Sei que você não é sequer capaz de imaginar as sensações que desperta em mim. Nunca vivi nada parecido antes. Perco o sono, durmo mal. Você me excita. Muito… Penso que você é só minha. Eu exijo exclusividade. Você não tem a mais vaga ideia das coisas que eu gostaria de fazer com você. Na verdade, eu já fiz. No meu pensamento, já realizei todos os meus desejos. É tudo tão real. Eu despi você inteira. Observei de perto sua pele clara. Deslizei minhas mãos por todo seu corpo. Na frente, atrás… Que pele macia e sedosa você tem. Nenhuma mancha, nenhuma marca, nenhuma cicatriz. Você beija bem. Sim, eu beijei você várias vezes. Nossas línguas já se encontraram. Uma procurando a outra com avidez, lembra? Nossos corpos se encaixaram. Eu tenho a impressão de que você me deseja também. É claro que deseja. Sente tesão. Uma coisa forte e sincera. Da nossa última noite de amor você se recorda? Eu me lembro de cada detalhe. Você chegou usando aquele vestido vermelho decotado. Ele deixa você ainda mais sensual. Realça suas formas. Como se você precisasse desses artifícios… Eu estava ansioso, não parei de olhar o relógio até você chegar. Eu corri ao seu encontro, abri a porta do carro. Eu lhe preparei uma bebida. Sei o que você gosta de tomar. Eu sei tudo a seu respeito. Ninguém conhece você melhor do que eu. Nós bebemos juntos. A música que tocava era a nossa música. Você escolheu bem. Realmente, como você disse, ela parece ter sido inspirada em nós. É a vida imitando a arte. Ou seria o contrário? A gente dançou de rosto colado. Passei a língua na sua orelha. Mordi seu pescoço. Ficou uma marca. A sala na penumbra. Você me pediu que abaixasse a luz. O que eu não faço para contentar você? A gente subiu para o quarto. Eu carreguei você nos braços. Amantes em direção ao ninho de amor. Você sempre foi romântica. Sempre adorei as situações que você criava, suas fantasias… Que imaginação! Eu embarcava nelas. Elas se tornaram minhas fantasias também. A cama macia, lençóis de seda, uma comichão queimando nossos corpos. Você já sem o vestido. Você completamente nua. Seus mamilos rosados, seus pelos pubianos. Seu corpo… uma obra de arte. Que visão maravilhosa. Eu possuí você. Com carinho. Você teve um orgasmo. Você me abraçou e me disse que queria tanto que aquela noite não terminasse nunca. Era exatamente o que eu estava pensando quando você falou. Também adoraria que aquela noite fosse eterna, durasse para sempre. Você teve outro orgasmo. Você está percebendo a sintonia que existe entre nós? Nós temos sorte. Achamos um ao outro. A metade da laranja, a tampa da panela, almas gêmeas, seja lá o que for. Eu sou seu, e você é minha. Ou ainda vai ser um dia. Sei que vai. Tenho fé. Nós tomamos banho juntos. Nossos corpos se tocaram embaixo do chuveiro. Eu acariciei sua barriga. Eu enxuguei você carinhosamente. Passava a toalha pelo seu corpo, porcelana fina e delicada. Depois do banho, nos amamos de novo. Dessa vez no chão forrado com pétalas de rosas. Rosas brancas, suas favoritas. Em cima do tapete também, no meio das almofadas. Somos insaciáveis. Você gosta de variar, sempre rejeitou a mesmice, fugiu da rotina. Os laços que nos unem. Nós… A carta prosseguia. Alice, porém, resolveu não continuar a leitura. Desde a morte de Sandra, ocorrida três semanas atrás, aquela era a primeira vez que entrava no quarto da filha. Tudo estava exatamente como ela havia deixado. Dobrou o papel, colocou-o novamente dentro do envelope e o abandonou no criado-mudo, onde o encontrara. Apagou a luz e saiu, fechando a porta atrás de si.
Crônicas
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NÓS
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“Zerou” a vida?
Não. Zerar não é empatar. Quando chegamos ao fim da nossa capacidade de contagem, zeramos o jogo. “Zerar a vida” é a vanglória de um feito mágico e grandioso, uma experiência inacreditável! O ideal de fazer algo extraordinário, como se tivesse vencido o último e mais poderoso oponente e batido a meta máxima do game.
O feed desliza repetidamente, sem pausa, sem ponto final. A moça radiante dança diante de um palco imenso e resplandecente debruçado sobre a praia de Copacabana. Leio a legenda: — Zerei a vida! Ela é ainda tão jovem, pensei.
Não. Zerar não significa tirar nota zero. Zerar é a possibilidade de recomeço de um novo jogo e, portanto, abrem-se novamente as possibilidades de vitória, na aposta de que o sucesso esteja pleno de conquistas, e que possam ser vistas pelos outros.
Na lógica do “corre” , desacelerar seria escolha de quem está frustrado ou de quem está esgotado, fugindo da captura algorítmica.
Na matemática da vida real também zeramos o saldo de créditos e débitos e assim iniciamos o próximo ciclo de resultados. O circuito se repete neste jogo em que somos impelidos a “lacrar”. O entusiasmo está contido em cada possibilidade de gozo, como se assim descobríssemos o sentido da vida.
Zerar a vida não seria secretar sentidos da própria experiência de viver? Se a coragem necessária para enfrentar a única partida para valer só se justifique com um sentido, estamos todos “lascados”! Melhor será esvaziarmos o cofre das ilusões onde esbarramos naquilo que não tem sentido.
Entre perdas e ganhos, que o saldo seja em créditos de desejos, assim, mesmo sem prêmios ou troféus, a vida sempre valerá a pena.
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Maldito Ipê Amerelo
Dia desses, acordei desagradavelmente surpreendido, ao avistar pela janela um objeto estranho sublevar-se na paisagem urbana a que estou habituado a contemplar pelas manhãs. Em meio à monocórdica retitude dos edifícios cheios de sacadas, num cenário perfeitamente simétrico, ornado com veículos, postes, bueiros, muros, grades, fios elétricos, guindastes, betoneiras, tapumes, andaimes e fumaça, eis que se sobressai ao pálido grafite, uma intrusa árvore carregada de flores… amarelas.
Que significa isso agora? Só me faltava essa… Não podemos nos assentar sossegados por um segundo na sepulcral paz matinal costumeira, apreciando o turvo panorama carregado de monóxido de carbono e dióxido de enxofre, sem sermos agredidos por grotescas manifestações festeiras desse meio-ambiente rebelde.
A natureza parece não conhecer limites, não tem consciência de seu lugar. Não bastassem as vastas áreas em parques, reservas e na Amazônia em que foi devidamente alojada, ocupando espaços que deveriam ser usados para plantar soja e criar gado, agora temos que aturar resquícios florestais a invadir as calçadas das cidades com esse amarelão cafona, tão vivaz que parece saltar pra fora da imagem.
Ao chegar essa estação, a coisa se espalha como praga por tudo quanto é canto. Num irritante ciclo que se repete anualmente, somos obrigados a conviver por dias com essas abusadas plantas floridas, afrontando a paisagem e escancarando aos olhos suas espalhafatosas tonalidades.
Ainda por cima, atraem pássaros barulhentos e legiões de abelhas, lagartas entre outros insetos asquerosos que ameaçam nosso estéril habitat em apartamentos dedetizados e shoppings higienizados.
Quem lhes dá o direito de subverter a paisagem construída por nossa asséptica civilização? Quem foram os imbecis que as plantaram, subtraindo preciosos metros quadrados do passeio público? E as autoridades municipais, onde estão, que não tomam as necessárias providências coercitivas?
Ao invés de ficar poluindo visualmente nosso espaço urbano, poderiam ceder suas madeiras para as fábricas de móveis e pisos, estabilizando os preços dessa matéria-prima tão escassa em nosso mercado de construção civil. Ao invés disso, deixam-nas viver impunemente.
Até o nome soa patético, “ipê”, expressão tupi, herança maldita do tempo em que os selvagens conspurcaram nossa sociedade com seus valores retrógrados. Que eu saiba, esse vocábulo estridente inexiste em inglês ou qualquer idioma civilizado. Língua de índio. É palavra típica desse ‘paiseco’ atrasado. Faz parte da nossa ridícula cultura terceiro-mundista, maculada com influências espúrias de africanos e silvícolas, acostumados a viver descalços e seminus no mato.
Por sorte, esse abuso durou pouco. Após emporcalhar o concreto com suas pétalas, a árvore ficou desnuda e passou a exibir apenas galhos esquálidos, com aparência cadavérica, em harmonia com seu entorno. As coisas retomaram a normalidade. Poderei voltar a acordar sem sobressaltos apreciando o maravilhoso acinzentado que dá significado a minha insípida existência.
Sem folhas, sem flores, sem cores, sem amores, sem indigestos ipês amarelos.
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A bela da porta
Era assim. Durante a semana eu caminhava logo cedo para o colégio Santo Agostinho. Percorria uns quatro quarteirões de onde eu morava na época, no Leblon. Era no século passado, entende, então eu, como todos os demais garotos de 12 anos, levava uma bolsa a tiracolo com livros e cadernos, pendurada em um dos ombros, que àquela hora pesava uma tonelada. Bem diferente de hoje quando só se vê para cima e para baixo malinhas de escola com rodinhas. Ao que parece a tal da ergonomia é invenção recente, desse século. Hoje quando lembro da minha situação indo para o colégio imagino como era possível um menino carregar tanta coisa sem passar o resto do dia reclamando de dores. Vantagem da pouca idade, claro.
Enfim, seguindo. Não lembro bem o mês mas acho que deve ter sido entre o verão e o outono ou de outra maneira entre janeiro e julho. Não, foi entre março e junho tenho certeza. Sabe por que? Porque em janeiro e fevereiro fazia um calor danado, além de parte do tempo ser férias, e na minha memória não lembro de fazer calor. E julho, como hoje, era mês de férias escolares. Bom, acho que deu para entender quando era né?
Retomando. Eu vinha caminhando devagar pela rua General San Martin, inclinado para um dos lados como um navio adernado por conta do peso. Até que um dia eu a vi. Ela era linda, cabelos castanhos claros meio cacheados. Não lembro a cor dos olhos mas a expressão no olhar era muito séria. E muito linda.
Na primeira vez que eu a vi não acreditei. Ela estava em pé, diante da porta de casa, de uniforme escolar esperando acredito o transporte para a escola. Era linda demais. Diminui o passo à medida que me aproximava. Devo ter feito uma expressão de imbecil porque a menina nem me olhou. Não parei, segui adiante porque tinha aula e não podia me atrasar.
A partir daquele dia minhas manhãs de ida à escola mudaram, ficaram mais radiantes e animadas. Tomava café correndo e me jogava na rua em direção a casa dela. Aos poucos fui ajustando meu horário para sempre coincidir com o dela. Com um pouco de sorte no meu esforço de tentativa e erro eu consegui. Sabia exatamente a que horas eu tinha que passar pela rua para vê-la. Isso tinha um lado muito bom e outro nem tanto. Era bom poder ver a bela menina da porta. Era ruim porque não podia ficar muito tempo, tinha aula e chegar atrasado era uma opção inexistente na minha vida.
Na minha memória foram várias as semanas em que eu a via ali paradinha. Honestamente não sei dizer quantas foram as vezes de ficar passando e observando a bela na porta da casa. Sol ou chuva, não importava, eu ia ao encontro da bela menina na porta de casa. Você pode achar estranho mas eu nunca, repito, nunca me dirigi a ela. Era tímido e fechado como uma ostra.
Por isso passei a arquitetar um plano para falar com a bela menina. Escrever um bilhetinho e entregar a ela quando passasse foi a primeira das idéias. Mas esbarrou num problema insolúvel: minha caligrafia. Minha letra era, e ainda é, tão feia que estava mais para escrita hieroglífica do que para algo minimamente legível. Portanto se eu deixasse o bilhetinho ela teria que buscar um especialista no Museu Nacional para decifrar minha mensagem. Fora o vexame que eu passaria por ter uma letra horrorosa. E tinha outro aspecto terrível no plano: o que eu escreveria? Uma saudação? Um cumprimento carinhoso? Um versinho copiado? Nada me parecia adequado. Assim a idéia foi obviamente abandonada.
A solução talvez fosse a mais simples mas ao mesmo tempo hiper difícil para o meu eu daquela época: parar diante dela e conversar. Falar o que? Sobre o que? Provavelmente eu gaguejaria, daria vexame, ela riria da minha incapacidade e eu sairia dali praticamente morto em vida. Na indecisão de minha adolescência, escolhi nada fazer.
Assim eu a via, ela não me dirigia um mísero olhar e eu seguia para o Santo Agostinho transbordando de alegria e fantasiando muito. Qual seria seu nome? Como seria a sua voz? Será que gostava de ler? De ir ao cinema?
Um dia eu me lembro quando me aproximava dela como sempre a menina do nada sorriu na minha direção. Um sorriso lindo, de outro mundo, de orelha a orelha. Parecia iluminar a calçada àquela hora da manhã. Pego de surpresa, parei de olhos arregalados. Engoli o coração que parecia uma batedeira e queria sair pela minha boca. Tomei coragem e quando sorri e as primeiras palavras começaram a sair da minha boca um vulto surgiu e se abraçou nela. Era um garoto mais alto e pelo visto mais velho do que eu, cheio de atitude com sorrisinhos, “bom dia gata”, ela ronronando de volta e…beijo! Os dois estavam se beijando bem ali, na minha frente. O sorriso afinal não era para mim.
Fiquei parado, mortificado. As lágrimas vieram aos meus olhos e corri para longe deles. Nem devem ter me notado. Parei próximo a entrada da escola para me recompor. Enxuguei as lágrimas, jurei nunca mais passar na porta dela e de não me encantar com nenhuma garota bonitinha como ela. São fáceis, fúteis e mentirosas, resmunguei para mim mesmo.
Bom, a segunda parte do juramento eu não cumpri tanto que casei três vezes e uma delas com uma miss Verão Fluminense, o clube tá? Já a primeira parte eu pus em prática na manhã seguinte. Mudei meu caminho e passei a ir para a escola pela avenida Ataulfo de Paiva. Na porta dela nunca mais passaria em frente.
Quando isso aconteceu? Faz as contas, eu tinha 12 anos na época portanto foi há décadas.
E ela? Ah, sei lá. Nunca mais a vi nem soube dela. Lembra, nem sabia como ela se chamava nem nada. De repente casou com aquele bobalhão. Ela também não era assim essa maravilha toda. Se mereciam, afinal.
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Loteria Sagrada
No fastiar dos dias, nos cruzam rotinas que trazem novas oportunidades, e outras que quase não tentamos tocar. Simplesmente porque escolhemos a que nos arrefece o caminhar, como um templo de braços abertos, com ofertas a seu critério. “Estamos procurando fora de nós por força e confiança, mas elas vem de dentro, e estão lá o tempo todo” (Anna Freud).
Um desses templos com múltiplas ofertas, é o “Omikuji”, construído em Tóquio, na área de Asakuda. Ele recebe por ano cerca de 30 milhões de pessoas, que vão em busca de uma palavra mágica. É parada obrigatória pra quem visita Tóquio, e um dos tradicionais templos japoneses, onde encontramos algo como uma “loteria sagrada”, que nada mais é do que um pequeno papelzinho da sorte oferecido à escolha do visitante. Por apenas ¥100 (R$ 3,50 ), o visitante segue um rito: coloca uma moeda em uma lata e retira uma das varetas de dentro do compartimento da vez. Com o número escrito nela, busca a referida gaveta e retira o primeiro papel disponível. Se a mensagem for positiva, guarda-se no bolso, caso contrário, é só amarrá-la em uma das balizas do local, com o objetivo de deixá-la pra trás. Parece que nesse curto encontro literário você descobre que não é a vida que vai te dizer o que você quer ser. E tenta se enganar, porque na verdade, é você que vai dizer pra vida o que vc vai ser. Na gaveta da sugestão, seu poder de escolha filtra oportunidades que a brincadeira torna realidade, e trás reflexão para os casos agradáveis, porém, expõe sua vida íntima, quando o recado descartado mostra o seu critério excludente, daquilo que pode ser mais complicado resolver. É muito difícil construir uma boa história de vida, que leva tempo e toma sua energia, mas pra acabar com ela, só necessitamos de um instante. A escolha que podemos fazer, somente das coisas boas, exclui a possibilidade de encontrar lá na frente um prazer maior do que esse imediato. Como o fez Caio Augusto Siqueira, que ganhou a Olimpíada Internacional de Física aos 17 anos, em 2021, considerada a mãe de todas competições científicas. Desde criança dedicou-se as dificuldades das ciências exatas e ganhou duas medalhas douradas brasileiras na Olimpíada, em 2011 e 2012. Estudou livros do ensino superior e em outros idiomas. Comumente permanecia até tarde da noite com obras em inglês, russo e francês. Em uma prova que durou cinco horas, demonstrou seus conhecimentos que lhe concederam o ouro olímpico.
Mais ou menos assim você pode mostrar sua habilidade pra fora de si, com o gesto de aceitar o que lhe foi posto, e assim conferir sua capacidade de realização perante os seus. É a morte que pergunta ao tempo que horas são, e por isso não lhe confere a pressa diária. Coisa que por sua decisão o impede de curtir a paisagem que passa em seus olhos, em troca de vãos minutos ganhos pela decisão afoita na busca de uma atitude certeira, por vezes baseada num pequeno papel, escrito num mundo que ainda não está pronto, sem antes olhar pra trás.
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Cinzas
Como um anjo caído, eu virei cinzas, me dispersando por cada lugar que passei. Gritei aos céus para que me recebessem de volta, enquanto bebia minha dor.
Nenhuma luta para me levar ao cosmos foi suficiente, somente muito sangue foi derramado.
Era a batalha interminável das duas coisas que me sobraram: a busca pela indiferença dos sentimentos, como uma boa estoica, e a hedonista que tentava sobreviver.
Enquanto anjo caído, espalhei a dor que queimava como o inferno dentro de mim e que me enfeitiçava com um beijo gentil em meus lábios.
Nesse descompasso, perdi o controle das horas, dos dias e de mim mesma. Tudo que eu tinha era um quarto escuro, borrado de lágrimas que insistiam em cair.
Fui velada viva, enquanto amaldiçoavam meu nome em meus ouvidos e desejavam que eu ficasse. Meu luto por mim mesma continuava, envolvendo tudo que fui no passado, o nada que eu era naquele presente, e o futuro jamais seria o mesmo.
Depois de velada e cremada, voltei ao início: como cinzas. Dessa vez, em pequenas andanças, fui recolhendo minhas cinzas. O fogo que antes ardia em mim começava a amornar. Esse era meu recomeço, meu acordar.
Começava minha corrida contra o tempo. Era a hora. Eu precisava refazer meus passos pra não cair em descompasso.
Revivi por mil anos todos os sentimentos que já habitaram em mim, encontrei flashes esquecidos de felicidade e amor.
Vivi a eternidade desses momentos e colei entre meus ossos e minha pele, para que nunca mais saíssem de mim.
Despedi-me do meu outro ser, porque sabia que esse começo queimava, mas de vontade de ser, estar e viver. Era o tipo de fogo que incendeia e não o que queima.
Tudo era avassalador. Um pequeno sorriso, uma pequena paixão e milhares de momentos que começavam a se repetir, fazendo de mim a criatura que mais rogava por desejo.
Fui, enfim, sentenciada. Liberdade era a palavra que gritava em minha cabeça. Eu podia morrer de outras mil formas, mas não dessa, porque nenhum pedaço meu era mais da minha dor.
Fechei a conta. Fui aceita no céu.
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O velho saudosismo de todos nós
Por alguma razão que desafia meus parcos conhecimentos, todos nós somos mais ou menos saudosistas. Com isso, não quero dizer que estejamos, naturalmente, inclinados a um pungente estado de melancolia. Talvez o caso requeira alguns cuidados, mas não chega ao absurdo de tal fatalismo. De toda forma, creio que o passado seja um personagem que insiste em ser valorizado, mesmo quando seus atributos só podem ser, medianamente, apreciados.
— Bom mesmo era no tempo do finado Clécio! Aquele galego era dos bons! Com ele, não tinha essa bagunça que virou esse condomínio!
Peço desculpas pela interrupção, mas a amiga haverá de entender a indignação do infeliz morador. São altas horas da madrugada, e o pobre coitado ainda não conseguiu pregar os olhos. O antigo síndico, Clécio de Andrade, era um capitão reformado do Exército. Sujeito de poucos amigos, com sessenta e tantos anos de idade, fazia da administração daquele condomínio a sua grande profissão de fé. Após tantos anos de caserna, gerenciava-o com a mesma disciplina que um jovem tenente costuma liderar seu pelotão. Aqueles eram outros tempos, e, de fato, os moradores do Edifício Baronesa de Itu não desfrutavam mais das mesmas paz e tranquilidade. Hoje em dia, seu Clécio não está mais entre nós, aquelas antigas famílias já não moram mais ali, e a maioria dos condôminos é formada por estudantes que vieram do interior do estado. Não se tem mais aquele senso de comunidade, sabe?
— Antigamente, os jogadores honravam a camisa do time. Agora, só querem saber de dinheiro, festinha e badalação. E é um mais perna de pau que o outro!
Já esse é o seu Manoel, um ilustre futebolista frustrado do bairro. Nunca o vi jogar, mas todos dizem que era bom de bola. Parece que foi até selecionado para jogar por um grande clube de São Paulo, mas uma grave lesão no joelho o tirou dos campos. Privado de seu sonho de menino, continuou acompanhando os jogos do seu time do coração como torcedor fanático que é. O problema é que a atual fase não é das melhores, e aquela esquadra tem sucumbido com frequência aos adversários. Para contrastar com o presente de sucessivas e vexatórias derrotas, o longínquo passado de gloriosos títulos ainda alenta o sofrido coração daquele aficionado. Mas é impossível não associar a decadência atual do futebol local aos problemas contemporâneos da juventude e aos excessos midiáticos que envolvem as estrelas do mais popular dos esportes. As mais disseminadas teses sociológicas de botequim convergem em afirmar que o futebol de outrora era muito melhor do que o praticado atualmente. Também pudera! Como comparar Pelé e Garrincha com o que se tem hoje?
— Essa roubalheira toda não tem fim, mesmo! Antigamente, a gente ainda via político honesto e de brio! Hoje é só sem-vergonha corrupto!
Essa foi a primeira reação de dona Marina, ao ler a notícia de que o fundo de pensão dos servidores municipais estava envolvido numa falcatrua das brabas. Dos pormenores do esquema, ela não sabia dizer muita coisa. Mas estava convicta de que, quando jovem, essas maracutaias não ocorriam. Claro está que sempre houve malandros ali e acolá querendo levar vantagens indevidas. E, evidentemente, na política não era diferente. O problema é que, para ela, a desfaçatez tinha se difundido tanto, que o que costumava ser a triste exceção virou a perniciosa regra. De suas reminiscências mais distantes, nada havia de menção aos desvios de verba pública tampouco às compras de votos. Não é para menos! Prestes a gozar de sua aposentadoria do serviço público municipal, preocupava-se com os efeitos que um possível rombo naquele fundo geraria sobre sua renda. Naquele edulcorado passado, não tinha tantas contas para pagar nem uma custosa artrite reumatoide para tratar.
O passado brindou-nos com uma vida mais tranquila e pacata; Pelé e Garrincha não mais encantam o mundo futebolístico; e os larápios de hoje envergonham os de ontem. Frente a sentenças do tipo, o presente resigna-se com a sua contumaz inferioridade. Sujeito de boa autoestima, sabe que mais cedo ou mais tarde suas qualidades serão reconhecidas e rememoradas por todos nós. O desprezo com que muitas vezes ele é tratado não é capaz de sustentar sua condenação de primeiro grau. Quando essa injustiça salta aos olhos, o próprio tempo dá um jeito de reparar os erros de nosso incauto juiz interno. Diferentemente do passado, tipo impertinente e egocêntrico, o presente tem paciência de sobra para que seus defeitos sejam esquecidos e suas qualidades, realçadas.
Não sei por que me estendo em demasia nessa argumentação. Antigamente, conseguia ser mais claro e objetivo. Já hoje em dia, quando sou interrompido abruptamente, perco-me em divagações e em solilóquios. Na verdade, acho que bom mesmo era quando não havia tempo a perder com especulações desse tipo. Mas naquela época eu reclamava da escassez de tempo… Ah, esse velho saudosismo de todos nós!
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Um beijo ardente
O empresário e a jovem secretária amante beijam-se ardentemente no quarto de luxo de um hotel evidentemente de luxo também. Findo o beijo, ele leva as mãos à boca, sentindo algo estranho. Que foi, ela diz, não gostou? Ele corre pro banheiro, olha-se no espelho, abre a boca e lá está: um vão, uma janela, onde deveria estar um dente, um pré-molar tipo ostentação, de ouro 24k!
Assustado, sempre protegendo a boca, corre de volta pro quarto, abaixa-se, procura no chão, embaixo da cama, debaixo dos lençóis… Que foi?, pergunta de novo a jovem secretária amante. Os dois se abaixam pra procurar juntos. Em vão. Ele tem um insight mesmo sem saber o que isso significa, e se pergunta: será?
Que foi?, ela quer saber outra vez de novo. Não é possível, ela diz depois de ele contar. Será?
Difícil seria explicar pra esposa, chegando o empresário às 2 da matina, sem um dente – e de ouro 24k! Caiu na rua, no bueiro, caiu na privada, um assaltante… ela, a esposa, não engoliria. Sua vida, a dele, viraria um inferno.
Abriu o jogo: minha jovem secretária, hã, amante, hã, engoliu.
Seu dente?!, exclama a esposa estupefata.
De ouro 24k, ele responde embaraçado.
Pediu perdão. Era íntegro. Momento de fraqueza. Mil promessas. Amava a esposa. Como a ninguém.
Inútil, em vão, outro vão. A vida dele virou um inferno.
A esposa processou a amante: “Garimpo ilegal, além do mais!. Quero o dente – o pré-molar de ouro 24k! – de volta. Custe o que custar!”.
Não pelo valor, poderiam comprar uma dentadura inteira de ouro 24k. É questão de honra!, afirmou a esposa, peremptoriamente.
Processo de rico corre mais rápido que entregador de pizza. Contra pobre, é quase instantâneo. O juiz deu 24 horas pra jovem secretária amante desengolir o dente. Métodos, ele disse, existem aos magotes – juiz gosta de enxundiar o verbo.
Sentença cumprida, o dente foi devolvido são e salvo. A esposa guardou o agora suvenir no porta-joias. A essa altura o empresário já tinha reposto o dente, dessa vez mais modesto, de acrílico. Até porque, obviamente, um dente que passou pelo que passou o pré-molar de ouro 24k, entrando por onde entrou, saindo por onde saiu, quem teria coragem de usar?
O beijo da jovem ex-secretária ex-amante marcou pra sempre, como uma nódoa de cajú, o cuore do empresário.
A esposa passou o resto da vida conjugal tentando um beijo daquele pra agradar o marido. Em vão. A vida toda arrancou dinheiro dele, mas nunca conseguiu arrancar sequer um incisivo.
O caso ficou conhecido como O Beijo de Lingote. A jovem ex-secretária ex-amante, ganhou fama como A-Garimpeira-do-Pré-molar-de-Ouro-24k. Coitada.
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Retrato
De Pipa para Pernambuco, pela estreita estrada, seguimos. Nada no peito, a não ser a batida do novo. Um beat surdo que ecoa, único, em cada ouvido. Seguimos. Somos expectativa e viagem.
Os olhos decifram a paisagem: o pequeno cemitério cheio de árvores floridas e um homem só, que olha o túmulo de alguém que, pela primeira vez, está só.
O caminho não é este, mas termina no encontro do rio com o mar. Beleza pura. Voltamos à estrada desejada, à experiência planejada, ao rumo escolhido.
Entre os coqueiros, aceleramos e assistimos ao vento. Uma torre de telefonia informa que o aparente isolamento não existe.
O gado branco e magro descansa. Longos espaços sem ninguém. Mal sabemos em que dia da semana estamos.
O peixe rosado é escamado, as senhoras conversam, a varanda é gradeada, a casa é verde e rosa, a lavoura é de camarão.
Uma Assembleia de Deus, um jardim de mandioca, uma conversa animada no botequim.
O vento dança nos coqueiros. Os pensamentos vão devagar… Devagar, a vida passa nos olhos de ressaca do homem que olha a segunda-feira.
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E Ainda é Agosto
“É 29 de agosto. Em 48 horas, sua vida mudará para sempre.”
Mais uma vez estava eu vidrada diante da tela. O dia era 29 de agosto, ontem, como foi no ano passado e no ano antes dele. A melodia inebriante preenchia os vazios que o ar-condicionado a 21ºC fazia flutuar no quarto hermético do Cachambi:
O som avança em pequenos impulsos, como passos curtos e apressados que de repente… desaceleram. Expande e…. recolhe. O acordeão dá a sensação de ar sendo empurrado e puxado, como se abríssemos e fechássemos o peito. O piano pinga notas regulares por baixo, num conta-gotas, como dedos tocando uma superfície de vidro. Há uma leveza quase mecânica, quase de caixinha de música, acrescida de alguma coisa melancólica presa entre uma nota e outra.
Este ano, como em todos os outros, meu encontro é diferente: percebo detalhes que nenhuma das minhas versões havia percebido antes. Convidei também minha eu de quatro anos, que se senta ao meu lado, entre os mesmos lençóis que a minha versão em carne e osso, sorridente, embora presa dentro de um porta-retrato de vidro. Cabelos fartos, longos e cacheados, os lábios que não precisavam, àquela altura, dos dentes para mostrar, através das íris, a felicidade de estar vivendo o presente. Hoje não sei fazer o mesmo com tamanha desenvoltura e naturalidade.
Na fotografia, estou com a guirlanda do casamento da minha mãe e um vestido branco, pronta para me casar com um dos meus amigos mais antigos. Não seria a única vez: nós dois nos casaríamos outras vezes em festas juninas, três ao todo, como se a infância insistisse em ensaiar futuros que jamais aconteceriam daquela forma; décadas depois, tive o prazer de projetar e acompanhar as etapas iniciais da casa onde ele e a esposa, meus queridos amigos, morarão em breve.
É ou não uma prova cabal de que o destino adora ironias, coincidências e, às vezes, tem um senso de humor bastante sofisticado?
De vez em quando, a luz da tela atravessa o quarto e o vidro devolve cenas de Amélie. O rosto dela se sobrepõe ao meu, de criança, depois desaparece. Em certos segundos, já não sei muito bem qual das duas estou olhando.
Quem sabe, pelos reflexos, me pareça cada vez mais evidente que fui crescendo como uma mistura amadurecida das minhas referências preferidas: um pouco Amélie Poulain, um pouco Margherita Dolcevita, Lois Lane, Hermione Granger, Bela —
personagens que, por razões diferentes, foram me cedendo pedaços até que eu pudesse desenvolver os meus, autênticos. Depois de certa idade, minhas referências femininas passaram a ser também Jane Austen, Hilda Hilst, Clarice Lispector, Etta James, Norah Jones, Celine Dion, Julia Roberts e mulheres comuns do dia a dia, cujas qualidades absorvo profundamente — pela leitura, tom de voz ou proximidade — para ir recortando os fragmentos que compõem o meu eu de hoje: sempre, e cada vez mais, um livro de fotografias rasgadas e reconstituídas.É curiosamente apropriado que essa fusão aconteça atrás de um vidro. Afinal, em Amélie, um dos homens que melhor sabe ler a vida passa vinte anos refazendo o mesmo Renoir. Chamam-no de homem de vidro.
Daqui a três meses, eu de hoje e Amélie Poulain teremos quinze anos de diferença etária. O engraçado é que, embora essa diferença aumente ano após ano, a profundidade da nossa familiaridade não diminui. Encontrar Amélie nos 29 de agosto da vida é como reencontrar uma amiga de infância.
E cá estamos, as três, pausando o filme para vibrar com uma ideia criativa, uma inspiração, fazer anotações ou preparar um café na minha moka italiana para tomar com Nino Quincampoix no Café des 2 Moulins.
Até que a “Amélie aqui” começa a recortar antigas cartas de amor de sua vizinha imaginária, ressecada pela vida.
Então penso que uma semana também possa ser remontada assim:
A tesoura tem uma vantagem loquaz sobre a memória: rasga, de fato, a cronologia. Torna-a palpável:
uma observação astronômica pode parar ao lado de uma conversa sobre romance imaginado; um homem de setenta e tantos anos opera o septo porque ainda espera encontrar o outro pé para seu par de chinelos — sem roncos, parcimônia libertária do romantismo; alguns takes adiante, outro homem fotografa, quem sabe, para não desaparecer; a Lua pulveriza matéria depois dos impactos e, vista daqui, chamamos os vestígios claros de raios.
Eu me deitei por duas horas no banco sem encosto do condomínio e vi o vermelho se apossar do brilho refletido da Lua. Eclipse parcial. A olhos nus. Sombras mimetizaram por instantes o coelho que tantos enxergam — dizem que só os apaixonados conseguem vê-lo.
A humanidade é esquisita: passa por colisões e inventa nomes e figuras de linguagem bonitas para aquilo que permanece visível. Ou quase.
Me disseram, também nesses últimos dias, que há muita coisa bonita para vermos no céu. Algumas imperfeições só aparecem por causa da luz refletida pela atmosfera da Terra. Gosto particularmente de imperfeições. E, durante um eclipse, quando alguma coisa que costumava iluminar desaparece, vemos mais estrelas. Não seria assim quando nos deixamos colidir com o silêncio? Percebemos mais outras coisas, no todo de todas as coisas?
Anotei isso. E percebi: vivenciei um eclipse em solitude física, enquanto vozes de todo o Brasil atravessavam meus ouvidos com comentários e explicações astronômicas. Eu, que quando criança ganhei medalha e certificados em Olimpíadas Brasileiras de Astronomia, sorri.
Entre as anotações da semana — eleições, guerras, mísseis, geleiras, Wall Street em queda — havia também uma rosa. Murcha. Faltou hidratação. Tenho bebido pouca água. Por alguns dias, certas coisas pareceram sofrer do mesmo descuido. Cortada do pé e posta numa sacada, a rosa começou a perder pétalas. A Fera permanece, então, a mesma fera? Ou a Bela – que não é princesa – faz uma jogada no tabuleiro de xadrez da vida para que a magia aconteça?
Tenho pensado que preciso de mais vermelho na vida…
O quarto de Amélie interrompe meus desejos; seus pequenos incêndios domésticos, o contraste cromático com o verde. Minhas plantas. Sinto falta de casa.
Talvez eu acrescente vermelho ao meu quarto, quando — ou se — eu voltar. Não por decoração. Por discurso.
Amélie e minhas diferentes eus gostamos de estratagemas: surpresas, escolhas semânticas, pequenos deslocamentos de sentido. Em 31 de agosto, há quem a rotule covarde por não encarar o que sente. Então ela escancara a porta. Eis ali Nino Quincampoix, o encontro jamais previsto, sempre esperado. Há um abismo entre fugir da realidade e entender que ela também pode ser abordada pelas laterais.
Há quem pergunte diretamente.
Há quem deixe uma pedra no bolso.
Há quem devolva um álbum.Há quem recorte uma carta antiga até ela dizer uma coisa nova.
Há semanas em que o risco da resposta parece menos
sedutor que o conforto da dúvida.Ainda assim, “a sorte é como o Tour de France”: esperamos tanto algo específico e, quando finalmente chega, passa depressa. “É preciso saltar a barreira sem hesitar”. Estou aprendendo isso.
Talvez por isso algumas conversas recentes tenham começado a virar literatura; não para conservar pessoas dentro de orações, mas porque certos toques modificam a maneira como percebo o que já estava ao redor: um céu, uma rosa, um silêncio, uma escolha de palavras.
Uma colecionadora de pedras encontra, de vez em quando, alguém que coleciona resquícios.
E alguma coisa acontece: acho que Amélie esteve no Norte Shopping. Na falta contemporânea de orelhões, resolveu chamar minha atenção me lançando o objeto de que eu precisava.
Ontem, indo comprar velas para um parabéns-surpresa, percebi que havia esquecido o isqueiro-amarelo-herança-da-avó-fumante-para-a-neta-que-não-fuma, que costumo carregar. Minutos depois, esbarrei numa planta no shopping, ouvi um tilintar no chão e dela caiu um isqueiro. Preto. Preto no chão quase branco. Parece até piada, Amelie! Aos quatro anos eu já sorria sem precisar mostrar os dentes. Aos trinta e sete, ainda faço planos com fotografias, filmes franceses, números, homens de vidro, palavras recortadas e futuros quartos vermelhos.
Há quem julgue isso como evitação da realidade.
Há também quem chame isso literatura.
Já é 30 de agosto. Será que, em 24 horas, minha vida mudará para sempre? Penso em procurar um tarólogo…
Em todo (a)caso, o amor faz bem.
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A arte de pensar com as mãos ocupadas
Desde pequena desenvolvi uma habilidade peculiar: só penso direito quando minhas mãos estão ocupadas. Dê-me um novelo de lã e duas agulhas e, pronto, minhas ideias começam a trabalhar — às vezes até antes de mim. Sempre achei que esse hábito era apenas um jeito de evitar a ociosidade manual, uma espécie de TOC artesanal. Até perceber que havia ali um mecanismo mais profundo, quase científico, embora absolutamente nada acadêmico.
Foi observando uma laçada suspensa no ar que me dei conta: é justamente ali, naquele meio ponto indefinido, que minhas ideias se alinham. Enquanto o fio decide se vai para frente ou para trás, meus pensamentos aproveitam para fazer o mesmo. É o meu equivalente pessoal àquela tragada longa no cigarro que dizem “oxigenar o cérebro” — só que, no meu caso, o vício é lã mesmo.
Em uma daquelas conspirações do destino que parecem escritas por roteiristas com senso de humor, me inscrevi em um curso de literatura na FFLCH chamado Entre tecer e narrar. Não precisei de mais nada: senti imediatamente que estava no lugar certo. Ali entendi que minha mania de tricotar enquanto penso não é simples mania — é método. E dos bons.
Assim como um tecido precisa de ar entre os pontos para não virar uma manta rígida, a escrita precisa de silêncio. De pausas. Daquele branco estratégico que dá espaço para o sentido respirar. Sem esse espaço, o texto fica apertado, sufocado — tipo blusa de tricô que encolheu na máquina.
Não é por acaso que “texto”, do latim textum, significa tecido. Cada escritor encontra seu jeito de abrir essas frestas de ar: uns caminham, outros meditam, outros procrastinam com categoria. Eu, fiel à minha natureza, entrelaço fios. Entre um ponto e outro, vou entrelaçando também sentimentos, ritmos, memórias e as divagações que, com alguma sorte, viram parágrafo.
E tudo começou com uma frase do curso, tão certeira quanto agulha que espetou o dedo:
“A tessitura pode ser uma imagem da criação verbal, porque o ar circula entre os fios como o silêncio entre as palavras.”
Pois é. No fim das contas, descobri que não tricoto para passar o tempo.
Tricoto para pensar.
E penso melhor quando minhas mãos estão trabalhando — porque, talvez, essa seja mesmo a minha arte.
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O que te mantém vivo?
Uma ideologia política, uma crença religiosa, uma visão de mundo ou um passatempo qualquer. A ambição por riqueza, a busca de reconhecimento, a luta por poder ou a simples necessidade de sobrevivência. Muitas podem ser as razões que nos mantêm vivos. Das mais vulgares às mais sublimes; das mais egocêntricas às mais altruístas. A natureza daquilo que nos estimula a levantar todas as manhãs pode dizer muito sobre nós mesmos, nossas histórias e nossas perspectivas.
Não falo do que simplesmente nos anestesia, meu caro amigo. A essência das coisas que mitigam o sofrimento e apagam certas lembranças difere daquilo que nos injeta ânimo e disposição para construir um futuro melhor. Não basta resistir; é preciso superar! Volta e meia, encontramos pessoas que, apesar de todas as adversidades enfrentadas, dispõem da energia necessária para seguir suas respectivas caminhadas. Por mais que tentem desumanizá-las e tornar suas vidas insuportáveis, elas se negam a simplesmente fazer parte de uma desconhecida e misteriosa engrenagem. Elas vivem, têm sonhos, acreditam em dias melhores, compartilham momentos de alegria e outros de tristeza. Mas de onde vem toda essa resiliência?
Vejamos o exemplo de meu vizinho Paulão: com tantos vis progenitores por aí, não poderia deixar de mencionar sua história. Pelo menos desde que o conheço, trabalha na construção civil. Mesmo nas auroras mais frias deste inclemente inverno, nosso valoroso pedreiro fecha a porta de sua casa e sai em busca do sustento de sua família. Viúvo e pai de duas filhas adolescentes, esse orgulhoso piauiense não se deixa esmorecer facilmente. Sem muito tempo disponível para o lazer, sua vida resume-se, basicamente, ao trabalho. Mas seus olhos brilham, seu sorriso contagia e suas gargalhadas animam o ambiente em que se encontra.
Perguntava-me, com ingênua e honesta curiosidade, o que faz Paulão levantar cedo todas as manhãs, pegar dois ônibus para o trabalho, levar seu corpo à exaustão em troca de um salário, voltar a sua casa num ônibus abarrotado de gente, dormir algumas horas e começar tudo de novo na manhã seguinte. Como é possível seguir em frente com tanta dificuldade? O que estaria por trás dessa aparente alienação? Com um misto de admiração e de incompreensão, via aquele pobre homem envelhecer precocemente numa rotina estafante e embrutecedora. Muitos foram os anos de minha ignorância até que conseguisse compreender a sua verdadeira razão de vida.
— Meu sonho é formar minhas duas meninas, seu Veloso. Não quero que elas tenham uma vida tão dura como a minha – confessou-me Paulão num raro dia de descanso.
Outro exemplo é o de Maroca, aquela senhora que trabalha há muitos anos na casa da família Gouveia. Devota de São Judas Tadeu, o santo das causas impossíveis, essa cozinheira de mão cheia veio de muito longe. Carregando um pequeno rebento em seus braços, a jovem mulher veio atrás do marido e de uma vida melhor. Mas seus sonhos logo depararam-se com a dura realidade de uma mulher que se casou com um homem violento e alcoólatra. Teve mais dois filhos com ele, aguentou poucas e boas, criou sua prole sozinha, viuvou. E continua trabalhando como se tivesse apenas vinte e tantos anos de idade. Muitos devem ter sido os momentos de tristeza e de solidão, mas a aguerrida mulher ainda teima em persistir.
— Não há de ser nada, seu Veloso! Deus não dá a cruz mais pesada do que podemos carregar – aconselhava-me uma solícita Maroca, ao me ver manquitolando por causa de uma lombalgia.
Se a criação das filhas constitui a seiva que dá vida a Paulão, Maroca respalda suas mais profundas esperanças na crença de que Deus está com ela. Ambos acreditam em dias melhores, cumprem suas tarefas cotidianas, enfrentam os inúmeros percalços que surgem em suas tortuosas caminhadas. Vidas de intensa provação, mas repletas de dignidade e de humanidade. Não faço aqui um elogio à pobreza, mas o que me fascina é a altiva e rebelde resiliência que identifico nos dois casos. Poderíamos cair no pretensioso julgamento segundo o qual a ignorância em que vivem torna a brevidade e as agruras da vida mais aceitáveis. Mas quem somos nós para inferirmos tal coisa? Alguns livros lidos e rabiscados não nos tornam imunes ao sofrimento humano. O que nos dá vida nem sempre pode ser facilmente alcançado pela razão humana. No fim das contas, todos nós somos mais ou menos ignorantes.
Mesmo tendo vivido algumas décadas, ainda me pergunto, de vez em quando, qual seria o grande estímulo de minha vida. Um livro a ser escrito, uma viagem a ser feita, um conhecimento a ser atingido? Apesar da vida remediada, pareço desconhecer o que realmente dá sentido a minha vida. A busca permanente por algo que me complete tem sido uma fonte de indagação e até de aflição. Mas, ultimamente, tenho considerado a possibilidade de que nada disso exista. Quanto mais cabelos brancos temos nós, mais tendemos a menosprezar o excessivo romantismo. Talvez essa procura por um Santo Graal desconhecido e inalcançável é que constitua, em si, a grande força que mobiliza as minhas energias.
Divagações de um velho professor aposentado. Apenas isso! Espero não ter te aborrecido com esses devaneios. A juventude que ainda corre pelas tuas veias prescinde de considerações superficialmente filosóficas como essas. Enquanto não descubro minha grande força motriz, preciso dedicar-me a uma função, digamos, bem mais trivial: comprar pães para o lanche da tarde. Até logo, amigo!
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Percepção
Ela enxerga poesia, vê histórias em todos os lugares. Se viaja, escreve mentalmente histórias que jamais tomarão forma na tela ou no papel. Quanto mais longa a viagem, mais tempo em silêncio com seus pensamentos. Entretanto, nunca precisou de uma viagem física para sair do lugar, percorrer mundos, encontrar pessoas e ouvir e falar palavras que apenas ela conhecia, que apenas a ela eram ditas.
Este é o ar que ela respira: há poesia no contraste de cores inesperado, na casa à beira da estrada, na flor que enfeita o jardim, na aventureira bicicleta que desafia o perigo, na placa informando que saíram de Oizeiro e entraram em Tororomba.
Há história na venda com balança verde e uma variedade de cachaça sem fim. Há história no homem mestiço de boné que se encosta preguiçosamente na manhã abafada de sábado. Há rima nas casas caprichosamente pintadas e iguais.
Onde a estrada vai dar?
Já existem o tempo, o espaço, a gente.
A história se escreve no caminho.
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Era só uma bicicleta
Era só uma bicicleta!
E Cláudio Rafael não havia roubado nada! Apenas saiu com a bicicleta de sua irmã!
Ainda que tivesse acontecido um roubo, nada justifica a cena de selvageria que ocorreu em Copacabana.
Pior, a cena de espancamento e linchamento de Cláudio Rafael escancara o quão estamos doentes! Que sociedade é essa que mata?
Que sociedade é esta que banaliza a morte?
Na fúria do dia a dia, vamos perdendo um pouco de nós mesmos.
Na fúria do dia a dia, vamos nos afastando daquilo a que ainda chamamos humanidade!
Na fúria do dia a dia, banalizamos a própria vida…
A sociedade do espetáculo entrega a todo momento cenas grotescas de descomposturas gratuitas, violência verbal, agressão física, feminicídio… um sem-fim de comportamentos gravados e visualizados por milhões.
Um dos agressores de Cláudio fez questão de filmar a horrenda ação, como se fosse paladino da justiça resolvendo as misérias históricas do país.
Era só uma bicicleta!
E uma vida foi tirada pela ignorância, pela barbárie, pela total falta de noção!
Cláudio Rafael saiu com a bicicleta da irmã. Sentiria o vento na orla da praia? Não se sabe… Olharia para as ruas e cenários aos quais estava acostumado e seguiria para um encontro, uma conversa?
Não se sabe… Olharia para as singularidades de Copacabana mais uma vez e teria um bom pensamento? Não se sabe…
O que se sabe é que a brutalidade, mais uma vez, prevaleceu sobre o bom senso.
A bicicleta?
O Objeto da discussão e da morte de um inocente ficou jogada na calçada, alheia à fúria dos homens…
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Bolero de Tecalitlán
Bolero de Tecalitlán, ao pé do ouvido em pleno 2026, soa como uma serenata de amor cantada à janela de uma casa que já não existe. Ou existe? existe: passou apenas a caber na tela de um smartphone. Informes contemporâneos.
A linguagem sempre como logradouro de encontros.
Disseram-nos que:
• …a globalização tornaria o mundo uniforme;
• …a tecnologia achataria os afetos;
• …algoritmos substituiriam as coincidências.
(…)Descubro, porém, precisamente o oposto.
Recebo um link do Spotify como quem recebe um embrulho de papel pardo amarrado com barbante. Abro-o devagar. Em minhas mãos, deixa de ser um pacote eletrônico e transforma-se num vinil antigo. Antiquíssimo, desses que nos deixam com a respiração em sobressalto, de tão delicados. Assopro a poeira:
— Fuuuuuuuuuuuh… — ergo, assim, o véu fino que o tempo depositou em partículas. Desnudo a capa de papelão, que reaparece inteira, intacta, intensa, como se houvesse esperado décadas por aquele exato gesto meu.
O disco começa a girar, sem agulha alguma.
Enquanto Mariachi Vargas de Tecalitlán invade madrugadas, planilhas, quantitativos e e-mails que insistem em não terminar, descubro o LP virtual realizando o que minhas melhores canzoni italiane não conseguiram: devolve-me um tempo que nunca deixou de existir, esquecido sob camadas e camadas de urgência.
Não é nostalgia.
É outra coisa.
É leveza. (Fuuuuuuuuuuuuuuh)
Há dias em que me sento para tomar um café com personagens capazes de encontrar delicadezas onde o resto do mundo enxerga apenas rotina. Faço isso com plantas, veja só – são excelentes ouvintes, e ainda nos dão ‘bom dia’ com o perfume de flores coloridas, não só na primavera. Acredito piamente numa arqueologia dos sentimentos, não para reanimar o passado — dar-lhe novamente anima, alma —, mas para perceber que uma ou outra beleza jamais fenece. Permanece de outra forma: silenciosa, aguardando quem a escute.
Já com o disco agarrando, de tanto tocar boleros, baladas y bachatas, um amigo interrompe meu devaneio para perguntar se conheço determinado perfil no Instagram.
Paro tudo.
***
Abro a página.
O retrato em miniatura que acompanha o @não me diz absolutamente nada.
Depois de alguns segundos, recordo-me de tê-lo visto uma única vez, de passagem, num evento qualquer. Não trocamos palavras, acho que sequer olhares. Restou apenas a matemática contemporânea: seguimos um ao outro. Ou, dizendo de forma mais honesta, aumentamos mutuamente nossos seguidores (intuito subliminar de qualquer evento hoje em dia).
Contei isso ao meu amigo.
Ele sorriu e perguntou:
— Então não passo apenas de mais um número?
A pergunta me atravessou como poucas.
Dias antes, folheando as aventuras de Arsène Lupin, me pego filosofando sobre a diferença brutal entre o mundo de ontem e o de hoje. Durante muito tempo — e nem faz tanto tempo assim — , apresentávamos desconhecidos por palavras.
“É gentil.”
“Tem os olhos curiosos.”
“Ri com o corpo inteiro.”
“Escreve cartas.”
“Não sabemos de quem se trata porque não se pode ler nos documentos ausentes das vestimentas, o desmaiado infeliz”
Hoje, apresentamo-nos por fotografias. Ou, pior, por avatares, essas ficções que criamos com filtros sobre nossos próprios reflexos. Superamos, em engenhosidade, os casamentos arranjados das aristocracias clássicas, cujos noivos tomavam por esposas pinturas guardadas em relicários.
Dizem que uma imagem vale mais que mil palavras… não consigo acreditar nisso, nem tendo escolhido, como ofício primeiro, a arquitetura (idioma gráfico em que tantas perguntas se respondem com um simples “quer que eu desenhe?”). Não; sou das letras, por meritocracia — já se vão quase vinte anos só desta coluna.
Uma fotografia congela; mil palavras — ou trilhões delas — continuam a respirar, a sorrir.
— a sorrir eu pretendo levar, a vida…
Não me lembro do aroma das coisas e gestos antigos com essas notas contemporâneas de superficialidade. Vivemos a era narcísica por excelência: basta nos depararmos com uma poça d’água para que contemplemos nossos próprios reflexos e, no mesmo instante, eternizemos nossos rostos desfigurados nos feeds de vidas cada vez menos privadas. A superfície nunca soube apresentar ninguém…
Acredito que seja isso que falta à contemporaneidade:
Descrições.
letrinhas.
As pequenas apresentações escritas que, durante séculos, antecederam qualquer encontro. Cartas manuscritas. Os artesanatos feitos à mão, com assinaturas.
Somos a geração que mais produz imagens — e em altíssima resolução, diga-se de passagem — …, mas desaprendemos a apresentar e a ler pessoas.
Eu sou das pessoas. Sou dos encontros sem pressa. Sou das cartas. Das serenatas. Dos recadinhos à mão. Dos cafés. Dos vinhos.
Me toca profundamente quando alguém escolhe uma playlist em vez de um emoji. Mais profundo ainda quando se envia um disco inteiro, e não apenas uma música. Dou por mim pesquisando vinis pelos eBays da vida, lembrando meu pai sentado na sala, ouvindo os dele.
Há uma delicadeza quase revolucionária nisso. Em resistir a ser humano na era em que tudo é automatizado.
Enquanto escrevo, testemunho um caso de affair improvável: a bandeira italiana mistura-se, verde no branco, branco no vermelho e vermelho no verde mexicanos. Sem conflitos, só a pura e velha simbiose. Um bolero que atravessa oceanos, barreiras culturais e temporais, atraca no Rio de Janeiro através de um aplicativo sueco e, sem pedir licença, sela um encontro entre escritores ítalo-brasileiros que perseveram na crença de que as melhores coisas ainda são feitas com o coração.
Quem sabe a verdadeira globalização não tenha sido a uniformização do mundo, mas a possibilidade de um gesto intimamente humano atravessar continentes sem perder sua brandura.
No fim, seguimos buscando o que desejavam os que vieram antes (de nós):
• os tons das animadas canções mexicanas
• o ar blasé repleto de delicadezas dos escritores franceses
• o conciso poético de arquitetos alemães
• a sabedoria de vida dos artistas italianos
• a paixão traduzida pelo olhar atento dos/das cronistas brasileiros/as e todos os apaixonados que vieram antes de nósAnsiando por uma coisa, apenas:
encontrar alguém que ainda saiba descrever uma pessoa antes de fotografá-la, antes de reduzi-la a um perfil com um mínimo de caracteres.
Porque as palavras continuam sendo o lugar mais generoso onde um ser humano pode apresentar um outro ao mundo.
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Token inválido
O infarto foi fulminante.
Quatro tentativas de reanimação.
Nada.
Resistiu bravamente até a última atualização.
Merecia um fim digno.
Logo ao chegar à recepção, um rapaz o atendeu, solícito.
— Fique tranquilo: aqui, tudo tem solução.
— O senhor deseja fazer a migração completa?
Severo aceitou o pacote funerário.
Os universitários iniciaram o ritual de reencarnação.
Transplantada a memória.
O outro, novo, reluzente, exibiu seu sorriso de maçã.
Faltou a identidade.
— Agora é só atualizar o login dos bancos.
— Só?
Severo entrou no aplicativo.
Negado: Valide o token pelo Internet banking.
Perfeito! Tentou acessar o site.
Negado: Para iniciar o acesso valide pelo token no celular.
Arrepiou…
Tentou o atendimento no chat.
Uma voz metálica de boas-vindas:
— Estamos com muito tráfego no momento, o Sr. é o 12º na lista de espera, favor aguardar que logo mais vamos atendê-lo.
O som aumenta para as promoções de intervalo, até que outra voz entra na linha.
— Sou Larissa e vou prosseguir com seu atendimento. Conte em poucas palavras como podemos ajudá-lo.
Voltou ao ponto de partida.
— Troquei de celular. Preciso validar o token no site.
Mas o site pede o token do celular.
— Não entendi: Reformule sua pergunta.
— Validar o token.
Três pontinhos ondulantes, lá vem a resposta:
— Para validar o token, é preciso fazer uma transferência inicial no app.
— Obrigada pelo contato. Avalie sua satisfação com meu atendimento.
Severo, resiliente, volta ao app.
Acesso negado — token inválido. Necessário validar pelo Internet banking.
Uma lágrima surgiu.
O falecido nunca tinha duvidado que eu era eu.
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Manifesto
Confesso: eu era indiferente.
Simplesmente não os notava. Não detestava, nem amava. Eles eram transparentes para mim. Daqueles de quem se diz: nem cheiram, nem fedem.
Foi assim por dois terços dos meus dias. E nem queiram saber quantos foram. Centenas.
Não procurei terapia, nem explicações.
Até que aconteceu.
Assim, sem me preparar, pensar ou conjecturar, um belo dia eu me apaixonei!
Paixão de deixar boba. Olhar nos olhos, admirar as nuances, o chamego, o jeitinho, a esperteza.
E, como toda paixão, essa também me trouxe dores. Sobressaltos, temores e uma saudade preocupada sempre que precisamos nos separar por algum motivo.
Agora, quando meus dias estão cada vez mais acumulados, eu não merecia passar por tamanho desassossego: o medo de que ela incomode, a preocupação com reclamações e essa incômoda sensação de impotência diante das regras do mundo.
Só me resta rezar.
Recorrer aos santos protetores da boa convivência, da tolerância e da paciência entre vizinhos.
E pedir a Nossa Senhora dos Gatinhos que proteja a minha querida.
Nem eu, nem ela merecemos tanta ojeriza. Beira a desprezo mesmo.
Deixem que ela contemple o condomínio de vez em quando, sob meus olhos atentos. Não lhe tirem a ilusão de que algum dia ainda será uma grande caçadora, embora os pardais, até hoje, continuem levando larga vantagem.
As mordidinhas na grama são digestivas e sequer fazem diferença no desenho do jardim.
Ela já é uma senhora. Tem suas manias, seus hábitos e uma dignidade felina que não admite discussão.
Não a olhem como uma ameaça.
Não transformem cada passeio numa operação de guerra.
Tenham um pouquinho de paciência conosco.
Eu, que passei tantos anos sem compreender o fascínio que esses bichos exercem sobre as pessoas, hoje me vejo aqui, completamente rendida.
Portanto, faço este apelo público, sentimental e talvez um pouco exagerado:
Por favor, amem a minha gata Felícia!
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Uma história de gatos e ratos
— Verônica! Finalmente resolveu aparecer depois de tanto tempo. Ainda se lembra do caminho de casa? Bem, acho que essa não é mais sua casa.
— Quarenta e sete dias.
—Você não atendia meus telefonemas…
— Não quero falar sobre isso agora. Passei aqui porque preciso pegar umas coisas. Rafael, você tá molhado, pingando. Sai, tenho uma reunião de trabalho daqui a pouco.
— Fiquei o dia todo na piscina. A água me faz bem, me purifica.
Como estamos longe do mar, tenho de me virar com a piscina mesmo. Ah, eles começaram a reprisar aquela novela que você fez… Queda livre, certo?
— Pois é, eu saio logo. Morro afogada por volta do capítulo 50. Foi horrível gravar aquela cena.
Ao contrário de você, não tenho essa paixão toda por água. E o Tarantino tá por aí? Saudade dele…
— Sei lá. Esse gato anda tão esquisito. Passa o dia todo enfurnado em algum buraco. E deu pra sair por aí. Às vezes, fica dias fora de casa. Comportamento estranho. Será que tá sentindo sua falta? Mas pega logo o que quer e se manda.
— Rafael, você voltou a beber?
— Voltei, deu pra perceber? Na verdade, nunca parei, minha querida.
— A gente devia pensar em vender essa casa. Tem um amigo da minha mãe que é corretor…
— Aqui é tão isolado, não é o que você vivia dizendo? O lugar não é valorizado, é tudo longe. Até pra comprar pão é preciso pegar o carro. E o que mais tem por aqui é imóvel vazio. Vamos ser realistas, Verônica.
— Sem contrato na TV, sem trabalho no teatro. Tô filmando um curta. O fato é que preciso de grana. Minhas economias vão acabar…
E você já arranjou alguma coisa?
— Isso não é da sua conta.
— Tá namorando? Arrumou alguém? Será que alguma mulher vai entrar por aquela porta a qualquer momento?
— Isso também não é da sua conta.
— Mas então, a gente precisa vender essa casa. Cada um pega a sua parte, vamos resolver logo essa situação.
— Você já viu o sol que está lá fora? Não quero falar de negócios num dia como hoje.
— Olha, Rafael, eu…
Verônica se preparava para ir embora quando Tarantino surgiu na janela da sala. Agora tingidos de vermelho, os pelos brancos ao redor da boca do felino conferiam-lhe um aspecto soturno.
Eriçando o corpo esguio e produzindo ruídos esganiçados, o bicho aproximou-se de Verônica e atirou aos pés dela o rato morto que trazia na boca.
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Seria a eternidade um mineral?
Quem sabe a imortalidade seja um mineral formado por átomos de carbono puro dispostos em uma estrutura cristalina cúbica.
Nosso inconsciente não acredita na própria morte pois não possui nenhum registro psíquico ou representação para ela, e se comporta como se fosse imortal. Não queremos papo com a finitude, ponto e basta! É ao testemunhar a morte de alguém querido que somos forçados a confrontar a realidade da perda. Mas nem isto abala a invulnerabilidade do nosso desconhecido e destemido inconsciente.
O pobre ego deve morrer de inveja deste ‘sujeito’ empoderado e persistente que aparece nos nossos sonhos e fantasias, nos lapsos de linguagem, nos chistes e sintomas, manifestando de forma disfarçada nossos desejos e memórias reprimidas, sendo o grande reservatório das pulsões e conflitos psíquicos que nos moldam.
Me debruçando sobre Eros, a vida, ao invés de Tânatos, a morte, leio as manchetes virtuais. Uma notícia cativou meu interesse. Rumino entre cinzas e diamantes. Regurgito e novamente mastigo. Cogito intimamente: Será o ato de mineralizar-se (mesmo que o desejo nem seja do próprio) uma possibilidade lustrosa de eternizar-se?
De onde virá esse desejo posto ou póstumo, de transformar-se em diamante? Esse desejo de perpetuar-se como substância sólida, apto de ser objeto de toque e posse, perfilado como adorno sobre uma bonita prateleira, trancafiado numa gaveta para não ser furtado ou até mesmo pendurado no pescoço ou enfiado nos dedos. Melhor não seria expandir-se como matéria gasosa em constante movimento aleatório, sem forma nem volume definidos? No fim das contas, já não estaria sua alma como Éter elevada a um elemento puro do céu e muito bem guardada dentro do peito?
Não importa. Afinal desejo é de cada um. Mesmo um diamante, a substância mais dura conhecida na face da terra, possui seus pontos fracos. Sua imagem reluzente pode sofrer arranhões e uma pancada certeira te fratura em cheio. Caso tenha a rara oportunidade de tê-los em mãos, muito cuidado ao manuseá-los!
Diamantes são formados a partir de calor e pressão e podem ser produzidos artificialmente a partir de cinzas humanas, num processo complexo e caríssimo. Para poucos! Do carbono contido nas cinzas, cria-se um simulacro de uma joia que será ofertada como um presente precioso.
Os diamantes dobram os raios de luz que entram na pedra, refletem suas facetas internas e retornam à superfície saindo como brilho intenso, para tanto, o corte é essencial. Um diamante bruto quase não brilha, a lapidação que o transforma.
Debruçar sobre cinzas e diamantes me fez recordar de amor e transferência, do agalma fálico (este adorno raro e precioso) que se supõe escondido dentro de uma pessoa, tornando-a desejável, que aponta para a fantasia de completude e a busca por um objeto que garanta poder e valor.
Ao invés de diamantes poderíamos desejar nos transformar em talco, o mais macio dos minerais, num abundante quartzo ou no simples feldspato… Não importa. O que insiste é o apego humano de ‘re’ existir a qualquer preço!
E para a nano parte da população que ri dos pobres mortais, diamantes são singelos demais, o capricho desejado será pela extravagância de tornar-se uma Jade Imperial, de mil vezes maior valor ou melhor ainda, perpetuar-se como numa gigante safira “Estrela da Terra Pura” . Alhures, estará sempre lá idealizado, o impagável, o “Diamante da Esperança”.
Para nosso alento e para os milhões de humanos que vivem ainda abaixo da linha abissal sempre restará a alegria de ser lembrado pelas estrelinhas no céu.
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Tudo é Rio (menos Niterói e São Gonçalo)
Quando me mudei para o Rio, achei que bastaria algum tempo para entender a geografia, os costumes e, por osmose, me tornar um carioca da gema. Vã ilusão. Aqui nada é tão simples quanto parece. A lógica que rege os lugares homônimos ou com nomes parecidos parece ter sido concebida por um sambista bêbado, como se a cidade já não fosse complicada o bastante com a sua coleção de túneis, morros, largos, viadutos, encruzilhadas, ruas estreitas e ladeiras. Pega a visão.
Quem nasce no estado do Rio de Janeiro é fluminense, embora não necessariamente torça para o Fluminense. O time tem sede no bairro de Laranjeiras, cortado por uma rua de mesmo nome, na Zona Sul – não confundir com a Rua Laranjeiras, na Pavuna. Há muitas árvores por lá, mas poucas que dão laranjas. Fica perto do Largo do Machado, que não é uma homenagem a Machado de Assis. O escritor é homenageado, isso sim, no Parque Machado de Assis, no Santo Cristo, apesar de ter vivido no Cosme Velho.
Da mesma forma, quem mora no bairro do Botafogo – ou na Rua Botafogo, em Parada de Lucas – não necessariamente torce para o Botafogo, assim como ninguém precisa ser flamenguista para morar no bairro do Flamengo, tampouco na Rua Flamengo, em Santíssimo. A sede do Flamengo fica na Gávea. A Pedra da Gávea, não. Essa fica em São Conrado.
Laranjeiras, Flamengo e Botafogo ficam perto da Baía de Guanabara. Guanabara, aliás, já foi estado. A cidade era o Estado da Guanabara. O resto, o Estado do Rio de Janeiro.
Mas pouco importa se você é tricolor, rubro-negro, alvinegro ou se tem a má sorte de torcer para o Vasco da Gama, cujo estádio, São Januário, não fica em São Januário, mas no bairro Vasco da Gama. Até o carioca que conhece a cidade como a palma da mão pode se atrapalhar com a barafunda de ruas batizadas com nomes de barões, condes, viscondes e marqueses, aos quais se soma uma tropa ainda mais numerosa de generais, marechais, coronéis e outras patentes.
Aposto dez reais que todo mundo por aqui já se atrapalhou pelo menos uma vez na vida. Por exemplo, confundiu a Rua Barão de Lucena com a Rua Barão de Capanema. Ou a Praça General Glicério, em Laranjeiras, com a Praça General Osório, em Ipanema. E não pense que acabou: há Rua Ipanema em Irajá e Rua Ipanema na Barra da Tijuca. Barra da Tijuca, aliás, que não é o bairro da Tijuca, nem a Floresta da Tijuca.
E a Linha Vermelha? É a que liga a Baixada Fluminense ao Rio, passa pelo Galeão e chega à região do Centro, certo? De carro, sim. De metrô, há também uma linha de cor vermelha, que sai da Tijuca e vai até a Barra de Guaratiba. Perdão, me enganei. Da Tijuca. Se por engano for parar São Cristóvão quando deveria ir para São Conrado, tenho uma má noticia: está longe pra c****! E não desça na Estação Uruguai se o seu destino é a Uruguaiana!
Jardim Botânico é bairro e jardim botânico. Lagoa é lagoa e bairro. Maracanã é bairro, estádio e estação de metrô. Tijuca é bairro e floresta. O Maciço é da Tijuca. A Barra também. O Largo é de muitos, como do Machado, da Glória e do Carioca. A Ilha pode ser de Paquetá, do Fundão, das Cobras ou até do Governador. Só não pense em procurá-lo por lá. Quem é e como chegou ao governo, é uma longa história.
Botafogo e Flamengo são times, bairros, praias e estações de metrô. E ainda existe a estação Acari/Fazenda Botafogo, em Acari. Fluminense é time, gentílico de quem nasce no estado do Rio e também nome de rua em Nova Iguaçu. E há ainda o Parque Fluminense, que é bairro em Duque de Caxias, não parque.
Se ficar confuso e for pedir informações, cuidado. “Parada” pode ser qualquer coisa: ponto de ônibus, drogas, uma festa muito louca ou uma crise existencial profunda. “Caraca” pode significar tanto “que beleza” quanto “que desgraça”. “Confia” pode ser justamente o momento em que você deveria começar a desconfiar.
Não demorei para perceber que, dependendo da situação, “bora marcar” pode perfeitamente significar “espero nunca mais ter que olhar para a sua cara.” E, atenção: se você é trabalhador e planeja ir ao Samba do Trabalhador, no Andaraí, no fim de semana, planeje de novo. O samba acontece às segundas-feiras. E costuma lotar.
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Vida nova mas o mesmo eu, ou não?
Vida nova para mim mesmo teve início nesse mês de agosto. Do casulo do home office para o palco do magistério. Direto , sem escalas e muito desejado.
O silêncio perdeu seu espaço privilegiado em minha rotina. Antes, era soberano, só cedia seu lugar sagrado para as eventuais intervenções de minhas filhas. Agora precisa se contentar com as horas que sobra, como as horas mortas de Garcia Marques.
Ruim? Nem tanto. A tudo, ou quase, se acostuma. Em lugar do silêncio, meus ouvidos agora captam novas vozes, todas antes desconhecidas para mim e muito, mas muito mais jovens do que eu. É a vida.
No palco do magistério não atuam mímicos. Gestos sem palavras nada significam. É preciso representar por inteiro, corpo e voz conectados para o desempenho cênico perfeito.
É necessário criar uma imagem que atraia a atenção, modulando-a a cada apresentação, sem superar o seu discurso. Porque o roteiro do espetáculo muda e com ele a expectativa da audiência. Levo, dou, troco, misturo, gero. Malabarista sem rede de proteção ou cordas de segurança, voando no espaço aos olhos do público. Me reconhecerei após experiência tão intensa? Provavelmente, sim. Não sou mutante de hoje. Ninguém é.
Durante a encenação, as palavras ganharão mais força à medida que escorrerem da língua formando ideias, propondo desafios, inserindo dúvidas, desatando nós, sugerindo caminhos. Porque não há quarta parede, ator e público se mesclam, trocando de papéis momentaneamente à conveniência do espetáculo.
Ao final, as cortinas se fecharão e todos irão embora.
Mas muito longe de continuarem sendo os mesmos. Serão todos outros. Seremos todos outros. Seres metamorfoseados, refletindo o embate entre as opiniões e argumentos proferidos ao longo do espetáculo.
Híbridos, por fim. A cada subida ao palco, a cada cerrar de cortinas.
Subo híbrido, desço híbrido. Por isso vivo.
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Nossa nave
Há pouco mais de quarenta anos, a sonda Voyager 1, já distante mais de 6 bilhões de quilômetros de casa, recebeu uma ordem inusitada: virar-se e, com sua câmera já cansada, fotografar o ponto de onde viera. Carl Sagan chamou a imagem de “Pálido Ponto Azul”.
Nessa fotografia, a Terra ocupa menos de um pixel. É um grão de poeira suspenso num raio de luz solar. Dalí Nenhum mapa, nenhuma fronteira, nenhum presidente, nenhuma guerra, nenhum amor ou despedida é visível. Apenas um pontinho azul-pálido flutuando na imensa escuridão.
Os astrônomos nos ensinaram que, se colocássemos todas as estrelas conhecidas numa única imagem, elas ainda seriam menos numerosas que os grãos de areia de todas as praias da Terra. E, no entanto, entre essas estrelas, o silêncio é ensurdecedor. Enviamos sinais de rádio há mais de um século, e o cosmo nos responde com o mais absoluto silêncio. Somos, ao que tudo indica, uma anomalia no universo, um breve lampejo de consciência num universo que prefere o vazio e a indiferença.
Na recente expedição da espaço nave ArtemisII, a astronauta Christina Koch, retorna do passeio noturno e deixa uma mensagem humanista inesperada:
— Nosso planeta azul, esse bote salva vidas, se perde no universo escuro. E nós, somos a tripulação que pode mantê-lo navegando, e deveríamos nos concentrar na mesma missão. Nos ajudar sobre o mesmo propósito, nos sacrificar por isso, e cuidar dessa nave. Vivemos concentrados no pequeno universo de nosso espelho, engajados com nossas coisas presentes no micro universo, particular, da existência de um grupo pequeno que nos cerca.
A solidão da Terra não é trágica. É, paradoxalmente, o que nos torna preciosos. Somos a única festa no quarteirão, e ninguém mais foi convidado. Cada nascer do sol, cada xícara de café compartilhada, cada abraço de despedida, cada risada que escapa antes que a gente possa conter, tudo isso acontece nesse frágil grão azul que flutua no nada. Você, neste exato momento, é o universo tentando entender a si mesmo. É um pedaço de matéria estelar que aprendeu a sentir frio, a amar, a ter saudade. É o único lugar no cosmo conhecido onde perguntas como “o que estou fazendo aqui?” fazem algum sentido. Carl Sagan disse naquele mesmo texto, que o Pálido Ponto Azul é “nosso lar, nossa nave mãe, tudo o que já conhecemos em termos de amor, sofrimento e guerras”. E completou: “não há nenhuma outra espécie em nenhum outro lugar que possa nos salvar, apenas nós mesmos”. Na próxima vez que estiver preso num congestionamento, ou preocupado com o boleto que vence amanhã, irritado com a política, frustrado por não ter recebido aquele like, pense melhor antes de explodir em raiva. “A estrada é sua, e somente sua. Outros podem andar ao seu lado, mas ninguém pode andar com você”. (Cora Coralina).
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Bubbaloo tutti-frutti
Reunião de pais e mestres.
— Mãe, o Anderson é um bom menino, educado, gentil, quietinho, não dá trabalho. No entanto, precisa prestar mais atenção nas aulas. Tem horas que ele parece viver no mundo da lua.
A mãe olha o boletim, que segue com notas regulares, sem nenhum vermelho. Mais tarde em casa, ela parabeniza seu filho por ter recebido elogios da professora, e por não ter ficado abaixo da média. Perfeito, não iria perder o videogame aos finais de semana.
— Mas, filho, a professora disse que dá pra melhorar as notas se você prestar mais atenção nas aulas. Que tem horas que parece que você vive no mundo da lua.
A mãe disse que, se ele não melhorasse as notas, iria proibir o videogame. Ela ouviu outro dia que esse aparelho anda tirando a atenção da garotada. “Um mal do século”, disse a vizinha. “Isso vicia”, disseram os tios do garoto à mãe dele. Era o assunto da semana. Anderson ficou puto da vida com esse negócio. Nunca gostou de estudar, tampouco ficar sem videogame.
Era mais um dia de aula e faltavam poucas semanas para uma nova reunião. Anderson sentava na quarta fileira, à esquerda da parede. Números difusos se espalhavam pela lousa, a voz da professora ecoava ao fundo junto com as hélices dos ventiladores. Seus olhos de azeitona, longe, brilhavam com o reflexo do centro de uma luz lunar. Era Raquel na primeira carteira. Enquanto, naquele momento, os sábados e domingos se projetavam para um destino amargo e relutante, ele tirava mais um chiclete de sua boca, colocando-o debaixo da carteira. Havia dezenas de aulas matadas por ali. De segunda a sexta, Raquel costumava ter um intenso e sutil sabor de Bubbaloo tutti-frutti, nas manhãs de lua nova, crescente, cheia e minguante.
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A Nora, o cachorro da Nora, os namorados da Nora e o adestrador
A Nora tinha um cachorro. A Nora também tinha um namorado. O cachorro não gostava do namorado da Nora. A Nora contratou um adestrador pra fazer o cachorro acostumar-se com o namorado. Já que ainda não existe adestrador de namorado.
Pouco tempo depois, quando o cachorro já estava amiguinho do namorado, o namorado caiu fora.
A Nora tinha dotes físicos e intelectuais exuberantes e logo trouxe outro namorado.
Pro outro namorado também foi preciso o adestrador, pra estreitar laços de amizade dele, o namorado, com o cachorro que o estranhava.
A nova paixão também não durou. Foi, como disse um dia o Geraldo Vandré, breve como a perdida flor. E ele, o namorado, se foi.
Logo a Nora se deixou cair por outro, um carioca que morava na Rua Vasco da Gama, 507, no Brás, e que se disse louco por cachorros só pra seduzí-la.
Mas como o cachorro não era louco por namorados da Nora, a história se repetiu. E toca o adestrador entrar em cena de novo e aproximar os dois.
Só não foi o bastante, a aproximação, pra mantê-los, ela e o namorado, aproximados por muito tempo. O caso foi breve também, dessa vez breve como banho num dia frio de 7 graus.
Assim se sucedeu 3, 4, 5, 6 vezes: entra namorado, cachorro estranha, entra adestrador, sela acordo de paz, sai namorado.
Maldito cachorro, malditos namorados.
Belo dia, quando o último namorado vazou, a Nora teve um lampejo perfeito pra um final feliz.
Em vez de procurar outro namorado, sabem o que ela fez? Deu jeito de namorar o adestrador.
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Um aniversário diferentemente especial
Algumas pessoas não costumam dar muita importância a datas comemorativas. Conheço pessoas que parecem fazer questão de esquecer até o dia de seu aniversário. Datas que marcam o dia de uma profissão, de um santo padroeiro, de um clube de futebol, de um município e de uma batalha vencida. São tantas as datas a serem lembradas, que se torna difícil até mesmo ao mais organizado dos mortais saber o que será comemorado nesta ou na próxima semana. Mas, para mim, existe uma grande exceção: o meu aniversário.
O dia 12 de janeiro, desde que me conheço por gente, é uma data a ser comemorada por representar o início de tudo. Claro que antes de minha chegada a este mundo no distante ano de 1988, o planeta Terra já seguia os seus contínuos movimentos de rotação e de translação, as pessoas já tinham os seus problemas a serem resolvidos, outras datas eram comemoradas e muitos povos já haviam guerreado entre si. Mas, defendendo-me de possíveis acusações de demasiado egocentrismo, esclareço de antemão que esses e outros acontecimentos passaram a existir em minha consciência somente depois daquele dia 12 de janeiro. É apenas nesse sentido que costumo, com uma pitada de humorismo duvidoso adicionado a sobras de requentada presunção, proclamar o meu aniversário como a gênese de tudo.
Foi com esse tipo de pensamento que aguardei, ansiosa e diligentemente, a chegada de mais um dos meus aniversários. Já que, por um capricho do destino, a data cairia numa segunda-feira, a festa teria de ser transferida para o sábado seguinte. Apesar da importância da efeméride, começar uma semana com os prazeres de uma pequena tertúlia demandaria um tempo que a maioria dos convidados não teria naquele dia. Obviamente, essa incompatibilidade entre os compromissos laborais e a grande data festiva não agradaria a nenhum ortodoxo seguidor de protocolos. Afinal, a exclusividade de um aniversário requer que a comemoração seja feita em sua data precisa. Algumas adaptações são, porém, necessárias e até as convenções mais tradicionais costumam ser quebradas com frequência. Para que todos nós pudéssemos encerrar os árduos trabalhos daquela semana, brindando mais um ano de minha não tão destacada existência, o rega-bofe ficou, então, para o primeiro sábado posterior. Mas aquele importante dia 12 não passaria, de forma alguma, despercebido. Como um filho que se sente ignorado por seu pai, aquele dia faria de tudo para chamar a minha atenção. Mesmo que da pior maneira possível, recorrendo a birras e a desobediências, a segunda-feira em questão seria, indelevelmente, registrada em minha memória. Logo às 5h, antes mesmo do sol começar a aquecer aquela manhã, fui despertado por uma vexatória queda de minha cama. Não estava em quarto desconhecido tampouco sobre uma cama nova. Entretanto, o improvável aconteceu! E, para que não pudesse ousar em dormir novamente, caí sobre o ventilador que havia deixado no chão. Se a noite já havia sido tremendamente abafada, o começo daquela manhã superou toda e qualquer expectativa tragicômica.
Com o ventilador quebrado, o abafamento já me parabenizava pelo jubileu. Não adiantava insistir, pois o sono já estava perdido. Decidido a não esmorecer perante a primeira dificuldade de um dia especial, tratei de ir à loja de eletrodomésticos mais próxima para comprar um ventilador novo. Mais do que por gosto, um presente por necessidade! Mas quem disse que a compra seria fácil e rápida? Por algum motivo desconhecido, as maquininhas de cartão pareciam ter entrado em greve por tempo indeterminado. Após algumas tentativas frustradas e muitos olhares impacientes, precisei recorrer ao caixa eletrônico. Com o dinheiro em mãos, não poderia resolver a grande saga do ventilador sem o vexame de um escorregão na saída da loja.
Resignado com as agruras de uma manhã singular, encaminhava-me de volta a minha casa, quando Tupã, a todo-poderosa entidade indígena, resolveu prestar as suas homenagens com os primeiros trovões daquele dia tão promissor. A pouca distância entre a loja e a minha casa não foi suficiente para evitar um reparador, mas pouco desejado banho de chuva. Se a resistência do chuveiro funcionou a contento, o mesmo não pode ser dito a respeito deste desajeitado cozinheiro que tentava fazer uma simples refeição para seu almoço. Um telefonema que se estendeu por alguns longos minutos, e a panela de arroz acusou meu esquecimento com aquele desagradável e inconfundível cheiro de queimado.
A tarde não seria mais discreta, visto que a cadeira na qual me sentava não suportou meu sobrepeso. Apesar do sedentarismo e do gosto por comidas gordurosas, acreditava não estar sobrecarregando aquela velha companheira de trabalho. Mas nem sempre a verdade é sutil, e os sustos também nos servem para rever antigos estilos de vida. Enquanto ainda planejava a melhor forma de romper o ciclo nada virtuoso de guloseimas e bebidas açucaradas, a natureza parecia compadecer-se com minhas aflições, ao me presentear com uma bela noite estrelada. O destino, todavia, continuava impaciente e, como quem finaliza seu pobre e infeliz oponente no tatame, desferiu um inexplicável apagão elétrico por quase uma hora. Assim, a famigerada segunda-feira encerrava suas traquinadas com um belo e solitário jantar à luz de velas.
Apesar de todos esses incidentes, os primeiros dias de cada ano continuam fazendo parte de uma espécie de contagem regressiva. Caindo da cama ou tropeçando na rua, queimando o almoço ou jantando às escuras, mal posso esperar por meu próximo aniversário. Que seja, no entanto, uma data marcada por circunstâncias menos desastrosas! Sem recusar os presentes que, porventura, queiram dar, um dia menos desafortunado é, pois, tudo o que posso desejar para uma data tão pessoalmente especial.
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Mortos, vivos, morcegos e frutas | pausa (in)disponível
Uma mesa impossível: um tampo que não é firme (minha cama); três cadeiras – eu, que me sento com as pernas esticadas e sobrepostas. Uma única taça de vidro (a que comprei no mercado, porque na minha casa de areia temporal em quase formato pirâmide não tinha nenhuma) com o vinho (o que dividi há duas semanas, hoje esvaziado com outros – é preciso beber do mesmo lugar, a cama).
De maneira quase indecente, Hilda Hilst e Victor Heringer se juntam a mim nesse ménage a trois de escritores, dois mortos. Um ménage literário com os vermes, os últimos íntimos de suas carnes: memento mori. Bebemos da mesma taça; espero em vão roubar seus segredos – eles, um pouco do meu sangue latente, latindo.
Desejo de um maracujá azedo. As papilas da minha boca incendeiam-me os circuitos internos com água e um cheiro que vem, não sei bem de onde. Um sibilo ressoa acima de tantas cabeças errantes em frente à calçada escura, sem poste de luz; mendigos na encolha do recuo da arquitetura, motoboys a postos. Tudo, em sua pequinês, grande o suficiente para tornar a cena estranha e noturna. Sem querer, o morcego pausa meu caminhar, já há três meses no automático.
“Pausa indisponível”.
Hilda, com um vestido ficcional, segura a minha taça como se dela fosse íntima, conhecendo-a inteira. Victor, em uma camisa de linho desalinhada, olhos verdes que guardo em minhas próprias retinas, olha como quem já viu demais das entranhas e das superfícies do (meu) mundo; toma a taça. Passa a língua sobre os lábios, sem levar o vidro a eles, e fala o que não sai da sua boca, mas da minha atrevida invencionice noturna:
— O que você quer roubar dos segredos que levamos, hein, mocinha?
— Propriamente os inteiros que se encerraram em vocês — respondo. Ele me entrega a taça; a borda fria, suas mãos vaporosas, quase estilhaços, não fosse eu me ancorar à realidade no último segundo. O peso da hipótese não cabe mais em perguntas.
— E o que nos propõe, em troca? — Hilda toma-me a taça e quase a esvazia de um gole imenso.
— Minha centelha — e não sei se o que soa é o sorvo do vinho, um arroto interno em forma de desespero ou simplesmente o silêncio que me cutuca o pensamento.
— A centelha é quase nada — Hilst ecoa um riso que pode ser mar ou a ponta de uma faca.
— Não queremos a centelha; queremos o incêndio que ainda não aconteceu.
Os dois tomam a taça das minhas mãos. Por um instante que parece durar mais do que toda a minha vida, sinto os lábios dos dois se encontrarem no mesmo vidro que o meu. Bebem do meu tempo, do que ainda não escrevi, do que não vivi direito. A luz sobre a cama pisca; num reflexo, ambos se foram. Deixam, para além da superfície brilhante, um gole seco de palavras, como o vinho que ali figurava minutos antes.
Ainda não nasceram.
A cama já tem menos colchão vazio do que nunca; penso em mandar uma SMS para Lewis, só porque ele está deliciosamente disponível no cômodo ao lado. Deixemos o Diabo no outro quarto.
Lá me vem o Prime Vídeo com uma dessas, passadas 22h de uma noite que exauriu o dia — ou foi o dia que, estendido, invadira a noite anterior? Sabe Sísifo, empurrando a pedra? Sou eu com as noites, dias adentro.
Assisti a “The Drama”, uma tragédia sinistra que, não sei bem o porquê — ou sei —, sentou-se ao lado do último livro que li, “A menina que não sabia ler”. O que pode caber dentro de uma pergunta despretensiosa – ou nem tão assim – sobre o que você já fez de pior na vida? E o que acontece quando alguém que nos ama sabe o que foi isso?
Charlie enlouqueceu. Theo morreu, de susto, medo e asma.
O morcego, ao passar, me fez perceber as duas pistas que cruzo diariamente.
São apenas e as mesmas duas. Para vir de casa para o trabalho é rápido: minha face desarma os portões e me lança ao passeio público. Olho para a esquerda; logo em seguida, é possível atravessar.
A segunda pista, contígua — seria parte da primeira não fosse um salpicado de grama esturricada pelo sol da zona Norte —, é mais complexa. Os carros vêm da direita, em alto fluxo. Demanda tempo.
A grama chinfrim é minha pausa cotidiana, e, mesmo assim, toda a travessia me demanda menos de cinco minutos.
Aí, leio Hilst:
Um parágrafo rotineiro desses colóquios de dois que são um pelas convenções, pela intimidade e pelo tédio ordinário da vida. Não sei por que caminhos da minha mente-floresta-tropical ele me leva a redigir estas linhas:
“É lindo completar com vida uma outra vida. Isso é a beleza Cda gravidez; tudo síntese, tudo caos, paz, expectativas e não. Ausculto o coração incipiente.
Nada.
Em quantos dias se forma o coração? O que se forma primeiro, após a fecundação do óvulo? Por que a mulher se perde nesse molho feito a dois, de si?”
Do aparelho televisivo de LED, fixo à parede em frente à cama, me dizem que o cérebro se forma somente após os 25 anos.
Coração, então, quando é que se firma?
Não quis pesquisar. Há certas coisas na vida que não demandam respostas; caem mais leves como a falta de letramento dos que apenas vivem.
— Ignorar uma pergunta também é falta de respeito.
— Aquiete a língua, morto. Termine o vinho.
— Acabou.
Cusparada póstuma.
Levantaram a cabeça, tensionados. Silêncios de toda uma vida num hífen; cospem o vinho numa gargalhada. Filhos da mãe… — Será que a mancha no lençol de elástico é um desses resquícios?
A oração não fecha. Algumas orações subordinam; outras, dirigimos aos mortos: mãos unidas, dedos para o céu.
A palavra não ama. O amar talvez não caiba no sucinto grafo de concordâncias humanas para ninguém.
Ao segurar as alças da minha mochila, que já se agarram aos meus ombros para o caminho de casa, a travessia entra no segundo tempo; os lados do campo se invertem. A direita agora é à esquerda e vice-versa?
Parece que todo mundo quer ir, agora. Mas quase ninguém quer verdadeiramente voltar, ainda que a calçada do meu destino esteja repleta de mesas com quatro esperas de cadeira em cada.
Tomei, no provador de uma loja de varejo concorrente, o café que fiz para a obra e esqueci de beber. Experimentava uma calça jeans com margaridas. Não a comprei. O aroma do café chegou às cabines limítrofes. Ri e bebi da ousadia.
Mãe natureza, Hilda Hilst, Kristoffer Borgli, Victor Heringer, John Harding e Bia Mies resolveram comer pipoca enquanto as unhas pintadas do vermelho “padrãozinho para quem” secam na liberdade de extravasar as unhas para as cutículas, sem limpeza.
Vida longa às crônicas crônicas, que não têm remédio além da melancólica e estonteante poesia!
Abro a porta da geladeira e lá está, a saliva na ponta da língua, o lustroso da forma amarelamente arredondada a se oferecer para mim, assim, sem pudor algum. E, ao invés de querê-lo mais, percebo a ruguinha escondida na curva que dá para as suas costas.
— Será que o maracujá todo murcho se acha desajeitado? Avulso? Fora da fruteira? Old — school & fashioned —, propriamente falando? E será que o liso, no refletir da energia interna, percebe que não dá um bom suco, ainda?
Eu, que não quero pensar no avançar do tempo, dei com ele, há parcos dias, nos primeiros três cabelos brancos que apareceram assim, unidos | um corte à navalha na realidade. Sinais dos trigêmeos à vista que tanto desejo? | Acabo por me encarar no espelho e repetir aquilo com que toda a minha geração de millennials se ilude:
— Eu só tenho 27, todo mundo concorda.
Desafio as madeixas, que resolveram brincar de esconde-esconde na nem tão mais vasta cabeleira de outrora. Outrora, nada. E quem nada é a mobelha negra num mar hilstiano. Recolho os remos.
O morcego ronda as minhas janelas. O sibilo ressoa novamente. A ave preta e fashion, em algum canto, solta sua risada demoníaca. Thoreau entenderia – espero.
Theo, Florence e Giles estarão seguros, brincando de pique-esconde e beijo roubado entre as páginas, antes que o próximo leitor chegue ao seu fim. O final do drama é a outra face da máscara.
Tudo vai bem.
O coração, (s)em idade; cérebro, louco aos 22. Numerologia lunática. Meus três fios prateados são um charme que ainda espero rever no espelho. Mesmo que tudo isso aqui não passe de um sonho interrompido. “Pausa indisponível”.
— Encapsulei a vida?
A taça está rasa das palavras, que se foram todas neste correr da tela; só me resta a Fanta preta, comprada nas Lojas Americanas. Pura curiosidade mórbida; blasfêmia a todos os santos.
Estalo o lacre. Preencho a taça.
(derrubo um pouco na varanda para algum com sede).
Mais um líquido vermelho-sangue-escuro, agora borbulhante. Carmesim.
Gosto de batom. As borbulhas ressoam entre os dentes, bocca chiusa. O sabor encontra o sólido da boca e marca o carmim na taça. Pela primeira vez, por fim, alguma evidência da noite.
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As tentativas de WALDINEIDE
A primeira vez que tentou se matar, tinha dezoito anos. Entrou no mar de São Conrado e nadou até cansar e perder as forças. Foi resgatada pelo helicóptero dos bombeiros. Aos salva-vidas, envergonhada, não revelou a tentativa malfadada de suicídio. Ironicamente, ainda agradeceu por ter sido salva.
Waldineide amaldiçoava o pai pelo nome recebido. Seu Waldir era porteiro de um prédio na Barra da Tijuca. Ele, a mulher, Neide, e a filha moravam num barraco na Rocinha. Waldineide preferia chamar de comunidade.
Talvez nem quisesse de fato morrer, apenas momentaneamente aplacar sua dor. Sentia a pior das dores, as desconhecidas, as que vinham da alma. Nada valia a pena nesta vida. Para seu Waldir, a filha era só meio maluca.
Na segunda tentativa, ela subiu no parapeito do terraço de um edifício. O vento frio batendo em seu rosto pareceu querer empurrá-la para trás. Olhou para baixo, medindo a altura da queda. Nesse momento, descobriu que tinha vertigem de altura. Desistiu.
A frustração foi enorme e ela começou a se achar incapaz até para se matar. Sentia-se ridícula. Não merecia permanecer viva.
Seguiu tentando.
Planejou enfiar sua cabeça no fogão e se envenenar com o gás. O cheiro forte, no entanto, alertou sua mãe que a retirou à força. Seu Waldir, quando soube, disse que a filha estava precisando de uma boa surra. Dona Neide impediu, a menina era sensível e devia estar passando por algum problema sério. Na verdade, eram incontáveis problemas. O atual era não conseguir se matar com competência.
Uma amiga que soube das tentativas dela, falou sobre a existência de um serviço pela Internet de valorização da vida, que oferecia apoio emocional a quem tentava o suicídio. Waldineide desconfiava desse tipo de ajuda virtual e não se interessou. Além do que, estava decidida. Na próxima vez não iria falhar.
No seu íntimo, temia por novo fracasso. Foi quando optou por matar-se com roleta russa. Havia algo lúdico que a atraía: o acaso definiria o seu futuro. Pegou o revólver do pai na gaveta, retirou as balas, deixando apenas uma na agulha e rolou o tambor.
Colocou a arma no canto da testa e apertou o gatilho. Para sua sorte, ou azar, nada. Waldineide tentou mais uma vez. Como não tivesse morrido, suspeitou que não era para ela morrer com um tiro na cabeça. O destino decidira.
Tinha gente que morria engasgada com azeitona, gente que morria de susto, de bala perdida ou atropelada por bicicleta, por que ela não conseguia? Sentia-se um ser mais risível do que já era.
Não tomaria veneno para ratos, queria morrer com mínima dignidade, não como uma roedora de esgoto. Ainda havia a possibilidade do tradicional expediente de cortar os pulsos, mas ela não podia ver sangue, que desmaiava.
Waldineide começou a se desesperar. Escolheu uma forma mais randômica: andaria, de madrugada, por lugares ermos e sinistros. Algum bendito marginal da favela completaria o trabalho. Depois de alguns dias perambulando por vielas e becos, finalmente, um assaltante a abordou. Ela ansiava pelo corriqueiro “a bolsa ou a vida” para, de forma categórica, devolver: “a bolsa, idiota. Atira logo”. Entretanto, escutou o habitual “perdeu”. Segurou com as duas mãos a bolsa e encarou-o: “pode me matar!”. O meliante, pego de surpresa, olhou-a de cima a baixo. Ela concluiu que, enfim, sua hora havia chegado e aguardou, de olhos fechados, o desfecho. O assaltante puxou-a pelo braço, levou-a para trás de um tapume e começou a rasgar suas roupas. Waldineide pretendia morrer, não ser estuprada. Enfrentou-o como pôde. Depois de muita luta, já exausta, com o maldito sobre seu corpo, conseguiu pegar no chão sua bolsa com o revólver da roleta russa. Tinha só uma bala. Apertou o gatilho no pescoço do bandido e ouviu o estampido. Em choque, desvencilhou-se do corpo ensanguentado dele, arrumou-se com o que havia restado de roupa e saiu correndo em disparada. Só queria fugir dali. Desaparecer, sumir do mundo.
Soube depois pelos jornais que o tal rapaz fora encontrado vivo. Era tudo que ela queria, que ele sobrevivesse. A morte era dela, ele não tinha nada a ver com isso.
Waldineide havia tomado uma decisão. A melhor maneira de realmente se conhecer era fazer o contrário. Numa manhã como outra qualquer, levantou da cama, escovou os dentes e foi até a cozinha. Pegou uma faca e a afiou, pacientemente. Dessa vez não ia vacilar. Enquanto cortava em fatias o filé de frango para o almoço, pensava na vida que teria pela frente.
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A Vida em Bullet Points
Dizem que “a fila anda”. Talvez ande nos relacionamentos. Já na minha lista de tarefas, ela parece ter criado raízes.
Ela nos persegue pelo celular, mandando alertas sonoros de tudo o que ainda não foi completado. Para quem prefere o caderninho, nem isso resolve: as tarefas não riscadas ficam ali, silenciosas, aguardando o momento de despertar a culpa.
Tenho a impressão de que as listas de tarefas se reproduzem durante a madrugada. Vou dormir com oito itens e acordo com quinze.
Cumprir uma To Do List é como correr na esteira vendo uma paisagem virtual: a trilha avança, mas quem continua parado somos nós.
Outro dia risquei “trocar a lâmpada da cozinha” e, quando voltei à lista, ela já tinha gerado “limpar o lustre”, “organizar a área de serviço” e “pesquisar iluminação para ambientes pequenos”.
Às vezes tento me lembrar quem colocou tudo aquilo na lista. Não encontro outra explicação senão a de que as listas ganharam vida própria e passaram a escrever novos itens quando ninguém está olhando.
Suspeito que exista um aplicativo clandestino frequentado exclusivamente por tarefas. Lá, num ambiente chamado Todobook, elas trocam informações e combinam estratégias para nunca desaparecer completamente. Até flagrei uma luz acesa suspeita uma noite dessas no meu celular.
Talvez eu devesse anotar “não fazer nada” no topo da lista. O problema é que, conhecendo seu gosto pela provocação, ela logo acrescentaria três subtarefas, dois lembretes e um prazo final.
E ainda me enviaria uma notificação perguntando por que a tarefa está atrasada.
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Mitos
O mito é uma criação fantasiosa que procura explicar aspectos da natureza ou da condição humana. Nossos antepassados os cultivavam para dar sentido ao mundo. Esse reinado da imaginação durou séculos, até ser destronado primeiro pela filosofia, depois pela ciência.
Isso não significa que nos livramos dos mitos. Com outras roupagens, eles continuam orientando nossas crenças. Cultivamo-los como um vício da imaginação, ou melhor, como um suporte a nossas precárias certezas racionais.
Há vários tipos de mitos: políticos econômicos, sociais. Há também os pessoais, domésticos, que engendramos visando à saúde ou à boa convivência.
O cultivo de um deles me fez sofrer cerca de quinze anos com uma dor de cabeça quase diária. Eu não podia ler de manhã, que começava o latejamento na têmpora direita. Com ele vinham náuseas e, por vezes, vômito. A exemplo de João Cabral, transformei-me num cativo da aspirina – o “sol branco” que lhe apaziguava a dolorosa contorção dos vasos sanguíneos.
Procurei um médico, que me sugeriu tirar o leite e derivados.
Aí começou o drama, pois se revelou a força do mito. Como viver sem leite? Tentei, mas sem ele me sentia desnutrido. Mais do que isso: desamparado. Nenhum alimento tem tanto valor simbólico. Ao leite associa-se o seio materno, o crescimento, a solidificação do corpo e da mente.
O jeito era mentir para Dra. Moyra, que não conseguia entender a persistência da dor de cabeça:
– Tirei tudo, doutora. Leite, queijo, chocolate – dizia eu, constrangido. No fundo, não acreditava que eram esses alimentos os responsáveis pelo problema.
Até que um dia comi um “chocolate ao leite” gorduroso. Na manhã seguinte, tive uma dessas enxaquecas que os acadêmicos de Medicina chamam “de livro”. Com direito a cefaleia, vômito e coriscos espoucando nos olhos.
Comecei, então, a ligar uma coisa à outra. Pouco a pouco a luz da razão foi expulsando as trevas do mito. O vilão era mesmo o leite. Ou melhor, a lactose. À medida que me convencia disso, foi ficando fácil trocá-lo pela soja.
Ainda hoje, lamento não ter dito a verdade a Dra. Moyra. Ela desde o início estava certa. Consola-me, no entanto, ver que meu pecado foi pequeno – uma simples e piedosa mentira. Quantas pessoas, por apego aos mitos, não perseguem, torturam e matam o ser humano?
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Rebuliço no Cãodomínio
Lugar de peripécias acaloradas é condomínio. Histórias inimagináveis. Não importa o número de apartamentos. Condomínio surpreende até aos Anjos da Guarda preparados para os fortuitos. Edifício de 11 apartamentos. Alguns adultos, muitos idosos, cinco jovens, um bebê e nove cães. Mesmo comedido, valem contos prazerosos.
Convivência pacífica, polida e amigável entre alguns condôminos. O rol está sempre bem decorado pela moradora-design. A síndica é pulso firme e às vezes vira ursa na resolução de conflitos, defendendo o prédio com zelo e meticulosidade. O zelador parece um polvo-faz-tudo. Sabe tudo, vê tudo, ouve tudo. Tem a senhorinha educadíssima, o homem quase não visto, os casais de jovens adultos bonitos, as jovens que sempre passeiam com os cães, a neném recém-nascida que é uma fofura, o casal intelectual e nós.
Aqui estamos há mais de uma década e o edifício nunca foi abundante em crianças. Talvez seja reflexo dos novos tempos ou por não termos área de lazer ou os dois. Não sei. A verdade é que não há crianças pelos corredores.
Morar aqui é silencioso, fresquinho e ensolarado. Corredores cheirosos e portas branquinhas com maçanetas variadas, das que fazem reconhecimento facial às antigas, que engolem as chaves, emperram e não querem devolvê-las.
Mas a pouco tempo tivemos uma moradora subversiva expulsa do apartamento. Um Oficial de Justiça apreendeu o carro alugado que ela também não pagava. Aliás, acho que esse apartamento precisa de exorcismo. Até hoje, nele só vieram morar transgressores, desobedientes, esquisitos, baderneiros. Uma moradora logo que chegou, montou um brechó na recepção. Foi um auê…
Por isso, sempre que alguém se muda, proclamo o ditado japonês: Boa sorte e tenha bons vizinhos. Afinal, vizinho está do seu ladinho.
Mas, dia desse, já noite, ouvimos latidos, gritos. Mafalda e o Capitão começaram a rosnar na fresta, embaixo da porta. Deitada, iniciando a leitura do ritual do sono, meu telefone toca, a síndica: Vocês estão com outro cachorro, um preto? Respondi negativamente. Tem um cachorro preto solto nos corredores. Minha filha não consegue sair com nossos cães para passear. Percebi temor na voz. Acordei meu marido que foi ver o furdunço no prédio. Caos generalizado em plena quarta-feira.
Ele saiu com uma vassoura e enorme bacia de plástico, daquelas que se põe roupas brancas de molho no bicarbonato. Portas entreabertas com olhinhos nas frestas espiando o fuzuê. Espada-vassoura e escudo-bacia em punho lá foi ele. Eram três cães pelos corredores. O Guerreiro e os três dragões. Pessoas gritavam nos apartamentos: Chame os bombeiros. Liguem para polícia. São brabos! Cuidado! Joga spray de pimenta!
Os três cachorros corriam, subiam, e desciam as escadas do prédio assustados, eufóricos, desnorteados. Pelo olho-mágico, os vi saracoteando e pareciam adorar a liberdade. Sabíamos que só um vizinho tinha três cães. Os pais da bebê. Munido da armadura improvisada, o Cavaleiro foi até o apartamento do casal. Porta escancarada. A chave permanecia na fechadura por dentro. Um dos cães entrou no elevador, subiu, ganiu, desceu enlouquecido.
O Destemido usou a espada-vassoura e enxotou o maior para dentro do apartamento. Fechou a porta. Os outros dois, mais serelepes, subiam e desciam as escadas felizes, latindo em brincadeira. Encurralou o menorzinho entre a parede e o escudo-bacia e o arrastou, preso, até a porta e adentrou-o.
O terceiro, mais levado, o driblava. O Valente Guerreiro levou uma canseira. Esbaforido, subia e descia as escadas atrás do fujão. Os joelhos reclamaram. Parou. Sentou no degrau. O cão o olhou ressabiado. Distante, aguardava seu perseguidor retomar a empreitada. Mal sabia o foragido que o Guerreiro sessentão estava exausto. Rendido, largou a espada-vassoura, o escudo-bacia e argumentou: Você venceu. Desisto. Não dá para mim. O cão virou a cabeça de lado e percebeu o cansaço do homem à sua frente. Pode ficar zanzando pelo prédio. Não vou te pegar. E foi acalmando a respiração. Ciente da desistência e de ter sido proclamado vencedor, o fugitivo, calmamente se aproximou e roçou o focinho na mão do perseguidor. Meu marido acarinhou a cabeça do cachorro e mansamente pegou a coleira e o levou até o apartamento. O fujão entrou sem retrucar.
Horas depois, o morador do apartamento chegou. Atualizado dos fatos e tendo a chave pelo lado de fora da porta, trancada, veio agradecer e pediu inúmeras desculpas.
Tenho certeza que os cães foram dormir extasiados de felicidade na brincadeira da liberdade.

