Folhear álbuns de fotografias antigas — em papel ou digitais — tem me causado um certo estranhamento, uma sensação de que os ambientes, as pessoas, as fisionomias não eram bem assim como estão retratadas.
Na foto do meu aniversário de 15 anos, o vestido que, à época, me fez sentir uma princesa hoje mais parece um tule de cobrir bolo. Difícil acreditar que fui eu mesma quem escolheu aquela roupa, que em nada me valorizava.
Na varanda da casa onde morei com meus filhos pequenos — e que, aos meus olhos, parecia abrigar a família inteira —, a foto mostra um espaço em que mal cabiam quatro cadeiras. E nada tinham a ver com os móveis charmosos de jardim que eu havia comprado.
Meu bolo de aniversário com cobertura de chocolate, que à luz das velas me pareceu brilhante e festivo, aparece seco, simples demais para a importância daquela comemoração.
No começo, pensei que a culpa fosse das fotos: iluminação ruim, ângulo errado, talvez o dia nublado tivesse apagado as cores. Mas, aos poucos, percebi que não eram elas que me traíam — era minha memória, minha lente afetiva, que guardou lembranças muito além dos flagrantes de uma máquina, seja ela qual for.
Minha memória registrou o que foi captado pelos sentidos: o olhar de admiração que me fez feliz naquele vestido, o som das risadas gostosas que ampliaram a varanda, o gosto de chocolate do beijo depois do bolo que iluminou minha boca.
Sabem de uma coisa? Aprendi que é melhor confiar no que ficou registrado em mim: a memória é o mais generoso dos retratistas.
Hoje, por acaso, tropecei no passado. Um banco de madeira, daqueles que encontramos nas pracinhas, a sombra de uma árvore de flores amarelas e a brisa suave de um fim de tarde me levaram à infância. Lá encontrei minha inocência, o castelo suntuoso dos meus sonhos, a paz de saber-me neta da minha avó e todas as garantias de amparo advindas dessa benção.
Bolas de sabão sopradas ao vento pela menina de vestido floral faziam ecoar no tempo as gargalhadas da minha meninice.
Ali eu me senti tão eu…tão tenra, tão solta… merecia ter permanecido aconchegada no colo da ingenuidade por toda a juventude. Mas amadurecer exige experiência com espinhos que, se não cortam profundamente, arranham o belo rosto da inocência. Contudo, a vida adulta tem seus unguentos. A maioria deles mora na amizade.
Que lindeza sentir o abraço de quem nos quer bem, o apoio daqueles que chamamos de pares.
Beijei o passado e voltei sorrindo para o presente.
A pureza ficou lá nos tempos idos, mas veio comigo em seu lugar a esperança, essa menina travessa e cheia de planos.
Que atire a primeira pedra quem não passou por isso!
Todos nós conhecemos alguém que adora quando perguntam: e aí, tudo bem?
Pronto, lá vem a amiga ou amigo traída(o) contar detalhes: como passou a desconfiar, quais sinais ela não percebeu, o quanto acreditou no traste, como foi a certeza, a decisão, o que sofreu, a separação, o pós, o agora. Dependendo do ambiente, terá lágrimas, e você perdeu a sua ida despretensiosa à cafeteria, ou ao salão, ou a tarde que pretendia ser apenas um encontro bacana.
Você acabou de passar por uma das experiências muito comuns em determinadas pessoas: o prazer em contar as mazelas porque passaram ou estão passando!
Ah, tem também a que adora contar as minúcias da receita fantástica do bolo, que você nunca pretendeu fazer!
E pode ser pior! Sem combinar encontro, nada, eis que você acabou de ver a sua amiga ou colega hipocondríaca e pensa: Ah não, justo hoje, que tirei o dia para espairecer!
Dessa não há expectativa. É certeza que a pessoa está à beira da morte!
Sao tantos males, indisposições, exames de laboratório, nomes de médicos e remédios, que é como se você estivesse com um prontuário em mãos!
E nem queira sugerir ou aconselhar nada: terapia, outro médico, mudança de perspectiva, positividade então, nem pensar! Pois se é a doença verdadeira ou cultivada que a coloca em foco!
Fique ali, presente, gentil, apenas ouvindo, pois naquele momento, o palco não é seu.
Mas uma coisa é certa: Vocês acabaram de ganhar o selo de serem: “um ouvido novo para uma história velha!”
Agora é a sua vez: vai contar essa saga pra quem? Rsrs…
Você leu direito: cultura popular do momento. Eu faço essa distinção porque entendo que existe aquela que é eterna em nossa memória. E outra que é tão densa quanto fumaça de xícara de café.
Tem gente que prefere chamar esse tipo de manifestação cultural por outros termos mais pejorativos, alguns até derivados da própria palavra popular. Em respeito às leitoras e leitores que gentilmente se dão ao trabalho de ler o que escrevo não vou repetir as palavras usadas.
Deixo por conta da imaginação e conhecimento de cada um.
Retomando.
Eterno não precisa ser nada do alvorecer do século XX, por favor nem tanto. Mas é algo que remeta à memória sempre.
Por exemplo, eu aprecio chorinho e conheço expressões como “só falta combinar com os russos”. São manifestações que entendo serem eternas em nossa cultura. O “Carinhoso” é um dos exemplos mais bem acabados. Assino embaixo quando o Paulinho da Viola uma vez disse: experimente entrar em um bar lotado, abrir os braços e cantar “vem, vem, veeeem sentir o calor” que na hora surgirá o coro “dos lábios meus, a procura dos teus”. Isso é eterno.
Já algumas expressões, ditas a exaustão nos programas de televisão que são exibidos nas tardes de sábado ou domingo, vão desaparecer. Por quê? Não sei, mas só sei que é assim.
Mas por que estou com essa conversa toda? Para revelar minha total falta de intimidade com a cultura popular do momento. Verdade, verdadeira. A menor e mais simples expressão da moda para mim é como se fosse checheno clássico. Estou no extremo oposto.
Eu sou aquele cara que sabe que no “Sétimo selo”, do Bergman, tem três cenas da Morte jogando xadrez. Isso mesmo, três. Aquela que todo mundo conhece a imagem e mais duas. Da mesma forma que sei quais foram os efeitos da lava no corpo do Anakin Skywalker. Certo, concordo que a cada lançamento do Star Wars a saga volta a se inserir por um breve tempo na cultura popular do momento. Mas saber esse nível de detalhe que contei, desculpa, está além do popular do momento. E é onde me encontro.
Portanto, é assim que eu vejo as coisas: cultura popular é uma coisa, cultura popular do momento é outra. Pode ser esnobismo meu. Tenho um amigo que diz que é porque torço para o Fluminense. Exagero dele, eu acho. Mas a despeito do eventual esnobismo da parte eu simplesmente tenho pouca intimidade com a cultura popular do momento. É bom deixar isso claro.
Esse meu jeito de ser já me colocou em situação constrangedora algumas vezes.
Uma delas foi quando trabalhava no Jornal do Brasil. Sai cedo de casa e quando passei pela portaria do prédio onde eu morava o rapaz que lá trabalhava me disse: você viu, morreu João Paulo. Na mesma hora pensei: o papa, claro João Paulo II estava bem velhinho, como é de praxe entre os papas porque nenhum deles é escolhido na flor da idade.
Já ia embora para a redação quando, sei lá por que, perguntei ao bem informado porteiro do que o papa havia morrido. Ele me olhou e disse: foi em um acidente na Dutra. Na hora me espantei: ué nem sabia que Sua Santidade estava no Brasil? Acidente na via Dutra? Devia estar voltando do santuário Nacional em Aparecida. Mas como é que não escutei nada disso na redação?
Movido por uma inspiração repentina perguntei ao rapaz: mas de que João Paulo você está falando? Ai o garoto me olhou indignado e disse: João Paulo da dupla João Paulo e Daniel.
Juro, nunca tinha ouvido falar deles. Mas para não atrair para mim a ira popular fiz um ar sério e disse por fim: uma perda irreparável.
“Sim, o amor acaba”, assim, Paulo Mendes Campos começou uma das suas mais célebres crônicas. Iniciou com uma assertiva que, no íntimo, sabemos ser verdade; não obstante algumas tentativas de mistificação, como na frase tantas vezes escutada “se acabou, é porque não era de verdade”, nada mais falso do que isso. Até o mais autêntico, puro e intenso amor alcança o instante postimeiro. Expira tendo sido amor.
Há, evidentemente, os casais que findam a vida sem darem adeus ao relacionamento (todos nós conhecemos exemplos desse tipo). Acontece, porém, que o ocaso do amor não deixou de ser possibilidade ali, apenas se chocou com outro termo, de essência mais fugaz do que aquilo que une duas almas.
O desenlace pode ter um encontro marcado, alguns eventos são capazes de sublimar até o mais sólido dos sentimentos. Por vezes, vem de surpresa; quando ainda fazia planos e passava a noite com pensamentos enamorados, chega-lhe a conversa que não ansiava e nem previa. Em outros casos, termina o relacionamento e não termina o amor, nada pior, nada mais doloroso. O que era um se faz dois, e tudo chega ao fim. “De repente, não mais que de repente.”
Todavia, nem sempre é tão de repente assim. Depois de anos, você se dá conta de que a companheira que vive ao seu lado se tornou apenas uma pessoa com quem se compartilha o mesmo teto e a mesma cama. Eros não habita mais aquela casa, como não habita mais o seu peito. Sumiu-se a amada, sumiu-se o amante, sumiu-se o amor, não se sabe quando e nem onde. Foi-se, “para recomeçar em todos os lugares e a qualquer hora”.
Sim, o amor acaba. Entretanto, afirmar isso não é dizer tudo.
O sujeito que ama não pode aceitar simplesmente o caráter perecedouro da sua relação, muito menos o da afeição que sente pulsar nas mãos que lhe afagam. É inconcebível.
Enquanto amar, lutará internamente contra a dita lei. O amor alcança um epílogo, mas com o seu será diferente. Sabe que o que bate a um só tempo em dois corações é tão efêmero quanto a existência, fenecendo durante ou com ela; contudo, sempre desejará ir além.
Entre suas convicções, pode estar a de que a flama cessa; inclusive, até tendo com si que existe a possibilidade de a sua chegar ao cabo em algum momento futuro e jamais sabido de antemão. Convicto da dimensão finita do amor genérico, não pensa no fim concreto do que vivencia e sente, apenas no perpétuo prolongamento dele.
Para quem ama, ele é eterno e se manifesta como tal no tempo específico que lhe pertence. Possui uma temporalidade própria, só compreensível no coração dos que se deixam afetar pelo fogo de que fala Camões. Ademais, a eternidade se faz em cada átimo da duração do amor, todos os segundos estão impregnados dela.
O amor acaba, no entanto, o sentimento amoroso pretende ser infindável na sua duração transitória. Todo amor almeja ser eterno em sua finitude.
Paulo Mendes Campos acertou ao afirmar que o amor acaba. Mas a melhor tradução do sentimento amoroso partiu de Vinícius de Moraes:
“Que não seja imortal, posto que é chama Mas que seja infinito enquanto dure.”
A Sociedade Teosófica é um núcleo da Fraternidade Universal da Humanidade, sem distinção de raça, credo, sexo, casta ou cor.
Pode ser considerada uma das poucas democráticas disponíveis a todos os povos. Ela encoraja o estudo da Religião comparada a Filosofia e Ciência, e Investiga as leis não explicadas da Natureza, e os poderes latentes no homem.
Ela não impõe nenhuma crença sobre seus membros, que se unem espontaneamente pelo objetivo comum de buscar a Verdade e o desejo de aprender o significado e propósito da existência humana, dedicando-se ao estudo, reflexão, pureza de vida e serviço voluntário.
A Sociedade enfatiza a liberdade de pensamento, da pesquisa, e do debate, um pouco raro de encontrarmos em qualquer esquina.
Uma das cofundadoras foi Elena Petrovna Blavátskaya, escritora Russa, com personalidade complexa, dinâmica e independente, que morreu em 8 de maio de 1891. Depois de um casamento frustrado ela deixou o esposo e partiu em um longo período de viagens por todo o mundo em busca de conhecimento filosófico, espiritual e esotérico, e passou por inúmeras experiências fantásticas porque acreditava na importância da procura pela verdade, através da troca de ideias e não apenas seguir o que lhe apresentavam como definido.
Belo exemplo de alguém que lutou por suas crenças, mesmo após um nascimento frágil onde foi pequena, fraca, e quase não sobreviveu, sendo batizada no dia seguinte porque os pais imaginavam que não duraria muito.
Como o sentido da vida se divise em 2 partes, onde a primeira é vingar como criatura com saúde, Elena conseguiu. A segunda, é se encontrar com maturidade e clareza, ela atingiu os dois.
Não é sempre limitada em dois estágios essa receita, poderíamos incluir os anos de vivência, sofrimento e avanços.
Como foi a vida de outra figura histórica, importante na literatura mundial, que ainda menina ficou pelo caminho, mas deixou sua marca, junto a uma história única para contar. Foi Annie Frank. Escritora que conseguiu com que suas palavras se tornassem livro, graças a gentileza de seu pai. Ela descreveu seus dias no esconderijo em Amsterdam, no precioso diário intitulado “Diário de Annie Frank”, onde descobrimos seu desejo em escrever, bem antes de ser levada pelo III Reich e morrer de tifo no campo de concentração.
—”Não quero ter vivido em vão como a maioria das pessoas.” (Annie Frank).
Pegue um pouco de Elena ou Annie e jogue fora outras coisas com a água do balde.
Não se deixe levar pelo contágio alheio, ele sempre tem uma preferência, que não é você.
Viajava de ônibus outra vez pelo interior do estado. Na época, isso me era tão rotineiro quanto a atual preocupação com os seguidos e rechonchudos boletos, que parecem ter um prazer mórbido em aparecer sem avisar no meu e-mail, ou, de quando em vez, aqueles mais austeros e resolutos, na minha caixa de correio. Saímos de Porto Alegre com vinte minutos de atraso por conta de algum problema no trânsito próximo à rodoviária. Chovia torrencialmente desde a madrugada.
O ônibus lotado bufava um ar quente que nos tragava a cada curva. O incômodo era grande também pelas estradas sofríveis e esburacadas que pegamos assim que saímos da região metropolitana. O asfalto picotado do interior havia se tornado uma marca registrada. Como atestado de bravura ou conquista pessoal, os viajantes se vangloriavam por atravessar o estado naquelas condições, tal qual tivessem escalado o Everest ou corrido uma maratona. Nem todos caíam nesse papinho, entretanto. A chuva, por exemplo, não quis nos acompanhar.
Na noite anterior eu tinha ido a um show do Vera Loca e, quando tirei da mochila um dos livros que havia comprado na feira, minha cabeça ainda rebobinava o refrão de Meu toca-discos se matou. O autor era português, Jorge Reis Sá, o livro: O Dom. Comprei-o na esperança de uma agradável surpresa, afinal, sempre estimei os portugueses. O valor compensava: dez reais.
Não fosse o seguido flerte com o horizonte, terminaria a leitura ainda no ônibus. O pampa é um convite ao deslumbramento estético/paisagístico, mesmo com o sistemático e antagônico solavanco das estradas. No bagageiro, a minha mala dançava espremida dentre tantas outras com uma dezena de livros e uma muda de roupa suja. Em verdade, não sei por que escolhi O Dom para a viagem.
Após alguns sacolejantes capítulos, fechei-o um tanto enfastiado. Ao meu lado estava um homem que não parecia interessado em nada além dos próprios devaneios. Me olhou com certa curiosidade e, com um aceno de cabeça, indagou o motivo da minha reação. Disse-lhe que não estava gostando. O Dom parecia uma cópia fajuta e sem escrúpulos do Ensaio sobre a cegueira, do Saramago. Só não reprovava mais aquele livro porque o autor tinha muita coragem em propor aquilo e, de certa forma, a editora também demonstrava coragem ao publicá-lo. O mercado editorial, por sua vez, é uma eterna incógnita. Livros de colorir para adultos são mais vendidos do que o Érico Veríssimo, a Nélida Piñon, o João Ubaldo Ribeiro, vai entender.
Meu colega sequer respondeu, apenas fechou o cenho. Eu continuei a leitura na certeza de que incrementaria o meu veredito. Em certo momento pedi licença para ir ao banheiro. Tradicionalmente, escolho o banco da janela por conta da claridade, mesmo que em alguns casos dependa da complacência do viajante ao lado. Demorei um pouco para retornar porque um ônibus cambaleante é sempre um desafio para as bexigas inflamadas.
Quando voltei, o horizonte fisgou minha atenção até entrarmos numa pequena cidade. Pensei ter deixado uma impressão ruim ao me queixar tão acintosamente. Aquele homem não conhecia o Saramago, nem o Érico, a Nélida e o João Ubaldo. O mercado editorial talvez tenha lhe soado grego. E eu não passava de um reclamão excêntrico com o qual estava disposto a não gastar uma frase. Cogitei puxar um assunto qualquer a fim de melhorar minha reputação, mas enquanto elegia alguma banalidade, o ônibus parou na rodoviária e, novamente com um aceno de cabeça, me cumprimentou e saiu. Ainda o assisti andar de maneira solene e ereta até o táxi ali próximo. Sem uma única palavra, sujeito estranho, pensei.
No bar da rodoviária tocava a música do momento: Borracho y loco, do Vera Loca. Justo quando os zunidos veralouquianos pareciam ter abandonado minhas têmporas. Outro passageiro acompanhava a música aos sussurros. Se havia mais um remanescente do show por ali ou se era apenas um ouvinte aleatório, jamais saberei. Coincidência ou não, agora não importa. O ônibus saía da cidadezinha quando abri novamente o livro e encontrei na primeira página uma dedicatória breve, num português gentil, agradecendo a crítica sincera. Havia também uma assinatura em rabiscos.
Não consegui terminar a leitura na viagem. Demorei, na verdade, uns três ou quatro dias para digerir aquela cena e ler os capítulos finais. Até hoje acho um tanto ilógico encontrar um escritor português num ônibus pinga-pinga, vagando por horas e horas e entrando em qualquer biboca no interior do Rio Grande do Sul. O seu nome não estava na programação oficial da Feira do Livro de Porto Alegre e na internet também não havia nenhuma evidência de que tivesse viajado ao Brasil naquele período.
Não me impressiono tão facilmente, às vezes sofro com a alcunha de ranzinza e mal-humorado, mas isso não condiz com a verdade. O fato é o seguinte: mudei de ideia quando terminei a leitura. Sendo franco, o livro é muito bom. E o pior é que depois também gostei de mais uns dois ou três livros dele. Desconfio um pouco dessa minha opinião porque ela talvez se ancore mais nesse encontro insólito do que nas próprias narrativas e, analisando bem, isso demonstraria um lapso de personalidade para o qual jamais me dobraria. Então, hoje só lido com certezas. Isso tudo foi uma brincadeira esdrúxula de um sujeito com senso de humor questionável. E ponto.
Pelo menos era essa a intenção — empurrar todo mundo para o novo aparelho brilhando no rack da sala.
Depois o vinil virou CD. O CD virou arquivo. O arquivo virou link perdido no YouTube, no Spotify e em mais uma dúzia de plataformas que juram guardar toda a música do mundo, mas nunca têm aquela faixa que você procura.
O cinema, coitado, saiu da tela grande para cair no streaming. Cada filme numa prateleira diferente. Uma assinatura pra cá, outra pra lá. E a gente gastando mais pra assistir em casa do que gastava no multiplex.
Mas sabe de uma coisa?
O mundo não topa ser só virtual.
O dono da mercearia aqui do bairro — esse mesmo que pesa o tomate olhando para o céu — tem um clube do vinil. A turma combina tudo pelo WhatsApp e aparece uma vez por mês, com LPs debaixo do braço. A cena é tão resistente quanto o café passado no coador de pano.
Moro em Belo Horizonte. Em Minas, sabe como é: o passado gosta de passear devagar. Nos sebos do Maleta, meninos e meninas folheiam discos como quem acaricia um gato. Um por um. Com aquele coraçãozinho retrô batendo no peito.
Na Galeria do Othon ainda vendem vitrolas antigas. Aparelhos de DVD. Toca-fitas.
Raridades? Sim.
Extintas? Nunca.
Quando a internet chegou, decretaram a morte do livro físico. Kindle seria o caixão elegante do papel. Pois bem: entro numa livraria e ela continua lá, firme, vendendo páginas de verdade. O que mudou foi o alcance — se não acho o livro na esquina, compro em qualquer canto do planeta.
Se o PDF virasse moda definitiva, aí sim os sebos fechariam as portas. Mas basta uma visita rápida pra ver que o papel resiste mais que muito casamento.
E, no meio disso tudo, descobri uma BH dentro da outra. Um Brasil dentro do outro. Camadas de vida: umas analógicas, outras digitais. Nenhuma se exclui.
Eu mesmo. Prefiro a passagem comprada pelo celular a enfrentar fila de guichê. Prefiro receber meu pagamento por pix a encarar uma segunda-feira no banco.
Mas ainda prefiro chope com amigo a conversa por WhatsApp. Livro no parque a tablet refletindo o sol. Filme clássico achado por acaso a caça desesperada no streaming.
Ninguém existe sozinho.
Ninguém existe só no on-line.
Nem só no off-line.
Há vários jeitos de viver dentro do mundo — uns do passado, outros do presente.
E, sinceramente, não tem por que não ser tudo junto.
Quero-me a mim como nunca antes, como quem encontra uma versão esquecida de si no fundo de uma gaveta emperrada: força um pouco e… – Crrrrr….. [o reconhecimento é recíproco pelo cheiro]
Quero-me a mim com a presença de um personagem que não sofre expectativas: meras sinas de ator, sempre certo de poder controlar algo ou alguém
Quero a beleza e a felicidade que se mantêm intactas dentro de um presente que se mantem por conta própria: torto luminoso misterioso coisas que dão certo por mero acidente
Quero-me a mim sem os resquícios do passado – este já foi e, por ter sido, deixou migalhas no tapete: memórias são assim, sem modos
Quero-me a mim sem pretensões além Quero o hoje: a pele a voz o peso, a altura a visão que tenho do mundo da varanda do meu apartamento onde tudo parece mais honesto quando o vento chacoalha as minhas plantas, tantas
Quero-me a mim como quero a meu cachorro, que me sorri com ar de quem entende tudo sabe de tudo e, ao mesmo tempo, de nada – ainda assim, acerta o essencial
Quero beber da fonte que alimenta meu rio, esse rio d’água que me percorre por dentro e muda de profundidade conforme a claridade do dia
Trinta e sete… o mesmo número que veste os meus pés agora }amortecem protegem isolam; guiam guardam estabilizam e guiam meus passos faz só 37 primaveras
Quero a centelha da vida que não erra apenas segue; ainda nos dissabores odores pequenas esquisitices que cunhamos… cotidiano
Da chuva que atravessa o branco do dia nublado de hoje…
Do brilho opaco e insistente da luminária – única – a que acendeu e resplandesceu sobre o paralelepípedo antes do anoitecer, na rua…
Dos poucos pares de pernas que caminham neste fim de clarão dominical…
Da vida Do aqui Do agora
Quero a felicidade do barulho das gotas na telha: compassos simulando o escrever uma carta? usando a minha Olivetti para alguém, que nunca a receberá – embora eu insista em enviar
Da vida Do aqui Do agora
Nada mais quero além de querer-me Sempre e mais como quem volta a um lugar amado – a despeito de tudo – sabendo aquele se mover um pouquinho todos os dias
O dia prometia ser quente e úmido — combinação ideal para cabelos rebelados e para quem trabalha imóvel ao ar livre. Depois de entregar o filho à vizinha que o levaria à creche, voltou ao seu reino: um quarto-cozinha-banheiro, tudo no mesmo perímetro afetivo.
Abriu o velho armário que rangia como se quisesse dar opinião. De lá tirou seu uniforme de batalha: camisa preta com gravata borboleta, colete branco, calças bufantes que herdara de algum século passado, meias brancas e sapatos pretos tão lustrados que poderiam servir de espelho, se não fosse ele já ter um.
No espelho, iniciou o ritual. Espalhou a base branca, delineou os olhos caídos — reflexo do estado civil com o sono — e arqueou as sobrancelhas como quem diz “não fui eu”. Demarcou o sorriso e, por fim, a lágrima no canto esquerdo, que sempre julgou exagerada, mas o público adorava um dramalhão. Vestiu as luvas, ajeitou a boina e testou o sorriso congelado. Parecia irreconhecível. E ligeiramente ridículo. Perfeito.
Desceu pela ladeira até o parque municipal, seu escritório a céu aberto. Ali ficava por horas, imóvel, trocando de pose apenas para evitar virar uma estátua de sal. Ganhar dinheiro era quase um milagre; mas, com sorte, rendia legumes, arroz e, quando a semana era boa, até um iogurte para o filho.
O público passava, ria, deixava moedas. Ele reconhecia cada reação: o adulto curioso, a criança encantada, o adolescente que tentava fazê-lo piscar. Em suas poses — a mão ao céu, a cara de susto, o herói carregando o mundo — havia mais ciática que simbolismo, mas ninguém precisava saber disso.
Estava justamente no papel de Atlas contemporâneo quando ouviu uma voz conhecida. Congelou ainda mais do que a profissão exigia. Um grupo de crianças da creche vinha em direção a ele. No meio delas, seu filho.
Ótimo. Justo hoje que o suor ameaçava soltar a maquiagem e revelar que o palhaço, na verdade, precisava urgentemente de um ventilador e não de aplausos.
As crianças o cercaram, rindo e rodopiando, como se ele fosse um planetário com pernas. O pânico subia como a maré. Se a base branca derretesse, fim do mistério.
Seu filho parou bem diante dele, apertando os olhos como quem tenta decifrar um código secreto.
— Professora… por que o palhaço está chorando?
Ele prendeu a respiração.
— Sabe, meu pai tem um trabalho sério — mas lá em casa ele gosta de fazer palhaçada pra mim.
A gente ri um montão. Mas ele nunca chora…
E ali ficou o palhaço: imóvel, suando, com a lágrima oficial pintada e outra teimando em escorrer, tentando decidir qual delas era a mais difícil de explicar.
Uma mão vasculha alguma coisa que se possa comer no meio do papel, do plástico…
Outra mão manuseia as teclas de um computador em um lugar distante e escreve este texto…
Alguns olhos procuram nas calçadas e nas caçambas de lixo um alimento qualquer…
Em uma esquina de uma grande cidade, outros olhos observam o espetáculo de luzes e imagens nos telões expostos na avenida.
Como podemos viver, ao mesmo tempo, tantos avanços tecnológicos e ainda presenciarmos a fome?
Carros elétricos, robôs, cirurgias a distância, redes sociais, mas há gente passando fome.
O ser humano já foi à lua (mesmo que haja gente que não acredite), mas não resolvemos a fome do outro.
O ser humano faz foguetes, pontes, edifícios gigantescos… Perfura o fundo dos oceanos em busca de petróleo, cria satélites e uma estação espacial, mas a fome, a fome de doer a barriga e tirar a dignidade, nunca é resolvida!
É sintomático perceber que a ganância e a perversidade vão construindo o painel do paradoxo: luxo e lixo, vida e morte, paz e guerra… Indissociáveis? Maquiavelicamente indissociáveis…
A fome desfigura as pessoas, tornando-as objetos das cidades. Estes seres, carregados de esquecimento, tristeza e fuligem, transitam pelas ruas atônitos, perdidos dentro da própria fome…
E sente fome a criança que equilibra bolas em um sinal.
E sente fome a mãe que não tem trabalho, mas precisa alimentar desesperadamente o seu filho.
E sentem fome centenas de milhares de homens sem nome, uma legião de espantalhos vivos espalhados pelo mundo…
Fazemos planos mirabolantes, erguemos cidades inteiras no meio do deserto, desenvolvemos mais e mais ferramentas para facilitar as demandas do dia a dia, mas a fome, bruta, pesada, palpável… a fome, continua…
Ao redor do globo, toneladas e toneladas de comida são jogadas fora.
A fome, implacável, escancara um mundo difuso e contraditório.
As redes sociais dominaram, não há como negar. Se aconteceu, está na rede. Se não estiver, deve ser irrelevante, e nem interessará a ninguém.
Em tempos não tão longínquos, eram as redes de televisão e, antes ainda, os jornais e revistas.
Os expoentes da comunicação tornavam-se celebridades, a quem conhecíamos pelos nomes.
Redatores, colunistas, apresentadores e repórteres passavam a ser nossos “amigos”.
Ah, e o que dizer dos publicitários?
Esses eram mais do que celebridades, praticamente encarnavam o sucesso! Eram os responsáveis, tanto pelo nível de audiência das redes de comunicação, quanto pela aprovação dos mandatários da nação.
E estas eram expressas nas famosas pesquisas de opinião dos grandes institutos, cujos resultados fariam o “cliente” cair em desgraça, ou ganhar ascensão!
Eles se tornavam os gurus, seus nomes e credibilidades eram amplamente reconhecidos, pois cuidavam da imagem que chegaria ao povo.
Os tempos mudaram. E como!
Hoje, nossa vida precisa ser vista, comentada, invejada, copiada, seguida.
E, quanto mais seguidores tivermos, mais e mais conteúdo devemos produzir.
Falando nisso, adivinhem onde vi a notícia de que foi sancionada a isenção do Imposto de Renda (IR) para quem ganha até R$ 5 mil e o aumento da taxação para altas rendas?
Por surpreendente que pareça: em um Reels da rede social do governo federal!
Ah, jovens, vejam o quanto vocês mudam o que quiserem! “Reels, storys, flopar” e expressões do tipo, já fazem parte da linguagem institucional!
Vamos esclarecer esse negócio de musa inspiradora. Para início de conversa na tradição clássica ocidental eram nove as musas, todas filhas de Mnemósine, divindade grega da Memória, com o todo poderoso Zeus. Elas eram Calíope, Clio, Érato, Euterpe, Melpômene, Polímnia, Terpsícore, Talia e Urânia.
Cada uma inspirava a arte nos homens e nas mulheres, sempre de alguma maneira direta ou indireta como é próprio nas relações do divino com nós mortais. Por conta de suas qualidades é impossível dizer que quem escreve se inspira em uma musa só.
Calíope era a musa da eloquência e de certa forma está presente em tudo que se escreve ou fala. As vezes se confunde com verborragia mas para essa não há divindade determinada. Ao menos não para os gregos. Calíope é uma das musas inspiradoras mais presentes na minha vida, admito, porque já escutei e li que sei usar bem as palavras, com desenvoltura e quando há motivo mais ainda. Isso dito inclusive por você.
Culpada, meu escriba! Mas siga.
Vamos lá, quando alguém ou alguma coisa é citada, pode se atribuir a inspiração a Clio. Ela era a musa da História, a que conferia fama às pessoas. A fama aqui está subentendida como algo bacana, a despeito de atualmente se relativizar a idéia lembrando que existe boa e má fama. Mas no tempo da Grécia clássica fama era coisa boa. Daí ter sua musa.
Para aqueles momentos mais leves e mais amorosos ninguém escapa da influência das musas Érato, inspiradora da poesia lírica; e Polímnia, da poesia amorosa. São elas, as vezes em separado as vezes juntas quem fazem os escribas escolherem aquelas palavras mais adocicadas e que eventualmente tem poder de envolver e encantar quem as lê.
A da música é Euterpe e ela é para poucos haja visto a quantidade de gente desafinada que agride as mais belas canções já compostas. Fora os que acham que são inspirados por ela e insistem em escrever e musicar uns pseudo-versinhos para lá de sem vergonhas. Daqueles que só a claque aplaude, sabe?
Na sequência vem Terpsícore, musa da dança. Mesmo no ofício de juntar letras para formar palavras ela traz inspiração pois nada mais gracioso que um texto que se move aos nossos olhos.
Há a dupla de musas que parecem se opor: Melpômene, a tragédia; e Talia, a comédia. Essas duas usualmente não estão presentes ao mesmo tempo para inspirar. Mas há exceções. As vezes elas se conjugam com outras, como Érato ou Polímnia, o que traz bastante sabor ao que se escreve e explica o amor trágico ou a comédia romântica. Tudo obra da conjunção delas.
Por fim a última e para mim ainda inexplicável musa é Urânia.
Por que inexplicável?
Porque ela é musa da astronomia e da astrologia.
Sério?
Sim enquanto astronomia é ciência astrologia está mais para…
Não fala, sei sua opinião a respeito da astrologia.
Tá bom.
Devo entender depois de sua vasta explanação que é por isso que não sou sua única musa?
Mais ou menos.
Mais ou menos?
Sim, porque isso de ser musa não é assim algo tão exato.
Então me explica mas por favor vê se me enrola pouco.
Olha, eventualmente você é a única musa. Por outras vezes a inspiração é diversa, vem de várias musas ao mesmo tempo que se apresentam a me inspirar e o que escrevo é resultado dessas múltiplas influências. Mas há também aquelas situações em que uma única musa se mostra para mim com diversas formas. Isso é mais comum do que parece dado o caráter multifacetado dessas musas.
Pode ser mais claro com esse negócio de “caráter multifacetado dessas musas”?
Claro. Eu quero dizer que por vezes a mesma pessoa pode me apresentar a inspiração de mais de uma musa. Como se combinasse …
Calíope e Polímnia?
Sim, como se combinasse a inspiração essas duas musas. Daí ser a musa multifacetada.
Uma dessas pessoas seria euzinha aqui?
Sim, você.
Mas tem outras na sua vida.
Ao redor de mim você quer dizer. Sim é natural porque a convivência permite beber em fontes variadas.
Você bebe muito?
Com moderação, você sabe.
Hum, sei. E como é viver sob a influência de tantas musas?
Tem dias que vai bem, em especial quando estão calmas. Mas tem outros em que elas estão encapetadas.
Ah é, tem isso de musa endiabrada?
Tem sim, aí é um Deus nos acuda delas querendo inspirar a todo custo, eventualmente até impondo sua inspiração sobre as demais. É uma luta.
E como você resolve?
Respiro fundo e deixo fluir. Naturalmente a que estiver mais presente, mais conectada com o que penso e sinto no momento leva a melhor sobre as demais.
E quem costuma levar a melhor mais vezes? As musas de face única ou as multifacetadas?
É fácil, basta ver o que eu escrevo.
Nem sempre, porque as vezes suas palavras simples escondem emoções herméticas.
Mas para senti-las e entende-las não é difícil.
Ah não? O que é preciso, meu querido escriba?
A receita vem de longe, de um escriba anos-luz maior do que eu.
De pé na frente do último cinema de rua da cidade, Seu Alírio leu mais uma vez, com vagar, o cartaz que anunciava a demolição daquele edifício. Do seu edifício, hoje mais decadente que ele próprio e tão velho quanto. Aquele lugar tinha sido sua casa por quase oitenta anos e não podia permitir que viesse abaixo sem se despedir. Triste, respirou fundo e entrou.
Percorreu os corredores escuros já conhecidos de memória, abriu a cortina que dava acesso à sala de projeção e avançou. O ruído estrondoso dos aplausos fez com que encolhesse os ombros, tão pesado era. Olhou em volta e reconheceu os amigos com quem convivera ao longo dos anos. Todos estavam ali por ele, e sorriam, e Seu Alírio lhes devolveu o sorriso, comovido. Não faltou ninguém: os elegantes Rhett Butler e Scarlet O’Hara o cumprimentaram com um aceno de cabeça; Don Corleone, sempre fiel a seus amigos, fez-lhe um gesto gentil com a mão; Norman Bates e sua adorada mãezinha apenas o olharam com discreta admiração; Gilda, a mais bela de todas, tirou as luvas antes de mandar-lhe um beijo com os dedos; o senhor Charles Foster Kane deu-lhe uma piscadela e apontou para Rosebud, encostado num canto da parede, como se dissesse: “Viu só o que eu quis dizer?”; Ilsa Lund, vestida como se fosse viajar de avião pra muito longe, sussurrou: “You must remember this, a kiss is still a kiss…”; a senhorita Mary Poppins veio até ele levitando sobre as poltronas e o conduziu a seu lugar de honra, no centro da sala. As luzes se apagaram, a grande tela se iluminou e Don Lockwood apareceu dançando e cantando debaixo do maior toró que já houve naquela cidade.
Horas depois, quando as lembranças já não cabiam em sua memória e a saudade iria a qualquer momento fazer seu coração explodir, Seu Alírio deixou a sala, percorreu de volta os corredores escuros e ganhou a rua. Foi devagar para casa, arrastando o peso quase centenário de seu corpo. Ia cruzar a avenida quando um homem baixinho, vestindo um terno preto muito sujo e amarrotado, lhe ofereceu uma flor. Não disse nada. Apenas sorriu, coçou o bigodinho, virou as costas e saiu com seu andar desajeitado, fazendo piruetas no ar com a bengala. Seu Alírio aproximou a flor do nariz e aspirou. Fechou os olhos e compreendeu que a vida pode ser, sim, como no cinema: basta que se acredite nisso. E ele acreditava. Entrou em casa assoviando baixinho a canção Smile.
Pois é: eu ali, de carona com um amigo que não via fazia um tempo, recém-chegado da Europa, que me chamou para um chope — e eu aceitei. Só que, infelizmente, não sei se tinha tomado iogurte vencido, ou algo parecido, mas a playlist do meu amigo estava horrível.
No caminho, “Beija Eu”, da Marisa Monte; depois, “Já Sei Namorar”, dos Tribalistas. Até que, de uma hora para outra, me toca Ivo Pessoa, com “Quando Eu Te Vi”.
— Linda, né? — É…!
Ouvir Ivo Pessoa, para ser mais generoso, é como ouvir a vizinha do apartamento de cima andar de um lado para o outro, de salto alto. Pior que barulho de furadeira, pernilongo em noite de calor ou a empregada da vizinha cantando louvor.
— Falta muito para esta música acabar? — Três minutos. — O quê? Não tem como tirar? — Não.
E começou, ali mesmo, a cantarolar, numa espécie de karaokê involuntário. Uma música que fala de anjos, outras vidas, aves, aquele romantismo boboca de adolescente apaixonado, espinhento, virgem.
Prefiro mil vezes A Hora do Brasil ou as músicas do Padre Marcelo.
— Nossa. Mas que trânsito, hein!? — Pois é. — Falta muito pra chegar?
A todo momento eu perguntava: “Tá chegando?”. Tem gente que luta para sobreviver a um amigo com TOC; outros pelejam com um amigo de tique nervoso; alguns tentam tolerar o boca-livre, o que pede dinheiro emprestado, o que assalta a geladeira, o pessimista, o ruim de bola. Mas um que realmente merece o Nobel da Paz é aquele que sobrevive — resignado e mudo — à playlist pavorosa do amigo.
— Mas você não gostou mesmo, não é? — Meus ouvidos já viveram tempos melhores.
Ivo Pessoa é aquela música besta que mistura vibe de novela das seis, barulho de obra e o som de um caco de vidro arranhando o capô do carro.
Minha alma queria descer, pegar carona em outro carro, com outras pessoas, outra playlist.
Quando finalmente desci, falei pra ele:
— Da próxima vez coloca outra coisa. Até barulho de obra.
Meu amigo riu. Eu não.
Fomos tomar um chope que, numa hora dessas, é só o que se pode fazer.
“Sou a favor da pena de vida, se o sujeito cagou, pisou na bola, tem que resolver aqui, não pode sair fora” (Pedro Luís e a Parede)
É assustadora a frequência com que ocorrem nos EUA massacres perpetrados por armas de fogo em escolas, que deveriam ser ambientes seguros de sociabilidade e aprendizado. Famílias são destroçadas, crianças com uma vida pela frente são executadas friamente por razões fúteis.
As motivações para tais atos bárbaros podem ser racismo, ódio, terrorismo, paranoia… Mas há um fator que perpassa esses trágicos eventos: a facilidade com que os americanos têm acesso a armas de fogo.
É uma chaga americana que explica por que o país mais rico do planeta, o único onde o número de armas supera o de habitantes, continua sendo o mais violento e um dos que têm os maiores índices de criminalidade, campeão nas taxas de homicídios, suicídios e acidentes fatais provocados por artefatos bélicos.
O que impressiona é que nada parece indicar que isso vá mudar. A indignação após a consumação desses atos de selvageria não é suficiente para provocar mudança e, passada a comoção, o assunto cai no esquecimento.
A solução que se propõe para as carnificinas é armar professores e funcionários das escolas. Poderiam também, quem sabe, permitir que as crianças andassem com pistolas nas mochilas para aumentar sua proteção. O problema causado pela liberação das armas seria resolvido armando mais gente. Cômico se não fosse trágico.
Mas há também um componente ancestral que dificulta a modificação dessa fixação doentia, enraizada na cultura ianque, herdada dos tempos do faroeste, que faz com que ser contra armas represente perda de votos.
Um exemplo pode ser verificado nos filmes de ação que inundam cinemas e lares. Havendo um vilão malvado, o enredo sempre se livra desse personagem incômodo fazendo com que tome um tiro letal que o tire definitivamente de cena. São raros os casos onde a sorte do malfeitor é determinada por um julgamento onde fique comprovada sua culpa e definido seu encarceramento. Seu destino não é resolvido nos tribunais mas por uma pistola justiceira. A mensagem é que, como a justiça não funciona, a solução é que lhe seja metido um balaço. A ‘sentença’ de pena de morte é definida e aplicada pelos ‘mocinhos’, à revelia dos trâmites processuais.
Através da eliminação física do malfeitor, supõe-se que suas culpas foram expiadas. O espectador pode dormir o sono dos justiçados pois o meliante não voltará a ameaçar a pobre vítima nem abalar sua certeza de que a justiça foi aplicada e o delinquente teve o fim que merecia. Morto, não corre o risco de escapar das grades e voltar às ruas para vingar-se.
É como se os cidadãos da autoproclamada maior democracia do mundo confiassem menos em suas próprias leis do que no poder mortífero de um atirador, detentor do direito divino de fazer justiça com as próprias mãos.
Resta a pergunta: com a morte os crimes foram de fato redimidos? Minha opinião é um enfático NÃO! Uma vez que um preciso projétil arrancou-lhe a vida numa fração de segundo, sem que ele vivenciasse qualquer sofrimento, ele não teve oportunidade de ponderar sobre suas ações maléficas ou arrepender-se, pagando efetivamente por seus pecados através da perda da liberdade e da triste sina de ter parte de sua vida enclausurado no inferno de um cárcere. A verdadeira justiça só seria aplicada se o criminoso, ao invés de ter sua carcaça inerte levada a um cemitério, fosse conduzido em vida para a cadeia, amargando anos de tormenta por seus crimes atrás das grades de uma soturna cela, tendo oportunidade de avaliar se seus atos insanos valeram a pena.
Àqueles que argumentam que penitenciária não regenera ninguém, que pensem no aprimoramento do código penal de maneira que a prisão cumpra seu requisito não apenas de recuperar o criminoso para a sociedade como fazê-lo efetivamente pagar pelo crime. Não na outra vida, mas aqui mesmo. É isso que a sociedade espera do sistema jurídico.
Não é essa a lição que Hollywood passa. Perpetua a visão de que é somente através das armas que resolveremos o problema da injustiça e da criminalidade. Com isso fortalece um sentimento de incredulidade nas instituições em promover a segurança do cidadão.
O direito ‘sagrado’ de ter uma arma é considerado tão básico que consta expressamente da Constituição americana, associado a um sentimento de liberdade, proteção do patrimônio e segurança individual. Triste é constatar que se traga para cá essa deficiência dos nossos irmãos do Norte.
Num país onde questões mais graves como a fome, a miséria e a desigualdade social imperam, importar o bangue-bangue da cultura americana é uma boa maneira de lançar uma cortina de fumaça sobre as verdadeiras mazelas do nosso país.
Ao invés de investir num futuro melhor para nossos jovens, estamos, com essa obtusa política armamentista, cultivando a morte e a violência, transformando ruas e parques, não em espaços comunitários de convivência, mas em arenas de combate, onde o outro é visto como ameaça em potencial.
Graças a Deus, sou forte. Sou guerreira. Sou abençoada.
E por isso, os retalhos das minhas memórias não pesam. Não me ferem. Não me entristecem. Sou apenas espectadora deles.
É bom quando se olha para uma casa velha, caindo aos pedaços, e o que vem à mente não é a ruína, mas o gramado verde na frente, as cadeiras onde eu me sentava para observar as meninas brincando, os cachorros correndo soltos, o picolezeiro passando com sua buzina, e as tardes que se esvaíam lentamente…
Revejo meu cotidiano simples e humilde com muitas cores.
Os olhos azuis, cor do céu, do meu bebê.
O vestido vermelho de bolinhas brancas da mais velha.
Os cabelos cacheados e dourados da filha do meio.
O verde da grama.
O bege do pelo do cachorro.
Quantas lembranças!
Em quarenta e oito horas, revive-se meia vida.
Foi assim o meu passeio neste feriado de Finados.
Mas não foi só isso.
Vi também a pequenez dos grandes túmulos de mármore. A vaidade inútil das letras douradas. A ostentação póstuma com que os vivos tentam driblar o esquecimento. E pensei: debaixo de sete palmos de terra, todos somos iguais: não importa a lápide que se erga sobre a cova.
E, por fim, uma última constatação: como o tempo transforma nossas medidas!
O coreto da praça de Jardim é lindo… mas tão menor do que me recordava!
Por tudo se paga um preço nessa vida. Inclusive, pelo saber. Minha vó costumava afirmar: “a ignorância é uma benção.” Certamente, esse era seu jeito de dizer que certas verdades são difíceis de digerir. Na época, eu ouvia suas frases enigmáticas, mas o sentido íntimo desses ditos não me tocava a pele. Hoje, voltam à mente vestidos de significado. Cada vez mais, percebo que saber é temer. Listo a seguir as descobertas divulgadas na internet, nessa última semana, que balizam minha afirmação: o consumo diário de refrigerante dietético aumenta o risco de demência e acidente vascular cerebral; o presunto e a salsicha (que eu amo) são tão cancerígenos quanto o cigarro (que já abandonei); não existe nível seguro para o consumo de álcool; as noites insones, seja pelos efeitos da menopausa, noitada, maratona de filmes ou por qualquer outro motivo, são prejudiciais à saúde física e mental. E para completar a chuva de lamentos: o docinho depois da refeição, o bolo da tarde, o chocolate amado, não é tão inofensivo quanto parece. O açúcar, agora, é um veneno que inflama o corpo.
Diante disso tudo, acabei por concluir que tenho, como dizia minha mãe: “dedo podre para escolhas”, ou melhor dizendo, tenho muita afinidade com o rei, Roberto Carlos: “tudo o que eu gosto é ilegal, é imoral ou engorda.”
Talvez a saída seja ressignificar o desejo, ampliar os horizontes, mudar perspectivas, se aventurar em lugares ainda desconhecidos e apostar nos benefícios de uma vida bem cuidada.
Mas, como o Diabo sempre atenta, acabei de receber de uma amiga, pelo Instagram, um vídeo em que o cara canta um pagode que diz mais ou menos assim: “Você pode parar de beber whisky, conhaque, vodka ou cerveja, você pode fazer exercícios e se alimentar direito…. Não vai adiantar p. nenhuma, você vai morrer de qualquer jeito.”
Depois dessa, quase me entreguei ao pote de Nutella. Mas, por sorte, um pouco antes, tinha lido um artigo sobre envelhecimento ativo. Aí, ponderei (bônus da maturidade), avaliei minhas chances, tracei perspectivas, e, por fim, decidi vestir a roupa da caminhada.
Sempre que fico tentada a chutar o balde, penso naquela plaquinha de vaga para idoso (injusta e inapropriada) que mostra um velhinho de bengala, bem curvado. É só fazer isso e já me vem uma vontade imensa de cuidar no presente do futuro.
Virar na vida uma página é mostrar atitude. Existem páginas mais pesadas, outras que quase se rasgam no manuseio e aquelas que praticamente pedem para ser viradas. Mas tenha certeza que na vida sempre há alguma página a ser virada. Quer você queira, quer não.
As razões para se virar uma página em nossas vidas existem e nunca são poucas. Deixar para trás uma parte da própria história é um momento forte, de decisão firme que não permite vacilo.
As motivações que nos fazem mover a mão e mandar aquela página para o passado são várias. Algumas boas, outras ruins, as vezes alternadas, as vezes misturadas.
Se houvesse uma receita para se virar uma página na vida talvez ela começasse pela leitura da própria página. Se o que foi escrito ali perdeu o sentido não adianta lamentar. Se a leitura do episódio incomoda, rápida irá a mão à folha para vira-la.
Nem sempre virar a página significa se livrar de um problema.
Problemas todos têm. Eu tenho os meus, você tem os seus. Eu sei a medida que os meus me afetam e quão difíceis eles podem ser. Da mesma forma, você conhece os pesos dos que te afligem. Por isso não entro em competição de problemas por diversas razões. A primeira porque é uma grande imbecilidade, o que dispensa citar as demais.
Assim as páginas viradas de cada um são suas páginas, incomparáveis porque elas trazem sua história gravada. Boas anedotas ao lado de momentos difíceis, alegrias, amores, tristezas, corações partidos e por aí vai formando o mosaico de nossas vidas.
Elas não vão sumir, tenha certeza. Até porque continuam por ali, encadernadas juntas as demais, inclusive aquelas que ainda estão em branco. As páginas viradas simplesmente foram empurradas para o passado. Se der vontade de rememorar, basta procurar com calma.
Afinal, página virada não é página rasgada. As rasgadas são outra estória. E requerem o dobro de coragem.
O filme Maestro com Bradley Cooper traz a história de Leonard Bernstein às telas mundiais, que foi o gênio da regência dos anos 1950 a 1990. É uma oportunidade de conhecer e entender por que Bernstein sempre foi o centro das atenções em qualquer reunião, e de como ele hipnotizava a todos, homens e mulheres, através de uma combinação de sedução e exortação para compartilhar sua paixão estética ou política.
Muitas vezes parecia que ele desejava levar todos para a cama – mas antes de dormir, eles se entusiasmava com uma dúzia de tópicos, desde seu amor pelo “jazz” até a dificuldade de encontrar Deus.
É possível reconhecer a intensidade de um ser, um hiperfoco e perfeccionismo – o que ressoa mais do que tudo é o calor abrangente que trouxe para cada espaço e para cada pessoa que conviveu a seu lado.
Essa foi a coisa mais Bernstein que ficou marcada em sua trajetória distinta como a de todos, porém, talentosa ao extremo, vivida intensamente com amor e desejo.
Alguns detalhes das páginas do livro de sua filha Jamie, “Famous father girl”, acabaram sendo inseridos no filme, incluindo uma cena em que Bernstein esmaga rumores de sua infidelidade e bissexualidade durante uma reunião com Jamie.
Na década de 1950, os Estados Unidos ainda eram marcados por valores extremamente conservadores, tradicionais e homofóbicos, por isso Leonard dificilmente seria aceito como era naquela sociedade — por isso o casamento com Felícia Montealegre foi intrigante: apesar de ter sido uma esposa traída, nesse caso por outro homem, ela o aceitava.
O casamento de Leonard e Felícia, com quem teve uma história de amor imponente e destemida, foi incomum sim — e ainda assim continha os elementos de todo casamento; as especificidades foram tornadas de alguma forma universais.
Nem todo casal briga no Dia de Ação de Graças enquanto um balão gigante do Snoopy passa pela janela – mas toda pessoa casada, e os filho dos pais, reconhece essa briga.
O filme mostra uma carta de amor à vida e à arte, por isso Maestro é essencialmente, um retrato grandioso e emocionante de família e dedicação aos mais próximos. Devido ao seu estilo despojado foi uma Avis rara na cena cultural do século passado.
Quando ia escrever seus livros, o escritor Moacyr Scliar aproveitava, como dizia nas entrevistas, os intervalos da vida: a poltrona de um avião, a palestra do fulano, o aeroporto — qualquer brecha que, entre um compromisso e outro, a rotina oferecesse.
Para nós, leitores, não é diferente. Lemos na sala de espera do médico, no sacolejo de uma viagem de ônibus, no aeroporto, esperando um amigo no shopping. Quem lê há muito tempo sabe bem o que é isso. Tenho amigos que, apenas para me causar inveja, juram que não se incomodam com barulho; eu, ao contrário, acho que o silêncio virou um artigo de luxo — e pagaria qualquer coisa por ele.
Como grande parte dos leitores, tudo o que quero é um refúgio. Que, como já disse, anda cada vez mais raro.
Se abro um livro em casa, num domingo à tarde, o vizinho resolve comemorar o aniversário da esposa, com direito a karaokê, música alta (quando estou lendo, odeio qualquer tipo de música; qualquer uma, até as minhas preferidas) e aquelas palmas estrondosas. Tento ser tolerante. Tento.
Aí aproveito a sala de espera da dentista, abro o livro, começo a minha viagem… mas alguém liga o WhatsApp, manda e recebe áudios, depois desliza o dedo pelo feed do Instagram. Lá se vai o meu silêncio outra vez.
Outro dia, no parque, procurei um lugar com sombra, longe dos casais, das crianças, dos grupos com violão. De repente, um sujeito para perto de mim, diz “bom dia”, começa a se alongar e — adivinhem — está acompanhado do seu inseparável radinho de pilha.
Não sei se você reparou, mas, atualmente, ninguém faz nada em silêncio: academia, caminhada, natação, estudos, dirigir. Só resta ao leitor a sua luta diária por um pouco de sossego.
Outro dia, sentado num banco bem no centro da cidade, minha viagem pela imaginação era frequentemente interrompida pelo flanelinha: “Aí, gente boa!”, “Aqui, gente boa!”.
Abro o livro, fecho. Torno a abrir, fecho de novo. E assim, sem sucesso, vou tentando.
Tento a sala de espera do teatro, do dentista, a praça, a biblioteca, o pronto-socorro, as gôndolas do supermercado, um lugar debaixo da árvore do estacionamento. Às vezes — como já me aconteceu — vou ler em frente aos hospitais, onde não se pode buzinar, falar alto ou fazer festa.
Exageros à parte, é maravilhoso quando, em meio a este mundo tão barulhento, encontro um lugar quieto e posso saborear, finalmente, o livro. Só a imaginação me ajuda a suportar a vida. Tudo o que peço é que me deixem em paz.
Sabe aquela habilidade de reagir rápido, com graça, esperteza e a frase perfeita? Pois é… não veio no meu pacote. Diante de situações inesperadas, viro uma estátua com sorriso de paisagem. Meia hora depois, claro, surgem respostas brilhantes — todas atrasadas, todas inúteis. E eu fico furiosa comigo mesma.
Por isso admiro profundamente quem tem presença de espírito. Aquela gente que rebate na hora, cria na hora, brilha na hora. E dois casos sempre me vêm à mente.
O primeiro é de um político das antigas, mestre em se safar de qualquer saia-justa — e com memória prodigiosa (ou assessores eficientes soprando nomes). Em um evento, aproximou-se um sujeito que a equipe rapidamente identificou como “filho de fulano”. O político abriu um sorriso:
— Que prazer em vê-lo! Como vai seu pai, o nobre…?
— Deputado… meu pai morreu há cinco anos!
Ele nem piscou:
— Morreu pra você, filho ingrato! Para mim segue vivíssimo na lembrança.
Sério, quem pensa tão rápido? Outro exemplo é de uma conhecida que recebeu aquele clássico telefonema do “sequestro da filha”. Sem perder o fôlego — nem a fé — ela respondeu:
— Irmão, não tenho dinheiro nem filha! Sou irmã de caridade. Largue essa vida, venha para o bem, vamos orar juntos.
Bip bip. Golpista convertido ou, no mínimo, arrependido.
E aí fico pensando: o que esse povo tem que eu não tenho? Fui atrás de explicações sérias.
Resumindo o que aprendi: algumas pessoas conseguem aproveitar o microsegundo entre ouvir e responder para inventar alternativas inesperadas. É o tal do pensamento “fora da caixa”, que não se contenta com o óbvio e prefere o caminho criativo — às vezes absurdo, às vezes genial.
Ou seja: quem tem presença de espírito escolhe se divertir com a própria inteligência.
No fim das contas, presença de espírito é isso: um talento raro, quase uma arte marcial da criatividade. Alguns já nascem com cinturão preto. Eu, por enquanto, sigo no nível iniciante — procurando o tal manual que ninguém escreveu, mas que bem poderia existir. Até lá, sigo treinando. Vai que um dia o timing e eu finalmente combinamos um encontro. No caso deles… fazendo acrobacias. No meu, talvez só uma caminhada leve. Mas seguimos tentando.
“Vou ter que gastar meu décimo terceiro”, pensa o pai. Ou a mãe.
“O serviço vai dobrar”, lamentam a vendedora, a empregada, o patrão, o carteiro.
“Preciso variar e garantir o estoque”, diz o quitandeiro gourmet.
Ovos, uvas, pêssegos e toda a sorte de frutas ditas natalinas.
Ah, sem esquecer da famigerada e hilária uva-passa.
Os avós, os tios ricos, os pais de primeira viagem, os de última ou até os de ocasião fazem uma vistoria geral na casa. Afinal, Natal é festa da família.
É hora de mandar lavar os tapetes, consertar cadeiras, fazer inventário de copos, pratos e talheres.
Hum… chegou a hora da decisão: vai mesmo ter amigo-oculto?
Aquele costume sem autor conhecido, o verdadeiro elefante branco na sala, ou no espaço-cenário onde a família vai se reunir.
A tal brincadeira que não brinca, mas insiste em aparecer.
Apesar de todos, e cada um , jurarem que detestam.
Ou não?
Ah, sei bem…
Presentes úteis, inúteis, indefinidos, caros, errados, “nada a ver”.
Comprados com ou sem boa vontade. Com antecedência ou de última hora, em lojas cheias, vendedores apressados, cuja maior preocupação, no momento, é a comissão de venda.
Esse é um assunto tabu.
Assim como o tio inconveniente que bebe e conta a mesma piadinha de sempre;
a prima de nariz empinado que vai dar “só uma passadinha”;
o décimo namorado que a irmã leva às festas de família .
E que ela jura que desta vez “é prá valer!”
E assim se tem a festa de Natal.
O Menino Jesus?
Dorme, cercado de ovelhinhas e reis magos, debaixo da árvore pisca-pisca comprada na promoção relâmpago do site da Shein.
E o espírito natalino? Ah…
Esse talvez esteja embrulhado, sem etiqueta,
perdido entre os papéis de presente e as sobras do peru.
Para mim, segunda era igual a prima chata que a família faz questão de enaltecer na sua frente, porque é obediente e comportada, ou aquele irmão mais velho que serve de referência para tudo o que você não faz direito, ou aquela amiga da escola muito boazinha, que por isso mesmo não servia como companhia para as aventuras da adolescência.
Segunda sempre funcionou como aquela régua social que mede os procrastinadores, os menos abastados de disciplina e engajamento nos projetos de futuro.
Eu realmente tinha pinimba com a coitada. Ficava na espreita só sacando seus defeitos e se, por ventura, não tivesse, eu inventava. Como a gente faz quando não gosta de alguém de cara, sabe?
O abrir dos olhos no pós-domingo era batizado com o desabafo: maldita segunda-feira! Sempre chega para tirar o gosto do fim de semana. Parece pai na porta da festa antes da meia-noite. Trabalho que surge no final do expediente de sexta. Email de chefe cobrando relatório.
O curioso era esbravejar essa reclamação para o universo, ainda que o final de semana fosse tedioso pela falta de ânimo para sair da cama.
No final do domingo, aquele enjoo de véspera aumentava até chegar um certo refluxo no pensamento. Logo invadia aquela indisposição de existir, igual a gente sente quando chega visita em casa e não se estava esperando.
Acontece que o tempo é um homem espirituoso, provocador, que gosta de fazer graça com as nossas convicções, e, pelo visto, tem um certo apreço pelos dias mais injustiçados.
Só pode ser essa a explicação para o que vou contar aqui ou simplesmente sou a prova de que a lei do retorno existe e vocês foram as testemunhas escolhidas pelo destino.
Há vinte e cinco anos, grávida do meu único filho, e na necessidade de realizar uma cesárea devido a quadro hipertensivo, fiz um único pedido ao obstetra: marque qualquer dia menos segunda-feira.
Tudo certo, meu herdeiro de alma nasceria numa terça-feira, cinco de novembro.
Assim seria, se o Senhor Tempo não estivesse disposto a vingar toda minha implicância com uma de suas filhas.
Comecei com as contrações no domingo. Minha mãe, pela contagem das luas, alertava que havia chegado a hora. Eu rogava aos minutos que me deixassem alcançar a terça, que até de nome me parecia mais simpática.
Nada feito, Bernardo nasceu em uma estonteante segunda-feira. Trouxe com ele uma advertência da vida em relação ao desperdício de cinco dias na espera de um sábado e meio domingo para ser feliz. Sim, porque depois do almoço, era só preguiça e angústia.
Desde então, as segundas têm um gosto especial, um sabor de brigadeiro com refrigerante, um lançar de dados na esperança do seis, uma mensagem desejada no celular.
Não tem como ignorar, o tempo é um piadista insistente e a vida uma mocinha muito surpreendente.
Lembram que falei que vocês seriam testestemunhas de uma certa lei do retorno? Pois bem, acabo de nascer como cronista nesta segunda-feira ensolarada de paixão. Vocês são cúmplices dessa traquinagem jocosa do destino.
Sou mãe e filha desse dia tão primoroso que deveria se chamar Primeira-feira.
Quem diria que a donzela rejeitada passaria à condição de mulher amada.
O mundo dá muitas voltas e, pelo visto, prefere as segundas-feiras.
O hábito começou muito cedo. Dizia “papá” e “mamã” com um prazer especial em jogar com as sílabas. “Pa… pá”, “mã… mã” – os sons iam e voltavam até que ele os guardava para depois, quando quisesse, brincar de novo. Com o tempo foi juntando outros fonemas (“bu… bu”, “pi… pi”, “tó…tó”). Um dia teve febre e ouviu “dodói”; enamorou-se da palavra e ficou repetindo-a em seu delírio.
Cresceu e foi refinando as escolhas. Agora prestava atenção não apenas aos sons, mas também ao casamento que havia entre eles e o sentido. Às vezes a união lhe parecia perfeita, como em “croque” (sentia o atrito de um fonema no outro), “bafo” (a palavra terminava num sopro) ou “empecilho” (pronunciar essa foi um obstáculo que venceu a duras penas).
Noutras vezes, achava que palavra e som eram como estranhos. “Erisipela”, por exemplo. Ficaria bem para designar um metal precioso (“Usava um colar de erisipela legítima”), mas não para indicar uma doença. O mesmo se diga de “faniquito”, que mais parecia nome de passarinho (“Na manhã clara e ensolarada, faniquitos em bando cortavam o azul do céu”). Teve pena da tia por ela sofrer de uma doença cujo nome não combinava em nada com as ulcerações que havia em suas pernas.
Descompassos como esse lhe deram uma vaga ideia das incoerências do mundo. Havia palavras bonitas para coisas feias e palavras feias para coisas bonitas, assim como havia pessoas lindas com uma alma escura, e outras, de rosto nada atraente, com um espírito luminoso. O mais das vezes – foi aprendendo – o nome era uma falsa aparência das coisas. Isso não o levou a desistir da coleção, só que agora ele tinha um critério; passou a dividir as palavras conforme a semelhança que tinham com os objetos ou seres que designavam.
Agrupou de um lado, por exemplo, “sanfona”, “crocodilo”, “miosótis”, “turmalina” (se bem que essa mais parecesse nome de mulher) – e do outro “presidente”, “cadeira”, “promotor”, “recurso” (palavras que não excitavam a língua e que a gente, quando as ouvia, não tinha a curiosidade de saber o que significavam).
À medida que envelhecia, tornava-se mais exigente com a sua coleção. Algumas palavras lhe pareciam insípidas, por isso ele resolveu esvaziar parte do baú. Uma das primeiras que jogou fora foi “jucundo”, cuja hipocrisia não mais suportava (parecia designar algo triste, mas significava “alegre”). Trocou “jucundo” por “meditabundo”, palavra mais honesta e de acordo com seu atual estado de espírito. Jogou fora também “vagar”, “flanar”, “leviano”, e por pouco não se livrava de “paciente” (“prudência”, que ia substituir a outra, aconselhou-o a esperar mais um pouco).
A coleção agora tinha pouquíssimos vocábulos, mas cada um pesava tanto que o homem não conseguia transportar o baú. Deixou-o embaixo da cama e nele foi inserindo, sem muito entusiasmo, as palavras que ainda o impressionavam (sabia que, se parasse de colecionar, morria). Um dos novos termos foi “achaque”, que vagamente lhe soou como uma dança fúnebre de tribo africana (riu ao perceber que ainda tinha imaginação poética). Outro foi “próstata”, que lhe pareceu o som de uma chicotada (ta-ta). E um dos últimos foi “tumor”, que ele sem graça botou no lugar de “humor”.
Depois que morreu, os amigos e parentes ficaram intrigados com aquele baú embaixo da cama. Abriram-no e nada encontraram em seu interior. “Ele era meio tantã”, comentou a mulher. “Passava horas diante desse baú vazio.” Resolveu guardá-lo, como lembrança, e aos poucos foi metendo nele os objetos inúteis da casa.
Sair da vida de alguém é uma decisão unilateral. Não há consulta nem aviso prévio. Às vezes, se o processo é lento, a outra pessoa percebe. Às vezes, não.
Os motivos para a ruptura na convivência podem ser vários. O mais comum é dar um basta em uma relação tóxica. Depois dos mais variados episódios, das pequenas descortesias até insultos de diferentes graduações, finalmente se toma a decisão. Para alguns ela vem logo, para outros muito além do tempo razoável.
A toxidade tem seus graus. Ela é mais percebida nas situações extremas. Mas nos graus mais leves é igualmente nociva.
Seu efeito contaminante não é imediato e arrasador. Ao contrário, é suave porque envenena pouco a pouco. Os bons momentos convivem lado a lado com as situações ruins, mascarando-as.
Por isso é difícil de detectar que há uma intoxicação em andamento mas ela está lá. Dia a pós dia criando depósitos de substâncias nocivas dentro de nós. Minando nossa vontade, nos transformando em algo que não somos.
O que viramos? Um pouco de tudo e menos de nós. O basta é o ponto de ruptura da relação e da existência daquela persona que permitimos que surgisse. Uma representação simplória do nosso “eu” que pode ser tudo menos “nós”. Nossa vasta complexidade de faces foram submergidas enquanto nadávamos no lago frio e parado dessa relação tóxica. Mais um pouco e nos afogamos.
O “basta” traz à toa quem somos e andávamos esquecidos. Não à toa, a leveza se acomoda a partir do dia em que decidimos negar a outra pessoa nossa companhia, desatando as cordas gastas dos restos insistentes do afeto que estava moribundo.
Cria-se distância entre os dois.
Pela natureza desse tipo de relação tóxica, suave em seu cotidiano contaminante, o rompimento é semelhante. Não há rompantes, discursos, choros, recriminações ou gritos. As poucas palavras ditas são suaves e que pouco a pouco vão ficando desprovidas de calor. A antiga intimidade é coberta por camadas de superficialidade.
Aos poucos, no sentido inverso do envenenamento, vai se criando a capa de proteção. O silêncio ocasional oculta as intenções, as palavras vagas mascaram os pensamentos e os clichês tomam o espaço onde antes habitou a originalidade. Pouco a pouco vão se tornando estranhos um ao outro.
Ocasionalmente, é verdade, a antiga convivência volta a memória. A persona tóxica pensará na outra com saudade e se perguntará onde ela anda e o que faz. Quem se desintoxicou suspirará um instante sorrindo em homenagem aos momentos felizes mas afastará logo do pensamento a lembrança. Aquele cotidiano contaminado deixou avisos em sua memória.
A lembrança daqueles tempos afastará seu olhar para longe. Lá, onde quero estar.
A melancolia me invadiu e fez morada – há tempos, desde que me entendo por gente. Pequeno, ainda, me apegava a objetos desimportantes e canções tristes, principalmente, que me levavam ao processo de reflexão. Não participava da maioria das brincadeiras que meus amiguinhos brincavam no colégio. Colecionador, mantinha intactos álbuns de figurinha e ficava lendo e observando cada uma delas na hora do recreio. Tinha, por isso, todas as mais raras, que eram objeto de troca, literalmente, somente para dar aos coleguinhas mais chegados a figura que lhes faltava. Uma vez meus pais viajaram com meu avô materno, para Uruguai, Argentina e Paraguai, em um passeio muito realizado à época, pela empresa Soletur, de ônibus, que saía exatamente do Rio de Janeiro com direção ao Sul do País e adjacências. Não conto as vezes em que chorei amalgamado às perturbações e tristezas provocadas pela solidão e abandono. Não entedia que meu pai e minha mãe fossem voltar. Minha avó, já idosa, não dava muita bola, mas me deixava escutar as canções que passavam no rádio. Uma bem famosa era Hunting High and Low, do a-ha, que me fazia chorar em desabalada desesperança. Talvez por isso, na vida adulta, tenha me apegado às músicas desse gênero, que trazem uma dorzinha no coração, como as da banda Toto também. Para falar mais sobre a melancolia, devo dizer que não me esqueço das palavras do poeta João Cabral de Melo Neto, que dizia ter a melancolia entranhada – e parece que já se acostumara com isso; relatara o fato a seu psiquiatra, que já não sabia o que fazer. De fato, com o tempo, aprendi, a partir de estudos aprofundados, que a melancolia é diferente da depressão. Na Psicanálise, a depressão é a perda da experiência, do desejo, da vontade, enquanto a melancolia é possuir um corpo sensível muito aguçado, para o bem ou para o mal. Mas não vim aqui falar de teorias. As pessoas não entendem que nasci assim, e que não é culpa minha ser melancólico. Já perdi amizades por isso, pela minha introspecção, por não entenderem que não estou sempre à disposição, que tenho meus momentos de angústia e solidão, necessários à minha sobrevivência. Quando criança, fui tido como depressivo e, pasmem, “um projeto de homossexual”, dada a minha hipersensibilidade. Nunca liguei. Coisa de gente pequena. Meu pai mesmo comprava revista de mulher pelada para um menino de cerca de dez anos e me dava, para me “divertir”; sem nem eu saber o porquê disso. Descobri tantas coisas, como a minha capacidade para as Artes… E não há nada que me impeça de viver da minha forma, neurodivergente, pois que, além do mais, sou autista, nível 1 de suporte. Levei tempo para me acostumar comigo. Agora quero ser feliz assim.
Engraçado: sou fã de carteirinha de muita gente séria e focada que vejo pelas ruas. Parece que, de tão preocupadas, vão resolver o problema da humanidade, todas as injustiças do mundo. Gente que não se distrai nunca, não perde tempo, não olha pro lado.
Queria ser assim, mas não sou.
Estou mais preocupado, claro, com coisas que se passam dentro de mim: uma música que ouvi e não me saiu da cabeça, uma piada que me faz rir sozinho na rua, uma saudade de um amor que passou, um filme que eu vi.
Aí, naturalmente, quando saio de casa, não me lembro se minha ideia era ir no açougue ou no hortifruti do bairro. Se era pra comprar pão ou alpiste do passarinho.
Outras coisas que, invariavelmente, eu esqueço: horários de compromisso, datas, aniversários — a vida organizada dos outros.
Mas, quer saber?
Acaba dando tudo muito certo.
Se eu deixo passar a data de um concurso, as inscrições são prorrogadas.
— “Você viu que as inscrições foram prorrogadaa?” — me avisa um amigo.
Se eu perco o horário de um ônibus, um conhecido passa e me dá carona. Se eu perco um documento de RG, alguém acha e me liga.
Acho que, de certa forma, o acaso gosta dos distraídos. Vive dando uma forcinha, arrumando um atalho, uma saída de emergência qualquer.
Como aquele motorista de ônibus que, solidário com a minha pressa, desviou a rota só pra me deixar no trabalho. Ele disse que não podia. Mas fez.
Acho que o mundo tem pena dos distraídos. Ou, quem sabe, simpatia.
O mundo está cheio de gente certinha demais, preto no branco demais. Talvez seja por isso que ele ajuda tanto gente distraída como eu.
Meu destino foi moldado pelos filmes que assisti. A música que os acompanhou faz a trilha sonora da minha vida. Segue a 4ª parte:
Um grande filme deve vir acompanhado de uma trilha sonora à altura. A música tem o poder de potencializar as sensações a nós repassadas pelas cenas assistidas. Em alguns casos, fica tão intimamente vinculada às imagens que delas se torna indissociável. Muitas obras cinematográficas devem seu sucesso à trilha sonora, havendo casos em que esta chega a ofuscar o próprio filme. Meu destino foi moldado pelos filmes que assisti. A música que os acompanhou faz a trilha sonora da minha vida.
61) SHAFT (Gordon Parks), 1971
O filme marca a ascensão de heróis negros no cinema americano (no caso, o durão detetive particular John Shaft) em oposição à prevalência de personagens centrais brancos. THEME FROM SHAFT, principal tema musical do filme, vencedor do Oscar, que combina funk, soul e jazz, composto pelo músico Isaac Hayes, tornou-se lendário. Foi lançado como faixa principal de um álbum duplo que alcançou um sucesso arrasador trazendo outros temas do filme (em boa parte, instrumentais). Em 2000, foi feito um remake com Samuel L Jackson no papel principal (como sobrinho do Shaft original) dirigido por John Singleton (BOYZ N THE HOOD), com nova versão do histórico tema original.
62) BLOW UP (Michelangelo Antonioni), 1966
O clássico do diretor italiano (mas rodado inteiramente em inglês), estrelado por David Hemmings e Vanessa Redgrave, trata de um suposto assassinato captado acidentalmente por um fotógrafo de moda, história baseada num conto do escritor argentino Julio Cortazar. A trilha foi composta pelo pianista Herbie Hancock sendo executada por uma trupe de primeira (Freddie Hubbard, Joe Henderson, Ron Carter, Jack DeJohnette, Jimmy Smith etc.). Todavia, o charme é o rock STROLL ON executada pelo grupo Yardbirds (com Jeff Beck e Jimmy Page) que aparece ao vivo tocando no filme. Antonioni tem outros filmes famosos como A NOITE, PROFISSÃO REPÓRTER (O PASSAGEIRO) e ZABRISKIE POINT, cuja trilha se tornou cultuada por conter canções inéditas do Pink Floyd.
63) A LIBERDADE É AZUL (Krzysztof Kieslowski), 1993
O compositor polonês Zbigniew Preisner distinguiu-se por criar e executar as trilhas da celebrada ‘trilogia da cores’ (TROIS COULEURS) do seu conterrâneo Kieslowski, a saber, A LIBERDADE É AZUL (BLEU), A IGUALDADE É BRANCA (BLANC) e A FRATERNIDADE É VERMELHA (ROUGE), com base na composição da bandeira francesa e nos ideais da Revolução Francesa. O primeiro e mais conhecido episódio, BLEU, é estrelado por Juliette Binoche. Priesner também musicou outro filme famoso do mesmo diretor, A VIDA DUPLA DE VÉRONIQUE, além de O JARDIM SECRETO, filme-fantasia com produção executiva de Francis Ford Coppola.
64) O HOMEM DE BRAÇO DE OURO (Otto Preminger), 1955
Diversos clássicos do diretor Otto Preminger tiveram trilhas marcantes como LAURA (cuja música tema de David Raskin tornou-se um concorrido standard de jazz), ANATOMIA DE UM CRIME (trilha assinada pelo mestre Duke Ellington) e EXODUS (com uma trilha épica condizente). A conhecida música de O HOMEM DE BRAÇO DE OURO, filme estrelado por Frank Sinatra, Kim Novak e Eleanor Parker, é assinada pelo afamado maestro Elmer Bernstein, responsável por outras grandes trilhas como a de OS SETE MAGNÍFICOS, O GRANDE MOTIM, MEU ÓDIO SERÁ SUA HERANÇA e (pasme!) da comédia sobrenatural GHOSTBUSTERS (OS CAÇA-FANTASMAS), cuja música tema tornou-se grande sucesso.
65) BIRD (Clint Eastwood), 1988
Clint Eastwood é um aficionado por jazz, como demonstra a música que acompanha boa parte dos filmes em que atuou como diretor, a maioria dos quais composta pelo próprio Clint. Esmerou-se nessa produção que trata da vida atribulada (vício em drogas e problemas financeiros e de racismo) e curta (faleceu aos 34 anos) de Charlie Parker, ou Bird, como era conhecido, na tela representado por Forrest Whitaker. A trilha apresenta 11 canções remixadas do saxofonista criador do bebop, sendo adicionados aos solos originais de Parker acompanhamentos de músicos contemporâneos.
66) FLASHDANCE (Adrian Lyne), 1983
Lyne é um bem sucedido cineasta com produções de grande bilheteria como 9 ½ SEMANAS DE AMOR (com sua trilha sensual), PROPOSTA INDECENTE e ATRAÇÃO FATAL. Maior sucesso da carreira de Jennifer Beals, FLASHDANCE foi comercialmente um arraso, assim como sua trilha. Apesar das críticas mal humoradas, poucos não se emocionam ao escutar WHAT A FEELING com Irene Cara (Oscar de canção original) ou MANIAC com Michael Sembello. As canções foram compiladas pelo DJ Giorgio Moroder, produtor de Donna Summer, e com vasta atuação durante a era disco. No cinema, assinou também as trilhas de EXPRESSO DA MEIA NOITE (ganhadora de Oscar), TOP GUN, GIGOLÔ AMERICANO, SCARFACE e A MARCA DA PANTERA.
67) MELODIA IMORTAL (George Sidney), 1956
THE EDDY DUCHIN STORY foi um filme biográfico estrelado por Tyrone Power e Kim Novak (no auge de sua beleza) sobre o pianista Eddy Duchin, sendo os números musicais tocados pelo consagrado Carmen Cavallaro. A trilha sonora, cujo álbum foi um dos campeões de vendas de 1956, inclui até uma versão de AQUARELA DO BRASIL de Ary Barroso. A música tema, TO LOVE AGAIN, é baseada num noturno de Chopin. Sidney é especializado em musicais, tendo trabalhado com Gene Kelly, Judy Garland, Frank Sinatra e até Elvis Presley. Destaque para ANCHORS AWEIGH em que Kelly dança com o ratinho Jerry (de Tom & Jerry), numa inédita integração com animação.
68) THE WALL (Alan Parker), 1982
Os filmes do diretor britânico Alan Parker têm em comum trilhas relevantes que fizeram sucesso comercial, sendo difícil selecionar uma: FAME (sobre jovens talentos de uma escola de música), MIDNIGHT EXPRESS (música eletrônica de Giorgio Moroder), THE COMMITMENTS (jovens de Dublin querendo montar uma banda de soul), EVITA (de Andrew Lloyd Webber com Madonna), BIRDY (assinada por Peter Gabriel), MISSISSIPI EM CHAMAS (impactante trilha de Trevor Jones num contexto de racismo). No caso de THE WALL, o filme/animação se baseia no álbum homônimo do Pink Floyd de 1979 com roteiro do baixista/vocalista Roger Waters com críticas ao autoritarismo e ao belicismo.
69) A PROFECIA (Richard Donner), 1976
Donner foi um cineasta versátil que dirigiu películas de gêneros diversos: ação, aventura, comédia, terror. Destacam-se SUPERMAN, O FEITIÇO DE ÁQUILA, OS GOONIES, MÁQUINA MORTÍFERA (1 a 4), TEORIA DA CONSPIRAÇÃO, MAVERICK. O aterrorizante A PROFECIA (OMEN) com Gregory Peck, é sobre um garoto que se revelou filho do demônio. Jerry Goldsmith caprichou na trilha que mescla música orquestral e elementos atonais, em especial a faixa AVE SATANI, com um coro cantado em latim que soa como uma missa negra. Com ela, Jerry, um dos mais famosos compositores de trilhas – STAR TREK, PLANETA DOS MACACOS (de 1968), CHINATOWN, ALIEN, PATTON, POLTERGEIST etc. – faturou seu único Oscar.
70) ROCKY III (Sylvester Stallone), 1982
A saga do fictício lutador Rocky Balboa é uma das mais bem sucedidas do cinema. A série iniciou-se em 1976, sendo o primeiro episódio dirigido por John Avildsen, o melhor avaliado pela crítica, contando com trilha de Bill Conti inclusive a música-tema, GONNA FLY NOW (indicada ao Oscar). Porém o personagem ficou vinculado à canção EYE OF THE TIGER interpretada pelo grupo Survivor, associada a garra e superação, presente no terceiro filme da franquia. Stallone agregou à trilha de Conti esse rock com a intenção de atrair um público mais jovem. EYE OF THE TIGER tornou-se um sucesso retumbante, tendo sido um dos singles mais vendidos do ano.
71) AMARGO PESADELO (John Boorman), 1972
Estrelado por Burt Reynolds e Jon Voight, esse polêmico filme, originalmente DELIVERANCE, cujo título em português dá uma ideia do tormento vivido por um grupo de 4 amigos que escalam um rio quando são atacados e seviciados por habitantes rudes da região. As cenas de violência sexual extrema foram suprimidas pela censura em sua primeira exibição no Brasil. O momento mais célebre ocorre quando um dos personagens faz um desafio musical com um banjo com um rapaz aparentemente deficiente mental da região (“DUELING BANJOS”). O duelo musical foi transposto para a trilha sonora do filme.
72) ARQUIVO X (Chris Carter), 1993
A série televisiva, uma das mais duradouras da história, ficou no ar por nada menos do que 10 anos com 9 temporadas e mais de 200 episódios, dando origem também a um longa. Trata-se de uma temática insólita em que um casal de agentes do FBI investiga casos paranormais. O inconfundível tema de abertura foi composto por Mark Snow utilizando assobios, ecos e elementos eletrônicos.
73) HARRY & SALLY (Rob Reiner), 1989
Comédia romântica não precisa necessariamente ser piegas, como prova essa divertida e esmerada produção protagonizada por Meg Ryan e Billy Cristal, que passam o filme inteiro se estranhando até acabarem juntos. A cena do orgasmo no restaurante é emblemática. A graciosa trilha sonora que fez tanto sucesso quanto o filme foi executada pelo estreante e promissor cantor e pianista Harry Connick, Jr, tido então como o futuro Sinatra e é composta por clássicos do jazz (irmãos Gershwin, Rodgers & Hart, Duke Ellington etc.) Ao fim, Connick Jr não se tornou um novo Sinatra nem emplacou novas trilhas, vindo a fazer alguns papéis como ator coadjuvante. O diretor Reiner teve outros filmes de importância como STAND BY ME (outra trilha memorável) e LOUCA OBSESSÃO (MISERY).
74) O FEITIÇO DA LUA (Norman Jewison), 1987
O diretor canadense Jewison carrega em sua bagagem filmes importantes como NO CALOR DA NOITE (trilha de Quincy Jones com tema de abertura de Ray Charles), O VIOLINISTA NO TELHADO (musical com temas tradicionais judaicos), THOMAS CROWN AFFAIR (trilha de Michel Legrand) e OS GLADIADORES DO FUTURO (André Previn). O FEITIÇO DA LUA (MOONSTRUCK) é uma comédia romântica que conferiu à cantora Cher o Oscar de melhor atriz, no papel de uma ítalo-americana que se apaixona pelo personagem vivido por Nicolas Cage. A trilha mescla canções populares italianas com trechos de ópera, com destaque para THAT ‘S AMORE interpretada por Dean Martin.
75) BAGDAD CAFÉ (Percy Adlon), 1972
Essa curiosa comédia dramática que contrapõe uma turista alemã com aparência fora dos padrões de Hollywood e a dona de um decadente posto de estrada é uma produção germânica que se passa nos EUA com atores americanos (inclusive o veterano Jack Palance). A nostálgica trilha sonora capta a solidão dos personagens e o clima do deserto de Mojave na Califórnia, onde a trama se desenrola. Mas o grande destaque é a balada CALLING YOU (indicada ao Oscar), interpretada por Jevetta Steele, com um enxuto arranjo de piano e flauta que se tornou sucesso mundial. A interpretação da cantora gospel arrancou rasgados elogios da crítica que a compararam com Whitney Houston.
76) YELLOW SUBMARINE (George Dunning), 1968
Os Beatles, o grupo de pop-rock mais famoso da história, lançaram também alguns filmes (A HARD DAYS NIGHT, HELP!…). YELLOW SUBMARINE destaca-se por ser uma animação em que eles aparecem caricaturados numa aventura em que salvam a cidade de Pepperland, tomada por malignos homens azuis que detestam música. A trilha sonora original contém apenas 4 canções inéditas do grupo e não chegou a alcançar grande sucesso comercial. O lado B contém temas orquestrais compostos pelo produtor musical George Martin. Mais tarde, foi lançada uma nova versão com todas as canções executadas no filme, a maioria já presente em outros álbuns. Apesar de tais restrições, o filme ganhou o status de cult por seus traços psicodélicos que revolucionaram a estética dos desenhos animados.
77) DIÁRIOS DE MOTOCICLETA (Walter Salles), 2004
A saga de Che Guevara pela América Latina, sob a direção do cineasta de CENTRAL DO BRASIL, recebeu uma bela trilha composta pelo argentino Gustavo Santaolalla com a canção tema AL OTRO LADO DEL RIO de Jorge Drexler. Santaolalla compôs para 2 outros filmes do diretor brasileiro: LINHA DE PASSE e ON THE ROAD. O músico recebeu dois Oscars mas por outras trilhas, igualmente belas, BABEL e O SEGREDO DE BROKEBACK MOUNTAIN. São dele também as trilhas dos mexicanos AMORES PERROS e BIUTIFUL, do portenho RELATOS SELVAGENS e do americano 21 GRAMAS.
78) GÊNIO INDOMÁVEL (Gus Van Sant), 1997
Reconhecido como um dos mais talentosos diretores surgidos nos anos 90, em especial em temas que tocam a juventude, Gus tem em sua filmografia, obras-primas como O ELEFANTE, MILK A VOZ DA IGUALDADE, ENCONTRANDO FORRESTER, UM SONHO SEM LIMITES e PARANOID PARK. Nenhum deles alcançou a projeção de GÊNIO INDOMÁVEL com Matt Damon e Robin Williams (valendo-lhe um Oscar). A trilha foi assinada por Danny Elfman, mas o destaque ficou por conta das 6 canções do garoto-prodígio Elliott Smith que integraram o álbum, em especial MISS MISERY (indicada ao Oscar).
79) CORRIDA CONTRA O DESTINO (Richard Sarafian), 1971
CORRIDA CONTRA O DESTINO (VANISHING POINT) é um road movie que, apesar do baixo sucesso comercial, tornou-se cult em função das cenas de perseguição e das relações pessoais que o personagem estabelece pelo oeste dos EUA, misturando filosofia existencial e crítica social, bem ao gosto da contracultura dos anos 70. Nesse contexto, a trilha mescla rock psicodélico, country e blues refletindo o espírito de rebeldia e liberdade da época. Ficou famosa no Brasil por utilizar a magnífica FREEDOM OF EXPRESSION, canção executada pelo desconhecido conjunto J B Pickers (na verdade, um improvisado grupo de músicos que se reuniu para gravar essa faixa para o filme), que se tornou conhecida por ser utilizada na abertura do Globo Repórter.
80) SINGLES, VIDA DE SOLTEIRO (Cameron Crowe), 1992
O filme estrelado por Bridget Fonda, Campbell Scott e Matt Dillon é uma simpática e descompromissada comédia romântica do mesmo diretor de JERRY MAGUIRE, QUASE FAMOSOS e VANILLA SKY (todos com trilhas sonoras pop rigorosamente selecionadas) que retrata a complicada relação de jovens à procura do par perfeito. A trama transcorre em Seattle, cidade em que emergia um efervescente movimento musical que se estendeu pelo planeta e revitalizou o rock. A trilha que se tornou referência reflete a atmosfera ‘grunge’, com bandas como Pearl Jam, Alice in Chains, Soundgarden, Screaming Trees etc.
Certo dia resolvi organizar as fotos que ficavam naqueles albunzinhos que as Fotóticas da vida ofereciam junto com os filmes revelados, da época em que se revelava fotografia e colocava em álbuns. Foram guardados numa grande caixa, esperando o dia em que eu ia me dispor a organizar.
O tempo passou, não fiz isso quando deveria ter feito e, agora, essa se tornou uma Caixa de Pandora. De vez em quando olho para ela, pensando se gostaria ou não de abri-la. Lá estão registrados anos e anos da vida, que de certa forma, ao serem guardados nessa caixa, ficaram congelados.
Me dei conta de que fotos em papel impactam diferente na gente. Quando tudo passou a ser digital, parece que nossa memória também digitalizou, e as fotografias passaram a ocupar outro espaço, menos emocional, longínquo, o espaço virtual.
Nesse plano digital estão álbuns mais recentes, que podem conter momentos parecidos e com as mesmas pessoas que estão nos antigos registros de papel, mas a nossa relação com eles parece ser diferente, mais distante.
As fotos digitais parecem não fazer parte de nós e sim de uma plataforma – elas habitam fora de nós, em uma nuvem. Esse distanciamento nos possibilita facilmente deletar, corrigir, cortar, criar outros contextos para os momentos ali retratados.
Se algo desagrada, ou traz uma lembrança indesejada, com um clique está tudo resolvido e nem nos lembramos mais de que, um dia, esses momentos foram captados, registrados. Já as fotos em papel não. Eliminá-las exige rasgar, queimar, colocar no lixo, sei lá. E isso é um processo cirúrgico dolorido.
Se desfazer de flagrantes do passado que hoje não são mais significativos, da fisionomia de pessoas que não deixaram marcas – hoje são praticamente estranhas – dá uma sensação de sacrilégio. É como se esses retratos tivessem vida própria, não nos pertencessem e sim à nossa história.
A digitalização, no fundo, desumanizou esses relatos, criou um espaço confortável entre nós e aquilo que está na tela, para que pudéssemos ir ceifando, sem dó nem piedade, tudo aquilo que incomoda, que não faz mais sentido e, assim, compor o álbum com a história que gostaríamos de contar.
Mas as fotos em papel criam vida, e não há como apagar a história que contam. Elas ficam ali, naquela Caixa, como guardiãs fiéis do nosso passado.
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