Crônicas

  • A cuíca, a ruivez e o smartwatch – sexta-feira 13 como comissão de frente

    Comprou um relógio para controlar seus batimentos cardíacos. Descobriu que, ao ter o combo de medições de oxigenação, estresse, sono e ciclo menstrual, tornava seu pulso um criador de conteúdo.

    Dados. Gráficos. Percentuais.
    O coração, finalmente, auditável.

    As notificações de redes sociais, e-mails ou o contar do tempo passaram a ser meros gadgets. O que importava era o número que subia e descia como se fosse destino. O corpo, agora, tinha analytics.

    Com o intuito — primeiro e quase exclusivo — de mapear o próprio coração, passou a utilizar a pulseira flexível de cor laranja (também havia a opção preta, mas… quem quer ser discreta em fevereiro?). Dormia com o apetrecho; acordava com um vibrar incessante no punho, notificações piscando como quem dá bom dia e já cobra produtividade emocional.

    Os picos de estresse reinavam entre a hora do levantar — rush de mensagens — e o fim do expediente, que, por ser autônoma, oscilava entre as 18h e as 2h40 da manhã. Raras vezes sua “rotina” não mudava. Aliás, rotina era uma palavra que lhe caía grande demais — como vestido emprestado, sobra um pouco no busto, aperta no quadril. Num confortável marca-passo, aprendeu a desconfortar-se da realidade.

    Tudo passou a ser normal enquanto durasse a bateria do smartwatch.
    O mundo cabia nos 67% restantes.

    O acessório laranja combinava perfeitamente com seus óculos de ciclista urbana. A cidade, que desde as novas lentes, em um tempo outrora, se enferrujara de sol e desejo, agora fazia do verão o agente ruivificante: rubicundou-se em pleno fevereiro; enrusbeceu não de vergonha, mas de coragem.

    Cortou as pontas dos cabelos e converteu-se.
    O laranja passou a ser sua segunda cor favorita — a que a identificava, a que gritava antes dela.

    Nos cinco dias de carnaval, ruiçou aos poucos, como quem aceita arder. Ardeu seu desconforto onde antes calava. Arder é uma forma sofisticada de não adoecer.

    Concentrou-se no encontro fugaz dos corpos fantasiados: as máscaras injetam uma pseudo-coragem pelas veias — um placebo de liberdade. Teatro de verdade, no rés do chão do espaço público. Deixou-se boiar nos braços de um passado transfigurado de pessoa comum, mais magra, olhos mais sinceros, vigilante e contábil de afetos, mesma leveza sustentada por um viés infantil e escorregadio.

    Liberdades hoje em dia confundem-se com libertinagens — diria alguém com sobrancelha arqueada, talvez do século XIX.

    Há um choque entre gerações jamais visto antes. Há um colapso das formas sociais estabelecidas. E isso pode ser bom. Ou pode ser apenas inevitável. Desconforto sentido, interiorizado e meditado.

    E foi então que tudo começou por uma intrépida sexta-feira 13.
    Pleno carnaval.

    Comprou um ticket de cinema para uma sessão vazia. Enquanto a cidade, lá fora, ensaiava gargalhadas com cuícas e paetês, ela escolheu o escuro climatizado. O coração — balde de pipoca à mão — ocupando uma fileira inteira de si mesma. No topo de um Mirante, na Tonelero, horas antes, era horizonte.

    Agora era plateia.
    O smartwatch marcava batimentos estáveis. Mas… e a alma? Entre a piscina do topo e o mar do térreo, como estabilizar uma coisa qualquer?!

    Purpurina everywhere. A cuíca rindo com os dentes cerrados. Um riso friccionado ecoando pelas finas paredes, soníferas de um cansaço acumulado. Um fingimento alegre. Um som que nasce do atrito — como quase tudo que importa.

    Ao tensionar sinapses, ao se permitir solitude e pausa, colapsou com quem acha que a entende e já a julga. Mas não se jogou do parapeito. Desceu de lá com graça.

    Aprendeu que pulsar não é performar.
    Abraçar as mudanças vem de um movimento corporal que envolve mente e coração.

    E talvez — só talvez — desligar as notificações seja o primeiro ato verdadeiramente revolucionário de fevereiro. Mesmo que a pulseira ainda a identifique na multidão.

  • Pierrô e Colombina


    Aquela canção no rádio e os pés e as mãos que batem e se batem. Chão e mesa. Suor e serpentina. Confetes e alegrias. E o moço de pierrô olha para a moça de colombina. E se olham mais até o virar da esquina.

    Bom, o carnaval chegou e o ano, enfim, começa a partir daí. Quantos não vivem dizendo isso a cada novo carnaval, a cada novo fevereiro? Todos ficam em compasso de espera. Tudo parece inerte. A expectativa é enorme, assim como as filas e a falta de paciência. E eis que a festa da pretensa liberdade dá o seu tom. Os carros alegóricos que transitam pela avenida e levam cores e delírios e gritos histéricos, além das notas dos jurados, formam um comboio de fantasia. Uma cara fantasia! A melodia é difícil? A letra é sofrível? A voz do ‘puxador’ falseia? Não importa, é carnaval!


    Aquela canção no rádio e os pés e as mãos que batem e se batem. Chão e mesa. Suor e serpentina. Confetes e alegrias. E o moço de pierrô olha para a moça de colombina. E se olham mais até o virar da esquina.

    Engarrafamentos e arrastão. Praias com águas mornas e sol acima dos 40ºC. “Aquecimento” é isso aí! Há muito gringo para ver o desfile limpo e organizado e delimitado e amordaçado e bonitinho. É a festa da liberdade, diga-se de passagem! Mas cuidado com o cronômetro!

    Há muito dinheiro envolvido na grande festa popular. Muito brilho. Negociações e aplausos e apertos de mão. Não esqueçamos as fotos com os políticos: sorrisos e acenos. Não esqueçamos também dos famosos: uma imagem é tudo! E as notas então? Beleza! Beleza! Silicones e músculos: força em ação! Mas a festa é de libertação! Olha o flanelinha aí! Não tem vaga não!

    Bandeira branca amor não posso mais… Ô abre-alas eu quero passar… Mamãe eu quero mamar… Olha a cabeleira do Zezé, será que ele é? Será que ele é?

    O ano, de fato, levanta e sacode a poeira (não sei se dá a volta por cima) e tudo segue como sempre. E mais fotos e escândalos, mais flanelinhas, mais arrastões, mais filas e filas… E o calor que derrete o asfalto? E as chuvas que atormentam a cidade? O preço do leite e do pão e da carne e do açúcar?

    O poeta olha para o relógio e escuta as marchinhas do seu tempo. O cronista transcreve. Mas o carnaval passa, não passa? E passa para mais um carnaval passar… A crônica não está atrasada, não é? Palavras ao vento. Palavras como serpentinas. Palavras e o tempo…

    E o velho tempo ri dos homens e das coisas porque a maior fantasia, o maior carnaval é a própria vida. Às vezes, a gente se esquece…

  • Poema #03: Habitar o intervalo

    “A tapeçaria é uma articulação singular entre linhas e vazios, flexibilidade e resistência, o que faz do tear a metáfora por excelência da criação narrativa: porque o ar circula entre os fios como o silêncio entre as palavras.” *

    Os emaranhados da vida
    tapeçaria mal tecida
    De palavras sufocadas por amarras
    por nós
    Arremates enrijecidos do tempo
    entre as costuras

    Vida vivida
    em monobloco

    Esgarçar a tessitura
    do tempo mal vivido

    Esburacar a trama
    de pontos suturados

    Criar um circulador
    de silêncios no espaço

    Arear lembranças
    do que resta calado

    (*) Lara Manesco, em Entre Tecer e Narrar

  • A solução vive nas cinzas

    A dúvida é mesmo a assombração da humanidade, o veneno do existir. Não importa a situação. Se nos deparamos com a necessidade de fazer uma escolha ou se somos tragados pela incerteza da continuidade de algo que nos é fundamental, vem a maldita nos mastigar por dentro. 

    Quem nunca passou uma noite em claro matutando sobre o melhor caminho a seguir? Largo meu emprego de anos por uma oportunidade promissora? E se tudo der errado? Troco de curso na faculdade? E o tempo que já cursei? 

    No amor também não é diferente. Quando a insegurança monta casa em nossa mente, a alegria cede lugar à angústia. O medo de perder a prioridade na vida da pessoa amada ganha ares fantasmagóricos: Ele/Ela está diferente, será que não me ama mais? Será que vai terminar comigo? 

    Quem nunca se viu preso na areia movediça da dúvida a respeito da sinceridade do ser amado? Quer coisa pior do que não sabermos se a pessoa escolhida é realmente digna do nosso amor? 

    O inferno da incerteza não para por aí. Não termos ciência do nosso tempo de validade no mundo também acarreta todo tipo de perturbação. Seja porque adotamos a máxima “só se vive uma vez” e, com isso, perdemos o luxo da ponderação, seja porque nos travamos diante da afirmação: “o amanhã ninguém sabe como será.”

    Por isso, acredito que a quarta-feira de cinzas merece toda a nossa enaltação. Ela é a melhor solução para os impasses da dúvida, do medo e da insegurança. É ela que agiganta as emoções e o colorido dos dias de carnaval. Como faz isso? É simples: delimita com clareza o momento do fim, desenha a borda do buraco onde nos atiramos. É ela que assevera: faça tudo o que desejar, porque vai acabar, COM CERTEZA! 

    A catarse inigualável que o carnaval promove vem da garantia de que não nos perderemos em meio as nossas fantasias. SEJA TUDO QUE DESEJAR, porque a quarta-feira de cinzas vem te catar, te envelopar e reconduzir ao lugar de origem.  É feito um salto de bungee jumping, só que com a confiança de que a corda não arrebentará.

    Quer leveza maior? Chego a sentir o vento no rosto. 

    E a danada é tão assertiva que marca a hora do encontro. Ao meio-dia, as obrigações civilizatórias te enlaçam, te puxam pelo tornozelo. O pulo acontece em um abismo controlado. Mas e na vida e no amor, como é possível viver essa explosão de alegria sem que a opressão da dúvida venha nos assolar?

    Não sei… Talvez a solução esteja no caminho inverso. Na valorização das cinzas. Pouco importa quanto vai durar ou quando vai acabar. É por não saber que devemos apostar todas as fichas no desejo. Também somos o que acabou.

    E se eu sofrer? E se eu me decepcionar? Me frustrar? Me arrepender? Ah, para de medinho.

    Todo ano tem carnaval!

  • Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos

    “Debaixo dos caracóis dos seus cabelos, uma história pra contar de um mundo tão distante” (Roberto e Erasmo Carlos)

    Os saudosos anos 60, além de propiciar nova consciência, clamor pacifista e efervescência artística, colocaram nos moços longas cabeleiras. Encaracoladas, cacheadas, naturais, lisas, afro, black power, rebeldes, mas invariavelmente compridas.

    Depositários inconformados de valores de uma sociedade decrépita que exaltava a grana e a guerra, os jovens ansiavam por uma nova ordem onde floresceria o amor e a solidariedade universal.

    Os profetas da Nova Era atribuíam o movimento à irrupção da Era de Aquário. “Quando a lua está na sétima casa e Júpiter alinha-se com Marte”, dizia a canção-símbolo do musical “HAIR” (cabelo).

    As mesmas cabeças que, turbinadas por alucinógenos, hospedavam interiormente loucos devaneios de libertação, faziam brotar exteriormente caracóis psicodélicos e fios emaranhados rebeldes.

    Cabelos longos significavam também transgressão à virilidade e à classificação dos gêneros segundo a tradição moralista cristã que dividia o ser humano em 2 categorias absolutas: o homem e a mulher, definidas respectivamente pelas cores azul e rosa.

    As mulheres que tinham nos abundantes cabelos a marca registrada da feminilidade como protótipo de beleza, agora enfrentavam a concorrência masculina, numa época em que os limites que separavam as duas tipologias biológicas tornaram-se mais fluidos.

    Os militares machões que promoviam a guerra e a repressão sempre tiveram aversão por cabelos compridos, enfileirando-os em pelotões capilares uniformes através de cortes tipo reco.

    O sistema opressor para impor os valores burgueses exigia do indivíduo apresentação visual condizente. As vestes e o penteado deveriam retratar disciplina e ordem. Cabelos e roupas desalinhados eram sinal de desleixo, desrespeito, rebeldia.

    A marcha inexorável do tempo sepultou os anos 60 e com eles a quimera por um mundo melhor. “O sonho acabou”, proclamou o cabeludo John Lennon.

    Com o passar dos anos, os cabelos tornaram-se grisalhos, cresceram tanto que ficaram frágeis, começaram a cair como folhas no outono.

    Cabelos compridos saíram de moda. Também saiu de moda o empenho em acabar com as guerras e salvar o planeta.

    Adveio uma nova leva de jovens individualistas com aspirações de ascensão social e fortuna material. Essa espécie em expansão era representada por um figurino asseado, bem trajado, de cabelos aparados.

    A nova safra de jovens das gerações X, Y e Z, ao invés de colares, fitas, pulseiras artesanais com a insígnia de paz e amor, portava roupas e acessórios de grife. Os hippies de outrora tornaram-se capitalistas de terno e gravata e investidores do mercado de ações e em criptomoedas.

    Alguns mais extremados ostentavam, orgulhosos, símbolos neonazistas, muitos deles… carecas. O radicalismo execrava radicalmente a presença de fios subversivos.

    Carregavam metralhadora numa mão e Bíblia noutra. Respaldam seu ódio nas palavras do mesmo Cristo que, triste ironia, pregava amor e usava vestes simples, sandálias, barba e… cabelos compridos.

    Talvez eu seja apenas um saudosista que me apegue a um passado cabeludo que não volta mais.

    Mas no alto das minhas décadas de vida, reluto em ir ao barbeiro cortar periodicamente os cabelos. A eles me apego, como uma ingênua esperança de voltar a sonhar por um mundo melhor.

  • Fantasia de Carnaval

    “Resort com all inclusive, garçons bronzeados, bíceps à mostra, tapa-olho de pirata, buffet internacional e drinks tropicais… Música dos carnavais antigos, marchinhas singelas ou picantes ressoando, sem atrapalhar a conversação… Praia de areia branca, som do vai e vem das ondas… chuveirões e piscinas de borda infinita a poucos passos… Espreguiçadeiras, guarda-sóis, serviços de massagem, banhos de imersão e tratamentos corporais… Um livro, um chapéu, óculos de sol e minhas quatro amigas da vida toda! Detalhe: tudo pago. Amo vocês.”

    Esse foi o aviso que apareceu no “záp-zap” da família. Afinal, o Carnaval é feito para brincar, sonhar, ser Cleópatra, a Rainha de Sabá, a loira da escola de samba, se é que me entendem…

    Além disso, o ano precisa começar. Já chega de réveillon. E logo vêm as contas para pagar, viver, ter, ser, morar. Ufa.

    Quero um pouco de ousadia, fantasia, alegria e folia.

    Sendo assim, vou me divertir.

    — Ah, mas isso pode ser em qualquer época do ano — dirá a desmancha-prazeres.

    — Não vai inventar moda, mamãe! — a apavorada.

    — Não vá gastar à toa! — esse é o “gestor de finanças”. Das minhas finanças…

    — Já falou com seu médico? — a hipocondríaca.

    — Mamãe, à tardinha nós vamos aí, está bem? Precisamos conversar com a senhora.

    Hã? O quê?

    Ah, crianças, do que vocês estão falando?

    Aviso? Não mandei nada hoje. 

    Onde estou? Em casa, escrevendo minha crônica semanal.

    Para a revista, ora! Qual? a revista online.

    Ah, sim, o tema?

    Escolhi este: Fantasia de Carnaval.

    Beijos, também amo vocês…

  • Alguém salve a Língua Portuguesa!

    Queria falar de literatura. De literatura brasileira, especificamente. Gostaria, na verdade, de escrever sobre algumas das obras de Erico Verissimo, como O prisioneiro, que, por acaso, li os últimos capítulos hoje mesmo. E, preciso dizer, quanto mais leio as obras do Erico, mais certeza tenho de que se trata de um escritor absolutamente extraordinário. No entanto, não abordarei nem o romance e nem a guerra, sua temática principal. Falarei de Grêmio.

    E, vamos combinar, como tem sido difícil falar de Grêmio. Nossa geração cresceu vendo o Grêmio ganhar tudo e mais um pouco nos anos noventa. Passamos por uma década e meia sem títulos, é verdade, mas geralmente com times aguerridos, figurando quase sempre na parte de cima da tabela. Em 2016 veio a Copa do Brasil, depois a Libertadores, a Recopa e uma sequência de Gauchões. Também passamos por uma queda trágica para a segundona e, no retorno, tivemos um ano mágico com Suárez e companhia quase beliscando o título brasileiro.

    O fato é que hoje, ao assistir aos jogos, tenho vontade de criar palavrões. Sinto essa necessidade, às vezes, mesmo antes do início das partidas, bebendo ou não uma cervejinha. Nada contra o nosso novo treinador, nem contra os jogadores, que, em geral, respeito e admiro. O problema é que não há um palavrão específico que retrate exatamente a situação. Por vezes os jogos são tão constrangedores que nem mesmo o grande Erico Verissimo (caso fosse gremista) conseguiria descrever.

    No fim das contas, trata-se de um impulso, de uma onda de raiva, de ódio, de repulsa, de indignação, como só um futebol mal praticado consegue nos proporcionar. Durante os noventa minutos fico a cogitar neologismos e não encontro nada que represente tamanho desentrosamento. Falando sério, eu não sei qual urucubaca lançaram sobre o tricolor, mas passou da hora de nos desfazermos dela.

    De certa forma, sinto-me como o Tenente, de O prisioneiro, que, preso ao passado, não consegue seguir em frente, recaindo em elucubrações, questionamentos e fantasias das mais absurdas. Devo confessar que ainda sonho com as defesas do Marcelo Grohe, com a classe do Maicon, com a força do Edilson, com a canhota do Douglas, último camisa 10, e, claro, com a eterna dupla Geromel e Kannemann. Que saudades.

    Sei que para uns e outros pode parecer bobagem, mas a língua de Camões, de Machado de Assis, de Erico Verissimo, não precisa de palavrões criados durante uma partida de futebol. Já existem palavrões demais e geralmente eu os utilizo em demasia, inclusive em momentos não oportunos. Não adianta, nem nos porões do idioma há uma expressão de baixo calão que defina o futebol praticado pelo Grêmio nos últimos tempos. E, convenhamos, quem sou eu para querer criar neologismos? Deixemos isso para quem conhece. Perdão, Guimarães Rosa. Por isso, peço encarecidamente à equipe que não me permita fazer isso e passe a se apresentar de uma forma, ao menos, mais aprazível. Se não for pela taça, pela torcida, pela história do clube, que seja pela Língua Portuguesa…

  • Ofensas mal disfarçadas

    Para viver em sociedade é preciso estar atento. Olhos bem abertos e ouvidos bem sintonizados.

    Por que existem várias maneiras de se ofender alguém sem usar palavreado de baixo calão. Por exemplo, atribuir à sorte as conquistas dos outros é uma delas. É uma forma velada de desprezar a preparação e o esforço que outros tiveram.

    Como se as coisas só dessem certo para uns como resultado da ocorrência de eventos positivos, favoráveis ou inesperados. Coisas que acontecem fora do controle ou da vontade humana mas que nunca dão errado. Aleatório puro ou sorte em estado bruto.

    Para essa classe de escolhidos não é preciso fazer esforço algum. Basta ficar lá sentado, embaixo da árvore como aquele primo do pato Donald, o Gastão, que o universo se movimentará a seu favor. Afinal, eles foram ungidos pela sorte, sem saberem porque e sem terem feito nada para isso.

    Bem feitas as contas, é maluquice das boas imaginar que a vida possa se organizar dessa forma. Mas para gente que acredita em terra plana, achar que a sorte é só para uns e não para outros é café pequeno.

    Outra forma de ofender sem arreganhar os dentes é mostrar surpresa ante uma demonstração de esforço genuíno ou conhecimento. Nesses casos a frase do ofensor vem acompanhada de um sorriso, ou mesmo riso, em que diz “nunca imaginei que você fosse capaz de se classificar” ou “nunca pensei que você conhecesse Moliére” (ia escrever Shakespeare mas decidi dar uma folga ao britânico).

    Nos dois casos, para ficar só em dois, não raro o ofendido não percebe que está sendo espezinhado. Fica meio atônito, sem ter o que falar direito, tentando compreender se aquilo que escutou é elogio ou crítica. É quase paralisador.

    Mas há raros momentos em que percebe a ofensa e reage, mesmo fazendo uso de ironia para não perder a linha nem provocar uma briga. Aí, o efeito é devastador contra…ele próprio! O ofensor se ofende e diz que não se pode elogiar. Faz uma bela volta no salão interpretando a vítima, em um papel escrito com a mais fina arte da manipulação. Envergonhado, o ofendido se cala e se esconde ante a culpa que lhe impingem. Quanta maldade.

    Se você chegou até aqui é porque testemunhou – ou foi vítima – dessas formas de ofensa. E se arrepende de não ter dado a resposta adequada ou ter se afastado diplomaticamente, sem oferecer o espetáculo patético da sua falta de ação.

    Isso agora é passado. O que foi não pode ser mudado. E mesmo que você consiga enterrar no mais profundo de si essas ofensas sofridas, isolando essa bagagem da superfície onde vive, o reflexo delas ocasionalmente vai latejar na sua mente. Pode não ser sempre mas em algum momento, quando você escutar um elogio, aquele parasita desprezível vai rastejar para fora do buraco em que você o confinou. Só para plantar a dúvida em você, tirando o gosto doce das coisas boas e legítimas da vida.

  • 5ª Escola a Desfilar: Mocidade – Rita Lee, a Padroeira da Liberdade

    “Sou independente, fácil de amar/ livre de qualquer censura/ Vem, baila comigo/ Só de te olhar, posso imaginar loucura’’. É dessa forma, e de outras, que a Mocidade, na letra de seu samba enredo, apresenta sua homenageada. Nem é preciso perguntar quem é, pois o próprio nome do enredo já deixa evidente. Como será que a Escola pretende homenagear a gigantesca Rita Lee?

    Em comparação aos enredos já comentados aqui nessa página, acredito que o mais semelhante ao da Mocidade é o da Imperatriz Leopoldinense. Isso porque, as duas escolas optaram por homenagear duas figuras gigantescas da música brasileira. Ney em uma homenagem em vida e Rita, infelizmente, de forma póstuma. Uma outra semelhança entre essas duas figuras está na incontestável presença do feminino. Os dois tiveram que chutar as barreiras do patriarcalismo para viver da forma como queriam. Fizeram, conseguiram e inspiraram muitas pessoas.

    Nesse sentido, a Mocidade deixa claro em seu enredo que sua homenageada: “Veio ao mundo para arrombar a festa e escandalizar um Brasil que já perdia seus matizes para um opressivo cinza chumbo”. Ou seja, uma mulher de força que, em um dos mais tristes momentos da história brasileira, ousou desafiar o regime vigente.

    Além disso, enquanto “ovelha negra” de toda uma família tradicional brasileira, ela revolucionou misturando rock britânico com ritmos brasileiros e construindo uma carreira musical impecável.

    Rita é tão infinita que fica difícil encontrar as palavras certas para defini-la. Por isso, vou tomar a liberdade de fazê-lo por meio de um parágrafo que a própria

    Mocidade colocou em sua sinopse de enredo, segue o trecho: “Plural. Pluralíssima. Muitas em uma só. Rainha do rock. Cantora, compositora, instrumentalista, atriz bissexta, escritora e apresentadora. Ativista. Super-heroína dos animais. Defensora dos “frascos e comprimidos”. Padroeira da Liberdade. Sagrada e profana. Maldita pela igreja. Bendita pelos fãs. Santa Rita. De sampa. Feiticeira das palavras e atitudes contra o preconceito e a caretice, com ou sem a guitarra nas mãos. Bruxa raiz qie cruzou a lua amarela. Energia esotérica de outras dimensões. De outros planetas. De outros carnavais”.

    Ou seja, simplesmente, Rita Lee.

  • Ato saudável

    Minha vida vai muito além das limitações do eu.

    Subir os degraus de qualquer monumento todas as manhãs, me traz a oportunidade de tudo ficar claro. 

    Seria bom passar esse brilho aos olhos dos outros. Está tudo incrivelmente bem, e agora entendo que os limites entre ruídos e sons, são convenções, e todos estão à espera da transcendência. 

    É possível transcender qualquer convenção se você imaginar que pode fazê-lo. Por isso entendo que minha vida vai muito além das limitações do “eu”.

    Ser, é ser percebido, portanto, conhecer a si mesmo só é possível através dos olhos dos outros a natureza de nossas vidas mortais está nas consequências de nossas palavras e ações que continuam a se perpetuar ao longo dos tempos.

    Talvez haja um mundo melhor esperando por nós e que não estejamos mortos por muito tempo.

    Nossas vidas não são só nossas, do útero ao túmulo, estamos ligados uns aos outros. No passado e no futuro, em cada crime e em cada bondade, renascem as esperanças.

    A morte talvez seja apenas uma porta, e quando uma se fecha, outra se abre. Se não pudermos imaginar o céu, imaginemos uma porta se abrindo, e atrás dela, estará a esperança.

    Se um dia você encontrasse com a criança que já foi, aquela pessoa insegura, inexperiente, frágil e esperançosa por carinho, abraço e amor, o que você diria a ela para que pudesse chegar em seu hoje bem melhor?

    O que não vale é mentir sem sentido como descreveu brilhantemente Jean Jacques Rousseau em seu frenesi no último livro chamado “Devaneios do Caminhante Solitário”. Ele escreveu que “Mentir para vantagem pessoal é impostura, mentir para vantagem de outra pessoa é fraude, mentir para prejudicar é calunia”. “Mentir sem proveito ou prejuízo para si ou para outrem não é mentir”. 

    É ficção. 

    Não se poderia dizer que alguém mente quando dá dinheiro falso, a um homem a quem não deve”.

    Com tantas possibilidades em mentir, creio que devemos procurar ser sempre verdadeiros, e correr os riscos desse ato saudável por nossas almas.

    O universo não responde à ansiedade, ao desespero, à pressa. Ele responde à confiança, ao equilíbrio, e à entrega.

    Quanto menos você força, mais tudo acontece.

    O mundo não deve nada a você, então assuma a responsabilidade pela sua vida.

  • 4ª Escola a Desfilar: G.R.E.S. Estação Primeira de Mangueira- Mestre Sacaca doEncanto Tucuju – O Guardião da Amazônia Negra

    “Çai Erê, Babalaô, Mestre Sacaca/ Te invoco do meio do mundo pra dentro da mata”. É dessa forma a Estação Primeira de Mangueira pretende fazer uma conexão Rio-Amapá fazendo com que o público do carnaval conheça as tradições desse Estado por meio de uma figura pouco conhecida por muitos brasileiros. Essa é Mestre Sacaca. Você sabe quem é?

    Segundo o próprio enredo, trata-se de um “curandeiro, folião, marabaixeiro e defensor dos povos da Floresta”. Como a escola falará sobre essa figura?

    Nessa história Mangueira é personificada e está no Turé, um importante ritual sagrado e de resistência de diversos povos indígenas do Brasil que leva a conexão com os encantados. Nesse caso, após entrar em transe xamânico em razão do ritual, ocorre uma conexão da escola personificada com Mestre Sacaca.

    Dai em diante, o mestre será responsável por guiá-la aos encantos da floresta, sejam eles da curé medicinal do poder das águas, dos tambores ou da força das tradições amapaenses representadas por Sacaca.

    É muito interessante como, durante esse processo de transe, Mangueira vai se conectando a tudo o que vai acontecendo durante o ritual e vai percebendo o quanto sua existência é carregada de brasilidade e ancestralidade.

    Ou seja, Sacaca e a Estação Primeira representam um Brasil que jamais pode ser esquecido, um Brasil de tradições que precisam ser valorizadas, como o samba e o Turé. Esse enredo cumpre um papel didático muito importante ao ensinar o público amante do carnaval sobre tradições que, possivelmente, não fazem parte de suas vivências. Nisso também reside a beleza do carnaval.

    Salve a Estação Primeira de Mangueira.

  • Gastando a Vida nos Bloquinhos

    Outro dia, me lembrei de uma frase que me caiu no colo de graça no Instagram. É de Mário de Andrade: “Viver é gastar a vida e não conservar a vida”. E eu penso: às vezes, a gente economiza tudo – até o que não era pra economizar. Economiza amizade, esperando a pessoa perfeita, aquela que preenche todas as necessidades, que não enche o saco, não cobra e não liga na hora errada. O amigo sem defeitos. E, com essa exigência toda, quantos amigos a gente deixa passar?

    Às vezes, economiza o riso. Ri pouco, preocupado se alguém está olhando. Queremos gargalhar de uma piada boba ou dançar soltos, mas guardamos tudo. Esses dias, fui no Bloco do Padreco – um pré-carnaval aqui em Belo Horizonte, no mesmo dia da Banda Mole. O bordão diz que “o carnaval só começa quando a Banda Mole passa”. Pra mim, só começa quando o Bloco do Padreco sai. Perto dos músicos, na comissão de frente, um grupo de freirinhas que se reúnem todo ano atrás da igreja. Fui com um amigo: duas freirinhas desgarradas rezando no meio do bloco. Tinha de tudo ali – freiras perdidas, padres bêbados, homem das cavernas, Batman. Ninguém economizava nada. Risos? Sambavam à vontade, dançavam e quebravam tudo até onde a coluna permitia. No resto do ano, essa turma só se encontra no pré-carnaval.

    Fico pensando: em que época do ano a gente gasta a vida sem ser no carnaval? Em que momento chega pra um estranho, ali meio sozinho na porta de um bar, e o leva pro meio do bloco? “Ei, não fica sozinho, vem brincar com a gente!” Gasta-se torto e a direito aquilo que não era pra economizar: amor, amizade. Quando pinta um clima, uma paquera, basta olhar de longe e sorrir com os olhos, esperando o convite. No resto do ano, a gente se quer, mas olha pro lado – tanta pressa de ganhar dinheiro, fazer coisas, pagar contas.

    A chuva não poupou ninguém. A multidão se aglomerava, se espremia perto da padaria na Praça Geraldo Torres. De vez em quando, alguém se animava e voltava a dançar na chuva. Fora do carnaval, mal nos olhamos. Vestida de freira, rezando pela alma dos pecaminosos, vi uma Kombi com “Carreto” escrito. Anotei o número, tirei uma foto sensual e mandei pro cara. O carnaval liberta, solta. Enquanto o bloco cantava “Asa Branca”, de Luiz Gonzaga, “Marcha do Saca-Rolha”, “A Cabeleira do Zezé”, a energia que a gente economizou ia pro ralo. Gastamos a vida e, de certa forma, nos renovamos. Não há tristeza que sobreviva àquela algazarra toda – ela vai pra algum lugar.

    Carnaval deveria ser o ano inteiro. No fim do bloco, comentei com um amigo: “As pessoas andam tão sozinhas, só os celulares conversam pelas ruas. Mas é daquilo que a gente fez no Bloco do Padreco que sentimos falta”. Aquele abraço amigo em gente desconhecida, quando o estranho vira parceiro e os olhos sorridentes viram possível amor. E a música? “Toque que a gente vai pro meio do bloco e não se segura”. É disso que precisamos o ano todo – disso que vivemos em quatro dias intensos.

  • Nas alturas, um café com o Redentor

    Próximo ao céu, onde nenhum obstáculo além de uma escada de marinheiro me separa do Cristo Redentor, a certeza de que nada é estável me invade. A mutabilidade da paisagem, colorida a cada noite por nuances de distintos pigmentos primitivos — esparsas, turvas, momentâneas — fere um órgão qualquer, apertado entre oxigênio, responsabilidades e preocupações.

    (— Não dói porque é frágil, diz uma voz que não vem de mim. Dói porque ainda sente.)

    Vejo, a princípio, uma face altiva e quase saudosa, a guardar uma das sete maravilhas do mundo moderno. Nada mais importa, por toda a eternidade. Eis o grandioso que se inclina, curioso, diante do que é genuíno, ainda quando o rosto é o morro dos Cabritos.

    (— Eternidade também cabe no intervalo de um gole, murmura Ele, sem mover os braços.)

    Telhas sombrias e arbustos naturais, adornados por flores hipotéticas, transbordam sabedoria a respeito da irrealidade do tempo presente. A noite tem cor de um veludo azul, feito em máquina de tinta de catálogo. Parece reproduzível, parece transportável — mas não é; depende da base.

    (— Depende de quem olha, suspira o corpo ao lado, em repouso confiado. Eu entendo.)

    Damos sentido às coisas pelo breve capricho de acharmos que tudo tem de fazer sentido. O mundo não faz sentido: respira, sente, reage, morre e nasce todos os dias. Ainda que luzes vigilantes enrubesçam os céus para que humanos notívagos brinquem de ser pássaros – cruzem altitudes, pulem de um país para outro, de uma cidade para outra, de um parapeito no térreo de uma serra para um na cobertura de uma praia.

    E então, como se quisesse confirmar a metáfora, um pássaro atravessa a noite e pousa quase ao meu lado. Assusta. Meu corpo reage. O coração dispara. Mas o reflexo vem mais leve do que antes. O medo passa rápido. O alívio afrouxado em um riso maduro vem depois.

    (— Ainda há espaço para o inesperado.)

    Grilos cantam em um e em outro lugar. A brisa é mais fresca nas horas adormecidas, embora janelas sem cortinas — ou pessoas calorentas — permitam que suas intimidades sejam mais soltas quando quase todos dormem. Prédios inteiros estão sem luz; alguns se destacam por suas temperaturas de cor muito particulares: branco quente, branco neutro e tantas cores possíveis pela tecnologia em que células programadas para telefonar transfiguraram-se em extensões de nós.

    Ouço música clássica pela saída do áudio do celular, cigarras nas matas dos arredores, motores de máquinas que se dizem silenciosos, conversas ininteligíveis ao longe, motos, carros e um pingar compassado de alguma torneira, não muito distante. Repousa ao meu lado uma xícara de café e uma presença que reconhece meu tempo — não pede explicações, não exige permanência.

    Com ela atravesso sinais fechados sem perder impulso: sigo na garupa da bicicleta enquanto as rodas descrevem círculos breves, atentos, até que o mundo permita a passagem. De madrugada, numa avenida larga e quase vazia, o som alto ocupa o espaço e o volante vira dança. A cidade se abre como se fosse só nossa — não por posse; coincidência rara. Existem encontros que não pedem promessa, só
    reconhecimento.

    O tempo é relativo. As pessoas são relativas. E as pessoas são as mesmas de antes: sorrisos que despertam sentimentos de nós mesmos, tão endurecidos pelo correr dos dias.

    Choro, sentada no parapeito. Me sinto uma coruja com minha cafeína líquida. Um pouco de mim se desfaz a cada segundo e tenho medo de o mundo acabar num instante — como acabou para o meu pai, para o meu avô, e há de acabar para o meu cachorro, e para meus filhos, se um dia existirem.

    Tenho em mim a sede genuína de um viver desembestado, um cavalo selvagem em meio a um descampado. Livre. Leve. Vivo. Sem destino pré-concebido.

    De esguelha, entrescondo a pergunta que Ele já sabe que aflige meu peito:

    Quanto tempo?

    Quanto até que meus olhos se fechem pela última vez, aqui?

    Quanto até o último café, o último beijo, o último êxtase, a última visão, a última palavra?

    Quanto de tempo hão meus cabelos, pele, sangue e respiro de testemunhar, para que minha mente se aquiete com tanto a se fazer e conhecer?

    Sentada nesse parapeito, em conversa honesta e silenciosa com o Redentor, choro.

    Não sei se de tristeza, de felicidade, ou apenas de equilíbrio — nessa minha vida em que as energias poderiam se carregar por um apetrecho qualquer, desenvolvido para me manter desperta. A todo momento.

    Que pode ser o derradeiro.
    E também o único.
    E o primeiro.

  • Poema #02: Sem alarde

    Não era o primeiro a chegar
    também não era o último
    ficava no meio.

    Lugar pouco disputado,
    onde ninguém posa
    e quase ninguém repara.

    Enquanto alguns se apressavam em brilhar
    e outros reclamavam da falta de luz
    ele aguardava.

    Não parecia esperar nada específico
    talvez só o tempo exato em que algo se revela
    sem fazer alarde.

    Foi assim que aprendi:
    nem toda claridade quer vencer a noite
    algumas só querem caber dentro dela
    por um instante e depois seguir

    vagalumeando

  • Super pobres

    Muito se fala dos super ricos, grupinho reduzido de privilegiados que amealham fortunas tão descomunais que fazem o Tio Patinhas parecer um pobretão.

    Erguem mansões em localidades diversas com dezenas de cômodos em mármore maciço e um séquito enorme de serviçais, bunkers antinucleares, coleções de carros blindados, iates, jatinhos, joias e objetos de luxo. Possuem zoológicos particulares com animais exóticos (em extinção). Constroem banheiras de ouro e privadas cravejada de brilhantes para dar um tratamento vip até à saída de seu cocô.

    Investem em terras, fazendas, gado, ilhas paradisíacas, fundos exclusivos, startups, e outros ativos cujos rendimentos e valorização lhes permitem fazer o seu patrimônio crescer indefinidamente. Tal qual seu ego. E sua ambição. Sonegando impostos para perpetuar a riqueza em sua integralidade.

    Não sabendo o que fazer com tanta grana acumulada, promovem festanças nababescas em hotéis 6 estrelas com shows de artistas super stars (super ricos também) e organizam turismo espacial de lazer para outros super ricos gastarem seu tempo em frivolidades inacessíveis aos demais mortais.

    Não bastasse, fazem lobby sobre os governantes para direcionar os rumos das políticas para atender a seus propósitos particulares de maneira que os destinos da humanidade a eles se subjuguem.

    Não se importam também em rapinar os recursos da Terra em benefício próprio, ameaçando a existência de todos os seres vivos, inclusive deles próprios. Colocam os bens materiais acima de tudo inclusive da vida.

    Na outra ponta, na base da pirâmide social, uma imensa maioria de indivíduos padece de fome e sede e luta pelas migalhas que os permitam sobreviver: são os super pobres.

    Para um visitante do espaço que descesse à Terra, tamanha desigualdade seria inconcebível. Qual a lógica em os terráqueos aceitar passivamente uma sociedade em que muito poucos têm bilhões enquanto bilhões têm muito pouco?

    A chave para a compreensão desse quadro bizarro é que os super ricos contam paradoxalmente com a condescendência dos super pobres para manter o status quo.

    Os super pobres não se revoltam, nem se organizam para pressionar por mudanças que melhorem sua situação relativa. Aceitam humildemente a superexploração a que são submetidos. São também super pobres de espírito.

    Opostamente ao que imaginara Marx em sua ‘luta de classes’, esses falsos ‘coitadinhos’ enxergam como seus reais inimigos não os abastados donos do capital, mas os demais pobres a que consideram fracassados e os imaginam como concorrentes na batalha para a ascensão social. Se não obtiveram sucesso nessa empreitada utópica para ‘subir na vida’ é por não terem se esforçado suficientemente. E passam a trabalhar dobrado, tornando-se além de super pobres, super esgotados.

    Acatam a ideia de que aqueles que se encontram em situação aflitiva foi por desígnios de um Deus que premia materialmente apenas quem é bem sucedido como empreendedor.

    Admiram os bem aquinhoados que, graças a seus esforços, teriam alcançado a bem aventurança traduzida por uma vida de luxúria, ao gosto do Cristo corporativo que dirige a humanidade não de um trono celestial, mas acomodado numa cadeira ergonômica de couro num smart office com ar condicionado. Que está mais para CEO do que para o céu.

    São os super pobres que abastecem com seu dízimo os pastores charlatões. São eles que elegem com seu voto os políticos corruptos e que enriquecem com sua atenção influencers picaretas. São eles que seguem os mandamentos dos impostores midiáticos que os convencem sem questionamento de lorotas persuasivas.

    Os super pobres menosprezam a educação que poderia fazê-los compreender a exploração e ignoram a palavra daqueles que os exortam a entender a dura realidade. Preferem viver na ilusão e se apegar à religião que lhes ensina o conformismo e a submissão.

    Sim, os super ricos podem continuar a se esbaldar à vontade. Contarão sempre com a benevolência dos super pobres.

  • Solidão x Solitude

    Costumamos dizer que seguimos com a mesma garra, a mesma força, a mesma independência, os mesmos “superpoderes”, embora já tenhamos atingido determinada idade.

    No fundo, porém, penso que isso talvez seja uma escolha. Optamos, de forma racional, por manter uma aparência de força. Decidimos seguir.

    Ainda assim, creio que nos tornamos, sim, mais fragilizados, mesmo quando estamos bem de saúde, com autonomia e em boa forma física. É como se, pouco a pouco, fôssemos esvaziando o estoque da nossa força emocional.

    Passamos a querer andar sempre em dupla. Reparem como muitos casais idosos realizam quase todas as atividades juntos. Ou mãe e filha, duas irmãs, dois amigos inseparáveis. Essa constatação se deu tanto pela observação de outras pessoas quanto pela observação de mim mesma.

    Há, no entanto, aqueles que preferem a solidão. Gostam de estar sós, apenas consigo. Desses se diz que cultivam a solitude. Ficam sós por escolha e sentem-se preenchidos de si mesmos.

    A solitude pode demonstrar força, garra e independência. Ou talvez revele pessoas que, com o avançar da idade, tornam-se mais recolhidas, avessas a reuniões, festas e encontros. Arredias…até ermitãs, chegando a ser intolerantes.

    Eu mesma me percebo dividida entre esses dois tipos de idosos.

    Creio que há também aqueles que são emocionalmente frágeis, mas optam por não demonstrar essa fragilidade. Em razão disso, afastam-se da vida social. Recusam situações em que se espera afabilidade, troca, interesse pelo outro, como festas, reuniões e encontros.

    Reflexões. Apenas reflexões. 

  • Ser surpreendido

    Não tenho vergonha alguma em ser surpreendido. Já superei faz muitos anos aquela necessidade de ter que mostrar que sabia de tudo antes de todos.

    Desprezo a sensação de poder que a clarividência traz.

    A verdade é que adoro não saber das coisas antes que elas aconteçam.

    Toda vez que eu converso com alguém que me diz “eu já sabia” eu me alegro por nada saber antecipadamente. Sou curioso, como todo mundo, mas não perco meu tempo tentando adivinhar.

    Por dever de oficio de escrita sinto prazer em imaginar situações, futuros alternativos, caminhos diferentes. E se ao invés de entrar naquela pizzaria às moscas eu tivesse ido embora para casa? E se ela tivesse jogado fora meu bilhete ao invés de ler o pedacinho de papel, sorrindo com a ousadia? Pois é, esse exercício é legal porque não antecipa algo na sua linha do tempo mas propõe alternativas para o que já passou.

    Voltando.

    Não quero ser adivinho. Não desejo ser blasé ou falar com tom morno e fazer aquele ar superior que acompanha as três palavrinhas “eu já sabia”. Dispenso o pedantismo expresso nessas palavras.

    Antecipar o trivial, o cotidiano é perder a oportunidade de voltar a se portar como criança. Sim, criança mesmo, rindo do novo porque é novo, é inédito. Com aquele riso frouxo carregado de esperança porque a novidade veio para nos alegrar.

    Por isso repudio a soberba dos que olham altaneiramente a vida, com eterno ar de deja vu.

    Quero ser testemunha da estréia.

    Quero participar dos fatos.

    Quero me emocionar com as novidades.

    Quero sorrir ante a surpresa.

    Quero deixar o coração saltar alegre pelo inesperado.

    Quero porque quero nada saber e tudo descobrir.

  • Capacitismo

    A discriminação e o preconceito social contra pessoas com alguma deficiência, são vistos como normais em sociedades desinformadas ou mal-intencionadas, e essas pessoas são entendidas como exceções; eles creem que a deficiência é algo a ser superado ou corrigido, se possível por intervenção médica.

    Um exemplo de postura inadequada, é dirigir-se ao acompanhante de uma pessoa com deficiência física, ao invés de dirigir-se diretamente à própria pessoa.

    Atitudes renascentistas como essa, desfilam nos lares das cidades que as acolhem, ocupados com números, objetos, teorias preconceituosas, ou por vezes, nada.

    A história nos mostrou que os franceses condenados, nos anos de 1757, eram levados a praça pública para cumprirem sua punição no fogo, cera e enxofre, porem menos de cem anos depois, o vigiar e punir, foi  transformado em treinamento aos detentos, com disciplina, e frequência às aulas, em dois períodos diários, sendo uma demonstração de progresso e desenvolvimento humano. Naquela França do século XVIII, era clara a evolução das mentes, voltada para um objetivo, a busca da inserção social. E cada sociedade se constituiu, no desejo de ser acolhida como um entendimento ao progresso intelectual de seu povo, sem desfile de capacitismo.

    Hoje assistimos o povo Afegão batendo de frente novamente com o islamismo, praticado ao pé da letra pelo Talibã, esse mal milenar. As mulheres voltam a perder seus direitos, o povo se vê oprimido, e o poder se instaura de forma retrógrada e destruidora.

    O estilo fiscalizador do talibã, pune radicalmente seus opositores, e anuncia cumprir a cartilha da Sharia, com bases ditatoriais.

    Estabelece as mesmas antiquadas regras e tabus de convivência, com armas em punho, sem direito a suplício.

    O que o Talibã faz, segundo o professor, Atilla Kus, mestre e doutorando em Ciências da Religião pela PUC-SP, é se utilizar dos conceitos religiosos, para justificar condutas e aglutinar apoio entre segmentos de sociedades que vivem no islamismo.

    No imaginário ocidental, a Sharia é descrita como uma tradução literal da lei islâmica, tal como está escrita no Alcorão, o livro sagrado da religião muçulmana para a vida cotidiana.

    Foi utilizada para justificar a proibição de meninas e mulheres, estudarem ou trabalharem.

    Vendo aqui esse movimento similar ao capacitismo, cada um a sua intensidade e interesse, sabemos que é desumana a relação com as supostas interpretações de quem o pratica, sejam contra os deficientes ou às mulheres afegãs, classificando-as como criaturas inferiores.

    O que nos resta é denunciar grupos deformados mentalmente como o talibã, atrasados socialmente, azedados pelo sangue em suas mãos sujas e carregadas de morte, que deveriam se esfacelar de nosso convívio.

    Lamento incluir esse clã na raça que faço parte no planeta azul, que de tanto girar não consegue soprar com seus ventos secos e nobres, essa lama de maus exemplos de convívio.

  • O grande acontecimento

    Ele tinha se tornado a principal atração daquela cidade à beira do mar. Quem lá fosse certamente ouviria na volta: “E aí, foi ver o…? O que achou?”, “Me conte, como é o…?”, “Não me diga que não foi ver o…!”. Era quase uma obrigação, para qualquer turista, visitar o… Ver o… era a revelação de um segredo, a que só pessoas especiais tinham acesso.

    No dia mesmo de minha chegada fui avisado pelo guia turístico de que naquela noite haveria o grande acontecimento: o… iria aparecer. Para vê-lo, eu deveria ir à praia junto com os demais visitantes. Estava já anoitecendo quando uma multidão, em silêncio, pisou a areia. Com devoção e seriedade, todos fixaram o olhar na espuma branca sobre a água escura. Ficamos ali, atentos por horas, esperando o surgimento do… Não se ouvia um pio nem se via movimento ou qualquer gesto de impaciência. Tínhamos todos o sentimento de que iríamos presenciar algo jamais visto. “O sublime”, alguém se atreveu a sussurrar. “A Pombagira, tenho certeza”, murmurou outro. “O enviado do céu”, choramingou a senhora de lenço na cabeça e terço na mão.

    A noite avançava e, quando já não se enxergava nada além da brancura das ondas, um homem saiu do mar. Surgiu da imensidão líquida, de onde não é possível que alguém surja. A água circundava sua cintura quando pudemos vê-lo com nitidez. Tinha barba, altura mediana e o olhar esgazeado, como se olhasse para tudo e nada visse. Chegou até o ponto onde o mar lambe a areia e se ajoelhou. Ergueu os olhos para o céu e assim ficou por muitos minutos. Depois baixou a cabeça e, tão lentamente quanto uma vaca se abaixa para abocanhar o capim, beijou a areia e em seguida escreveu algo com o dedo no chão molhado. Todos esticamos o pescoço para ver o que era, mas o mar foi mais rápido e apagou tudo. O homem virou-se de costas e, assim como veio, desapareceu na água escura sem que entendêssemos como.

    O mar voltou à mesmice de sempre e todos se levantaram e saíram da areia pensativos. Apenas eu permaneci lá, sob a lua, aguardando o grande acontecimento.

  • Meu primeiro grito de carnaval

    Sempre fui tímido. E, para piorar, me meti muito cedo com os livros. Só através da imaginação eu viajava — na vida real, não. Todo carnaval, eu me escondia: procurava ler uma montanha interminável de livros, me informava sozinho no cinema ou passava horas tediosas vendo televisão. Aquela alegria lá fora não me pertencia.

    Até que um dia cansei de ficar em casa. Vou para a rua, nem que seja para fazer uma caminhada, bater perna, invejar a alegria dos outros.

    De repente, ali no centro, descendo a Rua dos Goitacazes e chegando à Rua da Bahia, um rapaz me parou. Ele estava fantasiado: usava um vestido rosa, batom, luvas. Estava acompanhado de uma senhora vestida de bruxinha.

    — Você sabe onde tem um bloco legal por aqui?

    — Infelizmente não — respondi.

    — Um bloquinho com a gente?

    Eu disse que sim. E aqueles dois carnavalescos foram me levando.

    Subimos de volta a Rua dos Goitacazes, sentido Barro Preto, e figuras hilárias foram passando por nós. Um palhaço se aproximou e falou para mim:

    — Descubra os braços, moço!

    A bruxinha e meu outro amigo riram. Logo depois, cruzamos com um casal: o moço vestido de Mulher-Maravilha, a mulher de Superman.

    — Ô, casal, vocês sabem onde tem um bloquinho bacana? — perguntou a bruxinha.

    — Não. A gente também está procurando.

    — Quer ir procurar um bloquinho com a gente?

    O casal se recusou, desejou bom carnaval, e nós seguimos.

    No Shopping Cidade, o segurança — depois de segurar o riso — nos informou que ali na Augusto de Lima, perto do fórum, tinha um bloquinho. Não sabia o nome. Rumamos para lá.

    No caminho, vimos um homem fantasiado de Chaves, segurando uma maçã. Um rapaz vestido de Quico pegou a maçã dele e saiu correndo.

    — Ora, meninos, não brinque! — disse a bruxinha.

    Passou um padre — um homem fantasiado de padre — e realizou um casamento de brincadeira entre mim e a bruxinha, nos convidando a dar um selinho. Uma policial me colocou contra a parede.

    Quando chegamos à Augusto de Lima, cantamos abraçados: “Alalaô, mas que calor!”. Depois: “Olha a cabeleira do Zezé, será que ele é, será que ele é?”. A multidão se espremia, se abraçava, se apertava, mostrando que, na rua, em dias de carnaval, a gente nem precisa saber sambar.

    Daí em diante, decidi que nunca mais ia para o carnaval — sem fantasia.

    Como não fui até hoje.

  • Alô, alô, seu Chacrinha – aquele abraço!

    Fevereiro começa no domingo, como quem abre as alegorias do descanso — esse mesmo que sonha com samba no pé e os zirigundús dos foliões. Janeiro já anunciava as entradas da folia, com blocos em teste espalhados pelas ruas do Rio de Janeiro

    Tive a oportunidade de presenciar um deles na feira da Glória, quando assumi a tarefa de vender artigos culinários japoneses de primeiríssima linha, na barraca do meu grande amigo Shizuto e de sua família. Vale a pena conferir as comidas de rua do Japão — barraca 71, próxima ao portão da Lapa, na Praça Paris.

    Outra ocasião foi num domingo em que me lancei à capital para celebrar o aniversário da minha afilhada Lulu, quatro aninhos. Unindo encontros familiares a agendas profissionais, estiquei meus dias no meu Rio de Janeiro. No domingo passado, encontrei a Marcela no Flamengo, onde, no Planalto, nos unimos às palmas de um parabéns com glitter, estandarte, sorrisos largos e corpos carnavalescos espalhados pelas calçadas.

    Antes de retornar à minha serra, tomei café da manhã no quiosque Ginga, na praia do Leme — um ponto aberto 24 horas por dia. Algo inacreditavelmente maravilhoso para alguém cosmopolita e do mundo como eu, que se acostumou a não encontrar nada aberto depois das dez da noite, durante a semana. Domingo, então…

    No aguardo de uma carona prevista para as nove, caminhei pelas areias de calça jeans, cruzando os limites com Copacabana. Ah, a princesinha do mar — que hoje verei novamente. E novamente a Glória, os agitos da Praça Paris, os corredores da maratona no Aterro, o bloco da Ivete no centro e a rotina dos moradores que circulam pelas redondezas: o cotidiano de quem sai cedo para montar barracas e vender até o fim da tarde.

    Em meio ao percurso ainda escurecido da partida, me espanta o amanhecer da serra: a troca de azuis, o passar espaçado dos carros, a felicidade solta na voz dos amigos no carro. Nasceres e pores do sol sempre mexeram comigo de forma arrebatadora.

    São sete da manhã. Vejo o Cristo da janela.

    Da janela do carona, sobre a ponte Rio–Niterói, fecho esta primeira crônica brindando ao Rio de Janeiro, a fevereiro e a março. Algo do Rio ainda pulsa em mim — um pulsar que antecede o retorno e já carrega a saudade. Como se o caminho não fosse uma linha, mas um estado.

    Talvez eu viva assim — é bem provável, eu diria: chegando ao que sou agora, partindo sempre de algo que me ensinou a ficar.

    Bom dia, caro leitor!

  • Meu relógio é de borracha

    Às vezes, me canso um pouco de ler as crônicas do cotidiano publicadas nos inúmeros sites e veículos de comunicação (logo eu, que sou uma delas?). E não é por conta da qualidade literária dos textos — que, na maioria dos casos, é inquestionável —, mas por sentir que estou sempre comendo aquele mesmo pudim que retorna à mesa depois de congelado.

    Por isso mesmo, me deliciei com um texto novo que falava sobre os Tidsoptimistas. O termo é difícil até de pronunciar, mas desperta curiosidade — tanta que fui em frente para descobrir seu significado.

    E qual não foi minha surpresa ao perceber que o texto falava exatamente de mim! Será que a autora me conhecia de alguma reunião em que ficou claro ser eu uma Tidsoptimista clássica? Ou teria captado as vibrações do meu ser de luz, sempre pronto a ajudar outras criaturas afortunadas que têm uma visão otimista do tempo, como eu?

    Senti um estranho calor, como se — imagino — estivesse tomando um chá fumegante de Santo Daime, à medida que me reconhecia nas situações expostas. Estou vingada! (pensava, ticando cada uma delas). Assim que compartilhar esse texto, todos vão entender que minha intenção sempre foi boa; que o problema é apenas uma diferença de visão sobre o tempo — a deles é objetiva, a minha, subjetiva!

    Para que não reste dúvida de que a autora, Becky S. Korich, se inspirou na minha pessoa para psicografar esse texto, seguem aqui algumas situações citadas:

    O encontro é às 20h. Às 19h55, saindo de casa e ajeitando o cabelo no espelho do elevador, manda a clássica: “Chegando.”

    A reunião é às 14h. São 13h40. Calcula: “Trânsito, 25 min; me troco em 5; dou tchau em 2; saio em 10… dá tranquilo.”

    Tem um voo às 10h. Decide sair às 8h10, confiante de que tudo vai colaborar: o Uber vai chegar em 2 minutos, os faróis abrirão em sincronia, não haverá fila no check-in e o portão será logo ali.

    Quem já conviveu comigo certamente poderá engrossar essa lista com muitas outras situações optimistic e… me perdoar!

  • Comunismo na prática

    São Petersburgo é uma das cidades mais espetaculares do mundo. Estive lá em três ocasiões, as duas primeiras quando ainda atendia pelo nome de Leningrado, em pleno regime comunista. Naquela época, se o visitante não tivesse incluído todas as refeições no pacote cuidadosamente preparado pela única agência de turismo que os estrangeiros podiam utilizar, a estatal Intourist, enfrentaria muitos obstáculos para encontrar um restaurante que o atendesse.

    As opções eram escassas e os funcionários não se esforçavam para agradar os clientes, afinal pouco ou nada lucravam com isso. Eu e meu marido nos deparamos com restaurantes quase vazios, com garçons batendo papo, onde fomos impedidos de entrar sob a alegação de que todas as mesas estavam reservadas. Fazer uma reserva seria a solução óbvia, mas, quando solicitávamos ao hotel que a fizesse, diziam que era cedo demais para isso e pediam para voltar mais tarde. Quando voltávamos, respondiam que as reservas estavam esgotadas.

    Os hotéis dispunham de restaurantes que na hora do jantar ficavam abarrotados de estrangeiros tentando conseguir uma refeição decente. Era difícil arranjar mesa, mas uma gorjeta antecipada, principalmente em moeda estrangeira, facilitava as coisas. Mesmo assim, o serviço era ineficiente e os hóspedes tinham que se conformar com o que eles pudessem servir. Boa mesmo, só a vodca.

    Vimos hotéis onde existiam, espalhados pelos pavimentos, pequenos bares para lanches, igualmente lotados, mas onde era mais fácil ser atendido. Dispunham de um menu bastante limitado: pão, manteiga, caviar fresco (esqueça o Beluga, e não se iluda: há uma variedade de peixes cujas ovas se rotulam como caviar), café com leite e doces. Depois de duas ou três refeições dessas, e sem conseguir entrar nos restaurantes, você se perguntava se não seria o caso de pedir socorro à embaixada brasileira.

    Numa segunda viagem a Leningrado descobrimos que, convidando os guias de turismo para almoçar, eles davam um jeitinho de resolver o problema dos restaurantes. O convite era recebido como uma oportunidade de compartilhar um ambiente que lhes era normalmente vetado por questões financeiras. Contudo nem todos ousavam aceitá-lo: dava para sentir no ar o patrulhamento ideológico, e deduzir como era perigoso ter contato demais com o mundo exterior.

    Uma das guias, uma senhora mais idosa, não só recusou enfaticamente o convite, como se afastou de nós tão rápido quanto pôde. Quando nos deixou no hotel no intervalo para o almoço, vimos um pequeno caminhão vendendo bolos (inteiros) na calçada em frente. Já escaldados, achamos prudente comprar um. Havia fila e, quando chegou a nossa vez, as pessoas foram extremamente amáveis: por gestos, ajudaram-nos a escolher o sabor do bolo e a efetuar o pagamento, que, aliás, foi bem pequeno se comparado aos preços que costumavam cobrar dos turistas. Naquele dia, esgotadas todas as tentativas de conseguir lugar em algum restaurante, o almoço foi água e o bolo comprado com a ajuda do povo russo. Não sei se a culpa é da fome, mas esse bolo é uma das poucas coisas boas que me lembro de ter comido por lá.

    Quando estivemos em São Petersburgo pela terceira vez, e esperamos que não tenha sido a última, a Rússia estava em processo de abertura política. No entanto, como costumes não se mudam radicalmente de um dia para o outro, ainda havia problemas com os restaurantes.

    Essa terceira viagem foi realizada em um navio que ficou ancorado na cidade por dois ou três dias. Já não éramos obrigados a utilizar os serviços da Intourist, se é que ela ainda existia, mas, por precaução, achamos mais conveniente comprar duas excursões de dia inteiro organizadas pela companhia do cruzeiro. Nesses casos, era praxe do navio incluir o almoço em um restaurante local. Não na Rússia: eles providenciaram farnéis para os passageiros que iam passar o dia fora. Sinal de que, apesar das mudanças já visíveis, refeições em restaurantes continuavam sendo pontos fracos.

    Agora, já soube por várias fontes, que os russos têm excelentes restaurantes, vinhos e cardápios. Todos os viajantes recentes com quem tive contato falam maravilhas da comida e do atendimento. É por essas e outras que gosto tanto da iniciativa privada. E não pensem que o povo soviético prefere como era antes.

  • A Presença

    Como assim o prêmio do concurso foi uma viagem a Gumi-si?

    Onde fica? É cidade, é país? Em que continente?

    Essas eram as perguntas que eu me fazia, repetidas vezes, enquanto também as dirigia ao agente de viagens que me contactou para dar os parabéns pelo prêmio recebido no concurso de literatura da Livraria Lello, em Portugal.

    Não acreditei de imediato. Mas era verdade. Eu estava na lista dos escritores de língua portuguesa que participaram do certame.

    Confirmado o fato, preenchidos os formulários e de posse do voucher, com todas as particularidades que compunham o prêmio, compreendi, enfim, que não se tratava de um golpe, mas de uma realidade generosa.

    Fui então estudar o meu destino. Gumi-si é uma cidade sul-coreana, localizada no continente asiático, com aproximadamente quatrocentos mil habitantes. Uau. Já gostei. A ideia de não ser uma em um milhão aguçou meu senso de pertencimento.

    Decidida, preparei minha mala. Antes, porém, consultei a meteorologia, os pratos típicos, as vestimentas, a cultura e as opções de entretenimento, ainda que tudo isso fizesse parte do próprio prêmio.

    E que prêmio!

    Ao chegar, impressionei-me com a organização, a ordem, a disciplina e a gentileza dos meus anfitriões. A partir daí, mesmo sem sorrisos largos ou palavras expansivas, senti-me acolhida.

    Encantei-me com os detalhes. Um banco bem posicionado, uma faixa de pedestres respeitada com solenidade, um silêncio coletivo que não constrange. Caminhar por Gumi-si foi perceber que o cuidado pode ser uma forma de gentileza, que a ordem não precisa ser opressão, que a disciplina também pode ser afeto.

    Vocês conhecem o meu estilo de vida. Jovem, carioca, baladeira, inserida em um grupo como o nosso: atores, escritores, modelos e todos os que circulam nesse meio.

    Foi surpreendente descobrir que eu cabia naquele mundo onde a beleza, a poesia e o encanto não dependiam de grandiloquência, onde a moderação é elegante e o silêncio não intimida.

    Gumi-si fez-me descobrir um lado meu desconhecido. A sensação de estar do jeito certo, no lugar certo, sem atrapalhar. Voltei impressionada e, de certa forma, transformada. Descobri que posso ser eu mesma e que há em mim um silêncio atento, uma presença serena que eu ainda não conhecia.

    Gumi-si foi um dos presentes mais valiosos que recebi.

    Foi ali que a minha presença desvendou a minha essência.

  • Minha menina

    Ao final de um dia silenciado pela perda de uma amiga querida, bagunçado por estilhaços de memória, invadiu os meus ouvidos um som de infância vindo do parquinho do condomínio. Uma leveza quase me alcançou, não fosse a rispidez com que a tristeza amordaçou minha criança interior. Não foi a primeira vez que ela acabou contida, calada e desacreditada.

    Tento estender-lhe a mão, mas ela não confia mais em mim. Foram muitos os abandonos.

    Busco convencê-la de que aquela felicidade ingênua de viver sem dar-se conta da morte jamais voltará a nos fazer sorrir sem medo. Perdemos a inocência, a ilusão da presença eterna das pessoas que amamos.

    Ela balança negativamente a cabeça. Não crê no meu desespero de realidade. A criança que fui ainda pulsa quando a emoção me toma. Move os lábios, acena como se quisesse alertar sobre a existência de botes para as tormentas.

    Não ouço o que diz. Só penso em naufrágios.

    Ela sorri, embora sofra todo tipo de escárnio e xingamento. Tola, burra, ingênua, boba. Não percebe que a vida é injusta, cruel, indecente no uso de seu poder e apadrinhamento?

    Não perdoo sua falta de malícia. Rasgo suas roupas bordadas de esperança.

    Ainda assim, minha criança vive, dança, corre, rodopia, gargalha, sonha e é feliz. Mesmo excluída do direito de se pronunciar. Esperta, bate os seus pés no canto do pensamento, inaugurando um novo código Morse que implora nossa salvação.

    Soterro sua presença em resíduos de insegurança, medo, ansiedade, angústia e preocupações. Dou-lhe as costas. Exercito a frieza da maturidade.

    Deixem-me crer no amargor dos sábios e seguir encastelada na certeza do desfecho triste. Agora, tudo parece morto dentro de mim. Olho uma última vez para não restar dúvidas sobre o seu fatídico destino.

    Lá do fundo de tudo que há em mim, seus dedinhos emergem como prova do seu resistir. Ao longe ouço sua voz a me chamar para brincar de ser feliz. Renuncio às condecorações de guerra. Bandeira branca a minha menina. Ela nunca me causou mal algum.

    Machucada, trêmula, assustada, ela corre para os meus braços. Acolho. Acaricio seus cachos. Dou colo.

    Nesse encontro do que fui com o que desejo voltar a ser, renasce a aposta no agora, na eternidade do amor e na ingenuidade da paz.

    Rimos juntas dessa garotinha desafiadora e abusada chamada vida.

  • BBB

    Aconchegue-se no sofá e prepare a pipoca. Esqueça preocupações do trabalho, problemas domésticos, aluguel, guerras, corrupção, mudanças climáticas, contas atrasadas, taxa de colesterol e todas as coisas chatas sobre as quais, quando questionado a respeito, você responde “e eu com isso?”, empenhado que está em direcionar sua atenção para assuntos mais aprazíveis como futricar na vida alheia.

    Vai ter início o BBB. A partir de agora, você será transportado para um maravilhoso mundo de fantasia, tão arrebatador quanto um papo casual com o vizinho no elevador, ou sobre o comportamento do poodle da moça da fila do supermercado. Nesse contexto, não há relatos edificantes, dramas épicos ou sátiras de costumes. Nem mesmo um enredo ou um roteiro. Apenas uma sequência de vai-e-vens dos personagens da sala para a cozinha e da cama para a privada, entremeada por diálogos niilistas sobre as virtudes da apatia e do ócio.

    Embora voltado para indivíduos com reduzida capacidade cognitiva e mentalidade psicossocial infanto-juvenil, não se confunde com contos de fada ou de aventuras. Nele não há príncipes, donzelas, castelos, dragões, criaturas mágicas e super-heróis. Apenas adultos ‘comuns’ e insossos tipo os que habitam diuturnamente o Facebook e o Tik Tok. Tão estúpidos quanto seus espectadores.

    São barrados pelos experts em audiência da Globo intelectuais, pessoas reflexivas, questionadoras e artistas (exceto os ‘popularescos’). Os participantes são selecionados pelo grau de babaquice, em sintonia com o sentimento de identificação dos telespectadores.

    São priorizados aqueles que gostam de fazer intrigas, injunções fúteis e tenham capacidade de partilhar sua estreita visão de mundo com gente de sabedoria construída em grupos de whatsapps. Assuntos que, não servindo para qualquer matéria jornalística de relevo (afora revistas Caras e Contigo), são suficientes para provocar acaloradas discussões dos ‘especialistas’ em coisa nenhuma que frequentam os programas diurnos de Ana Maria Braga, Sonia Abrão e Nelson Rubens.  Que conseguem a proeza de superar em chatice as bizantinas mesas redondas de futebol que debatem o duvidoso pênalti do zagueiro flamenguista com a eloquência retórica de Cícero defendendo a República Romana.

    Gente que, se não estivesse 24 horas na Globoplay exibindo sua frivolidade, estaria junto a você, do outro lado da tela, tornando o reality show campeão de audiência e corroborando as palavras de Nelson Rodrigues: “os idiotas vão tomar conta do mundo, não pela sua capacidade, mas pela quantidade; eles são muitos”.

    Tais pessoas, invisíveis na turba ante sua insignificância, ganham visibilidade na TV, fazendo do ofício do Big Brother orwelliano um mar de tédio. Os detalhes do seu comportamento são prescrutadas por centenas de câmaras e microfones estrategicamente posicionados na casa/estúdio para acompanhar minuciosamente os movimentos e reações dos participantes. Captam desde uma coçada de saco e peidos acidentais até opiniões preconceituosas acompanhadas de risadas de cumplicidade.

    Nesse circo, você poderá exercer sua vocação cívica elegendo o infeliz que vai para o paredão com a seletividade que lhe faltou na escolha do deputado do Centrão que seu voto colocou no parlamento, cujo nome certamente lhe fugiu da memória, sobre cujas maracutaias você reitera com desdém: “e eu com isso?”

  • Nono marido

    A coisa mais triste do mundo era a vó Ana me fazer as tranças. Eu ficava com a cabeça cheia de caroços de tanto croque que tomava para ficar quieta. Mas todo mal tem o seu bem: a compensação era ouvir a vó Ana falar dos seus maridos.

    Estavam pendurados na parede da sala, todos com a mesma idade, parecia, uns trinta anos, e todos um a cara do outro: ruivos, com a bochecha meio pipocada, um bigodinho aparado bem fininho, o beiço caído, de choro, e os olhos mais tristes que já se viu.

    São a minha galeria de heróis, dizia a vó Ana, e ia apontando: o vô Joaquim, o vô Afonso, o vô Alfredo, o vô Macico, o vô Juca, o vô Pacheco, o vô Vicente, o vô Inácio.

    O vô Alfredo aguentou seis meses; o vô Afonso, só dois; o vô Joaquim, cinco meses; o vô Juca, nove – ia enumerando, orgulhosa, a vó Ana. O que durou mais foi o vô Macico: dezoito meses! Puxa, vó!, eu dizia. A vó Ana falava de-zoi-to, pausadamente, enchendo a boca.

    Só um que não aguentou nada, contava a vó Ana, com o ar de desprezo que Deus lhe deu. Só um que era um frouxo! Nem deu tempo de tirar um retrato. Ou a vó Ana nem quis saber de retrato. Esse nem nome não tem: é o nono marido.

    Saiu do quarto na primeira noite, ia buscar fogo para o pito, e nunca mais voltou. Esse negou fogo, dizia a vó Ana. No lugar do retrato, um quadro representando uns cachos de uva, murchas, desconsoladas.

  • Voz de IA

    Vou te falar, adotar essa postura tem evitado que eu me aborrecesse com mais frequência. Você tira a emoção das palavras e responde praticamente ao pé da letra tudo que te perguntam. Em alguns casos repete a mesma resposta se a pergunta for igual ou bem parecida.

    E como é que isso dá certo?

    As pessoas ficam sem muita alternativa para conversar porque você tira o espaço para estabelecer qualquer conexão que gere um diálogo mais extenso. Sem agressividade você cria uma barreira de desconforto diante dos demais seres humanos.

    Mas ninguém estranha, não acha você meio maluco por causa desse jeito assim…

    Assim como? Antissocial.

    Ah, bom, é isso pode acontecer. Um efeito colateral dessa postura é, as pessoas ao seu redor, criarem uma imagem pública a seu respeito que varia entre a maluquice e a grosseria. Pode resultar também em um certo isolamento social, sabe as pessoas param de te mandar memes, de te convidar para sair, entre outras atividades da vida em sociedade. Mas tem suas vantagens sim.

    E onde isso pode ser vantajoso?

    Você se livra do convívio de uma pensa de gente desagradável. Faça as contas, dos corpos humanos que orbitam ao seu redor, o número dos que merecem a sua atenção não cabem nos dedos das suas duas mãos juntas.

    Bom, pensando dessa forma eu acho que você tem razoa em parte.

    Viu? Essa seleção social é mais fácil se você se portar como uma IA, neutro, sem emoção e irritantemente funcional.

    Mas isso não parece com IA.

    Isso é o que menos importa porque na percepção das pessoas, por falta de repertório para conseguir definir o que você está fazendo, te classificam como IA. Admito que esse jeito de falar também me remete aquele personagem maravilhoso do cinema.

    Qual deles, o robô de Perdidos no Espaço?

    O robô não era do cinema, mas da televisão e a voz dele era carregada de emoção.

    Então quem?

    Hannibal Lecter.

    Você não pode estar falando sério.

    Estou sim.

    O Lecter é o psicopata dos psicopatas.

    Ah mas é um grande personagem, concorda?

    Claro, totalmente, mas deixa te perguntar uma coisa.

    Sim, claro, o que é?

    Seu plano de saúde cobre tratamento mental também?

  • Entre o que se escreve e o que se publica

    Até os melhores poetas já escreveram os piores versos, mas só os piores poetas os publicam. Isso já foi dito e redito, e aqui digo mais uma vez, porque parece extremamente certo e ainda necessário. A questão que se coloca é a da seleção dos poemas na formação de um livro e como a obra de um poeta se apresenta ao público.Aí o problema assume contornos matemáticos, de proporcionalidade. Porém, não se trata de porcentagem ou de qualquer expressão em valores numéricos propriamente (afinal, em termos de literatura, jamais poderia ser desse modo, bem como por falarmos em matemática mais em termos metafóricos), mas das impressões no leitor e no crítico.

    O tempo entre a publicação de um livro e outro precisa exceder o da escrita dos poemas que o leitor encontrará disponível para a leitura. Precisa ser maior não porque o poeta necessite observar esse ditame estabelecido e esperar para o lançamento, tendo o seu livro guardado. Mas porque se alcança uma quantidade de poemas suficiente para compor um livro antes, no entanto, se publicado prontamente, provavelmente, sua qualidade não será boa. Se selecionados criteriosamente, os poemas se reduzem em número, alarga-se o tempo necessário do livro.

    Alguns autores publicam livros quase que anualmente, com 100 poemas ou mais. A percepção que fica é a de que publicam absolutamente tudo que lhes sai da pena, sem qualquer crivo crítico e, como aparece em muitos casos, sem sequer revisão ou ajuste, o que é expelido da cabeça vai ao livro. Assim, em meio a bons versos que saem de todos os poetas de qualidade ou medíocres, estará uma enxurrada de ruins e médios poemas, suficientes para rebaixar a qualidade do livro na avaliação e na experiência que o leitor terá dele e com ele.

    Há poetas apressados, que procedem do referido modo pela freima de ver seu nome na capa de mais um impresso. Isso acontece principalmente com os iniciantes, que naturalmente possuem uma ânsia maior pela publicação e por serem lidos. Essa pressa pode conduzir facilmente à desilusão e ao fracasso. Se é isso que almejam, digo: publiquem tudo que escrevem, sem crítica e sem seleção, aqui está uma receita perfeita. Mas, se não for isso, esse cronista (que é também poeta) diz: é necessário ter, sobretudo, calma. Calma na escrita, na seleção e na publicação.

    Até os poetas mais experientes sabem disso, não deixam de escrever seus versos ruins, só não os publicam. Ou, alguns até fazem. Já se falou bastante como em meio à grandiosidade de Augusto Frederico Schmidt há certos desníveis, ou como existem poemas fora da curva na obra de Carlos Drummond de Andrade, marcada pela extrema qualidade.

    Mas, se não fosse suficiente, é necessário ter uma preocupação com a posteridade. Não para mim, poeta menor, que não serei objeto de estudo, mas para os grandes poetas ou os que pretendem ser um dia (e pretendam ser grande um dia). Imagine, você sempre realizou suas seleções muito bem, publicando os bons poemas e escondendo os ruins, porém guarda esses em casa. Após sua morte, um pós-graduando ou um crítico vai pesquisar em seu acervo pessoal e decide publicar seus inéditos. Pois é, estarão publicados os poemas ruins, eles contrabalançarão tendendo a prejudicar o juízo que se fazia sobre sua obra. É necessário estar de olhos abertos até após a morte. Lêdo Ivo talvez estive atento a isso, quando, em A queimada, deu-nos o seguinte conselho: “Destrua os poemas inacabados, os rascunhos, as variantes e os fragmentos Que provocam o orgasmo tardio dos filólogos e escoliastas. Não deixe aos catadores do lixo literário nenhuma migalha.”

  • Trevas de nossas dúvidas!

    As coleiras com espinhos, consideradas um dos primeiros dispositivos de proteção para cães, foram criadas na Grécia antiga.

    Apesar de parecerem rudimentares pelos padrões atuais, essas coleiras cumpriram um papel essencial na segurança dos cães da época, especialmente contra uma das maiores ameaças: os lobos.

    Na Grécia antiga, os cães eram usados para diversas funções, como pastoreio e proteção. 

    No entanto, os ataques de lobos, representavam um risco constante. 

    Para proteger os cães, os gregos desenvolveram uma solução engenhosa: a coleira com espinhos. Esse dispositivo era feito com pontas afiadas que se projetavam para fora, formando uma barreira física ao redor do pescoço do animal.

    Quando o lobo tentava atacar, os espinhos dificultavam o acesso ao pescoço do cão, prevenindo ferimentos graves e aumentando as hipóteses de sobrevivência. 

    Essa proteção não só garantia a segurança dos cães, mas também melhorava sua eficiência nas tarefas diárias, essenciais para a vida cotidiana da época.

    O “design” dessas coleiras reflete a criatividade e a praticidade dos antigos gregos, que buscavam soluções eficazes para os desafios que enfrentavam.

    Embora as coleiras modernas ofereçam novas tecnologias, as mais antigas com espinhos Gregos, representam um marco importante na história dos equipamentos de proteção animal. Elas mostram como a preocupação com a segurança e o bem-estar dos animais é uma prática que vem de longa data, destacando a evolução e a importância da inovação ao longo dos séculos.

    De volta para o futuro, observamos a existência de coletes fabricados em fibra de carbono, a prova de balas, facadas, porretes e espinhos. Eles fornecem proteção ao homem e são muito leves para transportar, sendo assim são o topo da proteção de vidas humanas, fragilizadas imensamente pela violência desmedida.

    Que coleira ou colete você imagina que possa lhe proteger do bombardeio das pessoas dizendo para fazer mais, ser mais e comprar mais, ao invés de nos dizer como levar uma vida melhor e mais feliz. Nos tiram do sério quando dizem para ignorar os sinais de alerta de que a vida está levando a melhor sobre nós. É sempre bom ouvir um “Você Consegue”, ao invés do frequente “desista, não é para você”.

    Eventualmente uma ajuda bem que viria a calhar, principalmente quando estamos enrolados com trevas de nossas dúvidas.

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