Crônicas

  • A Subversão de um Insone

    Desde criança, Armando sente verdadeiro fascínio pelas noites. Segundo ele, é de noite que sua mente consegue trabalhar mais eficaz e diligentemente. Independentemente da estação do ano e do lugar onde se encontra, noites quentes, frias, chuvosas e estreladas sempre despertam em seu interior o gozo pela vida e a curiosidade pelo desconhecido. Mais do que uma contemplação serena do universo e de seus mistérios, Armando embarca em excitantes e intermináveis aventuras pelo imponderável e pelo inexplorado.

    Talvez você, cara leitora, identifique-se com o protagonista deste relato. Talvez você apenas conheça alguma pessoa que não desfrute de um sono bem regulado. Mas nós dois sabemos o quão desafiante é conciliar o apreço por uma noite em claro e a necessidade de um trabalho diuturno. Mesmo aqueles que não sofrem de insônia já experimentaram o acre sabor de uma noite maldormida, ao serem enxotados da cama por um sádico e ruidoso despertador. É claro que nosso improvável herói não sacrifica, intencionalmente, um dia de trabalho pelo indescritível prazer de ver o sol nascer e a cidade acordar. Se diversas tarefas laborais acumulam-se sobre sua mesa e cobranças por seu lento e sofrível desempenho fazem-se ouvir da boca de seu chefe, ressalvo que Armando sempre tentou ser comprometido com seu trabalho. Não sou psicanalista, mas, a meu ver, essa relação caótica e subversiva com a noite é que coloca quase tudo a perder.

    Subversiva, sim! Não que Armando queira derrubar a ordem política vigente. Sujeito parcamente politizado, avesso a discussões ideológicas, nosso amigo nunca pensou em alternativas ao que lhe dizem ser o correto e o natural. No entanto, sustento que a subversão que sua insônia carrega é de um tipo muito mais sutil e engenhoso. Enquanto a maioria recobra suas energias para a jornada de trabalho seguinte, Armando teima, ainda que inconscientemente, em não se submeter aos ditames de um tirano e mordaz relógio. Para nós, acostumados a orientar nossos feitos e nossos desejos conforme uma só temporalidade, tal resistência pode parecer fútil e pueril. Mas, até mesmo Cronos, o titã grego do tempo, admirar-se-ia com o simbolismo e a resiliência de nosso nobre guerreiro.

    — A noite foi feita para dormir, Armandinho! – advertia-lhe sua avó, para quem as esquisitices de seu neto eram apenas coisas de gente jovem.

    Armando tornou-se adulto, amadureceu como pessoa, empregou-se num escritório de contabilidade, mas essa singular esquisitice continuou a fazer parte de seu dia a dia. Só que, diferentemente de quando era jovem, nosso estimado subversivo passou a usar as horas disponíveis para enriquecer sua criatividade. Nutrindo-se do silêncio e da beleza noturnos, Armando começou a dedicar sua insônia ao deleite que somente a pintura é capaz de provocar-lhe. Até tentou trabalhar com escultura, mas os vizinhos reclamaram do barulho e seu verdadeiro talento direcionou-o para o pincel e as tintas. É naqueles momentos de solidão, quando seus monstros mais indomáveis e cruéis ameaçam atazanar sua existência, que ele se entrega de corpo e alma aos seus quadros. Como numa mágica transmutação, Armando esquece a aridez patrimonial dos endinheirados clientes de seu escritório e mergulha na imensidão de possibilidades que somente sua imaginação é capaz de criar.

    — De dia, trabalho por obrigação; de noite, trabalho por prazer – costuma dizer Armando, em vãs tentativas de justificar-se, moralmente, perante olhares de incompreensão e de hostilidade.

    Não, minha cara senhora… Não incito ninguém à rebelião! Não tenho a pretensão de causar tumultos e desordens, visto que os tempos são difíceis e requerem prudência de todos nós. Mas o caso que aqui lhe conto parece ensinar-nos que somos muito mais potentes do que aparentamos ser. É verdade que estamos muito aquém de uma pretensiosa e arrogante onipotência. Tendo a acreditar que a maior parte de nossos sonhos esfacela-se contra a dureza de nossas existências. Mesmo assim, de seu antigo sofrimento crônico, Armando extraiu a seiva que enriquece seu ser e que fornece esperança a uma vida até então sem propósito. Nosso valente pintor complementa-se com sua arte, expressando por meio dela suas dúvidas e suas inquietações.

    Claro está que ele continua precisando cumprir uma estafante e modorrenta carga horária no escritório. Mas as descobertas que apenas as noites permitem-lhe fazer servem como um anteparo contra a frieza de uma vida dedicada, exclusivamente, à sobrevivência. Diferentemente de tantos por aí, Armando cria, reflete, pergunta, desafia e sorri. Suficiente? Creio que não! Porém, enquanto estiver sozinho, o que mais poderá ele fazer?

  • Escaneie para comer

    Fui almoçar com uma amiga. O garçom chegou sorridente, apontou um adesivo colado na mesa e disse:

    — O cardápio está no QR Code.

    Ela suspirou, sacou o celular da bolsa e começou a procurar o ícone da câmera. Fez uma cara de quem acabara de perder o apetite.

    — Esqueci os óculos de leitura em casa. Esses cardápios parecem bula de antibiótico.

    — Que saudade de um cardápio de papel. Bastava levantar os olhos.

    — Esse peixe é bom?

    — O risoto serve duas pessoas?

    — A sobremesa é muito doce?

    — Que saudade daquele cardápio já meio engordurado de tanto azeite.

    — Sim, retruquei, folhear as páginas virou “scroll”.

    — Em vez de escolher o almoço, parece que estou aceitando os termos de uso.

    Lá no fundo da sala, o garçom observa inquieto, pois já deveríamos estar prontas para fazer o pedido.

    Ele passa. Olha.

    Passa de novo. Olha.

    Já desistiu.

    Foi atender outra mesa.

    Minha amiga tentou aumentar um pouco a letra na tela e me perguntou:

    — Já descobriu a seção de “Massas”? era a minha opção, mas ainda não achei aqui.

    — Fecha a tela e escaneia de novo, sugeri. Que olhar no meu celular? Acho que já encontrei o que queria.

    Quando a mesa ao lado já estava no café, perguntei:]

    — E aí, amiga, já encontrou a seção de massas?

    — Ainda não.

    O garçom voltou.

    — Posso ajudar?

    Minha amiga respirou, aliviada.

    — Finalmente.

    — Onde fica o cardápio?

    Na volta para casa, me peguei cantarolando Noel Rosa: “Seu garçom, faça o favor de me trazer depressa…”

  • A nora de REBECA

    Quando completou 65 anos, Rebeca deu uma festa em casa e chamou o filho, a nora e os netos. Morando sozinha, não podia se dar ao luxo de extravagâncias na cozinha, então encomendou salgadinhos e um bolo de chocolate com nozes, que o filho amava.

    Pediu que não chegassem tarde por causa das crianças. Ela também queria dormir cedo. Depois da novela das oito, que começava nove e meia, normalmente era a hora em que o sono chegava.

    Tinha recusado o convite do filho para ir morar com ele. Sabia que o filho a convidava por convidar, já que ela e a mulher dele não se davam. Desde que a nora dissera que ela tinha necessidade de monitorar e invadir a privacidade deles. A partir daí, desistiu de tentar alguma aproximação. Não ia levar avante aquela provocação. Seu filho a escolhera como mulher e mãe de seus filhos, paciência.

    Para ela, a nora necessitava de terapia e medicação.

    Rebeca notou que passara a cair com frequência. Havia a suspeita de sarcopenia. Foi ao médico que não constatou nenhuma anomalia. Mesmo assim, fez exame de densitometria óssea. Nada. Tinha os ossos em bom estado, em conformidade com sua faixa etária.

    Rebeca continuava caindo.

    A cada nova queda, mais medo de cair. Esse medo gerava ansiedade, restringia as atividades e começava a gerar um certo isolamento social.

    Imaginou que talvez lhe tivessem feito uma macumba. Imediatamente pensou na nora. Por precaução, procurou um lar espiritual para se benzer. Uns passes cairiam bem, literalmente a quem estava caindo a toda hora. Riu-se do efeito cômico inesperado. Podia perder o equilíbrio e dar seus tombos, mas mantinha o humor.

    Mesmo com os passes e as benzeduras, continuava tropeçando e caindo. Vivia com joelhos ralados, marcas roxas pelo corpo e alguns cortes nos braços e cotovelos.

    Uma amiga sugeriu, com todo o cuidado, que ela talvez estivesse fóbica, ou seja, com medo de cair. Rebeca achou graça: “quer dizer que vivo caindo e não devo ter medo de cair?”. A amiga desistiu.

    Ao visitar o filho, quando se queixou das quedas, ele disse que era comum as pessoas perderem, com a idade, um pouco a estabilidade corporal. Rebeca fingiu não notar que a nora prendia o riso. Procurou se controlar e respondeu ao filho que estava amedrontada, afinal morava sozinha, podia cair, se machucar e não haver ninguém para a socorrer. O filho não levou a sério, e a nora recomendou que ela andasse de joelheiras. Rebeca quase perdeu a calma e o controle.

    No dia seguinte, acordou com o celular. Era a nora, reclamando que ela parasse de criar problemas para chamar atenção. Havia deixado o marido dela preocupado e até as crianças estavam assustadas. Ela ouviu, calada, quase sem acreditar. A nora insistiu para que ela procurasse o que fazer: ler para cegos, praticar ioga, ir à missa, qualquer coisa. Também seria bom que arranjasse um homem! Rebeca desligou. Pensou seriamente em contratar alguém para matar a nora. Querendo explodir de tanta raiva, ao levantar para ir ao banheiro, caiu e bateu com a cabeça na quina da mesa. A dor foi forte. Sentiu o sangue escorrer. Tentou levantar, foi ficando tonta e perdendo as forças. A imagem da nora lhe veio à cabeça. Caso não morresse, clicaria no Google por assassinos de aluguel. Com sorte, acharia um bem barato e discreto.

  • Somos Latino-Americanos

    Somos latino-americanos! De sangue quente e Sol! Brasil, Bolívia, Peru… Um céu lindo de azul!

    Somos latino-americanos! De marcas antigas coloniais, línguas americanas, línguas ancestrais. 

    Somos latino-americanos, de rostos e cores particulares, singulares, mas, ao mesmo tempo, diversos: índios, negros e brancos! E somos muitos! E Somos tantos!

    Somos todos José Arcádio Buendia, formando Macondos em vários lugares! Em sonhos e em outras realidades!

    México, Cuba, Haiti, República Dominicana…

    Somos a poesia de Neruda e a voz de Mílton Nascimento, o Bituca! Samba, salsa, tango!

    Somos latino-americanos! De sons e suingues, de mares e montanhas! Chile, Argentina, Colômbia, Venezuela…

    Somos Latino-americanos, lutamos contra os vários enganos, de veias abertas e prantos, ouro, prata e histórias! Carregamos memórias! Uruguai, Paraguai, Equador…

    E só nós sabemos o tamanho da nossa dor!

    Costa Rica, Guatemala, El Salvador…

    De sombrero e guacamole, bolo mineiro e azeite de dendê, somos tempero, esteio, estrela e poeira!

    Honduras, Nicarágua, Panamá…

    E esta terra de montanhas e lagos, florestas e mares é onde o futuro haverá!

    Somos latino-americanos e somos a mais conflitante poesia!

    A prosa e a poesia de uma América Latina inteira! De bandeiras e olhares, de músicas e linguagens, de marcantes paisagens: Andes, Amazônia, Patagônia…

    Somos latino-americanos!

  • Era só uma brincadeira

    Cara, na moral, foi só uma zoação. Olha o tamanho da confusão que armaram pra cima da gente, mano! Não dá pra entender esse povo fazendo essa zoeira toda. Dá um tempo! Parece que nunca tiveram 14 anos.

    Era só para tirar um sarro da tia na sala de aula, meu. Essa chata que vive querendo enfiar um monte de caretice na cabeça da gente, uns papos de cidadania, respeito, sociedade, essas coisas. Uns troços nada a ver, que não dão futuro, não rolam grana, não dão engajamento nas redes.

    A ideia bizarra surgiu do nada no recreio. Alguém lançou o desafio maneiro pra ver quem encarava botar os vidrinhos na garrafa de água da tia. O mais doidão assumiu a missão. Bora dar umas risadas.

    A gente puxou o celular pra filmar e botar no Tik Tok. O vídeo ia bombar: sangue, gritaria, esse tipo de coisa sempre viraliza. Mais seguidores, mais visualizações, mais compartilhamentos. Os algoritmos iam pirar, kkkkk.

    Pena que alguns deram pra trás e falaram pra ela que era melhor não beber da água abençoada. Arregaram bonito os traíras. A verdade é que ninguém tava nem aí no que ia dar pro lado da tia. Quando muito ela podia engasgar, sei lá, sangrava um pouco, nenhum drama. Tomava um belo susto pra ficar esperta e parar de encher o saco.

    Podia dar coisa pior? Podia. Vai que a coroa empacotasse de vez. Azar dela. Fazer o quê? A gente não é coveiro.

    Com o piti que a bruxa armou ao descobrir o lance, deixei cair o iPhone. Ainda bem que não detonou a filmagem. Quem ia pagar o preju, isso ninguém fala.

    E ainda puseram a infeliz pra choramingar na internet, dizendo que não queria mais lecionar, ia precisar de tratamento, viajou na maionese. Esse lenga-lenga de vitimismo que a gente já tá por aqui. Vê se te enxerga, mulher! Vai cuidar de teu homem e para de bancar a coitada.

    De qualquer jeito, não ia dar em nada. No máximo, um sermão sacal do diretor, uma suspensãozinha de uns dias, legal pra gente tirar uma folga em casa. E ficava por isso mesmo. No Brasil, ninguém fica na cadeia. Pra nós, menores então, a lei protege de qualquer punição.

    Os otários falam como se a gente fosse bandido. Menos, né. E outra: o professor não é esse santo que vocês pintam. O cara que se mete a dar aula é um fracassado que não conseguiu trampo que dá grana, vive estressado, ganha um salário de merda e passa a sua vidinha miserável em cima de livros, achando que vai mudar o mundo. É um frustrado que só enche a gente de tarefa chata, manda guardar celular e ainda quer se meter em dar lição de moral.

    O que não dá pra engolir é esse monte de trouxa fazendo discurso e caindo em cima. Do nada apareceu polícia, imprensa, quiseram envolver até nossos pais que não tão nem aí. Não tem a menor graça, meu. A gente ia lá saber que vidro cortava garganta e podia matar? Vamos dar um fim nessa tragédia, gente. Chega de mimimi!

    E ainda tiraram do ar o vídeo antes de viralizar. Sacanagem…

    Cadê a liberdade de expressão?

  • Quem falou?

    Há palavras e frases que, de tanto serem repetidas, acabam se esvaziando. Ou talvez já nasçam assim: sem sustentação.

    Uma delas sempre me intriga.

    — Descansou.

    Não falo do descanso de um fim de semana, do fim do expediente ou das férias.

    Falo daquele outro.

    Morreu?

    Coitado… descansou.

    Morreu e descansou.

    Sempre me pergunto: quem decidiu isso?

    Quem garante que aquela pessoa estava cansada?

    Talvez ainda tivesse planos, uma viagem marcada, um livro aberto sobre a mesa, alguém para reencontrar.

    É claro que pode acontecer.

    Há quem enfrente uma longa doença, um sofrimento sem alívio, um corpo exausto.

    Mas também pode não ser assim.

    Talvez estivesse cheia de vida, de projetos e de sonhos.

    Ainda assim, dizemos que descansou.

    Há muitas frases assim, que circulam de boca em boca sem jamais serem interrogadas.

    “Foi Deus quem quis.”

    “Era a hora.”

    “Tudo acontece por uma razão.”

    Expressões herdadas, repetidas quase por reflexo, apenas porque nos acostumamos a elas, chegando antes mesmo do pensamento.

    Diante do que não sabemos explicar, criamos  atalhos. 

    Ao não sabermos  lidar com a perda, recorremos a fórmulas prontas e entregamos frases feitas, como se pudessem preencher o espaço que a ausência deixou.

    Isso pode acontecer porque estamos assustados, porque a dor do outro também nos afeta ou simplesmente porque repetir é mais fácil do que refletir.

    Em momentos difíceis, buscamos apoio nas palavras.

    Ainda assim, surpreende que certas expressões atravessem gerações sem que nos perguntemos se ainda fazem sentido. Ou se fizeram um dia!

    Podemos adotar despedidas mais verdadeiras.

    Simplesmente um abraço.

    Um olhar demorado.

    Ou palavras simples, mas cheias de significado.

    “Vou sentir falta dele.”

    “Ela fará muita falta.”

    “Não sei o que dizer.”

    O abraço, o olhar, a companhia, o cuidado dizem muito mais do que as palavras conseguem dizer.

    Alguém que prepare um café, ofereça um copo d’água, sente-se ao lado sem a obrigação de preencher o silêncio.

    Gestos simples, quase invisíveis, mas que dizem: eu estou aqui.

    Talvez o desejo de encontrar uma frase para suavizar a despedida não devesse superar a disposição de cuidar de quem ficou.

    Diante da morte, o que consola raramente é o que dizemos.

    É o que fazemos.

  • Conversas picadas por aí

    Passo por uma mulher que fala ao telefone sobre alguém que lhe foi desagradável mas não escuto o motivo da reclamação. A voz dela fica na minha cabeça e imagino o que teria acontecido. E mais, se de fato ela tem razão em se sentir assim ou apenas recebeu de volta o que deu à outra.

    Não dá tempo de seguir adiante na elucubração porque a voz de um rapaz invade meus pensamentos e na hora sou levado a prestar atenção no seu drama universitário que ele expõe a uma moça. O barulho em volta não me deixa distinguir qual curso ele faz mas sem dúvida o assunto é recorrente: o eterno conflito entre alunos e professores. A moça escuta séria e balança a cabeça positivamente.

    Atravesso uma gargalhada de três moças que vem na direção contrária a minha. Me esquivo como peixe no cardume de pessoas ao telefone. Meus ouvidos captam fragmentos de uma reclamação, uma advertência e um pedacinho de declaração de amor. Silêncio por um instante quebrado por alguém, mais um ao telefone, que fala de trabalho, algum trabalho urgente.

    Avanço, dobro uma rua e paro para atravessar. Ao meu lado dois policiais, uma mulher e um homem. Ela escuta atenta o colega de farda passar uma receita. Ele afirma a ela que “não tem erro, toda criança nessa idade come”. Atravesso a rua sorrindo.

    Mais adiante, dois homens param ao meu lado e conversam entre si sobre algum serviço que precisam entregar mas, nas palavras de um deles, “vai dar ruim porque o Valdo está atrasado”.

    Penso comigo que é melhor o Valdo se apressar porque a dupla ali conversando não tem cara amigável.

    Sigo. Chego em casa, silêncio. Esquento a água para o chá. Imagino o desfecho desses fragmentos de conversas. E me arrependo de não ter pego a receita que toda criança nessa idade come. Qual idade seria?

  • Definições Heterodoxas

    Nem sempre o sentido de determinadas palavras está no que diz o dicionário. Por vezes a experiência que temos com elas nos encoraja a tentar redefini-las, acrescentando-lhes matizes que não se encontram na conceituação tradicional.

    Esse acréscimo nada tem a ver com polissemia; dicionário nenhum iria encampar os sentidos que apontamos abaixo. Relaciona-se, antes, com facetas do comportamento humano associadas a esses vocábulos.

    Daí ser necessário extrapolar o que sobre eles informa o (inadequadamente cognominado) “pai dos burros”. Se o leitor não concordar com as novas acepções, poderá sugerir outras. Vamos lá:  
     
    CANSAÇO – Estado de fadiga física ou mental que acomete sobretudo quem não faz nada.  
     
    CÉU – Prêmio que os pobres almejam ganhar em outro mundo, e os ricos preferem desfrutar mesmo neste.  
     
    CONFIDENTE – Pessoa que a gente escolhe para contar aos outros os nossos segredos.
     
    CONVICÇÃO – Certeza que temos de algo enquanto não nos convencemos da verdade oposta.
     
    COVARDIA – Manifestação envergonhada do instinto de conservação.
     
    CULPA – Dívida imaginária a um credor que se agiganta à medida que sentimos aumentar o débito.  
     
    EMPRÉSTIMO – Doação camuflada sob a promessa de retribuição do beneficiário.
     
    ECONOMIA – Prática que os ricos adotam por opção, e os pobres, por necessidade.
     
    ESPÍRITO PÚBLICO – Disposição que se manifesta nos políticos a cada quatro anos e desaparece nos intervalos.  
     
    FIDELIDADE – Compromisso de não trair o outro desde que outro não nos atraia.
     
    FUTURO – O que a gente sempre espera mas nunca chega, pois quando chega já não é mais.
     
    GOSTOSURA – O que os homens dizem de certas mulheres, e as mulheres dizem de certas tortas.
     
    IDEOLOGIA – Justificativa para escolher os candidatos em função dos grupos a que se filiam, e não das suas qualidades pessoais.
     
    MACHISMO – Desvario da hombridade, que no fundo mascara o medo de não ser considerado homem.
     
    PERFECCIONISMO – Impulso que nos tira o prazer de fazer bem feito pelo receio de não fazer melhor.
     
    POLÍTICA – A arte de prometer mundos e ficar com os fundos.
     
    PROMESSA – Garantia que damos, em determinado momento, do que não vamos cumprir depois.  
     
    SOLIDÃO – O preço da liberdade, que muito poucos se dispõem a pagar.

    TACOCARDIA – Aceleração dos batimentos cardíacos que vez por outra acomete os jogadores de sinuca.  

    TIMIDEZ – Receio que o indivíduo tem de se mostrar como é por medo de que o tomem pelo que não é.

    UTI – Lugar onde geralmente se morre depois de gastar os tubos.

    VERGONHA – Sentimento que falta a quem precisa e às vezes sobra em quem não merece.

  • O Tempo Dobrado na Gaveta

    Tenho visitado a geriatria onde mamãe está passando uma temporada. A sala de visitas tem cheiro de álcool gel e saudade. As poltronas são de plástico lavável, cor de abóbora, uma delas é laranja, que tenta ser alegre mas não engana ninguém. Ali, todo final de semana os filhos se revezam na cadeira ao lado de outros idosos acamados.

    Dona Alzira, a vizinha de quarto de minha mãe, já não pergunta que dia é hoje. Perdeu a conta do tempo, lá pelo segundo ano de internação, quando o calendário virou uma sopa de letras e os netos deixaram de ser crianças. As mãos, finas como papel de seda, percorrem os rostos que visitam seu leito em busca de relevos conhecidos: a cicatriz no queixo do mais velho, os óculos do neto do meio, o brinco da caçula. O filho mais velho chega sempre com o jornal debaixo do braço, lê em voz alta as notícias que ela já não entende, mas ouve como quem escuta música. Depois, dobra o jornal, guarda na gaveta do criado-mudo, e fica ali, em silêncio, vendo a mãe dormir. Aquele jornal nunca é levado embora, e a gaveta já tem uma pilha deles, todos dobrados do mesmo jeito, como se guardassem ali o tempo que não passou.

    A filha do meio, a que mora mais longe, traz potes de comida que Dona Alzira já não pode comer. Escorrega a mão por debaixo do lençol, aperta os pés frios da mãe, tenta aquecê-los com as palmas quentes. Fala das crianças, do marido, do cachorro, preenche o silêncio com a vida lá fora, como se a mãe ainda precisasse de notícias do mundo. Mas no fundo, quem precisa ouvir a própria voz para se convencer de que a vida continua, é ela mesma. A caçula deita na cama, acomoda a cabeça no ombro ossudo da mãe, como fazia quando era pequena e tinha medo de tempestade. Às vezes chora baixinho, sem fazer barulho, para não assustar. Dona Alzira, mesmo de olhos fechados, sente o tremor, e seus dedos começam a fazer movimentos circulares nas costas da filha, num reflexo que vem de muito longe, de quando embalava bebês no colo. Há uma inversão silenciosa ali naquele quarto. Os filhos agora são os pais, mas aprendem que cuidar de quem nos cuidou é aprender uma nova língua, a linguagem dos gestos pequenos, das unhas cortadas com cuidado para não machucar, do cabelo penteado bem devagar, da pele hidratada com creme cheiroso. É um amor que volta, misturado com medo de que um dia a cama vai estar vazia. Quando o relógio da sala marca o fim da visita, e o tempo fica dobrado na gaveta, eles se despedem um a um. Dona Alzira abre os olhos, e diz, com a clareza de quem nunca esteve ausente:

    — Cuidado na estrada.

    E eles sabem que, por alguns segundos, ela foi novamente a mãe que os via partir para a vida. Na saída, a caçula ainda olha para trás. Ali dentro, dobrado em folhas que ninguém mais lê, está o tempo que insiste em viver junto com as notícias, mesmo quando a memória já não obedece. 

    O amor é isso: aprender a ficar mesmo quando já não há o que dizer. É entender que, para quem nos deu a vida, a melhor forma de retribuir é não deixar que o silêncio apague a certeza de que, em algum lugar do mundo, ainda existe quem espere pelo nosso domingo.

  • A arte de não se levar a sério

    Poucas são as pessoas que realmente sabem como não se levarem a sério. Infelizmente, não faço parte desse privilegiado grupo. Mas posso afirmar que esses seres iluminados costumam ter uma expectativa de vida mais longeva que os demais mortais, com menos cortisol e mais endorfina. Em outras palavras, menos estresse e mais alegria. A bem da verdade, para não ficar apenas em elucubrações pseudocientíficas e melhor sustentar minha tese, usarei o exemplo de um velho e estimado amigo chamado Jânio.

    Diferente de seu tocaio Jânio Quadros – que se levou muito a sério, tentou uma manobra política estapafúrdia e deu com os burros n’água -, meu amigo Jânio sabe como não se levar a sério com maestria. É o tipo de sujeito que faz galhofa de si, escarnece de seus defeitos e zomba de seus erros. Mas quem o conhece bem, como é o meu caso, sabe que suas idiossincrasias não se dão por autocomiseração tampouco por autodesprezo. Pelo contrário! A leveza característica com que lida consigo e com os outros sugere uma paz de espírito e uma inteligência emocional invejáveis.

    Creio que a primeira vez que a elevada maturidade espiritual de Jânio chamou minha atenção foi quando assisti a sua derrota no campeonato de botão do bairro. Em plena adolescência, não tínhamos tantos compromissos para os quais dar mediana importância. Aquele torneio, entretanto, valia mais que a honra de todos os seus competidores. Um fim de semana inteiro dedicado à magia do futebol de botão, desde o sorteio de grupos até a entrega do troféu. Jânio, notório botonista do bairro, era considerado o favorito ao título por todos os comentaristas esportivos da região. Embalado por uma campanha avassaladora e invicta, chegou à final com pinta de campeão. O problema é que, ao comemorar seu único gol na partida, machucou sua mão direita. Com apenas a esquerda à sua disposição, não conseguiu mais jogar satisfatoriamente e levou uma virada triunfal de seu oponente. Apesar dos olhos marejados, superou o baque e, muito dignamente, reconheceu a vitória com um sorriso no rosto e um abraço em seu adversário.

    A segunda vez foi quando soube de seu fracasso no concurso para a Receita Federal. Muitos podem até tentar contemporizar o feito, mas fui testemunha de seu comprometimento e de sua dedicação para aquele certame. Sei o quão importantes eram aqueles malditos exames para ele. Por mais de um ano, Jânio dedicou, diariamente, horas a fio na preparação para as provas. Priorizou os estudos, prescindiu do futebol das quartas-feiras, abriu mão de muitas festas. Mas, infelizmente, a aprovação não foi conquistada. Todos nós, amigos de Jânio, pensávamos que ele sucumbiria a uma fase de desgosto e de tristeza profundos. Ledo engano! No dia seguinte à divulgação da lista de aprovados, lá estava Jânio fazendo piada de seu malogro e organizando o futebol daquela semana.

    Devo admitir que por muito tempo, esses e outros feitos de Jânio me passaram despercebidos. Geralmente, levamos um tempo para compreender o significado e a importância de muitos dos eventos que testemunhamos. Talvez por desatenção, talvez por insensibilidade. O fato é que a vida seguia seu rumo, sem que a altivez de Jânio pudesse ser, devidamente, apreciada por mim e pelos demais amigos. Até que um dia assisti à uma entrevista dada por uma veterana e renomada atriz. Com mais de seis décadas de trabalhos na televisão, no teatro e no cinema, a octogenária artista foi perguntada sobre qual seria seu segredo para tamanha longevidade.

    — Não se levar a sério – sentenciou, muito originalmente, a jovem senhora.

    A simplicidade e a objetividade de tal resposta cativaram minha atenção. Quase imediatamente, a figura de Jânio veio-me à mente como um poderoso exemplo de vida. Não somente pelo modo com que lidou com alguns de seus fracassos, senão que por suas atitudes mais cotidianas. Livre das insanas métricas de perfectibilidade e de produtividade, meu amigo concebe uma vida mais equilibrada e saudável. Ciente de suas limitações, mas também de suas qualidades, celebra menos os resultados instagramáveis do que os longos processos de aprendizagem. Longe de levá-lo ao desleixo ou à passividade, sua visão de mundo permite-lhe desfrutar da graça e da beleza da vida nas coisas aparentemente mais simples e banais.

    Pessoas que se levam, demasiadamente, a sério tendem a ser chatas e egocêntricas. Em tempos de tantas rabugices e malquerenças, nada melhor do que desfazer carrancas e maus-humores com boas doses de humor. Colocando em xeque, antes de tudo, nossa sisudez, teremos mais chances de administrar nossas falhas e de apreciar nossas conquistas. Oxalá possamos todos aprender mais com pessoas como Jânio!

  • Sujeito homem

    — Tu é sujeito homem?

    A frase saiu como um soco. Mais agressiva até. Os dois envolvidos na discussão eram homens, não havia dúvidas, mas a pergunta era mais profunda: vinha para mexer com os brios. Para trazer à tona fraquezas ou revelar coragens.

    Seu corpo, um tanto menino, não acompanhava o tamanho da sua integridade. Não revelava quão grande era aquele ser juvenil. Suas razões, explicadas de modo atrapalhado, eram contundentes. Dispensavam eloquência e formalidades. Cortavam a carne feito lâminas.

    Os contra-argumentos vinham em um português formal que nada devia aos melhores oradores, mas, naquele momento, não conseguiam convencer ou responder à pergunta torta e capciosa. Entretanto, ela ecoava ferina pelos corredores, como espada afiada dos dois lados. Amedrontava e constrangia na mesma medida. Impossível não pensar nela.

    Não é fácil nem simples manter a palavra empenhada ou dizer a verdade, mesmo quando sofreremos por dizê-la. Não é fácil escolher ser exemplo, cuidar das próprias atitudes e assumir suas consequências.

    — Eu sou sujeito homem! Eu não minto. Você sabe disso.

    Ainda que o outro quisesse, não podia discordar. Na sua impetuosidade juvenil, não mentia. Apanhava, era preso, mas não mentia. Tinha uma coragem que envergonhava outros. Não escrevia bem, não argumentava a contento, mas convencia como ninguém.

    Tu é sujeito homem, moleque, como são todos os homens e mulheres que têm o dom de dizer a verdade com a vida que levam e com as palavras que saem de suas bocas.

    Ao amor antes de tudo. À verdade, sempre.

  • MUSICALIDADES

    Nascera com o dom para a música. Precoce, Marília, com quatro anos já se aproximava do piano, como um beija-flor às flores. Uma profunda atração que deixava a todos impressionados. Com seus dois polegares tirava das teclas um som inédito. Futuras canções. A família, claro, providenciou uma professora.

    Aos seis, já arriscava o começo de algumas canções. Mas era mesmo no “cai cai, balão” que se realizava. Também esboçava, com o indicador, um “parabéns pra você” quase sem erros.

    Completava oito anos e a professora concluía que sua aluna não apresentava progressos. A bem dizer, quase uma nulidade. Não fosse a necessidade de ganhar uns trocados com as aulas, tinha comunicado à família que a pequena Marília talvez estivesse longe de ser um prodígio. Evitou dizer que havia grandes chances do contrário.

    Ainda assim, a professora admirava a sua tenacidade. A menina nunca desistia e não se cansava de ficar tentando acertar as notas e compassos. Sua mão direita era mais precisa que a esquerda. Ambas, ao mesmo tempo, é que causavam o entrave. Parecia não possuir a mínima coordenação.

    Aos doze, mudou de professora. A família achou por bem a troca, um novo professor, austríaco naturalizado, vindo de uma tradicional escola de música em Viena. O instrutor ideal para Marília se desenvolver.

    No começo, ainda mostrou melhoras, improvisando até uma pequena composição. Com o passar das aulas, no entanto, ficava clara sua inaptidão.

    O tal professor austríaco não resistiu muito tempo, decidindo abandoná-la, sem coragem de informar à família e à própria aluna que dali não sairia nenhuma pianista.

    Agora autodidata, Marília ainda impressionava por sua disciplina e força de vontade. Verdade que a família não mais disfarçava e se afastava a cada nova audição ou série de exercícios. Começavam as desconfianças.

    Os primeiros conselhos para que trocasse o piano por um outro instrumento, talvez um violão ou um acordeom, não a convenceram.

    Até que capitulou: desistiria do piano, mas nunca da música. Tinham ouvido falar muito bem da flauta doce…

    Foram, então, meses de inúteis e perdidos solos de flauta. Depois vieram as tentativas de gaita de fole, pianola, baixo elétrico, harmônica e percussão. A família acompanhava tudo, apreensiva.

    Aos dezoito, enfim, uma possível habilidade: a bateria. Porém, sua famosa dificuldade de coordenação dificultava a cadência.

    Alguns anos e ela também abriria mão da bateria, embora jamais passasse por sua cabeça abandonar a música. Esta, genuína vocação, fazia parte de sua alma, desde pequena.

    Tentaria o batuque na caixa de fósforos. Marília era boa nisso…

  • UM DIA DE VERÃO

    Eunice saiu da rede e se instalou na cadeira de palha da varanda. Cruzou as pernas e substituiu os óculos de leitura por outros com lentes escuras. Pôs de lado o livro sobre questões ligadas aos direitos das pessoas com deficiência que vinha lendo nos últimos dias e contemplou o panorama à sua frente. Sorveu dois goles de suco de limão gelado, pousando em seguida o copo sobre a mesinha de centro. Retocou o batom discreto com o auxílio de um espelhinho. Procurou uma posição confortável e começou a meditar. Aos 67 anos, ainda trabalhava como advogada. Quando ingressou na faculdade, quase meio século atrás, julgava ser aquele o caminho ideal para alguém dotado de um senso de justiça tão exacerbado quanto o seu. O exercício profissional bem cedo se encarregou de demonstrar a falácia desse raciocínio. Ao longo da carreira, foram muitas as decepções. A sensação de impotência e de inutilidade era por vezes tão palpável… Atualmente, gostava de escapar da agitação da cidade fugindo rumo ao sítio da serra. No jardim, sua neta de 5 anos, companheira eventual dessas aventuras bucólicas, brincava. Em sua pureza infantil, mexia na terra, rolava na grama viçosa, colhia flores e observava o comportamento dos insetos. A avó estreante se comovia. Em cima do muro de tijolos ao lado do portão de entrada, a menina abria os braços com convicção e gritava: Eu sou o Cristo Redentor! De tempos em tempos, olhava para trás e acenava. E sorria. O sol forte do início da tarde iluminava-lhe o rosto. Como é lindo o sorriso de uma criança. De qualquer criança. Depois que ficou viúva, Eunice passou a não ver graça no apartamento amplo de Copacabana, onde hoje vivia sozinha. Tudo muito repentino, exatamente como costumam ser as tragédias. Uma bala disparada à luz do dia, não se sabe por quem, conseguiu, com a rapidez de um instante, pôr fim à vida de um homem produtivo, competente, amoroso e responsável. Olhando Camila, Eunice se preocupava. Que mundo lhe estaria destinado? Por um momento, desejou ter o poder de congelar o tempo. Ficaria ali, eternamente a olhar a menina, desligada do resto do Universo, convencida de conseguir assim resguardar e proteger aquele ser inocente. De quê? Nem ela mesma sabia ao certo. Em diversas ocasiões, a própria Eunice se sentia abandonada e perdida, carente de um ombro aconchegante. Um beija-flor inesperado e arisco distraiu-a por alguns segundos. Em seu voo assimétrico, a ave negra e minúscula quase se chocou com uma das pilastras da varanda. As duas garrafinhas penduradas no alto representavam um convite a esses pássaros adoráveis. Solitários, em duplas, lá vinham eles. Parados no ar, batiam as asas com avidez, sugando o néctar a eles destinado. Camila circulava agora entre as estatuetas que enfeitavam o jardim, transformando-as, com sua imaginação prodigiosa, em príncipes, heróis, fadas, duendes, seres alados, bichos falantes… De repente, o tempo começou a se fechar. O sol, até então radioso, de vez em quando sumia por trás de nuvens espessas e acinzentadas, formadas sem que Eunice tivesse se dado conta. Um ambiente opaco surgiu. Um vento assobiando fino começou a ser ouvido. Balançava as folhas das árvores, levantava a poeira da estradinha de terra batida diante da casa e desalinhava os cabelos castanhos de Camila. Arrancava dos galhos mangas maduras que salpicavam o solo com um amarelo vivo e gostoso. A ameaça de chuva e as insistentes lufadas de vento fizeram Eunice convocar a neta até a varanda. Ficaram as duas ali, quietas e pensativas, concentradas apenas naquela realidade. De mãos dadas, exercitavam uma cumplicidade que deveria ser natural entre avós e netas. Meia hora depois, com a volta da claridade e de uma tranquilidade aparente, a pequena dirigiu-se de novo ao jardim. Perto de uma roseira ramosa, um marimbondo picou sua testa. Camila gritou de dor. E chorou.

  • GRITO DE GOL

    Um grito de gol não sai de uma superfície plano inclinada: a garganta. Ele irrompe de um outro lugar. Vem do fundo , sinuoso e labiríntico. Vem da pátria, seja verde e amarela, rubro-negra, tricolor…

    Pulsional, berra com a força e velocidade maiores que da própria bola, que estremece a rede, transferindo sua energia cinética para as suas malhas, resvalando no peito e retumbando nas batidas do coração do tocedor.

    Nos traçados da bola, que dribla num tempo lógico, nos projetamos nos talentos dos pés e na alma de quem chuta a bola, que sorri e chora. Transferimos para os jogadores em campo, o nosso ambicioso ideal, desejosos de sermos nós mesmos os campeões e assim teríamos uma constelação cravada nos peitos nus, com astros e estrelas formando figuras imaginárias.

    Nesse jogo renovamos a aposta na improvável vitória. Damos partida no motor do desejo que se realiza quando a bola cobre o goleiro adversário. O grito de gol pula da boca, faz tremer o corpo , como a paixão . Segundos depois do “gozo catártico”,
    retesamos os músculos, atentos, prendemos a respiração.

    Se apaixonar-se é a diminuição do Eu e a hipervalorização do Outro, o gol cai como uma luva nesta fantasia. — Gol! É do Brasil!!!A sexta estrela seria nossa, nos completaria como um álbum de figurinhas e melhor ainda, sem igual no mundo.

    O gol é como o amor. Ambos têm a mesma criativa tática para preencher a falta.

    Mas, se o grito se cala, deixando mais frágeis as solas dos pés, calejamos. A derrota também é nossa, carentes que somos de grandes vitórias. Do lado de fora dos estádios, nos traçados do jogo da vida real, nossas identificações entram em campo.

    Qual é a sua atuação nesta área? Atacante, meio-campista, defensor ou o que espera para agarrar as bolas chutadas?

    Mas as frustrações prorrogam o desejo. “Da próxima vez vai dar certo”.

    A vitória destrói a ilusão ao confrontar o sujeito com o vazio. Esvazia-se a fantasia, revelando que a completude não existe. O que fazer quando os planos tão bem calculados são provocados pelas emoções?

    Em choque, caímos na real: o adversário imbatível é o inesperado. A bola está com o outro e oscila sem concreta explicação.

    O avião da seleção pousou numa outra América, encoberto por um grandioso arco-íris. Estreou no dia de Santo Antônio, o segundo jogo no São João, e depois São Pedro. Sinais de bom augúrio. Mas não houve santo que desse jeito!

    Ciao!

  • Historias antigas…

    Nossa avó morava com a gente.

    Aliás, morava é modo de dizer. Ela fazia parte da casa. Era como a mesa da cozinha, o quintal, o cheiro do café e aquele relógio escurecido  na parede da cozinha, com o antigo passarinho saindo sem pedir licença, para dizer: cuco-cuco.

    Era a nossa melhor amiga.

    Minha, da Laura, dos maiores, dos pequenos, dos primos que apareciam, dos vizinhos e até do cachorro, que, se pudesse escolher, dormia só aos pés dela.

    Todo dia chegava a hora das histórias.

    E histórias não faltavam. A gente nunca sabia o que tinha acontecido de verdade e o que ela aumentava só para deixar o causo melhor. Mas isso pouco importava. O bom era ficar ali ouvindo, enquanto ela mudava a voz para cada personagem, imitava homem bravo, galo cantando e até o cuco do relógio.

    — Vocês lembram do Neguinho do Pastoreio?

    — Aquele que ajuda a encontrar coisa perdida? — alguém respondia.

    — Esse mesmo. Pronto. Bastava isso. A gente se aquietava. Ela ajeitava os óculos, cruzava as mãos no colo e começava.

    — Pois uma vez ele ajudou a encontrar um menino.

    E lá vinha o causo.

    O menino gostava de ver as comitivas passando pela estrada. Quando ouvia o berrante, largava o que estivesse fazendo e corria para a porteira da fazenda.

    Naquele dia, subiu na cerca. Depois no mourão. E acabou sentado lá em cima, todo importante, como se fosse dono da estrada.

    A boiada vinha bonita.

    Gado que não acabava mais.       Peões firmes nos cavalos.               Tudo seguindo devagar, naquele passo de procissão do campo.

    Até que veio um redemoinho de areia.

    — E aí, vó?

    — Aí quase deu o estouro da boiada.

    Ela falava isso arregalando os olhos, e pronto, todo mundo já sentia que a coisa era séria.

    A poeira subiu, os bois se agitaram, os peões perderam a visão por alguns instantes. Quando a ventania passou, a boiada estava ali, mais ou menos nos eixos.

    Mas o menino tinha sumido.

    Chamaram. Procuraram de um lado. Procuraram do outro.

    Nada.

    O chefe da comitiva desceu do cavalo, tirou o chapéu, ajoelhou-se no chão e fez uma oração ao Neguinho do Pastoreio.

    Mal terminou o pedido, ouviu-se um choro.

    O menino estava caído atrás da placa grande da fazenda, coberto de poeira, assustado, mas inteiro.

    Tinha despencado do mourão durante a ventania.

    — Foi o Neguinho que salvou ele, vó?

    — Foi quem ajudou a achar.

    E ela encerrava assim.

    Sem jurar.

    Sem duvidar.

    Deixando a gente acreditar no tanto que quisesse.

    Hoje, quando penso nisso, fico imaginando que história minha avó contaria do mundo atual.

    Talvez eu chegasse aflita, com a bolsa revirada, dizendo:

    — Vó, perdi meu celular.

    Ela nem levantaria muito os olhos.

    — Já procurou direito?

    — Já.

    — Na gaveta?

    — Foi onde procurei primeiro.

    — Debaixo da almofada?

    — Também.

    Aí ela suspiraria, com aquela paciência antiga que só avó tem, e diria:

    — Então pede ajuda ao Neguinho do Pastoreio.

    — Mas, vó, como ele vai achar celular?

    E ela, muito séria:

    — Minha filha, hoje em dia até santo deve usar GPS.

  • A voz do destino

    Matilde ficou surpresa quando soube que Eulália, uma velha amiga, tinha se separado de Rodolfo. Chegara a sair com os dois e, apesar de uma pequena cena de ciúme de Eulália (o marido era vistoso e simpático), teve a impressão de que eles se entendiam muito bem. Resolveu ligar para a amiga, que talvez precisasse de consolo nesse momento difícil.

    Tentou mais de uma vez, e ninguém atendia; atribuiu o silêncio à depressão pela qual a outra deveria estar passando. Na quarta tentativa, ouviu a voz conhecida do outro lado. Eulália não parecia abatida. Matilde confessou a surpresa e, por solidariedade, quis saber o que tinha acontecido.   

    – Incompatibilidades, amiga. A gente tinha gostos diferentes. Em muitas coisas. No começo, deu para suportar. Com o tempo, foi ficando um saco!

    – Puxa! Eu não imaginava isso.  Achei que vocês se afinavam.

    – Eram muitas as discordâncias – suspirou. E, sem que a amiga perguntasse, começou a enumerar algumas.  

    – Por exemplo, eu gosto de praia; ele preferia viajar para o interior. Se eu não protestasse, todo fim de semana tínhamos que pegar uma estrada – em grande parte de terra! – para ele visitar um tio e tomar cerveja com os primos.

    – Trocar o mar, as ondas, o céu azul por um sítio nos cafundós não é nada agradável – confirmou a outra.

    – Tinha também a questão do gosto musical. Eu adoro música romântica, dessas que fazem a gente sonhar. Ele preferia reggae, punk e outras do tipo. Muitas vezes eu me trancava no quarto por causa do barulho.

    – Nossa! Música tem que trazer paz de espírito. Mas eu acho que, com boa vontade, vocês poderiam ter chegado a um acordo. Quando existe amor…

    – “Quando existe amor”, disse bem. Pois o amor acaba se não for estimulado. Eram muitas as diferenças, inclusive na comida.

    – Na comida também?  

    – Pois é. Eu prefiro coisas leves, como legumes e verduras. Ele gostava mais de picanha, linguiça, toucinho. Era fã de gordura animal. Quando eu como essas coisas, fico com azia.

    Matilde terminou se convencendo de que, com todas essas discordâncias, os dois não podiam mesmo permanecer juntos. Ficou feliz por ver que a amiga parecia ter aceitado a situação, e depois dessa conversa passaram um tempo sem se ver.  

    Curiosamente, a lembrança de Eulalia lhe voltou por ocasião de um encontro com Rodolfo, o ex-marido. Foi na praça de alimentação de um shopping. Há muito tempo não o via e estranhou que ele estivesse ali sozinho, bebericando uma cerveja. Cumprimentaram-se, e Rodolfo chamou-a para se sentar com ele; a primeira pergunta que fez foi:

    – Você soube?

    – Soube. Fiquei triste por vocês. Pareciam se dar tão bem. 

    – Tudo deu certo por um tempo, mas depois deixamos de nos entender.

    Ao contrário do que Eulália fizera com a amiga, Rodolfo não relatou as diferenças entre os dois; assumiu um tom de filosófica resignação, ponderando que nada dura para sempre e que a pessoa deve estar preparada para as perdas que podem vir. Em seguida agradeceu o interesse de Matilde e procurou mudar de assunto, querendo saber como ela estava, o que fazia. Lembrou que, na ocasião em que os três saíram juntos, Matilde se ressentia do fim de uma ligação amorosa.    

    – Vivemos situações parecidas – observou com uma ponta de ironia.   

    – Pois é – ela riu. Fez uma pausa e completou: – As pessoas são diferentes.

    –  Havia incompatibilidades entre vocês?

    – Várias. Ele era muito urbano, gostava de praia, sol. Já eu prefiro o interior, onde a vida é mais simples. Quase primitiva.  

    – Você sabe que eu também sou assim?

    – É mesmo?! Eu não imaginava.

    – É – confirmou Rodolfo, rindo da coincidência.  

    – E tem outra coisa. Nosso gosto musical era muito diferente. Ele gostava de música que faz sonhar, fugir da realidade. Eu, pelo contrário, prefiro as que estão mais próximas da experiência das pessoas. Punk e reggae, por exemplo, que trazem a voz de grupos marginalizados.  

    – É verdade, eles têm isso em comum – concordou Rodolfo, com um leve brilho nos olhos – Você é bem-informada.

    Falaram de outros assuntos, até que chegou a hora de se despedirem. Matilde alegou que não podia mais demorar, pois no dia seguinte iria a uma feijoada na casa de parentes e fora encarregada de preparar umas carnes.

    – Você gosta? – ele perguntou

    – Muito! Adoro uma feijoada com linguiça, costelinha, carne seca. Sei que isso não é salutar… Mas não consigo resistir. Por isso sou requisitada para esse tipo de preparo.    

      Rodolfo riu de uma forma que chamou a atenção de Matilde. 

    – Por que está rindo assim?

    – Nada. É que nossos gostos são memo muito parecidos!

    – Coincidência – ela ponderou.

    – A gente poderia se encontrar mais vezes. Que tal?

    – Claro. Vou lhe passar o número do meu zap.   

    E assim iniciaram um namoro que terminaria em casamento.

    Anos depois, lembrando o encontro em que percebera as afinidades que havia entre ambos, Rodolfo comentou que não acreditava em coincidências.

    – Há nelas o dedo do destino.

    Matilde sorriu, interiormente concordando. Certamente foi o destino que a fez, naquela noite, ligar para Eulália com o intuito de a consolar. Não houve necessidade de consolo, mas ela soube escutar muito bem a amiga.

  • E O BRASIL FOI EMBORA

    É… Perdemos o jogo…

    E o Brasil foi embora!

    Foi-se embora a copa e o sonho… Mas qual sonho?

    Não saímos da copa no jogo contra a Noruega! Tínhamos saído bem antes, quando perdemos de 7x 1 para a Alemanha. Quando quase ficamos fora do torneio com uma péssima campanha nas eliminatórias.

    Não temos mais um futebol ofensivo e vistoso. O futebol brasileiro não contagia mais! O futebol brasileiro não empolga!

    Foi-se há muito tempo o que chamávamos de futebol brasileiro.

    Não há mais dribles desconcertantes aos montes!

    Não há mais especialistas em cobranças de falta.

    Quase nunca se chuta de longe!

    O que aconteceu com o nosso futebol?

    Os gênios da bola já não existem na seleção!

    Perdemos a garra, o brilho, o viço…

    Perdemos a ginga, a criatividade e a ousadia!

    Africanos, asiáticos e, sobretudo, europeus, evoluíram significativamente…

    O Brasil? Parou no tempo e vive das sombras e das glórias do passado!

    Além disso, os interesses políticos e financeiros, como as malfadadas BETS, ajudaram a arruinar ainda mais o cenário já
    desastroso.

    Costuma-se dizer que não existe mais bobo no futebol, mas, infelizmente, tenho que discordar. Nós somos os bobos! Jogamos de forma lenta e previsível. Não temos a disciplina tática e deixamos de ter o nosso diferencial: a improvisação!

    O final da partida, com a atitude infantil de Neymar, foi uma melancólica cena final de um dramalhão mexicano.

    Destemperado, o camisa 10 não correu para o meio de campo para recomeçar a partida e tentar o milagre. Ao contrário, preferiu bater boca com o goleiro e gastar o escasso tempo!

    E perdemos o jogo, o respeito e a nossa própria imagem!

    Resta, agora, tirar a chamada lição. Uma lição de humildade e de reinvenção! E a reinvenção é urgente!

    Pendurar as chuteiras? Isso não pode ser feito porque a amarelinha já escreveu uma história que não pode parar!

  • Poder desarmado

    Na esquina da minha memória, moram dois personagens. O primeiro é o Senhor da Chave. Um homem corpulento, de trajes impecáveis, que carrega no bolso do colete um único objeto: uma chave antiga, pesada, que não abre porta alguma que eu conheça. Ele a exibe não como quem abre, mas como quem pode abrir. Seu poder está no tilintar metálico quando caminha, no gesto de tocar o bolso como quem confirma uma arma secreta. Ele fala pouco, mas quando fala, as pessoas se inclinam levemente, como gravetos sob um vento súbito. Do outro lado da rua, na sombra de uma árvore, está a Menina do Livro. Não é mais criança, mas carrega no rosto a perplexidade perpétua de quem está sempre descobrindo algo. Seus livros são velhos, emprestados, com anotações nas margens. Ela não tem chave alguma, mas sabe coisas: sabe por que o musgo cresce no lado norte dos troncos, conhece a história da rua antes do asfalto, decifra os padrões das nuvens antes da chuva. Seu saber é silencioso, despretensioso, como o zumbido de abelhas numa colmeia distante.

    Por anos, achei que poder e saber eram duas ruas paralelas que nunca se cruzavam. O poder era barulhento, imediato, concreto. O saber era paciente, acumulativo, às vezes invisível.

    Até o dia em que a chuva forte alagou nosso bairro. O Senhor da Chave saiu à porta, tilintando seu símbolo, dando ordens. “Fechem as comportas!”. As pessoas corriam, mas a água subia, desobediente, sem hierarquias. Foi então que a Menina do Livro, de calça encharcada, apontou para o beco dos fundos. “A água não vem só do rio, vem das antigas galerias romanas que passam debaixo do mercado. Estão entupidas com entulho da obra nova. É por ali que ela força a passagem.” Ela sabia da história que os mapas não mostravam, da rede subterrânea que os tubos modernos ignoravam. O Senhor da Chave parou, olhou para a chave no bolso, e pela primeira vez, seu poder parecia pequeno. O que se seguiu foi uma dança curiosa. O poder desarmado, precisou se inclinar ao saber para se materializar. Precisou do poder de convocar pessoas, máquinas e recursos. Juntos, o homem com sua autoridade e a menina com seu conhecimento, dirigiram o esforço para o lugar certo. A água recuou. O Senhor da Chave agora conversa com a Menina do Livro. Pergunta sobre histórias, sobre os nomes antigos das ruas. Ela, por sua vez, aprendeu algo sobre o peso das decisões, sobre a solidão de quem precisa escolher por muitos, sobre como uma chave simbólica pode abrir espaços para que o saber chegue onde é necessário. O verdadeiro mistério talvez não esteja em escolher entre um e outro, mas em reconhecer que eles são irmãos separados na infância. Quando vejo o Senhor da Chave e a Menina do Livro conversando na esquina, percebo que a maior sabedoria seja saber quando ceder o poder. A vida é um permanente aprender quando tilintar, e quando ficar quieto, apreciando a paisagem.

  • Fragmentos de mais uma noite em claro

    Abro os olhos e vejo que o sol vespertino de um certo domingo ainda teima em transmitir um pouco de vida a um fétido e pestilento cômodo. Pelas frestas da janela, a luz do sol ilumina meu quarto, aparentemente vandalizado por poderosos demônios desconhecidos. Aos poucos, recobro minhas forças e sinto o peso de mais uma interminável e irresponsável bebedeira. Em meio a uma breve crise de consciência, escuto uma batida na porta.

    —  Carlos Alberto! Você está bem? —  pergunta Miriam, minha vizinha de porta.

    —  Vou deixar aqui um remedinho pra você. Toma! Vai melhorar! —  insiste aquela que talvez tenha sido meu mais fiel anjo da guarda.

    Com a boca seca e a cabeça latejante, tento refazer, mentalmente, o percurso da noite passada. Mas é tudo tão confuso! Memória e imaginação misturam-se como duas amantes que compartilham entre si os mesmos lençóis. Um turbilhão de imagens e de sons passa pela minha cabeça, sem que eu possa compreender o que significa tudo aquilo.

    Vejo em minha frente uma rua iluminada, algumas mesas sobre a calçada, muitas pessoas animadas. O vaivém de copos e de garrafas enfeitiça este passeante já desobrigado de eventuais compromissos. O sorriso naquele rosto dá continuidade a uma sequência de ações e reações não planejada para aquela noite. Já não estou mais sozinho, pois escuto sua voz alternar momentos de doçura com outros de altivez. Com facilidade, a conversa flui e explora diversos assuntos: música, literatura, política e até futebol. A atração provocada pelo seu olhar só poderia ser mantida por seu humor inteligente e sarcástico. O gosto de seus lábios e a maciez de sua pele impelem-me a querer mais de sua companhia.

    —  Já está tarde, preciso ir embora —  diz aquela com quem combino um próximo encontro.

    Não estou mais em sua companhia. Dou um passo à frente, respiro fundo e vejo outras pessoas igualmente alvoroçadas. O ambiente é outro, mas a música alta e a excitação generalizada sugerem que a noite ainda chegará ao seu ápice. Três mesas de sinuca dispostas ao fundo do salão oferecem mais uma opção de diversão a uma pequena súcia de boêmios. Parece que a saudável confraternização do fim de semana começa a dar lugar para os excessos de uma noite imprevisível. Mas eu continuo lá… Necessito permanecer onde estou! Não sei como exatamente, mas aquilo tudo me dá força para respirar com mais vigor. As amarguras de uma vida mal concebida são anestesiadas a cada gole daquela bebida enganadoramente milagrosa.

    De repente, o barulho da jogatina é interrompido por gritos e alguns copos quebrados. A algazarra toma conta do bar, alguns tentam se proteger, outros são enxotados de lá. Minha mente e meu corpo já não interagem da mesma forma. Minhas percepções de tempo e de espaço alteraram-se, completamente. Enfim, as muitas lacunas que se apresentam em minha memória começam a distorcer a narrativa que eu tentava, em vão, construir.

    Vozes altissonantes e rostos desfigurados surgem aqui e acolá. Como se estivesse em um baile de máscaras, não consigo mais identificar aqueles que me cercam. Não são amigos, pois querem sugar o pouco de energia que ainda me resta. O cenário, mais uma vez, mudou! Não há mais mesas, não há mais alegria. São poucos os remanescentes. O fogo daquele isqueiro é ofuscado pelo farol dos poucos carros que cruzam a avenida em alta velocidade. Não tenho ideia de que horas são, mas os pássaros já começaram a cantoria. Não sei onde estou, mas começo a caminhar. De alguma maneira, sei que ainda tenho um endereço para onde me dirigir. Passa uma viatura de polícia, um rapaz faz a sua corrida matinal, a senhora faz suas compras na feira do bairro. Um novo dia começou! E eu aqui… Desgraçado e só!

    Não adianta negar e tentar se enganar, inconsequentemente. Se continuar na mesma toada, essa vida de excessos ainda vai me matar! Chegou o momento de tomar uma resolução e de acabar com tudo isso. Vou atender o telefone, organizar essa bagunça e dar início a uma vida nova!

    —  Alô! Carlos Alberto, você vai demorar? Esqueceu que hoje é aniversário do Marcelo?! Tá todo mundo aqui! Não se esqueça de trazer algumas bebidas! – ordena uma voz conhecida, porém não identificada.

    Na verdade, as palavras que acabei de ouvir soaram mais como um cândido pedido do que como uma maliciosa ordem. E que bom saber que sentiram minha falta! Posso dar uma rápida passada por lá, dar um abraço no aniversariante e voltar cedo para casa. Quer saber?! Que se foda tudo! Não fiz mal a ninguém, e tudo o que fiz foi com o meu dinheiro. Vou tomar um banho, comer alguma coisa e ir, sim, àquela festa! Somente amanhã será uma nova segunda-feira, dia de valorosas resoluções e de intrépidos recomeços.

  • Poema #04: Motivo

     ( A Cecília)

    Antes que chegue o dia da mudez,
    Cantemos!
    Cantemos elegias
    Cantemos heavy
    Cantemos baladas
    Cantemos !
    Que em nós haja uma eterna canção
    Indescritivelmente bela,
    Inevitavelmente original
    Por sermos, cada um de nós, 
    a própria melodia, 
    a harmonia curativa 
    No desconcerto do mundo.

  • “digitando… ”

    |

    Um traço vertical. Pisca, pensativo, opressivo; poético.

    Acho que assim, quase girando o travessão introdutório, na busca pela correspondência de (um) outro, nos injetamos, como tentativa científica, numa releitura d’um passado literário:

    Trocamos cartas, quase como que acendendo um cigarro à mesa de um café de iluminação lúgubre, jazz no fundo, um barman meio ranzinza a enxugar louças e vidros, solitário.

    Uísque.

    Na única mesa redonda ocupada, um casal.
    Casal de poetas conhecendo-se.
    Flertando com a rima que enxerga o narrativo; o tom, e não a beleza do outro.
    Há ausência do encontro.
    Há frequência do oposto.

    Um traço vertical.

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    De repente, a linha imperativa deita-se

    _

    Desmancha-se em circunferências pululantes. Três.

    …

    Reticências

    Duas pessoas podem, paradoxalmente, preencher xícaras fumegantes à distância. Dedilhar acordes. Entoar palavras baixinho costurando o tempo e qualquer afastamento.

    Encontramo-nos

    justos, apertados, acariciados e no não-existir-e-esperar de uma tela iluminada ao alcance das mãos

    Dedos que abraçam uma caneta esferográfica: reflito.

    Na mão que me rotula destra ou canhota, dedos avançam na comunicação do meu corpo estrutura emocional e sensorial que não mais espera e esperneia para além tudo instantaneamente.

    Na margem branca entre uma caneta e outra

    no pulsar ritmado de um cursor em linha rígida, ditam e de gélido recado – cheia
    de nuvens – do outro lado da interface, espera

    “digitando… ”

    hesitação
    o quase
    o inteiro no “pronto.., foi ”

    Digitando a paga -se an tes da palavra,

    Ganhou forma na perda de seu sentido

    A carta incendeia ainda no ventre da máquina.

  • A vida como deveria ser

    A gente pensa na vida como algo a ser resolvido depois porque tem urgências urgentíssimas sempre por fazer!

    E esquece, com isso, a flor, o amor, o amar, o mar e as rimas todas que estão no ar.

    A gente pensa que tem tempo, mas tempo, na verdade, não há!

    E esquece aquele encontro, o jogo com os amigos, simplesmente ficar de papo para o ar!

    A gente deixa o cinza e o concreto e o sinal fechado interromperem a fluidez das relações, a espontaneidade das coisas e, quando vê, não há mais nada o que fazer.

    A urgência mesmo é a própria vida nas suas explosões e contradições.

    A urgência simples das coisas é viver a vida a cada dia…

    A urgência urgentíssima é sentir, olhar, perceber, respirar, encontrar, fazer acontecer na conversa na varanda entre samambaias.

    Nas risadas entre um jogo e outro de futebol. Nos olhares cúmplices de irmãos trocados na cozinha e nas palavras que deveriam ser ditas e foram ditas… A vida no seu cotidiano!

    Que tal escrever aquele poema que estava esperando sair do papel?

    Que tal subir uma montanha e gastar os pés e o calçado?

    Que tal parar tudo e escutar o som da própria vida?

    A vida como deveria ser…

  • BELINDA diante do espelho

    Belinda talvez fosse uma sonhadora. Incurável.

    Não era bonita. Sonhava com o conceito de formosura, camuflado em todas as coisas. Quando ouvia Milton Nascimento na introdução de O que será? (À flor da pele), conseguia enxergar toda a beleza.

    Ouvia dos amigos que o lado físico não era tão importante. Havia o exótico, o magnetismo, a beleza interior. Belinda fingia concordar, mas passava horas no espelho, buscando encobrir vestígios de imperfeição no seu corpo. A verdade era que sempre dera total atenção à aparência.

    Preocupada com o visual, fixava-se nos detalhes, assimetrias ou características que fugiam aos padrões de beleza. Implicava com estrias, sardas, celulite e qualquer mancha na pele. Seu maior problema era o que os outros achariam dela.

    Tinha os dentes um pouco afastados, mas não se dava conta que eram um charme. Os ombros, um pouco largos, tentava disfarçar com vestidos. Achava os lábios grossos, sem perceber serem ótimos para beijar. A longa cabeleira ruiva recebia exagerada hidratação com óleos vegetais e queratina. Toda noite, antes de se deitar, o ritual de limpeza facial, sem que conseguisse evitar o constante aparecimento de espinhas. Sua preocupação com a imagem acabou por se tornar uma obsessão.

    Era complicado, mas teria de superar seu complexo de feiura. Está certo que seu nariz meio adunco não cooperava. Mas ninguém era perfeito. Seus um metro e cinquenta e dois de altura podiam ser resolvidos com saltos plataforma. Baixinha, mas com classe e equilíbrio.

    A fim de se sentir mais confiante, fez uma tatuagem com os dizeres “Eu não sou a minha imagem” na parte inferior direita do abdômen, por cima da cicatriz da operação de apendicite.

    Não costumava sair de casa. Adorava ver filmes, mas nunca ia ao cinema. Preferia a televisão. Revia diversas vezes a versão clássica de Zefirelli do amor trágico de Romeu e Julieta. Sua cena predileta era quando Julieta tirava a própria vida ao ver o amante morto. Belinda era dramática.

    Essencial era evitar a negação psicológica. Até admitia a existência de gordura localizada na cintura, mas considerava um suplício abrir mão da batata frita, do pudim de leite e dos bombons. Juntaria dinheiro para comprar umas canetas emagrecedoras. O importante era ela se sentir feliz com o seu corpo. Belinda seguia tentando.

    Numa noite, enquanto retocava a maquiagem, a grande epifania. Resolveu apagar a luz e olhar-se no escuro. Pela primeira vez viu, no breu, o seu verdadeiro rosto. Ou aquilo que gostaria de ter visto. Acendeu a luz e, com calma, retirou toda a maquiagem e reconheceu seu melhor ângulo na coragem de se mostrar como era, sem artifícios ou truques. Chegou mais para perto do espelho: Belinda, cabelos vermelhos, sardas, meio dentuça, bocão, acima do peso, celulite, espinhas pela cara e imperfeita como toda gente.

    Sempre que ouvia a ária de La Bohème, quando Mimi (Lucia) canta a sua paixão pelo primeiro sol da primavera, as lágrimas rolavam pela face, tomada de espinhas. No fundo, era uma feia romântica. Incorrigível.

  • Quando duas palavras resolvem morar juntas

    “Sentipensante” — A primeira vez que li, acho que num texto relacionado à física quântica (o que só piorou a situação), achei que era um erro de digitação. Fiquei curiosa tentando decifrar o significado dessa estranha palavra, para mim meio parecida com CatDog (lembram do seriado?) ou de uma aberração ainda maior: o Feijoaçaí. Só de pensar, me embrulha o estômago.

    Corajosa que sou, fui em frente na leitura e descobri que “sentipensante” é uma palavra híbrida, dessas que misturam o frio da cabeça com o calor do peito, sem pedir licença para nenhuma das duas. Lindo isso, não? Fiquei íntima dela e agora, quando alguém questiona uma decisão minha que briga com a razão ou com a emoção, eu logo retruco: sou Sentipensante e coloco um ponto final.

    Logo imaginei que “Sentipensante” poderia ter vários amigos híbridos — quem sabe até formassem um grupinho nas redes sociais, daqueles discretos, mas cheios de opinião.

    Fui atrás e descobri a Escrevivência, boa para um papo longo de botequim. Lá nos sentamos, e ela me lembrou de que não existe escrita sem vivência — queijo com goiabada: um não existe sem o outro. O que estava eu fazendo, então, que não entrava a fundo na minha vida vivida para colocar no papel?

    Comecei, então, a rebobinar a meu passado, à procura daquele negativo nunca revelado que ficara na minha câmara escura, sem nunca participar do set da minha escrita.

    Mas aí a Experipensante, que observava o papo de outra mesa, se meteu: alto lá! Não se pensa antes para depois viver, pensa-se vivendo. Então corre lá viver isso tudo que brotou aqui. E eu, sem pedir licença — e talvez um pouco empolgada demais — inaugurei uma outra palavra: Expersentipensante. Até sorri da minha ousadia. Só faltava colocá-la em prática.

    Resumo da ópera: a língua inventa palavras porque a vida não cabe mais no dicionário. Aí surgem palavras híbridas que, como na vida, decidem morar juntas — mesmo que o dicionário torça o nariz.

  • Quando Jesus encontrou os Orixás

    Certas manhãs nascem diferentes. Não porque o sol brilhe mais intenso, mas porque o mundo resolve cochichar histórias para quem tem ouvidos para escutar.

    Numa dessas manhãs, Jesus caminhava descalço, sozinho, por uma estrada de terra vermelha. O chão ainda guardava o frescor do orvalho, e a poeira fina subia entre seus dedos a cada passo. Carregava ele um manto simples, um sorriso sereno e o hábito de saudar árvores e animais.

    Ao chegar a uma velha encruzilhada, sob a poeira suspensa, o ar pareceu subitamente mais denso. Ali sentado sobre uma pedra pontiaguda, encontrou um homem vestindo vermelho e preto e um chapéu desabado que sombreava os olhos vivos. Girava uma bengala entre os dedos e exibia um sorriso enigmático. O silêncio que os cercava era quase palpável, como se o tempo hesitasse diante do cruzamento.

    —  Olá, viajante. O dia amanheceu largo para quem anda sozinho — disse o homem, voz rouca, cortando o silêncio com a precisão de uma lâmina afiada.

    — A paz esteja convosco — respondeu Jesus.

    O homem inclinou a cabeça, o sorriso expandindo-se em desafio.

    — Paz é coisa que se procura no fim. Aqui no meio, o que manda é a escolha. E toda escolha cobra seu pedágio.

    Era Exu. Não o das histórias mal contadas, personagem sombrio dos malfeitos que o preconceito inventou. Era o senhor das passagens, das escolhas, da palavra que abre caminhos e revela tropeços.

    — Vai para onde? — perguntou Exu, tocando levemente a bengala ao solo, testando a firmeza do andarilho.

    — Para onde houver alguém precisando de uma palavra de esperança, replicou Jesus sem recuar.

    — Isso é o que não falta nesse mundinho.

    Ambos sorriram. A tensão desfez-se no ar

    Jesus e Exu continuaram caminhando juntos.

    De repente, a calmaria foi interrompida. O vento começou a dançar de um jeito diferente, soprando em rápidas lufadas que ergueram a poeira e fizeram as folhas girar como se estivessem executando uma coreografia antiga. Envolta por tecidos claros que pareciam feitos do próprio ar, surgiu uma vistosa mulher, com os olhos faiscando como relâmpagos contidos.

    — Bons ventos os trazem, forasteiros — disse ela, a voz vibrando como um trovão distante.

    Era Iansã.

    — As pessoas temem as tormentas, mas ignoram que é o vento quem limpa o céu. E leva embora o que insiste em ficar.

    Jesus, segurando firme seus longos cabelos esvoaçantes e seu manto que se rebelava no corpo, respondeu:

    — Às vezes, é preciso perder o que nos prende para encontrar o que nos chama.

    Iansã sorriu satisfeita e o vento amainou, transformando-se numa brisa suave.

    Enquanto Exu retornava à sua morada na encruzilhada, Jesus seguia em frente.

    O calor do dia começou a apertar e surgiu o rumor de água corrente.

    À margem de um riacho cristalino, onde o aroma de lírios e água fresca acalmavam os sentidos, emerge a silhueta cativante de Oxum. O reflexo do sol na água criava faíscas douradas ao redor de suas mãos. Observava ela os peixes bailarem entre as pedras.

    Ao ver o andarilho exausto, ela prontamente lhe ofereceu água em uma cuia reluzente.

    — Toda sede merece respeito.

    Jesus, sentindo-se acolhido, aceitou de bom grado e agradeceu.

    O contraste entre a urgência do mundo e a calmaria daquele córrego era profundo. Oxum olhou nos olhos dele e perguntou:

    — Reconheço em você um sábio. Então, me esclareça, por favor, essa questão que me tortura: por que tanta gente acredita que a força necessita de barulho?

    — Porque não lhes foi ensinado escutar o silêncio.

    Ela sorriu com a mesma felicidade que invade um curso da água quando os raios do sol da manhã acariciam sua superfície.

    Jesus continuou sua jornada de destino incerto, deixando o vale e subindo a serra. onde o vento uivava e a gravidade parecia confrontar a pequenez e a fragilidade humanas, quando avistou Xangô.

    Recolhido em seu trono de pedra bruta, observava o horizonte como quem pesa as coisas do mundo numa balança invisível.

    — Justiça… — balbuciou, a voz grave reverberando no paredão de pedra, como querendo concluir um pensamento inacabado. — Todos imploram por ela.

    Ele olhou para Jesus, medindo a estatura espiritual daquele homem franzino. Fez uma pausa e completou:

    — Mas o que os homens desejam é apenas vencer.

    Jesus assentiu, sentindo o peso daquela verdade esmagadora.

    — Amar a justiça exige coragem. Amar a vitória nem tanto.

    Os dois trocaram um olhar de cumplicidade. abençoando o veredicto silencioso que compartilhavam.

    Jesus prosseguiu. Ao descer a montanha, a vegetação fechou-se em uma mata densa. O ar tornou-se úmido, com cheiro de musgo, resina e folhas pisadas.

    Na beira da mata, um homem de porte firme e olhar certeiro observava as copas das árvores, perfeitamente camuflado na proteção das sombras. Um pequeno pássaro pousou-lhe no ombro, sem medo.

    Era Oxóssi. A imensidão da floresta parecia intimidar o intruso, mas Jesus avançou com reverência e sem temor. O caçador apresentou-se com as seguintes palavras:

    — A floresta nunca fala alto — disse — Mesmo assim, nada do que acontece lhe escapa.

    Jesus acercou-se com mais um passo e passou a mão sobre o tronco rugoso de uma árvore centenária, sentido a vida pulsar sob a casca grossa.

    — Meu Pai também costuma ensinar usando sementes.

    Oxóssi abriu um sorriso cordial, transformando a tensão da mata em hospitalidade.

    — Sei disso. Ele é um excelente jardineiro. Formaríamos uma ótima dupla.

    Jesus deixou-o, em direção a uma praia isolada, onde as ondas vinham e iam como se o mar, através delas, respirasse. O sal grudava-lhe na pele e o som rítmico do oceano quebrava na areia branca.

    Ali avistou Iemanjá.

    Vestida com as cores da espuma, ela observava o oceano com a serenidade de quem reconhece todas as lágrimas que nele desaguam. O horizonte infinito trazia uma melancolia profunda, quase dolorosa.

    — Os seres humanos choram muito.

    Jesus aproximou-se, parando onde a água borbulhante alcançava seus pés. Respondeu:

    — Porque amam muito.

    Ela concordou, com o olhar medindo a ida e a vinda das marés.

    — E continuam amando, mesmo depois de sofrer.

    — Talvez seja essa sua maior coragem.

    Por um instante, ninguém disse nada. Nem precisava. As ondas falaram por ambos, engolindo a dor do mundo no balanço das águas.

    Quando o sol começou a se esconder, tingindo o céu de tons de brasa e púrpura, Exu reapareceu, na margem da estrada.

    — Engraçado…, comentou, surgindo da penumbra.

    — O quê? — perguntou Jesus, sentando-se a seu lado.

    — Estava aqui meditando: cada povo inventa um jeito diferente de procurar o sagrado.

    Jesus, com olhar perdido no horizonte, retrucou:

    — Verdade. E, quase sempre, se desentendem, achando que estão do lado da razão. Como se a razão tivesse um lado.

    Exu deu uma sonora gargalhada que ecoou ao longe, afugentando os últimos pássaros do dia.

    — Sendo que o caminho permanece lá. Indiferente às batalhas que se fazem em seu nome.

    Como velhos amigos, os dois sentaram-se na mesma encruzilhada onde tudo havia começado, ensaiando um final para o encontro.

    Alguns passantes estranharam a cena. Uns viram apenas dois homens comuns conversando. Outros juravam ter presenciado uma roda de luz que os cercava. Houve quem dissesse que eram conhecidos de longa data. Também apareceu quem garantisse que a cena não passava de miragem.

    O certo é que ninguém escutou o que falavam. Talvez porque certas conversas não tenham sido feitas para ser reveladas.

    Quando a noite caiu de vez, cobrindo a paisagem com um manto de estrelas, cada um retomou a direção que lhe cabia.

    Antes de partir, Exu, ajeitando o chapéu, perguntou com respeito:

    — Então, Mestre (permita-me chamá-lo assim?). Quando nos veremos de novo?

    Jesus respondeu:

    — Todo encontro sincero deixa uma porta aberta.

    Exu bateu a ponta da bengala no chão e um estalo seco ecoou bem longe.

    — Que os caminhos então permaneçam abertos.

    — Os corações também.

    Se tal encontro aconteceu de verdade, ninguém sabe com certeza. Mas quem relata costuma terminar sempre do mesmo jeito: dizendo que, naquela encruzilhada, ninguém saiu com a última palavra.

  • Despreparar

    Ou preparar. Quem sabe?

    A vida exige aprendizados. Será que nos preparamos para a luta diária ou aprendemos tudo enquanto ela acontece?

    Em que momento soubemos nos equilibrar sobre um salto alto, tirar os sapatos para brincar no parque com os filhos, passar no mercado na volta do serviço, engolir o almoço às pressas e correr para a faculdade?

    Quase sem perceber, deixamos de ser cuidados para nos tornar cuidadores. Talvez nunca tenha existido um aprendizado formal. Apenas a vida acontecendo.

    Então surge uma febre repentina. Chamamos o pai. Só que ele também está aprendendo. Ontem era um rapaz sem grandes preocupações. Hoje tenta descobrir por que o bebê chora, aprende a fazê-lo arrotar, troca fraldas, anda pela casa com a criança no colo durante a madrugada. Tudo isso enquanto o pequeno tem cólicas, regurgita e volta a chorar.

    Ninguém entregou um manual.

    Faço essa reflexão e me vem à mente a ideia de que carregamos uma memória antiga, quase genética, exemplos silenciosos e uma rede invisível de proteção.

    Há sempre os anjos da guarda da vida real: mães, tias, vizinhas, amigas, sogras, primas.

    Há também as heroínas dos livros, dos filmes e das histórias. Mesmo sem perceber, somos influenciados por elas.

    Talvez seja assim que sobrevivemos. Escutamos a música e, intuitivamente, sabemos dançar.

    É por isso que acredito nessa sabedoria sem nome. Uma mistura de experiência, instinto, coragem e referências que vamos recolhendo ao longo da vida.

    Algumas nascem conosco. Outras nos são emprestadas por quem passou antes de nós.

    Depois de tantos anos sendo exigidos pela vida, atravessando fases tão diferentes, é natural que chegue o tempo de colher um pouco do que plantamos e aproveitar as benesses da terceira idade.

    Também aprenderemos a envelhecer. Como aprendemos a ser adultos. Na prática.

    Talvez a velhice não peça tantos aprendizados novos. Ela nos convide apenas a desaprender. Que não há culpa de pensar em nós primeiro. Nem ter a necessidade de resolver tudo.

    Desaprender a acreditar que nossa felicidade deve esperar a de todos os outros.

    Acredito que precisemos nos despreparar.

    Deixar pelo caminho algumas exigências que fizeram sentido durante tantos anos, mas que já cumpriram sua missão.

    Quero crer que envelhecer também seja isso: reconhecer que continuo responsável pela minha vida, mas que agora posso escolher um ritmo diferente.

    Porque viver nunca foi uma escolha. Aprender a viver, sim.

    E, depois de ajudar a sedimentar o caminho de quem um dia dependeu de nós, talvez seja chegada a hora de caminharmos com mais leveza pelo nosso próprio. Intuitivamente, mais uma vez!

    🌷

  • No fim das contas

    Dizem que Clara tinha um termômetro dentro do peito. Não daqueles de mercúrio, prateados e precisos, mas um daqueles antigos, de líquido azul, que oscila com lentidão, sensível até à sombra de uma nuvem. Enquanto a cidade fervia em seus extremos, nas correrias matinais, ela se movia com uma cadência que parecia de outro século. Seu apartamento minúsculo era seu laboratório de clima interior. As pessoas que a visitavam, esperando talvez um santuário de positividade tóxica ou uma fria fortaleza de racionalidade, saíam confusas. Havia espaço para tudo. Num cantinho, um travesseiro macio para os dias de tristeza fina, daquela que não precisa de discurso, apenas de um canto para se aninhar. Na estante, uma coleção de pedras lisas, frias ao toque, para quando a raiva dava uns sopros quentes por dentro e precisava ser contida na palma da mão, até esfriar. A regulação emocional não era um botão de liga e desliga, nem uma represa que contém um rio. Era mais parecido com a arte do agricultor que conhece a terra. Há hora de plantar a semente da paciência, há hora de colher o fruto da alegria, e há, principalmente, tempo de deixar o campo em repouso, quando a exaustão toma conta. Ela deixava o calor da ansiedade subir, mas abria as janelas da respiração profunda para criar uma corrente de ar.

    Seus amigos a chamavam de “a equilibrista”. Num dia de grande contrariedade no trabalho, em vez de explodir na reunião ou definhar na cama, ela se dirigia direto à feira. Comprava limões, e passava a tarde fazendo uma torta de limão e merengue, batendo os ovos com uma força concentrada e metódica, ralando a casca amarela que soltava um aroma ácido e vívido. A frustração se transformava em energia motora, e no final, tinha um doce para dividir. A emoção não havia desaparecido; havia sido cozinhada, transformada.

    O grande mal-entendido sobre regular as emoções, é achar que se trata de uma guerra a ser vencida. Um combate contra a própria humanidade. As pessoas buscavam anestesiar-se com distrações infinitas, com otimismo forçado, com uma hiperprodutividade que é apenas outra face do pânico. Queriam silenciar o termômetro interno a marteladas. Ela preferia aprender a lê-lo. Havia, é claro, os dias em que o termômetro parecia quebrar. Em que a tristeza era um oceano e não uma poça, ou a raiva um incêndio e não uma fagulha. Nesses dias, sua regulação assumia a forma mais humilde e sábia: ela recuava. Desligava o telefone. Deitava-se. Sabia que tentar “consertar” um tsunami com um balde era vaidade. Às vezes, a maior regulação está na rendição temporária, no deixar a tempestade passar, confiando na arquitetura básica do próprio ser, que sempre busca o equilíbrio. A paz, no fim das contas, não é a ausência de tempestade o maior valor, mas a habilidade de lembrar-se de como fazer uma boa torta de limão.

  • A reciclagem

    Passei a semana aturando o discursinho mequetrefe de que quase todo mundo se transforma no trânsito porque falta empatia. É isso mesmo, vou até repetir: quase todo mundo se transforma no trânsito porque falta empatia. Dá pra acreditar? Imagina só, aguentar três horas e meia sem intervalo nem cafezinho, por cinco noites seguidas, ouvindo um gordo mórbido de voz fina soltando esses impropérios, um atrás do outro. O seu vocabulário por certo tinha escolhido a empatia como termo-mãe. Uma frase terminava com empatia, outra tinha empatia no meio, logo depois, a empatia embalava mais seis ou sete palavras para que a próxima, novamente, terminasse com empatia. Empatia, empatia, empatia. PeloamordeDiós, quem aguenta?

    E pior, ele falava meio mastigado, por obrigação, como se contasse os minutos para degustar a próxima coxinha. Além disso, sequer olhava para mim ou para os outros delinquentes com a carteira suspensa. Na primeira noite, fixou os olhos em algum ponto da parede no fundo da sala e assim recitou, hora após hora, versinhos decorados, como se ensaiasse um monólogo contemplando alguma capa da Playboy. Pensando bem, acho que ele mirava mesmo um grande bolo de chocolate, babava um pouco do lado esquerdo, inclusive. Ou teve um AVC, não sei. Mas, puta merda, aquilo realmente era um longo e triste monólogo.

    Perder a carteira e ter de aguentar a conversa fiada dos taxistas e motoristas de Uber foi fichinha perto desse martírio. Cogitei até a possibilidade de ofertarem o curso de reciclagem exatamente desse jeito para nos torturar. Aliás, isso é obvio. A tortura sempre foi e sempre será uma alternativa. É aquela coisa, o seu filho fez algo terrível? Faça-o assistir aos jogos do Grêmio. Repetiu a traquinagem? Piore tudo, faça-o assistir aos jogos do Grêmio ouvindo um sertanojo universitário. Se mesmo assim não funcionar, entregue-o para adoção. Não dá, nem tudo tem conserto.

    Eu tinha. Quer dizer, eu tenho. Na verdade, eu nem merecia passar por uma reciclagem. Sejamos razoáveis, dessa vez não ameacei ninguém com um facão nem causei grandes problemas. Tudo isso por conta de três ou quatro multinhas de trânsito. Cadê a empatia do governo nessas horas? Santo Deus. Haja empatia, empatia, empatia. Aliás, aquele gordo com fala fina nunca coube dentro de um carro. É fisicamente impossível. Nem se retorcendo muito. Ele então deve ser um daqueles donos de caminhonetes gigantes com micropênis que fecham todo mundo por aí e se acham os reis da estrada. É tudo uma questão de compensação, no fim das contas, quase senso comum.

    Eu até sonhei com alguém declamando: empatia… empatia… empatia… Depois a gente surta e a culpa é nossa. Falando sério, não sei se consigo imaginar o trânsito sem xingamentos. É como a espuma do chope, sabe? Acho que o pessoal da empatia deveria considerar também o insulto como algo terapêutico. A gente sai do trabalho depois de um dia tenso, xinga um ou outro retardado no trajeto e chega em casa mais tranquilo. É isso. E tem mais: uma ofensa morna e sem ameaças, que não leve à luta corporal, não deixa de ser um xingamento com empatia.

    Não vou mentir. Apesar de tudo, esse troço repetido mil vezes no cursinho de reciclagem me obrigou a refletir sobre algumas coisas. Não muitas, é verdade. Mas, talvez eu até tire o tacape do porta-malas. Estou começando a achar que é melhor não ter armas no carro porque quase todo mundo se transforma no trânsito. Empatia é o caralho.

  • A Vida e as suas Escolhas

    E se, de repente, nos fosse dada a capacidade de vivenciar as consequências de decisões que não tomamos? Não falo, evidentemente, de questões rotineiras e banais, o que seria uma insanidade total. Mas somente de escolhas que podiam ter transformado nossas vidas por completo. Como reagiríamos, se tivéssemos a possibilidade de sentir as tempestades e as bonanças de caminhos nunca percorridos? Ainda conseguiríamos nos reconhecer por trás de tão distintas experiências?

    Diante da improbabilidade do desenvolvimento de uma tecnologia que permita tal maluquice, recorramos, pois, a um exercício mental de digressão. Como o aluno que aplica uma prova real sobre sua operação matemática inicial, poderíamos, dessa forma, especular a respeito da conveniência de nossas escolhas. Eu sei, minha cara leitora! A vida é, infinitamente, mais complexa e incerta do que uma operação matemática. Mas você também já deve ter-se imaginado como estaria agora, caso tivesse feito uma escolha diferente em algum momento de sua vida.

    Geralmente, essas conjecturas vêm às nossas mentes quando quebramos a cara ou estamos, simplesmente, com algum tempo disponível. Mas, contrariando a agitação desvairada desta cidade, não tenho podido reclamar de escassez de tempo. Poderia, aqui, enriquecer minha fala com a descrição de uma grande desilusão amorosa ou de uma demissão laboral. Mas, se assim agisse, faltaria com a verdade e sabotaria o objetivo inicial do exercício de imaginação proposto. Por mais incerto que esteja a respeito da real utilidade de tal esforço, preciso parecer convincente, não acha? A bem da verdade, o que está por trás de tudo isso é uma vã e pueril tentativa de experimentar diferentes vidas – umas melhores; outras nem tanto.

    Pergunto-me, volta e meia, o que teria acontecido comigo, se não tivesse pegado aquele ônibus, feito aquela viagem, começado uma conversa trivial com aquela jovem. Ou ainda, se tivesse escolhido outra profissão, insistido em estender aquela estadia, dito “até breve” em vez de “adeus”. Claro está que as decisões que tomamos ou deixamos de tomar podem afetar, diretamente, não apenas as nossas vidas, como as de outras pessoas também. Até mesmo aqueles que nunca vimos à nossa frente podem ser impactados por elas. Quantas pessoas alegam, por aí, ter encontrado a sua alma gêmea por acaso? Nesse sentido, o acaso nada mais foi do que o resultado de uma decisão anterior, por mais involuntário que possa ele ter sido. Ah, sim… Aquela parada rápida na cafeteria do centro da cidade teria sido tão banal, caso nunca tivesse propiciado o encontro entre dois corpos e duas mentes que se complementam tão bem! Teria eu sentido o prazer de tamanha excitação, caso não tivesse ido àquela festa supostamente tão chata e desanimada?

    Realmente, o que mais me fascina como consequência de nossas próprias escolhas são, justamente, essas relações interpessoais que estabelecemos com maior ou menor frequência. Penso que a riqueza de nossas interações sociais reflete a complexidade de uma grande teia social que construímos ao longo de nossas vidas. Quanto mais intensas e enriquecedoras forem essas nossas experiências com outras pessoas, mais resistentes serão os seus fios. Mas, além das relações amorosas e sexuais, existem os mais variados tipos de interação. Dessa forma, seria eu capaz de compreender tão precocemente o valor de uma verdadeira amizade, caso tivesse ignorado aquele jovem mais novo que me fez uma pergunta tão idiota? Ou ainda, poderia eu ter esse tipo de conversa com você, nobre leitora, caso não tivesse decidido escrever sobre a vida e seus encantos misteriosos?

    De fato, não podemos comparar o que vivemos com o que podíamos ter vivido. Além disso, é evidente que não dispomos de tanto controle sobre nossas vidas. No entanto, as frequentes contingências que se abatem sobre elas são intermediadas por resoluções que, de vez em quando, nós tomamos – mesmo que despretensiosamente. Por mais que as consequências não tenham sido planejadas e que as ações não tenham sido, profundamente, avaliadas, a bruma que esconde o que está diante de nós também faz parte das nossas vidas. Nós somos nós somente porque vivemos as agruras, os prazeres, os aprendizados e as decepções de nossas caminhadas de um jeito que somente nós podíamos ter vivido.

    Enfim, creio que não importa se um dia quisemos, realmente, estar aqui. Mais interessante é saber como chegamos a este estágio. É desse tipo de particularidade que somos feitos. Nem sempre essa singularidade será do agrado de outras pessoas. Mas, quando aprendemos a valorizá-la, ficamos mais livres para seguir nossos caminhos, por mais tortuosos que eles possam ser. Assim sendo, não existem, pois, decisões certas ou erradas! Por mais equivocadas que possam parecer, todas elas ajudaram a moldar o nosso ser.

  • A burocracia universitária que expulsa e nega o direito de voar

    É difícil ver uma grande oportunidade bater à porta e saber que as chances de dar certo são poucas.

    Digo isso porque o processo de inscrição para a mobilidade acadêmica está aberto na UFBA. Eu sempre soube que, ao concluir minha graduação, gostaria de tentar fazer mestrado no Nordeste — independentemente do estado, contanto que tivesse bolsa. Pois bem, logo na graduação apareceu essa oportunidade. O pior é que eu só a vi no início desta semana e a ignorei de primeira; afinal, não tenho condições financeiras nem rede de apoio para me ajudar a sair do Rio de Janeiro e custear a vida em outro estado.

    Deixo claro que sou beneficiária de auxílios governamentais e de permanência estudantil. É isso que me mantém viva. Sem isso, sou só mais uma pessoa em extrema vulnerabilidade social, empurrada de volta para o mercado de trabalho precário e, muitas vezes, informal. A vida acadêmica foi a minha oportunidade de sair de Belford Roxo para estar na maior universidade do Brasil em termos de ciência e cultura.

    Infelizmente, a atual política de assistência estudantil não permite que você receba bolsas institucionais quando está em mobilidade acadêmica. Os auxílios são suspensos até o retorno, e você ainda precisa enfrentar a burocracia de avisar para que não os cancelem de vez. Esse é o meu medo: ir com uma mão na frente e outra atrás. Eu quero ir pela oportunidade. Sei o quanto isso vai me agregar academicamente e proporcionar enriquecimento sociocultural. Afinal, é a Bahia!

    Abri até uma campanha no Apoia.se, mas, na minha cabeça, poucas pessoas vão querer ou poder ajudar uma moça que faz universidade. É capaz de me mandarem trabalhar, assim como a minha própria família nuclear faz sempre que tem a oportunidade. É frustrante.

    Eu canso de falar que pobre não consegue estudar plenamente. Tem dificuldade de fazer os estágios obrigatórios, de participar de projetos de extensão e de pesquisa porque as atividades acontecem nos horários em que precisam estar trabalhando. Também não consegue ir a congressos da área em outros estados por falta de tempo e de dinheiro, além das passagens muito caras. Eu mesma só consegui ir apresentar um trabalho para o qual fui aceita na Escola de Enfermagem da USP porque pagaram para mim, para que eu não perdesse a oportunidade. E graças ao ID Jovem, claro, que me garantiu ao menos a passagem com 50% de desconto para diminuir as despesas que eu jamais teria como arcar devidamente sozinha. Nós precisamos urgentemente atualizar as políticas de assistência estudantil para esses casos.

    Que oportunidade nós, estudantes da classe trabalhadora, temos de desfrutar de tudo o que a universidade proporciona? Eu não trabalho fora, porque a própria universidade exige que você se dedique exclusivamente para receber as bolsas de pesquisa, ensino e extensão. E convenhamos: R$ 700,00 não é um valor que arque com as grandes despesas de um estudante. Tinha que ser, no mínimo, um salário mínimo para custear a vida do aluno, já que é exigida exclusividade para o ambiente acadêmico. Estudar é direito, mas também é trabalho. Você lê, estuda, produz ciência e conhecimento por meio da pesquisa, contribui para a sociedade por meio da extensão e não recebe o suficiente para subsistir.

    Bolsas de mobilidade acadêmica deveriam existir e se manter, principalmente para os alunos que, assim como eu, não trabalham, dedicam-se integralmente à universidade, estão inscritos no CadÚnico e são inseridos em programas de transferência de renda. Só assim a educação pode realmente mudar vidas. Mas sabemos que isso não é do interesse da burguesia e da classe política que está no poder. Para a direita e os defensores do sistema capitalista neoliberal, a educação seria totalmente privada. Os pobres continuariam exercendo funções servis para que poucos lucrem e encham os bolsos — e, com os bolsos cheios, forneçam redes de apoio para que seus próprios filhos façam mobilidade acadêmica tanto dentro do território brasileiro quanto internacionalmente.

    Eu sou uma mulher negra, periférica e universitária. Por que eu não tenho o direito de ter uma trajetória dentro da universidade que me abra portas e possibilidades?

    Mandei uma mensagem no WhatsApp para o atual vice-diretor do meu curso de Serviço Social pedindo orientações. Espero que ele consiga me responder, porque as inscrições se encerram no dia 30/06 e eu ainda preciso abrir processo no SEI, falar com a COAA e com os setores de mobilidade acadêmica das universidades, ir ao médico pedir atestado de saúde física e mental, além de outras demandas burocráticas que me fazem querer desistir e deixar tudo como está.

    A data final foi prorrogada (era para ter sido encerrada no dia 31/05). Talvez seja um “sinal” do universo? Seria cômico se não fosse desesperador. Também penso na possibilidade de onde vou deixar minhas gatas, no que fazer com meus móveis e, agora, no curso de escritora que estou fazendo na ABL — uma oportunidade incrível para a minha carreira como escritora, mas da qual não conseguirei mais participar se eu for. Fico com o pé atrás de deixar as duas oportunidades passarem. Como será quando eu retornar para o Rio? Cheguei a comprar uma passagem de ônibus para Vitória da Conquista com o ID Jovem 100%. De trezentos e cinquenta e poucos reais, paguei apenas uma taxa de R$ 21,51 para o dia 1º de agosto.

    É uma luta diária e constante. Essa seria uma ótima oportunidade, e eu quero conseguir fazer tudo a tempo, mas realmente não sei se vai dar. É triste viver em uma sociedade que menospreza e acaba perdendo bons estudantes que poderiam garantir mudanças significativas para o mundo.

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