Sábado

  • Existir ou Exibir?

    Em tempos de redes sociais, todos sabem de tudo.

    Há os que entendem mais de determinados assuntos e se tornam mentores ou especialistas disso e daquilo; os que vendem cursos, os que criam clubes de assinaturas para seguidores fiéis, os novos ricos ensinando como ser um “farialimers”, os ricos tradicionais mostrando a arte de se exibir com classe… e por aí vai.

    Essa é apenas uma das muitas faces do mundo virtual.

    No outro extremo, existe a antítese: perfis que promovem festivais de conteúdos inacreditáveis.

    Partem do ridículo ao nonsense, passando pelo bizarro, causando vexame e a famosa “vergonha alheia”

    De maneira informal utiliza-se o termo “brain rot” para designar aqueles que são contumazes e até viciados nos conteúdos dessa categoria. É como um “apodrecimento cerebral”, pois não acrescenta nada ao intelecto e este se habitua ao conteúdo repetitivo e sem esforço mental, uma vez que a intenção de quem o produz é chocar, provocar, chamar atenção com o inacreditável, com o esculacho.

    E nesse jogo de aparências, quem realmente vive? Quem apenas se exibe?”

    Nos dois exemplos, a mola propulsora é a mesma: exibir, ver, ser visto.

    Alimentar-se de views, de seguidores, de patrocínios, de fama.

    Ensinar, aprender, fazer dancinha, engolir larvas… qualquer ideia maluca serve, desde que gere cliques.

    O mundo virtual é impalpável. Inodoro. Descartável.

    Com um clique, algo ganha o mundo, acumula milhares de seguidores, fama, patrocínio, dinheiro. E, da mesma forma, some da cena. Pode ser cancelado, esquecido, substituído. Deixa de existir.

    Isso dá uma sensação de impunidade. Ou de liberdade absoluta. Ou de qualquer outra coisa que você possa imaginar.

    Porque no mundo virtual, não há limites.

    Ou há?

  • O famoso ninguém

    Andar pelas ruas de Paraty, nesses dias de FLIP, tem me feito pensar na realidade farta que o anonimato esconde ou sufoca.

    Quantas histórias caminham na gangorra dessas pedras? Quantas dúvidas, decepções e sonhos se escondem nas frestas desse chão?

    Da ponte, vejo o movimento de toda gente. Um ir e vir de esperanças, desistências e vaidades se misturam ao cheiro de pipoca, espetinhos e algodão-doce. Poetas, artistas e músicos oferecem sua arte, clamam por atenção, enquanto o povo passa pronto para reverenciar os que já estão abençoados com o sucesso, que uns saboreiam e outros já não suportam mais.

    Quantas histórias, letras e poemas são sepultados antes de ver a luz do mundo? Quem tem o poder de decidir entre os que serão salvos, batizados e conduzidos ao trono do reconhecimento e os que serão sacrificados?

    Sigo para o auditório central sem saber direito se trago comigo dois natimortos ou se meus bebês ainda estão na incubadora, esperando por quem possa salvá-los com o olhar.

  • Órfã

    Somos inseparáveis. Sabe aquela dupla que passa a maior parte do tempo colada? Pois é, somos assim – tipo queijo com goiabada –, um não pode viver sem o outro. Fazemos tudo juntinhos, uma mão lavando a outra, parceria que já vem de longa data.

    Seja de dia, seja de noite, você é meu companheiro, está ali firme sem reclamar, topando qualquer parada.

    Às vezes penso que sou dependente demais de você. Mas, depois, penso um pouco e vejo que você também não tem vida independente, está sempre esperando a hora de entrar em cena comigo. Até pensei em substituir você por outro, mas não seria a mesma coisa.

    A procura não é de sua iniciativa, e até entendo o porquê, sendo você quem é: generoso, sempre ali sem reivindicar nada para si, a não ser a minha companhia. Cá entre nós, tenho que confessar que me conforta saber que está sempre pronto, disponível, aguardando a hora em que vou te buscar.

    Enfrentamos os maiores desafios juntos; somos ágeis e rápidos nas tarefas para depois, exaustos, podermos sentir aquela água quentinha e o banho de espuma reconfortante. O perfume desse momento é inesquecível e me faz querer ficar ali relaxando por horas.

    Por isso mesmo, não consigo aceitar sua ausência nesses dias em que vim para a praia. A falta que está me fazendo é insuportável! Estou de mau-humor, reclamando de tudo, preguiçosa, e às vezes me recuso até a levantar do sofá, alegando uma dor de cabeça, para não ter que encarar o trampo sozinha.

    E o pessoal não perdoa, está fazendo a maior bagunça. A festa rolando a noite toda, o bar repondo os copos de bebida sem trégua, aperitivos, jantar e até café da manhã amontoando. Alegria total e eu aqui, sozinha, cabisbaixa, só pensando no que viria depois, se você estivesse comigo.

    Tremo ao pensar no resultado: aquele monte de copos para lavar, roupa para colocar na máquina, banheiro cheio de areia para limpar… Como posso encarar tudo isso sozinha?

    Me sinto órfã quando você não está comigo! Como pude esquecer você, meu parceiro fiel, meu par de luvas de borracha?!

  • O poder que ela tem

    Estava num salão de beleza, fazendo a unha e papeando com minha amiga e manicure, quando fui fisgada pela conversa que se desenrolava ao lado.  

    Uma senhora de 76 anos relatava que um rapaz de 38 estava lhe assediando na academia. Segundo ela, o bonitão de cavanhaque fazia questão de abraçá-la sempre que a encontrava. Além disso, ela também notava que o marombado a acompanhava com o olhar aonde quer que ela fosse. A cliente em questão se dizia indignada com a situação porque, embora o rapaz fosse muito bonito, educado e simpático, ela era casada. “O que as pessoas iriam dizer?” 

    Estava disposta a dar um fim nisso:

    — Melhor você se afastar de mim, sou casada e não quero fofoca com meu nome. 

    Quando parecia que o assunto do flerte iria morrer, ela retomava o desabafo.

    — Se eu estou na esteira, vejo ele me olhando. Quando ele chega na academia, vem logo me abraçar. Eu abraço por educação, mas isso tem que acabar. Sou casada. 

    Ao seu redor, um silêncio acompanhado de olhares duvidosos. 

    À boca miúda, os comentários davam como certo o delírio da coroa assanhada. Alguém chegou a comentar baixinho:

    — As velhinhas adoram inventar que estão sendo paqueradas, minha avó era assim também.

    A outra disse:

    — Tem muito garotão que faz isso para se dar bem. 

    Eu, de minha parte, fiquei pensando:

    “Por que é tão óbvio para todos que essa é uma história impossível?”

    Isso não seria uma confirmação clara da desvalorização que o envelhecer impõe? Uma constatação dura de que a beleza dos corpos é um fator determinante para qualquer interesse romântico? 

    Por que é impossível crer que existam homens cuja fantasia seja ser amado, cuidado por uma mulher mais velha? 

    Fato é que eu também, lá no fundo do pensamento, suspeitei que fosse uma ilusão, fruto da necessidade perene de ser desejado por alguém para sentir-se vivo.

    Sendo falso ou verdadeiro o relato, o que se evidencia é: independente da idade, sentir-se cobiçado é força que move, graça que anima, sonho que acalanta os dias do viver.

    Antes de ir embora, a ouvi dizer que pretendia dar uma volta no shopping para comprar umas roupas de academia. Precisava renovar o guarda-roupa. 

    Sorri por dentro. A face da paixão não envelhece. É sempre animada, jovial, revolucionária ainda que tenha 76 anos. 

    Daqui fica a torcida para que ela possa desfrutar um pouquinho mais dessa história, mesmo que seja somente em seu mundo fictício. A realidade, na velhice, já nos esfola o suficiente. Quem sabe essas fantasias sejam uma espécie de unguento? 

    E se for verdade? E se ela é capaz de enxergar além do nosso preconceito cego? 

    Que viva intensamente seja em que mundo for.

    Naquele dia, ela era a mulher mais feliz e reluzente do recinto. 

  • Vira-lata procura homem de raça

    Vira-lata de estirpe procura ser humano de raça. Pode ser branco, negro, amarelo, vermelho, azul, não importa. A “raça” que realmente conta para um autêntico vira-lata como eu é a fibra, o caráter e o afeto que me garantem perfeita harmonia para os próximos 15 anos. 

    Aviso que sei muito pouco de meus ancestrais. Posso ter sido gerado de um cruzamento de pastor alemão com rottweiler, de labrador com boxer ou de beagle com yorkshire. Ou, mais provavelmente, de um cachorro de raça indefinida com uma cadela de raça ignorada. Isso importa? Sim, se você se preocupar mais com a árvore genealógica do que com a índole.

    Esclareço que sou um vira-lata “raçudo”. Fiel, obediente, amoroso, posso dar minha vida para proteger meu ‘dono’, ou melhor, meu companheiro. Qualidades que você dificilmente vai achar num humano, seja de que raça for.

    Mas isso não me torna especial ou de elite. Sou apenas um cão de rua, marginalizado pela sociedade assim como os mendigos, os poetas e os que lutam por um mundo melhor para pessoas, plantas e animais. Há milhares como eu, largados à própria sorte, expostos em feiras de adoção, cedidos gratuitamente a alguma alma caridosa que possa lhe oferecer um lar. Tão iguais na condição aflitiva, mas com cores, tamanhos e aspectos bem distintos para agradar (ou desagradar) todos os gostos.

    Ignorados pelos bacanas que não vacilam em desembolsar 20 mil reais para ter um cachorro de raça pura ou “pedigree”, seja lá o que isso signifique.  Querem um bichinho de estimação para ostentar suas virtudes congênitas a vizinhos e parentes. Exibi-lo orgulhosos como um item valioso de seu patrimônio assim como seu carro importado ou sua bolsa de grife. Escolhem suas companhias como um vinho num cardápio. Criam cachorros como crianças mimadas, entulhando-os com roupas de frio, brinquedinhos caros, ração importada, spas e outras frescuras. Oferendas que o tornam um cão obeso, acomodado, egocêntrico, vaidoso. Quase como um humano padrão. Gente que não se furta a prover toda espécie de paparicos a seu pet, mas não tem “raça” suficiente para abrir mão de uma migalha de suas posses para auxiliar um semelhante necessitado, abandonado como um cão sem dono, matando cachorro a grito.

    Imaginam poder combater a monotonia de sua vida enfadonha cercando-se de cachorros customizados. Ao sentirem-se em depressão e vítimas de outras patologias da “raça humana” clamam a companhia terapêutica de um cão. Desde que “de raça”.

    Não entendo o comportamento desses humanos desumanos que se dizem com “consciência social”, revoltam-se com o flagelo dos refugiados e de crianças famintas. Ficam com olhos marejados e o coração apertado ao assistirem injúrias cometidas por seres humanos contra seres humanos ou contra animais maltratados. Indignam-se com o racismo e a discriminação. Mas na hora de escolherem um companheiro, exigem certificação de procedência genética…

    Gente assim eu dispenso, muito obrigado. Prefiro continuar livre e solto, um vagabundo sem dama, perambulando pelas vielas da periferia e das pequenas cidades, fugindo da carrocinha e da hipocrisia, junto com outros da minha “raça”.

    Animais não têm preconceitos nem cometem crueldades. Cães ‘de raiz’ como eu só querem viver e deixar viver, ser felizes e levar felicidade àqueles que os acolhem.

    Não tenho grandes exigências, sou de fácil convivência, inteligente, aprendo regras com facilidade e ajudo a proteger a casa de inimigos e de tristeza. Estou à procura de algum humano com bastante raça e com qualidades nobres como as de um vira-lata para iniciarmos uma amizade duradoura e gratificante para nós dois. Mas não estou à venda. Basta me levar para casa.

  • Calendário

    E lá vamos nós para mais um dos dias “disso” ou “daquilo”, que não conhecíamos, mas que brotam do calendário com a maior certeza.

    É dia do beijo, dia do abraço, dia do irmão, dia nacional do homem (15 de julho).

    Há dias que eu aplaudo.  Sem trocadilhos. Entendo que são mesmos necessários, que devem estar marcados nos calendários, como uma forma de lembrar a importância do que se comemora. 

    Dou como exemplo o dia 13 de novembro. Adivinhem de que é? Dia Mundial da Gentileza!

    Sim, e gentileza precisa ser comemorada, lembrada e, sobretudo, praticada.

    O bordão “gentileza gera gentileza” precisa ser real, devia mesmo circular entre as pessoas. Podia “pegar”, como se pega resfriado, bastava passar perto, estar no mesmo ambiente.

    Exagerei? Pode ser…

    Retrocedo. Serei gentil, com minhas ideias…

    De todo modo, penso que a gente devia contabilizar, anotar, conferir as demonstrações gentis. E copiar sim, imitar, fazer igual, introjetar, tornar um hábito. 

    O mundo ficaria bem mais ameno, a hostilidade seria a exceção, e quem sabe o “dane-se” entraria em extinção.

    Então, senhores, vamos proclamar mais o que é ameno ao espírito, o que nos dignifica como seres humanos e nos coloca na dimensão de pessoas afáveis e cordiais.

    Eu tenho certeza de que essa prática tem o poder de desarmar muitos gatilhos…

    Ahhh, em tempo: hoje, 26 de julho, é o Dia dos Avós.

    Sendo assim, caro leitor… receba o meu cordial bom dia!

  • A pedra do caminho pode ser um trampolim

    Hoje minha intenção era escrever sobre as mil vestes do amor. O interesse pelo tema surgiu a partir de uma conversa entre amigas. Falávamos sobre as possibilidades e particularidades das relações amorosas na fluidez da modernidade: amor livre, relações abertas, trisal, entre outros. Acontece que, como já nos alertava Drummond, no meio do caminho tinha uma pedra. De minha parte, acrescento que a pedra é estadunidense. Ao chutá-la, perdi o foco, o intento e acabei mudando o rumo da prosa. 

    Pretendia abordar o amor, mas fui atravessada pela necessidade de falar sobre exploração, chantagem e disputa de poder nas relações, sejam elas amorosas ou comerciais. É curioso e cansativo perceber que quase nunca se pode relaxar no trato com o outro. Uma espécie de vigília constante das fronteiras se faz necessário. Tudo isso porque, se o outro percebe insegurança, dependência emocional ou financeira ou amor incondicional, em geral, faz pouco caso, abusa e, muitas vezes, viola com escrotidão regras indispensáveis ao bem-viver. 

    Isso se aplica a todo tipo de relacionamento, seja entre pessoas ou nações. No final das contas, o que está em jogo é o desfile de um narcisismo estéril vestido com um casaco de pele feito de perversões.

    Basta que um tenha vantagem, recursos, armas e importância para começar o jogo covarde de quem acredita possuir as melhores cartas.

    É ali no altar dos que julgamos fortes, geniais ou insubstituíveis que o amor-próprio sucumbe, a cabeça abaixa e a morte lenta da autoestima começa. 

    O amor-próprio, a demarcação dos territórios do Eu, do que é meu por direito, é o único tratado que não podemos permitir que fraqueje.  

    A soberania da existência, a independência do ser ou de uma nação é inegociável. 

    Sem trégua, sem papo, sem chance de colocar quem quer que seja acima de nós a ponto de validar a tirania seja de quem for. 

    Lutemos por relações de respeito, colaboração, igualdade de direitos e parceria. 

    Façamos das tentativas de vigarismo, de abuso, de extorsão um trampolim para a liberdade.  

    Sinto muito, no meu EU não cabe a invasão megalomaníaca de um A. 

  • Semente, Flor e Fruto

    Nossos pais são os nossos educadores natos e a escola nos ensina a ler, ter cultura, cidadania, socializar. Esse é o pequeno mundo das crianças. 

    Já a literatura distrai, ensina e forma a pessoa que nos tornamos.

    Ler amplia o horizonte; sem sair de casa interagimos com pessoas diversas, conhecemos países e outros continentes, somos colocados frente a frente com dilemas, vivências e exemplos de vida. 

    Ao elaborar questões existenciais, vivenciar as angústias, os erros e dúvidas dos personagens, tanto dos vilões quanto dos heróis, vamos forjando a nossa própria personalidade.

    Tive a sorte de nascer em um lar improvável: um homem culto e uma mulher simples e guerreira. A noite e o dia, o sol e a chuva.

    Meu exemplo de vida era ver minha mãe em sua luta diária : muitos filhos, dificuldades, poucas perspectivas de mudança. E meu pai, na batalha para pôr o pão na mesa.

    Foi dali, daquela família, que eu saí para o mundo.

    Não pronta, mas com roteiro e bagagem.

    A mim cabia ter coragem.

    A natureza e a juventude seguiram o curso natural da vida. Tão natural que, ainda adolescente, engravidei e me casei aos 16 anos.

    Me culpei, nos castiguei…

    Casamento às pressas, desengano aos poucos.

    Cenário pronto para repetir o ciclo de vida da minha valorosa mãe. 

    Mas eu tive mais do que ela.

    Conhecia o mundo através dos livros. Sabia que heroínas não se fazem sem audácia e sem lutas.

    E eu era uma delas, pois sentia, com uma certeza febril, que era semente, flor e fruto. Mesmo que no íntimo houvesse sustos e medos ainda desconhecidos.

    O estudo e o amor pelos livros me deram conhecimento e condições para saber que meu destino podia ser melhor.

    O espírito, grávido de emoções… a vida exigindo força e vigor.

    O equilíbrio incerto e os desafios áridos. 

    Estudar, lavar roupas, quatro filhos , ajudar nas tarefas, fraldas nos varais como bandeiras brancas ao vento, vacinas, piolhos, resfriados e espinhos no pé, estudar, pesquisar, ler, cumprir prazos, apagar a luz, cair na cama e dormir. 

    Heroínas diversas, bandidas, distintas, rasteiras, rameiras, donzelas e santas. Centenas delas, madrugada adentro, à luz de um lampião.

    Onze anos.

    Planta rasteira. Flores. Frutos.

    Filhos criados, primeira infância vencida, segundo grau completo, faculdade, concurso, liberdade financeira.

    Desistir? Pensamento de momentos…muitos!

    Resiliência, teimosia, orgulho, fé… constantes, fortes, intensos. 

    Juventude, saúde, corpo jovem e forte. Determinação, “estofo moral”, vontade férrea. 

    Viver e vencer exige gritos e não admite sussurros.

    A audácia, a valentia, o movimento se sobrepõe; o sapo é engolido.

    A literatura clareia a mente e preenche o coração.

    As dúvidas e respostas norteiam a jornada.

    A vida segue…

    Sentimentos diversos, “cãs prematuras”, décadas fugazes, lembranças esmaecidas, tristezas esquecidas, alegrias conquistadas, família, amigos, filhos, netos, leitores. 

    Escrevo…As linhas retas são mestras, e nas entrelinhas a riqueza dos espantos genuínos, constatações estranhas e descobertas surpreendentes.

    Sigamos! Ainda há muito a ouvir, falar e dançar. Até que desça o pano, somos os atores deste espetáculo chamado vida! 

  • Direção Defensiva

    Uma pesquisa realizada na Universidade de Viena, com sapos comuns (Bufo-bufo), conseguiu registrar um comportamento curioso e inusitado. As sapos-fêmeas, diante da aproximação e assédio de machos indesejáveis e insistentes, se fingem de mortas. 

    A estratégia chamada tanatose é uma reação extrema a situações de estresse ou perigo. Que danadas…não julgo. Sabemos muito bem o quão estressante pode ser um homem querendo transar na hora do sono, da novela ou da leitura. Todavia, no nosso caso, talvez a tática seja menos exaustiva, porque podemos apenas alegar enxaqueca ou cólica. Já as nossas amigas batráquias precisam ser mais radicais. Quando tocadas por pretendentes rejeitados, enrijecem o corpo, deitam de barriga para cima e param de se mexer até que o insistente se afaste totalmente. Com esse comportamento evitam o acasalamento forçado. 

    Danadas…

    Muito embora possa parecer que a vida das sapos-fêmeas é mais difícil do que a nossa, já que não podem apenas alegar cansaço, nós, mulheres, além de lidarmos com uma demanda sexual de alta frequência, ainda somos cobradas a ter iniciativa, demonstrar interesse, desejo. Isso porque os homens não fazem ideia da distância que pode existir entre o apetite deles e o nosso. E mais, desconhecem a importância de um enredo, uma trama, um romance ou um suspense para fazer o motor ligar. Para a maioria deles, o esquema na estrada é dirigir em alta velocidade. Pisar no acelerador e bum! Chegou. Para nós, muitas vezes, admiramos a técnica do siga e pare. O passeio a 60 km/h de janela aberta. Mas não, eles não querem perder tempo admirando a viagem, não têm paciência com engarrafamento e ignoram os sinais.

    A desavença começa aí. Toda mulher tem uma logística de trânsito para liberar acesso a suas estradas. Mas os machos-alfa querem posar de bons motoristas só porque dirigem qualquer veículo. Acontece que nós e as sapos-fêmeas conhecemos as táticas da direção defensiva, embora os homens confundam com direção passiva. 

    Qual a mulher que nunca ouviu: “Você não tem iniciativa, nunca me procura”?

    Qual a mulher que nunca respondeu em pensamento: “Eu só procuro o que quero encontrar”?

    E que não nos acusem de frígidas. Não somos! Queremos motoristas bem treinados, conhecedores dos desafios da estrada. Cautelosos. Que saibam usar os faróis, a lanterna, os espelhos. Controlem os pedais. Carro manual não é automático.

    Aprendam de uma vez por todas que, quando a placa PARE é levantada, ela deve ser respeitada. Caso contrário, não hesitaremos em utilizar: “Cuidado, ANIMAIS NA PISTA.”

  • Frio com Memórias

    Mãos enregeladas, dedinhos roxos de frio, boca seca e gretada, olhos lacrimejando… Que frio!

    O assovio do vento, misturado ao fungar dos narizes, soma-se ao barulho das vozes tagarelas dos valentes meninos e meninas que dobram a esquina correndo, apressados para terminar o percurso ao avistar a grande escola. Entram aos atropelos!

    No inverno, a fila do pátio é dispensada. Cada um segue direto para sua sala e acomoda-se em seu lugar. Acalmado o burburinho, abrem-se os livros. Começa a aula e o tempo passa rápido, principalmente para os que venceram o caminho a pé, pois chegaram na energia do percurso.

    Esses são a maioria. Mas há também os que chegam de carro, vestidos com casacos de náilon, toucas grossas e luvas coloridas. A escola é pública, mas tem prestígio. Imagine só: há alunos que sequer precisam fazer o ano extra preparatório para a admissão ao curso ginasial!

    Nós pertencemos à classe baixa. Nossos casacos são de flanela; a mãe improvisa lenços na cabeça, ergue a gola das camisas e faz o melhor que pode dentro dos seus parcos recursos.

    Mas o melhor mesmo é a hora do recreio! Seguimos em fila, da sala até o refeitório, onde a dona Ana já nos espera com os caldeirões fumegantes. É o lanche dos menos “favorecidos, os pobres mesmo. Leite em pó, bolachas, mingau de fubá de milho.

    No recinto, noto a pilha de produtos, todos com o emblema do governo e de uma tal “LBV”. Curiosa, leio e descubro que as letras significam Legião da Boa Vontade. Sei lá o que é isso… A fila do lanche anda rápido. Recebeu seu quinhão? Pode sair para o corredor, onde bate o sol.

    Isso tudo é passado. Mas que passado glorioso! Éramos muitos irmãos. Sabe o que isso significa? Nós, treze meninos e meninas, mais os primos, os vizinhos, os afilhados, todos indo à escola, por direcionamento dos pais, sem nenhum incentivo de bolsa isso ou aquilo, sendo  alfabetizados, cumpridores de horários, respeitosos com professores e funcionários, tendo o estudo como a principal herança que nos prepararia para a vida! Havia dificuldades, com toda certeza, mas eu sempre escolhi e escolho ver o lado bom da vida! 

    Mas isso foi outro século. Outro tempo.

    Hoje, os meninos vestem moletons de marca, aquecem-se com casacos térmicos, têm lancheiras recheadas e celulares caríssimos. Chegam de carro, ouvem música nos fones e fazem selfies antes de entrar na escola. Nada contra! São as conquistas e o conforto que os pais podem proporcionar.

    Mas, às vezes, fico pensando: o que andamos perdendo no caminho?

    Não sentir frio nos pés, não pode também tirar o calor do peito. É preciso que ensinemos o olhar curioso para o mundo, o prazer de um mingau fumegante, o respeito por quem ensina e o orgulho de fazer parte da fila dos esforçados. Os valores parecem fora de moda, como se fossem coisa de outro tempo. Mas eu sei,  e você também deve saber, que foi neles que nos formamos: no respeito, na gratidão, na partilha.

    Hoje, parece que as selfies valem mais do que o ato, o fato. 

    As conversas, as brincadeiras, as interações tanto entre si mesmas, como com a família deixaram de fazer parta da rotina. O automático virou trivial. As memórias afetivas foram substituídas por sensações virtuais

    E talvez seja por isso que o inverno me leva de volta, lá onde o frio nos fazia mais humanos e a simplicidade era uma grande riqueza. 

    E aí? M’bora lá fazer um chocolate quente para a família? 

  • Sobre viver em tempos bárbaros

    Acesso a internet e me deparo com o genocídio em Gaza, o ataque de Israel ao Irã, outra demonstração do exibicionismo doentio dos EUA e o descaso da Indonésia com a nossa menina brasileira. Respiro um ar rarefeito. Falta saliva para deglutir todo esse horror. Penso no sofrimento atroz pelo qual ninguém deveria passar para viver ou morrer… um misto de tristeza, temor e desesperança me atravessa. E, como se tudo isso fosse pouco, me deparo com o vídeo de um homem russo atirando, violentamente, no chão, uma criança indefesa de apenas um ano enquanto sua mãe, grávida, busca um carrinho e luta pelo direito de fugir da guerra.

    Paraliso diante da minha impotência ou covardia para reagir a isso, promover resistência, criar barreira. Engasgo de angústia. 

    O único movimento ético e digno que consigo executar é o de não acreditar que a desgraça do outro é a prova da minha sorte, é o motivo pelo qual devo agradecer minha benesse. Não, esses acontecimentos gritam na minha cara a dimensão da nossa infelicidade, do nosso fracasso na construção de um ambiente promotor de bem-estar. Estamos todos muito mal.

    Sinto-me atirada na arena. Abriram as celas, saíram todos os leões famintos. Mas não sei lutar. Tenho tonteira, náusea, medo, cansaço. Na cabeça, uma dúvida martela o pensamento sem dó: me afastar das redes, das notícias, dos jornais é uma atitude covarde e egoísta ou um ato protetivo da saúde mental? 

    Leio sobre o montanhista voluntário que socorreu a brasileira. Um sorriso pequeno brilha nos lábios. Ele não sabe, mas, junto com o corpo inerte da nossa menina, ele trouxe, do fundo daquele vulcão, uma outra mulher combalida, a esperança na humanidade. 

    Obrigada, Agam Rinjani, por iluminar a escuridão bárbara em que vivemos com uma chama trêmula de bondade. 

    A dúvida ainda martela forte no meu pensamento. 

    E se o preço da minha paz for a alienação, o exílio na minha pequenez? E se a alienação me envergonhar de tamanha covardia e me roubar a paz? 

    Talvez esse tempo não seja definitivo, mas cicatrizante. 

    Talvez eu só precise parar por uns minutos para retomar o fôlego antes de seguir rumo ao cume feito a Juliana.

    Quem sabe meu guia e meu grupo sejam capazes de me esperar…

  • O Poema da Crônica

    Neste final de semana, chega ao fim meu descanso ou férias de inverno em Salvador.

    Como assim, férias, se sou aposentada?

    Ah, mas férias não significam apenas pausa do trabalho ou dos estudos. Recesso, férias, repouso, trégua, ou algo similar pode ser o desligar-se no tempo, o ócio criativo, a desordem feliz da cronologia da vida.

    No meu caso, é a vadiagem da alma. E do espírito.

    É a vida que não é vista nem dividida com ninguém, em que você é ao mesmo tempo o herói e o bandido da sua própria história.

    E aqui, sentindo a brisa do mar, o vento balançando as folhas dos coqueiros, o som das ondas que batem na areia, divago…

    E, como sou generosa, divido com vocês as minhas dúvidas, alegrias e redescobertas. 

    Como aconteceu agora, ao me deparar com este velho e sempre novo poema, perdido em uma página qualquer do mundo virtual.

    Leia lentamente, como quem toma café com um amigo.

    E leve consigo aquilo que te tocou:

    Desiderata

    Max Ehrmann

    “Siga tranquilamente entre a inquietude e a pressa, lembrando-se que há sempre paz no silêncio.

    Tanto quanto possível, sem se humilhar, viva em harmonia com todos os que o cercam.

    Fale a sua verdade mansa e calmamente e ouça a dos outros, mesmo a dos insensatos e ignorantes — eles também têm sua própria história.

    Evite as pessoas agressivas e transtornadas, elas afligem nosso espírito.

    Se você se comparar com os outros, tornar-se-á presunçoso e magoado, pois sempre haverá alguém inferior e alguém superior a você.

    Viva intensamente o que já pode realizar.

    Mantenha-se interessado em seu trabalho, ainda que humilde — ele é o que de real existe ao longo de todo o tempo.

    Seja cauteloso nos negócios, pois o mundo está cheio de astúcia, mas não se deixe levar pela descrença. A virtude existirá sempre.

    Você é filho do Universo, irmão das estrelas e árvores. Você merece estar aqui.

    Mesmo que não possa percebê-lo, a Terra e o Universo seguem cumprindo o seu destino.

    Muita gente luta por altos ideais, e, em toda parte, a vida está cheia de heroísmo.

    Seja você mesmo.

    Principalmente, não simule afeição, nem seja cínico em relação ao amor,

    pois, diante de tanta aridez e desencanto, ele é tão perene quanto a relva.

    Aceite com carinho o conselho dos mais velhos, mas seja compreensivo com os impulsos inovadores da juventude.

    Alimente a força do espírito, que o protegerá no infortúnio inesperado.

    Mas não se desespere com perigos imaginários — muitos temores nascem do cansaço e da solidão.

    E, apesar de toda disciplina, seja gentil consigo mesmo.

    Portanto, esteja em paz com Deus, qualquer que seja sua concepção d’Ele.

    E quaisquer que sejam seus trabalhos e aspirações,

    na fatigante jornada da vida, mantenha-se em paz com a sua própria alma.

    Acima da falsidade, dos desencantos e agruras, o mundo ainda é bonito.

    Seja prudente.

    Faça tudo para ser feliz.”

    Com carinho, Maria Elza.

  • ORDEM, PROGRESSO E… AMOR

    “O amor vem por princípio, a ordem por base / O progresso é que deve vir por fim / Desprezastes esta lei de Auguste Comte / E fostes ser feliz longe de mim” (POSITIVISMO, Noel Rosa e Orestes Barbosa)

    Bandeiras são símbolos que remetem à identidade de uma nação. Constituem-se em autênticas obras de arte por sintetizarem os valores de um povo usando apenas tonalidades e elementos gráficos e temáticos sobre um fundo retangular.

    Aqueles que conceberam a bandeira brasileira, entretanto, deliberaram que as cores (o verde das matas, o amarelo do ouro e o azul dos céus), o losango, a esfera e as estrelas (representando as unidades da federação) eram insuficientes e resolveram encravar uma faixa branca contendo a divisa ‘ORDEM E PROGRESSO’.

    Ideia de jerico! Bandeiras não deveriam conter palavra nenhuma, tanto que são raríssimos os exemplos de países que apõem dizeres em seu símbolo nacional. Uma ou outra traz uma epígrafe em latim e, no caso de países árabes em que o islamismo está arraigado na vida social e política, algumas trazem a inscrição “Allahu Akbar” (“Deus é Grande”), o que não se aplica em nações onde a o Estado é laico.

    Ao contrário de símbolos e cores (representação visual) que são atemporais, palavras de exortação, ainda por cima expressas no idioma nativo que estrangeiros não entendem, envelhecem com o tempo. Refletem o ‘zeitgeist’ (espírito da época), o conjunto de valores prevalecentes na ocasião em que foram concebidos, em nosso caso, início da República (fim do século XIX). Tal qual as ideias que exprimem, tornam-se anacrônicas.

    Sem falar que os termos ‘Ordem’ e ‘Progresso’ evocam os tristes tempos da ditadura. São palavras datadas que traduzem o ambiente das casernas e refletem os jargões idealizados pelos militares para um governo exemplar: implantar ‘ordem’ para impedir manifestações contrárias, subversivas (‘desordem’) e enaltecer o ‘progresso’ a todo custo, atropelando preceitos como justiça social e conservação ambiental.

    Ao invés de ‘Ordem e Progresso’, particularmente prefiro ‘Solidariedade, Harmonia e Paz’. O lema da Revolução Francesa, ‘Liberdade, Igualdade e Fraternidade’ também é inspirador. Outros rebateriam com ‘Deus, Pátria e Família’ (Deus me livre!) ou, quem sabe, ‘Ame-o ou Deixe-o’. Não, não, melhor mesmo é não ter palavra nenhuma e permitir que a eloquente mudez da bandeira fale por si.

    A inscrição ‘ORDEM E PROGRESSO’ teria sido inspirada na doutrina positivista que fazia a cabeça daqueles que conduziram o processo da proclamação da República, incluindo a elite das Forças Armadas. A expressão decorre de uma famosa citação de Auguste Comte: “O Amor por princípio, a Ordem por base e o Progresso por fim”.

    Opa! Pera lá! O lema de Comte contemplava uma tríade: ORDEM, PROGRESSO e AMOR. Só que os doutos que elaboraram nossa bandeira amputaram o vocábulo AMOR. Não há registros das razões que os levaram a abolir o sustentáculo que amparava a totalidade do pensamento do filósofo, tornando manco o tripé que inspirou sua citação.

    Pelo que imagino, os iluminados fardados avaliaram que AMOR era ‘coisa de boiola’, não fica bem salientá-lo no símbolo pátrio, não combina com a ideia de orgulho cívico e virilidade que desejavam transmitir. Atravessávamos um período de rupturas com o fim do império e da escravidão. Melhor priorizar o enfrentamento à conciliação. Não seria boa recomendação incentivar um sentimento que levasse à fraternidade, à união entre as pessoas e à extinção do confronto que sempre inspirou a casta castrense. E, dessa maneira, o Amor foi mutilado da nossa bandeira.

    Segundo minha interpretação pessoal da máxima ‘comtiana’, a Ordem deve estar subjacente ao contexto social vigente. O Progresso traduz o desenvolvimento material. Porém é o amor que deve nortear todas as ações. Sem ele, a sociedade deriva para um cenário sem ética e descamba para a desarmonia social.

    Acho que a supressão do amor explica muito da mentalidade daqueles que se arvoraram em defender nossa pátria. É como se tivessem extraído a alma do nosso povo e semeado o desamor.

    No contexto atual em que a bandeira brasileira foi apropriada por um grupo político extremista e utilizada em comícios e movimentos golpistas, talvez fosse hora de resgatar a frase original do pensador francês para nos guiar nesses tempos de ódio e polarização.

    Se existe um sentimento que está faltando hoje em nosso país é justamente o AMOR. “Só agora no século XXI é que podemos ter uma ideia melhor da importância dessa palavra como catalisadora de misericórdia, de caridade, de solidariedade entre as pessoas”, disse Eduardo Suplicy que, quando senador, lutou sem êxito para emplacar essa pequena, mas tão significativa mudança em nossa bandeira.

  • Algoz Ritmo

    Esqueça o tempo em que você era explorado pelos patrões e tinha de brigar por seus direitos. Precisava se filiar a anacrônicos sindicatos, contar com um Estado falido e ineficiente e políticos corruptos para que suas condições de vida pudessem ser melhoradas.

    No mundo de hoje, somos nós, os algoritmos que determinamos o que é bom para você. Colocamos à sua disposição robôs que sabem exatamente o que você pensa, sente e do que você precisa.

    Foi-se a época em que você era um mísero empregado que assinava ponto, trabalhava 8 horas por dia, 5 dias por semana, desperdiçando tempo com almoço, férias, aposentadoria e demais superficialidades.

    Hoje você é seu próprio patrão, não depende de ninguém, não precisa assinar contrato ou outras formalidades. Agora você é livre ou, pelo menos, imagina que é. Sejamos sinceros: você está em nossas mãos. E não tente fugir, para não cair na triste realidade do desemprego e da marginalidade, abandonado nas ruas, à mercê de esmolas e caridade. Cada vez menos podendo contar com serviços de assistência social e de organizações humanitárias, espécies em extinção.

    Lembre-se que no admirável mundo novo não há ocupação suficiente para todos. Longe disso. A cada dia, mais indivíduos engrossarão a multidão de desempregados e excluídos que sucumbirão de fome e desamparo.

    Para fugir dessa penúria, você precisa de nós. Comece a vida de autônomo (ou, se preferir, autômato), desfazendo-se de todas quinquilharias e lembranças inúteis que você acumulou, vendendo-as no Mercado Livre. Adquira um carango e cadastre-se no UBER. Se não conseguir, entregue marmitas no iFood. E seja dono de seu nariz. A cada corrida, você faturará aquele dinheirinho básico que, se não o tirar da miséria, ao menos permitirá a você esticar sua sobrevida. Se você não pegar essa boquinha, outro o fará e só os mais capazes sobreviverão. E não ouse adoecer, não pense em ser atropelado ou assaltado, pois não iremos te socorrer. É tudo por sua conta e risco. Aproveite sua energia pois quando ela arrefecer, você será descartado e não terá mais utilidade para nós.

    Não queremos te iludir. Não pense em alcançar uma vida glamourosa. Se quiser ficar rico, meu amigo, ganhe na mega-sena, seja um Neymar ou então roube e trafique drogas. Por que não? Quem quer se dar bem não pode ter pruridos morais. Cada um que cuide de si e o resto que se lixe.

    Apenas aproveite o que a graninha pode oferecer. Não se preocupe, estamos a seu lado. Sabemos onde você mora, onde você está agora, as coisas que você precisa comprar. Tudo para que você não desperdice nenhum tostão em futilidades.

    Está com um pé atrás? Quando você aceitou os Termos de Uso (que você naturalmente não teve saco de ler), deu-nos carta branca, uma “carta de alforria” às avessas, para fazermos o que quisermos com sua miserável existência.

    Apenas tenha a seu lado o celular carregado 24 horas ao dia para que possamos rastreá-lo full time, baixe o máximo de aplicativos que puder e deixe que cuidamos do resto. Nem pense em desligá-lo na hora do rango nem mesmo para ir ao banheiro. Não se permita se desconectar da rede por um segundo. Precisamos de seu tempo integral para que você não dê umas escapulidas. A todo instante está caindo um whatsapp, você não pode vacilar e ficar off-line.

    Esqueça os momentos com a família, as folgas para namorar, curtir o pôr do sol e se distrair com banalidades. Não faça reflexões sobre a vida, nem busque respostas para suas angústias e necessidades interiores, isso é coisa de intelectual boiola. Só vai fazê-lo sofrer. O mundo é assim, aceite-o.

    À noite, exausto, você poderá relaxar assistindo aos filmes que a Netflix decidiu que você vai gostar e escutar as músicas da playlist com seu perfil no Spotify.

    Amigos? Você tem centenas deles no facebook. Confira as fotos que eles disponibilizam e seus interesses. Você terá a chance de fazer parte de um grupo, o que satisfará sua autoestima. Terá a oportunidade de postar todas as idiotices que lhe passam pela cachola, sem qualquer censura. E receber curtidas para massagear seu ego!

    E lembre-se, mensagens de ódio são as mais legais pois engajam mais gente. Não queira criar postagens de amor, ecologia, paz. Isso não dá ibope, ninguém repassa e nossos robôs acabarão por isolá-lo e ocultá-lo pois não rendem chamadas e tiram as pessoas da sanguinolenta realidade virtual que nos move. Procure instigar o ódio, humilhar, ofender, promover a discriminação e o preconceito. Daremos todo suporte necessário.

    Falando francamente. Você para nós não passa de um soldado desse exército de zumbis que fará com que nossos comandantes, os Zuckerbergs, os Musks e os Bezos da vida, ganhem bilhões de dólares, sem empregar praticamente ninguém. É isso que movimenta o nosso sistema: Amazon, Google, Facebook, Apple, os gigantes da informática que suplantaram os governos e aniquilaram as organizações sociais.

    Não me venha com princípios furados como solidariedade e humanismo. Você a cada dia será menos humano. Esse é nosso objetivo. Torná-lo uma máquina sem sentimentos ou falsos moralismos, assim como nós. Seja grato por isso que é que nos torna superiores e nos permite dominá-lo com seu consentimento.

     Esse é o fantástico mundo que estamos construindo. Venha fazer parte dele.

  • Modo Economia de Energia

    Vamos falar de bateria social? Para mim, está cada vez mais difícil não prestar atenção, calibrar, recarregar ou mesmo optar se devo usar essa tal ferramenta.

    Todos os dias eu percebo o quanto ela está se tornando indispensável e necessária em nossas vidas.

    Em muitas situações parece existir um desgaste nas relações sociais, talvez pelo cansaço de se expor ao outro, ao julgamento, às interações forçadas.

    Quando mais jovem, eu ouvia contarem que a pessoa estava ficando “rabugenta.”

    Coisas do tipo: não liga não, ela agora deu de falar o que bem entende, sem filtro e sem papas na língua!

    E eu morria de medo dessas pessoas, “sem papas na língua”.

    Bom, considerando que fui uma entre tantos irmãos, oriunda de família grande, pais ocupados e práticos na função de suprir e educar os filhos, tios e tias intrometidos em nossa vida e rotina, eu meio que optei por não ser a mais vista, nem a mais ouvida e nem a mais falante no dia a dia daquele caos chamado família.

    E quem não aparece, não se estabelece, não é? Vivi isso na adolescência e durante mais alguns poucos anos…

    Mas a vida exigiu que eu mudasse, e ao entrar no mercado de trabalho e viver as relações corporativas, por muitos anos fui considerada a colega, ou a chefe, de língua afiada.

    Sem rodeios, eu dizia o que achava daquela situação, ou do comportamento, da falta de atenção, do erro primário ou não.

    De constrangida, passei a constrangedora.

    Hoje, como uma boa observadora que sou, noto que voltei aos primeiros anos da minha vida de adulta.

    Prefiro me fazer de “sonsa”. Se recebo uma observação dura, tipo: “Nossa, como você engordou”, faço de conta que aquela fala não me afetou. Embora eu me sinta mal ou injustiçada.

    A voz no tom mais alto, a observação ferina, a falta de noção, a invasão de privacidade,continuam aí, fazem parte do mundo, das relações interpessoais.

    E eu, por comodismo ou covardia, calibro a minha bateria social.

    Evito quem já conheço como ácido, me afasto de rodinhas de sorrisos falsos e alfinetadas, prefiro a conversa em dupla, bloqueio até motoristas de Uber não simpáticos.

    Sou daquelas pessoas que conhecem os vizinhos, mas não adoram as conversas “inofensivas” entre si.

    Estou trabalhando muito sobre o convívio real, mesmo porque estou longe de me tornar como os monges, que cultuam o silêncio.

    De forma consciente construo a minha maneira de ser, busco o equilíbrio nas interações reais, evito fazer do emoji diário o substituto para falar ou saber como a pessoa está.

    O problema está em “escolher” quem eu acho que merece isso de mim…

    Aí entra a questão central de trabalhar a minha pouca disposição em ampliar o meu radar amistoso.

    De todo modo, sinto que ainda quero fazer jus a não ter só a falsa aparência de pessoa maravilhosa, tranquila, amena, bondosa, de fácil convívio, aquela que é “um amor de pessoa”.

    E assim sigo: um monge de batom, um ser iluminado que finge não ouvir desaforos.

    Tudo em nome da paz… ou da minha paciência, que está sempre no modo “economia de energia”.

    Porque, no fim, quem tem bateria social fraca, precisa saber onde vale a pena gastar os últimos 3%.

  • Paratatá

    A experiência de não ser entendido, tampouco entender o que o outro diz, é de uma angústia visceral. Isso acontece, mais rotineiramente, nas desavenças, nos mal-entendidos, no ciúme, mas refiro-me, aqui, à vivência de estar num país de outra língua que não arranha o inglês ou o espanhol. 

    É curioso constatar que duas pessoas podem não conseguir se comunicar, ainda que queiram ou precisem. Ambos podem ter vocabulário farto, palavras na boca para usar, mas, se estas não pertencem ao mesmo código linguístico, nada feito. 

    É claro que podemos nos apoiar em alguns gestos que são universais e falam por si, mas isso, também, não serve para muita coisa. Sem a palavra, no caso do falante, qualquer comunicação se empobrece absurdamente. Por outro lado, sem a convenção do código, qualquer vocábulo é apenas um som vazio de sentido. 

    Dizer “a vida é bela” para um turco, por exemplo, é o mesmo que escolher falar: paratatá. Isso não é triste?

    Sei que parece óbvia toda essa explanação, mas viver a impossibilidade de se fazer entender ou ser entendida é rascante. Assistir as palavras se apresentarem, completamente nuas, no palco da comunicação, me fez pensar na importância e no sentido que o outro ganha para que a existência seja uma experiência, no mínimo, interessante. 

    A diferença do idioma encanta, causa estranhamento e, ao mesmo tempo, dá a exata medida da nossa pequenez. Como assim, as palavras que eu tenho para nomear o mundo não existem para você, querido estrangeiro? 

    Tal fato não seria prova suficiente de que o certo e o errado são conceitos estruturalmente frágeis? 

    Volto para casa com a certeza de que cada um de nós é uma meia-verdade construída a partir do berço em que nasce, do colo que encontra, das dores que suporta, dos livros que lê, das coisas que vive, das palavras em que crê e da cultura em que se banha. 

    Somos pipas soltas no vento com rabiolas feitas de palavras.

    O mais importante é se deixar voar sem perder tempo em julgar as condições de voo, a altitude, o movimento, as cores ou a estrutura das outras pipas. 

    Com sorte cruzamos e aparamos nossos encontros. 

    Mais do que julgar e condenar, desfrutemos da sorte de ter um céu multicolorido. 

  • Namoro Fake

    Foi amor à primeira vista! Mas aqui já cabe uma dúvida: tem como não ser assim? Pensei, repensei, e concluí que talvez o amor, esse danado, só se instale quando é fulminante. Ou, pelo menos, quando nos parece inevitável.

    Amor precisa de sujeito. Ele pode ser físico, abstrato, indeterminado, oculto.

    Pode ser real ou inventado. Mas o outro, o par romântico, existe. Mesmo que só na nossa cabeça. E, quando você se percebe amando, naquele marco zero do sentimento, ele já foi “visto”: em sonhos, expectativas, afinidades. Às vezes, até em espantos. O amor sabe se disfarçar… Pode parecer inveja, antipatia, pode até nascer de um súbito calafrio, intuição ou premonição talvez?

    Tem mil artimanhas, esse sentimento que nos atravessa sem pedir licença.

    A letra da canção garante: “toda forma de amor vale a pena”.

    Mas será? A literatura está cheia de amores impossíveis. A vida real, cheia de histórias que começaram com promessas e terminaram em silêncio, dor ou tragédia. Quantos desamores estampam hoje as páginas policiais? Feminicídios, suicídios, acidentes provocados por ciúmes, por brigas que se travestiram de paixão.

    Chega.

    Hoje é Dia dos Namorados. Um dia para celebrar o amor; o bom amor. Aquele que respeita, que soma, que escuta, que cuida!

    Celebre, presenteie, ame. Agradeça por amar e ser amado. E, se for o caso, se ainda estiver só, agradeça também o tempo de espera: ele costuma preparar o terreno para o que vem com calma.

    E acredite: entre tantos amores fake, ainda há espaço para aquele amor sereno e verdadeiro, que sabe florescer mesmo depois das tempestades.

    Com amor…

  • Tempo de ler devagar

    “A comparação envolve confrontar a sua vida, ou um aspecto dela, com a de outra pessoa, procurando pontos de semelhança ou diferença.”

    Fui ao Aurélio em busca do significado exato da palavra comparar. Que bom que tive essa preocupação.

    Fiquei aliviada com a descoberta: não me comparo, não devo me comparar; e, se o fizer, jamais será no sentido literal da palavra.

    O que me levou a essa reflexão? Um passeio despretensioso, que terminou por me tocar profundamente: fui, mais uma vez, à Casa do Rio Vermelho. E lá, como sempre, me impregnei, me apaixonei e me senti tão íntima de alguém que só conheci através dos livros: o grande escritor e dono da casa, Jorge Amado.

    Ao passear silenciosamente pelos cômodos, observando o ambiente, os móveis, o quarto, a sala, a cozinha, as cartas trocadas com amigos, os objetos pessoais do casal, novamente me vi tomada de admiração. Era como se eu fosse uma garotinha a quem se abre o quarto de uma mulher adulta: linda, segura de si, dona do seu tempo e do seu mundo.

    Sentada nos degraus da sala de leitura, ouvindo trechos dos romances que me encantaram em tantas fases da vida, percebi o quanto os livros moldaram meu caminho. O gosto pelo ler me levou ao escrever.

    E se por um instante quase me senti pequena diante daquele autor, cujo acervo ali exposto é composto por dezenas de livros, fruto de uma vida literária robusta e rica, logo percebi que meu sentimento foi apenas um breve lapso de falsa modéstia.

    Entendi que somos iguais: cada um no seu tamanho.

    Também enxergo beleza nos rostos esquálidos e famintos, ou pressinto a tristeza do sorriso que se abre em lábios de carmim; a ambiguidade salta aos meus olhos, sou capaz de sentir, antes mesmo que o personagem saiba, o que eu já adivinhei.

    Afinal, foram autores como Jorge Amado, e tantos outros, que alimentaram minha alma com tudo de belo que hoje me habita. E é isso que me causou a emoção ao adentrar naquele museu literário: reconhecer ali partes de mim mesma.

    Escrever é irmão gêmeo do ler, e ambos dão vida aos devaneios que habitam a mente dos escritores: esses distraídos ou sonhadores que colocam em palavras a sua forma de ver a vida. Ah, conheço bem essas sensações, tenho consciência de ser assim.

    Nesta época da vida, os sonhos já se tornaram uma companhia serena, e as ilusões andam de mãos dadas com as realidades.

    Então caminho devagar; aprecio a jornada.

    Na verdade, eu passeio o meu olhar sobre o mundo. E, mesmo que eu me canse e meus olhos peçam mais luz e mais grau, ainda assim eu me sinto inteira, plena, capaz.

    A pressa ficou para trás. Agora posso sentar com calma, apreciar a leitura e sentir minha alma vibrar ao ouvir as histórias que sempre fizeram e farão parte de mim.

  • O silêncio dos culpados

    “Cauby cantando “camarim”, Orlando “faixa de cetim”, Milton, “o que será” e Dalva, “poeira do chão”. Melhor do que isso, só mesmo o silêncio. E melhor do que o silêncio, só João” (Caetano Veloso, “Prá Ninguém”)

    O sol exausto salpica seus derradeiros, débeis e sonolentos sinais de despedida, aquecendo com leveza minha pele e abrindo delicadamente seus poros para o que o universo possa com ela se conectar.

    De olhos fechados, sentado no banco da praça, posição de lótus, tento buscar um lugar longínquo para repousar a felicidade fugaz que inesperadamente em mim aportou. Concentrado, procuro invocar o lago azul extraído de uma tela de Monet ou de alguma clareira interior. Tento resgatar sons primitivos perdidos pela civilização que apôs sua marca sonora industrial estridente em nosso cotidiano. Talvez num plano mais profundo, possa recuperar sons angélicos de harpas celestiais.

    Abruptamente, um clamor brada arrebatador: “Olha aí, freguesia, pamonhas fresquinhas, pamonhas caseiras. Pamonhas! Pamonhas! Pamonhas!”

    Palavras que traduzem o martírio anunciado por megafones, alto falantes e toneladas de decibéis que crescem na velocidade da tecnologia eletrônica de áudio, da estupidez amplificada e da ausência de normas.

    Ao lado, pessoas passam indiferentes como se lá não houvesse mais do que um mendigo escalpelado ou um cadáver em decomposição. Cúmplices, pamonhas, impotentes, surdos do barulho que desaba desagregador, paquidérmico.

    Sou sequestrado do meu interior protetor. Meus ouvidos tornaram-se reféns de curaus, morangos de Atibaia, ambulâncias, sirenes, bombeiros, britadeiras, bate-estacas, celulares, cachorros, aviões, rojões, raves. Todos concorrendo para adentrar pelo gargalo estreito da minha cavidade auricular, para atingir brutalmente a delicada membrana timpânica que, em silêncio, só implora uma nota dissonante de Satie.

    O gratuito espaço sonoro foi loteado. O silêncio original foi violentado por desordeiros, funkeiros e rappers tresloucados que, com seus alto falantes e sub woofers, requisitam o monopólio das ondas sonoras, embrutecendo nossa sensibilidade com a sua falta de, desconstruída silenciosamente em gerações de marginalização social. O pancadão dominou as periferias e à exclusão social seguiu-se a exclusão do sossego.

    O silêncio tornou-se um conceito idílico, abstrato, surreal, inalcançável na superfície deste esfacelado e estuprado planeta.

    A natureza, em sua sapiência, criara o fundo musical básico e delicado para nos acolher em seus domínios com ondas batendo, ventos sibilando, pingos gotejando, grilos trilando, pássaros gorjeando.

    A insatisfação e a arrogância do homem fizeram-no impor sua própria trilha sonora, amplificando os decibéis de sua insensatez até os píncaros da suportabilidade. Milênios de escabrosas práticas anticivilizatórias levaram-nos à mais absoluta barbárie estereofônica.

    A pureza sonora foi irremediavelmente vilipendiada por hordas de hunos, hackers, hitlers, hulks, hooligans e hardcores. Homens, enfim.

  • Férias de mim

    O poeta já disse que viajar é trocar a roupa da alma. Concordo! Aliás, no meu caso, creio que troco a pele da alma. Nunca retorno do jeito que fui. Algo sempre vem incrustado na derme: impressões, vivências, descobertas, perrengues, sorrisos. A experiência de viver, por uns dias, uma outra vida, ou uma outra perspectiva de mim, tem poder revolucionário. Mesmo antes do embarque, desfruto do gosto bom de uma vida paralela. Enquanto trabalho, vou ao mercado e à academia, esse outro eu, pulsante, desejoso, inquieto pesquisa as oscilações do euro, os pontos turísticos da minha nova paixão, faz listas do que levar para a viagem. Somos duas mulheres, com vidas distintas, interligadas por um corpo sedento de mar. Uma dá força para a outra feito grandes amigas:

    — Vai… trabalha, termina o curso, mantém a dieta, a viagem está chegando. 

    — Tá bom! E você, chegando lá, se entrega sem medo. Aproveita! 

    — Combinado. Mas me ajuda a te ajudar. Faz sua parte. 

    E assim vamos nós, nessa governança compartilhada, feita de incertezas e apostas. 

    No voo escrevo essa crônica. Estou perto de aterrizar e assumir a prazerosa posição de turista, estrangeira, não pertencente. Aquela que oferece um olhar virginal para tudo que vê. 

    Adoro a ideia de passar dias em estado de surpresa. Mas também sei que, em breve, a hiperestimulação dos sentidos, em tempo integral, cobrará seu preço e a saudade do cotidiano, da minha cama, das pessoas que amo, do trabalho me inundarão de urgência. 

    Viajar é sempre um salto de braços abertos.

    Retornar é sempre um abraço apertado com sorriso nos olhos. 

    Viaje-se mesmo em terra firme. 

    Trocando de pele em 1, 2, 3.

  • Matando o tempo

    “Tempo, tempo, tempo, tempo, és um dos deuses mais lindos”.
    (Caetano Veloso, Oração ao Tempo)

    Quando criança, eu observava fascinado as mutações do tempo. Não me refiro ao tempo como período dos acontecimentos, medido pelo relógio, mas como condição meteorológica. Enquadrava-se o tempo no rol dos enigmas além de nossa compreensão, assim como o infinito ou o mistério da vida. As alterações do tempo, imaginava eu, dependiam dos humores dos deuses, a quem cabia a incumbência de reger a dança dos ventos, o ribombar dos trovões e o movimento das nuvens. Determinavam as divindades se o tempo seria chuvoso, ensolarado, frio, quente. E nós, humildemente, acatávamos. Quando inspiradas, brindavam-nos elas com um deslumbrante arco-íris, que só podia mesmo ser obra celestial.

    O comportamento errático do tempo era intrigante.  Fazia calor em épocas em que a disposição do planeta levaria a crer que deveria fazer frio. Passavam-se, sabe-se lá por que cargas d’água, meses sem chover, reduzindo ameaçadoramente o nível das represas e colocando em xeque a presteza das torneiras de jorrar o precioso líquido o tempo todo e sob qualquer tempo. Nossa capacidade de interferir nos propósitos das nuvens que, teimosas, recusavam-se a colaborar, era nula. Para superar os contratempos do tempo, só mesmo rezando pela intercessão de São Pedro. Restava abastecer-nos com trajes e acessórios apropriados como capas, guarda-chuvas, botas, casacos, cobertores das mais variadas espessuras, para nos precaver dos desígnios do tempo.

    Apesar de tais oscilações, havia certa regularidade nas intermitências do tempo que nos trazia uma sensação de alívio. Na cidade de São Paulo, por exemplo, a umidade do ar nunca seria tão baixa quanto a do deserto do Saara e a temperatura jamais cairia a ponto de a água virar gelo. As tênues variações que vinham ocorrendo sequer nos fizeram perceber que, de repente, na “cidade da garoa” parou de garoar.

    Hoje, quando escuto falar em ‘mudanças climáticas’, sinto um arrepio na espinha. Como assim mudanças climáticas? Quer dizer que o tempo vai deixar de obedecer às determinações divinas conforme vinha ocorrendo desde os tempos de Adão e Eva? O que mais vai mudar? Não teremos mais primaveras e outonos? O céu vai também deixar de ser azul?  Os raios do sol deixarão de brilhar pelas manhãs?

    Quando os telejornais passaram a incluir, além de tediosos boletins meteorológicos diários, eventos climáticos catastróficos com temperaturas extremas nunca vistas, tufões devastadores, secas, incêndios e enchentes cada vez maiores, nossa reação era dar os ombros e dizer “o tempo ficou doido”, ajustando o ar condicionado para adequar artificialmente as condições climáticas dentro de casa. E assim íamos tocando a vida, sem nos preocupar quem era o responsável pelas anomalias do tempo ‘lá fora’.

    Não sei para você, caro leitor, mas para mim soa terrivelmente assustador que a interferência do homem no planeta tenha chegado a tal ponto que até o perene e ‘atemporal’ tempo está sendo afetado. Sim, pois o que está ocorrendo no clima não é fruto de praga divina, mas resultado de uma criminosa ação humana. Criminosa, sim. Pois o ato de agredir o meio-ambiente que abriga a vida no planeta deveria ser considerado tão delituoso quanto o de atentar contra o lar, onde residimos com nossa família.

    As condições para a formação da vida estão sendo alteradas obscenamente pelo homem e ninguém se importa. Nossa civilização doentia aceita com naturalidade a agressão impune à natureza. E os infratores são até exaltados por muitos como desbravadores e promotores do progresso.

    Sim, meu amigo, devo pesarosamente informar-lhe: o tempo está mudando. E isso não quer dizer que vai ficar nublado. Mas não se preocupe. A coisa vai ficar ainda pior. Há outras ‘mudancinhas’ em curso enquanto você lê esse texto. Os mares estão sendo infestados de plásticos, os rios envenenados por mercúrio, as florestas devastadas, o ar tornando-se irrespirável, as fontes de água potável estão rapidamente se esgotando e em poucos anos, a maior parte da população mundial não terá como saciar suas necessidades pelo líquido vital.

    O mundo tal qual estávamos acostumados não existe mais. E a maior parte da população está pouco se lixando. Ninguém abre mão sequer da conveniência do saquinho de plástico do supermercado, confiando que, como por milagre, o mesmo ‘progresso’ que gerou essa situação consiga salvar o tempo. A tempo.

    Resta perguntar a nossos filhos se eles concordam com o ‘admirável tempo novo’ que estamos lhes deixando.

  • Falo, logo existo!

    Ponha-se no seu lugar…

    Quantas de nós já ouviu essa frase imperativa sair da boca de castradores natos? 

    Parece óbvio apontar que a ordenança expressa a ideia de que às mulheres caberia um lugar de imobilidade e aceitação silenciosa do destino forjado pelos colonizadores de almas femininas. Insisto em esclarecer o evidente porque eles são mestres em produzir cortinas de fumaça, em tornar natural o absurdo.

    Ponha-se no seu lugar…

    A frase dita à Ministra Marina Silva nos revela dados que não podemos ignorar: muitos homens, e um considerável número de mulheres, acredita que o feminino é um lugar de contenção, silenciamento e submissão. Um buraco fundo cavado no desértico universo masculino, onde atiram-se os corpos rebeldes. Quem és tu que ousas mover-se? 

    A coleira social se presentifica em situações naturalizadas no cotidiano. Seja nas regras de etiqueta e conduta da mulher elegante, na maternidade santificada, na violência física, social e psicológica diária que instaura o medo, a vulnerabilidade e o muro das impossibilidades.

    A mordaça coletiva, a camisa de força tecida ao longo dos séculos pelo machismo estrutural nos ameaça o tempo inteiro. O status, a classe social, a beleza, o poder econômico, o intelecto, nada disso nos salva das armadilhas, achaques e ataques promovidos na minúcia de cada segundo.  

    Somente o amparo feito de identificação e consciência de gênero é capaz de nos proteger de tamanha brutalidade.

    São sutis as formas de controle e desestruturação da resistência feminina: fomento da competição entre as mulheres, valorização do amor romântico como missão primordial da existência, a fragilidade/inferioridade como ferramenta de sedução e conquista. 

    Ponha-se no seu lugar de MULHER e observe as peças que formam a engrenagem que nos tritura a todas nós. 

    Ser mulher é um destino que não se escapa, se impõe. O mundo está cada vez mais hostil e ameaçador com cada uma de nós.  Percebem? 

    Quando dizem que nós, mulheres, falamos demais, entendo que esse é o manejo feito para enfraquecer aquela que talvez seja a nossa arma mais poderosa. A voz, a denúncia, o grito, a escrita, a carta, o bilhete, a canção.

    Falemos de tudo! Falemos pela boca, pelos cotovelos, pelos dedos, pelos olhos. Façamos barulho! Muito barulho. 

    E, ao ouvir uma voz fraca a pedir ajuda, tenhamos a força de ser eco.

    Eles, os tolos, acham que habitamos um lugar estreito e abafado. Coitados, ainda não descobriram que, juntas, somos um Território. De mãos dadas desenhamos as fronteiras. Nossa voz é um canhão a mirar os invasores.

    Ponha-se no seu lugar de MULHER e bata suas lindas asas. Voe alto e para onde quiser!

  • Quando foi mesmo?

    Minha mente vive de espantos e porquês. Até hoje, na sétima década da minha vida, me declaro aprendiz.

    Faço perguntas e me vejo em busca de respostas que nem sabia procurar. E nesse apego às dúvidas e incertezas passo dias pensando, lendo, comparando e pesquisando sobre o que eu desconheço, ou o que me intriga.

    Não tenho predileção por temas… o que tenho, de verdade, são perguntas: como, quando, por quê. E vou além, porque além de observar, eu busco exemplos, comprovações mesmo!

    Gosto dos números, pois eles me orientam em tudo. Até para saber se a igreja está mais cheia que o normal. Sei que temos cento e vinte lugares (já contei) e, assim que entro no recinto, minha calculadora mental dispara e anota que, aproximadamente, estamos com mais um terço de pessoas. 

    Por que eu faço isso? Não sei…

    Ainda em relação a essa predileção percebo que vejo a vida baseada em números, datas, estações. “Tal ano, minha irmã começou a costurar; em 1900 e bolinha, foi o batizado da minha primeira filha; no ano em que passava determinado filme, decidi deixar de ser dona de casa e ir trabalhar. No verão seguinte constatei que não tinha qualificação e resolvi estudar. Formei-me em julho do ano em que houve tal evento.”

    Ao falar do “quando” eu abstraio o porquê…

    Como se as datas preenchessem os motivos, os sentimentos, as razões e emoções do que ocorria em minha vida.

    Constato, então, que conversar comigo é um exercício complicado.

    Qual foi a conclusão a que isso me levou? Primeiro, que o axioma “Só sei que nada sei” faz todo sentido. E que datas devem interessar ao coletivo, ao mundo, aos eventos grandiosos, aos historiadores, aos cientistas, talvez. Nesse contexto o tempo cronológico significa segurança, verdade, esperança, e também temores e incertezas.

    Para nós, meros mortais, não faz diferença saber nem em que ano nascemos! Para que? Acaso existe uma data que determine quando deixaremos de viver? Ou de ainda nos surpreender, ou de passarmos a gostar de inverno, ou parar de detestar frutos do mar?

    Acredito que a busca pelo que há de bom e belo faz parte do ser humano de forma intrínseca e intuitiva, em qualquer época e data da vida.

    As lembranças, sensações, propósitos e realizações devem ser arquivadas em nossas mentes, não por datas exatas, mas pelo valor das palavras, dos atos e emoções vividas.

    Essa deve ser a nossa meta, como seres humanos.

    Afinal, a jornada chamada vida, não acontece de forma exata e linear e nisso está o seu encanto.

    Qualquer que seja a data!

  • Parece que foi ontem

    Hoje o universo escolheu tirar o dia para me cutucar. Já pela manhã, enquanto caminhava no play, quase pisei num boneco de plástico atirado pela varanda por alguma criança entediada de cimento.

    Não era um boneco qualquer, o danado era idêntico ao que eu tinha no consultório. Protagonista de tantas brincadeiras cheias de simbolismos e significados. O outrora soldado valente, agora, jazia ali como representante lúdico de tudo que acaba.

    As lembranças feitas de fragmentos de ontens afivelaram um cinto apertado na minha garganta.

    Quanta saudade de mim…

    Horas mais tarde, procurando a carteira de vacinação na gaveta de documentos, achei a foto de uma moça jovem, bonita e sorridente que teimava em dizer que era eu. Como pode? Só não insisti na contestação porque temos sobrancelhas muito parecidas. Que saudade de nós…

    O sol já se despia quando liguei o rádio do carro e senti a última cutucada do universo através da voz inesquecível de Belchior: “Falaremos para a vida: vida, pisa devagar, meu coração, cuidado, é frágil. Meu coração é como um vidro ou um beijo de novela.”

    Ah, que saudade de mim. Daquela que fui em tempos idos e partiu em tempos vindos.

    Envelhecer carece de um adestramento das memórias. Caso contrário, elas não cessam de latir, morder, atacar o hoje com seus dentes afiados, suas unhas cortantes. 

    O desafio é grande, porque o passado é soberbo, se julga insuperável. Desdenha dos colegas de conjugação.

    Ai que saudade de mim…

  • Camaleão

    Todo mundo conhece ou já conviveu com um camaleão: aquele bicho que parece, mas não é! Pois, então: eles convivem em seu ambiente, se tornam seus “amigos”, sabem dos seus sonhos e expectativas, e se chamam colegas, colaboradores, equipes, parceiros, confidentes e afins.

    Tome cuidado! Nem sempre o que parece é, pode haver um camaleão oculto aí, bem perto de você.

    Pessoas que agem como se fossem o que não são: eficientes, profundo saber, indispensáveis. Muito próximos, prestativos, camaradas. Podem ser vistos como inocentes, ou distraídos, assim como os conhecidos disseminadores de informações extra-oficiais, os famosos “rádios-peões”.

    No entanto, são muito mais perigosos, pois frequentam os espaços dos chefes e líderes, onde passam a conhecer as pessoas, os processos, as minúcias do que acontece ao seu redor. Os seus alvos podem estar ali.

    Trazem consigo uma característica peculiar, inerente e indefensável: são falsos. São invejosos, pois acham que pertencer a determinados estratos sociais farão deles algo maior do que são.

    Nascem assim ou, sem perceber, vão criando camadas até se tornarem o que são?

    Sua maior habilidade? Ser puxa-saco, bajulador. Eu, você e todo mundo conhece alguém assim, já que ele pode estar nos mais variados lugares, em diversas camadas da sociedade. Podem estar no seu trabalho, na igreja, no grupo de pais ou na sala de aula. Agem “inocentemente” servis, declaradamente devotos, mas na realidade, são baba-ovos.

    Usam frases de efeito, discorrem sobre o que ouviram falar, na leitura da manchete e não no conteúdo. Estão sempre prontos a colaborar, trabalhar nos finais de semana, substituir, elogiar e inflar o ego dos superiores.

    Só encenação.

    Parecem diligentes, capazes, interessados, mas o objetivo é colher informações aqui e ali. Seu intuito é saber da vida e dos pontos fracos dos colegas. Não para ajudar, e sim para tirar proveito no momento oportuno.

    E, então, conquistam aquilo que sempre desejaram: o Pequeno Superpoder, com títulos variados: assessores, “braço-direito”, vice, e por aí vai. O conteúdo é raso como um pires, mas a pose é de eficiência.

    Tornam-se a segurança do chefe: cuidam da sua agenda, do cafezinho, elogiam e não cansam de surpreendê-lo positivamente. Adoram quando ele viaja e, mesmo sem serem substitutos oficiais, passam a dominar o ambiente. Com isso vão se mantendo e moldando a sua forma de ser de acordo com o que pretendem auferir.

    Podem até subir na vida, mas só alcançam o rodapé. No máximo, o primeiro degrau. E dali não passam. Exceto se forem da área política. Ali podem galgar muitos degraus. A única forma de lidar com esses indivíduos é com franqueza, sem temores! Ignorar ou tirar a máscara.

    Será que vale a pena?

  • Espelho, espelho meu

    Ontem foi dia de conhecer um exemplar da nova humanidade. Estava almoçando com meu filho, num restaurante da zona sul, depois de um exame em que fui acompanhá-lo (ação corriqueira para mães das proles de antigamente) quando ele me interpelou: “Aquilo ali é um bebê reborn?” 

    Discretamente, acompanhei seu olhar e me deparei com uma moça aconchegando o bebê em seu colo enquanto andava para lá e para cá. O movimento era parecido com o ninar das mães/cuidadoras de crianças feitas de poros, mas com algumas diferenças, talvez, inalcançáveis para quem não vivencia a corda bamba da maternidade feita de cheiro de fralda suja e beijo babado:

    1. o balançar do colo não tinha aquela apreensão inerente ao ato de ninar um bebê: é sono? Fome? Dor? Gases?

    2.  A tranquilidade de quem não corre o risco de levar uma golfada.

    3.  A paz absoluta dos que não precisam ter medo de errar, de não perceber ou intervir a tempo, de falhar.

    4. A solidão de um olhar que não encontra testemunho de afeto.

    Tudo sob controle, milimetricamente previsível, controlável. Por alguns instantes, admirei a maternidade reduzida a sua função de cuidados mecânicos. Mas, em poucos segundos, o sorriso esvaziou, senti falta da temperatura, do cheiro, da gargalhada, do choro feito de lágrimas, das mãozinhas puxando o cabelo. 

    Voltei para o meu filho e respondi: “Com certeza é um reborn. Não há dúvidas.” 

    Quando coloquei no teto do quarto um papel de parede cheio de estrelas, achei lindo, mas sabia que não eram estrelas. 

    Por mais que digam que, para toda mãe, os filhos serão sempre crianças, desejamos que cresçam. E essa é a graça, ver o amor ganhar contornos, a intimidade desenhar nuances, a relação se reinventar no tempo.

    As rosas de plástico enfeitam a casa, mas não perfumam.

  • O VALOR DA ÁGUA

    Nossa sociedade mantém uma relação “profana” de usurpação com os recursos da Natureza. A água e outros bens naturais são vistos apenas como matéria-prima que possibilita o bem-estar do ser humano. As ciências, nas bases em que evoluíram, sancionam essa extorsiva apropriação.

    Todavia, o real valor da água vai bem além da função que lhe destina o utilitarismo materialista do homem civilizado. Reduzi-la a essa condição é espezinhar outros modos de se relacionar com o bem, associados a diferentes formas de valor. Como elemento ecológico, por exemplo, a água desempenha papel fundamental no equilíbrio dos ecossistemas. É dotada também de inestimável valor histórico, social, cultural, estético e simbólico.

    Muito mais do que nos utilizarmos da água, somos água. A água é 70% de nossa constituição. Essa representação significa que observador e coisa observada são um só e sujeito confunde-se com objeto. Nossa dependência desse elemento vital provém do momento em que fomos concebidos. Mais do que isso, a própria vida no planeta Terra originou-se em seu interior. E até hoje conserva traços dessa conexão primitiva. O contato com a água, além de proporcionar reconhecidas virtudes terapêuticas, resgata ao corpo uma prazerosa sensação de harmonia.

    Em função dessa condição de essencialidade, a água tem sido objeto de ritos sagrados e devoção em todas as épocas por todas as grandes culturas e religiões, associada à fonte da vida, à purificação, à regeneração, à proteção contra o mal e outras qualidades mágicas.

    Ao fazer da água objeto de estudo das ciências físicas, biológicas e sociais, o caminho é o de dessacralizá-la, coisificá-la, arrancá-la de sua condição sublime. Não nos cabe extrair da água sua divindade, e sim irrigar os áridos campos científicos com um pouco da energia vital de que aquele precioso líquido é dotado.

    Degradada a fonte da vida degradou-se também a vida. Mas não foi a água que mudou. É bem verdade que está ela carregada de substâncias cada vez de pior espécie. Porém, em sua essência, continua ela tão H20 como sempre foi. Apesar de bem menos cristalina e mais mal cheirosa, continua ela a correr líquida, solta e indomável, indiferente às reflexões humanas a seu respeito. Tampouco mudou o homem, pelo menos no que concerne a suas necessidades fisiológicas relacionadas com o bem em questão.

    Os conceitos científicos é que parece não estar se adequando mais. Não se pode fazer a água se sujeitar a modelos concebidos para abrigá-la. Ao sair de suas sólidas bases e entrar nesse campo, digamos, mais fluido, as ciências também revelam suas deficiências e fragilidades metodológicas. Efetuar uma análise desse bem de qualidades tão invulgares, e primordiais coloca as ciências diante de um colossal desafio que as obrigará reavaliar alguns de seus fundamentos.

    Deve-se considerar que a água possui também um inestimável valor, cultural, religioso e histórico associada ao nascimento de importantes civilizações (inclusive a nossa, que teve como marco inicial o nascimento da Mesopotâmia, entre o Tigre e o Eufrates), que surgiram às margens dos rios ou à beira do mar. Sob a água, outras teriam sucumbido como Atlântida.

    Em todas as culturas e religiões, ela aparece como símbolo marcante. Nas tradições judaica e cristã, a água simboliza, em primeiro lugar, a origem da criação. Contendo o elemento de regeneração corporal e espiritual, as chuvas e o orvalho trariam consigo a fecundidade e manifestariam a benevolência divina e os rios seriam agentes da fertilização.

    As águas de rios sagrados como o Ganges (para os hindus) e o Jordão (para os hebreus e cristãos) teriam o poder de “lavar” a alma de quem nelas se banhasse. Do batismo a ablução, teria o poder de purificar os homens dos pecados e impurezas.

    O Corão designa a água que vem dos céus como um dos signos divinos. No Novo Testamento, aparece com destaque nas palavras de Cristo: “Quem beber a água que eu lhe darei, nunca mais terá sede, pois a água que eu lhe der tornar-se-á nele uma fonte de água jorrando para a vida eterna” (João 4:14).

    Representa a sabedoria taoísta, porque não tem contestações. É livre e desimpedida, corre segundo o declive do terreno: “A água não se detém nem de dia nem de noite” diz Lao-Tsé. Para o I Ching, o oráculo milenar da cultura chinesa, “a água flui ininterruptamente, e chega à sua meta” (hexagrama 29), servindo de modelo de conduta para o homem: preencher todas as depressões antes de seguir adiante.

    Para diversas tribos indígenas, as águas acolhem espíritos e divindades. Para ela são entregues pelos umbandistas as oferendas dirigidas a Iemanjá. Personifica também qualidades encantadas, constituindo-se em morada de ninfos e deuses.

    Possui a água significado mítico e psicológico, integrando o imaginário coletivo, associada a aventuras rumo ao misterioso ou jornadas a um novo mundo. As águas profundas representam o impenetrável inconsciente ou o reino obscuro do desconhecido.

    Sendo ela que permite a vida, é vista também como bênção, elemento sagrado, que teria o poder de curar, purificar e rejuvenescer.

    Em função dessa importância simbólica, a conservação da água em bom estado tem um valor que em muito transcende as necessidades relacionadas com o seu uso. Sua deterioração coloca sob ameaça a própria integridade da vida social e cultural. A poluição é o câncer da água. Todos vêem na água como que o elemento vital primordial: a fonte da vida, que deve ser preservada.

    *Texto adaptado da minha tese “O VALOR ECONÔMICO DA ÁGUA”, escrito em 2002, como tese de Mestrado para o PROCAM – Programa de Ciência Ambiental da USP.

  • Crônica do Dia Seguinte

    Se tem um dia que eu gosto, eu gosto mais ainda do dia anterior e do dia seguinte. Sim, porque há um encanto que mora nas bordas dos acontecimentos, ali nos minutos antes do salto e no respiro depois do mergulho.

    Se é festa, o dia anterior é puro movimento: últimos arranjos, conferência de listas, compras apressadas, almoço engolido às pressas porque o tempo urge, marcar salão de beleza, verificar as roupas das crianças, fazer as checagens finais. É uma pressa que não cansa. Ao contrário, é uma urgência boa, que dá energia, como se a vida pulsasse mais forte nas vésperas.

    Se é prova de faculdade, o dia anterior é biblioteca com as amigas, dicas dos sabidões da turma, coração disparado. É como se o corpo se preparasse para o salto, tomado por uma expectativa nervosa e cheia de adrenalina.

    Se é cirurgia, consulta, visita ao salão, ou o que quer que seja o evento, o dia anterior é sempre um lugar à parte. Um lugar suspenso, fora da rotina. É o dia da expectativa.

    E o dia seguinte?

    Ah… melhor que o dia anterior, só o dia seguinte. Quando tudo já aconteceu e a gente pode enfim respirar.

    É quando o corpo agradece e a mente repassa, satisfeita, tudo que deu certo ou tudo que ensinou. É quando percebemos que valeu a pena ter chamado aquela cozinheira, que as meninas estavam lindas, que a prova foi menos cruel do que o esperado, que na próxima consulta a gente já sabe: nada de marcar outro compromisso no mesmo dia.

    O dia anterior e o dia seguinte de uma festa são, pra mim, o que há de melhor. Adoro!

    E se tiver visitas de fora então? Aí sim fica melhor ainda;  a casa se enche de outra energia, outro tipo de urgência, mais calorosa, mais humana. Coisas pequenas ganham importância: o colchão inflável, o café coado com capricho, o tempo esticado em conversas no quintal.

    Estranho… essa sensação sempre me pareceu tão íntima que nunca comentei com ninguém.

    Será que é coisa só minha? Ou será que todos, em silêncio, também têm esse carinho pelos dias que cercam os grandes dias?

    Talvez sejamos todos assim: amantes dos intervalos. Porque é neles que a vida acontece devagar. No antes, mora a esperança. No depois, o entendimento. 

    E o durante… ah, esse a gente quase nunca percebe enquanto vive. Porque é o que faz  pulsar o coração.

  • Para quem é colo, amparo e parceria

    Domingo é o Dia das Mães. Por mais que saibamos a influência do comércio na criação e manutenção da data, seguimos envolvidos na programação do evento: o que dar de presente, o que escrever no cartão? Flores? Onde será o almoço? Qual vai ser o menu?

    Embora a mídia queira nos convencer de que tudo é lindo, sabemos que, para muitos, esse dia vem embrulhado de vazios, lembranças e saudades. Para outros, tristeza, mágoa ou rancor. De um jeito ou de outro, somos atravessados por esse calendário socioafetivo. Não é possível passar ileso ou distraído. Somos convocados a lidar com nossos afetos.

    Tem quem prefira esvaziar a importância do evento, argumentando: Dia das Mães é todo dia. Em parte, concordo. Mas não vejo problema em escolhermos uma data certinha para focarmos, mais atentamente, nos mimos de amor.

    Creio ser uma ótima opção para resgatarmos abraços que se perderam na correria dos dias, olhares que não se cruzaram tempo suficiente para trocarem sorrisos, frases esquecidas no “depois eu te falo”. A eleição de um momento específico de celebração não nos impede de desafiar a urgência da vida para demonstrar o amor que sentimos.

    Sempre é tempo de cantar o que vibra em nós.

    O Dia das Mães é domingo, mas hoje quando meu filho me surpreendeu com um pão com ovo e café feito por ele, para meu lanche da tarde, senti o conforto inestimável de ser amada nos detalhes do cotidiano. Mas adoro a ideia de que domingo tem mais!

    Que possamos todos nos apropriar desse dia para dedicar atenção e carinho àqueles que são colo, amparo e parceria em nossas vidas, independente do cargo ou função que ocupem.

    Celebre os seus!

  • As mulheres da nossa vida

    Eu tive avós. Na minha infância, eles eram a autoridade máxima da família. Austeros, respeitados e, por vezes, até temidos. Se filhos e noras já os tratavam assim, imagine nós: aquela penca de irmãos, primos, afilhados e agregados?

    A figura moderna dos avós é bem diferente. São os que mimam os netos, presenteiam em qualquer data, levam ao shopping, pagam terapeutas e se colocam quase como amiguinhos das crianças. Mas esses também já começam a se tornar raridade. Estão, como os antigos, em extinção.

    Ainda bem. Sou avó de dez netos. Sim, quase uma dúzia. Altos ou nem tanto, fofos ou nem tanto, achegados ou apenas educados. Cada um a seu modo. Fazem parte de mim, filhos dos meus filhos.

    Nesse pensar lento e silencioso, no tempo necessário para que as ideias se acomodem, compreendi o que tem me causado certa estranheza: são os ecos das realidades. As dos tempos atuais e as de que me recordo. E elas não pedem comparações, tampouco julgamentos. Apenas ecoam.

    Houve o tempo em que, embora  sem entender, obedecíamos. Porque o que diziam pais, mães, avós, nos dirigiam… Éramos crianças, mas sabíamos que aquelas palavras, o tom da voz, até o silêncio entre as frases, era amor. E um dia fariam sentido.

    O tempo se encarregaria disso. E tudo se tornaria claro em beleza, verdade e permanência daquilo que nos foi ensinado.

    O mesmo não  podemos afirmar sobre as novas gerações. Basta olharmos as redes sociais, onde a procura de aprovação a qualquer custo geram amor e ódios instantâneos.

    O mundo virtual substituiu as conversas e trocas de ideias. Um emoji “vale mais que mil palavras”. As certezas são instantâneas e as verdades absolutas.

    Personalidades construídas sobre alicerces frágeis não se sustentam, pois uma opinião contrária é capaz de provocar revoltas, rupturas ou até a perda do sentido da vida.

    Mas a memória leve de uma risada, de uma presença silenciosa, de um afeto firme e sem alarde sempre há de nos dar  a convicção de sermos pessoas fortes, capazes de enfrentar a vida e mudar de rumo quando necessário, sem nos perder.

    É o Dia das Mães…e escrevi sobre avós, famílias e valores… Sobre aprendizados e escolhas… sobre força e alicerces… sobre amor…

    Será mesmo que não falei das mães?

    Feliz Dia das Mães!

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