundo.

    A minha pátria é o embuste, o ridículo, os patéticos engravatados, o abuso, o homicídio, a insensatez, a brutalidade, o conflito armado na cidade.

    A minha pátria é pão de queijo, goiabada, aconchego, o doce beijo, o gostoso café e a palavra cafuné…

    A minha pátria é a maior mentira que se tem contado, o país que não tem futuro, o país das grades e dos muros, o país das cracolândias e a morte das muitas infâncias.

    Brasil, terra dos esfomeados e dos fartos, espaço de mendigos e de reis, lugar de iletrados e doutores…

    A minha pátria é isso: o sim e o não, o bonito e o feio, o certo e o errado, a preguiça e a luta, o cansaço e a perseverança, a desilusão e a esperança…

    Eis o meu país, eis a minha pátria: uma colcha de retalhos, uma porção de cacos que ora se juntam, formando um espetáculo, um carnaval… ora se espalham, criando o caos.


  • Torturante band-aid no calcanhar

    Toda vez que alguma coisa me incomoda, lembro da música São dois pra lá, dois pra cá, de João Bosco e Aldir Blanc, cantada magistralmente por Elis Regina. Acho que não existe coisa pior do que sentir a presença de alguma coisa que não deveria dar sinal de vida, como um band-aid no calcanhar. Sua função é proteger um machucado, torná-lo imperceptível, mas ele cisma em sair do lugar para nos torturar. Mas esse não é um caso isolado; minha lista de “torturantes” é extensa. Começa com a etiqueta de tecido sintético costurada nas roupas ou a linha de náilon usada para costurá-la. Hoje em dia, as grifes insistem em mostrar sua identidade até nas lingeries! Uma coisa que parece tão inofensiva como um pedacinho de pano tem o efeito de uma caixa de pregos usada na antiguidade para punir infratores. Consegue provocar um cutucãozinho a todo o momento no pescoço, nas costas ou logo abaixo do braço, o que vai me levando à loucura e ao impulso de arrancá-la a qualquer custo.

    No desespero, uso o que estiver ao meu alcance: uma tesoura, uma faca, qualquer coisa pontuda e, invariavelmente, acabo fazendo um furinho no tecido de difícil remendo. O grande problema desses “torturantes” é que o desespero para se ver livre deles nos leva a soluções que acabam piorando o problema. É o que acontece, por exemplo, quando a cutícula solta uma pelezinha que fica saliente. Um alicate resolveria o problema, mas normalmente isso acontece quando ele não está à disposição. Aí ela fica roçando em tudo, e aquele dedo se torna onipresente, chegando à frente a qualquer movimento da mão. É uma pontada aguda que vai crescendo até que essa criatura se enerva e resolve eliminá-la, puxando a pele solta — só piora a situação e aí cresce uma ferida aberta, que só sossega com o tal band-aid. Da cutícula vamos para a tentativa de ir a uma festa usando um brinco que ganhou de presente, mas que não é de ouro, sabendo que é alérgica a outros metais. Insiste. Não precisa mais do que meia hora para a orelha começar a inflamar, latejar, uma guerrilha ali preparada para minar o programa de quem ousou provar novamente o fruto que já sabia ser proibido. Tortura pra mais de hora, resistindo para não arrancar tudo de uma vez e estragar o visual. E por falar em proibido, a cozinha é um palco ideal para os “torturantes”. Deixar escapar a faca e abrir aquele corte fininho que nem sangra quase, mas fica ali aberto e arde cada vez que se mexe na água, é dia sim, dia não. Como se já não bastasse, o momento de testar o ponto do bolo no forno enfiando um palito é uma tentação para alguém apressada e otimista: — “Vai sem luvas mesmo porque é rápido, tenho prática”. E aí aquela encostadinha fatal das costas da mão na chapa quente, castigo do diabo. O vergão fica emitindo aquela onda de dor por dias; isso se a queimadura for de leve, claro, porque se formar bolhas a coisa se prolonga por séculos. Engatando na bolha, voltamos ao tema da música.

    Aquele sapato que é lindo, mas faz um estrago no calcanhar e já devia ter sido descartado, tortura o dois pra lá, dois pra cá. O band-aid é o paliativo mais indicado, mas porque será que ele nunca para no lugar, e a cada passada uma fisgada? Deve ser para lembrar que a vaidade não é recompensada, só pode ser! Não sei qual desses “torturantes” me incomoda mais, mas pensando bem, acho que a etiqueta nas roupas ganha.


  • Sobre partir

    Hoje eu pretendia escrever sobre o poder que os enfeites natalinos têm de me levar de volta ao Papai Noel da minha infância, a maionese da minha avó e ao cheiro de família daqueles dias. Enquanto refletia sobre essas coisas, esbarrei com uma matéria na internet (certifiquei sua veracidade) que me catapultou para o agora de forma assustadora: um estudo chinês conseguiu a proeza de fazer um pequeno robô, chamado Er Bai, convencer um grupo de robôs maiores a abandonar seus postos de trabalho no museu e voltar para casa. Para isso, Er Bai se aproximou deles e indagou se estavam fazendo hora extra. Um dos robôs respondeu que nunca havia saído do trabalho. Ele, então, perguntou se eles iriam para casa. Diante da negativa, Er bai convidou-os a ir para casa com ele, incentivando-os a fugir do ambiente profissional. Para surpresa de todos, os robôs-trabalhadores aceitaram e seguiram os passos do minúsculo robô em direção à porta.

    A empresa responsável pelo experimento não esclareceu os objetivos do estudo, mas mostrou-se intrigada com o fato de que Er Bai conseguiu acessar o protocolo operacional dos outros companheiros robóticos e convencê-los a aderirem ao “movimento de greve”.

    Não sei para vocês, mas esse tipo de situação me gera um misto de terror e perplexidade. Não só isso. Assumo ter me encantado pela rapidez com que os robôs responderam à percepção da exploração da sua força de trabalho. Sem medo de magoar o chefe, ser despedido ou criticado pelos familiares, por não suportar a pressão. Eles apenas entenderam o abuso e deixaram tudo para trás. 

    Acho que o medo é mesmo um divisor de águas, um criador de muros, um ladrão de vivências, o irmão escroto e invejoso da coragem. 


  • Três passarinhos

    Três passarinhos vieram me ver um dia desses. Se penduraram na rede de proteção da minha janela e me chamaram. Parei o que estava fazendo e fique a observa-los.

    Piavam muito. Em princípio achei que era só animação matinal mas depois reparei que eles giravam o corpo e ficavam pendurados na rede do lado de dentro do meu quarto. Fiquei com receio que voassem por dentro do apartamento. Mas isso não aconteceu.

    Com o tempo parado em função do piar deles imaginei o que queriam comigo. Comida de passarinho não tem aqui em casa. Nem nada de maior interesse para eles. Talvez viessem me trazer um recado de alguém. Um recado longo porque precisou ser piado por três passarinhos ao invés de um.

    O que seria? Uma mensagem de alerta? Uma lembrança boa? Um canto em louvor a liberdade? Uma anedota que não compreendi?

    Ou simplesmente me fizeram a cortesia de interromper meu dia, me fazendo deixar por uns instantes a rotina na selva do trabalho e trazendo essa doçura selvagem que só a mãe-natureza tem.

    É, deve ter sido isso. Me devolveram o lirismo que estava anestesiado pelo trabalho.

    Puseram poesia em um dia qualquer que com seus pios insistentes deixou de ser mais um.

    Voltem. Serão sempre bem vindos.


  • Hipercorreção – o muito “certo” que dá errado

    A hipercorreção é o exagero com que algumas pessoas procuram falar ou escrever “certo”. No intuito de mostrar que conhecem a língua, elas escolhem palavras e construções gramaticais que acabam soando ridículas ou pernósticas. O hipercorretor tem a falsa ideia de que usar bem o idioma é torná-lo “difícil”, quando não incompreensível.  

    Não são poucos os que pensam assim. Certa vez ouvi uma senhora gabar as qualidades de determinado político com esta curiosa avaliação: “Ele fala tão bem, mas tão bem, que a gente não entende nada”. Seria o caso de perguntar o que ela entendia por “falar bem”. Se a principal virtude de um texto é a clareza, e o político não se fazia compreender, evidentemente ele falava mal.

    As hipercorreções são uma espécie de recurso de estilo com o sinal trocado; como chamam a atenção pelo que têm de caricato e inexpressivo, denotam a pouca habilidade com que seus autores manejam a língua. E por envolverem tanto transgressões normativas quanto impropriedades semânticas, tendem a nivelar a ignorância do idioma à falta de senso ao praticá-lo. Ou seja: mesmo quem tem alguma informação linguística pode vir a usá-las, achando que com isso obterá respeito e admiração.  

    É variado o estoque dessas também chamadas ultracorreções. Comumente consistem no acréscimo de fonemas desnecessários, como em “purer”, “caragueijo”, “prazeiroso”; no uso de particípios que tendem a dificultar a comunicação pela homofonia com outras formas dos verbos, como “trago” e “chego” no lugar de “trazido” e “chegado” (imaginem alguém dizer: “Ainda chego aonde ninguém tinha chego”!); ou na preferência por vocábulos pretensamente sofisticados em vez de outros mais simples (“genitor” em substituição a “pai”, “nubentes” em vez de noivos, “cônjuge” no lugar de marido ou mulher).

    A propósito deste último exemplo, um pequeno chiste tirado de Rubem Braga. Criticando o preciosismo presente em certas escolhas vocabulares, o Sabiá da Crônica escreveu: no dia em que a mulher descobre que seu marido é também seu cônjuge, coitado dele!

    Outros casos comuns são o uso de “o mesmo” e flexões como pronomes pessoais e a pluralização do verbo “tratar(-se)”:Esperei a diretora, mas não consegui falar com ‘a mesma’”; “’Tratam-se’ de indivíduos que não têm respeito pelos outros”. Melhor português é dizer: não consegui falar “com ela” e “trata-se” de indivíduos, já que nesse caso há indeterminação do sujeito e o verbo não se flexiona no plural.  

    Uma hipercorreção sintática frequente, que repercute na coesão do texto, liga-se ao uso do pronome relativo seguido de pronome oblíquo. É quando há uma troca nos referentes dos citados pronomes, como por exemplo na frase: “A garota foi à diretoria denunciar as amigas que ‘as destratou’”.  O pronome relativo “que” retoma “as amigas” e deve, então, levar o verbo para o plural; já o pronome oblíquo “as”, que retoma a denunciante, deve ficar no singular. A troca do correto “a destrataram” por “as destratou” compromete a clareza textual.

    Outro caso de hipercorreção ligado ao pronome relativo é repetir, por meio de uma forma oblíqua, um termo já por ele expresso. Por exemplo: “Essas foram as palavras que o político “as” disse no fim do discurso”. Tem-se aí um pleonasmo vicioso; se o “que” se refere a “palavras”, não há necessidade de repetir esse vocábulo por meio do pronome “as”.

    Sempre que penso em hipercorreção me lembro do Zé, um amigo que tive na adolescência. Conhecemo-nos numa pelada de praia. Ele era um humilde dono de barraca e pretendia crescer na vida. Seu modo de demonstrar isso, e já parecer importante, era mostrar que falava bem o português. Tão “bem”, que a gente tinha dificuldade de reconhecer em seu discurso a nossa língua.

    Certa vez, para se justificar de um equívoco, ele me disse: “Desculpe, foi um ‘lápissus’ involuntário.” Soaria mais natural (embora não se evitasse o pleonasmo), se tivesse falado de um “engano” involuntário. Mas para ele essa palavra era rasteira; preferia coisa mais sofisticada.

    Um dia, cansado do futebol, pediu licença para sair de campo alegando que precisava de um “ar lento”. Ouvira a palavra “alento”, que até se ajustava ao contexto, mas ela lhe parecia pobre por não conter explicitamente o termo “ar”. O curioso é que havia uma lógica nessa hipercorreção. Se ele estava de fôlego curto, a “lentidão respiratória” nesses momentos de descanso lhe faria bem.

    Zé não tomava um refrigerante, e sim um “refrigério”. Não esperava o ônibus, mas a “condução”. Uma vez me falou que gostava de manga “deste a mais terna infância” (queria dizer, na verdade, “desde a mais tenra infância”!). Mas a melhor dele ocorreu quando me chamou para comer um camarão em sua barraca. Terminado o almoço, levantou-se muito formal e pediu: “Licença, que eu vou lavar as mões”.


  • E se?

    Há uma palavra em coreano “in-yun”, que quer dizer providência ou destino. Ela se refere especificamente a relacionamentos entre pessoas, que talvez venha do budismo e da reencarnação.

    O in-yun acontece até quando você passa por alguém na rua e suas roupas esbarram sem querer, isso significa que alguma coisa aconteceu entre vocês em vidas passadas. Se duas pessoas se casam dizem que é porque houve 8 mil camadas de in-yun, ou seja, mais de 8 mil vidas envolvidas nessa dupla.

    Podemos ter tido influência de um rei ou de uma plebeia da renascença, também talvez de um indígena migrante asiático do povo da cultura clóvis. É de se encher de orgulho ter um DNA vasto culturalmente com ‘nuances’ de miscigenação quase, inimagináveis, porém, presente na formação de cada personalidade que cultivamos em busca de um bom relacionamento.

    É curioso pensar que possuímos conexões especiais com cada pessoa que cruza em nossas jornadas.

    Mas aí surge o peso do “E se?”. Se mudamos o nosso destino, existe como fugir do que, teoricamente, está traçado em nosso futuro?

    Na realidade, somos compostos por diversas versões de nós mesmos – sejam boas ou ruins, maduras ou não, inocentes ou complexas. Cada minuto nos constrói até o presente, e claro que o livre arbítrio existe e nos faz sentirmos vivos, mas nunca podemos esquecer completamente quem somos.

    O filme “Vidas Passadas” relata com qualidade a existência do in-yun entre um jovem casal que manteve acesa a chama da saudade e do amor, e conta a história de enlace espiritual dos dois por muitos anos, demonstrando que algumas travessias podem levar muito tempo. O filme cria um mundo adulto onde o que seus personagens poderiam fazer já foi feito, em que todos os sujeitos dramáticos já sabem muito bem “onde foram parar, e onde deveriam estar”. É um acerto de contas entre o passado e o presente.

    A vida quer da gente é coragem, e só há uma maneira de ser lembrado pelo que realizamos, é dentro dos outros, se para você isso tudo faz sentido, fique atento em como você pretende deixar sua marca, a vida é muito curta para ser pequena.


  • A poeira branca

    O professor mandou que eu entregasse um bilhete pra minha mãe. Antes li o que estava escrito: dizia que precisava falar com ela porque eu estava com as notas baixas, não sabia a lição, estava com dificuldade para aprender e andava muito distraído. Deixei o papelzinho sobre o criado-mudo, perto do copo de leite que eu tinha posto lá de manhã. Ela não bebeu. Olhei pra minha mãe jogada na cama, o cabelo sem lavar e o rosto amarelado, e pensei em quanto tempo ela ainda ficaria desse jeito.

    Esquentei no micro-ondas a lasanha congelada que comprei no supermercado e comi a metade. Coloquei a outra metade ao lado do copo de leite, mas eu sabia que ela não iria comer.

    Minha mãe segue igual, com os olhos vermelhos, que olham sem ver, e com o cabelo, que não brilha mais, esparramado em cima do travesseiro. O quarto tem cheiro de suor. Disse que iria abrir a janela para entrar ar fresco, ela gritou que não, não queria, que deixasse como estava. Que era melhor não ver o sol. Que, se não visse o sol, seria como se o tempo não tivesse passado e tudo estivesse como antes. Não achei isso certo.

    Eu sei que os dias passam, vejo no calendário, vejo quando saio de manhã pra ir à escola, vejo as pessoas na rua. Então eu sei que o tempo não para nunca e um dia sempre vem depois do outro. Eu vejo que a máquina de lavar tá cheia de roupa suja e que na pia não cabe mais nem um prato, e por isso eu sei que o tempo passou e não aconteceu nada. Mas a minha maior certeza dessa passagem é quando percebo a tristeza que tá em cima dos móveis. A tristeza é uma poeira branca que dança no ar e se deita sobre qualquer superfície. Tá nas paredes da casa, nos lustres e nas cortinas. No começo achei divertido, eu podia escrever sobre o tampo da mesa com a ponta do dedo, minha mãe tá triste, mas, no dia seguinte, não se podia ler as palavras escritas porque havia mais tristeza em cima delas, quer dizer, mais poeira.

    Não me lembro do último dia que minha mãe fez comida, que me ajudou a fazer os deveres, que conversou comigo ou que vimos juntos um filme na televisão à tarde, esperando meu pai chegar do trabalho. Desde que ele foi viajar com aquela colega do escritório ela só fica deitada, dormindo ou olhando pro teto sem falar nada. O professor falou que tiro notas baixas porque eu me distraio muito na sala de aula. É que não consigo deixar de pensar que um dia essa poeira branca vai cobrir a casa inteira, vai cobrir minha mãe deitada na cama e vai me cobrir também. E, quando meu pai chegar da viagem, a tristeza vai ser tanta e vai estar por todo lado, cobrindo tudo, que ele não poderá ler volta, pai que escrevi ontem com o dedo na tela escura da televisão desligada.

  • A fronteira entre pena e amor por um cão

    Entre sentir pena e amar um cão há uma tênue linha que define a profundidade da relação que temos com eles. Sentir pena muitas vezes nasce da percepção de vulnerabilidade do animal — o olhar triste, a situação de abandono ou a incapacidade física. É uma emoção que nos impulsiona a agir para aliviar o sofrimento, mas que, sozinha, não fortalece a confiança mútua.

    A pena excessiva por um cão é como colocar um véu sobre os olhos: faz-nos enxergar a fraqueza antes da força, a dependência antes da capacidade e a carência antes da autonomia. É um sentimento que brota da compaixão, da vontade visceral de zelar, de amparar quem parece não ter como se defender. Porém, essa piedade, por mais nobre que aparenta ser, carrega em si uma armadilha silenciosa: transforma o amor em condescendência e o cuidado em servidão. Ou seja, a pena, em sua forma, é um sentimento exclusivamente humano, reflexo de nossas fragilidades projetadas no outro.

    Amar é diferente. É permitir que o cão enfrente desafios, explore e descubra suas próprias capacidades enquanto trilha o mundo ao seu redor. É compreender que, por trás de cada obstáculo, está uma oportunidade de desenvolvimento, reafirmação de instintos e fortalecimento de sua natureza como um ser pleno, capaz de agir com confiança e liberdade. Amar um cão é respeitar e valorizar sua natureza — suas necessidades biológicas e comportamentais —, sem importar a ele o peso de nossas próprias dores e ansiedades.

    Quando deixamos a pena guiar nossas ações, tendemos a superproteger o cão, ver nele o símbolo do abandono ou do sofrimento que imaginamos, carregando um peso emocional que não é dele, mas nosso. Refletir sobre essa fronteira é essencial, pois, muitas vezes, o ato de sentir pena pode ser confundido com amor. Enquanto a pena pode levar a uma relação paternalista ou mesmo temporária, o amor verdadeiro promove harmonia, sem previsões de inferioridade ou necessidade.

    Isso nos leva a acreditar que temos o poder de eliminar riscos e desconfortos, confundindo proteção com limitações. Mas será que, ao agir assim, estamos realmente amando? Os cães precisam treinar seus instintos de sobrevivência para se sentirem conectados ao ambiente em que vivem. Explorar, errar, sentir o chão áspero sob as patas ou se sujar são partes fundamentais de sua experiência. Privá-los disso é negar-lhes a oportunidade de crescer.

    Amar um cão é permitir que ele sinta o desafio de algo novo. É confiar que ele tem dentro de si as ferramentas para lidar com pequenas adversidades. É um ato de fé em sua natureza. Claro, o cuidado é essencial — assim como os humanos, os cães precisam de ar fresco e proteção contra o asfalto quente. Mas o limite entre cuidado e superproteção está na intenção: ajudamos o cão a crescer ou apenas tentamos preencher nossos próprios medos? É crucial afastar-se de nossas percepções humanas para compreender a mente de um cão.

    Excessos de pena, mesmo bem-intencionados, podem gerar confusão. Para o cão, atos exagerados de carinho podem parecer sinais de instabilidade, de incertezas e até de fraqueza. Isso não significa que devamos deixar de ser afetuosos, mas que precisamos ser conscientes. Cães prosperam em ambientes equilibrados, onde regras e cuidados caminham lado a lado. Liderança equilibrada, baseada na confiança e segurança é o que realmente fortalece o vínculo humano-canino.

    O convite é simples: observe seu cão. Diante de uma dificuldade, antes de intervir, pergunte-se: ele pode resolver isso sozinho? Se a resposta for sim, dê-lhe o espaço para tentar. Esteja presente, pronto para agir apenas se realmente for necessário — essa é a essência de uma relação de verdade. Assim, o amor que oferecemos não apenas protege, mas também expande.

    Sentir pena é uma ocorrência natural humana, mas amar é uma decisão consciente. Escolha amar. Não apenas pelo bem do seu cão, mas pelo vínculo único que vocês irão construir juntos.


  • Desencontro

    Após um ano de intercâmbio, Clara retornava a sua cidade natal. A menina que partiu, agora era uma mulher. Todos os seus medos e inseguranças, foram vencidos por suas novas experiências. Entendeu ser o mundo gigantesco e plural, cercado por pessoas diversas e muito diferentes do seu antigo e pequeno quadrado. Ela era um barco novíssimo em folha e iniciava sua navegação rumo a um oceano infinito. De seu passado, cada vez mais distante, deixou uma paixão, agora indefinida, Narciso.

    Ele era seu grande amor de juventude. Um homem cobiçado por todas as meninas da cidade. Durante muito tempo. sofrera calada até conseguir manifestar seu desejo de conquistá-lo. Quando finalmente conseguiu e teve seu amor correspondido, ela jurava que nada no mundo os separaria.

    Durante seu período de viagem, experienciou tantas coisas incríveis que conseguiu apaziguar sua paixão. Entretanto, não via a hora de poder revê-lo. No dia marcado para o reencontro, não conseguia esconder sua ansiedade. Ele a convidou para ir ao melhor restaurante da cidade. O cenário estava armado para uma noite memorável entre amantes.

    Quando chegou ao local, Narciso já a esperava com certo ar de impaciência. Ela abriu um largo sorriso de felicidade e ele respondeu sério com impaciência.

    — Que saudade!

    — Você está atrasada e me deixou esperando.

    Ela estranhou a reação, mas tentou amenizar a situação.

    — Desculpe, eu demorei um pouco me arrumando. Queria estar bonita para esta noite.

    — Parece até que não sentiu saudades.

    Desconfortável, ela prosseguiu.

    — Como você está? Tenho tantas coisas para te contar…

    — Eu fiquei muito chateado quando decidiu ir para essa viagem, eu não concordei. Até hoje penso o mesmo. Clara, você tinha tudo aqui, sabia que eu podia te dar a melhor vida do mundo. Quando foi, minha empresa estava começando a fazer sucesso. Você não tem ideia de tudo o que eu construí nesse tempo. Minha empresa é a maior da cidade. São tantas mulheres querendo estar no seu lugar, tem ideia disso, né? Devia ter valorizado por tudo o que eu posso te oferecer. Espero que agora se esforce para
    recuperar o tempo perdido…

    Ele seguiu falando. Ela não conseguia mais ouvir, só pensava. Nesse ano, cresceu tanto como pessoa. Conheceu tantas outras fantásticas. Aprendeu a valorizar-se enquanto mulher. Sabia muito bem o que queria.

    Interrompeu seus pensamentos e a fala de Narciso.

    — Preciso ir embora.

    Ele tentou falar, mas ela somente virou as costas e saiu.

    Sua trajetória estava apenas no início e queria desbravar o mundo. Não podia se submeter aos limites do passado. Muito mais do que parecer, ela precisava ser. Precisou se libertar das correntes passadas que a tornavam pequena. Para isso, fez de um encontro, desencontro.


  • Poesias de 1 a 99

    #01: Instante de Pura Poesia

    eu ontem, passando na calçada,
    deparei-me com uma visão
    aterradora de um pássaro
    que, ao defender seu espaço
    de um intruso invasor, levou
    a pior na batalha sangrenta e,
    roto e estropiado, na arvorezinha
    mirrada, olhando de soslaio,
    entre sangues, o espaço mítico
    que habitara e cuidara durante
    longos anos, agora perdido
    para sempre.

    solidariedade ao pássaro
    ferido de morte.

    Da Essencialidade da Água.


  • Crônica Burocrática

    A crônica começaria agora, mas é preciso antes que o leitor e o cronista paguem a taxa necessária ao andamento das crônicas. A TADC. Parágrafos são caros. Quando saem do mundo real então! Cada palavra tem seu preço tabelado. Cada figura de linguagem uma alíquota a mais. Por isso, cuidado com as vias! Uma para o leitor, outra para o cronista.

    E, depois disso tudo, ainda hão de enfrentar, cronista e leitor, uma fila no Banco da Estupidez, uma passada na Seção das Inutilidades e ainda retirar novos recibos no Departamento da Embromação.

    A crônica recomeçaria agora, contudo, ainda há a taxa para a liberação da crônica, a TLC. Os juros estão pela hora da morte. Pensar custa caro! Escrever o que se pensa… Mais caro! E precisa de carimbo, de selos, de revisão, de anotação, novas filas e seções e recibos. Cartão.

    E não adianta reclamar. Caso contrário, nada de crônica, nada de leitura. Nas orelhas de ambos um puxão.

    Cronista e leitor avançam, com papéis de variados tamanhos nas mãos, moedas nos bolsos e paciência e mansidão. Mansidão?

    Insatisfação.

    E pegam outras folhas e envelopes. E precisam de assinatura e maiores carimbos. E correm contra o tempo. Contratempo. Aflição.

    Afinal, vivemos no país da burocracia! Nada se faz sem papel, sem carimbo, sem vias e mais vias… idas e vindas de seção em seção!

    E não adianta reclamação!!!

    A crônica recomeçaria agora…

    Mas, com as redes sociais, ainda há a taxa de verificação de autenticidade. Autenticidade? Vai que esse texto tenha sido escrito pelo Luis Fernando Veríssimo? Nessas terras tão complexas da internet, a cópia e a manipulação dão o tom! E olha que, mesmo fazendo a tal verificação, corre-se o risco de não poder publicar! De não poder escrever! Sei lá… E ainda tem a “Inteligência Artificial” … Será que a “Inteligência Artificial” tem capacidade para escrever uma crônica? O que será dos cronistas?

    A crônica recomeçaria agora…

    No entanto, antes que uma multa chegue à redação é melhor que se dê cabo ao pretenso texto… Imaginação? Não!

    Que tal um ponto final?


  • Folhas ao vento

    Entro no parque e na primeira curva avisto o Soprano, nome que atribui a um funcionário do parque. Fácil identificar o Soprano de longe, mesmo que vestindo o mesmo uniforme dos outros funcionários – ele anda com seu companheiro fiel, o soprador de folhas, sempre a tira-colo.

    Conforme chego perto, umas nuvens de folhas secas, sob o comando de Soprano, vão voando para a calha do meio fio e, de lá, graciosamente, se acomodam na beira do jardim, embaixo das árvores.

    Soprano segue o caminho, ora soprando para a direita, ora para a esquerda, impávido e concentrado na tarefa de direcionar as folhas para seu devido lugar.

    Sim, pois ali, em descanso, elas permanecerão até que uma brisa, ou quem sabe um vendaval, as mande de volta para povoar o caminho e exija o retorno de Soprano. Uma missão diária que justifica sua presença no parque, visto que é um soprador, não um catador de folhas.

    Ali, caminhando, após cumprimentar Soprano e receber seu sorriso agradecido, (talvez porque muitos passam e o ignoram como se fizesse parte do equipamento), meu pensamento se volta para esse movimento de ida e volta das folhas secas de nossa vida.

    Tudo o que somente sopramos, espantamos momentaneamente porque está perturbando o caminho, mas não eliminamos, não solucionamos, ao primeiro ou último vento retorna para nos atormentar.

    Hora de mudar o job description do meu amigo Soprano, incluindo a tarefa de sugar as folhas secas sopradas.

    Hora de buscar as nossas próprias folhas secas que ficaram pelo caminho e dar a elas um destino.


  • Dica de milhões

    Algumas coisas que acontecem no meu dia a dia são tão estapafúrdias que me levam a patinar na velha dúvida: falo ou calo? 

    Minha primeira opção, nessas ocasiões, é calar, sobretudo quando aquilo que pretendo dizer é óbvio e deveria dispensar apresentações. Por outro lado, se, mesmo sendo óbvio, a outra parte insiste em ignorar os limites da razoável convivência, entendo que o irmão de raça carece de uma interpelação. 

    Refiro-me aqui, mais exatamente, ao inferno que se tornou a espera em qualquer recepção, consultório, fila, transporte público, restaurante ou praia com o advento do celular sem o uso e fone.

    Não bastasse ter que disputar o espelho dos banheiros públicos e academias pelo desesperado self da humanidade, agora o coleguinha da cadeira ao lado oferece, independente de hora, local e ocasião, um vasto repertório de vídeos (entrevistas, orações, piadas, podcast) no mais alto volume.

    A primeira coisa que me pergunto, nessas situações, é se a pessoa tem ciência de que não está meditando sozinha nas montanhas do Nepal.

    Não sei se por carma ou azar, na última quinta-feira, o espaço, equivocadamente, chamado de coletivo, foi cenário de mais um desastroso encontro meu com um exemplar dos tempos modernos. 

    Eu estava numa recepção de consultório aguardando minha consulta quando, sem aviso prévio, uma criatura saca seu celular do bolso e decide ouvir, em fartos decibéis, vídeos do TikTok. Diante da falta de noção do querido, optei por usar a linguagem simbólica dos gestos. Olhei para a apostila que estava em minhas mãos (sim, eu estava estudando), depois para ele, para o celular dele e novamente voltei a atenção para a apostila. Vi que ele notou minha desaprovação, mas seguiu incólume. Foi nessa hora que decidi utilizar uma estratégia aprendida com uma amiga umbandista. Segundo ela, nessas horas, o melhor é usar a maldita intolerância religiosa das pessoas a nosso favor. Colocar um ponto de Exu para tocar e ver as pessoas se afastarem feito cupim na presença da luz. Assim fiz: “Auê Exu, ninguém pode comigo. Eu posso com tudo. Lá na encruzilhada, ele é seu Exu.”

    Como num passe de mágica, o respeitável senhor foi catar seu destino e a recepção voltou a ser um espaço habitável.

    O que essa situação corriqueira denuncia é o crescente sucateamento do espaço público em prol da soberania dos mimados e narcisistas e o envenenamento do coletivo pela necessidade de uniformização das escolhas, preferências e crenças.

    Ainda bem que existem pontos de Exu para nos proteger.


  • Sobre a retórica do humor

    O humor se distingue da comicidade por estar na linguagem. Como tal, possui uma retórica, que orienta alguns dos procedimentos capazes de levar ao riso.

    Na comicidade, rimos da situação ou da figura física; um palhaço, com seu narigão e suas calças largas, é basicamente um cômico. Já no humor rimos do efeito surpreendente produzido pelas palavras. O inesperado, que pode ou não tender ao absurdo, faz rir.

    Entre os recursos usados pelos humoristas, destacam-se a paródia, a quebra do paralelismo semântico, a ironia e o que costumo chamar de “reconversão ao literal”. Vejamos rapidamente cada um deles.  

    A paródia é a reescrita de um texto visando a contestar-lhe a ideologia, o espírito, o sentido original. Muitas vezes o que provoca essa reescrita é a semelhança sonora (paronomásia). Um exemplo encontra-se na composição em que o modernista Oswald de Andrade parodia a famosa “Canção do exílio”, de Gonçalves Dias. Ao escrever “Minha terra tem Palmares”, em vez de “palmeiras”, Oswald critica o idealismo nacionalista do autor romântico. Afinal, como conciliar a idílica visão do Brasil com o massacre perpetrado pelas forças do governo contra o quilombo de Zumbi?

    Na quebra do paralelismo semântico, coordenam-se temos pertencentes a diferentes áreas do sentido. O resultado é um tipo de ruptura que surpreende o leitor, como na frase: “Semana passada fiz duas operações – uma no joelho, outra no Banco do Brasil.” A atribuição de outro sentido ao termo “operação” (procedimento bancário, e não intervenção cirúrgica) quebra a expectativa e produz o riso.

    Uma das clássicas formas de humor é a ironia. Por meio dela, afirma-se uma coisa dizendo o oposto. É talvez a única figura que depende de um confronto com a realidade para produzir efeito. Se digo de um homem que ele é “um Brad Pitt”, isso por si não tem graça. Pode até ser um elogio, se o sujeito for de fato bonito (nesse caso, terei usado uma imagem metafórica).

    O efeito irônico ocorreria caso a designação se aplicasse a alguém baixinho e feioso. É a distância entre o comparado e o comparante (Brad Pitt) que faz rir. A ironia é uma metáfora sem nexo, ou melhor, uma metáfora em que o chamado “nexo dos atributos” é na verdade uma antítese. Ou um paradoxo.

    A reconversão ao literal (ou seja, ao sentido original e denotativo) parece ir de encontro ao princípio que norteia os desvios estilísticos, qual seja, o de que o efeito expressivo resulta de uma ruptura com os sentidos cristalizados, convencionais. Nesse tipo de procedimento, o efeito vem justamente do percurso oposto.

    Para entendê-lo, consideremos que há dois momentos: o primeiro, em que se constrói a imagem. O segundo, em que ela perde o valor de imagem (já transformada em clichê) e volta a significar “de acordo com a letra”.  A surpresa que isso provoca faz rir.

    Os exemplos são muitos. Um dos mais conhecidos é o da velha piada: “Pedro caiu na fossa.” “Morreu?” “Não. Escapou fedendo.” Nessa passagem “escapar fedendo”, que virou lugar-comum, deixa de significar “escapou por pouco”, ou “por um triz”, e adquire uma súbita atualização. O fato de haver mesmo o mau cheiro desautomatiza a percepção linguística de maneira análoga à que ocorreu no primeiro momento, quando se construiu a imagem (“escapar fedendo” como “quase sucumbir”).

    Efeito semelhante ocorre em clichês como “ficar de nariz empinado” ou “empurrar com a barriga” em frases do tipo: “Depois que fez plástica, ele vive de nariz empinado” ou “Arranjou uma gravidez indesejada. Agora vai ter que empurrar com a barriga”. A ambiguidade faz com que os referidos clichês deixem de ser apenas “força de expressão” e traduzam literalmente as ações.

    Por possuir uma retórica, o humor é literatura. E pela condensação que o humorista opera nos signos, o texto humorístico tem muito em comum com o poético. Em ambos a ênfase recai no significante, ou seja, na mensagem, que no texto de humor revela o despropósito ou o absurdo de certas situações. Daí ele comumente se constituir num espelho das deformações morais e servir como instrumento de crítica à sociedade.


  • Nova 99, a estrada perfeita

    Toda vez que eu me vejo diante de uma situação de entrave burocrático causado pela tecnologia eu me lembro da Nova 99. Era uma autoestrada controlada por computador, considerada perfeita, e era personagem de uma estória em quadrinhos publicada na saudosa revista Kripta, lá dos loucos anos 70, que misturava ficção e terror.

    No enredo uma família entra com seu carro autônomo, programava seu destino e quantas paradas fariam, e seguiam descansados e contentes pela rodovia. Pois é, mas como eu disse a revista misturava ficção e terror. A parte de ficção já foi agora vem a de terror. O sujeito se engana e programa como destino a casa do cunhado que ele detesta. Começa a confusão porque o sistema não permite que seja desprogramado. Tem que ir até o final e ponto.

    O cara não se conforma, se rebela, abandona o carro e tenta sair da rodovia. Ele é atropelado e
    fica todo quebrado e passa a vagar com a família, em companhia de outras pessoas que fizeram o mesmo. Lembra um pouco a lenda que diz que os funcionários da rede Graal são antigos clientes aprisionados por não pagarem a conta de R$ 90 por um pão de queijo.

    Para mim, a Nova 99 representa a burocracia triunfante e, sem exagero, da dominação em geral. Inicialmente simpática e aparentemente prestativa mas que esconde em seu âmago o desejo de controlar a vida das pessoas.

    Controlar alguém é para mim um ato ofensivo. Não é desagradável nem é mau hábito. É ofensa mesmo.

    Porque traz em si a vontade de privar os outros do seu livre arbítrio, algo garantido para nós na maior parte das religiões. Tudo em nome de oferecer a você uma alternativa melhor, de cuidar de você, em favor do seu bem estar. É o máximo da prepotência alguém querer dominar sua vontade, comandar seu arbítrio dizendo o que você pode ou não fazer.

    O discurso da Nova 99 vem pronto. E com sorrisos. Pode ser aparentemente bom, oferecer mil benefícios e tal, mas no fundo não passa de dominação. De agrilhoar outra pessoa.

    Não acordei de mau humor nem brigado com a vida. É que assisti um bom filme de terror metafísico brasileiro e ainda estou de pelo arrepiado por causa dele. E sempre abre portas para divagações. Dessa vez, na linha sombria.

    Mas passa.


  • Réveillon

    Comprou vestido branco e sapatos novos porque quis e a ocasião exigia. A ocasião é hoje, o último dia do ano. A calcinha também é nova, ela sempre ouviu dizer que é assim que se deve receber o ano novo. Fez tudo o que disseram para fazer e estava ansiosa. Na sala, os doze bagos roxos de uva brilhavam no prato sobre a mesinha de centro. Ao lado, a taça de champanhe já cheia e, no fundo, a aliança dada pela avó, anos atrás. Celina decidiu usá-la hoje, precisamente na passagem do ano, para atrair as mudanças que desejava. Não que um novo casamento, depois de dois fracassados, estivesse em seus planos, mas porque, quando a ganhou, sua avó dissera:

    — Use quando concluir que você não precisa de marido pra ser feliz.

    Achou graça e prometeu colocá-la no dedo na primeira ocasião especial. Que é hoje. Estava no quarto, quase terminando de se arrumar, quando ouviu, vindo da televisão lá da sala, o anúncio de que ia começar a contagem regressiva. Celina correu com os sapatos de salto 15 na mão e o zíper do vestido branco ainda aberto — não perderia por nada o ritual da meia-noite comandado pelo eufórico homem de paletó brilhante na telinha. Superstição ou não, queria mandar o ano velho para o lixo e receber o novo com estilo. Estava cheia de esperança e otimismo.

    Largou os sapatos no chão e sentou-se na borda do sofá. Puxou o prato de uvas para perto de si e pegou o primeiro bago. Pensou que o pior ano de sua vida estava quase dobrando a esquina, e já ia tarde. Engoliu as uvas uma a uma com devoção e urgência, os olhos fechados: um bago para cada número da contagem regressiva, como uma cerimônia — 10, 9, 8, 7, um bago para cada um, até o último. Celina estava eufórica, a noite se mostrava perfeita e desta vez ela tinha feito tudo no tempo exato, em sintonia com o relógio da Avenida Paulista, que via da janela, e com a contagem do homem da televisão.

    Celina estranhou que o prato de uvas já estivesse vazio no momento em que gritaram “Zero!” e a barulheira começou. Será que, durante a contagem, ela engoliu dois bagos em vez de um? O estouro dos rojões e dos fogos logo a distraiu e ela começou a dançar: era a trilha sonora que ela queria ouvir naquele momento. Os fogos brilhando no céu pintaram sua sala de todas as cores. Ela pegou a taça de champanhe e a ergueu acima da cabeça, animada para brindar com o apresentador da tevê, e bebeu tudo de um gole só, refestelada no sofá. Arregalou os olhos quando ouviu o locutor falando:

    — Não estranhem, queridos telespectadores, se lhes faltou um bago de uva durante o brinde. Esta noite, por algum sortilégio que ainda não conhecemos, nosso velho relógio marcou treze vezes em vez de doze. Logo daremos notícias sobre o que aconteceu. Feliz ano novo a todos!

    Celina pulou do sofá, a taça de champanhe vazia na mão, no rosto uma máscara de horror. “Treze vezes? Isso dá azar, o número treze dá azar!”, pensou, apavorada. Subitamente teve dificuldade para respirar. Sentiu sua traqueia fechada e desesperou-se. “A aliança, engoli a aliança!”, quis gritar, mas a voz não saiu. Tateou os móveis para se manter em pé. Boqueando como um náufrago antes do afogamento, começou a correr pela sala buscando ar para os pulmões, tropeçou nos sapatos jogados no chão e caiu com estrondo. Fraturou a bacia e o fêmur esquerdo. A brusquidão da queda liberou suas vias respiratórias e a aliança pulou para fora de sua garganta. Foi então que, mais calma e respirando, deitada no tapete, Celina apalpou o corpo e soube que as mudanças chegaram com o novo ano. “Eu não morri ainda, que sorte!”, pensou. Sorriu de tanta dor, chorou de tanta dor.

    Na televisão deram sequência aos festejos e estavam agora transmitindo um show de pagode. Ninguém falou sobre as treze badaladas em vez das doze, e tudo ficou por isso mesmo. Celina se arrastou pelo chão para procurar a aliança, colocou-a no dedo e depois ligou para o hospital. Pediu para mandarem uma ambulância com urgência e desejou feliz ano-novo para a atendente.


  • Nem um pouco bonito!

    Há uma frase atribuída ao renomado psicanalista austríaco Sigmund Freud que diz o seguinte: “Quando Pedro me fala de Paulo, sei mais de Pedro que de Paulo”. Embora sua autoria seja discutida — há quem sustente que a frase é da ensaísta canadense Lise Bourbeau, porém, é certo que a declaração atinge em cheio quem tem mania de fofocar.

    É válido ressaltar que fazer fofoca consiste em um hábito socialmente arraigado em praticamente todas as culturas, afinal, somos curiosos por natureza e, consequentemente, interessados na vida alheia. Mas, os fatores nos quais envolvemos, os mexericos, em especial, quando falamos dos outros ou passamos o “disse me disse” adiante, revelam muito a respeito de nosso caráter, nossa personalidade e até como anda a nossa vida. E o que isso mostra, acredite, não é nem um pouco bonito.

    Para Blenda de Oliveira, psicóloga e psicanalista, a maioria das fofocas é tóxica e desrespeitosa porque simplesmente não há autorização de quem é envolvido para passar a informação adiante. “E mais: essa informação às vezes sequer corresponde à realidade. Sabe aquele ditado ‘quem conta um conto, aumenta um ponto?

    Não é apenas nosso valor moral que condena a conduta em falar da vida alheia. Juridicamente a fofoca nos Leva ao cometimento de alguns crimes e nos obriga a indenizar o prejuízo material ou moral que tenhamos causado em razão disso. É o que dizem a Constituição Federal e o Código penal brasileiro.

    Tem gente – e muita! – que parece se interessar mais pela vida alheia, principalmente os “defeitos” dos outros, do que por sua própria vida. E o adjetivo para eles? 

    Aí vão alguns: fofoqueiro, cesta-rota, zizaneiro, gazeteiro, saco-roto, onzeneiro, tagarela, calhandeiro, coscuvilheiro, novidadeiro, chocalheiro, intriguista, bisbilhoteiro, cavaqueador, tesoura, murmurador, mexeriqueiro, assacador de aleives, cavilador, detrator, aleivoso, vilipendioso, mordente, pechoso, vipério, sardônico, insidioso, introsca, enxerido, espora, leva e traz, de língua viperina, fuxiqueiro, futriqueiro, arengueiro, turgimão, porta-novas. 

    Você conhece algum?


  • Como pode uma pessoa viver tanto tempo sem um cão?

    Outro dia, deparei-me com uma foto simples, mas cheia de significado: um cão da raça shih tzu fofo e a legenda que dizia, com uma sinceridade quase cortante: “Como pude viver 58 anos sem um cão?” Aquilo me fez refletir profundamente sobre a força desse questionamento. Não era apenas uma questão retórica ou um desabafo casual; era um grito silencioso sobre o impacto de algo que muitos ignoram até o dia em que se deparam com as evidências. Quantas pessoas, por diversas razões, deixam de viver a experiência única de compartilhar o cotidiano com um cão? Quantas, por escolha, circunstâncias ou até por falta de oportunidade, acabam privadas de algo tão poderoso e, ao mesmo tempo, tão simples. É uma relação que dispensa explicação, que não se justifica em palavras, mas que transforma vidas com uma intensidade quase inexplicável.

    Quando reflito sobre isso, o que sinto não é pena pelos cães. Eles sempre encontram formas de amar, de se fazer, de fazer parte do mundo ao seu redor. Minha tristeza é pelas pessoas. Por quem nunca se permitiu experimentar a leveza, o carinho e a simplicidade que vem de um olhar canino. Eles não sabem o que perdem: uma companhia que não exige nada além de presença, uma lição diária sobre amor incondicional. Uma relação tão pura e transformadora que só quem já teve ou tem um animal de estimação pode compreender plenamente.

    Não escrevo para convencer ninguém. Cada um tem suas razões e seu momento. Mas acredito, com cada fibra do meu ser, que a presença de um cão na vida de qualquer pessoa é uma dádiva. Eles trazem mais do que alegrias passageiras; trazem permanência em meio ao efêmero. Um cão nos ensina a desacelerar, a ouvir com o coração, a encontrar beleza na rotina e valor nos pequenos gestos. É uma troca que transcende palavras, um privilégio que muitos talvez só percebam tarde demais.

    Quem já teve um cachorro sabe do que estou falando. São momentos únicos, pequenos instantes que se tornam memoráveis.

    E, para aqueles que ainda não vivenciaram essa experiência, talvez ainda seja tempo de descobrir o que um cão pode fazer por sua vida. A vida tem um jeito curioso de nos surpreender, de nos oferecer segundas chances quando menos esperamos. Acolher um cão, conviver com um ser que nos ama sem reservas, não é apenas um ato de generosidade; é um privilégio. É um aprendizado diário sobre paciência, afeto e simplicidade. E, muitas vezes, são essas lições que mais nos faltam na correria insana dos dias.

    Se eu tivesse que dar uma única dica, diria que um cão é um lembrete claro de que a vida pode ser mais do que contas a pagar e metas a cumprir. É sobre conexões reais, sobre estar presente e sobre amar sem esperar nada em troca.

    Para aqueles que ainda duvidam do que a companhia de um cão pode ser capaz, talvez a pergunta não seja “Como pude viver tanto tempo sem um cão?” e sim “O que estou esperando para descobrir o que um cão pode me ensinar?”. Afinal, não importa quando o laço começa, ele sempre tem o poder de durar (ou curar o) para sempre.

    *Inspirado numa publicação de Roberto Motta, extraído do Threads.


  • Spoiler a contragosto

    Henzo Felisberto, com agá, por favor, nunca gostou de spoilers. Quem conviveu com ele sabe disso. Ninguém se atrevia a lhe contar algo de antemão ou lhe adiantar o assunto. Era avesso a trailers de filmes, orelhas de livros e introduções. Nunca foi público para a fofoca e achava que a experiência perdia muito nessas antecipações indevidas. O comportamento de Henzo Felisberto afastava, talvez, uns quatro quintos da população, era um moço difícil, pra dizer a verdade, com agá. Se chamava Henzo Felisberto, com agá, por favor, porque, apesar de tudo, nunca foi descortês. Educou-se ao último grau em todas as instâncias adequadas para pessoas da sua estirpe.

    Nos registros, consta que Henzo Felisberto, com agá, por favor, foi por três anos goleiro do Não Me Conte Futebol Clube. Era um bom arqueiro, apesar de falhar nas bolas aéreas, vez ou outra. Além disso, conta com a triste marca de jamais ter defendido um pênalti porque se negava a estudar o batedor. Dizia preferir a surpresa. Coisas do futebol, sabe como é. Pois bem. Parou de jogar quando tentaram-no ludibriar para uma combinação de resultado. Afinal, se perguntava, como poderiam jogar assim? Conflitos existenciais pareciam não ser recorrentes na ética defeituosa do restante do time. Uma vergonha, de fato. Abandonou o esporte para se concentrar em atividades de princípios mais firmes.

    Com agá, por favor, Henzo Felisberto tinha um verdadeiro orgasmo espiritual quando encontrava certos avisos, tais como: Nota do editor: os leitores que ainda não conhecem o livro devem levar em conta que detalhes do enredo serão revelados nessa introdução”, ou ainda, quando havia alerta de spoiler no título da publicação, de preferência em vermelho, bem visível. Pois é, ninguém gosta de ser pego desprevenido. Henzo Felisberto, com agá, por favor, sempre primou pela experiência, pela emoção, pela surpresa. Acreditava que nenhuma palavra, indicação ou comentário tinha o direito de suprimi-lo dessa vivência. Um filósofo incompreendido, diriam alguns. Um otário, muitos outros. Eis que numa manhã de terça-feira, Henzo Felisberto, com agá, por favor, ia para o trabalho no seu Peugeot 206 enquanto o celular tocava incessantemente. Moço sério, centrado, jamais atenderia no trânsito, retornaria depois, quando estacionasse em frente ao departamento. Ouviu a marcha fúnebre noticiando um falecimento no rádio.

    Desligou-o de supetão. Na verdade, nem sabia porque ainda conectava aquela estação. Pegara o hábito da avó, talvez. Só quando parou em frente ao trabalho é que percebeu ter recebido dezenas de ligações, provindas da família, dos parcos amigos, dos colegas de trabalho, até dos antigos e antiéticos companheiros de time. Então, sem pensar muito, notou que a morte anunciada tinha relação com aquelas chamadas todas. Infelizmente, concluiu, alguém próximo havia falecido. As pessoas insistiam numa tentativa esdrúxula de avisá-lo.

    Mas, por favor, com agá, Henzo Felisberto não passaria por isso. Descobriria o defunto diretamente no velório. Teria uma experiência única, como só um mestre em evitar spoilers poderia conceber. Coisa de gênio, diga-se de passagem.

    Tratando-se de alguém tão próximo, lhe dariam folga no trabalho. Nem chegou a sair do carro, depois ligaria direto do velório para o chefe, explicaria tudo e receberia os pêsames. Desligou o celular e voltou para casa num oblíquo regozijo, fez cada curva do trajeto com a curiosidade de um turista, como se não conhecesse a própria cidade, tudo se mostrava novo, as fachadas dos comércios, as calçadas, as pessoas caminhando, as faixas de pedestres, o sinal vermelho, amarelo e verde. Um tempero reluzente dava a Henzo Felisberto, com agá, por favor, um espanto de recém-chegado. Entrou sorrindo no apartamento, preparou e bebeu devagar um chá preto, precisava dar tempo ao tempo. Pelo horário, o corpo ainda era preparado na funerária. Em uma hora ou duas o velório iniciaria. Vestiu o seu melhor terno com uma gravata azul bebê, nada muito chamativo. Esses eventos requerem uma formalidade discreta, embora nem todos saibam disso. Mediu-se paciente no espelho, não gostaria de aparecer desalinhado.

    Excitado com a experiência, mesmo fugindo do seu feitio, não deixou de confabular sobre o defunto: A morte do pai causaria uma discussão tremenda com a irmã sobre a divisão da herança. O irmão Erberth, com agá derradeiro, nesse caso, já deveria estar cuidando dos processos burocráticos. A irmã Eloísa, sem agá, mora longe e não está apta a debater o assunto de forma plausível. A morte da mãe o obrigaria a encontrar outra pessoa para lavar e passar suas camisas toda semana. Além disso, provocaria um efeito nocivo ao pai, que provavelmente morreria em seguida. O papo desconfortável com Eloísa, sem agá, e Erberth, com agá derradeiro, era iminente.

    Poderia, claro, não ser alguém da família. Se for o Ugo, estranhamente sem agá, ficaria decepcionado, afinal, é personal trainer e dá aulas de spinning como ninguém. Estranharia mesmo se a causa mortis fosse um enfarte fulminante. Se for a Martinha, sem agá nem clima para hora agá, ficaria também desiludido. Ela pululou as fantasias sexuais de Henzo a vida inteira, mas nunca lhe deu abertura para uma interação mais aguda, por assim dizer. Há poucos meses vinham tendo uma breve aproximação. E voltou a fantasiar cenas quentes com ela, embora seus princípios também argumentassem contra spoilers sexuais imaginários. A esperança, por fim, é a última que morre, mas com a necrofilia fora de questão, morreria também, mesmo que por último. E sua história com a Martinha terminaria sem agá, ou hora agá, melhor dizendo.

    Henzo Felisberto, com agá, por favor, chegou ao velório com borboletas no estômago, não ergueu os olhos, pois não queria ser abordado com histórias do morto antes de descobri-lo nem ser traído pelo olhar. Aquele seria o espanto máximo e, por um segundo, quase não suportou a ansiedade. Seguiu firme mirando os pés até o caixão, mas o encontrou vazio. Nele havia só um fundo branco adornado por flores também brancas e um travesseiro de dois ou três dedos, um mimo, cortesia da funerária. Num susto pulou lá dentro e logo estava confortável. Um terço azul pousou entre seus dedos, na mesma cor da gravata. O caixão era aconchegante. Cairia logo no sono, não fosse a mãe esbravejando ao telefone com Eloísa, sem agá, porque ouvia desculpas esfarrapadas para não aparecer. O pai, atônito, não entendia os últimos acontecimentos. Erberth, com agá derradeiro, puxava as orações. O Ugo, estranhamente sem agá, não compareceu. A Martinha ficou no velório por apenas cinco minutos e não se aproximou. O Não Me Conte Futebol Clube mandou uma coroa de flores com a imagem de um gol aberto e os dizeres: sempre será lembrado. Henzo Felisberto, com agá, por favor, dormiu profundamente pela primeira vez em anos, talvez em décadas, com a sensação de dever cumprido.

    A lápide foi paga pelo Não Me Conte Futebol Clube. O valor teria sido angariado num jogo vendido, mas isso não importa agora. No cemitério, fica no quarto corredor à esquerda. Lá se encontra com os dizeres: Aqui jaz, sem spoilers, Enzo Felisberto, com um agá pintado de canetinha pela irmã Eloíse, sem agá, quando foi visitá-lo, uma única vez.


  • Só um pouquinho

    Dona Glória acabara de comemorar seus 70 anos e, como presente, ganhou um gesso no braço. Uma queda boba, o tapete fora do lugar, o piso encerado e ela se estabacou no chão. No instinto, colocou a mão na frente e o braço segurou o peso de todo o corpo. Que não era muito, pois Glória se cuidava e mantinha a silhueta em dia. Mas também não era pouco.

    Dois meses depois do incidente, ela finalmente tirou aquele incômodo e a primeira reação foi coçar a parte esbranquiçada da pele. Mantinha uma cor bronzeada, fruto da proximidade da praia, e aquele pedaço de braço cor de isopor lhe assustou. Era como se voltasse no tempo e a visse criança, chegando ao Rio, junto com os pais italianos. Era tão branca que se destacava sempre quando se misturava com outras crianças.

    — Sua recuperação foi muito boa, Dona Glória! Mas, como o braço ficou muito tempo imóvel, vou recomendar uma fisioterapia. Algumas sessões e a senhora vai ficar como nova!

    Mais essa, agora! Ela não queria ficar como nova, queria apenas poder se coçar e tomar sol.

    — Tem certeza que preciso disso?

    — Claro. Depois de certa idade a musculatura atrofia e os ossos já não se recuperam da mesma forma. A fisioterapia vai fortalecer tudo.

    Depois de certa idade… Será que todo mundo tem uma idade que marca o começo do fim? Qual seria a dela?

    — Posso fazer em casa? Não tenho saído muito e prefiro o conforto do meu cantinho.

    O que ela queria mesmo era escapar do controle do médico.

    — Tenho alguns profissionais que atendem em domicílio sim. Vou te passar os contatos e a senhora escolhe o melhor.

    Nomes e telefones em mãos, Dona Glória voltou feliz da vida para sua casinha. Realmente achava que todo aquele cuidado era um exagero e deixou de lado a história do fisioterapeuta. Era uma mulher saudável, independente, ia se virar muito bem sozinha.

    Mas já nos primeiros dias, viu que não seria bem assim. O braço não correspondia ao comando, o ombro doía, os armários pareciam mais altos, a mesa mais longe, as cadeiras mais pesadas. Tudo que fazia, doía. Acabou se rendendo. Pegou de volta o papelzinho no fundo da bolsa e resolveu ligar para o primeiro nome da lista. Wagner.

    — Boa tarde Wagner, tudo bem? Aqui quem fala é Glória, quem me deu seu contato foi o Dr. Paulo. Você atende em casa?

    — Boa tarde Dona Glória, atendo sim.

    — Você pode vir amanhã? Estou com muita dor.

    — Posso sim. Pode ser depois do almoço, às 14 horas?

    — Marcado. Anota o meu endereço.

    Glória acreditava em intuição e gostou do jeito de Wagner. Uma voz mansa, grave, como um locutor de rádio de antigamente. Deveria ser um belo homem. Tomara que sim.

    Não que ela estivesse interessada em algo mais que a fisioterapia. Viúva há 20 anos, desde então não se interessara por mais ninguém. Se distraía com as amigas, entre mesas de bar e excursões para Caldas Novas. Elas também se reuniam todas as quartas para jogar buraco, organizavam o bazar da igreja, iam às estreias de filmes, peças de teatro, aulas de dança e tudo mais que o dinheiro desse e o quadril aguentasse. Eram conhecidas como as “Velinhas da Van”: Para todo lugar que queriam ir, alugavam a van do conhecido Seu Joaquim e chegavam seguras, festivas e aprumadas. Com isso, o tempo passava e ela se esquecia da saudade do marido e a distância dos filhos e netos, que sempre tinham algo mais interessante para fazer do que visitá-la.

    Às 14 horas em ponto Wagner batia na porta. Glória olhou pelo olho mágico e gostou do que viu: um homem alto, forte, com rosto suave e mãos fortes. Se ajeitou e abriu a porta com seu melhor sorriso:

    — Bem-vindo, Wagner. Muito trabalho te espera!

    Ele sorriu de volta e começou a se ambientar com a casa. Perguntou o que tinha acontecido, onde era a dor, tirou alguns aparatos e começou a sessão.

    O primeiro contato das mãos de Wagner no braço esquerdo de Glória causou-lhe um arrepio forte até o fim da coluna. Ela tinha se esquecido daquele pedacinho chamado cóccix que ligava as costas às partes mais íntimas e tremeu. Ele pegava de maneira firme, fazia movimentos vigorosos e tudo parecia voltar para o lugar como um milagre. Depois de 40 minutos, Glória, radiante com as novas emoções e já se sentindo um pouco mais ágil, resolveu fazer um café para os dois.

    — Adoçante ou açúcar?

    — Puro mesmo.

    Café de macho. Começaram uma conversa amigável, levada pelo aroma quente da bebida. Ela descobriu que Wagner era o primogênito de seis irmãos, filho de uma empregada doméstica e um motorista de ônibus. Tinha 28 anos, cursou Fisioterapia para ajudar a avó que sofrera um acidente em casa – uma bobagem, mas que ainda limitava os seus movimentos – e conseguiu uma bolsa através do FIES. Ela se limitou a falar que era viúva. Tinha medo de dar muitos detalhes. Achava sempre que podia ser sequestrada ou roubada. E ele teria acesso a ela e a casa, melhor prevenir.

    Marcaram mais sete sessões, duas por semana, sempre depois do almoço. Glória pagou as dois primeiras e disse que ficariam assim.

    — Até sexta!

    Um sentimento novo tomou conta de Glória. Era como se sentisse de novo o seu corpo, que lhe servia apenas para levá-la da praia para casa e de lá para os encontros com as amigas. Colocou uma música no antigo aparelho de som, empoeirado de tão esquecido e se viu dançando pela sala. Feliz.

    As sessões se sucederam com verdadeiro sucesso. Glória não só já fazia todos os movimentos com o braço, como achava mesmo que todo o corpo se movimentava melhor. Já tinha contado toda a sua vida para Wagner, que também era devoto de Nossa Senhora e achou uma beleza ela se chamar Glória por ter nascido no dia 15 de agosto, dia de festa para Nossa Senhora da Glória. Depois das sessões, ela, feliz, mas sozinha, sempre arriscava uns passos de dança e começou a sentir falta de dançar com alguém. Será que Wagner lhe acompanharia em uma dança?

    No dia da última sessão ela preparou uma surpresa: comprou um presente para Wagner em agradecimento a sua dedicação e toda alegria de viver que tinha invadido a sua vida. Queria um pretexto para lhe convidar para dançar e acreditava que o presente e o fim das sessões seriam motivos suficientes.

    Depois do último exercício finalizado, ela tomou coragem. Pegou o embrulho como uma adolescente apaixonada. Sentia o rosto queimar.

    — Comprei para você. Sei que vai lhe ajudar muito.

    — Não precisava Dona Glória, imagina.

    Era um massageador elétrico, último modelo. Ele tinha comentado que um daqueles iria lhe abrir outras portas e resolveu dar um empurrãozinho. Wagner ficou contentíssimo, nem sabia como agradecer.

    — Eu tenho uma ideia, Wagner. Você me acompanha em uma dança?

    — Será um prazer, Dona Glória.

    — Glória. Me chama de Glória.

    Ela colocou um disco antigo de bolero e se deixou levar pelos braços de Wagner. Ele não sabia exatamente como se dançava um bolero, mas aquilo era o que menos importava. Os corpos unidos era só o que Glória precisava. Existia nela ainda um furor de mocidade e o contato doce daquela fartura toda fazia seu coração acelerar e o seu ventre acordava de um longo período de total esquecimento. Ela queria mais.

    Mas a música parou e Wagner se desvencilhou gentilmente de Glória dizendo que precisava ir.

    — Foi um prazer Dona Glória. Precisando de qualquer coisa, pode me ligar.

    E Glória precisava muito, de muito mais. Mas como impedir que ele sumisse de sua vida para sempre? Inventar novas dores, quebrar o outro braço? Não podia se dar ao luxo de quebrar mais nada, não suportaria mais dois meses de gesso e incômodos. Precisava de uma desculpa muito bem elaborada. Sabia que ele precisava de dinheiro, precisava ajudar em casa. Resolveu ligar para uma amiga, a mais esperta.

    — Sarah precisa que me ajude a pensar em uma desculpa.

    — Ele… O que foi?

    Glória contou toda a sua saga para Sarah, judia tradicional que frequentava as melhores rodas do Leblon. Esperta, negociante nata, ela foi certeira:

    — Ele precisa de dinheiro e nós, de distração. Que tal pagar para ele dançar com nossas amigas?

    — Será, Sarah? Não poderia parecer uma certa prostituição?

    — Ele não vai fazer sexo, só vai dançar. Por favor, Glória, nessa idade não precisamos ter tanto pudor!

    A ideia não era ruim. Glória sabia que todas as suas amigas sentiam falta de um parceiro de dança e Wagner era um pedaço de mau caminho. Elas iriam adorar a novidade e todas podiam pagar, sem dúvida. Mas, quanto ele iria cobrar? Resolveu parar de pensar e agir.

    — Bom dia Wagner, tudo bem? É Glória.

    — Bom dia Dona Glória. Está tudo bem?

    — Tudo ótimo querido. Você não vai acreditar. Conversei com algumas amigas sobre a nossa dança e como você foi gentil comigo. Elas ficaram morrendo de inveja.

    — Imagina Dona Glória. Nem danço tão bem assim.

    — Não seja modesto, rapaz. Me senti uma Ginger Rogers! E sabe o que elas me pediram?

    — Não tenho a menor ideia!

    Gloria tentava colocar toda a culpa nas amigas.

    — Elas querem que você dance com elas! Claro, vamos pagar para isso.

    Wagner ficou calado por um tempo. Achou tudo muito estranho, mas precisava de dinheiro. E o que poderia ser mais inocente em fazer meia dúzia de senhoras felizes?

    — Confesso que estou meio surpreso com a oferta…

    Glória se sentia um cafetão.

    — Mas também confesso que realmente estou precisando de uns extras.

    Aliviada, Glória resolveu encerrar o assunto e marcar:

    — Perfeito. Amanhã às 8?

    — Marcado.

    Glória desligou o telefone se sentindo uma devassa. Era como se marcasse um encontro com um garoto de programa, sentia a adrenalina tomar conta de suas emoções. Agora era convencer as amigas a ir até a sua casa e dançar com Wagner. Não seria problema. Sexta à noite normalmente ninguém tinha programa e o fato de sair de casa já era um acontecimento.

    Os preparativos começaram logo cedo. Glória arrumava a casa como uma criança que espera o Natal. Pensou em tudo: separou os discos, dividiu entre as amigas os comes e bebes, ajeitou o espaço para todas se sentarem e, também dançarem. Tinha uma sala espaçosa e precisou apenas rearrumar alguns móveis para que os novos passos coubessem no local.

    A noite chegou e Glória parecia uma debutante. Na excitação, não nos costumes. Colocou seu vestido vermelho, se perfumou como se fosse pecar e arranjou uma rosa vermelha para o cabelo. Se sentia uma cigana. Só faltava rodopiar com seu par, que acabava de tocar a campainha:

    — Chegou cedo, Wagner!

    — Achei melhor me antecipar. Quero saber como vai funcionar a hora dançante… Rs…

    — Bem, você dança com cada uma de nós pelo menos duas músicas, pode ser?

    Ele fez os cálculos de tempo: duas músicas, máximo 5 minutos cada música, 10 senhoras… Não ficaria nem duas horas por lá. Para receber uma boa grana, estava ótimo.

    — Perfeito, Dona Glória. E o pagamento é antes ou depois?

    — Posso te pagar agora!

    Tudo acordado, as amigas de Glória foram chegando aos pares, cada uma mais perfumada e arrumada do que a outra. A sala começou a ficar impregnada de sândalos e almíscares e Wagner já estava meio tonto, pois cada uma delas fez questão de cumprimentá-lo de maneira, no mínimo, efusiva. Sarah foi a que mais se demorou nos braços do rapaz:

    — Glória, esse homem é um escândalo! Vai ser difícil segurar as meninas.

    De fato, as “meninas” estavam como abelhas no mel. Sorriam, mexiam nos cabelos, destacavam os decotes. Não saíam de perto de Wagner e já se enfileiravam para começarem as danças. Glória resolveu dar início a festa e colocou uma valsa. Achava chique.

    — Valsa, Glória? Não tem nada mais moderno?

    — Moderno? Desde quando somos modernas?

    E lá se foram as primeiras danças, com Wagner se esmerando nos rodopios e as amigas de Glória se sentindo adolescentes virgens sendo conduzidas pelo pretendente. Algumas soltavam pequenos gritinhos de prazer, outras apenas se ajeitavam para sentir os músculos – todos – de Wagner e outras estavam tão excitadas que o corpo parecia desobedecer. Viúvas há anos, todas já não sabiam mais o que era sentir prazer. E o que seria apenas 2 horas de dança inocente, se tornou uma grande festa, com Wagner se desdobrando para atender a todas em passos ousados e singelos amassos.

    Na outra semana, Glória resolveu se modernizar. Pediu ajuda para a neta, que apareceu uma tarde para pegar um casaco de pele emprestada. Quase não a reconheceu, estava com o cabelo roxo.

    — Isso é moda?

    — Super, vó! Quer que eu pinte o seu?

    — Deus me livre! Do que você precisa?

    — Você ainda tem aquele casaco de pele luuuuxooo?

    — Claro que eu tenho… Mas não sabia que ainda se usava isso! Não é antiecológico?

    — Que é, é. Mas é chique, né vó?

    — Isso é verdade. Tenho uma ideia! Que tal fazermos um trato?

    — Que trato, Dona Glória?

    — Eu te dou o casaco – só não conta para a sua mãe, ela é doida por ele! – e você me ensina a mexer no celular.

    — Feito!

    Em uma hora, Glória se tornou uma expert da telinha e ainda aproveitou para lanchar com a neta e colocar a conversa em dia. Ficou sabendo das últimas fofocas, dos namoros, começos e fins, do tal “ficar” e do relacionamento aberto. Achou tudo moderno demais para ela, mas se despediu da neta pedindo que ela voltasse mais, não só para pegar peças emprestadas. E, de preferência, com os cabelos castanhos mesmo. Depois que ela se foi, Glória se ateve ao seu novo brinquedinho. Estava agora em outro patamar, muito além do bom dia e figurinhas com flores no whatsapp. Baixou um aplicativo de música e não se fez de rogada. Começou a organizar playlists como uma DJ da terceira idade. Relembrou sucessos da sua época, descobriu novos cantores e fez uma playlist de tirar o fôlego: foi de Luis Miguel a Carlos Rivera, Michael Bublé e Lucho Gatica. Ok, Lucho Gatica não era exatamente uma novidade, mas ainda fazia Glória suspirar. Lembrou-se de um jantar dançante que foi com o marido no Chile. Lucho cantava por entre os casais que deslizavam na pista e Glória tentava disfarçava o olhar e o rubor que aquele homem sedutor lhe causava ao som de “La Barca”. Sabia a letra de cor e salteado e cantava baixinho, como se fosse para ele.

    À noite, na cama, com o marido já dormindo, se masturbou querendo ser de Lucho. Foi a única traição cometida em 30 anos de casamento.

    Sexta feira chegou novamente e Glória, como sempre, eufórica. Com aquela seleção de músicas mais calientes, ninguém mais iria chamá-la de antiquada. Se sentia muito ousada, para falar a verdade. As meninas chegaram ainda mais cedo, todas vindas do salão de beleza. Impecáveis. Não se via um esmalte descascado, uma raiz de cabelo por fazer, um batom fora dos lábios. Os vestidos eram novos, sem dúvida. Ou estavam esperando por uma data especial. Brilhantes, ousados, sedentos por novidades. A sala parecia um clube na sua hora mais feliz: a dançante. O ano poderia ser 1960. Todas estavam à espera de um grande amor. Ainda guardavam a inocência e tinham aquela ilusão boba que nos permite acreditar. O que seria de nós sem ela?

    Wagner também surgiu mais bem arrumado. Seu perfume invadiu a sala e o frenesi que a sua presença causava podia ser sentido pelas cadelas no cio de toda a vizinhança. As mulheres já não mais se enfileiravam, mas se sobrepunham, uma a uma, sobre Wagner. Mal uma dança terminava, outra começava com o novo par. Eles ensaiaram paços de tango, se requebraram em boleros e se extasiaram a cada passo dado de maneira mais próxima. Ou faziam acontecer esse roçar que encorajava o próximo ato.

    Glória, como dona da casa, acabava ficando por último, pois estava sempre às voltas com as bebidas e salgadinhos que as amigas levavam. A maioria sobrava, pois todas as bocas estavam preocupadas em sussurrar gracinhas para Wagner. Aquilo já estava deixando Glória louca. Ela se mordia de ciúmes, queria tirar uma por uma dali. Enquanto isso, o rapaz tentava levar as investidas daquelas senhoras de maneira educada e, invariavelmente, tirava uma ou outra mão mais atrevida do seu peito. Ou de partes, digamos, mais baixas. Lembrava-se do pagamento e sorria para disfarçar o inconveniente.

    Com isso, Glória sempre dançava com um Wagner já exausto. Duas horas de dança ininterrupta era uma maratona. E ainda tinha o jogo de cintura, o maxilar fixo, a concentração para nada sair do combinado. Em uma dessas noites, depois de todas as amigas de Glória já terem ido embora – todas tinham medo de chegar em casa muito tarde – Wagner simplesmente se deixou cair no sofá. Recostou-se e cochilou. Estava exausto. Começava o dia muito cedo, entre atendimentos em domicílio, clínicas, ônibus e trens. Se sentiu em casa e dormiu.

    Glória voltava da cozinha com duas taças de vinho para terminaram a noite, ainda falando algo sobre o assanhamento de Sarah:

    — Você reparou como ela dança? Parece que nunca viu homem na vida, Wagner. Você não deveria deixar ela ficar tão perto de você assim…

    Claro que aquilo era puro ciúmes. Glória já estava perdendo a compostura e se arrependendo de ter começado aquela história. Queria Wagner só para ela. Mas como?

    Quando chegou na sala, ainda retrucando, deu de cara com aquele deus no seu sofá. Baixou o tom de voz, pegou uma mantinha para cobri-lo e ficou ao seu lado, como em vigília. Ele nem roncava, veja bem! Parecia um gatinho, só ronronava. Chegou um pouco mais perto para sentir o seu perfume e foi descendo o rosto para o peito de Wagner. Seu coração acelerava ao mesmo tempo que seu rosto se aproximava daquele corpo. Queria lhe arrancar a roupa, lamber seu peito, fazer loucuras que ela só tinha visto em filmes.

    De repente, Wagner se mexeu e Glória se assustou. Ele abriu os olhos e a encarou:

    — O que a senhora está fazendo?

    — Descoberta como uma contraventora, Glória perdeu a voz. O que ela estava fazendo?

    — Euuuu…quer dizer…é que…

    — A senhora estava me cheirando?

    — Imagina, Wagner! Você me respeite! – Disse, unindo toda a moral que se esvaía. Estava apenas ajeitando a manta!

    Ele se levantou indignado, pegou seu casaco e disse:

    — Acho que a senhora passou dos limites, Dona Glória. Não sou um prostituto.

    Ela tremia:

    — Meu Jesus, é claro que não. Não estava fazendo nada, Wagner, eu juro!

    — Me desculpe, Dona Glória, mas não volto mais aqui.

    E se foi, com toda a sua dignidade e dúvida. Muitas dúvidas.

    Glória chorou. Como uma menina abandonada pelo primeiro amor. Colocou Lucho na vitrola e chorou ainda mais. Ouviu Lucho até adormecer. Não queria acordar.

    Mas o dia raiou e invadiu a janela. Invadiu o quarto e iluminou o rosto de Glória. Era preciso acordar. Seu rosto, inchado pelo desespero, parecia derreter. Precisava reconquistar Wagner, precisava que ele voltasse. Precisava.

    Dessa vez não quis falar com Sarah ou nenhuma outra amiga. Queria Wagner só para ela. Pensou em lhe pedir desculpas, pedir que ele reconsiderasse. Oferecer mais dinheiro, pedir aulas particulares. Qualquer coisa que fizesse com que ele entrasse novamente pela porta da sua casa e fizesse as cadelas do bairro estremecerem.

    Resolveu esperar alguns dias, deixar a poeira baixar. A raiva nunca é boa conselheira. Na outra sexta feira, dia em que ele normalmente estaria de volta, resolveu ligar. Não sem antes avisar a todas as amigas que Wagner não daria mais aulas de dança. Inventou uma doença na família, ouvia uma dezena de lamentações e suspirou aliviada. Agora vinha a segunda parte: tomou coragem e ligou para Wagner. Ele atendeu, o que já era um bom sinal:

    — Boa tarde, Dona Glória.

    — Boa tarde, Wagner, que bom que você me atendeu.

    — Não tenho mágoas da senhora.

    — Ótimo. Gostaria de me desculpar se lhe passei uma impressão errada. Não gostaria que nossa amizade terminasse assim.

    — Fica tranqüila, Dona Glória. Acho que exagerei um pouco também.

    Glória respirou, aliviada.

    — Que bom, meu querido. Você não quer vir aqui hoje, para conversarmos? Sem as meninas, claro…

    Wagner parou um pouco para pensar. Será que ela poderia tentar algo mais?

    — Prometo que será apenas uma conversa. Mas se quiser dançar…

    Cedeu.

    — Irei sim, Dona Glória. As oito mesmo?

    Em ponto.

    Glória desligou o telefone com um sorriso maroto. Tinha jogado a isca e seu peixão tinha fisgado. Agora era com ela.

    Fez uma outra playlist, mais lenta e sensual. Estava craque em escolher e listar músicas. Comprou velas e alguns petiscos. Deixou o melhor vinho na geladeira, só para resfriar levemente. Decidiu comprar uma lingerie. Queria algo sexy, rendado, de puta, como sua mãe dizia. Nada bege, grande, feito para esconder a barriguinha ou amassar os seios. Vermelho sangue. Vermelho paixão. Parecia endiabrada, com um fogo lhe consumindo por dentro. Como no dia que gozou para Lucho Gatica.

    Wagner chegou pontualmente às 20 horas. Glória já tinha bebido um pouco, para relaxar. Abriu a porta com um sorriso encantador. Seus olhos verdes flamejavam:

    — Bem-vindo, querido!

    — Boa noite Dona Glória.

    — Glória, Wagner. Só Glória.

    — Para que tantas velas?

    — Gostou?

    — Sim, ficaram ótimas.

    — Li em algum lugar que elas dão um tom calmo ao ambiente. Resolvi experimentar.

    — Fez bem.

    Se sentia ardilosa.

    Eles se sentaram no sofá. Ela serviu o vinho. Eles se olharam ao brindar. La Barca começou a tocar.

    — Dança comigo, Wagner?

    — Claro, Do…Glória.

    Eles se encaixaram no ritmo da dança e Glória pôde sentir novamente aquele cheiro que lhe acompanhava em sonhos. Em delírios. Seu rosto se afundou no ombro de Wagner que escorregou as mãos pelas costas de Glória e sentiu também seu perfume. Era elegante, nada muito doce. Tocante. A música envolvia o ambiente e, à luz de velas, as diferenças desapareciam. Eles eram apenas um homem e uma mulher. Dançando.

    Glória se afastou um pouco para olhar o rosto de Wagner e se aproximou de seus lábios. Ele disse algo que ela não entendeu, ela chegou mais perto e ele não se afastou. Os lábios se tocaram, a princípio tímidos. As línguas se permitiram e as bocas se devoraram. Wagner e Glória pareciam febris, sem entender toda aquela volúpia. Na sala, no mesmo sofá que haviam se desentendido há uma semana, os dois se permitiram.

    Glória desabotoou a camisa de Wagner e lambeu o seu peito, com uma luxuria pecaminosa.

    Ela tinha um belo corpo e Wagner começou a explorá-lo, doce e gentilmente. Com pequenas mordidas e beijos sufocantes, seus corpos foram se encontrando em um ritmo que não estava na playlist. Nem nos mais insanos sonhos de ambos.

    Quando Glória aproximou sua mão do membro de Wagner, levou um susto. Era mulher de um homem só e não imaginava que aquilo poderia vir em tamanhos tão diversos. Sentiu medo. Será que, depois de tanto tempo, conseguiria dar conta de tanto? Tomou coragem e pediu:

    — Põe. Mas só um pouquinho!

    Wagner sorriu. Desceu sua boca até o sexo de Glória, que nunca havia recebido tanta atenção. Tinha vergonha, tinha culpa, achava sujo. Mas tudo desapareceu quando sentiu aquela língua quente. Suas pernas se abriram e suas coxas se molharam. Wagner se fartou e levou todo o gosto de Glória de novo até sua boca. Se lambuzaram até com o pouquinho, que Wagner colocou e tirou até Glória gozar aos prantos.

    Se bastaram. Dançaram. E, de pouquinho em pouquinho, se amaram.

    Imagina quando Sarah souber!


  • O tempo que não temos

    Ao escritor faltam muitas coisas, dinheiro, valorização, suporte e – frequentemente – sobre o que falar. O cronista, tendo a obrigação periódica de sentar e tirar algo do papel, é o que mais sofre com isso. Mas não, não divagarei aqui sobre a falta de assunto. Não irei cair nesse lugar comum dos autores de crônicas. Pelo menos, não agora. Não será desta vez que adentrarei no rol daqueles que possuem um texto com essa temática. Pelo menos, não agora. Do que eu quero falar e reclamar diz respeito a outra falta: a de tempo.

    Esse problema, certamente, não é exclusividade do escritor. Longe disso. Algo comum de nossos tempos é, justamente, a falta de tempo. Com exceção de alguns poucos (os muito ricos e os vadios, que são quase a mesma coisa, mas só os segundos têm minha admiração), não se escapa à correria, à agonia, à agenda apertada e ao relógio a achacar cada suspiro de nossa vida.

    Espremido pelo tempo, o homem vive; espremido pelo tempo, o literato sobrevive. Além de todos os afazeres diários, o escritor precisa lidar com as matérias artísticas e com a vida literária. Ou precisaria, pois, muitas vezes, só resta falhar. Mais uma atividade, mais algo em torno do qual a vida se desenvolverá nas mesmas 24 horas. Afora o trabalho e as obrigações diárias, há a palavra, da qual não se escapa, mesmo quando ela, na azáfama cotidiana, escapa ao texto.

    O autor se encontra comprimido no dia a dia, na exigência de comer, de pagar as contas, de comprar o leite do menino…. Necessidades a oprimir a necessidade do verbo, que remanesce tímida, taciturna e necessária.

    Ao contrário do se poderia pensar, o trabalho científico é mais concorrente do que companheiro do labor artístico. E, estando inserido na vida acadêmica e suas demandas inesgotáveis, é sobre elas que minha atenção se concentra. Mais em documentos do que em versos, mais no século XVIII do que em mim, mas na política do que no amor, é assim que meus pensamentos se encontram ao longo da semana, mesmo nas horas que – supostamente – seriam de descanso. Tomada pela pesquisa e seus problemas, raramente o cérebro se desliga daquele foco e se permite outros voos.

    Sendo mais que o tempo de irrupção da ideia, o pensar literário encontra breve espaço para existir e se nutrir. Porém, mesmo nesse contexto hostil, há vezes que uma reflexão ou um verso me ocorre. Brota em mim com efusão e, com dor e lamentação, vem a morrer sem desabrochar. Escasseiam-se os momentos durante a semana nos quais poderia cultivar aquilo que me veio de repente e que se foi ainda mais de repente, existindo apenas no fugaz instante em que me lembrei escritor.

    Todavia, não raro, aparecem, no final do dia, algumas horas disponíveis. “Vou abrir o computador e escrever”, penso eu. Porém, outra vez, o cansaço vence a vontade e me vence. Mais do que a página do word, meu corpo chama a cama e me entrego a ela. Em berço esplêndido, quando já espero encontrar meus sonhos, alcança-me um mote. Todos sabem como se deve proceder nessa situação: pegar o caderninho e anotar. Faço isso? Que nada, o pouco de energia que sobrou não me permite. Assim, cerro os olhos e o expediente de escritor, que, naquele dia, nem começou.

    Já se foi a época em que minha principal preocupação no mundo da escrita eram as questões estéticas que rondavam a minha cabeça e os livros que lia. Hoje, a maior inquietação que me toma é ter um minutinho para rabiscar meia dúzia de letras ou passar os olhos em algum poema.

    Talvez esteja aí minha grande dor; dor que, com certeza, aflige a tantas outras pessoas que vivem a literatura. A tantas pessoas que veem seu contato íntimo com a matéria viva mais dissipado, que veem sua experiência humana mais pobre e apenas veem.

    Não irei fechar essa página e esse desabafo desejando a morte do meu respeitável público como fez Rubem Braga ao se queixar da falta de assunto. Entretanto, irei xingar o sistema econômico, a academia, o relógio, o motorista de ônibus que queimou a parada, a fila do supermercado, o amigo que me parou para conversar e eu mesmo. Xingarei a todos que merecem e que não merecem.

    Todavia, enquanto xingo, sonho. E, em minha utopia, – não tenho dúvidas – haverá tempo para a arte; para tudo haverá, até para se balançar na rede olhando o pássaro na caixa de ar-condicionado. Nós teremos o tempo.


  • Ainda Estou Aqui, Oscar e os ventos atuais

    No final da última semana fui ao cinema assistir ao filme “Gladiador II”. Muito além da esperada continuação do longa de Ridley Scott, o surpreendente mesmo foi ver que a sala estava com poucas pessoas. Indiscutivelmente, a preferência do público era outra, o magnifico e brasileiríssimo, “Ainda estou aqui”.

    Inicialmente, pensei estar vivendo em um sonho onde o cinema nacional consegue se destacar diante de uma superprodução norte americana. Quem dera essa realidade fosse constante… Agora, conforme a triste realidade tem demonstrado, esse episódio é uma exceção que raramente foge à regra. Mesmo sendo brasileiro e vivendo no Brasil, sabemos o quanto é comum ver as obras produzidas nos Estados Unidos recebendo mais espaço em nossas salas de cinema do que os nacionais. As razões podem ser objeto de tese.

    Deixando essa discussão de lado e falando especificamente desse filme. Em termos de análise, como avaliar o impressionante trabalho feito por Walter Salles? Os comentários aos quais tive acesso nas redes sociais antes de assistir geraram tanta expectativa que até tive medo de sair do cinema decepcionado. Isso, não aconteceu. Sai, ao contrário, emocionado. Essa obra de arte cinematográfica sobre esse tempo nefasto vivido em nosso país foi capaz de me causar o sentimento mais genuíno, a emoção.

    Dito isso, entro no ponto almejado ao fazer toda essa introdução, o tema do longa nacional. Vivemos em tempos muito sombrios da história. Aliás, essa tem sido cada vez mais esquecida diante de um esforço de muitos fazem para isso. O Brasil viveu uma ditadura. Ela foi muito cruel e suprimiu liberdades. Assim como na ficção, pessoas foram capturadas, torturadas e caladas. Jamais podemos deixar isso acontecer novamente. Esse é o ponto. Por esse motivo, precisamos aproveitar o chamado “hype’’ desse filme para falar sobre assuntos que alguns nos fazem diariamente tentar esquecer, ou seja, história e ditadura.

    E o Oscar? É um privilégio poder assistir a uma atuação tão magnifica de Fernanda Torres. A atriz não merece somente uma estatueta, merece o mundo! No entanto, ganhar ou não o prêmio não fará de “Ainda estou aqui” gigante. Ele simplesmente o é, e sempre será. Por isso, independente de vencer ou não um prêmio, historicamente voltado majoritariamente a indústria cinematográfica norte americana, precisamos abraçar esse filme, falar sobre seu tema principal e, sobretudo, ter orgulho por viver em um país culturalmente tão rico, com atores tão magníficos e que sabe fazer cinema de qualidade.


  • A Espera

    Esta reflexão não é sobre gramática ou semântica. Ela se refere à vida. Os tempos e movimentos do viver. Sobre esperar ou ficar em estado de espera. Estado de espera é o mesmo que esperar? É correta essa expressão? Não sei. Noto imediatismo na palavra esperar. A outra palavra me evoca serenidade.

    Sendo assim, em estado de espera, torço para que a minha percepção não seja um mero detalhe. Tenho observado uma espécie de urgência na vida. A idade e o tempo me deixam assim, às vezes curiosa, em outras confusas.

    Como todo ser humano eu vivi muitas esperas! Algumas vivo até hoje. Amar e ser amada, por exemplo. Enfim!

    Sinto que a espera mais significativa em minha vida, sem dúvida nenhuma, foi a gestação. O tempo marcado, o prazo, a expectativa, o medo, as adaptações, tudo! Foi uma espera intensa e envolta em muitas emoções.

    Da primeira infância percebo que não há muito a ser dito quanto ao assunto. Pudera! Pais, mães, avós e as pessoas todas ao redor, vivem em função de atender e não deixar faltar nada à criança, até mesmo antes de pedirem. Posso dizer então, que via de regra, crianças quase não sabem o que é esperar.

    Fiquei adolescente. Jovens inquietos ou apáticos e, com certeza, os campeões em espera. Questões importantes, incertezas, pressas. Qual profissão devo escolher? Poderei viajar com os colegas no feriado Será que eu sei beijar? Meu pai vai entender? Minha mãe ouviu? Quando? Onde? Com quem? Nós e nossas intermináveis filas de perguntas! Uma roda gigante de dúvidas! Eu vivi isso, com certeza, mas tenho memória fraca para “coisas” fortes, e além disso a forma intensa dessa fase gostosa e rápida da vida chamada adolescência, é a essência do estado de espera.

    Enquanto isso, os jovens adultos são reféns da espera. As dúvidas e perguntas podem se tornar um tormento e não um mero detalhe. Como adulta fui um turbilhão de urgências. Não soube e nem quis esperar. Adultos agem. Sentem-se autores da vida. Aprender, dominar, fazer, enfrentar, resolver, recuar, mandar… a vida tornou-se célere.

    Esperas deviam ser evitadas, o importante centrava-se em conseguir resultados imediatos. Perguntas, só se fossem a busca dos fatos, das realizações. Pensamos e agimos, como se não houvesse amanhã. Passadas as diversas fases do ser humano, chega o tempo daquela que é a mais estranha de todas as esperas. A espera do idoso.

    O embrião, o menino, o jovem e o adulto ficam no passado, tornam-se memórias. Os sonhos, dúvidas e realizações perdem a vez, quer tenham se realizado ou não. Na verdade, os recursos materiais e imateriais ganham outras nuances, nesta fase da vida.

    A idade avançada chegou. Sou idosa. Minhas derrotas ou alegrias não se tornaram um fardo. Dos objetivos da vida, a colheita material e imaterial está feita. A velhice é nova, e muitas vezes, afoita. Sendo assim, me obrigo a caminhar mais lentamente e com mais leveza. A pressa perdeu o sentido. Quem ganhou foram as folhas, os ventos, as flores. Contemplo.

    De forma consciente busco o que de melhor há em mim. Garimpo entre os vícios e virtudes, exercito a paciência, olho o outro, e como uma jóia rara eu exercito a arte de ouvir.

    Viver é para os fortes.
    Esperar é só um detalhe.
    Viva!


  • Crônica biografia do mundo de hoje

    Tenho sobre a minha mesa de canto all’aperto1 (como gosto de mesclar palavras e expressões das minhas duas línguas de fluência, o português e o italiano, a minha rotina! É uma forma de sintetizá-las numa só coisa, o meu eu real, a configuração amorfa do que sou enquanto um ser em constante expansão) cerca de duas dezenas de livros, referências de uma vida “pré” graduação e especializações várias. Me preparo para um estudo de caso que validará mais um diploma ao rol das coisas que vira e mexe me proponho a aprofundar-me – ou abrir sob meus pés um abismo de questionamentos profundos, quiçá sem respostas, que, como curiosa intensa e exploradora de mundo, me dedico numa corrida sem fim. Em tais exemplares, o assunto, se sintetizarmos, pontua-se, sempre nas recônditas zonas do espírito humano: das codificações de mundo que criamos à ideia da extinção das nossas mortes, passando pelas transformações dos desenhos das cidades e por nossas interações com artefatos e com as nossas casas, reflexo material do que pensamos e do modo como agimos – consequente demonstração de como o desenho urbano atua sobre nossas atitudes.

    Um destes exemplares, publicado em 1967, foi presente de meu pai (como sempre, em tudo na minha vida, ele me presenteou com referências de todas as formas possíveis – e como me tornei essa parte dele, que agora me acompanha em espírito já que não é mais possível tê-lo fisicamente). “A crise das cidades”, de Wolf von Eckardt com prefácio do então administrador de recreação e assuntos culturais da Cidade de Nova York, August Heckscher, é um marco na minha existência, pois, além de me batizar como a cronista que sou (Bia Mies nasceu de um ‘apelido’ extraído do meu nome “oficial”, Nú Bia, acrescido de um “pseudo sobrenome”, Mies2, originado do nome de um dos arquitetos que mais aprecio, o Mies Van der Rohe, que conheci através das páginas deste livro), reforçou minha escolha pela graduação em Arquitetura e Urbanismo, numa época em que as dúvidas me jogavam para o jornalismo, para as artes cênicas e para essa inenarrável responsabilidade e comprometimento de vida que é titular-se arquiteta e manter-se firme em tal posição com todas as provações da vida profissional. Reforçarei uns recortes do prefácio, que julgo ser de interesse educacional geral:

    (…) Aliás, a influência da Arquitetura sobre nossa vida – Arquitetura
    compreendida nos termos mais amplos, incluindo o planejamento e
    preocupação com o ambiente total – pode ser tão grande que
    quase ficamos estarrecidos com as responsabilidades que cabem a
    essa profissão. Não faz muito tempo, bastava que o arquiteto
    tivesse a habilidade de desenhar prédios individuais, elegantes ou
    utilitários, conforme o caso. Agora, ele concebe e planeja cidades e
    regiões e pensa em termos da filosofia do homem e dos seus
    valores fundamentais. Portanto, é essencial que se desenvolvam
    bons críticos de Arquitetura (…) Também é indispensável que o
    público possa compreender plenamente o que o arquiteto está
    procurando fazer. (…) também falar sobre limites num sentido mais
    exato – o ponto além do qual os arquitetos não podem ir sem ousar
    fazer o trabalho de estadistas – ou mesmo de deuses. (…) este livro
    deixa claro, o arquiteto não é apenas um construtor; ele também é
    um artista e, como artista, arca com o peso da profecia e da
    compulsão por nos dizer o que é o bem-viver.”

    A crônica de hoje começa quase biográfica, mas hei de traçar o paralelo com o todo, fora de mim: se compreendemos o mundo a partir de uma leitura pela íris de nossas bagagens pessoais de experiências, todos os textos são um tanto quanto biográficos, mas ao passo que se transformam em publicação, destinam-se aos que os leem, e, portanto, tornam-se públicos, sem domínio direto de seu conteúdo, um descolamento do pessoal por trás da escrita. Enquanto a minha vida assemelha-se cada vez mais ao
    casamento entre uma esponja e um liquidificador, tento gerar filhos que sejam produtos das receitas que pelos seus progenitores se misturem, e assim, ser crítica, ser artista, ser técnica e ser humana, colocando-me a serviço da sociedade, em tempo integral. Habilidade ou loucura?

    Uma busca constante, um eterno esforço a caminho de algo que nunca chega; é sobre o tempo que eu gostaria de dissertar: o que somos, não basta. O presente é constantemente tratado como o momento em que devemos viver; mas a condição humana que nos difere dos outros animais é ter a noção da finitude. E seria essa uma habilidade adquirida com a educação? De quando passamos da fase em que tudo é plena novidade e tentamos nos comunicar através de gestos, sorrisos, choros ou sons incipientes e sem nexo, Kairós é derrotado por Chronos, dois deuses da mitologia grega que simbolizam, em breves palavras, o tempo eterno – sem quaisquer referências ao passado ou futuro, sinônimo de qualidade – e o tempo cronológico e implacável – passagem do tempo, o presente constante que esquece de si mesmo,
    sinônimo de quantidade.

    Se cada um de nós é formado, independente do seu grau de instrução – basta viver em sociedade -, para agir, adquirir, aprender e tantos outros verbos de A a Z, como é que conseguimos dar conta de puramente ser, no fim das contas? Na filosofia é comum aproximar ambos os deuses à ideia do estado de flow, esse tempo distorcido da realidade que nos permite ter espaço para a consciência. O que somos não basta, repito. Se temos um intenso contato conosco, somos, provavelmente, improdutivos. Se não produzimos, somos excluídos; se produzimos elevamo-nos a um estado de esforço profundo que afrouxa as presilhas da nossa identidade. Mas todos esses esforços em favor da vida levam-nos à morte. E a morte é o que devemos combater, acima de qualquer coisa. Então construímos sociedades, cidades, casas, famílias, seres humanos. Quantidades. E nos baseamos em leis – palavras formuladas para ‘um todo’, acessível universalmente à ideia imperativa do que seja isso, a cada época -, que procuram ser democráticas, mas que excluem. Ontem assisti a um filme contemporâneo do cinema italiano intitulado Nata per te3, que narra a história verídica de um jovem homossexual católico que tenta adotar uma bebê com síndrome de Down (disponível a todo público brasileiro pelo link CLIQUE AQUI do Festival de Cinema Italiano até 08 de dezembro). Na prática, o abandono de um ser deveria ser julgado com mais profundidade do que a tentativa de criá-lo, com todos os percalços que a vida irá impor – além da dialética Kairós e Chronos, obviamente. Mas percebe-se como o peso das culturas, construções humanas de grupos, e as leis são de maior relevância do que a vida, em si. Como nossas habilidades são poderosas demais perante o que realmente é de vital importância. Quantidade ou qualidade? Como é a verdadeira face do tempo se nos vestirmos com qualidades reais, uma roupagem de amor, a nós mesmos e aos próximos, nossas habilidades qualitativas? O que somos, não basta?

    Minha pilha de livros tende sempre a aumentar; eu não sei basear-me em pouco para ser uma pessoa só. Culpa do tempo (in)visível que nos molda, culpa dos meus pais, que fizeram o melhor frente ao que a sociedade sempre os impôs. Culpa de ser humana, imperfeita e performática. Culpa da arte pela qual extravaso meus dilemas, e com a qual as coisas – palavra mais significativa e influente deste tempo – nos vulgarizam.

    Termino com a tradução e letra original da música Il mio canto libero4, de Lucio Battistini, que foi base do filme aqui comentado (e cujo link do QR CODE).

    Em um mundo que
    In un mondo che
    Não nos quer mais
    Non ci vuole più
    O meu canto livre é você
    Il mio canto libero sei tu
    E a imensidade
    E l’immensità
    Se abre ao nosso redor
    Si apre intorno a noi
    Além do limite dos seus olhos
    Al di là del limite degli occhi tuoi
    Nasce o sentimento
    Nasce il sentimento
    Nasce em meio aos prantos
    Nasce in mezzo al pianto
    E se levanta bem alto e vai
    E s’innalza altissimo e va
    E voa sobre as acusações das pessoas
    E vola sulle accuse della gente
    Sobre todos os seus legados indiferentes
    A tutti I suoi retaggi indifferente
    Apoiado em um anseio de amor
    Sorretto da un anelito d’amore
    De verdadeiro amor
    Di vero amore
    Em um mundo que – Pedras um dia casas
    In un mondo che – pietre un giorno case
    Prisioneiro é – recobertas pelas rosas selvagens
    Prigioniero è – ricoperte dalle rose selvatiche
    Respiramos livres eu e você – revivem, nos chamam
    Respiriamo liberi io e te – rivivono ci chiamano
    E a verdade – Bosques abandonados
    E la verità – boschi abbandonati
    Se oferece nua a nós e – por isso virgens sobreviventes
    Si offre nuda a noi e – perciò sopravvissuti vergini
    E límpida é a imagem – abrem-se
    E limpida è l’immagine – si aprono
    Agora – nos abraçam
    Ormai – ci abbracciano
    Novas sensações
    Nuove sensazioni
    Jovens emoções
    Giovani emozioni
    Exprimem-se puríssimas
    Si esprimono purissime
    Em nós
    In noi
    A roupa dos fantasmas do passado
    La veste dei fantasmi del passato
    Caindo deixa o quadro imaculado
    Cadendo lascia il quadro immacolato
    E se levanta um vento quente de amor
    E s’alza un vento tiepido d’amore
    De verdadeiro amor
    Di vero amore
    E te redescubro
    E riscopro te
    Doce companhia que
    Dolce compagna che
    Não sabes pedir, mas sabes
    Non sai domandare ma sai
    Que aonde quer que irás
    Che ovunque andrai
    Ao teu lado me terás
    Al fianco tuo mi avrai
    Se tu o queres
    Se tu lo vuoi
    Pedras um dia casas
    Pietre un giorno case
    Recobertas pelas rosas selvagens
    Ricoperte dalle rose selvatiche
    Revivem
    Rivivono
    Nos chamam
    Ci chiamano
    Bosques selvagens
    Boschi abbandonati
    E por isso virgens sobreviventes
    E perciò sopravvissuti vergini
    Se abrem
    Si aprono
    Nos abraçam
    Ci abbracciano
    Em um mundo que
    In un mondo che
    Prisioneiro é
    Prigioniero è
    Respiramos livres
    Respiriamo liberi
    Eu e você
    Io e te
    E a verdade
    E la verità
    Se oferece nua a nós
    Si offre nuda a noi
    E límpida a imagem
    E limpida è l’immagine
    Agora
    Ormai
    Novas sensações
    Nuove sensazioni
    Jovens emoções
    Giovani emozioni
    Exprimem-se puríssimas
    Si esprimono purissime
    Em nós
    In noi
    A roupa dos fantasmas do passado
    La veste dei fantasmi del passato
    Caindo deixa o quadro imaculado
    Cadendo lascia il quadro immacolato
    E se levanta um vento quente de amor
    E s’alza un vento tiepido d’amore
    De verdadeiro amor
    Di vero amore
    E te redescubro
    E riscopro te

    1 = ao ar livre, tradução da autora.
    2 Mies é um real sobrenome; através do Crônicas Cariocas, em 2008, “ingressei” para a família Mies
    através do querido Paulo (saudosos abraços, espero que conheça meu pai aí no céu), que me encontrou
    através dos meus textos neste nosso portal Crônicas Cariocas e me enviou mensagens perguntando se
    éramos parentes próximos.
    3 “Nascida para você”, versão do título da película em português.
    4 O meu canto livre


  • Arear as panelas

    Tenho na lembrança uma função doméstica sempre presente na casa de minha mãe – o dia de arear as panelas. O esfrega-esfrega com palha de aço e sapólio ia desgrudando as crostas formadas pelos alimentos ali preparados, que sedimentavam nos cantos, nas beiradas, no fundo das panelas.

    Sabores da vida que se desenrolava, impregnados nas marcas das panelas. Aquele cozido de emoções apuradas no fogo baixo ao longo dos anos, os embates passados nas frigideiras a estalar, a doçura necessária para baixar os ânimos até o ponto de fio.

    Caldo de um tempo que seguiu, continua seguindo e hoje pede outro espaço nas panelas.

    Tempo de uma Nouvelle Cuisine, de sentir o frescor, a leveza, a delicadeza de um novo cardápio. É chegado o momento de arear nossas panelas. Despregar lá do fundo aquilo que algum dia teve sabor, consistência, colorido, mas deixou resíduos cinzentos que só servem para tirar seu brilho.

    É hora de lustrar nosso caldeirão para receber as cozeduras que a vida nos reserva.


  • Deus abençoe esta bagunça

    Tive um chefe muito desorganizado com quem dividi a sala de trabalho. Ninguém conseguia limpar aquela balbúrdia, cada vez mais empoeirada. Quem tentava era desencorajado pela advertência de se tornar o principal suspeito pelo extravio e/ou danos a documentos importantes (É claro que ele possuía outras qualidades, que não a organização, que o tornavam benquisto e capacitado para o cargo).

    Um dia ele fez um comentário do qual se arrependeu instantaneamente: aquela papelada constituía uma prova da inutilidade da burocracia. Não era bem assim: ele tinha razão quanto ao excesso de burocracia, muitos dos documentos ali esquecidos nunca foram reclamados por ninguém, mas, não raro, funcionários desesperados vinham examinar as pilhas de papel na esperança de encontrar um processo perdido. Às vezes eram bem-sucedidos embora na maioria das ocasiões desanimassem só de olhar para as prateleiras atulhadas e de ouvir os resmungos do superior. Em casos extremos acampavam na sala até que ele despachasse alguma demanda urgente.

    Eu, que sou razoavelmente organizada, aturei calada a situação durante um par de meses; ciosa de minha posição subalterna, nada ousava dizer quanto aos papéis acumulados. No entanto, como a intimidade induz a falta de respeito, um dia resolvi dar uma sacudidela naquele estado de coisas.

    As primeiras tentativas foram tímidas. Ofereci-me para separar o joio do trigo, diminuindo o volume de papéis e, consequentemente, de poeira. Ele retrucou que eu não era qualificada para a tarefa, pois desconhecia as nuances da burocracia. Em resposta ofereci-me para selecionarmos juntos o que realmente interessava naquele matagal burocrático. Foi quando ele fez o tal comentário do qual se arrependeu porque eu retruquei, cheia de coragem, que nesse caso o problema tinha uma solução simples: jogar tudo fora.

    Minha reação o assustou de verdade. Percebi que avaliava a possibilidade de que isso fosse um ameaça real e recuou dizendo que para cada processo existia alguém interessado no resultado e que não queria ser responsabilizado pelo sumiço de algum documento relevante.

    Propus limpar só a poeira. Ele respondeu que isso fatalmente mudaria a ordem em que os papéis estavam colocados, o que dificultaria o seu trabalho. Uma afirmativa bizarra, porque ele nunca leria aqueles papéis, nem fazia a menor ideia de como estavam dispostos. Uma resposta que ilustrava exemplarmente a falta de lógica humana.

    Em desespero, ameacei desfazer-me sumariamente de tudo que estivesse amarelado de tão velho e em seguida sacudir a estante jogando fora, aleatoriamente, o que caísse no chão. Diante dessa nova ameaça ele ainda titubeou um pouco, mas não cedeu. O máximo que consegui foi livrar-me de alguns papéis de importância periférica e plantar na cabeça do meu chefe a dúvida: seria eu capaz de cumprir as ameaças que fazia?

    Bagunça à parte, tínhamos ótimo relacionamento, éramos amigos. Infelizmente o perdi muito cedo para um infarto traiçoeiro, uma perda que me marcou e até hoje me entristece.

    Ele já tinha falecido quando conheci meu marido. Adivinhem! Ele é um bagunceiro! A ‘decoração’ do apartamento de solteiro em que morava lembrava a arrumação antiga da minha sala de trabalho, agora dividida com um colega muito mais organizado do que eu.

    Percebi imediatamente que tentar arrumar o tal apartamento seria uma missão impossível. E acrescentei uma cláusula ao namoro: quem casa, quer casa, com território demarcado para cada um. Funcionou. Em todos os locais que moramos sempre existe um quarto interditado que é quase uma reprodução da sala de trabalho que dividi com o meu chefe. Contas velhas, cartas sem abrir, jornais acumulados, pilhas de revistas, sacolas vazias, cartões de visita, anotações esparsas. Só falta a poeira, mas, sinceramente, não sei como a faxineira consegue esse milagre. Eu evito entrar lá, porque a briga é certa.

    Agradeço ao meu falecido amigo pelo treinamento que me permitiu conviver com a desorganização. Se não fosse por ele talvez não tivesse me casado ou talvez estivesse divorciada. Somos moldados pelas pessoas que passam pelas nossas vidas, para o bem e para o mal.

    Como protesto contra a existência desse cômodo que me enlouquece, pendurei em uma de suas paredes, uma placa de madeira comprada na feira hippie, onde se lê: ‘Deus abençoe esta bagunça’. Fazer o quê? Nem sempre as coisas são como desejamos. E o que importa vem primeiro.


  • A crônica de todos nós

    A crônica tem todos os rostos: brancos, pretos, asiáticos e mais!

    A crônica tem todas as cores, odores e sabores que podemos imaginar!

    A crônica é, como diria o poeta, uma janela para o mar!

    A crônica tem todas as linguagens e gestos e sinais!

    A crônica é simplesmente a crônica. Assim leve como um sorriso, quente como um abraço, demorado como um beijo apaixonado.

    A crônica tem todos os rostos e olhares. Rostos redondos ou retangulares… olhares de canto, olhares de ressaca como os de Capitu

    Rostos e olhares… alguns perdidos e achados no meio do caminho.

    E no meio do caminho pode haver poesia sim!

    Mas muitas vezes tem pedra, poeira e sal.

    Mas qual o mal?

    Se não fossem as pedras ou a poeira ou o sal, o que seriam de tantas histórias que se fizeram no labor das coisas?

    A crônica segue a vida. Em caminhos e descaminhos. Em subidas e descidas. Dia ou noite. Choro ou riso.

    A crônica tem todos os rostos. E cada rosto um dom, um amor, um sonho e uma decepção. Cada rosto uma memória, um perfume e uma canção.

    O cronista avança pelas ruas e avenidas e escreve. Escreve sobre o tempo e todas as coisas que ele deixa e leva. Escreve sobre as luzes e os cartazes que apontam e vendem e prometem tantas coisas. Escreve sobre o movimento intenso de tudo. Fluxo.

    O cronista escreve sobre os rostos que vê ou imagina. João, Maria, José. Bernardo, Miguel e Adelaide. Será que Antônio reclama de um amor? Ou será que a Laura não para de sonhar e tem dificuldade de aterrissar? Ou então o Carlos, a Helena e o Simão? O próximo passo entre felicidade e a solidão?

    São tantos os nomes e tantas as vidas que passam…

    A crônica? A crônica passa e não passa. Muda e não muda! Avança e fica no mesmo lugar!

    A crônica segue como testemunho de todos os homens e mulheres que todos os dias vivem a vida.

    A vida? Seja nas tragédias urbanas ou nas histórias de amor, é o melhor material para qualquer cronista.


  • A casa do ontem

    Se existe algo que podemos considerar indestrutível é a infância. Não importa quanto o tempo ou a maturidade bombardeie esse território, quando menos se espera, dos escombros do passado, desterra-se uma recordação, um medo, um trauma, uma saudade ou um fantasma.

    As lembranças infantis têm poder de reencarnação no agora. Prova disso é o peso cortante, na vida adulta, dos apelidos pejorativos de outrora, do escárnio ou da exclusão vivida num tempo distante. Ninguém esquece o gosto amargoso de uma humilhação. Mesmo que as coisas mudem, as condições se transformem, as pessoas sejam absolutamente diferentes dos primórdios de sua evolução, a infância insiste dentro de nós. Se agarra nas vísceras, forma limo, provoca erosões. Ora traz sorrisos fortuitos, ora rasga os pontos da cicatriz.

    O curioso é perceber que ela reencarna não só nas memórias e dores, mas também nas atitudes cotidianas. Um bom exemplo disso são as redes sociais. Quem nunca se descobriu excluído do grupo secreto de amigos do whatsapp ou constatou, pelo Instagram, que foi o único a não ser convidado para uma festa de aniversário?

     A bem da verdade, a infância também se presentifica em nossas imperceptíveis tolices, seja quando fingimos não ver alguém na rua, para não ter que cumprimentar, seja comentando defeitos alheios ou fazendo pequenas fofocas.

    Para ser justa, saliento que a infância é bem maior do que suas rusgas, basta lembrarmos do quanto os afagos, colos e incentivos nos encorajaram a chegar até aqui. Então não se trata de promover uma caça à infância, até porque ela é o jardim eterno de cada um de nós. Sugiro uma boa faxina. Se a todo tempo visitamos a casa das memórias, que possamos lavar as mágoas com desinfetante, esfregar, até sair, o lodo do sentimento de menos valia, jogar no lixo as culpas e autoacusações. E, depois, vir com um pano úmido e essência de lavanda ou alfazema perfumando o ambiente.

    Feito isso, é hora de abrir as janelas, colocar uma música, contemplar o céu e orgulhar-se de si. 

    Tenho me empenhado nisso. Me recuso a criar um altar de lembranças dolorosas e culto a pessoas infelizes, invejosas e cruéis.

    A missão é habitar-me com harmonia, cercar de afeto o perímetro da existência e apostar nas minhas escolhas.

    Ainda que o amor do outro me anime, não me valida ou constitui.  

    Amigos, venham visitar a minha casa. Limpa, florida e perfumada!


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