Poesias de 1 a 99

  • Poema #4: Rondó randômico

    A tosse que se ouviu pulsar,
    entranhada nas dobras do ar,

    ouvi que nunca houve outra igual,
    engasgo ou sintoma de um mal
    que se ouvisse sem se escutar.

    Como prever em qual lugar,
    incontrolável como o mar,
    recairia o surto canibal
    que se ouviu pulsar?

    Nesse jogo de sorte e azar,
    tecido com ardil no tear
    da imprecisão proposital,
    cada lance adia o final
    do giro sem fim do pesar
    que se ouviu pulsar.

  • Poema #30: A Voz do Silêncio

    Estou acordado
    e não sonho,
    mas a realidade
    antecipada
    me envolve.

    A barba se me
    desprende do rosto
    fio a fio num frio
    maior onde estou
    me enregelando.

    Tudo se dissolve
    na aparência de ossos
    de que fui formado,
    e que é minha forma
    mais resistente no mundo.

    Mas a terra
    (com seus vermes)
    decompõe ao seu contato
    todo o meu aprendizado
    doloroso da vida.

    E uma cova me absorvendo
    transforma tudo o que fui
    num triste resumo de pó
    que um dia se chamou homem.

    E que lhe deram um nome
    (que tive), mas que a terra
    aterra no tempo o traço
    nominal dessa efemeridade.

  • Poema #03: Oferenda

    Da onda ao pé da praia,
    recolho as relíquias do mar:
    sigilo
    deslumbrante encanto
    pronúncia sincera de uma fé sem dogmas.

    Preservo meus amuletos.
    Quisera crer somente na força
    das águas que os trouxeram,
    banhados em luz e sal,
    sutil religação do corpo ao mistério.

    Algo estranho, porém, corta
    minhas mãos, meus pés.
    Fio afiado de faca
    cravado nas costas da mansidão.
    Em vão vasculho a areia:
    misericórdia amor tolerância
    estão enterrados tão fundo
    que sequer a mais teimosa esperança
    pode trazê-los à tona.

    Os detritos e os dejetos
    de uma deturpada devoção
    soterram sem piedade
    o que um dia foi oferenda.

  • Poema #29: Novas Lendas Urbanas Inventadas do Nada

    Eu estava de tocaia na praça em frente à sua casa
    aí ela chegou de bicicleta e quando foi abrir a porta
    eu ataquei, agarrando-a por trás e já sentindo o delírio
    daquelas carnes macias que me foram negadas em vida.

    Havia crianças por perto e então eu achei melhor
    interromper o procedimento e levá-la para um lugar
    escuro e deserto e então fomos a um velho cemitério
    com ela protestando que preferia estar com uma amiga.

    Mas eu havia morrido por causa dela e não era justo
    eu não levar nada daquele amor que atravessou décadas
    de sofrimento e dor causadas pela sua frieza e indiferença
    como quem prende um coração numa jaula suja e planejada.

    Nunca era tarde e agora eu a tinha entre os meus braços
    dilacerados pelos cortes de navalha que ela havia operado
    enquanto exercia as funções de enfermeira-chefe do posto
    médico mais próximo e que era uma espelunca dos diabos.

    Consegui fugir das trevas do inferno e antes de executar
    o intento planejado eu levei as suas filhas para a casa da avó
    que morava numa aldeia vizinha de onde tudo havia começado
    a cerca de 5 km de distância e já eram trinta e um anos passados.

    Depois retirei o seu vestido jeans de zíper nas costas e com cuidado
    fui explorando todos os espaços onde a vida fora afinal consumida
    entre equívocos e intervalos enquanto que ela não dizia nada como
    quem já esperava pelo pior e estava resignada com a morte próxima.

    Mas eu estava cansado de conviver com o sangue e só queria o desfrute
    daquele momento com ela viúva e única, como se eu fora um lobisomem
    apaixonado pela manhã seguinte e então ficamos a noite inteira naquela
    e acho que foram umas seis vezes até eu ficar satisfeito e engravidá-la.

  • Poema #02: Último andar

    Inunda o céu a invasão
    desse voo vadio sem asas
    de volteios fora do tempo
    a trapacear a vertigem.

    Fora de ordem e selvagens
    são as aves que sequer
    as mais hábeis artimanhas
    mantiveram na gaiola.

    Em silêncio, em liberdade
    furam a fila das nuvens
    e enganam sombras e luzes
    no movimento sem freios.

    Ao redor do último andar
    vê o caminhar derradeiro
    que prescinde de convite
    pra lançar-se ao recomeço.

    Faminto de novos ares
    voa pra abocanhar o céu
    pássaro infenso à censura
    tecido de pensamento.

  • Poema #28: ANÍMICA

    quando eu tinha todos os movimentos
    eu era sol entre nuvens
    aves de arribação
    qualquer coisa de menos sólida
    por haver.
    eu via cachoeiras em meus sonhos
    remanso de rios
    pedra grande de sentar menino
    florestas a esculpir.

    Da Essencialidade da Água

  • Poema #10: OUÇO RUMORES

    Ouço os passos do vento
    Ouço e estremeço…

    Tempo

    Entretempo

    Ouço rumores de vento

    E penso que sou eu
    o vento
    e o rumor

    Momento…

    E o meu corpo
    descolado das palavras
    é brisa marinha

    As ondas me invadem

    uma a uma
    e a sensação da vida e do amor

    preenchem os espaços outrora vazios

    preenchem cada canto
    o olhar de sal

    e as mãos que se quebram de tanto escrever

    As ondas e o vento
    e o meu corpo ainda intacto

    Depois?

    Não ouço mais nada…

  • Poema #01: Entrelinhas

    Repara a frente do verso.
    Gêmeas, capa e contracapa
    dispensam qualquer remendo.
    Abrem-se livres, pois são
    asas de uma ave vadia
    a desnortear perspectivas
    (no alto, embaixo, início, fim).

    Enumerar as palavras
    no caderno é exercício
    árduo de caligrafia.
    Um sem-número de imagens
    colore o branco entre as linhas,
    promove encontros na rígida
    geometria das paralelas.

    Remexe o varal das letras.
    O movimento preciso

    revela o que antes estava
    camuflado sem disfarce:
    conselhos, consolos, sonhos,
    denúncias…diálogo aberto
    que se guarda a sete chaves.

  • Poema #27: Uma Poesia a Marteladas

    eu faço versos
    como quem martela
    as sílabas do vocabulário:
    trôpego quase sempre.

    eu faço poemas
    como quem sofre
    as pancadas do destino:
    difíceis como sempre.

    eu sobrevivo
    como quem hiberna
    na escuridão da noite:
    dilacerado sempre e sempre.

    com a música do Led Zeppelin
    “since i’ve loving you”
    para acompanhar
    o meu enterro.

    Da Essencialidade da Água

  • POEMA #26: AVALIAÇÃO NOTURNA

    Este pedaço de céu
    que me foi permitido entrever
    entre os edifícios,
    assemelha-se a uma parte de mim
    que ainda se resguarda
    para nada.

    Areia (À Fragmentação da Pedra)

  • Poema #25: Becos e galerias que se bifurcam em T & L

    A paixão
    é a antessala
    de uma paranoia
    na qual entramos
    com um sorriso largo
    de quem não sabe
    que penetrou num túmulo.

    A Sentinela em Fuga e Outras Ausências

  • Poema #24: RETORNO AO FINAL

    “meu Deus, porque me abandonaste?
    se sabias que eu não era Deus,
    se sabias que eu era fraco”

    Drummond

    protagonista
    de minha vida pregressa
    hoje sou coadjuvante
    de ruinas.

    nas águas do rio
    fiz algumas tentativas
    mas acabei afogando
    na correnteza.

    mudei de fase:
    virei pescador
    de sonhos frustrados
    à beira dos barrancos.

    galopei como quem
    sonha por estradas
    poeirentas de Minas
    Gerais, sozinho.

    empinei pipas e
    papagaios em céus
    nevoentos de minha
    infância distante.

    virei (ou tentei virar)
    compositor de vanguarda
    e fiz parcerias utópicas
    com célebres defuntos.

    amante de belezas glacias
    as mulheres passaram
    por minha vida como
    barcos à vela naufragados.

    fui poeta das condolências
    em velórios de interior
    quando o defunto era
    o que menos importava.

    candidatei a representante
    do povo, mas não tinha
    propostas viáveis no bolso
    da algibeira rota e furada.

    Da Essencialidade da Água

  • Poema #23: FOGO-FÁTUO (ignis fatuus)

    .

    “e ficam tristes e no rastro da tristeza chegam à crueldade”
    Drummond

    fica estabelecido que
    os meus concidadãos,
    mesmo aqueles que
    moram em águas-furtadas
    serão livres à maneira deles.

    fica estabelecido que
    apesar do sonho já
    ter acabado desde
    o anúncio de John Lennon,
    será permitido às crianças.

    “deus é um conceito
    pelo qual medimos
    nossa dor”

    eu vou dizer novamente
    “deus é um conceito
    pelo qual medimos
    nossa dor.”

    essa é a realidade!

    Da Essencialidade da Água

  • Poema #22: AZ-2

    .

    Vozes inaudíveis
    golpeiam meu silêncio
    de bicho entocado.

    Sou perseguido por fantasmas
    (desdobramentos de mim)
    e os apascento
    em precária unidade.

    Sei da existência sem vida
    e dos hálitos fétidos da morte
    que povoam a noite dos túmulos.

    Meu corpo é um mapa
    onde se cruzam
    os mais diversos caminhos
    da imaginação fantástica.

    Tenho todos os demônios
    empalhados no quarto
    e cada dia escolho um
    para sustentar os pesadelos.

    E sobre os meus despojos
    carcomidos pelo tempo
    e pelas mortes diárias
    que impus a mim mesmo,
    nascerá uma flor infernal
    para devorar todos os homens.

    O Acaso das Manhãs

  • Poema #21: Eu Queria Fazer um Poema pra Você

    Numa ocasião em que eu estava
    (como das outras vezes) prestes
    a me naufragar no abismo do delírio,
    houve um sorriso de dentes postiços.

    Mas eu já não queria mais cair
    na cilada do amor fugaz e preferia
    estar quieto e fugir para longe do
    alcance de uma outra decepção.

    Então eu me internei num hospício
    e amarrei as minhas mãos ao pé
    de uma árvore frutífera de onde
    eu poderia escavar o chão de barro.

    Ao fim do terceiro dia de psicopatia
    veio a diretora dizer que eu deveria
    partir para um lugar que não sabia
    e me deram um endereço e o contato.

    Era um lugar acolhedor e distante
    coberto de grama e cerca de arame
    mas quando fui atravessar a ponte
    um cão vampiro me atacou de noite.

    Sobrevivi como alguém que se esqueceu
    da longa noite passada e caminha como
    se o dia estivesse amanhecendo de novo,
    apesar do rastro de sangue e a boca seca.

    Havia uma casa deserta e eu pensei em
    largar tudo o que eu não nunca tive e
    vir morar aqui no meio dos bichos que
    comunicam-se através de sinais e apitos.

    Lembro de uma escada pintada de verde
    e uma mulher bonita que veio me atender
    com as mãos estendidas e um sorriso
    encorajador para que eu dissesse tudo.

    Não havia o que contar além do fato
    de eu ter andado ausente e perdido
    e que, nesse período, eu havia criado
    enredos irreais para me manter vivo.

    Tudo era então uma simples questão
    de fechar os olhos para os pássaros e viver
    tranquilo como os homens banidos de si
    e que se refugiam no labirinto do amor.

    Ai que delícia que é poder acordar e dizer
    que estou vivo, mesmo não tendo nada
    ao redor a não ser o microfone em que
    digo isso e acompanhar o seu eco no abismo.

    O Jardim Simultâneo

  • Poema #20 – CONFIDENCIAL

    Nada consta.
    Consta que seja um nada
    em face a uma constância
    de extremos inarredáveis.
    Enfim
    um nada consta sobre
    outro consta um nada
    — A vida incerta do homem —
    Nas folhas gastas do mundo
    não consta nada em
    detrimento desse nome.
    Um simples nome em meio
    a tantos outros no arquivo
    de uma gaveta metálica.

    O Acaso das Manhãs

  • Poema #19 – CAMADAS DE ÁGUA

    .

    “o peixe sabe de tudo e nada”
    autoria desconhecida, século XIII

    tenho dois meses
    para morrer
    o ódio
    me circunscreve
    como camadas
    de água que vem
    inundando tudo,
    desde as primeiras células
    aos últimos fios de cabelo
    e são águas salobras, escuras
    de quando faço a descida
    da ponte para beber
    desta água, o líquido, mas ai,
    tem gosto de peixes putrefatos
    peixes analógicos e peixes digitais.

    “São voltas da vida, voltas da vida”,
    como dizia o enfermo Valdemar
    em seu leito de morte e honradez.

    lembro de ser abominado pelo meu próprio sangue,
    por ser alcoolizado e desistente (“mas eu não sei
    por que me sinto assim, vem de repente
    um anjo triste perto de mim”). Ah, que merda!
    e algumas e diversas era esse o meu mote
    para a distração em histórias em quadrinhos
    e as primeiras letras e composições em cadernos.

    sessenta anos, soa o sino em meu tímpano.

    meu prazo e o peso desta incongruência
    dobra-me o pé direito na sandália surrada
    “Casa da Eternidade”, que em hebraico se escreve,
    bet kevarot, mas já não sou digno de cheirar o ar,
    a água límpida, o pensamento puro, inoxidável.

    deverei ficar circunscrito a este cemitério de angu,
    atolado até os joelhos junto com as fezes dos porcos
    que se procuravam alimentar para o sacrifício final,
    num circo fúnebre onde seriam então recheados
    com “pêlo de gato, pêlo de um aleijado, chocalho
    de cascavel, pés de rã, orelhas de sapo, dentes
    de cão e garras de coelho”, para o cardápio da
    criança ingênua pensando que ao sair da escola, ah,

    e ele pensava, defeituoso e ingênuo das Gerais
    “chegando em casa vou pegar uma jantinha”.
    o controle 44 era uma tecla onde soava uma música
    em todos os dias (July 28th) e era singela como as
    lembranças que não puderam ser nesta (sic) encarnação:
    “lembrei de nós, do que ficou, se ficou não vai ter final”.

    mas antes há de vir o controle 72, do aniquilamento,
    da vida quando se torna um fardo pestilento, e eu bato
    a cabeça no travesseiro como uma lagartixa inútil, de olhos
    arregalados e o estômago e o cérebro entupido de remédios
    num quadro consolidado e sem volta, assim como do meu pai.

    “São voltas da vida, voltas da vida”,
    como dizia o enfermo Valdemar
    em seu leito de morte e honradez.

    queria ter a grandeza e a percepção da vida num leito de hospital
    para morrer fazendo este balanço isento de que tudo. “são voltas da vida,
    voltas da vida”, e no dia seguinte o Sr. Valdemar já não acordava mais.
    que venha esta noite, em mim também, ó morte, como num plenilúnio
    será que, depois disso, a vida deixará de dar as suas voltas? acho que não.
    o que eu tenho hoje são resíduos, resquícios de ressaca e sequelas
    “sofrendo com as calças e tudo” como o parente eunuco já dizia,

    e o que quer que isso tenha significado para ele de pés em perpendicular.
    durante toda aquela noite de veneno e cobra eu implorava o advento da morte
    para, ao menos, dentro dos dois meses subsequentes, eu pudesse acordar,
    invariavelmente menor, com um resto de vida e uns versos de circunstância
    como esses de agora e me faço então um urso plausível, criando forças para criar
    em meio a esse caos de tantas dores e os músculos retesados repuxando no braço
    como fosse me virar do avesso, o que faz com que a minha cabeça não consiga
    pensar mais e eu lanço tudo no livro das horas, antes de fechar a brochura contábil.

    “A Solidão Clandestina” foi demais e única companhia, amigo, falecido antes de mim.
    “O Himalaia de um Vaso” era alto demais para eu escalar, falecido conterrâneo, e então
    eu caía de borco com a cara no meio do barro, palhaço, cheio de livros e dentes partidos.

    Se ao menos eu tivesse tido, o quanto antes, a droga de um buril e punhais amolados.

    Da Essencialidade da Água

  • INTERTEXTUALIDADES

    .

    Um escritor nunca escreve sozinho…
    Antes, escreve com todas as vozes
    Que sussurram a todo instante
    histórias e versos
    Acertos e desacertos
    Melodias e ilhas
    Desconcertos…

    Sou Cecília…
    Oswald, Mário, Carlos… Andrades!
    Sou também Bandeira!

    Camões, Pessoa, Castro e muito mais.

    Sou Clarice…
    Veríssimo, Graciliano, Rosa,
    Sou também o cais.

    Jorge e Murilo e  muito mais.

    Sou o que sou: olha só os tais!
    Pouco, muito…
    E até coisas banais.

    E desfaço o ser quando entender…
    e é o que basta,
    mas

    não sou sozinho, sou inteiro,
    sou vários, por vezes inabitável,
    propenso e líquido

    e, ao mesmo tempo,
    uma cidade inteira
    contrassenso

    Sou Mia, Leminski, Milton
    Caetano!
    E não há engano!

    Sou Machado
    E o texto, ironicamente,
    É mais afiado.

    Sou Carlitos, o vagabundo,
    Sou parte itinerante

    Das lembranças do mundo!
    Sou e não sou a cada hora.
    E o relógio não tarda.

    Agora
    Sou todos os textos e canções
    Sou todas as rimas e emoções

    Um escritor nunca escreve sozinho…
    Antes, escreve com todas as vozes
    Que sussurram a todo instante
    histórias e versos
    Acertos e desacertos
    Melodias e ilhas
    Desconcertos…

  • Poema #18 – NA PENUMBRA

    .

    Na penumbra
    me faço grande
    como minha sombra na parede.

    Porém a parede
    não é intacta
    como a cerâmica do banheiro.

    Suas imperfeições
    remetem-me para além dela mesma
    e me vejo em cada detalhe
    mal sucedido de sua arquitetura.

    Na penumbra
    me faço gente
    como as presenças que me povoam.

    Porém o sonho
    não corresponde
    à realidade imaginada.

    Os monólogos com a sombra
    remetem-me para além de mim
    e me sinto em cada possibilidade
    de acender a lâmpada
    e não perder o mágico domínio.

    O Acaso das Manhãs

  • Poema #02 – Quase noite; foi-se o dia, um dia

  • Poema #9 : Tudo é poesia

    .

    Tudo é poesia
    A agitação da rua
    O sinal
    E a correria!
    A voz do vendedor
    O som do dia.

    Tudo é poesia
    A propaganda
    O chafariz
    Até a melancolia
    O engarrafamento
    O papelão pra noite fria.

    Tudo é poesia
    Os menores na esquina,
    Uma bola ou um limão
    Acrobacia
    No alto dos edifícios
    A vida silencia!

    Tudo é poesia
    Nas placas, andaimes,
    Guindastes
    Não há monotonia.
    Há tremor, rumor
    A amarga dor,
    Sinestesia!

    E quando tentam tirar
    As coisas do seu devido lugar
    Autofagia!
    Não importa!
    Pois tudo na cidade
    É poesia!

  • Poema #17 – CORPO

    foi preciso
    que eu fosse
    envelhecendo
    para entender
    (em parte) o
    erotismo tardio
    nos poemas de
    Drummond.

    é que precisamos
    ir perdendo para
    poder reconquistar.
    é preciso ir morrendo
    pra aprender a gostar
    da vida e tentar
    (quando não é mais possível)
    usufruir da beleza da água

    que acabou de passar.

    Da Essencialidade da Água

  • Poema #16 – Convidados

    Da janela da casa onde moro
    aguardo a chegada de alguns
    amigos para a festa de
    aniversário.

    Nada se move, exceto a minha
    sombra na varanda, vazada de
    angústia, silêncio e noite.

    Fecho as janelas da casa
    onde moro e ainda dou
    uma última olhada através
    das frestas da veneziana.

    Nada se move, exceto a noite
    com a sua noção de simultaneidade
    do tempo, das pessoas e das coisas.

    Nada se move, exceto o silêncio
    que domina o ambiente e repousa
    na visão do telefone emudecido
    e inútil sobre o criado-mudo.

    Fecho a porta do meu quarto
    e a casa onde moro fica escura,
    imersa na solidão dos cômodos.

    Inventário de Sombras

  • Poema #15 – EUTANÁSIA

    .

    Sob uma chuva de outubro
    o germe penetrou
    no solo árido de mim,
    onde as emoções se resguardavam.

    Mas o sol e o raciocínio
    dos meses subsequentes
    atrofiaram o germe ávido
    que havia trazido o amor.

    E foram tantos os desencontros
    do clima naquele ano
    que a meteorologia afetiva
    justifica-se culpando a ambos.

    Agora, numa sala de espera
    contígua à do esquecimento,
    resta-nos como única saída
    a eutanásia cúmplice
    do que restou do sonho.

    O Acaso das Manhãs

  • POEMA #01 – QUARENTENA – QUARESMA – QUARESMEIRA

    Cinco anos depois da pandemia ser anunciada, revisito este texto que nasceu em meio ao isolamento — ecos de um tempo que ainda ressoa.

    O horizonte anunciou um desafio
    Na época que traria
    Tanta luz e liberdade
    Chegaram tempos de trevas
    Fomos convidados ao exílio
    Um inimigo invisível
    Uma tal gripezinha
    Que surgia na China
    E, de repente, fez vítima,
    Seu José da esquina
    E com o perigo iminente

    Me isolei
    Nos tempos das quaresmeiras
    Roxas como um suplício
    Pré-milagre de Cristo

    Me isolei
    Ou melhor, nos isolamos
    Em um paraíso distante
    Em um refúgio externo
    Ou no silêncio que guardo

    Me isolei
    Perdi a vaidade
    Tentei assumir os brancos
    Quase raspei os cabelos
    Mas recobrei a sanidade

    Me isolei
    Adotei duas gatas
    Meu amor surtou
    Elas ronronaram
    Ele se apaixonou

    Me isolei
    Quis morrer
    Quis sumir
    Quis viver
    Ressurgi

    Me isolei
    Perdi um tio
    Perdi uma prima
    Chorei
    Como você também chorou

    Me isolei
    Conversei com amigos
    Voltei a falar com meus primos
    Me senti parte de algo
    Dentro do meu vazio

    Me isolei
    Fiz máscaras de beleza
    Pintei as unhas
    Emagreci
    Engordei

    Me isolei
    Vi ministros humilhados
    Nossos poderes desnudos
    Ouvi o que não queria
    Falaram o que não devia

    Me isolei
    Acordei de maneiras várias
    TPM´s, alegrias
    Senti saudades
    Do que não tinha

    Me isolei
    Li tantos livros
    Escrevi quase diários
    Poemas curtos
    Contos que criei

    Me isolei
    Descobri mais de mim
    De você
    Ou até do outro
    Já nem sei

    Me isolei
    Fui amiga do sol
    Companheira na chuva
    Me perdi
    Me encontrei

  • #14 – A LUA ESCURA

    .

    sabe,
    há um momento
    em que a lua
    fica escura.

    é quando,
    a escuridão maior
    vinda dos montes
    cobre a Rua Fácil.

    e tudo,
    vira um só quadro
    negro, uma lousa
    fria que antecede
    a morte.

    Da Essencialidade da Água

  • #08 – Ofício

    E todo verso que faço
    Um pedaço de mim está e fica e se vê
    Um outro ninguém sabe, um laço
    que não se sabe onde fica e nenhuma vista lê

    E toda estrofe que nasce
    Meus sonhos e verdades lá estão
    Num outro canto, outras verdades
    No esquecimento ficarão

    Quando o poema, inteiro, surge diante de mim
    É meu o rosto e é meu o nome
    Mas é um outro que não sou eu
    Não sei se isso é o começo ou o fim…

    E então me refaço e me reescrevo
    Junto ou em pedaços o tempo inteiro
    Sou e não sou, tenho ou não tenho
    É este o poeta e o seu ofício primeiro

  • #13 – PROGRAMA NOTURNO

    No silêncio sepulcral desta noite
    abro a janela
    e recebo a visita do demônio.
    Juntos travamos um pequeno diálogo
    acerca da destruição do mundo.

    Depois percorremos os cemitérios
    e os ninhos dos pássaros agourentos,
    respiramos o hálito da morte
    e compactuamos da miséria dos homens.

    A noite era fria e indiferente
    aos nossos propósitos de celebração.
    Com dedos trêmulos cavamos o altar
    de nosso macabro ritual.

    Antes, porém do sacrifício final
    fomos resgatar a memória dos corpos
    e garantir a permanência dos zumbis
    sobre a face andrajosa do planeta.

    Abrimos um caixão e uma brisa vaporosa,
    que era ao mesmo tempo fúnebre e sensual,
    despertou nossos instintos de espécie
    e pouco depois e para sempre estava
    consumado o ato lascivo e sagrado.

    Chegamos depois ao altar fatídico,
    e sob asquerosos protestos de ódio
    à vida social e fútil dos vivos,
    pegamos os punhais do sacrifício
    e nos entregamos ao suplício eterno.

    O Acaso das Manhãs

  • #012 – ATÔMICO

    .

    Nossos filhos nascem cegos
    pela poeira do nosso tempo.
    Nós ainda enxergamos
    porque já entendemos o mundo
    a partir da poeira que há nele,
    e que não nos incomoda muito.

    Areia (À Fragmentação da Pedra)

  • #011 – Quando acordei do coma parece que entrei num pesadelo

    Quando acordei do coma
    eu já não tinha mais
    a mobilidade de antes.
    Olhei para as paredes
    de vidro do isolamento
    e já não tinha a mesma visão
    de antes
    a mesma audição
    de antes.

    O mundo parecia ser outro.

    Perna e braço direitos
    estavam paralisados,
    dormentes e um sono
    de letargia na noite
    fria com pedras de gelo
    no peito, do lado
    esquerdo, assim penso.

    O mundo já não era o mesmo.

    Dois dedos do pé esquerdo
    haviam sido afetados
    e minhas afeições e
    percepções já não eram
    as mesmas. Fúria de
    não ter sido antes.

    Minha intimidade
    e meus defeitos haviam
    sido expostos como
    escaras do tempo.

    Nunca mais quis tirar fotografias.

    Havia um corpo estranho
    no meu corpo fragilizado
    e uma tela no estômago
    de baixo para cima eu havia
    sido atingido por um golpe
    do destino e várias cirurgias.

    Não tinha mais condições
    suficientes para poder
    trabalhar, sobreviver
    e tive que depender
    de apoio, de cestas básicas
    da vida como um doente
    a quem falta alguma coragem.

    Remédios para a goela grande das farmácias.

    Acordei como quem entra no pesadelo
    e já não podia sonhar acordado ou dentro
    de uma noite normal e previsível.
    O eixo de tudo continuava gasto
    como o eixo do mundo, ANTES.

    Da Essencialidade da Água

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