Domingo

  • A vida pela janela

    Ver a vida pela janela!

    A janela de casa, com a rua e as pessoas que pintam o cenário de cada dia. Com suas cores e sons! Com seus dramas e tons!

    A janela do carro ou do ônibus e a velocidade de tudo o que se vê na cidade: placas, cartazes, rostos, histórias…

    Ver a vida pela janela!

    E ver, com a pressa dos urbanoides de plantão, num frenesi e caos que não dão a certeza de nada.

    Ou ver, com a calma do poeta, com a atenção para todos os lados e lugares, sabores, odores, enfim, com todos os olhares!

    Assim, como o poeta, vejo a vida pela janela!

    Às vezes, vemos o mar, prolongado, com seu movimento constante, espumas e brilho, mostrando sua força e imponência.

    Às vezes, vemos a avenida e as milhares de histórias que se cruzam nos rostos de todos os que passam. E são aqueles que lutam a luta diária do pão. E são aqueles que procuram o sentido das coisas no meio do turbilhão. E são aqueles que se sentem sozinhos entre a multidão.

    Às vezes, algumas crianças, no colo, ainda cheias de sono, sendo levadas por mães e pais cansados, alheias à cidade e agarradas em seus sonhos e imaginação.

    Às vezes, o breve silêncio do sinal fechado e nenhuma palavra dita ou pensada. Como se fosse um transe! Como se nada fosse…

    Às vezes, o silêncio dos que não mais amam, entrecortado por automóveis ou anúncios itinerantes. Mais um transe!

    Às vezes (e estas vezes não são tão raras), basta um sorriso, um encontro, uma palavra, um mistério, um aceno, um aperto de mãos, um beijo que demora, o fuzuê na esquina, a dança dos jovens… basta que uma destas coisas aconteça, ou a junção de todas elas e… começamos ou terminamos o dia com a certeza do dever cumprido, preparados para o sono dos justos…

    Tão estranha a vida na Terra!


  • O Beco

    Dia frio, chuvoso, cair da tarde. Penido se preparou para a volta à casa, depois de um expediente na repartição que lhe rendera uma tremenda enxaqueca. Não era para menos, pois o contato com o público lhe estressava. Na maioria dos casos ignorava as queixas desses “infelizes”, como bem dizia, que lhe importunavam e canetava um “indeferido” na petição. A têmpora direita latejava. Tomou uma dose dupla dos comprimidos que sempre guardava na gaveta, fechou os olhos por alguns segundos para esperar o efeito do medicamento.

    O barulho dos pingos no vidro da janela aumentou, invadiu seus tímpanos causando um temporal de dor. Lembranças afogadas em poças d’água foram tomando conta de sua mente. Os sintomas da cefaléia cresciam, uma névoa lhe toldava a visão.

    ***

    De paletó, galochas, e guarda-chuva só lhe restava enfrentar o caminho até o ponto de ônibus, caminhando atento ao chão. O percurso era grande, a noite baixava sem luar, deserta, soturna. Começou a tremer de frio e desconforto, sentindo os pés mergulhados na água enlameada que cascateava pelos paralelepípedos irregulares da ruela em frente ao escritório. A cabeça pesava e um reboliço gasoso começou a lhe importunar o estômago.

    Se viu frente à entrada da viela estreita e íngreme que dava acesso à avenida. Sentiu as pernas bambalearam. Sempre teve maus pressentimentos em relação a essa viela tortuosa, furtiva.

    Pelas paredes molhadas, o reflexo dos raios pipocando no céu formavam figuras fantasmagóricas. As criaturas bruxuleavam a cada rajada de vento e aqueles seres aprisionados, emparedados em sua mente, sopravam lamúrias, blasfêmias, ameaças.

    A ruela tinha uma curva fechada e dali se deparou com um fim de linha – a viela havia se transformado em um beco sem saída.

    Viu se aproximarem as criaturas que se despegaram das paredes, e a elas foram se juntando outras, e mais outras que o alcançaram. Não tinha para onde fugir, se esconder.

    Esse círculo de algozes com olhos ameaçadores, bocas peçonhentas, corpos desformes, desferiam golpes em sua cabeça. A cada machadada, evocavam uma das injustiças, descasos, desrespeitos, ilegalidades, por ele cometidos.

    ***

    Banhado de suor, sentiu uma mão lhe sacudir os ombros.

    — Penido, que está a fazer aí cochilando? Não vê que a fila está imensa atrás do balcão?


  • O vaticínio

    Um pouco de tradição e nostalgia guarda o que há tempos foi um clássico do futebol carioca: Flamengo x Bangu. Lembrando que craques como Zizinho, Domingos da Guia e Zózimo já vestiram a camisa dos dois clubes.

    O primeiro título do Flamengo no Maracanã foi em cima do Bangu, o Torneio Início (aquele do jogo em 15 minutos e no final a disputa por pênaltis) de 1950. Embora na estreia do Flamengo no estádio, o Bangu tenha vencido por inacreditáveis 6×0 – até hoje a maior goleada sofrida pelo rubro-negro no Maracanã (igualada uma vez, pelo Botafogo, em 1972, com direito a resposta digna e à altura no 6 a 0 do gol do Andrade, no Carioca de 1981).

    Exceção feita à briga generalizada, capitaneada por Almir Pernambuquinho na final de 1966, o Flamengo foi feliz em decisões com o Bangu. Em 1915, se sagrou bicampeão carioca, e em 1943 a história se repetiu, com o Flamengo conquistando novo bicampeonato ao vencer o Bangu. Em 1948, o Flamengo jogou com o Bangu na inauguração do Estádio de Moça Bonita e, como bom convidado, perdeu o amistoso por 4 a 2.

    Duas conquistas da Taça Rio pelo Flamengo foram em decisões com o Bangu, com igual placar e gols do mesmo jogador. Em 1983, o Flamengo conquistou a Taça Rio no Maracanã, com gol de Adílio; e em 1985, voltou a conquistá-la, vencendo o Bangu no Maracanã, coincidentemente com gol de Adílio.

    Deslizes, glórias e tragédias à parte, o retrospecto histórico aponta uma grande superioridade rubro-negra.  Assim, são 217 partidas, com uma larga vantagem do Flamengo, com 136 vitórias, 32 empates e 49 derrotas.

    A favor do Bangu o fato de ter sido um dos pioneiros do futebol nacional a contar com jogadores negros e operários em seu elenco, o que levou outros clubes a seguirem o exemplo, transformando a prática do futebol – até então um esporte elitista – num espaço bem mais democrático.

    Apesar de o Flamengo ser o clube das massas, e muitos atribuirem ao Vasco da Gama a primazia da inclusão de negros no time, na verdade foi o Bangu (mais um vice do Vasco). Em 1905, Francisco Carregal foi o primeiro jogador negro a praticar futebol oficialmente no Brasil, atuando pelo Bangu e depois se tornando tesoureiro do clube. O enfrentamento ao racismo não foi uma tarefa simples. O Bangu se retirou do Campeonato Carioca, em 1907, e só voltou quase dez anos depois, quando finalmente a federação aceitou os seus atletas negros.

    Como se vê, inescrupulosos e incompetentes no comando das federações de futebol vêm de longa data.

    Mas o jogo do Flamengo e Bangu que me interessa contar aqui, e que não decidiu nada e nem teve maiores consequências, é bem pouco conhecido e se passou numa esquecida noite de 19 de julho de 1973. Naquele tempo a televisão não transmitia as partidas porque os dirigentes temiam que isso retirasse os torcedores dos estádios.

    Era também época da novidade do videotape, e as tevês podiam apresentar o jogo horas depois do seu término. A opção do torcedor para asssitir ao jogo com mais emoção era não saber o resultado e ver pelo videotape, mais ou menos no começo da madrugada, quase no fim da programação. Naquele dia 19 de julho, eu fiz o recomendado: não liguei o rádio, tomei o cuidado de não saber o resultado e aguardei com paciência o jogo no videotape.

    A televisão que passava a partida, se não me engano, era a Tupi, tinha como comentarista esportivo o saudoso Ruy Porto. Gaúcho de Garibaldi, inicialmente locutor e que hoje é nome de uma rua na Barra, ficou famoso quando, na Copa de 70, chamou a bola de “leviana” ao comparar o seu peso, mais leve do que nas outras competições…

    O jogo transcorria e o primeiro tempo terminava com a vantagem rubro-negra de dois gols. Nos comentários de praxe no intervalo, nosso Ruy avisava que o Flamengo tramava bem, criando jogadas e finalizando, mas que o Bangu se encontrava vivo na partida e poderia reagir. Foi quando alertou os telespectadores, na maioria torcedores do Flamengo, tratar-se de um jogo parelho e que todos não se iludissem, esperando por um jogo fácil. Era aguardar a segunda etapa e certamente aquele jogo não viraria uma goleada, de cinco, seis, sete ou oito a zero, por exemplo.

    Vieram os anunciantes e o jogo reiniciava seu segundo tempo. O Flamengo, avassalador para desespero do Ruy, marcava um gol após o outro e, diante do locutor sem graça e de um comentarista agora calado, aplicava contundente goleada. Final: Flamengo 8 x 0!

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