Crônicas

  • Deuses, sábios e poetas!

    Você consegue imaginar o momento onde nossa raça planetária está a minutos do apocalipse, e que um relógio marca esse tempo em detalhes sórdidos para te enlouquecer?

    Pois esse cuco marcador de nossos últimos dias existe, se chama Relógio do Juízo Final, ou Relógio do Apocalipse, em inglês Doomsday Clock, que nada mais é do que um marcador simbólico, mantido desde 1947 pelo comitê da organização, Boletim dos Cientistas Atômicos, da Universidade de Chicago, que utiliza uma analogia onde a humanidade está a “minutos para a meia-noite”, e este horário representa a destruição de nosso planeta azul, por uma guerra nuclear. 

    As notícias ruins desembarcam nos jornais mundiais, e o relógio se move sem pressa, porém, a frente de um passado de paz, do nosso tempo furtado pelo medo de ser curto. Todo o mal que ronda o planeta empurra o maldito ponteiro.

     Sempre dói a seu tempo, e traz morte a cada movimento á direita dos olhos, esbugalhados pelo susto do próximo pulso. 

    As más notícias são a corda do instrumento, que podem ser uma informação de caráter particular e obscena, ou por vezes um boato maldito, que pode gerar a desgraça alheia.

     Como foi em 1747, uma conversa dita por uma garota do harém de Ibrahim, o sultão do povo Otomano, de língua turca da Ásia Central. Ela contou que uma das concubinas violou o protocolo de relação com o Sultão. 

    Enfurecido, Ibrahim mandou que todas concubinas fossem costuradas em bolsa com pesos, e jogadas ao mar para se afogar. Uma lástima essa língua fofoqueira em meio a tanta gente. 

    A inveja ou ciúme fazem o TIC TAC no Relógio do Apocalipse para algumas pessoas em particular, que partem daqui, devido a falácias maldosas e predestinadas a plantar a morte. 

    No caso dos índios yanomamis, sofridos pela fome e doentes, tem seus relógios da morte apressados a cada indiferença governamental.

     Um quadro generalizado de desassistência em saúde, se agrava pela permanência de garimpeiros. Seus corpos em carne viva, propõe um acordo mental entre o tempo, que se mantém em pé, e o respirar, que segue aos trancos, com o pó de suas ocas. 

    No tempo capaz de registrar nosso fim, a personalidade dos que ficam a sombra das crises, arranha suas virtudes humanas prepotentes e indiferentes.

    Deuses, sábios e poetas, surgem no vento do sopro de nossa existência, alvejando nossas mentes com ideias e assombrando os desavisados, e um breve pulsar de más notícias, empurra o relógio do Apocalipse, e te avisa para apressar o passo rumo a felicidade. Tente sozinho esse ato, duvido que alcance sem outras mãos.

  • O velho piano

    Com as costas curvadas e as mãos apoiadas nos joelhos, o velho Amadeu contabilizou o produto de sua semeadura: recolheu duas cenouras que tinham brotado no meio das alfaces e das couves. Gostou da surpresa. Analisou e viu que as cenouras eram boas. Preparou e comeu uma salada fresca no almoço. No mesmo dia, resolveu experimentar algo novo: plantou no meio das abobrinhas uma flauta, um violino, duas partituras de Bach e um Dó Maior. Cobriu tudo com muito cuidado, apalpou com força a terra, regou e foi descansar. Sentou-se na varanda e contemplou o bom trabalho que fizera. Cuidou da plantação por dias, semanas. Arrancou as ervas daninhas e nunca deixou que faltasse água. Uma manhã, quando abriu a janela, gritou de alegria. Chamou os vizinhos e apontou sua horta, onde reluzia um majestoso piano de cauda.

    Tinha brotado ali, por sua dedicação e cuidado, o mais belo piano de cauda que todos jamais viram. A notícia correu a cidade e virou assunto de todas as conversas. Logo a multidão chegou para ver e passar os dedos sobre a madeira cintilante. Discutiram sobre a excelência da marca, a qualidade das teclas, o branco tão branco e o negro tão retinto que até doía nos olhos. Que instrumento imponente! Não tardou os professores e artistas da cidade organizaram concertos, aulas de música a preços camaradas, concursos para descobrir novos talentos musicais em toda a redondeza. O velho Amadeu não cabia em si de contentamento. Quando perguntavam, dizia que o segredo daquilo tudo era… um segredo. E mais não contava.

    Numa tarde de abril, o velho Amadeu levou as mãos ao peito e fechou lentamente os olhos. Estava sentado na varanda olhando o piano no meio de sua horta. Pensava nas belezas sonoras que brotariam daquela madeira reluzente. Quem o encontrou disse que ele partira com um sorriso.

    O tempo e sua crueldade se encarregaram de diminuir o viço daquela novidade extraordinária. Uma manhã, quando somente os passarinhos visitavam o piano e o limo cobria quase todo o teclado, veio uma máquina e levou o velho instrumento para o depósito municipal de sucatas e ferro velho. E lá ele permanece até hoje, silencioso e coberto de poeira, ao lado do projetor de filmes, dos aparelhos de som, do foguete espacial e de outros objetos que já não têm mais nenhuma importância ou serventia nos dias de hoje.

  • O cão que sabia esperar

    Chamava-se Mingau. Era jovem ainda. Uma mistura de beagle com sei lá o quê.

    Chegou a casa numa noite de chuva, só pele e osso, com os pelos encharcados e a cabeça cheia de feridas. Meu pai lhe deu o resto do prato. Pedi para ficar com ele, mas minha mãe disse que ia dar trabalho e que acabaria sobrando para ela. Mesmo assim, ele ficou.

    Nunca pulou em ninguém. Não pedia comida. Dormia num canto da sala e vigiava, atento, quando deixávamos o portão aberto.

    Quando cresci, ele já andava torto. O rabo balançava devagar. Uma orelha ficava ereta; a outra, caída. Só os olhos continuavam espertos: dois furos negros cravados no pátio, como se esperassem que os passarinhos viessem bicá-los.

    A rotina era essa: eu saía, ele ficava parado. Não corria atrás de nada. Nem de gato, nem de galinha. Também não latia. Apenas acompanhava com o olhar. E ficava.

    À tarde, quando eu voltava da escola, lá estava ele. No mesmo lugar. Sentado. Às vezes deitado. Mas sempre ali.

    Uma vez perguntei por quê. Meu pai disse:

    — Cachorro é bicho que espera.

    Na aula de História, o professor — sujeito que gostava de tudo quanto era bicho — contou sobre um cachorro japonês que esperou o dono por anos na porta da estação. O homem morreu, mas o cão continuou voltando ali, dia após dia, até o fim da vida. Virou estátua. E, até hoje, é lembrado.

    Achei bonito. Contei pro meu pai.

    Ele apenas disse:

    — É Hachiko.

    Saí de casa ainda adolescente. Faculdade, primeiro emprego, a correria do mundo lá fora. Mas, sempre que eu voltava, lá estava Mingau — no mesmo canto, diante do portão — como se o tempo tivesse passado só para mim. Cego, como se sempre tivesse sido. As patas trêmulas. O corpo frágil, tombado de lado.

    Da última vez que o vi, não me reconheceu de imediato. Depois, mexeu as narinas e me farejou. E então fez aquele ruído baixo de cão, que não é choro, mas é pior do que isso.

    Sentei com ele no chão. Cocei atrás da orelha, como ele gostava. Mingau encostou a cabeça na minha perna e dormiu. Ficou ali até o anoitecer. Eu fiquei em silêncio, até minha mãe acender a luz da varanda e perguntar se eu ia entrar.

    E eu disse:

    — Daqui a pouco eu entro.

    Na semana seguinte, fui embora. Mingau morreu três dias depois.

    Na manhã do quarto dia, minha mãe o encontrou caído de lado, com os olhos abertos. Olhos de quem, talvez, ainda esperasse uma última visita.

    Ela contou que Mingau passou os três dias deitado no portão. Não comeu. Não dormiu. Não se moveu.

    Meu pai chorou. Disse que aquele cão só podia ser a reencarnação do Hachiko. Minha mãe não confirmou nem negou, também não se surpreendeu. Apenas baixou o olhar e pediu que me ligassem, para que eu pudesse vê-lo.

    Naquela época, eu não acreditava que bicho entendesse de ausência. Mas sei disso agora, quando penso no Mingau.

    Foi no silêncio daquele portão, diante de um cão que esperava mesmo quando ninguém mais vinha, que me dei conta do que queria fazer da vida.

    Hoje, sigo o rastro de outros cães. Procuro histórias que me façam lembrar do que vivi com o Mingau. Tento ajudar os que ainda não aprenderam a escutar os animais.

    Larguei o emprego. Tornei-me treinador. E, no fundo, nunca deixei de voltar àquele primeiro cão.

    Acho que ele ainda está lá. Não em corpo, mas no gesto de cada cão que sabe esperar. Como quem ensina, sem palavras, que amar também é saber permanecer.

    *Ao meu cão Duque, por todas as vezes em que ele espera sua doninha junto ao portão.

  • De quando quase encontrei Givanildo Carmelino de Abreu Vasques

    Quando acabou a aula de química industrial, fui ao food truck mais frequentado dos arredores da faculdade. O cachorro-quente daquele lugar era tão conhecido quanto o seu Jacinto e a dona Cesárea, seu Jajá e dona Cesinha, para os íntimos. Nunca houve um food truck tão falado na cidade. Se não me engano, o seu Jajá foi até candidato a vereador uma vez, mas não se elegeu. Uma lástima, no fim das contas, pois se na câmara ele trabalhasse com a mesma destreza com que preparava os pedidos, teríamos avanços inimagináveis em todos os setores da máquina pública. Mas o povo é complicado, se vende fácil, sabe como é.

    Sempre que alguém fazia um pedido, ouvia um — Já já tá pronto —, e realmente estava, questão de minutos, de quando em vez, segundos até. A desenvoltura do casal em preparar os lanches num ritual sincopado era algo fora do comum. Mesmo com dezenas de clientes se acumulando, geralmente depois da aula, ninguém aguardava mais de cinco minutos para abocanhar o seu cachorro-quente.

    O furgãozinho ficava ao lado da entrada principal do câmpus. Era frequentado por alunos, funcionários, professores, diretores, população com fome e população com gula. Nunca fizeram merchan nem precisaram disso. Quando os conheci, aos dezoito anos mal completos, recém-ingressara no curso de química. A escolha se baseou num dos testes vocacionais que foram aplicados ainda na escola por simpáticas psicólogas em formação. Os colegas perceberam a minha inépcia para aquilo muito antes de mim. Aparentemente, ninguém na faculdade de química se interessava pelos romances policiais da modinha e ninguém tinha paciência para falar sobre os lançamentos, sobre a lista dos mais vendidos ou sobre as polêmicas do prêmio Jabuti. Pois é. Talvez eu não fizesse mesmo o estereótipo do estudante de química. Frequento o entrelugar desde muito.

    Seu Jajá e dona Cesinha eram bons de papo. Às vezes eu estacionava por ali e nem pisava no câmpus, sobretudo quando a televisão acoplada ao furgão transmitia os jogos do Grêmio. Foi numa dessas que o seu Jajá me perguntou enquanto preparava um lanche sincopado: — E aí, quando vai pra letras? Na hora achei até que falasse com outra pessoa. Eu tinha nas mãos um livro do Luiz Alfredo Garcia-Roza. O Grêmio ganhou com um gol do Barcos. A noite tinha um quê de minuano anunciando o inverno. E pela primeira vez cogitei a migração. Meio sem resposta, meio sem rumo. Era Achados e perdidos, o livro.

    Larguei a faculdade. Quando confessei aos colegas, ninguém esboçou reação contrária, ouvi apenas comentários inamistosos sobre a minha lerdeza. Todos sabiam que isso aconteceria mais cedo ou mais tarde e a paciência comigo aparentava ter acabado há muito. Tinha uma ideia de que, formado em química, passaria o resto dos meus dias numa fábrica qualquer, daquelas com paredes altas e fedorentas, em que as pessoas entram recheadas de EPIs e ninguém sabe exatamente o que fazem lá dentro. Pois bem, não cumpri esse destino por conta de uma mísera pergunta do vendedor de cachorro-quente mais famoso da cidade.

    No duro, sem rodeios, o seu Jajá tinha razão, devo admitir. Química não combinava comigo. Infeliz coincidência ou não, nunca mais fui ao food truck. As aulas do mais novo destino eram EAD. Graduei-me sem sair de casa, antes mesmo dos antigos colegas, que acumulavam reprovações. A vida mudou um bocado desde então, mas ainda continuo lendo romances policiais e, por acaso, o da vez se chama Fantasma, do mesmo autor que lia quando fui alvo daquela questão. Não sei como andam o seu Jacinto e a dona Cesárea. Dos lanches, em particular, tenho saudades. Cursei economia.

    Numa daquelas noites frias, após uma aula de química industrial da qual não tenho recordações, cheguei um tanto apressado e flagrei ainda o largo sorriso do anfitrião. Logo me disse que Giva Vasques havia recém-saído de lá. De cara não acreditei, mas um outro estudante, de bigode besuntado com ketchup, confirmou a história. Era realmente Giva Vasques frequentando o food truck mais falado da cidade. Imagine você, justamente num daqueles momentos um tanto incômodos em que apenas cumpria tabela nas carteiras da Universidade, ainda antes de mudar de curso, quase encontrei Givanildo Carmelino de Abreu Vasques. E, desde então, nunca mais.

  • Postei que me amo, mas o Wi-Fi não curtiu

    Sabe aquele dia que a gente acorda meio piegas, sentimental demais, como se tivesse engolido um coach motivacional junto com o café? Se nunca acordou assim, por favor, me indique o remédio, porque eu sou refém dessas crises.

    Pois foi numa segunda-feira dessas que eu acordei cafona demais, abri o Facebook e vi a clássica pergunta: “O que você está pensando?” Sem pensar muito, mandei logo:

    “Eu ando me escolhendo todos os dias, mesmo quando pareço a pior opção.”

    Postei.

    Saí para trabalhar. No ônibus, entre aquela multidão hipnotizada pelo celular, peguei o meu para checar… zero curtidas.

    Z-e-r-o.

    Fui olhar meu perfil, contei uns 500 amigos. Pensei: “Uau! Quinhentos amigos e nenhum tem tempo pra mim?”

    No WhatsApp, mandei a mesma frase para o grupo da família, para uns amigos… No almoço, conferi: muitas setinhas azuis, nenhum comentário. Silêncio sepulcral.

    Tentei o Instagram: “Eu me escolho todos os dias. Mesmo não sendo a melhor opção.”

    Daí um amigo velho conhecido, aquele tipo que adora bancar o engraçadinho, respondeu no privado:

    “Quando você posta que já superou tudo, a gente sabe que você tá fingindo.”

    Poxa, ele me respondeu com meme e tudo.

    Eu, no Uber, voltando pra casa, quase seis da tarde, pensei:

    “Que opções eu tenho, cara pálida? Viver de likes? Não, né?”

    A verdade é que a gente não escolhe muito não. O careca não escolhe ter cabelo igual ao do galã da série. Eu, com a barriguinha de chope, não escolho ouvir todo almoço aquela piada: “Tá esperando bebê?”

    Queria que a barriguinha sumisse por osmose, abdução, qualquer milagre. Mas não rola.

    Então, a saída é fazer as pazes com a careca, a barriga, e os 500 amigos que não curtiram meu post.

    Voltei lá e apaguei a mensagem motivacional. Ninguém viu, ninguém sentiu. Tudo certo.

    Se alguém tivesse curtido, seria outra crônica. Mais bonitinha do que esta.

  • Na extrema curva do caminho extremo

    Eu não deveria escrever sobre se a terra é de fato esférica…

    Eu não deveria dizer o óbvio!

    Eu não deveria repetir tantas coisas…

    Eu não deveria escrever e me esforçar para que as pessoas saibam e entendam que o nazismo foi um movimento de extrema direita.

    Eu não deveria escrever e me fazer entender que QUALQUER regime de exceção, que tira direitos e persegue pessoas é chamado de ditadura…

    Eu não deveria escrever sobre a desgraça que é o racismo, posto que as pessoas sabem e TEM CERTEZA de que isso é um câncer…

    Eu não deveria escrever sobre TODAS as coisas que, em uma sociedade dita civilizada, são ditas e certas como INDEFENSÁVEIS…

    Hoje, lamentavelmente, o que era indefensável toma forma, cor e se concretiza em palavras, atos, ideias e o que mais vier!

    Hoje, a mediocridade é exaltada, escancarada, premiada…

    Hoje, o medíocre espalha a sua mediocridade com cursos, palestras e verdades descartáveis…

    Agora, sem pudor, preconceitos são verdades e colocados como franqueza, como sinceridade…

    Na extrema curva do caminho extremo, brutalmente, escolhemos a intolerância.

    Na extrema curva do caminho extremo, fatalmente, desconstruímos um país, uma sociedade…

    Na extrema curva do caminho extremo, apagamos a história conforme nossas conveniências e fabricamos heróis…

    Na extrema curva do caminho extremo, matamos a voz, o abraço, o beijo e o afago e ficamos com o ódio, a violência pura, o conflito e o atraso…

    Na extrema curva do caminho extremo…

  • Onde Está Você?

    Cabelos desalinhados, Débora esfrega os olhos fundos, sonolentos. Busca o roupão na cadeira ao lado da cama e se debruça de novo sobre o travesseiro vazio que repousa ao seu lado. Sente o perfume de lavanda ainda presente na fronha — o que lhe restou.

    No silêncio da manhã, seu olhar se detém no fio de luz que atravessa a fresta da janela. Como uma adaga, ele penetra o recôndito dos pensamentos noturnos. Débora se envolve nos lençóis, à procura de um abrigo, algum consolo.

    Preciso encontrar a saída. Me perdi outra vez nessa última tentativa. Tantos obstáculos a vencer. Sinto-me incapaz de descobrir um novo caminho sozinha. Onde está você? Ouço, lá no fundo, sua voz dizendo para seguir em frente. Tento, mas fracasso.

    Vou me embrenhando cada vez mais nesse poço lamacento. Me canso, desanimo, tento tomar fôlego e recomeçar. Procuro apoio, um chão que me sustente — se é que ainda resta algum chão nessa busca infindável. E me pergunto por que não consigo. Tantos conseguem encontrar a saída. Por que não eu?

    Já tentei traçar um mapa dos caminhos que percorri em vão, um guia que me orientasse a descobrir outro rumo. Mas, quando percebo, estou de novo envolvida na neblina das lembranças que sempre me levam ao mesmo lugar. Parece um vício. As mesmas pistas, as mesmas pedras, as mesmas barreiras — tudo se repete, como ondas do mar revolto da saudade em que me afundo cada vez mais.

    Sinto-me aprisionada, cativa desse labirinto, condenada a uma busca sem fim. Não consigo te ver, mas ainda escuto baixinho sua voz, insistindo para que eu siga sem olhar para trás. Mas como seguir, se tudo me traz de volta ao ponto de sua partida?

    O despertador toca. Débora se levanta, conformada, para enfrentar mais uma reunião do grupo de terapia do luto. Ao abrir a porta de casa, lembra-se de uma estrofe do tema de Lisbela e o Prisioneiro.

    Agora, que faço eu da vida sem você?

    Você não me ensinou a te esquecer.

    Mas, desta vez, a canção não soa apenas como um lamento. É quase como se fosse uma companhia silenciosa, uma voz que caminha ao seu lado, lembrando que a saudade também pode ser abrigo.

  • Direção Defensiva

    Uma pesquisa realizada na Universidade de Viena, com sapos comuns (Bufo-bufo), conseguiu registrar um comportamento curioso e inusitado. As sapos-fêmeas, diante da aproximação e assédio de machos indesejáveis e insistentes, se fingem de mortas. 

    A estratégia chamada tanatose é uma reação extrema a situações de estresse ou perigo. Que danadas…não julgo. Sabemos muito bem o quão estressante pode ser um homem querendo transar na hora do sono, da novela ou da leitura. Todavia, no nosso caso, talvez a tática seja menos exaustiva, porque podemos apenas alegar enxaqueca ou cólica. Já as nossas amigas batráquias precisam ser mais radicais. Quando tocadas por pretendentes rejeitados, enrijecem o corpo, deitam de barriga para cima e param de se mexer até que o insistente se afaste totalmente. Com esse comportamento evitam o acasalamento forçado. 

    Danadas…

    Muito embora possa parecer que a vida das sapos-fêmeas é mais difícil do que a nossa, já que não podem apenas alegar cansaço, nós, mulheres, além de lidarmos com uma demanda sexual de alta frequência, ainda somos cobradas a ter iniciativa, demonstrar interesse, desejo. Isso porque os homens não fazem ideia da distância que pode existir entre o apetite deles e o nosso. E mais, desconhecem a importância de um enredo, uma trama, um romance ou um suspense para fazer o motor ligar. Para a maioria deles, o esquema na estrada é dirigir em alta velocidade. Pisar no acelerador e bum! Chegou. Para nós, muitas vezes, admiramos a técnica do siga e pare. O passeio a 60 km/h de janela aberta. Mas não, eles não querem perder tempo admirando a viagem, não têm paciência com engarrafamento e ignoram os sinais.

    A desavença começa aí. Toda mulher tem uma logística de trânsito para liberar acesso a suas estradas. Mas os machos-alfa querem posar de bons motoristas só porque dirigem qualquer veículo. Acontece que nós e as sapos-fêmeas conhecemos as táticas da direção defensiva, embora os homens confundam com direção passiva. 

    Qual a mulher que nunca ouviu: “Você não tem iniciativa, nunca me procura”?

    Qual a mulher que nunca respondeu em pensamento: “Eu só procuro o que quero encontrar”?

    E que não nos acusem de frígidas. Não somos! Queremos motoristas bem treinados, conhecedores dos desafios da estrada. Cautelosos. Que saibam usar os faróis, a lanterna, os espelhos. Controlem os pedais. Carro manual não é automático.

    Aprendam de uma vez por todas que, quando a placa PARE é levantada, ela deve ser respeitada. Caso contrário, não hesitaremos em utilizar: “Cuidado, ANIMAIS NA PISTA.”

  • Frio com Memórias

    Mãos enregeladas, dedinhos roxos de frio, boca seca e gretada, olhos lacrimejando… Que frio!

    O assovio do vento, misturado ao fungar dos narizes, soma-se ao barulho das vozes tagarelas dos valentes meninos e meninas que dobram a esquina correndo, apressados para terminar o percurso ao avistar a grande escola. Entram aos atropelos!

    No inverno, a fila do pátio é dispensada. Cada um segue direto para sua sala e acomoda-se em seu lugar. Acalmado o burburinho, abrem-se os livros. Começa a aula e o tempo passa rápido, principalmente para os que venceram o caminho a pé, pois chegaram na energia do percurso.

    Esses são a maioria. Mas há também os que chegam de carro, vestidos com casacos de náilon, toucas grossas e luvas coloridas. A escola é pública, mas tem prestígio. Imagine só: há alunos que sequer precisam fazer o ano extra preparatório para a admissão ao curso ginasial!

    Nós pertencemos à classe baixa. Nossos casacos são de flanela; a mãe improvisa lenços na cabeça, ergue a gola das camisas e faz o melhor que pode dentro dos seus parcos recursos.

    Mas o melhor mesmo é a hora do recreio! Seguimos em fila, da sala até o refeitório, onde a dona Ana já nos espera com os caldeirões fumegantes. É o lanche dos menos “favorecidos, os pobres mesmo. Leite em pó, bolachas, mingau de fubá de milho.

    No recinto, noto a pilha de produtos, todos com o emblema do governo e de uma tal “LBV”. Curiosa, leio e descubro que as letras significam Legião da Boa Vontade. Sei lá o que é isso… A fila do lanche anda rápido. Recebeu seu quinhão? Pode sair para o corredor, onde bate o sol.

    Isso tudo é passado. Mas que passado glorioso! Éramos muitos irmãos. Sabe o que isso significa? Nós, treze meninos e meninas, mais os primos, os vizinhos, os afilhados, todos indo à escola, por direcionamento dos pais, sem nenhum incentivo de bolsa isso ou aquilo, sendo  alfabetizados, cumpridores de horários, respeitosos com professores e funcionários, tendo o estudo como a principal herança que nos prepararia para a vida! Havia dificuldades, com toda certeza, mas eu sempre escolhi e escolho ver o lado bom da vida! 

    Mas isso foi outro século. Outro tempo.

    Hoje, os meninos vestem moletons de marca, aquecem-se com casacos térmicos, têm lancheiras recheadas e celulares caríssimos. Chegam de carro, ouvem música nos fones e fazem selfies antes de entrar na escola. Nada contra! São as conquistas e o conforto que os pais podem proporcionar.

    Mas, às vezes, fico pensando: o que andamos perdendo no caminho?

    Não sentir frio nos pés, não pode também tirar o calor do peito. É preciso que ensinemos o olhar curioso para o mundo, o prazer de um mingau fumegante, o respeito por quem ensina e o orgulho de fazer parte da fila dos esforçados. Os valores parecem fora de moda, como se fossem coisa de outro tempo. Mas eu sei,  e você também deve saber, que foi neles que nos formamos: no respeito, na gratidão, na partilha.

    Hoje, parece que as selfies valem mais do que o ato, o fato. 

    As conversas, as brincadeiras, as interações tanto entre si mesmas, como com a família deixaram de fazer parta da rotina. O automático virou trivial. As memórias afetivas foram substituídas por sensações virtuais

    E talvez seja por isso que o inverno me leva de volta, lá onde o frio nos fazia mais humanos e a simplicidade era uma grande riqueza. 

    E aí? M’bora lá fazer um chocolate quente para a família? 

  • Sobre o turista

    Ah, esse ar de turista. Um jeito de quem não está nem aí… E não está mesmo. O mundo que ele percorre é outro, bem distinto do que a história soterrou.

    Torres, arcadas, câmaras suntuosas onde reis dormiam com suas esposas — e, em não menos luxuosos anexos, com as belas concubinas — já não são os mesmos de outros tempos. Falta o que lhes dê vida.

    São imagens descarnadas, esqueletos preservados para a contemplação nostálgica (por vezes indiferente) dos que querem escapar ao cotidiano enchendo os olhos com outros espaços. A tudo o turista olha com um enlevo dúbio, misto de admiração e exaspero (por que se tem de enfrentar tantas filas?).

    Pudessem os que viveram naqueles tempos contemplar o futuro, ficariam pasmos com toda essa curiosidade pela existência trivial ou aborrecida que tiveram (mas como saber do tédio das cortes? ou dos riscos embutidos na opressão da plebe? ou do medo contagioso de doenças que não podiam conhecer?).

    Tudo muito parecido com hoje — só que mais bonito! Bonito! Dessa beleza que a distância e o mistério imprimem ao que se desfez no passado. Ou que permanece intacta por já não existir o que a tisnava com a mancha da injustiça ou do opróbrio.

    Mas nisso o turista não quer pensar — do contrário, não seria turista. Depois de um longo périplo, e de tantas fotos, ele rumina com um prazer muito pouco espiritual o variado café da manhã que no dia seguinte tomará no hotel.

    Em seguida irá às compras com uma convicção proporcional aos apelos que lhe são feitos no mundo de hoje. Ninguém pode, afinal de contas, escapar ao seu tempo. E na viagem o que importa mesmo é a bagagem de volta. 

    ****

    Millôr escreveu que turismo é prostituição, referindo-se certamente à penetração de estranhos em lugares com os quais não têm nenhuma afinidade. As atrações lhes são oferecidas por um bom dinheiro. Devem então se mostrar pródigos também nas compras e nas gratificações — o que não é de todo ruim pois faz marchar a economia, que é a matriz de tudo.

    A viagem permite que a gente sinta como andam as coisas lá fora. E não estão muito diferentes daqui. As TVs mostram violência e corrupção, que parecem a tônica do capitalismo moderno. Já os radinhos de pilha dos motoristas de táxi, complementando o noticiário, dão conta do ânimo do povo.

    Numa das corridas que fizemos, um motorista lisboeta criticou a ação dos políticos locais e, um tanto exageradamente, atribuiu aos brasileiros a responsabilidade por parte da roubalheira que havia por lá. Senti-me desconfortável, e não sei se o acréscimo que ele fez melhorou ou piorou o meu estado de espírito: “Fomos nós que ensinamos os brasileiros a roubar. Agora estamos pagando por isso.”

     Eventos como esse não mascaram a poesia e a gratuidade que existem em viajar, romper as amarras da rotina, adentrar outras geografias e espreitar no rastro do tempo um presente perdido, que amanhã será o nosso.

  • Striptease

    De longe, só se vê que há luz no quarto, mas pouco se distingue o que acontece lá dentro. Com meu binóculo, escondido atrás da cortina no apartamento do prédio em frente, tenho visão privilegiada e posso ver tudo com detalhe. Posso vê-la tirar a roupa, por exemplo. Como agora. Ela acabou de entrar. Jogou a echarpe no chão e sentou-se na borda da cama para tirar os sapatos de salto. Joga-os num canto. Começa a desabotoar a blusa. Noto que está um pouco mais cansada do que o habitual, há rugas acentuadas na testa, olheiras fundas. Imagino o dia puxado de trabalho que ela teve e me comovo.

    Agora de pé, ela abre o zíper da saia e a deixa cair até os tornozelos. Com um movimento da perna direita, joga a peça em cima da cama. Vai de um lado ao outro do quarto, olhando em volta, como se procurasse algo. Para e inclina-se para tirar a meia-calça, que larga no chão. Assim, de blusa e calcinha, descalça, solta o coque e balança a cabeça enquanto os cabelos lhe cobrem as costas. Parece que encontrou o que buscava. Acende o cigarro e fuma na frente da janela, olhando o movimento da rua.

    Volta-se para dentro e apaga o cigarro no cinzeiro da mesinha de cabeceira. Retorna ao ritual de desnudamento. Tira as rugas, aquelas que ainda povoam seu rosto e que resistem ao creme hidratante usado diariamente. Arranca também as manchas dos braços e as olheiras escuras que lhe fazem penumbra nos olhos. Desfaz-se completamente das varizes e estrias das coxas e panturrilhas. Aos tufos, e com movimentos bruscos das mãos, livra a cabeça dos indesejados cabelos brancos que envelhecem a moldura de seu rosto. Olha-se de costas no espelho grande da penteadeira e arranca de uma vez a gordura acumulada nas nádegas. Agora de frente, elimina por completo, com a ajuda de uma esponja, o olhar sombrio que tinha até então. Esfrega os seios e o sexo, empurrando para o chão todos os homens que escreveram a história de seu corpo. Por último, respira fundo como se precisasse tomar coragem e puxa de uma só vez a cicatriz da cesariana.

    Completamente nua, o olhar sereno, fecha as cortinas e apaga a luz.

  • Trama subjetiva nas mentes!

    O poder político mantém certas ideias para gerir uma nação, desenha caminhos fartos de opções no cotidiano do povo, que está a espera de sua colaboração e sustento. 

    O poder da biologia carrega em suas raízes a capacidade de escrever a data de seu velório. 

    O poder espiritual, sustenta a igreja com certas regras e posturas limitadas pela fé, diferenciado substancialmente com espírito e alma aos pés de sua prole. 

    Carrega a eternidade como salvação das almas e mantém o religioso atento às esperanças de paz no céu após sua partida. 

    Como entender o predomínio de um poder que tal data manda, tal povo, tal decisão e aspirações, se os propósitos parecem distintos e as forças diferenciadas? 

    No tempo de Milcíades, um jovem General Helenico que comandou a vitória sobre os Persas no mundo mediterrâneo, ignorava-se a existência do mundo extremo-oriental, e o poder exercido em tal época não tomava conhecimento de absolutamente nada mais, além da poderosa Atenas, maior potência da antiga Grécia. 

    Esse isolamento vaidoso, transformou esse general soberbo em um derrotado, e preso, ao final malogrado. 

    De maneira similar faziam os guerreiros de Atenas, para suas mulheres. 

    Elas Teceram para seus homens, soldados, ausentes além da morte, dedicadas aos filhos e sustento da família. Subservientes a supremacia masculina, talentosas, entregaram suas vidas e desejos ao se dedicarem exclusivamente as lides domésticas, a servidão sexual, a procriação, para alimentar a guerra, e por isso sofreram suas perdas.

    A Grécia Antiga não era uma nação, mas sim um conjunto de cidades-estados cujos povos possuíam algumas características em comum, como a semelhança linguística, por isso foram chamados genericamente de gregos. 

    Porém, ninguém jamais exerceu tanto poder na terra quanto a soberania da opinião pública, que é a força radical, e que produz, nas sociedades, o fenômeno de mandar e descobrir o que é verdadeiro.

    A verdade é algo instável, resultado de uma negociação, porque a história é contada com a versão de cada narrador, e o poder é a questão central de nossa existência, é a maneira como estamos dispostos a aceitar o valor de certos discursos contra outros. 

    E isso depende de quem está falando, se é poderoso, homem ou mulher, branco ou negro, sempre irá exercer uma trama subjetiva nas mentes do povo, que se mantém na expectativa do próximo passo, que o leve a redenção. 

    Além da morte, não sabemos ao certo o que é verdade, apenas até o seu momento.

  • Deixa o mundo lá fora, vai

    À primeira vista, nenhuma graça. A turma está lá fora, jogando bola, tomando cerveja no boteco, nadando no clube. E você? Está ali, concentrado, alheio, lendo. “Que programa mais besta!”, “Quem lê demais fica doido!” — já ouvi de tudo.

    Mas ler é outra história. Bem diferente de ver série, filme ou novela. Quando alguém filma, quer que você compre a ideia dele. No livro, a escolha é sua. Você decide o que quer, do jeito que gosta, no seu ritmo.

    E qual é a graça, então? A leitura dá assunto pra conversa: política, comida, viagem, cinema… Você não fica com aquela cara de paisagem quando alguém chega pra bater um papo.

    Mais que isso: tem personagem que parece até irmão gêmeo da gente. E, na imaginação, o herói pode ser você — ou o vilão. A escolha é sua.

    Ler não prende. Dá pra aproveitar no intervalo do almoço, esperando no banco, no aeroporto, até dentro do táxi.

    E o melhor: é barato. Um amor que cabe no bolso, sempre por perto.

    Quem lê não engole qualquer coisa que o primo, o padre ou o pastor falam.

    Um livro pode virar tudo de cabeça pra baixo. Pode fazer você mudar de profissão, trocar de cidade, experimentar uma comida nova, viver outros amores, botar gente chata pra correr.

    Pode provocar risos altos na rua, lágrimas diante de um prato de sopa, aquela cara engraçada no ônibus.

    No fim das contas, um livro é uma fonte de prazer sem fim. Pena que nem todo mundo sabe disso.

  • Poema #30: A Voz do Silêncio

    Estou acordado
    e não sonho,
    mas a realidade
    antecipada
    me envolve.

    A barba se me
    desprende do rosto
    fio a fio num frio
    maior onde estou
    me enregelando.

    Tudo se dissolve
    na aparência de ossos
    de que fui formado,
    e que é minha forma
    mais resistente no mundo.

    Mas a terra
    (com seus vermes)
    decompõe ao seu contato
    todo o meu aprendizado
    doloroso da vida.

    E uma cova me absorvendo
    transforma tudo o que fui
    num triste resumo de pó
    que um dia se chamou homem.

    E que lhe deram um nome
    (que tive), mas que a terra
    aterra no tempo o traço
    nominal dessa efemeridade.

  • O crítico perfeito

    Não havia estática no ambiente coabitado por seis espaços, sexta-feira inaugural de um coquetel em meio a formas geométricas suspensas; horas que se observavam tentando segurar a respiração e manter o mesmo compasso entre os minutos.

    Perder-se não é uma brecha no tempo, pelo contrário.

    São chaves que não abrem porta alguma, mas pendulam na possibilidade. Está introduzido o conceito curatorial de luz, memória e tempo.

    São todos os fusos horários em um coro uníssono que nos convida a passar o tempo com quem mais importa: nós mesmos.

    São palavras-abismo, tic-tac fragilizado pelas letras que os retiram das horas e os tornam instalação de arte.

    Na última sala, são as sombras do público — tal corpo heterogêneo e encantado de convidados, artistas e meros transeuntes — transformadas em projeções de luz que revela a história da cidade. É o fazer arte, o abrir dos múltiplos sentidos que fazem algo conceitual existir. Corpos parados, movimento. A estática não existia, e existia: tudo é repouso, sob tensão.

    Enquanto as duas salas centrais introduziam ao mundo, por primeira vez, a versão corpórea do ser que vos fala aos domingos — eu — , em seu corpo dúbio de ser artista e um cpf trivial, abriam-se também, nas telas-smart da fachada principal, janelas outrora fechadas. Elas vazavam a exposição para o presente: o tempo movimental da cidade.

    Câmeras escondidas, como parte da própria resistência artística, desafiavam os limites do espaço físico do centro cultural, deixando escorrer, discretamente, imagens para fora da arquitetura. Palavras em suspensão reagiam aos recortes de acrílicos que desafiavam as leis da gravidade, transfigurando-se em inéditos poemas, de visualização, por vezes, única. As perspectivas beiravam uma infinutude de hipóteses.

    De todas as hipóteses, havia um ser peculiar naquele entardecer. E não se trata dos alguns de quatro patas que zanzaram com seus tutores e não assinaram o livro de presença, mas vieram. Zeca, o meu Zeca, foi um deles. Mas esse, não. Não caminhava ereto como os outros, tampouco observava com a pressa dos sabidos. Preferia o chão. A frieza do piso de pedra, a polidez que refletia o que estava em cima, embaixo. Ali, deitado, encarava o mundo com a solenidade de quem conhece o segredo das coisas que balançam. Em suas mãos, um saco industrializado, aberto e barulhento. O mastigar como forma de não perder o presente.

    Algumas pessoas passavam e notavam. Outras, focadas em suas reflexões artísticas, nada viam além das obras. Havia aqueles que apenas se preocupavam com o enquadramento da selfies perfeita e tropeçavam na existência miúda sem perceber que ali — ao rés do piso encerado — havia filosofia em estado bruto.

    As placas, suspensas por fios de nylon invisíveis, dançavam como se tocadas por uma orquestra de suspiros. Um sopro aqui, um braço ali, e pronto: uma dança ao sabor do inesperado. Eram acrílicos coloridos, mas, vistos de lado, tornavam-se lâminas de tempo, quase perigosas em sua beleza oblíqua.

    Ele — ou seria ela? — permanecia absorto, talvez tentando compreender por que o que aprendera como vermelho parecia tão roxo por baixo, ou por que o verde fazia sombra de ouro. Sons guturais saiam de sua garganta. Palavras disformes como a produção de sentido. Eis que soltou uma risada.

    Não daquelas educadas, mas uma gargalhadinha breve e torta, como quem foi pego de surpresa por uma pequena embriaguez. Silêncio em toda a exposição luminosa.

    Era água com gás.

    Bebida dos deuses, claro — mas só para aqueles que ainda não sabem que deuses existem.

    Em literatura pode-se descrever assim: um espírito antigo num corpo novo. Ou ainda: uma criança-pedra, meio estátua meio relâmpago, comendo batatas como quem consagra o instante; fantasma da manhã seguinte, vinda para lembrar que tudo o que é belo balança — e passa.

    Eu, Bia Mies, apenas observava. No entre, espacial, temporal, emocional e luminoso da minha primeira inauguração artística. Só fui entender tudo quando ouvi minha outrora assistente dizer, com um suspiro de vencida:

    — Athena… Athena. Vamos. Está na hora de dormir.

    Eis o mistério desfeito: o ser filosófico, bêbado de água com gás, era apenas uma criança de quase dois anos, que comera torradinhas demais e decidira deitar-se no chão da exposição para apreciar o tempo à sua maneira. O crítico perfeito.

  • Nada de Novo no Front

    Nada de novo no front.

    Mais uma guerra… E as guerras não têm nada de bom…

    E esta crônica, infelizmente, se repete. Mais uma crônica sobre as guerras, quando não se deveria escrever crônicas sobre guerras!

    Contudo, mais uma vez, preciso escrever que não há nada mais estúpido do que a guerra!

    A guerra interrompe o canto. Paralisa o jogo. Congela sentimentos.

    A guerra separa amores, aniquila sonhos, pulveriza infâncias, desmaterializa as coisas e desumaniza os humanos.

    A guerra vive de farrapos e de figuras esquálidas. A guerra se alimenta do medo!

    E por que fazemos tantas guerras?

    A mesma ganância, o mesmo poder, a mesma influência…

    Às vezes, faz-se guerra pelo simples prazer de guerrear. Assim, animalesco e brutal.

    Às vezes, faz-se a guerra por não ouvir. Por não querer ouvir! Por jamais ouvir o que é diferente!

    Outras vezes, faz-se a guerra por querer gritar verdades específicas que um grupo toma para si como a única verdade!

    No entanto, a verdade mesmo é que as guerras ensinam dor e solidão.

    A tradução de uma guerra está nos olhos marejados de uma mãe que não receberá seu filho.

    A tradução de uma guerra está nos traumas e nas memórias de uma nação inteira que segue enfrentando fantasmas…

    A guerra e os estúpidos que a veneram.

    Estes estúpidos amam bombas, flertam com mísseis, beijam metralhadoras e se insinuam com tanques. Não sabem nada da vida! Não querem vida!

    Tragicamente, são sempre os estúpidos a governar e a iniciar todas as guerras…

    Nada de novo no front…

  • Sobre viver em tempos bárbaros

    Acesso a internet e me deparo com o genocídio em Gaza, o ataque de Israel ao Irã, outra demonstração do exibicionismo doentio dos EUA e o descaso da Indonésia com a nossa menina brasileira. Respiro um ar rarefeito. Falta saliva para deglutir todo esse horror. Penso no sofrimento atroz pelo qual ninguém deveria passar para viver ou morrer… um misto de tristeza, temor e desesperança me atravessa. E, como se tudo isso fosse pouco, me deparo com o vídeo de um homem russo atirando, violentamente, no chão, uma criança indefesa de apenas um ano enquanto sua mãe, grávida, busca um carrinho e luta pelo direito de fugir da guerra.

    Paraliso diante da minha impotência ou covardia para reagir a isso, promover resistência, criar barreira. Engasgo de angústia. 

    O único movimento ético e digno que consigo executar é o de não acreditar que a desgraça do outro é a prova da minha sorte, é o motivo pelo qual devo agradecer minha benesse. Não, esses acontecimentos gritam na minha cara a dimensão da nossa infelicidade, do nosso fracasso na construção de um ambiente promotor de bem-estar. Estamos todos muito mal.

    Sinto-me atirada na arena. Abriram as celas, saíram todos os leões famintos. Mas não sei lutar. Tenho tonteira, náusea, medo, cansaço. Na cabeça, uma dúvida martela o pensamento sem dó: me afastar das redes, das notícias, dos jornais é uma atitude covarde e egoísta ou um ato protetivo da saúde mental? 

    Leio sobre o montanhista voluntário que socorreu a brasileira. Um sorriso pequeno brilha nos lábios. Ele não sabe, mas, junto com o corpo inerte da nossa menina, ele trouxe, do fundo daquele vulcão, uma outra mulher combalida, a esperança na humanidade. 

    Obrigada, Agam Rinjani, por iluminar a escuridão bárbara em que vivemos com uma chama trêmula de bondade. 

    A dúvida ainda martela forte no meu pensamento. 

    E se o preço da minha paz for a alienação, o exílio na minha pequenez? E se a alienação me envergonhar de tamanha covardia e me roubar a paz? 

    Talvez esse tempo não seja definitivo, mas cicatrizante. 

    Talvez eu só precise parar por uns minutos para retomar o fôlego antes de seguir rumo ao cume feito a Juliana.

    Quem sabe meu guia e meu grupo sejam capazes de me esperar…

  • O Poema da Crônica

    Neste final de semana, chega ao fim meu descanso ou férias de inverno em Salvador.

    Como assim, férias, se sou aposentada?

    Ah, mas férias não significam apenas pausa do trabalho ou dos estudos. Recesso, férias, repouso, trégua, ou algo similar pode ser o desligar-se no tempo, o ócio criativo, a desordem feliz da cronologia da vida.

    No meu caso, é a vadiagem da alma. E do espírito.

    É a vida que não é vista nem dividida com ninguém, em que você é ao mesmo tempo o herói e o bandido da sua própria história.

    E aqui, sentindo a brisa do mar, o vento balançando as folhas dos coqueiros, o som das ondas que batem na areia, divago…

    E, como sou generosa, divido com vocês as minhas dúvidas, alegrias e redescobertas. 

    Como aconteceu agora, ao me deparar com este velho e sempre novo poema, perdido em uma página qualquer do mundo virtual.

    Leia lentamente, como quem toma café com um amigo.

    E leve consigo aquilo que te tocou:

    Desiderata

    Max Ehrmann

    “Siga tranquilamente entre a inquietude e a pressa, lembrando-se que há sempre paz no silêncio.

    Tanto quanto possível, sem se humilhar, viva em harmonia com todos os que o cercam.

    Fale a sua verdade mansa e calmamente e ouça a dos outros, mesmo a dos insensatos e ignorantes — eles também têm sua própria história.

    Evite as pessoas agressivas e transtornadas, elas afligem nosso espírito.

    Se você se comparar com os outros, tornar-se-á presunçoso e magoado, pois sempre haverá alguém inferior e alguém superior a você.

    Viva intensamente o que já pode realizar.

    Mantenha-se interessado em seu trabalho, ainda que humilde — ele é o que de real existe ao longo de todo o tempo.

    Seja cauteloso nos negócios, pois o mundo está cheio de astúcia, mas não se deixe levar pela descrença. A virtude existirá sempre.

    Você é filho do Universo, irmão das estrelas e árvores. Você merece estar aqui.

    Mesmo que não possa percebê-lo, a Terra e o Universo seguem cumprindo o seu destino.

    Muita gente luta por altos ideais, e, em toda parte, a vida está cheia de heroísmo.

    Seja você mesmo.

    Principalmente, não simule afeição, nem seja cínico em relação ao amor,

    pois, diante de tanta aridez e desencanto, ele é tão perene quanto a relva.

    Aceite com carinho o conselho dos mais velhos, mas seja compreensivo com os impulsos inovadores da juventude.

    Alimente a força do espírito, que o protegerá no infortúnio inesperado.

    Mas não se desespere com perigos imaginários — muitos temores nascem do cansaço e da solidão.

    E, apesar de toda disciplina, seja gentil consigo mesmo.

    Portanto, esteja em paz com Deus, qualquer que seja sua concepção d’Ele.

    E quaisquer que sejam seus trabalhos e aspirações,

    na fatigante jornada da vida, mantenha-se em paz com a sua própria alma.

    Acima da falsidade, dos desencantos e agruras, o mundo ainda é bonito.

    Seja prudente.

    Faça tudo para ser feliz.”

    Com carinho, Maria Elza.

  • ORDEM, PROGRESSO E… AMOR

    “O amor vem por princípio, a ordem por base / O progresso é que deve vir por fim / Desprezastes esta lei de Auguste Comte / E fostes ser feliz longe de mim” (POSITIVISMO, Noel Rosa e Orestes Barbosa)

    Bandeiras são símbolos que remetem à identidade de uma nação. Constituem-se em autênticas obras de arte por sintetizarem os valores de um povo usando apenas tonalidades e elementos gráficos e temáticos sobre um fundo retangular.

    Aqueles que conceberam a bandeira brasileira, entretanto, deliberaram que as cores (o verde das matas, o amarelo do ouro e o azul dos céus), o losango, a esfera e as estrelas (representando as unidades da federação) eram insuficientes e resolveram encravar uma faixa branca contendo a divisa ‘ORDEM E PROGRESSO’.

    Ideia de jerico! Bandeiras não deveriam conter palavra nenhuma, tanto que são raríssimos os exemplos de países que apõem dizeres em seu símbolo nacional. Uma ou outra traz uma epígrafe em latim e, no caso de países árabes em que o islamismo está arraigado na vida social e política, algumas trazem a inscrição “Allahu Akbar” (“Deus é Grande”), o que não se aplica em nações onde a o Estado é laico.

    Ao contrário de símbolos e cores (representação visual) que são atemporais, palavras de exortação, ainda por cima expressas no idioma nativo que estrangeiros não entendem, envelhecem com o tempo. Refletem o ‘zeitgeist’ (espírito da época), o conjunto de valores prevalecentes na ocasião em que foram concebidos, em nosso caso, início da República (fim do século XIX). Tal qual as ideias que exprimem, tornam-se anacrônicas.

    Sem falar que os termos ‘Ordem’ e ‘Progresso’ evocam os tristes tempos da ditadura. São palavras datadas que traduzem o ambiente das casernas e refletem os jargões idealizados pelos militares para um governo exemplar: implantar ‘ordem’ para impedir manifestações contrárias, subversivas (‘desordem’) e enaltecer o ‘progresso’ a todo custo, atropelando preceitos como justiça social e conservação ambiental.

    Ao invés de ‘Ordem e Progresso’, particularmente prefiro ‘Solidariedade, Harmonia e Paz’. O lema da Revolução Francesa, ‘Liberdade, Igualdade e Fraternidade’ também é inspirador. Outros rebateriam com ‘Deus, Pátria e Família’ (Deus me livre!) ou, quem sabe, ‘Ame-o ou Deixe-o’. Não, não, melhor mesmo é não ter palavra nenhuma e permitir que a eloquente mudez da bandeira fale por si.

    A inscrição ‘ORDEM E PROGRESSO’ teria sido inspirada na doutrina positivista que fazia a cabeça daqueles que conduziram o processo da proclamação da República, incluindo a elite das Forças Armadas. A expressão decorre de uma famosa citação de Auguste Comte: “O Amor por princípio, a Ordem por base e o Progresso por fim”.

    Opa! Pera lá! O lema de Comte contemplava uma tríade: ORDEM, PROGRESSO e AMOR. Só que os doutos que elaboraram nossa bandeira amputaram o vocábulo AMOR. Não há registros das razões que os levaram a abolir o sustentáculo que amparava a totalidade do pensamento do filósofo, tornando manco o tripé que inspirou sua citação.

    Pelo que imagino, os iluminados fardados avaliaram que AMOR era ‘coisa de boiola’, não fica bem salientá-lo no símbolo pátrio, não combina com a ideia de orgulho cívico e virilidade que desejavam transmitir. Atravessávamos um período de rupturas com o fim do império e da escravidão. Melhor priorizar o enfrentamento à conciliação. Não seria boa recomendação incentivar um sentimento que levasse à fraternidade, à união entre as pessoas e à extinção do confronto que sempre inspirou a casta castrense. E, dessa maneira, o Amor foi mutilado da nossa bandeira.

    Segundo minha interpretação pessoal da máxima ‘comtiana’, a Ordem deve estar subjacente ao contexto social vigente. O Progresso traduz o desenvolvimento material. Porém é o amor que deve nortear todas as ações. Sem ele, a sociedade deriva para um cenário sem ética e descamba para a desarmonia social.

    Acho que a supressão do amor explica muito da mentalidade daqueles que se arvoraram em defender nossa pátria. É como se tivessem extraído a alma do nosso povo e semeado o desamor.

    No contexto atual em que a bandeira brasileira foi apropriada por um grupo político extremista e utilizada em comícios e movimentos golpistas, talvez fosse hora de resgatar a frase original do pensador francês para nos guiar nesses tempos de ódio e polarização.

    Se existe um sentimento que está faltando hoje em nosso país é justamente o AMOR. “Só agora no século XXI é que podemos ter uma ideia melhor da importância dessa palavra como catalisadora de misericórdia, de caridade, de solidariedade entre as pessoas”, disse Eduardo Suplicy que, quando senador, lutou sem êxito para emplacar essa pequena, mas tão significativa mudança em nossa bandeira.

  • Crepúsculo da bruxa

    A chuva forte não convidava a sair. Em outros tempos era o momento de dar uma ajeitadinha no visual, montar na vassoura e voar pelo mundo.

    Agora não. A vassoura está ali mas a confiança em subir nela desapareceu. Ou melhor, está adormecida. Não é de hoje que ela duvida se ainda sabe mexer com os poderes que a tornaram notória. No fundo ela acha que ainda conseguiria dar umas voltinhas sentindo o vento nos cabelos. Mas na dúvida prefere não arriscar. E no embalo, não tem muito tempo cortou os cabelos bem curtinhos.

    Se ajeitou no sofá examinando a chuva que caía forte. Da janela via a encosta verde, pulsando de vida com as águas límpidas do céu que balançam os galhos das árvores e lavam as vidraças de sua casa. Suspira, resignada.

    Já tinha sido curandeira. Mas isso fora em outra vida, como se dizia. Há muito não exercia os poderes de cura, só muito eventualmente em casos especiais. Tinha receio de errar a poção ou não saber mais recitar os encantamentos corretos. Pelo sim, pelo não recomendava as pessoas que a procuravam que buscassem outra colega feiticeira.

    Os dotes adivinhatórios ainda existiam mas ela não estava tão segura se ainda eram precisos. Vez ou outra achava que conseguia entender o que se passava na cabeça das pessoas, adivinhando suas intenções e desejos. Qual nada.

    Nos tempos atuais as imagens surgiam borradas em sua mente e mais confundiam do que esclareciam. Isso explicava suas últimas trapalhadas no campo pessoal. Confiara demais na interpretação do que achava que tinha visto nas brumas.

    O resultado tinha sido o oposto do que desejara. Onde esperava presença, veio indiferença. Onde esperava proximidade, veio afastamento. Onde esperava afeto, percebeu decepção com toques de mágoa silenciosa.

    Em princípio, por seu temperamento, achara que a culpa estava nos outros. Mas depois de repetidos tropeços, decidira admitir que talvez fosse alguma falha sua. E depois de muito negar o óbvio rendeu-se as evidências. Seu crepúsculo como bruxa chegara.

    Feiticeiras mais experientes e antigas nas artes ocultas haviam advertido que poderes mágicos não são eternos. Eles somem mais rápido na proporção do descaso que a bruxa tem com eles. A arrogância e a soberba da feiticeira que acha que seus poderes são eternos costumam acelerar o contrário, escutara certa vez. Ao que parecia, era essa sua situação.

    Não havia mais como remediar.

    Os encantamentos recitados em outros tempos ficaram para trás. Agora as palavras eram usadas por ela somente como esconderijo. Usava e abusava de vocabulário rebuscado criando barreiras entre si e o mundo. Gerava cortina de fumaça e sua imagem ficava algo difusa, protegendo-se.

    Ali sozinha em seu sofá, sem coragem de subir na vassoura e contemplando a chuva, chegou a conclusão que se isolara do mundo voluntariamente. E sem olhares capazes de perscrutar sua alma, suspirou resignada. E disse para si mesma que já era hora de voltar ao mundo dos vivos.

    Arqueou o corpo, fez força para levantar mas..voltou a se sentar. Tivera uma ligeira tontura e em meio a névoa que surgiu diante dos seus olhos veio um rosto do passado recente. Um rosto afastado dela por ela. Piscou os olhos tentando fixar a imagem que rapidamente desaparecia diante de si.

    Acomodada novamente no sofá ela sorriu. Aquela visão trouxe a sensação de esperança que há muito não sentia. De que ele, afinal, não seria um caso perdido em sua vida. Sorriu novamente, olhou a vassoura e passou a considerar tentar voar. Nem que fosse para subir só até as nuvens e espiar lá de cima o que ele estava fazendo…

  • Sobre a mentira

    A mentira é também a nossa verdade. É uma forma estratégica de nos relacionarmos com o mundo. Que seria de nós sem esse espaço de manobra que nos permite lidar com a pressão dos outros? Acossado por deveres sociais, éticos, econômicos, não resta ao homem senão mentir.

            O problema não está em mentir ou não mentir. Está no intuito com que se mente. Não se deve, por exemplo, usar a mentira para prejudicar ninguém. Ela é um meio de preservação pessoal, não uma arma para agredir o semelhante. Serve à defesa, não ao ataque. Machado fala de uma “mentira piedosa”, dita para poupar os outros. O tipo mais comum de mentira, no entanto, é o que se inventa para poupar a si mesmo.

              O amor e a política são os domínios em que mais se mente. No primeiro imperam as promessas, as famosas “juras”, que nem sempre correspondem ao que sente o coração. Na segunda prevalece a demagogia, que do seu sentido etimológico de “condução do povo” passou ao de conjunto de estratagemas para enganá-lo. O eleitorado sabe disso, mas não tem outra saída senão fingir que acredita e votar em quem o engana. A isto se dá o nome de logro, digo, jogo democrático.

             A mentira é inevitável porque o homem existe a partir da linguagem, que é por si “mentirosa”. A linguagem não passa de um artifício com que representamos o mundo, e toda representação é um disfarce, uma tentativa fracassada de transmitir a verdade que se quer traduzir. O que dizemos, mesmo que sejamos sinceros, sempre é distinto do que pretendemos significar. Alguém já falou, e com razão, que a verdade é indizível.

              Por outro lado, como isso foi dito por meio de palavras, é também uma frase mentirosa. Deve então haver uma verdade dizível; o grande problema (hermenêutico, filosófico, metafísico) é descobrir qual. Enquanto isso não ocorre, vamos continuar mentindo. 

              Costuma-se perguntar quem mente mais – se o homem, ou a mulher. Diz-se que é a mulher, com base no ardil que Eva usou para iludir Adão e levá-lo a comer o fruto proibido – início de todos os nossos males. Mas isso é uma injustiça com a mulher, que não tinha como adivinhar que a serpente era o Tinhoso, ou seja, o Pai da Mentira. Ficava difícil escapar de alguém que tinha esta simbólica denominação.

           Acredito que o maior mentiroso seja o homem, pois ele faz mais coisas erradas. A mentira é diretamente proporcional ao que se tem a esconder. Visa a nos redimir, pelas palavras, de erros pelos quais não queremos nos responsabilizar. As mulheres, por serem emocionais e afetivas, são também mais sinceras. Deixam transparecer pelo olhar o que está nas entrelinhas e falam através do coração.   

             A pior mentira é a que o indivíduo prega em si mesmo. É o autoengano, que por covardia ou impotência nos alheia da nossa verdade interior. A maioria das pessoas finge ser o que não é para parecer bem diante dos outros. Se parecem bem, sentem-se bem. Saber que os outros as imaginam felizes lhes traz felicidade – uma felicidade superficial, que não resiste ao veredicto do espelho.

  • O verso e seu inverso

    Frequentemente, uma leitura puxa a outra e acabamos em um fim diverso do que planejamos. Foi assim que caí em Massaud Moisés. Melhor, na sua obra A criação literária, que, há um bom tempo, aguardava na estante o meu retorno.

    Procurando ser uma introdução ao estudo da literatura, o livro nos traz uma abordagem sobre os gêneros literários, onde, em certa passagem, aparece a discussão sobre a adequação deles no trabalho do escritor. O ex-professor da USP fala que o autor precisa encontrar o gênero que esteja de acordo com o que pretende transmitir. Caso sua escolha seja inapropriada, ele produzirá uma obra ruim ou irá falsear o conteúdo que tem em mente.

    É claro que a atenção rígida às fronteiras é algo que interessa mais aos teóricos que aos escritores. Entretanto, o próprio Moisés aponta que a má utilização do gênero chega ao público, implicando na sua experiência de leitura e na avaliação que ele faz do texto literário.

    Mais ou menos correta essa teorização (tendo em vista também alguns fundamentos e consequências da ideia) e sendo a causa ou não do fenômeno de que falarei; a questão é que, de imediato, aquela passagem me lembrou certos exemplares da poesia contemporânea. Não por pudor, mas por justiça e retidão na avaliação, devo dizer que corresponde a uma parte da produção poética atual, não à sua totalidade, nem à sua fração mais representativa.

    O que se vê ali, muitas vezes, assemelha-se mais a um texto em prosa repartido do que a um poema. Faça o teste, leitor; você, com certeza, conhece um caso desse. Escolha um espécime dessa tendência e faça a leitura como se estivesse diante de uma obra prosaica, ignorando a sua apresentação em versos. Haverá estranhamento?

    Muitos desses trabalhos, dariam uma ótima crônica ou até um belo poema em prosa, mas a sua expressão se deu por outro caminho. Por que empreendem seu fazer literário pela poesia? Não sei, seria difícil generalizar e precisar. Mas o fato de existir isso nesse gênero, talvez, mostre-nos um desafio, que deve ser enfrentado pelos críticos e, sobretudo, pelos poetas.

    O verso ali existe sem sentido como verso. Ou seja, não é propriamente um verso, mas uma repartição, feita por motivos e critérios que nem sequer conseguimos apreender, mas que, certamente, não são estéticos.

    Isso diz respeito também a um desleixo com a forma, vindo de uma ignorância diante dela. Ignorância no seu duplo sentido, por não se atentar no momento da escrita a esse elemento tão primordial e por não haver conhecimento sobre a própria matéria do seu ofício. Negligencia-se a forma e se atém única e exclusivamente ao conteúdo, no seu sentido mais estrito. O produto disso é um texto em prosa decomposto em linhas.

    O verso existe. Pode parecer algo óbvio isso, mas é necessário dizer: o verso existe como verso. Afinal, se existir sem ser como verso, pode ser uma linha, uma mera partícula de prosa, mas não é verso.

    Não estou aqui a querer defender que esse gênero é sinônimo de verso, muito menos desse na sua forma anterior à moderna; nem objetivo argumentar em favor de preceitos estéticos já há muito tempo superados. Não nutro essas outras ingenuidades. O que afirmo é que o verso não é um mero recorte, nem sua existência como tal deriva de um procedimento aleatório ou do simples ato de apertar a tecla enter no computador.

    Dirão: “os gêneros evoluem, a poesia evolui”. É verdade. E estou de acordo com a ideia e com propostas de experimentação, as quais me ponho sempre aberto. Todavia, essa evolução nunca alcançou o ponto de indicar que a poesia é qualquer coisa e seria problemático se um dia chegasse a isso.

    Além de tudo, é sempre bom lembrar que experimentar é diferente de ignorar. Para aquele, é necessário conhecimento sobre o objeto com que trabalha. Para esse último, basta o outro sentido da palavra. O primeiro resulta em desenvolvimento poético, o segundo, apenas em má poesia.

    O modernismo anunciou e permitiu a liberdade no fazer poético, realizou uma série de experimentações e marcou rupturas. Não obstante, mesmo o concretismo, o mais radical dos movimentos de vanguarda, jamais caminhou para a ideia de que poesia é qualquer coisa. Os que anunciaram encerrado o ciclo histórico do verso estariam no front contrário dos epígonos da prosa picotada.

    Porém, engana-se quem pensa que isso é novidade, coisa do século XXI. O problema é mais antigo, mas parece ter ganho maior força nos nossos tempos. Diante desses que, por vezes, arrogam para si uma suposta verdadeira herança do modernismo; lembro sempre de um artigo de Manuel Bandeira, um dos principais poetas da fase heroica e profundo conhecedor de poesia. Deixo-lhes com uma passagem muito esclarecedora do bardo:

    “Sem dúvida não custa nada escrever um trecho de prosa e depois distribui-lo em linhas irregulares, obedecendo tão somente às pausas do pensamento. Mas isso nunca foi verso livre. Se fosse, qualquer pessoa poderia pôr em verso até o último relatório do Ministério da Fazenda. Essa enganosa facilidade é causa da superpopulação de poetas que infestam agora as nossas letras. O modernismo teve isso de catastrófico: trazendo para a nossa língua o verso livre, deu a todo o mundo a ilusão de que uma série de linhas desiguais é poema. Resultado: hoje qualquer subescriturário de autarquia em crise de dor de cotovelo, qualquer brotinho desiludido do namorado, qualquer balzaquiana desajustada no seu ambiente familiar se julgam habilitados a concorrer com Joaquim Cardozo ou Cecília Meireles.”

  • Ao final de tanto!

    No teatro Pantomima presenciamos uma apresentação onde metade do sentido da obra surge através dos gestos dos atores. A outra metade, você mesmo cria a seu bel-prazer. 

    Em sua mente pode aparecer uma cena de horror quando seus dias estão carregados, ou uma paisagem deslumbrante, sinônimo de como você está de bem com a vida. Sua metade imaginada ao vivo, tem o mesmo gosto do prazer exclusivo de sua escolha, porque somos egoístas no quesito, felicidade, empacotada nas mãos a disposição de um instante para se expor, ou enxugar os olhos marejados. 

    Mas se a cena no palco partir de seres sem rosto, recém chegados nesse planeta, descobrindo o mundo como se acabassem de nascer, o que você escolheria pra começar tudo de novo? Onde iniciaria sua desventura repaginada com uma lista de quero mais isso, ou nunca faria novamente o que tanto me desgastou? 

    O silêncio das ideias, traz a tona o sonho, a espera de um despertar magoado pela demora em se desmanchar em vida.

    Nem todos os atos nos levam a ser o “Lanterne Rouge”, expressão tirada do transporte ferroviário, popular no século XIX, como o último vagão do trem que acendia uma luz vermelha para mostrar que era de fato a última composição.

     Nossas escolhas estão sempre em transformação, se modificam na fila da esperança quase todo santo dia, por isso fica difícil nos chamar de Lanterna nesse campeonato da existência.

     Manter-se a frente das novidades nos permite escapar da sinfonia do Flautista de Hamelin, que conduziu a seu interesse cento e trinta crianças para uma caverna sem saída. 

    “Ao final de tanto viver, não tenha pena dos mortos, mas sim dos vivos, dos que vivem sem amor”. J.K.Rowling.

  • Temístocles, a filosofia e o ônibus

    Por muitos anos Temístocles esperou o ônibus na mesma parada, bem perto da sua casa. O ônibus passava pontualmente, às 7h17, e o levava para a escola. Aos amigos ele contava qual curso faria na Universidade. Tinha planos, como todo jovem sonhador, um tanto bobo, claro. Pouco ciente de suas prováveis desventuras.

    Por dois anos Temístocles esperou o ônibus na mesma parada, bem perto da sua casa. O ônibus passava pontualmente, às 13h01, e o levava para o cursinho. Os professores vez ou outra chegavam fantasiados, repetiam frases de efeito, esbravejavam decorebas, era até bonito de ver. Na hora do vestibular, entretanto, Temístocles recordava do chapéu usado pelo professor quando se fantasiou de Napoleão Bonaparte, e também da barba falsa de quando apareceu como Karl Marx. Equivocava-se na múltipla escolha. Ansioso, talvez. Os tios, maldosos, diziam ser proposital. Não teve êxito no almejado objetivo acadêmico. Aceitou, por fim, ante algumas crises de identidade, outro curso não tão renomado nem tão reconhecido. Era o que tinha para o momento, afinal.

    Por quatro anos Temístocles esperou o ônibus na mesma parada, bem perto da sua casa. O ônibus passava pontualmente, às 18h05, e o levava para a faculdade. As matérias o enfastiavam. Tudo era estranho naquele câmpus. Inclusive a insistência de alguns docentes em debates que não levavam a lugar nenhum. Não reprovou porque a instituição ignorava essa prática. A rota também não era a prevista nos idos tempos. A avaliação do MEC, no entanto, se manteve no mais alto grau. Consolava-se, enfim. No futuro poderia realizar os antigos sonhos. Percalços acontecem, é natural.

    Por um ano e meio Temístocles esperou o ônibus na mesma parada, bem perto da sua casa. O ônibus passava pontualmente, às 18h08, e o levava para a faculdade. Agora estava na pós-graduação. Coisa para poucos. Entretanto, sentiu-se traído em algum momento, quando percebeu (talvez tardiamente) que os professores aprovariam todo e qualquer aluno, indiferentemente do seu aproveitamento. Quase desistiu. Mas faltava pouco, tão pouco. Se apegou à ideia de que um diploma fajuto valia mais do que diploma nenhum. Seguiu desmotivado. Ficou desacorçoado a ponto de não perceber sequer a troca do ônibus, que agora tinha ar-condicionado e poltronas reclináveis.

    Por sete meses Temístocles esperou o ônibus na mesma parada, bem perto da sua casa. O ônibus passava pontualmente, às 5h28, e o levava para o centro. Buscava um emprego, que parecia encantado. A situação era ridícula. Um homem graduado, pós-graduado, honesto e… (diria trabalhador, mas a falta de um trabalho era justamente o que o assolava). Bom, em resumo: só depois de sete longos meses conseguiu um emprego de salário mínimo, como auxiliar de biblioteca. Não se sentiu realizado, óbvio. Mais uma vez, era o que tinha para o momento. Buscaria outra coisa mais adequada ao seu nível nos horários de almoço.

    Por onze meses Temístocles esperou o ônibus na mesma parada, bem perto da sua casa. O ônibus passava pontualmente, às 6h01, e o levava para o trabalho. A biblioteca ruía. Praticamente ninguém a utilizava. Seu serviço consistia em revisar e recolocar os livros nas estantes. Tirar o pó de um local ou outro. Atender os parcos clientes. E só. Numa tarde de terça-feira, limpava o setor de filosofia e, ao reparar a lombada dos livros, achou engraçado o nome do autor: Friedrich Nietzsche. Temístocles jamais lera um livro inteiro na vida. Em hipótese nenhuma admitiria tal coisa, entretanto. Folheou-o e iniciou uma leitura despretensiosa ali mesmo, sentado no velho e bambeante banquinho, em frente à estante ainda empoeirada.

    Por um dia Temístocles esperou o ônibus na mesma parada, bem perto da sua casa. O ônibus passava pontualmente, às 6h03, e o levava para o trabalho. Quase o perdeu porque estava concentrado demais, lendo. Decidira estudar com afinco todos os livros do autor. Como nunca ouvira falar desse tal de NiÉtischÊ? Talvez até o citassem num momento ou noutro, na faculdade ou na pós, mas agora não importa. Organizou, durante a noite, uma poltrona para a leitura na sala de casa. Compraria na Amazon uma luminária amarela, como nos filmes ingleses, para melhor absorção daquele conhecimento. Se permitiria um regozijo, afinal. A verdade é que doía a percepção de que a vida passava entre os seus dedos sem nada acontecer. Sentia um aperto na alma ao perceber que… (Tanta coisa, na verdade). A vida parecia estranhamente triste e interessante. Queria viver. Viver mais. Viver melhor. Viver uma coisa subjetiva que não fosse a espera inútil por nada, por um buraco grande e sujo numa estrada esquecida. Queria degustar algumas migalhas dessa desventura insensata chamada existência. De repente olhava de nariz empinado, irônico, para toda e qualquer situação, como um intelectual naturalmente superior. Sua mente explodia. O niilismo era o seu mais novo amor. Compraria também óculos de descanso. Sentia nas costas o peso da inteligência. E isso era de alguma forma prazeroso.

    Por poucos minutos Temístocles esperou o ônibus na mesma parada, bem perto da sua casa. O ônibus passava pontualmente, às 6h02, e o levava para o trabalho. Na mochila trazia todos os exemplares que a biblioteca dispunha das obras de Nietzsche. Os jornais noticiaram um acidente com um ônibus no dia seguinte. Por sorte, foram trinta e seis feridos e apenas um morto. Graças à destreza do motorista, que salvou do calvário todos os passageiros. Nenhum deles passou mais do que algumas horas no hospital. Poderia ter sido muito pior. Uma verdadeira tragédia. A dádiva, no entanto, foi concedida ao grupo. Por Deus, claramente, que se mostrava mais vivo do que nunca, e pelo motorista, claro. No fim das contas, tratava-se de um milagre, uma segunda chance, uma nova vida para trinta e seis pessoas. Os relatos desesperados impressionavam. O ônibus virou notícia, duas semanas depois, porque foi recuperado e voltou a rodar. A população sabia de cor a placa. Chamavam-no de ônibus do Milagre. Era o Deus vivo, ali, rodando novamente. Filas se formavam para um divino passeio, e ninguém se atrevia a embarcar sem benzimento prévio. O motorista foi homenageado na câmara de vereadores. “Este é um verdadeiro herói municipal”, disse o emocionado Richard Wagner, um dos representantes do povo, no seu primeiro discurso desde a eleição. Na biblioteca ainda há um vácuo na estante de filosofia. A dona Teresa Forster, bibliotecária chefe, disse ter comprado novos exemplares que não foram entregues porque o serviço dos correios é demasiadamente precário. Pois bem, dos males, o menor.

  • O porteiro que era dono de uma ilha de livros

    No trabalho, ele anotava placas e nomes de pessoas. Na hora do almoço, abria livros.

    Porteiro da Praia do Forte, na Bahia, dono de uma ilha de livros, guardião de entradas e saídas. E, sem que ninguém desconfiasse, dono também de uma ilha de livros.

    Começou quando foi fazer o primeiro ano do fundamental. Analfabeto funcional até os 13 anos, vendedor de geladinho, picolés, ambulante para sobreviver. A professora, comovida, deu para ele a chave da biblioteca. Pegou, folheou livros, se sentiu desafiado — adorou. Não largou nunca mais os livros. Hoje, leu mais de mil obras. Rui Barbosa, Machado de Assis, “Capitães de areia”, de Jorge Amado.

    Ele mora em Barra do Pojuca, litoral norte da Bahia, onde trabalhadores partem rumo aos condomínios de luxo.

    Não deixou de ser porteiro. Quer uma vida simples: café, trabalho, almoço, janta, fim de semana com a mulher — e livros sempre por perto.

    Espia a lista: “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, Machado de Assis; “1984”, George Orwell; “Assim falou Zaratustra”, Nietzsche.

    Enquanto muitos trabalham e dormem aos domingos, ele viaja por outros mundos, em épocas e terras distantes.

    Descobriu que ler é viver muitas vidas. E que, ao fechar o livro, as histórias continuam na cabeça dele.

    Muitos imaginam esse porteiro lendo com filho no colo, “O Sítio do Picapau Amarelo”. Ele sorri e cita Machado de Assis: “Não tive filhos, não transmiti a ninguém o legado da miséria humana”.

     Ele lê por prazer — rir, chorar, viajar.

    Agora, quer estudar e prestar concurso público. Sabe: existe uma vida para viver, e outra para sonhar. Este vai longe.

  • Poema #03: Oferenda

    Da onda ao pé da praia,
    recolho as relíquias do mar:
    sigilo
    deslumbrante encanto
    pronúncia sincera de uma fé sem dogmas.

    Preservo meus amuletos.
    Quisera crer somente na força
    das águas que os trouxeram,
    banhados em luz e sal,
    sutil religação do corpo ao mistério.

    Algo estranho, porém, corta
    minhas mãos, meus pés.
    Fio afiado de faca
    cravado nas costas da mansidão.
    Em vão vasculho a areia:
    misericórdia amor tolerância
    estão enterrados tão fundo
    que sequer a mais teimosa esperança
    pode trazê-los à tona.

    Os detritos e os dejetos
    de uma deturpada devoção
    soterram sem piedade
    o que um dia foi oferenda.

  • Dois cafés e um canto de bar

    Engraçado perceber como, com o passar do tempo, o ser humano perde alguns centímetros de altura; não é somente pela coluna que enverga para aqueles que não se exercitam. Mas há um efeito mais profundo da pressão da gravidade no tamanho dos idosos. Há um bom tempo escutei que, se nos medíssemos ao levantarmos pela manhã, após horas na posição horizontal, e depois, no meio do dia, quando já estamos na ativa da vida social, teremos duas alturas distintas. Nunca testei, para ser sincera, apesar da curiosidade latente; pensei em fazê-lo hoje, mas já se vai um tempo relativo desde que me levantei e não encontro nenhum metro à minha disposição no momento. Fakenews da década de 90? Pode até ser. Mas a questão aqui é sobre como tudo em nossa existência é relativo. Vou contar-lhes um pouco sobre o Bochecha.

    De altura mediana – não me recordo se há alguns anos parecera mais alto – um senhor de olhos castanhos, barba feita, uma cabeleira que desafia estatísticas etárias, não totalmente esbranquiçada, e roupas descontraídas caminha pelas ruas da cidade, cumprimentando conhecidos (um número bem significativo, estamos falando sobre uma cidade de interior) e aproveitando a vida na sua fase ‘aposentadoria’. Como todo ser humano que se aproxima da sétima década de vida, tem lá suas manias. A terceira idade é uma libertação, nesse sentido: todo mundo releva as manias de velho de alguns, justamente por estarem… velhos. É quase como as luas femininas, que também vêm e vão com seus próprios ritmos.

    Bochecha, que por definição de um documento primeiro de vida chama-se Antônio, senta quase todos os dias em algum banco da praça principal do centro da cidade, com a ‘galera’ do seu tempo de adolescente. Com os amigos de verdade, toma um café em um bar ali perto. Conversam sobre trivialidades, futebol, política, família e memórias. Isso acontece há um bom tempo e, por isso, é conhecido no estabelecimento.

    Há cerca de um ano ele se prepara para sair de casa como se fosse encontrar alguém especial. Se esmera na escolha da roupa, embora ainda assim não seja nada formal. Há em sua vestimenta e no próprio corpo um luxo de quem se desacostumou à pressa. O sorriso frouxo no rosto é o adorno final que veste, seguindo para o bar. O local que não tem mesas, apenas o balcão com alguns assentos, está quase diariamente vazio entre às 14h30 e 15h45. É então que ele cumprimenta Manoel, o atendente, e se senta em frente à televisão sem volume. Ali, no canto, nem o dono do bar se atreve a iniciar uma prosa, é quase um lugar sagrado na casa. Bochecha pede dois cafezinhos e, mudando as feições como quem se prepara para encarnar um personagem, vai ter com os seus pensamentos.

    Os cafés vêm no copo americano de sempre, aquele líquido preto, com uma colherzinha de inox que descansa como um bicho domesticado e, muitas vezes, não serve para adoçar a bebida, apenas fica ali, uma companhia silenciosa; o vidro do copo é grosso e sua boca enfeitiça: por ela sobe um vapor lento, denso, visível, de aroma que promete um sabor estonteante. Parece alguém que sopra seu hálito quente para uma paisagem de inverno e brinca com a materialização do ar fabricado em seu próprio corpo. Bochecha não percebe pessoas passando pela calçada à sua direita, não sente sequer o cheiro da fritura que borbulha com a produção de salgados destinados à estufa quente da vitrine. Olha para frente, mas não a vê. Olha para dentro.

    Da primeira vez que isso ocorreu, Manoel estranhou. Primeiro, porque Antônio, sempre simpático, chegara com o rosto repleto de dor. Pedira dois cafés, ao invés de um, como quem pede desculpas. Sentara por primeira vez naquele canto apertado do balcão com o corpo mal posto, encaixado torto entre o banco sem encosto e a falta de vontade. A coluna, que antes exacerbava o orgulho de quem está vivo por tanto tempo, era em Bochecha um mero gancho — segurava o corpo pela metade, o resto parecia pendurado em outro lugar, distante, onde a vida ainda fazia algum sentido ou pelo menos fazia barulho. O silêncio ao redor de Antônio é quase palpável nessas ocasiões.

    Desta última vez, ficou por um bom tempo com um dos copos na mão. Despertou do transe de olhar só para a TV e encarou o outro copo. Olhou para os dois copos. Às vezes olhava para o próprio reflexo torto que se desenhava no líquido escuro. Às vezes pro copo do lado, como se ele pudesse responder, sem reflexo. O café já estava frio. Tomou o dele. Segurou o outro copo, sem aproximá-lo de seu corpo. Sorriu. Olhou para Manoel que, vendo o cliente de tanto tempo ali, sorrindo, perguntou:

    — desculpe a intromissão, mas… é que eu fico curioso: por que deixa sempre o segundo café sem tomar? É pro Santo?

    E, com um sorriso só de lábios, sem mostrar os dentes — que não era o seu — , Bochecha respondeu, olhos marejados e o dedo indicador da mão esquerda em riste, apontando para cima:

    — É para o meu amigo.


    O amigo do Bochecha é o meu pai. Esta semana, ao encontrá-lo entre os tapetes de Corpus Christi e ver o tanto de amor genuíno em sua presença, meu coração se alargou. Porque enquanto houver alguém que ainda pede o segundo café, meu pai continuará vivo — nas conversas de quem (ainda) o ama, no gesto repetido, na xícara – ou no copo americano que ele tanto gostava – intacto.

    Obrigada, Antônio.

  • Crônica para Cronistas

    Você que faz crônicas, que olha para a rua, para os rostos, sente o vento e insinua um parágrafo…

    Você que, no banco de uma praça ou em uma calçada, vê o movimento da vida e escreve…

    Você sabe o peso de uma crônica?

    Escrever crônicas é traduzir o complexo jogo da vida. É colocar em palavras o gesto, o beijo, a conversa, a fila e a briga, o trânsito, o nada e a terrível falta de assunto…

    Entretanto, antes de qualquer coisa, é preciso reverenciar quem tornou a crônica esse texto tão especial, multifacetado e acessível!

    Quando penso em escrever uma crônica, peço licença aos mestres que escreveram tantas crônicas simplesmente geniais!

    É impossível pensar na palavra crônica e não pensar em tantos cronistas…

    O domínio do humor em Veríssimo! A sensível ironia de Machado! O manuseio das palavras e o senso de observação de Drummond!

    E a poesia de Rubem Braga!!? Passarinhos e passarada!

    A vida conflitante de Clarice!? Apertos, acertos e desacertos! Quem foi que me disse?

    E ainda apresentam o corte, a força, a leveza e o tempero Paulo Mendes Campos, Lourenço Diaféria, Fernando Sabino…

    Ah! E o cenário carioca sem igual em João do Rio? O Rio tão belo em João, nas suas ruas e nas suas cores! João e sua emoção!

    Você já ouviu falar no Sobrenatural de Almeida? Definitivamente, a crônica esportiva ganhou sua forma com Nelson Rodrigues!

    Gingando com as palavras, soube driblar os adjetivos desnecessários outro cronista do futebol: Armando Nogueira!

    A crítica e o engajamento de Lima Barreto! O Brasil e os seus fantasmas!

    E muitas crônicas certeiras e, por que não, faceiras, escreveram também Cecília, Antônio Maria, Vinícius, José Carlos Oliveira…

    Otto Lara Resende e Stanislaw Ponte Preta.

    A crônica deve a todos os cronistas de ontem a caminhada, a formidável estrada, construída texto atrás de texto!

    A partir do momento em que início uma nova crônica, sei da responsabilidade que tenho ao escrever!

    Sei de todos esses nomes e histórias que fizeram da crônica o texto mais brasileiro de todos: irresistivelmente irreverente!

    Um texto tão feito da gente que parece conversa, olho no olho, fala ao ouvido, abraço convidativo, enfim, a crônica nossa de cada dia…

  • Bandeira branca

    Chega um momento na vida em que é melhor hastear a bandeira branca e desistir de certas lutas. Insistir em batalhas perdidas só serve para agigantar o inimigo que vive dentro de nós.

    É tempo de revisitar as bases que um dia abandonamos por medo ou fraqueza — e reconhecer que, mesmo tendo hoje mais forças, tentar retomá-las só nos faria ver que talvez nunca tenham sido, de fato, nossas.

    É preciso aceitar as baixas no exército de projeções otimistas e evitar justificá-las com o imensurável ou o imprevisível. Fazer isso seria apenas colocar novas imprudências na linha de frente.

    Não adianta escavar valas profundas onde deixamos projetos de vida natimortos, à procura de uma cura milagrosa. Estaríamos apenas tentando prolongar a sobrevida de ideias que talvez só façam sentido em outro tempo, em outro corpo.

    Abrir as campas dos amores decompostos? Pura ilusão. Mesmo que ali estivessem intactos, seriam apenas mortalhas ocas, refletindo — como espelhos — o amor que um dia foi.

    Batalhas perdidas. Depois de muitas vidas vividas, chega uma hora em que é preciso fazer as pazes com elas. Para seguir mais leve, com mais espaço dentro da alma.

    Para mim, essa hora chegou. Bandeira branca hasteada.

  • Modo Economia de Energia

    Vamos falar de bateria social? Para mim, está cada vez mais difícil não prestar atenção, calibrar, recarregar ou mesmo optar se devo usar essa tal ferramenta.

    Todos os dias eu percebo o quanto ela está se tornando indispensável e necessária em nossas vidas.

    Em muitas situações parece existir um desgaste nas relações sociais, talvez pelo cansaço de se expor ao outro, ao julgamento, às interações forçadas.

    Quando mais jovem, eu ouvia contarem que a pessoa estava ficando “rabugenta.”

    Coisas do tipo: não liga não, ela agora deu de falar o que bem entende, sem filtro e sem papas na língua!

    E eu morria de medo dessas pessoas, “sem papas na língua”.

    Bom, considerando que fui uma entre tantos irmãos, oriunda de família grande, pais ocupados e práticos na função de suprir e educar os filhos, tios e tias intrometidos em nossa vida e rotina, eu meio que optei por não ser a mais vista, nem a mais ouvida e nem a mais falante no dia a dia daquele caos chamado família.

    E quem não aparece, não se estabelece, não é? Vivi isso na adolescência e durante mais alguns poucos anos…

    Mas a vida exigiu que eu mudasse, e ao entrar no mercado de trabalho e viver as relações corporativas, por muitos anos fui considerada a colega, ou a chefe, de língua afiada.

    Sem rodeios, eu dizia o que achava daquela situação, ou do comportamento, da falta de atenção, do erro primário ou não.

    De constrangida, passei a constrangedora.

    Hoje, como uma boa observadora que sou, noto que voltei aos primeiros anos da minha vida de adulta.

    Prefiro me fazer de “sonsa”. Se recebo uma observação dura, tipo: “Nossa, como você engordou”, faço de conta que aquela fala não me afetou. Embora eu me sinta mal ou injustiçada.

    A voz no tom mais alto, a observação ferina, a falta de noção, a invasão de privacidade,continuam aí, fazem parte do mundo, das relações interpessoais.

    E eu, por comodismo ou covardia, calibro a minha bateria social.

    Evito quem já conheço como ácido, me afasto de rodinhas de sorrisos falsos e alfinetadas, prefiro a conversa em dupla, bloqueio até motoristas de Uber não simpáticos.

    Sou daquelas pessoas que conhecem os vizinhos, mas não adoram as conversas “inofensivas” entre si.

    Estou trabalhando muito sobre o convívio real, mesmo porque estou longe de me tornar como os monges, que cultuam o silêncio.

    De forma consciente construo a minha maneira de ser, busco o equilíbrio nas interações reais, evito fazer do emoji diário o substituto para falar ou saber como a pessoa está.

    O problema está em “escolher” quem eu acho que merece isso de mim…

    Aí entra a questão central de trabalhar a minha pouca disposição em ampliar o meu radar amistoso.

    De todo modo, sinto que ainda quero fazer jus a não ter só a falsa aparência de pessoa maravilhosa, tranquila, amena, bondosa, de fácil convívio, aquela que é “um amor de pessoa”.

    E assim sigo: um monge de batom, um ser iluminado que finge não ouvir desaforos.

    Tudo em nome da paz… ou da minha paciência, que está sempre no modo “economia de energia”.

    Porque, no fim, quem tem bateria social fraca, precisa saber onde vale a pena gastar os últimos 3%.

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