Crônicas

  • Morrer de amor

    Uma noite dessas tive a boa ideia de assistir a apresentação de um coral onde uma amiga querida canta. O programa foi todo dedicado à Rita Lee e, de repente, durante a apresentação algo me tocou e foi a letra de “Saúde”. A parte que acendeu uma lâmpada, ou chama se preferir, é a seguinte: Se por acaso morrer do coração/É sinal que amei demais. Confesso que sorri.

    Por que sorriu? Lembrou dos amores passados?

    Sabe que não. Eu sorri porque ali naquele teatro escutando o coral cantar eu me dei conta que morro do coração por amor desde que era adolescente. Não é exagero, é verdade. Eu sei que é difícil acreditar porque usualmente eu projeto uma imagem séria e bem controlada, até porque a grande maioria das pessoas que convivem comigo atualmente são do campo profissional. Portanto, a gente até sorri mas é algo mais corporativo.

    Tá, sem viagem por favor. Continua porque estou tentando te entender.

    Às vezes nem eu consigo isso. Mas enfim ai me veio à cabeça a ideia que nas multidões anônimas que se esbarram todos os dias pelas ruas existem aqueles cujos corações pararam. As razões são as mais variadas, isto é, as dores de amor são múltiplas. Tem pela pessoa amada, a mais comum, mas tem por filhos, animais de estimação, carros, casas, relíquias e até por livros que se perderam. Tudo pode provocar paixão ao mesmo tempo em que tudo pode partir o coração.

    Verdade, concordo com você.

    Então, nas noites com ou sem lua se fosse possivel escutar a frequência dos uivos de quem padece por amor seria ensurdecedor. Cada um, com sua dor, uivando aos prantos. Mas uivo de amor tem uma frequência tão alta que nem os cães captam. Toda noite, tão certo quanto há estrelas no firmamento, tem a sinfonia dos desesperados que morrem de amor.

    Ai quanta dor ao luar!

    Mas nada é para sempre muito menos as mortes de amor. O que vem avassalador, vai embora suavemente, escorrendo para fora dos corpos. Memórias são criadas, decisões são tomadas. Uma vida recomeça sobre as partes, as vezes até escombros, da anterior. Vida surge onde antes havia… vida. E assim, sem que se dê conta, levantamos da fria cripta e saímos andando ao calor do sol.

    Sou uma dessas almas que ressuscitam. E antes que eu em esqueça, como chama o coral onde sua amiga canta?

    Gogós.

    Gostei.

  • Nossa frágil condição humana!

    Histórias e piadas contadas por nossa família e amigos, invariavelmente nos fazem rir, mas se forem das boas. Observando no detalhe, elas contam histórias sobre o mal, ou de uma desgraça alheia. 

    A bondade não tem graça nenhuma, somente se ao final a história virar um desastre. 

    O filósofo francês Henri Bergson disse que o cômico exigia algo como uma momentânea anestesia do coração. “O riso não tem maior inimigo que o coração”, por isso rimos do mal para que ele não nos atinja.

    Uma das piadas que os judeus contavam na Alemanha nazista, era sobre o que um comandante da Gestapo dizia a um judeu: “Vou te dar uma oportunidade de viver, se adivinhar qual dos meus olhos é de vidro”. 

    O Judeu responde de imediato — É o esquerdo.

    O oficial admirado pergunta — Como é que descobrisse?

    E o Judeu respondeu — É o que parece menos humano. 

    Pode parecer surreal, no entanto, é uma manifestação bastante profunda nas mãos de todos que se confrontaram com o mau absoluto, que o fizeram mais por necessidade do que provocação. 

    Na União Soviética a piada frequentemente contada era a seguinte: “Sergei, arranjei um emprego, vou para o cimo daquela torre, e meu trabalho é tocar essa corneta quando a revolução triunfar. Pagam-me um rublo por dia”.

    “Ivan, isso é pouquíssimo “.

    “Eu sei, mas é um trabalho para a vida toda”. 

    Eles riem do mal, do bem, ninguém rí, para quê? 

    Mesmo histórias curiosas que resultaram num final trágico, por consequências em suas entrelinhas, parecem uma ironia do destino. 

    Como ocorreu com o Ditador, Ex Presidente da República Portuguesa, Antonio de Oliveira Salazar, apegado ao poder, de onde emanou ordens dramáticas e doloridas àquele povo sofrido, acabou por encontrar um final mortal inesperado, em sua trajetória humana. 

    Uma história com ares de ópera-bufa, se imaginarmos que o ditador foi derrotado por uma queda ao chão. 

    Em 1968, Salazar gozava férias em Santo António do Estoril, e sentado em uma cadeira que não se sabe se em falso ou quebrada, ou estrategicamente fora do lugar, levou o ditador ao chão, onde bateu a cabeça com violência no piso da pedra. Teve um hematoma cerebral e não se recuperou do trauma. Morreu dois anos depois. Conta-se que ele jamais soube que não era mais o presidente do Conselho de Ministros e que a equipe de governo se reunia em sua presença, para encenar reuniões e decisões. 

    Nossa frágil condição humana limita uma rota a todos, muito similar a fraqueza de seus pares e a finitude que nos acompanha. 

    Mas o dolorido é quando os meses e anos escorrem pelos dedos, e chegando a velhice, se vê que não saiu do lugar.

  • Está tão difícil ser eu

    Uma das coisas mais surreais que me ocorreram foi, sem dúvida, ser confundido com outra pessoa. Gente mais nova não sabe bem o que é isso, mas, na época do telefone fixo, quando sequer existia WhatsApp, quando redes sociais eram ficção científica, a pessoa te ligava insistindo que você não era você.

    — Você sabe quem está falando?
    — Não faço a menor ideia.
    — Ah, sabe sim.
    — Sei não.

    A voz era de mulher, eu não fazia a menor ideia de quem fosse, mas ela não se dava por vencida. Rebatia, insistia, falava com este outro que não era eu, mas que, para ela, era.

    — Vai ficar me tratando assim?
    — Assim como?
    — Fingindo que não se lembra de mim. Depois de tudo.
    — Tudo o quê, minha senhora?
    — Ah, faça-me um favor.

    Desligou.

    Até hoje, eu insistindo que sou Leandro, tem gente que me chama de Leonardo. Vizinhos, amigos, médicos, enfim, todo mundo. Eu adoro ser Leandro, sempre gostei, mas, no meu caso, ou a pessoa abrevia, ou muda.

    Ou fala Leonardo, ou abrevia para Léo, mas o que eu adoro mesmo, de verdade, é ser simplesmente Leandro.

    Sofro, claro, também, com homônimos. Uma vez, quando fui tirar um documento, arrumaram um Leandro em São Paulo, com sobrenome igualzinho ao meu. Custei a resolver.

    Já fui confundido, em rede social, com um ficante de outra moça, quando meu lance, na verdade, era com a prima dela — o que, naturalmente, gerou uma confusão sem tamanho.

    Felizmente, nunca fui confundido com o pai desaparecido de ninguém, nem com um espião, nada disso.

    A vez mais divertida, confesso, foi quando, no interior do Rio de Janeiro, em Grussaí, numa pousada, fui confundido com o marido da moça que estava na minha frente.

    A gente ia pegar uma ficha, sei lá, para fazer o quê, não lembro, e a moça da frente, talvez por uma casualidade do destino, estava com uma camiseta verde — eu também estava de verde.

    — Agora pode vir o casal — disse a atendente.

    — Casal? Ele — ele, no caso, era eu — não é meu marido. Meu marido está no quarto, dormindo.

    Eu quis rir, mas achei melhor deixar para rir depois.

    A última vez foi ontem, quando fui à rodoviária, quando fui comprar uma passagem para o Rio de Janeiro, para uma viagem a trabalho estendida para passeio, quando o atendente, com meu RG e tudo, mesmo digitando o CPF corretamente, inventou que meu sobrenome não era Pereira, era Ferreira.

    Tentei mudar, mas o rapaz disse que o sistema não deixa mudar.

    — E eu deixo? — argumentei.

    Ele disse que eu não tinha problema, que o importante era o número do CPF, que, infelizmente, o jeito era viajar como Ferreira mesmo. Paciência.

    Aviso aos navegantes: eu adoro ser Leandro. Nunca quis ter outro nome. Até se voltasse em uma reencarnação, eu ia querer ser eu mesmo.

    Agora, se um desavisado me confundir com esse tal Ferreira e vier depositar um milhão de reais na minha conta, vou jurar, de pé junto, que sou o Ferreira. Fiquem avisados. Não devolvo. E pronto.

  • Só a bailarina que não tem

    Um dia desses, lendo uma crônica do Vinicius de Moraes — O estranho ofício de escrever — senti um alívio maior do que aquele que experimentava, na infância em colégio de freiras, ao sair do confessionário. Minha consciência, até então abalada pelos pecados veniais e mortais que vinha cometendo na escrita, se encheu de uma morna complacência. Afinal, se até Vinicius escorregava, por que não eu?

    Escrever, para mim, envolve uma dor de parto aguda e profunda. O texto vai vindo a cada contração e, por vezes, precisa da ajuda de fórceps para ganhar o mundo. Sempre acreditei que, como escritora, não era uma boa parideira.

    Lia os grandes cronistas e me encantava com a fluidez com que as palavras bailavam nas páginas: ora em plié, compondo sentidos flexíveis; ora em rond de jambe, mudando o rumo da narrativa; muitas vezes arrematadas com um inesperado grand jeté. Eu me consolava pensando que jamais havia treinado em sapatilha de ponta — requisito básico para integrar um corpo de baile como o daqueles escritores notáveis.

    Na tentativa de entender como se dava o processo criativo deles, resolvi bisbilhotar suas rotinas. Descobri um certo consenso: corpo em movimento, mente disciplinada, metas diárias e um caderno sempre à mão para capturar ideias fugidias. Adotei as caminhadas matinais e o inseparável caderninho — e continuei insegura. Meu relógio criativo insiste em funcionar à noite, e me permiti respeitá-lo, até porque método algum jamais garantiu inspiração. As crises criativas permaneceram, fiéis como velhas conhecidas.

    Foi então que me deparei com a confissão de Vinicius. Ele, Rubem Braga e Paulo Mendes Campos escreviam para diferentes jornais e, num aperto, Rubem pediu a Vinicius uma crônica emprestada. Veio A Sopa. Rubem fez pequenos ajustes e publicou. Tempos depois, foi Vinicius quem, sem texto novo para o dia seguinte, recorreu a Rubem — e recebeu de volta justamente A Sopa. Protestou, claro. Mas não era pobre soberbo. Remendou aqui e ali e publicou.

    Foi minha absolvição definitiva. Se até os grandes reciclavam crônicas em dias de penúria criativa, por que não eu?

    Lembrei então da Ciranda da Bailarina, de Chico Buarque e Edu Lobo:

    “Confessando bem, todo mundo faz pecado…
    Só a bailarina que não tem.”

    E só o escritor perfeito também não.

  • Uma crônica quase poesia

    Uma crônica leve bem leve. Uma crônica como se fosse um beijo. Isso. Como se fosse um beijo. Uma crônica limpa. Sem manchas de maldade ou de egoísmo.

    Ambição de conto? Nem pensar! Uma crônica suave e mansa. Dessas que o vento leva de tão leve e descontraída.

    Uma crônica bem medida de sol e mar e sal. Uma crônica desenhada e bem cuidada. Música ao fundo. Olhos de ressaca. Ressaca de mar que é pro Bruxo do Cosme Velho não ficar zangado.

    Uma crônica tão curtinha. Coitada! Não dá tempo de dizer um oi! Uma crônica assim bem simples deixando as coisas. Deixando tudo e todos. Uma crônica não para ficar intrigado e reflexivo. Não! Uma crônica para sorrir. Uma crônica para abraçar. Uma crônica para cheirar e apertar e acarinhar. Uma crônica leve, bem leve…

    Uma crônica de dezembro, voando no calendário já anunciando o Natal e o fim de mais um ano. Tudo passa tão rápido, não é? Imagina a crônica?

    Fica, então, esta crônica leve, ligeira, perfumada de palavras e mais palavras, quase poesia, quase nada…

  • A ordem é amar?

    O parlamento da Dinamarca aprovou, recentemente, uma lei que proíbe o acesso de menores de quinze anos às redes sociais. Com essa atitude, o governo determina que a relação dos seus cidadãos com as plataformas digitais transcende o escopo da educação familiar e se torna um problema de saúde pública.

    A Austrália também adotou medidas semelhantes. Contudo, por lá, a idade mínima para acesso será dezesseis anos. Outros países da Europa estudam seguir nessa mesma direção.

    O velho discurso de que as redes sociais são espaços que promovem liberdade de expressão, diversão e conexões sociais importantes não se sustenta mais diante do alarmante crescimento da dependência emocional e da ansiedade coletiva entre crianças e adolescentes. Muito embora alguns críticos chamem a lei de moralista e paternalista, a Dinamarca afirma não se tratar de censura, mas de regulação preventiva.

    O projeto se baseou numa estatística preocupante: os índices de depressão e ansiedade entre jovens dobraram nos últimos dez anos e não se pode ignorar a correlação entre esse fato e o tempo das telas.

    Para além da discussão sobre quem deve ter o poder de cuidar do bem-estar e da saúde mental das crianças e jovens, é absolutamente necessário

    refletir sobre a invasão que os espaços afetivos têm sofrido por parte dos eletrônicos, das redes sociais e plataformas digitais. Não temos como negar que, muitas vezes, negligenciamos as pessoas que amamos e, até mesmo, a nós mesmos e aos nossos objetivos e planos, seduzidos pelo vagar solitário e despretensioso nas redes.

    As crianças e os adolescentes denunciam sua dependência e adoecimento com sinais cotidianos, muitas vezes, naturalizados por nós, como por exemplo: crises coléricas ao não poder acessar o eletrônico, resistência e desinteresse em relação a qualquer outra atividade que não envolva o celular ou o game, agressividade e descontrole diante da frustração no jogo ou por impedimento de acesso, isolamento no quarto, afastamento do contato familiar, entre tantas outras coisas.

    Os adultos também já experimentam, de forma explícita, as consequências dessa relação desmedida com as redes sociais. Quem nunca sentiu inveja da felicidade alheia e fake postada nas redes? Todo dia, ali, na nossa frente, tem alguém que parece ser mais feliz, mais bem-sucedido, mais amado, mais elegante, mais sortudo do que nós. E pior, assistimos e aplaudimos a vida dos outros enquanto a nossa fica parada na mesma estação. As relações amorosas também têm sofrido com a soberania virtual. Já ouviram falar sobre phubbing? Não? Eu posso apostar que, em algum momento, vocês já o experimentaram de forma ativa ou passiva. Phubbing é o ato de ignorar uma pessoa ou situação social para prestar atenção ao celular. O resultado? Prejuízo da conexão e da intimidade e, consequentemente, distanciamento emocional.

    A situação é tão bizarra que, mesmo quando escrevemos, lemos ou conversamos sobre o assunto, ainda assim, somos capazes de praticar o “crime”.

    Como desarmar o feitiço?

    Algo me diz que a solução está na arte, na literatura, na música…

    Lembrei da letra: “Quando a luz dos olhos meus e a luz dos olhos teus decidem se encontrar… Meu amor, juro por Deus que a luz dos olhos seus vence o meu celular”.

  • Um tom diferente na tinta da retina

    No Renascimento foi inventada a sopa fortificante e restauradora, feita de carne de boi, carneiro e legumes, servida como refeição no século XVIII aos viajantes ou indivíduos extenuados, após um longo dia de trabalho. 

    Era servida nas estalagens, tabernas e hospedarias, e devido aos seus efeitos benéficos, ganhou o nome de restaurant.

    Esses lugares não entregavam refeições para quem batesse em suas portas, e não seguiam o conceito de apresentar um cardápio onde o cliente pudesse escolher o prato que desejasse, tinham apenas a sopa restauradora.

    O Sr. Boulanger (em francês, padeiro), ganhava a vida como vendedor destes caldos, e colocou uma placa com dizeres em latim em seu estabelecimento (Rue des Poulies, em Paris), que dizia o seguinte: 

    — “Vinde a mim, vocês que têm o estômago em penúria, e eu os restaurarei”. 

    Ele foi o primeiro a anunciar a venda destes caldos fortificantes, que recompunham a saúde de quem tinha problemas de digestão, e assim se deu a origem da palavra restaurante. 

    Este estabelecimento se firmou na França após a Revolução destituir a aristocracia, e deixar sem emprego um contingente de serviçais hábeis no trato com os alimentos. 

    Com a chegada de muitos provincianos à cidade, e ninguém para cozinhar para eles, surgiu a oportunidade da criação do hábito de fazer refeições fora de casa, dando início ao surgimento do restaurante. 

    Foi o La Grande Taverne de Londres, fundada em 1782, de propriedade do senhor Antoine Beauvilliers, onde foi criado o padrão do restaurante moderno, ao combinar 4 pré-requisitos essenciais: um salão elegante, garçons bem treinados, uma adega bem escolhida e uma cozinha requintada. 

    Uma evolução maravilhosa que veio ao encontro do prazer em reunir pessoas e celebrar a vida.

    Cardápios orientais, a comida do Mediterrâneo, os festivais gastronômicos pelo mundo, as sobremesas e os banquetes, tudo envolto ao prazer em desfrutar momentos da Dolce Vita. 

    Da necessidade à formação profissional, surgiram mestres da culinária que desenharam um novo rumo a uma especialidade repleta de particularidades, que agregam um pouco da cultura de cada povo onde nasceram.

    A rua dá um tom diferente na tinta da retina, que não encontramos em casa, e a necessária convivência com o mundo nos faz gente para podermos saber o que somos, e o que podemos ser para o outro.

  • O mar é logo ali

    Na semana passada, fui ao Rio de Janeiro para o lançamento do livro “A reinvenção da metáfora: as bodas de Rogério Salgado”, publicado pela Ventura Editora, com organização do poeta Luiz Otávio Oliani, e que tive o orgulho de apresentar na orelha.

    Enquanto estive no Rio, uma frase não saía do meu pensamento: “Poxa vida, o mar está tão perto, é logo ali.” O carioca vive tão perto do mar que, às vezes, parece fingir que não se dá conta, fingir que não liga, fingir que desdenha. Mas é tudo aparência.

    O mar, no Rio, é uma espécie de arranjador, um maestro que comanda a música que toma conta da cidade. Onde quer que você esteja, é o mar quem dita o ritmo.

    Ao andar pelo Rio, tenho sempre a sensação de que as pessoas estão, de alguma forma, sempre prontas para pegar uma praia. Se você duvida, eu te provo.

    Basta reparar — você, que mora longe da praia — como tudo é diferente em lugares como Belo Horizonte, onde eu moro. Quem vive longe do mar passa a vida vestido, e acha que precisa escolher roupa para tudo. O carioca, não. Porque o mar está logo ali.

    Percebi isso quando fui curtir a noite numa boate de Copacabana, na Rua Raul Pompéia. Na farra, o carioca raiz não liga para roupa: se quiser ir de jeans, camiseta e pochete, ele vai; se a mulher quiser ir com um conjunto monocromático, ou com um vestido, ela vai também. Maquiada ou de cara limpa, com batom ou sem batom — tanto faz. O mar está a poucos metros dali.

    Se quiser sair de madrugada da boate e pular no mar, pula. Antes do café da manhã, pula também. Por ser uma cidade com mar, o Rio está sempre mais interessado em tirar a sua roupa do que em te ver vestido. Você me entende.

    A vida na praia é diferente da vida longe dela, e, mesmo quando não é, ainda assim você vive envolvido por essa música invisível do mar.

    Se você conhece São Paulo, sabe que, em algumas casas noturnas, você não entra de bermuda. Assim que a recepcionista percebe o turista desavisado, logo aparece um ambulante oferecendo uma calça para alugar, com maquininha de cartão e Pix.

    Se você se senta numa lanchonete usando boné, é provável que alguém peça para você tirar. No Rio, isso seria impensável.

    Sou mineiro. Moro em Belo Horizonte. Estou acostumado à calça comprida, a ficar vestido o tempo todo, a escolher a melhor roupa para cada ocasião, a combinar cores, a tentar parecer mais bonito, ou até a aparentar uma condição social melhor do que realmente tenho. Quem é mineiro sabe.

    O carioca, não. Usa bermuda para quase tudo: ir à praia, ao banco, ao mercado. Só coloca calça quando realmente precisa: museu, missa, casamento, show, concerto. De resto, roupa de calor, só se for leve.

    Um executivo carioca faz cooper em Ipanema de bermuda, tênis, e sem camisa. A mulher carioca, quando sai da praia, coloca um short por cima do biquíni e uma camiseta para entrar numa loja ou num restaurante.

    Quer reconhecer um estrangeiro em Ipanema? Olhe o Posto 9: é o cara de bermuda, camisa com a manga dobrada, e tênis. A estrangeira é a que veste uma bata por cima do biquíni, usa um chapéu Panamá, e óculos escuros.

    Tudo isso porque o mar é o maestro. Criou a música silenciosa que envolve o Rio, e a coreografia que encanta meus olhos de cronista.

    Mas eu fui mesmo para o lançamento da antologia dos melhores poemas de Rogério Salgado. Fui comemorar os 50 anos desse poeta mineiro radicado no Rio — e aproveitei para bater perna, confesso.

    No evento, na Lapa, pouca gente emperequetada além do necessário. Homens de bermuda, chapéu, camiseta floral, jeans, tênis. É impossível não notar o quanto o mar influenciava tudo aquilo: era uma música silenciosa, um poema, uma liberdade.

    Nem todo carioca gosta de mar, eu sei, mas, no fundo, eles sabem que é o mar quem manda — e nós obedecemos.

    Mesmo quem está no Rio só a passeio acaba entrando na atmosfera carioca. Ganha, sem perceber, uma pequena alminha carioca.

    Com o tempo, você passa a achar uma Havaiana mais charmosa que qualquer tênis caro; anda sem camisa; toma sol; percebe que cada corpo é único, quando está à vontade. O executivo troca o terno pela bermuda; a turista descobre que só precisa de um vestido para tudo.

    Quanto mais tempo você passa no Rio, mais carioca você fica. Gosta de mate, de biscoito Globo, de sorvete de pistache, de samba. Aprende as delícias de andar descalço, de entrar no mar, de esquecer da vida.

    Por isso, estou sempre arrumando uma desculpa para fugir para o Rio. Porque, ali, o mar está sempre por perto — e, acredite, isso faz toda a diferença.

  • Obscuros

    No dia seguinte à festinha de lançamento do primeiro single da banda Hollow Clowns, Zími ficou sabendo por redes sociais que Samir, baterista da banda, havia morrido por overdose de cocaína.

    Era considerado grande baterista, pela força, influência e domínio técnico do instrumento.

    Samir tocava numa banda de punk rock, mas poderia tocar numa banda de rock progressivo.  

    Ele tinha trinta e oito anos.

    Samir era discreto e aparentava ter boa saúde, o que potencializou o impacto de sua partida.

    Foi apenas nesse momento, após uma sucessão de bizarrices na vida pessoal de Zími, e também no cenário mundial, que uma depressão se abateu sobre ele.

    Sabendo que é impossível se manter animado o tempo todo, Zími considera que o mercado motivacional vende uma farsa, e não uma utopia.

    Ele era movido por certas utopias, com ideais muito mais nobres do que tentar mudar essa característica comportamental humana.

    Quando acordava em frangalhos, o resto do mundo continuava funcionando da mesma maneira débil e acelerada em direção a um penhasco que se aproxima assustadoramente enquanto o rebanho humano devora a si mesmo para cumprir metas que enriquecem os verdadeiros patrões, ausentes da feiura cotidiana das cidades.  

    Muitas vezes estão, em plena terça-feira à tarde, em suas lanchas cheias de putas e garrafas de uísque, lamentando com razão a finitude de suas vidas.

    Eles têm alguns bonecos remunerados para dar as ordens e que são chamados de chefes, e que muitas vezes também são escravos.  

    Estão, no entanto, hierarquicamente acima do grande rebanho, cuja diferença em relação ao período oficial de escravidão está apenas nos nomes pelos quais são chamadas as respectivas condições, assim como o percentual de pessoas escravizadas, muitas das quais nem ao menos se dão conta disso.

    Muitos, inclusive gostam e agradecem a esse modelo contemporâneo de escravidão.

    Os bonecos acima deles servem de modelo para a massa, determinando o que vulgar e popularmente se chama de ‘vencer na vida’.

    Mas os capitães do mato, os feitores, as senzalas e as casas grandes também continuam presentes, com outros nomes.  

    O fato de noventa e oito por cento da população é composta por escravos, dando à massa uma impressão de nivelamento, ainda que sejam nivelados no fundo de um poço frio, sujo e úmido.

    O rebanho humano é passivo apenas na relação com esses patrões, mas é bastante selvagem e agressivo na relação com seus semelhantes, que na melhor das hipóteses acordam às cinco da manhã, enfrentam a saga do transporte público, depois cumprem as metas, voltam para casa enfrentando novamente o trânsito dentro de ônibus e vagões de metrô lotados, chegando em casa com a energia vital sugada, e às vezes até agradecem pelo dia.

    Essa massa anônima que devora a si mesma perece e é substituída facilmente, pois na fila por uma ‘oportunidade’ há milhões de desesperados.

    E Zími não escapará vivo dessa desgraça, pois não espera por uma vida melhor após a morte, despreza pastores picaretas que vendem terrenos no céu e exploram o rebanho através do medo.

    E as escolas sucateadas continuam a formar analfabetos que saem dali sem ler, escrever ou fazer contas, prontos para serem esmagados pela grande máquina de moer carne.

    Zími fez faculdade de Jornalismo e ali só recordou que está na mesma cilada que seus semelhantes, e essa consciência lhe serve apenas para tentar um caminho menos tortuoso, permeado pela arte, especialmente música e literatura, com predileção por gêneros que esclarecem essa condição humana precária.

    O suicídio não é solução para ele, pois sabe que a vida dará conta facilmente de matá-lo, e ele quer ver até onde consegue chegar vivo, e ver até que ponto as coisas podem chegar, e talvez presenciar o fim de toda essa farsa, por meio de uma iminente hecatombe.

    Sua fé e esperança consistem em viver até que isso aconteça, para que finalmente, pelo menos por um momento, sejamos todos iguais e nas mesmas condições.

    Zími considerava repugnante o fato de ter sido gerado, e consequentemente não teve filhos, o que o ajudava a lidar com tanta desgraça.

    Sabendo que a vida em si não tem sentido algum a ser descoberto filosoficamente, ele procurava dar a ela esse sentido.

    Ele trabalhava em casa, não enfrentava trânsito, nem chefes, nem colegas de trabalho.

    Sabia que era pobre, mas pagava aluguel, comprava comida e ia ao cinema.

    Podia viajar, porque tinha uma banda, o duo Crop Circles, que ia de chevette pelo interior para shows pequenos, em troca de cerveja e gasolina, e onde podiam vender algum merchandise, para pagar pela comida ao longo do rolê.

    Mila Cox era a parceira musical de Zími no projeto, e também sobrinha de Samir.

    Zími recebeu a notícia da morte de Samir e ainda não sabia como Cox havia reagido ao fato. 

    Sabia apenas que a partir de então, era mais importante do que nunca levar o projeto adiante.

    Conseguiam vender os cd’s e camisetas que levavam, o que parecia um sinal de aprovação por parte do público, embora durante as apresentações houvesse um silêncio causado por um misto de curiosidade e perplexidade, sem nenhum murmúrio de aprovação ou dissidência.

    Muitas vezes, nessas viagens, dormiam no carro, desde que arrumassem algum lugar para cagar e tomar banho.

    Não raro, o público era composto por gente que nunca viu uma guitarra na vida.

    Nos shows da banda eles continuavam ser ver guitarra, pois a banda era composta por ele na bateria e Mila Cox no baixo, no Moog e no sintetizador.

    Na fase embrionária da banda, tentaram vários guitarristas, mas por considerarem que todos pecavam pelo ego inflado, adaptaram o som para que a guitarra fosse substituída por efeitos sonoros do Moog.

    Seus temas eram destruição em massa, apocalipse, extinção, dor e o circo de horrores do cenário político, com letras minimalistas entre ruídos aparentemente aleatórios.

    Ele morava no centro de São Paulo, tinha uma bicicleta e além de trabalhos acadêmicos que fazia para os outros em troca de algum dinheiro, também comprava, trocava e vendia livros.

    Revoltava-se contra a arquitetura urbana da região em que morava, pois esta é bastante hostil para pessoas em condição de rua, que em número cada vez maior, ocupavam a região do centro.

    Era muito mais velho que Mila Cox, que nasceu no século vinte e um e usava a tecnologia que tinha disponível para fazer música, gravá-la e distribuí-la partir de um computador.

    Ela era copywriter e ainda nem sabia se cursaria alguma faculdade ou não. Morava com a avó no bairro da Penha, e fazia cookies de aveia e chocolate amargo nas horas vagas.

    Gostavam de Alex Chilton e Leonard Cohen, mas faziam um som completamente diferente desses artistas, que embora atemporais, não se enquadravam na realidade com a qual tinham que conviver, seja na vida prática do cotidiano ou na parte artística de suas existências.

    Tinham grande paixão pelos discos gravados entre 1966 e 1972 pelos Beach Boys.

    Álbuns que nunca são lembrados e permanecem quase obscuros, apesar da beleza das composições. 

    Essa quase obscuridade dentro da obra de uma banda famosa talvez seja uma das razões para o culto por parte deles.

    Para Zími, Mila Cox era uma espécie de Laurie Anderson. Para ela,  Zími era uma espécie de Slim Jim Phantom.

    Ela usava redes sociais para divulgar a banda e marcar shows, principalmente em cidades pequenas, e ele, que tinha grande desprezo pelas redes, tinha como foto de perfil uma 3×4 em que aparece com uma batata frita enfiada na narina esquerda.

    Zími agora estava preocupado com Mila Cox por causa da morte de Samir, e esperou que ela o procurasse para se manifestar, enquanto fazia a letra de uma música em homenagem ao amigo. 

  • Caos contraproducente

    Cheira à baunilha. Há banana e aveia em formato de osso e olhos ainda vacilantes e resistentes aos raios dominicais.

    Uma miríade de folhas, bocejos e pelos esparrama-se sobre o sofá-cama amarrotado pelas horas adormecidas. O sábado à noite fora um misto de contagem e revolta; em meio à desordem em percentual crescente do que também pode ser um ramo de gravetos1 , o caos é quase palpável. Percebi, ao procurar o volume no topo de rol das minhas leituras que, em dois mil e vinte e cinco, entre presentes e aquisições, cinquenta e oito novos livros passaram a habitar meu universo – fora aqueles que residem, do outro lado da rua de pedestres, com a minha mãe. Em meio a manuais de plantas nativas, guias
    arquitetônicos cariocas, história da arte, coletâneas de crônicas com dedicatórias de pares meus, ficções baseadas em fatos históricos reais, clássicos que ainda não conhecia intimamente, uma linda e antiga coleção em capa dura com detalhes em folha de ouro sobre o tempo perdido, livro em inglês sobre urbanismo contemporâneo, livros sobre os fins dos tempos, sobre design como atitude, sobre livros…Romances ocidentais repousam, à espreita: eis um autor japonês misterioso, como convém, a descrever plantas arquitetônicas que tramam estórias de terror; um outro, coreano, volume segundo, vem escoltado por uma promessa contemporânea tão minha e tão patética: uma bebida comprada pela Amazon que, citada no livro um, é destinada a degustação da continuação da narrativa, ambos ainda lacrados, no aguardo de uma experiência literária completa. Sobre ser antifrágil, sobre o ego ser o seu inimigo, sobre arquitetos conhecidos e apresentados através de disciplinas online da USP, livros sobre como viver em um mundo com participação do coletivo, sobre assassinato na Casa Branca – uma dupla literária que inspirou o homônimo na Netflix: recomendo se, por acaso, você deseja rechear seu domingo de mistério, inteligência e humor -, o quarto livro para se ler antes que o café esfrie, a coleção de xícaras sempre de prontidão no armário superior da cozinha. Em meio ao feliz espanto, a média aritmética do investimento de alguns mil reais em trezentos e sessenta e cinco dias, afirmo, categórica:

    Um lugar sem livros e vestígios de cachorro não é um ambiente feliz, sequer saudável.

    Sequer humano.

    O incenso continua consumindo-se a si mesmo para perfumar de baunilha a loucura mansa deste domingo. Mesmo após o sono,“O fim dos sussurros” não cessa; ecoa pela casa a ausência das páginas não lidas. Hoje, sete de dezembro, em Bucareste, romenos vão às ruas para eleger o novo prefeito da capital. A vacância do cargo deu-se pela assunção do antigo líder citadino, Nicușor Daniel Dan, como dirigente da nação. Ruta Sepetys, que eu conhecera em plena Novo Rio na noite da segunda-feira última, ao fechar da livraria sem limitações de paredes, em meio ao saguão, contara-me sobre um menino que, sem poder algum de escolha, tornara-se um informante do regime comunista na Bucareste da década de oitenta. Traidor por imposição, o adjetivo sussurrante rendia-lhe algumas regalias, como remédios para o câncer de seu “bunu” (“avô”, em romeno; que palavrinha fofa!). A falta de luz, comida, esperança e cor – tudo tinha tons de cinza, relatava-me Ruta – impunha a ironia como traço cultural de resistência. Tudo se mistura agora ao apartamento repleto de livros e bolas de pelo do meu spitz alemão em que estávamos no início do texto, quando o menino descobre que há bananas – dezenas -, em cima da bancada de uma cozinha norte americana. Ele, que desejava ardentemente uma única banana, contrapõe-se aos biscoitos de banana e aveia do Zeca, o spitz brasileiro, que brinca de mastigar um e outro em formato de osso. Enquanto em Bucareste os romenos vão às urnas exibir seu poder de escolha conquistado a muitas perdas e desolação, eu procuro meu livro que se perdeu ou no carro de aplicativo que me trouxera do pet shop, ou no próprio pet shop, que hoje está fechado, ou dentro da minha casa repleta de livros. Procurei até nos dicionários que estavam vacilantes de suas funções numa prateleira dentro do armário do quarto das visitas. A xícara de café espera impaciente na cozinha. Zeca me observa desejoso de rua. Eu penso no livro que está pela metade, perdido de mim e eu dele. É domingo. Em Bucareste, um novo prefeito será sancionado. Na Bucareste das páginas em sussurro, isso parece impraticável.

    1. desafio dominical:sacuda a poeira – metafórica ou literalmente, você escolhe – e folheie as páginas provavelmente amareladas e puídas do seu dicionário (se ainda houver um sobrevivente em sua honrada residência, no caso) em busca do termo que nomeia um modesto ramo de gravetos. Recorrer a Alexa, ao Google ou qualquer IA, será, além de covardia, contraproducente; o analógico anda pedindo migalhas de atenção, um gesto de misericórdia, então… vamos lá!

      PS.: aos preguiçosos de plantão, àqueles que preferem tudo mastigado, aviso que a resposta repousa na imagem desta crônica. ↩︎
  • A Leoa e o menino

    O menino sonha os seus sonhos de menino. Voar, cantar, adestrar leões!

    A leoa faz o que uma leoa sabe fazer, observar atentamente e esperar o momento certo para atacar, afinal, o que um leão faz de melhor a não ser atacar com precisão a sua presa?

    O menino foi esquecido pelo tempo, pelo relógio e pelos olhares. O menino esqueceu-se de si mesmo…

    Solto nas ruas, fechou-se em si mesmo nos seus sonhos e nos seus devaneios.

    A leoa treina e treina cada pulo, cada salto mais alto, observando e aprimorando.

    Afinal, é da natureza dos leões pular e saltar e aprimorar…

    O menino, ignorado pelos homens, refugiou-se em suas fantasias e pôs-se a acreditar que seria um treinador de leões! E treinadores de leões precisam treinar… leões!

    Quis os descaminhos da vida que o menino e a leoa se encontrassem em um zoológico.

    Quis os descaminhos da vida que a leoa e o menino ficassem frente a frente.

    O menino, como que no delírio do artista, se jogou na jaula num voo acrobático e a leoa, por sua vez, já experiente no seu senso de observação e paciência, só esperou o tempo certo e necessário para derrubar o menino.

    O menino, derrubado pela leoa, já não era mais menino… era pó, vento, pensamento distante.

    No entanto, para a grande perplexidade dos que vivem na cidade, o menino já havia sido derrubado bem antes.

    Pelo descaso, pelo abandono, pelas tristes e constantes adversidades da vida.

    O menino foi lançado aos leões, mas não aos leões de fato…

    Leões da covardia, da omissão, da sistemática corrupção, do preconceito, da solidão…

    A leoa, que não tem culpa de nada, presa também pelo insensato homo sapiens, segue sua curta vida enjaulada, como se criminosa fosse!

    Outros meninos entram também em jaulas todos os dias, mas simplesmente não olhamos…

  • O retratista fiel

    Folhear álbuns de fotografias antigas — em papel ou digitais — tem me causado um certo estranhamento, uma sensação de que os ambientes, as pessoas, as fisionomias não eram bem assim como estão retratadas.

    Na foto do meu aniversário de 15 anos, o vestido que, à época, me fez sentir uma princesa hoje mais parece um tule de cobrir bolo. Difícil acreditar que fui eu mesma quem escolheu aquela roupa, que em nada me valorizava.

    Na varanda da casa onde morei com meus filhos pequenos — e que, aos meus olhos, parecia abrigar a família inteira —, a foto mostra um espaço em que mal cabiam quatro cadeiras. E nada tinham a ver com os móveis charmosos de jardim que eu havia comprado.

    Meu bolo de aniversário com cobertura de chocolate, que à luz das velas me pareceu brilhante e festivo, aparece seco, simples demais para a importância daquela comemoração.

    No começo, pensei que a culpa fosse das fotos: iluminação ruim, ângulo errado, talvez o dia nublado tivesse apagado as cores. Mas, aos poucos, percebi que não eram elas que me traíam — era minha memória, minha lente afetiva, que guardou lembranças muito além dos flagrantes de uma máquina, seja ela qual for.

    Minha memória registrou o que foi captado pelos sentidos: o olhar de admiração que me fez feliz naquele vestido, o som das risadas gostosas que ampliaram a varanda, o gosto de chocolate do beijo depois do bolo que iluminou minha boca.

    Sabem de uma coisa? Aprendi que é melhor confiar no que ficou registrado em mim: a memória é o mais generoso dos retratistas.

  • Breve encontro

    Hoje, por acaso, tropecei no passado. Um banco de madeira, daqueles que encontramos nas pracinhas, a sombra de uma árvore de flores amarelas e a brisa suave de um fim de tarde me levaram à infância. Lá encontrei minha inocência, o castelo suntuoso dos meus sonhos, a paz de saber-me neta da minha avó e todas as garantias de amparo advindas dessa benção. 

    Bolas de sabão sopradas ao vento pela menina de vestido floral faziam ecoar no tempo as gargalhadas da minha meninice. 

    Ali eu me senti tão eu…tão tenra, tão solta… merecia ter permanecido aconchegada no colo da ingenuidade por toda a juventude. Mas amadurecer exige experiência com espinhos que, se não cortam profundamente, arranham o belo rosto da inocência. Contudo, a vida adulta tem seus unguentos. A maioria deles mora na amizade. 

    Que lindeza sentir o abraço de quem nos quer bem, o apoio daqueles que chamamos de pares. 

    Beijei o passado e voltei sorrindo para o presente.

    A pureza ficou lá nos tempos idos, mas veio comigo em seu lugar a esperança, essa menina travessa e cheia de planos.

    Salve o agora e todas as suas possibilidades.

  • Um ouvido novo, para uma história velha…

    Que atire a primeira pedra quem não passou por isso!

    Todos nós conhecemos alguém que adora quando perguntam: e aí, tudo bem?

    Pronto, lá vem a amiga ou amigo traída(o) contar detalhes: como passou a desconfiar, quais sinais ela não percebeu, o quanto acreditou no traste, como foi a certeza, a decisão, o que sofreu, a separação, o pós, o agora. Dependendo do ambiente, terá lágrimas, e você perdeu a sua ida despretensiosa à cafeteria, ou ao salão, ou a tarde que pretendia ser apenas um encontro bacana. 

    Você acabou de passar por uma das experiências muito comuns em determinadas pessoas: o prazer em contar as mazelas porque passaram ou estão passando!

    Ah, tem também a que adora contar as minúcias da receita fantástica do bolo, que você nunca pretendeu fazer! 

    E pode ser pior! Sem combinar encontro, nada, eis que você acabou de ver a sua amiga ou colega hipocondríaca e pensa: Ah não, justo hoje, que tirei o dia para espairecer! 

    Dessa não há expectativa. É certeza que a pessoa está à beira da morte! 

    Sao tantos males, indisposições, exames de laboratório, nomes de médicos e remédios, que é como se você estivesse com um prontuário em mãos!

    E nem queira sugerir ou aconselhar nada: terapia, outro médico, mudança de perspectiva, positividade então, nem pensar! Pois se é a doença verdadeira ou cultivada que a coloca em foco! 

    Fique ali, presente, gentil, apenas ouvindo, pois naquele momento, o palco não é seu.

    Mas uma coisa é certa: Vocês acabaram de ganhar o selo de serem: “um ouvido novo para uma história velha!

    Agora é a sua vez: vai contar essa saga pra quem? Rsrs…

  • Cultura popular

    Ah, essa cultura popular do momento.

    Você leu direito: cultura popular do momento. Eu faço essa distinção porque entendo que existe aquela que é eterna em nossa memória. E outra que é tão densa quanto fumaça de xícara de café.

    Tem gente que prefere chamar esse tipo de manifestação cultural por outros termos mais pejorativos, alguns até derivados da própria palavra popular. Em respeito às leitoras e leitores que gentilmente se dão ao trabalho de ler o que escrevo não vou repetir as palavras usadas.

    Deixo por conta da imaginação e conhecimento de cada um.

    Retomando.

    Eterno não precisa ser nada do alvorecer do século XX, por favor nem tanto. Mas é algo que remeta à memória sempre.

    Por exemplo, eu aprecio chorinho e conheço expressões como “só falta combinar com os russos”. São manifestações que entendo serem eternas em nossa cultura. O “Carinhoso” é um dos exemplos mais bem acabados. Assino embaixo quando o Paulinho da Viola uma vez disse: experimente entrar em um bar lotado, abrir os braços e cantar “vem, vem, veeeem sentir o calor” que na hora surgirá o coro “dos lábios meus, a procura dos teus”. Isso é eterno.

    Já algumas expressões, ditas a exaustão nos programas de televisão que são exibidos nas tardes de sábado ou domingo, vão desaparecer. Por quê? Não sei, mas só sei que é assim.

    Mas por que estou com essa conversa toda? Para revelar minha total falta de intimidade com a cultura popular do momento. Verdade, verdadeira. A menor e mais simples expressão da moda para mim é como se fosse checheno clássico. Estou no extremo oposto.

    Eu sou aquele cara que sabe que no “Sétimo selo”, do Bergman, tem três cenas da Morte jogando xadrez. Isso mesmo, três. Aquela que todo mundo conhece a imagem e mais duas. Da mesma forma que sei quais foram os efeitos da lava no corpo do Anakin Skywalker. Certo, concordo que a cada lançamento do Star Wars a saga volta a se inserir por um breve tempo na cultura popular do momento. Mas saber esse nível de detalhe que contei, desculpa, está além do popular do momento. E é onde me encontro.

    Portanto, é assim que eu vejo as coisas: cultura popular é uma coisa, cultura popular do momento é outra. Pode ser esnobismo meu. Tenho um amigo que diz que é porque torço para o Fluminense. Exagero dele, eu acho. Mas a despeito do eventual esnobismo da parte eu simplesmente tenho pouca intimidade com a cultura popular do momento. É bom deixar isso claro.

    Esse meu jeito de ser já me colocou em situação constrangedora algumas vezes.

    Uma delas foi quando trabalhava no Jornal do Brasil. Sai cedo de casa e quando passei pela portaria do prédio onde eu morava o rapaz que lá trabalhava me disse: você viu, morreu João Paulo. Na mesma hora pensei: o papa, claro João Paulo II estava bem velhinho, como é de praxe entre os papas porque nenhum deles é escolhido na flor da idade.

    Já ia embora para a redação quando, sei lá por que, perguntei ao bem informado porteiro do que o papa havia morrido. Ele me olhou e disse: foi em um acidente na Dutra. Na hora me espantei: ué nem sabia que Sua Santidade estava no Brasil? Acidente na via Dutra? Devia estar voltando do santuário Nacional em Aparecida. Mas como é que não escutei nada disso na redação?

    Movido por uma inspiração repentina perguntei ao rapaz: mas de que João Paulo você está falando? Ai o garoto me olhou indignado e disse: João Paulo da dupla João Paulo e Daniel.

    Juro, nunca tinha ouvido falar deles. Mas para não atrair para mim a ira popular fiz um ar sério e disse por fim: uma perda irreparável.

    E toquei o pé para a redação.

  • O amor, sem querer, acaba

    “Sim, o amor acaba”, assim, Paulo Mendes Campos começou uma das suas mais célebres crônicas. Iniciou com uma assertiva que, no íntimo, sabemos ser verdade; não obstante algumas tentativas de mistificação, como na frase tantas vezes escutada “se acabou, é porque não era de verdade”, nada mais falso do que isso. Até o mais autêntico, puro e intenso amor alcança o instante postimeiro. Expira tendo sido amor.

    Há, evidentemente, os casais que findam a vida sem darem adeus ao relacionamento (todos nós conhecemos exemplos desse tipo). Acontece, porém, que o ocaso do amor não deixou de ser possibilidade ali, apenas se chocou com outro termo, de essência mais fugaz do que aquilo que une duas almas.

    O desenlace pode ter um encontro marcado, alguns eventos são capazes de sublimar até o mais sólido dos sentimentos. Por vezes, vem de surpresa; quando ainda fazia planos e passava a noite com pensamentos enamorados, chega-lhe a conversa que não ansiava e nem previa. Em outros casos, termina o relacionamento e não termina o amor, nada pior, nada mais doloroso. O que era um se faz dois, e tudo chega ao fim. “De repente, não mais que de repente.”

    Todavia, nem sempre é tão de repente assim. Depois de anos, você se dá conta de que a companheira que vive ao seu lado se tornou apenas uma pessoa com quem se compartilha o mesmo teto e a mesma cama. Eros não habita mais aquela casa, como não habita mais o seu peito. Sumiu-se a amada, sumiu-se o amante, sumiu-se o amor, não se sabe quando e nem onde. Foi-se, “para recomeçar em todos os lugares e a qualquer hora”.

    Sim, o amor acaba. Entretanto, afirmar isso não é dizer tudo.

    O sujeito que ama não pode aceitar simplesmente o caráter perecedouro da sua relação, muito menos o da afeição que sente pulsar nas mãos que lhe afagam. É inconcebível.

    Enquanto amar, lutará internamente contra a dita lei. O amor alcança um epílogo, mas com o seu será diferente. Sabe que o que bate a um só tempo em dois corações é tão efêmero quanto a existência, fenecendo durante ou com ela; contudo, sempre desejará ir além.

    Entre suas convicções, pode estar a de que a flama cessa; inclusive, até tendo com si que existe a possibilidade de a sua chegar ao cabo em algum momento futuro e jamais sabido de antemão. Convicto da dimensão finita do amor genérico, não pensa no fim concreto do que vivencia e sente, apenas no perpétuo prolongamento dele.

    Para quem ama, ele é eterno e se manifesta como tal no tempo específico que lhe pertence. Possui uma temporalidade própria, só compreensível no coração dos que se deixam afetar pelo fogo de que fala Camões. Ademais, a eternidade se faz em cada átimo da duração do amor, todos os segundos estão impregnados dela.

    O amor acaba, no entanto, o sentimento amoroso pretende ser infindável na sua duração transitória. Todo amor almeja ser eterno em sua finitude.

    Paulo Mendes Campos acertou ao afirmar que o amor acaba. Mas a melhor tradução do sentimento amoroso partiu de Vinícius de Moraes:

    “Que não seja imortal, posto que é chama Mas que seja infinito enquanto dure.”

  • Não se deixe levar pelo contágio alheio!

    A Sociedade Teosófica é um núcleo da Fraternidade Universal da Humanidade, sem distinção de raça, credo, sexo, casta ou cor.

    Pode ser considerada uma das poucas democráticas disponíveis a todos os povos. Ela encoraja o estudo da Religião comparada a Filosofia e Ciência, e Investiga as leis não explicadas da Natureza, e os poderes latentes no homem.

    Ela não impõe nenhuma crença sobre seus membros, que se unem espontaneamente pelo objetivo comum de buscar a Verdade e o desejo de aprender o significado e propósito da existência humana, dedicando-se ao estudo, reflexão, pureza de vida e serviço voluntário.

    A Sociedade enfatiza a liberdade de pensamento, da pesquisa, e do debate, um pouco raro de encontrarmos em qualquer esquina.

    Uma das cofundadoras foi Elena Petrovna Blavátskaya, escritora Russa, com personalidade complexa, dinâmica e independente, que morreu em 8 de maio de 1891. Depois de um casamento frustrado ela deixou o esposo e partiu em um longo período de viagens por todo o mundo em busca de conhecimento filosófico, espiritual e esotérico, e passou por inúmeras experiências fantásticas porque acreditava na importância da procura pela verdade, através da troca de ideias e não apenas seguir o que lhe apresentavam como definido. 

    Belo exemplo de alguém que lutou por suas crenças, mesmo após um nascimento frágil onde foi pequena, fraca, e quase não sobreviveu, sendo batizada no dia seguinte porque os pais imaginavam que não duraria muito.

    Como o sentido da vida se divise em 2 partes, onde a primeira é vingar como criatura com saúde, Elena conseguiu. A segunda, é se encontrar com maturidade e clareza, ela atingiu os dois.

    Não é sempre limitada em dois estágios essa receita, poderíamos incluir os anos de vivência, sofrimento e avanços.

    Como foi a vida de outra figura histórica, importante na literatura mundial, que ainda menina ficou pelo caminho, mas deixou sua marca, junto a uma história única para contar. Foi Annie Frank. Escritora que conseguiu com que suas palavras se tornassem livro, graças a gentileza de seu pai. Ela descreveu seus dias no esconderijo em Amsterdam, no precioso diário intitulado “Diário de Annie Frank”, onde descobrimos seu desejo em escrever, bem antes de ser levada pelo III Reich e morrer de tifo no campo de concentração.

    —”Não quero ter vivido em vão como a maioria das pessoas.” (Annie Frank).

    Pegue um pouco de Elena ou Annie e jogue fora outras coisas com a água do balde.

    Não se deixe levar pelo contágio alheio, ele sempre tem uma preferência, que não é você.

  • Palavras insólitas, insólitas palavras

    Viajava de ônibus outra vez pelo interior do estado. Na época, isso me era tão rotineiro quanto a atual preocupação com os seguidos e rechonchudos boletos, que parecem ter um prazer mórbido em aparecer sem avisar no meu e-mail, ou, de quando em vez, aqueles mais austeros e resolutos, na minha caixa de correio. Saímos de Porto Alegre com vinte minutos de atraso por conta de algum problema no trânsito próximo à rodoviária. Chovia torrencialmente desde a madrugada.

    O ônibus lotado bufava um ar quente que nos tragava a cada curva. O incômodo era grande também pelas estradas sofríveis e esburacadas que pegamos assim que saímos da região metropolitana. O asfalto picotado do interior havia se tornado uma marca registrada. Como atestado de bravura ou conquista pessoal, os viajantes se vangloriavam por atravessar o estado naquelas condições, tal qual tivessem escalado o Everest ou corrido uma maratona. Nem todos caíam nesse papinho, entretanto. A chuva, por exemplo, não quis nos acompanhar.

    Na noite anterior eu tinha ido a um show do Vera Loca e, quando tirei da mochila um dos livros que havia comprado na feira, minha cabeça ainda rebobinava o refrão de Meu toca-discos se matou. O autor era português, Jorge Reis Sá, o livro: O Dom. Comprei-o na esperança de uma agradável surpresa, afinal, sempre estimei os portugueses. O valor compensava: dez reais.

    Não fosse o seguido flerte com o horizonte, terminaria a leitura ainda no ônibus. O pampa é um convite ao deslumbramento estético/paisagístico, mesmo com o sistemático e antagônico solavanco das estradas. No bagageiro, a minha mala dançava espremida dentre tantas outras com uma dezena de livros e uma muda de roupa suja. Em verdade, não sei por que escolhi O Dom para a viagem.

    Após alguns sacolejantes capítulos, fechei-o um tanto enfastiado. Ao meu lado estava um homem que não parecia interessado em nada além dos próprios devaneios. Me olhou com certa curiosidade e, com um aceno de cabeça, indagou o motivo da minha reação. Disse-lhe que não estava gostando. O Dom parecia uma cópia fajuta e sem escrúpulos do Ensaio sobre a cegueira, do Saramago. Só não reprovava mais aquele livro porque o autor tinha muita coragem em propor aquilo e, de certa forma, a editora também demonstrava coragem ao publicá-lo. O mercado editorial, por sua vez, é uma eterna incógnita. Livros de colorir para adultos são mais vendidos do que o Érico Veríssimo, a Nélida Piñon, o João Ubaldo Ribeiro, vai entender.

    Meu colega sequer respondeu, apenas fechou o cenho. Eu continuei a leitura na certeza de que incrementaria o meu veredito. Em certo momento pedi licença para ir ao banheiro. Tradicionalmente, escolho o banco da janela por conta da claridade, mesmo que em alguns casos dependa da complacência do viajante ao lado. Demorei um pouco para retornar porque um ônibus cambaleante é sempre um desafio para as bexigas inflamadas.

    Quando voltei, o horizonte fisgou minha atenção até entrarmos numa pequena cidade. Pensei ter deixado uma impressão ruim ao me queixar tão acintosamente. Aquele homem não conhecia o Saramago, nem o Érico, a Nélida e o João Ubaldo. O mercado editorial talvez tenha lhe soado grego. E eu não passava de um reclamão excêntrico com o qual estava disposto a não gastar uma frase. Cogitei puxar um assunto qualquer a fim de melhorar minha reputação, mas enquanto elegia alguma banalidade, o ônibus parou na rodoviária e, novamente com um aceno de cabeça, me cumprimentou e saiu. Ainda o assisti andar de maneira solene e ereta até o táxi ali próximo. Sem uma única palavra, sujeito estranho, pensei.

    No bar da rodoviária tocava a música do momento: Borracho y loco, do Vera Loca. Justo quando os zunidos veralouquianos pareciam ter abandonado minhas têmporas. Outro passageiro acompanhava a música aos sussurros. Se havia mais um remanescente do show por ali ou se era apenas um ouvinte aleatório, jamais saberei. Coincidência ou não, agora não importa. O ônibus saía da cidadezinha quando abri novamente o livro e encontrei na primeira página uma dedicatória breve, num português gentil, agradecendo a crítica sincera. Havia também uma assinatura em rabiscos.

    Não consegui terminar a leitura na viagem. Demorei, na verdade, uns três ou quatro dias para digerir aquela cena e ler os capítulos finais. Até hoje acho um tanto ilógico encontrar um escritor português num ônibus pinga-pinga, vagando por horas e horas e entrando em qualquer biboca no interior do Rio Grande do Sul. O seu nome não estava na programação oficial da Feira do Livro de Porto Alegre e na internet também não havia nenhuma evidência de que tivesse viajado ao Brasil naquele período.

    Não me impressiono tão facilmente, às vezes sofro com a alcunha de ranzinza e mal-humorado, mas isso não condiz com a verdade. O fato é o seguinte: mudei de ideia quando terminei a leitura. Sendo franco, o livro é muito bom. E o pior é que depois também gostei de mais uns dois ou três livros dele. Desconfio um pouco dessa minha opinião porque ela talvez se ancore mais nesse encontro insólito do que nas próprias narrativas e, analisando bem, isso demonstraria um lapso de personalidade para o qual jamais me dobraria. Então, hoje só lido com certezas. Isso tudo foi uma brincadeira esdrúxula de um sujeito com senso de humor questionável. E ponto.

  • O mundo nunca será só virtual

    Quando inventaram o DVD, mataram o VHS.

    Pelo menos era essa a intenção — empurrar todo mundo para o novo aparelho brilhando no rack da sala.

    Depois o vinil virou CD. O CD virou arquivo. O arquivo virou link perdido no YouTube, no Spotify e em mais uma dúzia de plataformas que juram guardar toda a música do mundo, mas nunca têm aquela faixa que você procura.

    O cinema, coitado, saiu da tela grande para cair no streaming. Cada filme numa prateleira diferente. Uma assinatura pra cá, outra pra lá. E a gente gastando mais pra assistir em casa do que gastava no multiplex.

    Mas sabe de uma coisa?

    O mundo não topa ser só virtual.

    O dono da mercearia aqui do bairro — esse mesmo que pesa o tomate olhando para o céu — tem um clube do vinil. A turma combina tudo pelo WhatsApp e aparece uma vez por mês, com LPs debaixo do braço. A cena é tão resistente quanto o café passado no coador de pano.

    Moro em Belo Horizonte. Em Minas, sabe como é: o passado gosta de passear devagar. Nos sebos do Maleta, meninos e meninas folheiam discos como quem acaricia um gato. Um por um. Com aquele coraçãozinho retrô batendo no peito.

    Na Galeria do Othon ainda vendem vitrolas antigas. Aparelhos de DVD. Toca-fitas.

    Raridades? Sim.

    Extintas? Nunca.

    Quando a internet chegou, decretaram a morte do livro físico. Kindle seria o caixão elegante do papel. Pois bem: entro numa livraria e ela continua lá, firme, vendendo páginas de verdade. O que mudou foi o alcance — se não acho o livro na esquina, compro em qualquer canto do planeta.

    Se o PDF virasse moda definitiva, aí sim os sebos fechariam as portas. Mas basta uma visita rápida pra ver que o papel resiste mais que muito casamento.

    E, no meio disso tudo, descobri uma BH dentro da outra. Um Brasil dentro do outro. Camadas de vida: umas analógicas, outras digitais. Nenhuma se exclui.

    Eu mesmo. Prefiro a passagem comprada pelo celular a enfrentar fila de guichê. Prefiro receber meu pagamento por pix a encarar uma segunda-feira no banco.

    Mas ainda prefiro chope com amigo a conversa por WhatsApp. Livro no parque a tablet refletindo o sol. Filme clássico achado por acaso a caça desesperada no streaming.

    Ninguém existe sozinho.

    Ninguém existe só no on-line.

    Nem só no off-line.

    Há vários jeitos de viver dentro do mundo — uns do passado, outros do presente.

    E, sinceramente, não tem por que não ser tudo junto.

  • Ode aos meus 3.7

    Quero-me a mim como nunca antes,
    como quem encontra uma versão esquecida de si no fundo de uma gaveta emperrada: força um pouco e…
    Crrrrr…..
    [o reconhecimento é recíproco pelo cheiro]

    Quero-me a mim com a presença de um personagem que não sofre expectativas: meras sinas de ator, sempre certo de poder controlar algo ou alguém

    Quero a beleza e a felicidade que se mantêm intactas dentro de um
    presente que se mantem por conta própria:
    torto
    luminoso
    misterioso
    coisas que dão certo por mero acidente

    Quero-me a mim sem os resquícios do passado
    – este já foi
    e, por ter sido, deixou migalhas no tapete:
    memórias são assim, sem modos

    Quero-me a mim sem pretensões além
    Quero o hoje:
    a pele
    a voz
    o peso,
    a altura
    a visão
    que tenho do mundo
    da varanda do meu apartamento
    onde tudo parece mais honesto
    quando o vento chacoalha as minhas
    plantas, tantas

    Quero-me a mim como quero a meu cachorro,
    que me sorri com ar de quem entende tudo
    sabe de tudo
    e, ao mesmo tempo,
    de nada – ainda assim, acerta o essencial

    Quero beber da fonte que alimenta meu rio,
    esse rio d’água que me percorre por dentro
    e muda de profundidade conforme a claridade do dia

    Trinta e sete…
    o mesmo número que veste os meus pés agora
    }amortecem
    protegem
    isolam; guiam
    guardam
    estabilizam e guiam
    meus passos
    faz só 37 primaveras

    Quero a centelha da vida que não erra
    apenas segue; ainda nos
    dissabores
    odores
    pequenas esquisitices
    que cunhamos… cotidiano

    Da chuva que atravessa o branco do dia nublado de hoje…

    Do brilho opaco e insistente da luminária – única – a que acendeu e resplandesceu sobre o paralelepípedo antes do anoitecer, na rua…

    Dos poucos pares de pernas que caminham neste fim de clarão dominical…

    Da vida
    Do aqui
    Do agora

    Quero a felicidade do barulho das gotas na telha:
    compassos simulando o escrever uma carta?
    usando a minha Olivetti para
    alguém, que nunca a receberá
     – embora eu insista em enviar

    Da vida
    Do aqui
    Do agora

    Nada mais quero
    além de querer-me
    Sempre
    e mais
    como quem volta
    a um lugar amado
    – a despeito de tudo –
    sabendo aquele se mover
    um pouquinho
    todos os dias

  • A lágrima extra

    O dia prometia ser quente e úmido — combinação ideal para cabelos rebelados e para quem trabalha imóvel ao ar livre. Depois de entregar o filho à vizinha que o levaria à creche, voltou ao seu reino: um quarto-cozinha-banheiro, tudo no mesmo perímetro afetivo.

    Abriu o velho armário que rangia como se quisesse dar opinião. De lá tirou seu uniforme de batalha: camisa preta com gravata borboleta, colete branco, calças bufantes que herdara de algum século passado, meias brancas e sapatos pretos tão lustrados que poderiam servir de espelho, se não fosse ele já ter um.

    No espelho, iniciou o ritual. Espalhou a base branca, delineou os olhos caídos — reflexo do estado civil com o sono — e arqueou as sobrancelhas como quem diz “não fui eu”. Demarcou o sorriso e, por fim, a lágrima no canto esquerdo, que sempre julgou exagerada, mas o público adorava um dramalhão. Vestiu as luvas, ajeitou a boina e testou o sorriso congelado. Parecia irreconhecível. E ligeiramente ridículo. Perfeito.

    Desceu pela ladeira até o parque municipal, seu escritório a céu aberto. Ali ficava por horas, imóvel, trocando de pose apenas para evitar virar uma estátua de sal. Ganhar dinheiro era quase um milagre; mas, com sorte, rendia legumes, arroz e, quando a semana era boa, até um iogurte para o filho.

    O público passava, ria, deixava moedas. Ele reconhecia cada reação: o adulto curioso, a criança encantada, o adolescente que tentava fazê-lo piscar. Em suas poses — a mão ao céu, a cara de susto, o herói carregando o mundo — havia mais ciática que simbolismo, mas ninguém precisava saber disso.

    Estava justamente no papel de Atlas contemporâneo quando ouviu uma voz conhecida. Congelou ainda mais do que a profissão exigia. Um grupo de crianças da creche vinha em direção a ele. No meio delas, seu filho.

    Ótimo. Justo hoje que o suor ameaçava soltar a maquiagem e revelar que o palhaço, na verdade, precisava urgentemente de um ventilador e não de aplausos.

    As crianças o cercaram, rindo e rodopiando, como se ele fosse um planetário com pernas. O pânico subia como a maré. Se a base branca derretesse, fim do mistério.

    Seu filho parou bem diante dele, apertando os olhos como quem tenta decifrar um código secreto.

    — Professora… por que o palhaço está chorando?

    Ele prendeu a respiração.

    — Sabe, meu pai tem um trabalho sério — mas lá em casa ele gosta de fazer palhaçada pra mim.

    A gente ri um montão. Mas ele nunca chora…

    E ali ficou o palhaço: imóvel, suando, com a lágrima oficial pintada e outra teimando em escorrer, tentando decidir qual delas era a mais difícil de explicar.

  • A fome

    Uma mão vasculha alguma coisa que se possa comer no meio do papel, do plástico…

    Outra mão manuseia as teclas de um computador em um lugar distante e escreve este texto…

    Alguns olhos procuram nas calçadas e nas caçambas de lixo um alimento qualquer…

    Em uma esquina de uma grande cidade, outros olhos observam o espetáculo de luzes e imagens nos telões expostos na avenida.

    Como podemos viver, ao mesmo tempo, tantos avanços tecnológicos e ainda presenciarmos a fome?

    Carros elétricos, robôs, cirurgias a distância, redes sociais, mas há gente passando fome.

    O ser humano já foi à lua (mesmo que haja gente que não acredite), mas não resolvemos a fome do outro.

    O ser humano faz foguetes, pontes, edifícios gigantescos… Perfura o fundo dos oceanos em busca de petróleo, cria satélites e uma estação espacial, mas a fome, a fome de doer a barriga e tirar a dignidade, nunca é resolvida!

    É sintomático perceber que a ganância e a perversidade vão construindo o painel do paradoxo: luxo e lixo, vida e morte, paz e guerra… Indissociáveis? Maquiavelicamente indissociáveis…

    A fome desfigura as pessoas, tornando-as objetos das cidades. Estes seres, carregados de esquecimento, tristeza e fuligem, transitam pelas ruas atônitos, perdidos dentro da própria fome…

    E sente fome a criança que equilibra bolas em um sinal.

    E sente fome a mãe que não tem trabalho, mas precisa alimentar desesperadamente o seu filho.

    E sentem fome centenas de milhares de homens sem nome, uma legião de espantalhos vivos espalhados pelo mundo…

    Fazemos planos mirabolantes, erguemos cidades inteiras no meio do deserto, desenvolvemos mais e mais ferramentas para facilitar as demandas do dia a dia, mas a fome, bruta, pesada, palpável… a fome, continua…

    Ao redor do globo, toneladas e toneladas de comida são jogadas fora.

    A fome, implacável, escancara um mundo difuso e contraditório.

    E esta crônica se encerra com o silêncio…

  • Me dê um lyke?

    As redes sociais dominaram, não há como negar. Se aconteceu, está na rede. Se não estiver, deve ser irrelevante, e nem interessará a ninguém.

    Em tempos não tão longínquos, eram as redes de televisão e, antes ainda, os jornais e revistas.

    Os expoentes da comunicação tornavam-se celebridades, a quem conhecíamos pelos nomes.

    Redatores, colunistas, apresentadores e repórteres passavam a ser nossos “amigos”.

    Ah, e o que dizer dos publicitários?

    Esses eram mais do que celebridades, praticamente encarnavam o sucesso! Eram os responsáveis, tanto pelo nível de audiência das redes de comunicação, quanto pela aprovação dos mandatários da nação.

    E estas eram  expressas nas famosas pesquisas de opinião dos grandes institutos, cujos resultados fariam o “cliente” cair em desgraça, ou ganhar ascensão!

    Eles se tornavam os gurus, seus nomes e credibilidades eram amplamente reconhecidos, pois cuidavam da imagem que chegaria ao povo. 

    Os tempos mudaram. E como!

    Hoje, nossa vida precisa ser vista, comentada, invejada, copiada, seguida.

    E, quanto mais seguidores tivermos, mais e mais conteúdo devemos produzir.

    Falando nisso, adivinhem onde vi a notícia de que foi sancionada a isenção do Imposto de Renda (IR) para quem ganha até R$ 5 mil e o aumento da taxação para altas rendas?

    Por surpreendente que pareça: em um Reels da rede social do governo federal!

    Ah, jovens, vejam o quanto vocês mudam o que quiserem! “Reels, storys, flopar” e expressões do tipo, já fazem parte da linguagem institucional! 

    Estamos na era do: “Me exibo, logo existo!”

    Ah, mas o correto não é: “Penso, logo existo”?

    Tudo depende de qual influencer você segue.

    E viva o poder!

    Não, não estou me referindo ao poder constituído.

    Mas ao poder das redes sociais.

  • Vê se me enrola pouco, pediu a musa

    Vamos esclarecer esse negócio de musa inspiradora. Para início de conversa na tradição clássica ocidental eram nove as musas, todas filhas de Mnemósine, divindade grega da Memória, com o todo poderoso Zeus. Elas eram Calíope, Clio, Érato, Euterpe, Melpômene, Polímnia, Terpsícore, Talia e Urânia.

    Cada uma inspirava a arte nos homens e nas mulheres, sempre de alguma maneira direta ou indireta como é próprio nas relações do divino com nós mortais. Por conta de suas qualidades é impossível dizer que quem escreve se inspira em uma musa só.

    Calíope era a musa da eloquência e de certa forma está presente em tudo que se escreve ou fala. As vezes se confunde com verborragia mas para essa não há divindade determinada. Ao menos não para os gregos. Calíope é uma das musas inspiradoras mais presentes na minha vida, admito, porque já escutei e li que sei usar bem as palavras, com desenvoltura e quando há motivo mais ainda. Isso dito inclusive por você.

    Culpada, meu escriba! Mas siga.

    Vamos lá, quando alguém ou alguma coisa é citada, pode se atribuir a inspiração a Clio. Ela era a musa da História, a que conferia fama às pessoas. A fama aqui está subentendida como algo bacana, a despeito de atualmente se relativizar a idéia lembrando que existe boa e má fama. Mas no tempo da Grécia clássica fama era coisa boa. Daí ter sua musa.

    Para aqueles momentos mais leves e mais amorosos ninguém escapa da influência das musas Érato, inspiradora da poesia lírica; e Polímnia, da poesia amorosa. São elas, as vezes em separado as vezes juntas quem fazem os escribas escolherem aquelas palavras mais adocicadas e que eventualmente tem poder de envolver e encantar quem as lê.

    A da música é Euterpe e ela é para poucos haja visto a quantidade de gente desafinada que agride as mais belas canções já compostas. Fora os que acham que são inspirados por ela e insistem em escrever e musicar uns pseudo-versinhos para lá de sem vergonhas. Daqueles que só a claque aplaude, sabe?

    Na sequência vem Terpsícore, musa da dança. Mesmo no ofício de juntar letras para formar palavras ela traz inspiração pois nada mais gracioso que um texto que se move aos nossos olhos.

    Há a dupla de musas que parecem se opor: Melpômene, a tragédia; e Talia, a comédia. Essas duas usualmente não estão presentes ao mesmo tempo para inspirar. Mas há exceções. As vezes elas se conjugam com outras, como Érato ou Polímnia, o que traz bastante sabor ao que se escreve e explica o amor trágico ou a comédia romântica. Tudo obra da conjunção delas.

    Por fim a última e para mim ainda inexplicável musa é Urânia.

    Por que inexplicável?

    Porque ela é musa da astronomia e da astrologia.

    Sério?

    Sim enquanto astronomia é ciência astrologia está mais para…

    Não fala, sei sua opinião a respeito da astrologia.

    Tá bom.

    Devo entender depois de sua vasta explanação que é por isso que não sou sua única musa?

    Mais ou menos.

    Mais ou menos?

    Sim, porque isso de ser musa não é assim algo tão exato.

    Então me explica mas por favor vê se me enrola pouco.

    Olha, eventualmente você é a única musa. Por outras vezes a inspiração é diversa, vem de várias musas ao mesmo tempo que se apresentam a me inspirar e o que escrevo é resultado dessas múltiplas influências. Mas há também aquelas situações em que uma única musa se mostra para mim com diversas formas. Isso é mais comum do que parece dado o caráter multifacetado dessas musas.

    Pode ser mais claro com esse negócio de “caráter multifacetado dessas musas”?

    Claro. Eu quero dizer que por vezes a mesma pessoa pode me apresentar a inspiração de mais de uma musa. Como se combinasse …

    Calíope e Polímnia?

    Sim, como se combinasse a inspiração essas duas musas. Daí ser a musa multifacetada.

    Uma dessas pessoas seria euzinha aqui?

    Sim, você.

    Mas tem outras na sua vida.

    Ao redor de mim você quer dizer. Sim é natural porque a convivência permite beber em fontes variadas.

    Você bebe muito?

    Com moderação, você sabe.

    Hum, sei. E como é viver sob a influência de tantas musas?

    Tem dias que vai bem, em especial quando estão calmas. Mas tem outros em que elas estão encapetadas.

    Ah é, tem isso de musa endiabrada?

    Tem sim, aí é um Deus nos acuda delas querendo inspirar a todo custo, eventualmente até impondo sua inspiração sobre as demais. É uma luta.

    E como você resolve?

    Respiro fundo e deixo fluir. Naturalmente a que estiver mais presente, mais conectada com o que penso e sinto no momento leva a melhor sobre as demais.

    E quem costuma levar a melhor mais vezes? As musas de face única ou as multifacetadas?

    É fácil, basta ver o que eu escrevo.

    Nem sempre, porque as vezes suas palavras simples escondem emoções herméticas.

    Mas para senti-las e entende-las não é difícil.

    Ah não? O que é preciso, meu querido escriba?

    A receita vem de longe, de um escriba anos-luz maior do que eu.

    Sinta quem lê.
    De quem?
    Do Pessoa.
    O que ele diz?

  • Como no Cinema

    De pé na frente do último cinema de rua da cidade, Seu Alírio leu mais uma vez, com vagar, o cartaz que anunciava a demolição daquele edifício. Do seu edifício, hoje mais decadente que ele próprio e tão velho quanto. Aquele lugar tinha sido sua casa por quase oitenta anos e não podia permitir que viesse abaixo sem se despedir. Triste, respirou fundo e entrou.

    Percorreu os corredores escuros já conhecidos de memória, abriu a cortina que dava acesso à sala de projeção e avançou. O ruído estrondoso dos aplausos fez com que encolhesse os ombros, tão pesado era. Olhou em volta e reconheceu os amigos com quem convivera ao longo dos anos. Todos estavam ali por ele, e sorriam, e Seu Alírio lhes devolveu o sorriso, comovido. Não faltou ninguém: os elegantes Rhett Butler e Scarlet O’Hara o cumprimentaram com um aceno de cabeça; Don Corleone, sempre fiel a seus amigos, fez-lhe um gesto gentil com a mão; Norman Bates e sua adorada mãezinha apenas o olharam com discreta admiração; Gilda, a mais bela de todas, tirou as luvas antes de mandar-lhe um beijo com os dedos; o senhor Charles Foster Kane deu-lhe uma piscadela e apontou para Rosebud, encostado num canto da parede, como se dissesse: “Viu só o que eu quis dizer?”; Ilsa Lund, vestida como se fosse viajar de avião pra muito longe, sussurrou: “You must remember this, a kiss is still a kiss…”; a senhorita Mary Poppins veio até ele levitando sobre as poltronas e o conduziu a seu lugar de honra, no centro da sala. As luzes se apagaram, a grande tela se iluminou e Don Lockwood apareceu dançando e cantando debaixo do maior toró que já houve naquela cidade.

    Horas depois, quando as lembranças já não cabiam em sua memória e a saudade iria a qualquer momento fazer seu coração explodir, Seu Alírio deixou a sala, percorreu de volta os corredores escuros e ganhou a rua. Foi devagar para casa, arrastando o peso quase centenário de seu corpo. Ia cruzar a avenida quando um homem baixinho, vestindo um terno preto muito sujo e amarrotado, lhe ofereceu uma flor. Não disse nada. Apenas sorriu, coçou o bigodinho, virou as costas e saiu com seu andar desajeitado, fazendo piruetas no ar com a bengala. Seu Alírio aproximou a flor do nariz e aspirou. Fechou os olhos e compreendeu que a vida pode ser, sim, como no cinema: basta que se acredite nisso. E ele acreditava. Entrou em casa assoviando baixinho a canção Smile.

  • Quando um amigo bom tem uma playlist ruim

    Pois é: eu ali, de carona com um amigo que não via fazia um tempo, recém-chegado da Europa, que me chamou para um chope — e eu aceitei. Só que, infelizmente, não sei se tinha tomado iogurte vencido, ou algo parecido, mas a playlist do meu amigo estava horrível.

    No caminho, “Beija Eu”, da Marisa Monte; depois, “Já Sei Namorar”, dos Tribalistas. Até que, de uma hora para outra, me toca Ivo Pessoa, com “Quando Eu Te Vi”.

    — Linda, né?
    — É…!

    Ouvir Ivo Pessoa, para ser mais generoso, é como ouvir a vizinha do apartamento de cima andar de um lado para o outro, de salto alto. Pior que barulho de furadeira, pernilongo em noite de calor ou a empregada da vizinha cantando louvor.

    — Falta muito para esta música acabar?
    — Três minutos.
    — O quê? Não tem como tirar?
    — Não.

    E começou, ali mesmo, a cantarolar, numa espécie de karaokê involuntário. Uma música que fala de anjos, outras vidas, aves, aquele romantismo boboca de adolescente apaixonado, espinhento, virgem.

    Prefiro mil vezes A Hora do Brasil ou as músicas do Padre Marcelo.

    — Nossa. Mas que trânsito, hein!?
    — Pois é.
    — Falta muito pra chegar?

    A todo momento eu perguntava: “Tá chegando?”. Tem gente que luta para sobreviver a um amigo com TOC; outros pelejam com um amigo de tique nervoso; alguns tentam tolerar o boca-livre, o que pede dinheiro emprestado, o que assalta a geladeira, o pessimista, o ruim de bola. Mas um que realmente merece o Nobel da Paz é aquele que sobrevive — resignado e mudo — à playlist pavorosa do amigo.

    — Mas você não gostou mesmo, não é?
    — Meus ouvidos já viveram tempos melhores.

    Ivo Pessoa é aquela música besta que mistura vibe de novela das seis, barulho de obra e o som de um caco de vidro arranhando o capô do carro.

    Minha alma queria descer, pegar carona em outro carro, com outras pessoas, outra playlist.

    Quando finalmente desci, falei pra ele:

    — Da próxima vez coloca outra coisa. Até barulho de obra.

    Meu amigo riu. Eu não.

    Fomos tomar um chope que, numa hora dessas, é só o que se pode fazer.

  • Pena de vida

    “Sou a favor da pena de vida, se o sujeito cagou, pisou na bola, tem que resolver aqui, não pode sair fora” (Pedro Luís e a Parede)

    É assustadora a frequência com que ocorrem nos EUA massacres perpetrados por armas de fogo em escolas, que deveriam ser ambientes seguros de sociabilidade e aprendizado. Famílias são destroçadas, crianças com uma vida pela frente são executadas friamente por razões fúteis.

    As motivações para tais atos bárbaros podem ser racismo, ódio, terrorismo, paranoia… Mas há um fator que perpassa esses trágicos eventos: a facilidade com que os americanos têm acesso a armas de fogo.

    É uma chaga americana que explica por que o país mais rico do planeta, o único onde o número de armas supera o de habitantes, continua sendo o mais violento e um dos que têm os maiores índices de criminalidade, campeão nas taxas de homicídios, suicídios e acidentes fatais provocados por artefatos bélicos.

    O que impressiona é que nada parece indicar que isso vá mudar. A indignação após a consumação desses atos de selvageria não é suficiente para provocar mudança e, passada a comoção, o assunto cai no esquecimento.

    A solução que se propõe para as carnificinas é armar professores e funcionários das escolas. Poderiam também, quem sabe, permitir que as crianças andassem com pistolas nas mochilas para aumentar sua proteção. O problema causado pela liberação das armas seria resolvido armando mais gente. Cômico se não fosse trágico.

    Mas há também um componente ancestral que dificulta a modificação dessa fixação doentia, enraizada na cultura ianque, herdada dos tempos do faroeste, que faz com que ser contra armas represente perda de votos.

    Um exemplo pode ser verificado nos filmes de ação que inundam cinemas e lares. Havendo um vilão malvado, o enredo sempre se livra desse personagem incômodo fazendo com que tome um tiro letal que o tire definitivamente de cena. São raros os casos onde a sorte do malfeitor é determinada por um julgamento onde fique comprovada sua culpa e definido seu encarceramento. Seu destino não é resolvido nos tribunais mas por uma pistola justiceira. A mensagem é que, como a justiça não funciona, a solução é que lhe seja metido um balaço. A ‘sentença’ de pena de morte é definida e aplicada pelos ‘mocinhos’, à revelia dos trâmites processuais.

    Através da eliminação física do malfeitor, supõe-se que suas culpas foram expiadas. O espectador pode dormir o sono dos justiçados pois o meliante não voltará a ameaçar a pobre vítima nem abalar sua certeza de que a justiça foi aplicada e o delinquente teve o fim que merecia. Morto, não corre o risco de escapar das grades e voltar às ruas para vingar-se.

    É como se os cidadãos da autoproclamada maior democracia do mundo confiassem menos em suas próprias leis do que no poder mortífero de um atirador, detentor do direito divino de fazer justiça com as próprias mãos.

    Resta a pergunta: com a morte os crimes foram de fato redimidos? Minha opinião é um enfático NÃO! Uma vez que um preciso projétil arrancou-lhe a vida numa fração de segundo, sem que ele vivenciasse qualquer sofrimento, ele não teve oportunidade de ponderar sobre suas ações maléficas ou arrepender-se, pagando efetivamente por seus pecados através da perda da liberdade e da triste sina de ter parte de sua vida enclausurado no inferno de um cárcere. A verdadeira justiça só seria aplicada se o criminoso, ao invés de ter sua carcaça inerte levada a um cemitério, fosse conduzido em vida para a cadeia, amargando anos de tormenta por seus crimes atrás das grades de uma soturna cela, tendo oportunidade de avaliar se seus atos insanos valeram a pena.

    Àqueles que argumentam que penitenciária não regenera ninguém, que pensem no aprimoramento do código penal de maneira que a prisão cumpra seu requisito não apenas de recuperar o criminoso para a sociedade como fazê-lo efetivamente pagar pelo crime. Não na outra vida, mas aqui mesmo. É isso que a sociedade espera do sistema jurídico.

    Não é essa a lição que Hollywood passa. Perpetua a visão de que é somente através das armas que resolveremos o problema da injustiça e da criminalidade. Com isso fortalece um sentimento de incredulidade nas instituições em promover a segurança do cidadão.

    O direito ‘sagrado’ de ter uma arma é considerado tão básico que consta expressamente da Constituição americana, associado a um sentimento de liberdade, proteção do patrimônio e segurança individual.
    Triste é constatar que se traga para cá essa deficiência dos nossos irmãos do Norte. 

    Num país onde questões mais graves como a fome, a miséria e a desigualdade social imperam, importar o bangue-bangue da cultura americana é uma boa maneira de lançar uma cortina de fumaça sobre as verdadeiras mazelas do nosso país.

    Ao invés de investir num futuro melhor para nossos jovens, estamos, com essa obtusa política armamentista, cultivando a morte e a violência, transformando ruas e parques, não em espaços comunitários de convivência, mas em arenas de combate, onde o outro é visto como ameaça em potencial.

  • Retalhos

    Sobre o que o tempo leva, e o que ele nunca tira.

    Graças a Deus, sou forte. Sou guerreira. Sou abençoada.

    E por isso, os retalhos das minhas memórias não pesam. Não me ferem. Não me entristecem. Sou apenas espectadora deles.

    É bom quando se olha para uma casa velha, caindo aos pedaços, e o que vem à mente não é a ruína, mas o gramado verde na frente, as cadeiras onde eu me sentava para observar as meninas brincando, os cachorros correndo soltos, o picolezeiro passando com sua buzina, e as tardes que se esvaíam lentamente…

    Revejo meu cotidiano simples e humilde com muitas cores.

    Os olhos azuis, cor do céu, do meu bebê.

    O vestido vermelho de bolinhas brancas da mais velha.

    Os cabelos cacheados e dourados da filha do meio.

    O verde da grama.

    O bege do pelo do cachorro.

    Quantas lembranças!

    Em quarenta e oito horas, revive-se meia vida.

    Foi assim o meu passeio neste feriado de Finados.

    Mas não foi só isso.

    Vi também a pequenez dos grandes túmulos de mármore. A vaidade inútil das letras douradas. A ostentação póstuma com que os vivos tentam driblar o esquecimento. E pensei: debaixo de sete palmos de terra, todos somos iguais: não importa a lápide que se erga sobre a cova.

    E, por fim, uma última constatação: como o tempo transforma nossas medidas!

    O coreto da praça de Jardim é lindo… mas tão menor do que me recordava!

  • O Diabo é ardiloso, mas eu sou malandra

    Por tudo se paga um preço nessa vida. Inclusive, pelo saber. Minha vó costumava afirmar: “a ignorância é uma benção.” Certamente, esse era seu jeito de dizer que certas verdades são difíceis de digerir. Na época, eu ouvia suas frases enigmáticas, mas o sentido íntimo desses ditos não me tocava a pele. Hoje, voltam à mente vestidos de significado. Cada vez mais, percebo que saber é temer. Listo a seguir as descobertas divulgadas na internet, nessa última semana, que balizam minha afirmação: o consumo diário de refrigerante dietético aumenta o risco de demência e acidente vascular cerebral; o presunto e a salsicha (que eu amo) são tão cancerígenos quanto o cigarro (que já abandonei); não existe nível seguro para o consumo de álcool; as noites insones, seja pelos efeitos da menopausa, noitada, maratona de filmes ou por qualquer outro motivo, são prejudiciais à saúde física e mental. E para completar a chuva de lamentos: o docinho depois da refeição, o bolo da tarde, o chocolate amado, não é tão inofensivo quanto parece. O açúcar, agora, é um veneno que inflama o corpo.

    Diante disso tudo, acabei por concluir que tenho, como dizia minha mãe: “dedo podre para escolhas”, ou melhor dizendo, tenho muita afinidade com o rei, Roberto Carlos: “tudo o que eu gosto é ilegal, é imoral ou engorda.”

    Talvez a saída seja ressignificar o desejo, ampliar os horizontes, mudar perspectivas, se aventurar em lugares ainda desconhecidos e apostar nos benefícios de uma vida bem cuidada.

    Mas, como o Diabo sempre atenta, acabei de receber de uma amiga, pelo Instagram, um vídeo em que o cara canta um pagode que diz mais ou menos assim: “Você pode parar de beber whisky, conhaque, vodka ou cerveja, você pode fazer exercícios e se alimentar direito…. Não vai adiantar p. nenhuma, você vai morrer de qualquer jeito.”

    Depois dessa, quase me entreguei ao pote de Nutella. Mas, por sorte, um pouco antes, tinha lido um artigo sobre envelhecimento ativo. Aí, ponderei (bônus da maturidade), avaliei minhas chances, tracei perspectivas, e, por fim, decidi vestir a roupa da caminhada.

    Sempre que fico tentada a chutar o balde, penso naquela plaquinha de vaga para idoso (injusta e inapropriada) que mostra um velhinho de bengala, bem curvado. É só fazer isso e já me vem uma vontade imensa de cuidar no presente do futuro.

    Senti até amor pelo brócolis.

  • Página virada

    Virar na vida uma página é mostrar atitude. Existem páginas mais pesadas, outras que quase se rasgam no manuseio e aquelas que praticamente pedem para ser viradas. Mas tenha certeza que na vida sempre há alguma página a ser virada. Quer você queira, quer não.

    As razões para se virar uma página em nossas vidas existem e nunca são poucas. Deixar para trás uma parte da própria história é um momento forte, de decisão firme que não permite vacilo.

    As motivações que nos fazem mover a mão e mandar aquela página para o passado são várias. Algumas boas, outras ruins, as vezes alternadas, as vezes misturadas.

    Se houvesse uma receita para se virar uma página na vida talvez ela começasse pela leitura da própria página. Se o que foi escrito ali perdeu o sentido não adianta lamentar. Se a leitura do episódio incomoda, rápida irá a mão à folha para vira-la.

    Nem sempre virar a página significa se livrar de um problema.

    Problemas todos têm. Eu tenho os meus, você tem os seus. Eu sei a medida que os meus me afetam e quão difíceis eles podem ser. Da mesma forma, você conhece os pesos dos que te afligem. Por isso não entro em competição de problemas por diversas razões. A primeira porque é uma grande imbecilidade, o que dispensa citar as demais.

    Assim as páginas viradas de cada um são suas páginas, incomparáveis porque elas trazem sua história gravada. Boas anedotas ao lado de momentos difíceis, alegrias, amores, tristezas, corações partidos e por aí vai formando o mosaico de nossas vidas.

    Elas não vão sumir, tenha certeza. Até porque continuam por ali, encadernadas juntas as demais, inclusive aquelas que ainda estão em branco. As páginas viradas simplesmente foram empurradas para o passado. Se der vontade de rememorar, basta procurar com calma.

    Afinal, página virada não é página rasgada. As rasgadas são outra estória. E requerem o dobro de coragem.

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