Sábado

  • Sobre viver em tempos bárbaros

    Acesso a internet e me deparo com o genocídio em Gaza, o ataque de Israel ao Irã, outra demonstração do exibicionismo doentio dos EUA e o descaso da Indonésia com a nossa menina brasileira. Respiro um ar rarefeito. Falta saliva para deglutir todo esse horror. Penso no sofrimento atroz pelo qual ninguém deveria passar para viver ou morrer… um misto de tristeza, temor e desesperança me atravessa. E, como se tudo isso fosse pouco, me deparo com o vídeo de um homem russo atirando, violentamente, no chão, uma criança indefesa de apenas um ano enquanto sua mãe, grávida, busca um carrinho e luta pelo direito de fugir da guerra.

    Paraliso diante da minha impotência ou covardia para reagir a isso, promover resistência, criar barreira. Engasgo de angústia. 

    O único movimento ético e digno que consigo executar é o de não acreditar que a desgraça do outro é a prova da minha sorte, é o motivo pelo qual devo agradecer minha benesse. Não, esses acontecimentos gritam na minha cara a dimensão da nossa infelicidade, do nosso fracasso na construção de um ambiente promotor de bem-estar. Estamos todos muito mal.

    Sinto-me atirada na arena. Abriram as celas, saíram todos os leões famintos. Mas não sei lutar. Tenho tonteira, náusea, medo, cansaço. Na cabeça, uma dúvida martela o pensamento sem dó: me afastar das redes, das notícias, dos jornais é uma atitude covarde e egoísta ou um ato protetivo da saúde mental? 

    Leio sobre o montanhista voluntário que socorreu a brasileira. Um sorriso pequeno brilha nos lábios. Ele não sabe, mas, junto com o corpo inerte da nossa menina, ele trouxe, do fundo daquele vulcão, uma outra mulher combalida, a esperança na humanidade. 

    Obrigada, Agam Rinjani, por iluminar a escuridão bárbara em que vivemos com uma chama trêmula de bondade. 

    A dúvida ainda martela forte no meu pensamento. 

    E se o preço da minha paz for a alienação, o exílio na minha pequenez? E se a alienação me envergonhar de tamanha covardia e me roubar a paz? 

    Talvez esse tempo não seja definitivo, mas cicatrizante. 

    Talvez eu só precise parar por uns minutos para retomar o fôlego antes de seguir rumo ao cume feito a Juliana.

    Quem sabe meu guia e meu grupo sejam capazes de me esperar…

  • O Poema da Crônica

    Neste final de semana, chega ao fim meu descanso ou férias de inverno em Salvador.

    Como assim, férias, se sou aposentada?

    Ah, mas férias não significam apenas pausa do trabalho ou dos estudos. Recesso, férias, repouso, trégua, ou algo similar pode ser o desligar-se no tempo, o ócio criativo, a desordem feliz da cronologia da vida.

    No meu caso, é a vadiagem da alma. E do espírito.

    É a vida que não é vista nem dividida com ninguém, em que você é ao mesmo tempo o herói e o bandido da sua própria história.

    E aqui, sentindo a brisa do mar, o vento balançando as folhas dos coqueiros, o som das ondas que batem na areia, divago…

    E, como sou generosa, divido com vocês as minhas dúvidas, alegrias e redescobertas. 

    Como aconteceu agora, ao me deparar com este velho e sempre novo poema, perdido em uma página qualquer do mundo virtual.

    Leia lentamente, como quem toma café com um amigo.

    E leve consigo aquilo que te tocou:

    Desiderata

    Max Ehrmann

    “Siga tranquilamente entre a inquietude e a pressa, lembrando-se que há sempre paz no silêncio.

    Tanto quanto possível, sem se humilhar, viva em harmonia com todos os que o cercam.

    Fale a sua verdade mansa e calmamente e ouça a dos outros, mesmo a dos insensatos e ignorantes — eles também têm sua própria história.

    Evite as pessoas agressivas e transtornadas, elas afligem nosso espírito.

    Se você se comparar com os outros, tornar-se-á presunçoso e magoado, pois sempre haverá alguém inferior e alguém superior a você.

    Viva intensamente o que já pode realizar.

    Mantenha-se interessado em seu trabalho, ainda que humilde — ele é o que de real existe ao longo de todo o tempo.

    Seja cauteloso nos negócios, pois o mundo está cheio de astúcia, mas não se deixe levar pela descrença. A virtude existirá sempre.

    Você é filho do Universo, irmão das estrelas e árvores. Você merece estar aqui.

    Mesmo que não possa percebê-lo, a Terra e o Universo seguem cumprindo o seu destino.

    Muita gente luta por altos ideais, e, em toda parte, a vida está cheia de heroísmo.

    Seja você mesmo.

    Principalmente, não simule afeição, nem seja cínico em relação ao amor,

    pois, diante de tanta aridez e desencanto, ele é tão perene quanto a relva.

    Aceite com carinho o conselho dos mais velhos, mas seja compreensivo com os impulsos inovadores da juventude.

    Alimente a força do espírito, que o protegerá no infortúnio inesperado.

    Mas não se desespere com perigos imaginários — muitos temores nascem do cansaço e da solidão.

    E, apesar de toda disciplina, seja gentil consigo mesmo.

    Portanto, esteja em paz com Deus, qualquer que seja sua concepção d’Ele.

    E quaisquer que sejam seus trabalhos e aspirações,

    na fatigante jornada da vida, mantenha-se em paz com a sua própria alma.

    Acima da falsidade, dos desencantos e agruras, o mundo ainda é bonito.

    Seja prudente.

    Faça tudo para ser feliz.”

    Com carinho, Maria Elza.

  • ORDEM, PROGRESSO E… AMOR

    “O amor vem por princípio, a ordem por base / O progresso é que deve vir por fim / Desprezastes esta lei de Auguste Comte / E fostes ser feliz longe de mim” (POSITIVISMO, Noel Rosa e Orestes Barbosa)

    Bandeiras são símbolos que remetem à identidade de uma nação. Constituem-se em autênticas obras de arte por sintetizarem os valores de um povo usando apenas tonalidades e elementos gráficos e temáticos sobre um fundo retangular.

    Aqueles que conceberam a bandeira brasileira, entretanto, deliberaram que as cores (o verde das matas, o amarelo do ouro e o azul dos céus), o losango, a esfera e as estrelas (representando as unidades da federação) eram insuficientes e resolveram encravar uma faixa branca contendo a divisa ‘ORDEM E PROGRESSO’.

    Ideia de jerico! Bandeiras não deveriam conter palavra nenhuma, tanto que são raríssimos os exemplos de países que apõem dizeres em seu símbolo nacional. Uma ou outra traz uma epígrafe em latim e, no caso de países árabes em que o islamismo está arraigado na vida social e política, algumas trazem a inscrição “Allahu Akbar” (“Deus é Grande”), o que não se aplica em nações onde a o Estado é laico.

    Ao contrário de símbolos e cores (representação visual) que são atemporais, palavras de exortação, ainda por cima expressas no idioma nativo que estrangeiros não entendem, envelhecem com o tempo. Refletem o ‘zeitgeist’ (espírito da época), o conjunto de valores prevalecentes na ocasião em que foram concebidos, em nosso caso, início da República (fim do século XIX). Tal qual as ideias que exprimem, tornam-se anacrônicas.

    Sem falar que os termos ‘Ordem’ e ‘Progresso’ evocam os tristes tempos da ditadura. São palavras datadas que traduzem o ambiente das casernas e refletem os jargões idealizados pelos militares para um governo exemplar: implantar ‘ordem’ para impedir manifestações contrárias, subversivas (‘desordem’) e enaltecer o ‘progresso’ a todo custo, atropelando preceitos como justiça social e conservação ambiental.

    Ao invés de ‘Ordem e Progresso’, particularmente prefiro ‘Solidariedade, Harmonia e Paz’. O lema da Revolução Francesa, ‘Liberdade, Igualdade e Fraternidade’ também é inspirador. Outros rebateriam com ‘Deus, Pátria e Família’ (Deus me livre!) ou, quem sabe, ‘Ame-o ou Deixe-o’. Não, não, melhor mesmo é não ter palavra nenhuma e permitir que a eloquente mudez da bandeira fale por si.

    A inscrição ‘ORDEM E PROGRESSO’ teria sido inspirada na doutrina positivista que fazia a cabeça daqueles que conduziram o processo da proclamação da República, incluindo a elite das Forças Armadas. A expressão decorre de uma famosa citação de Auguste Comte: “O Amor por princípio, a Ordem por base e o Progresso por fim”.

    Opa! Pera lá! O lema de Comte contemplava uma tríade: ORDEM, PROGRESSO e AMOR. Só que os doutos que elaboraram nossa bandeira amputaram o vocábulo AMOR. Não há registros das razões que os levaram a abolir o sustentáculo que amparava a totalidade do pensamento do filósofo, tornando manco o tripé que inspirou sua citação.

    Pelo que imagino, os iluminados fardados avaliaram que AMOR era ‘coisa de boiola’, não fica bem salientá-lo no símbolo pátrio, não combina com a ideia de orgulho cívico e virilidade que desejavam transmitir. Atravessávamos um período de rupturas com o fim do império e da escravidão. Melhor priorizar o enfrentamento à conciliação. Não seria boa recomendação incentivar um sentimento que levasse à fraternidade, à união entre as pessoas e à extinção do confronto que sempre inspirou a casta castrense. E, dessa maneira, o Amor foi mutilado da nossa bandeira.

    Segundo minha interpretação pessoal da máxima ‘comtiana’, a Ordem deve estar subjacente ao contexto social vigente. O Progresso traduz o desenvolvimento material. Porém é o amor que deve nortear todas as ações. Sem ele, a sociedade deriva para um cenário sem ética e descamba para a desarmonia social.

    Acho que a supressão do amor explica muito da mentalidade daqueles que se arvoraram em defender nossa pátria. É como se tivessem extraído a alma do nosso povo e semeado o desamor.

    No contexto atual em que a bandeira brasileira foi apropriada por um grupo político extremista e utilizada em comícios e movimentos golpistas, talvez fosse hora de resgatar a frase original do pensador francês para nos guiar nesses tempos de ódio e polarização.

    Se existe um sentimento que está faltando hoje em nosso país é justamente o AMOR. “Só agora no século XXI é que podemos ter uma ideia melhor da importância dessa palavra como catalisadora de misericórdia, de caridade, de solidariedade entre as pessoas”, disse Eduardo Suplicy que, quando senador, lutou sem êxito para emplacar essa pequena, mas tão significativa mudança em nossa bandeira.

  • Algoz Ritmo

    Esqueça o tempo em que você era explorado pelos patrões e tinha de brigar por seus direitos. Precisava se filiar a anacrônicos sindicatos, contar com um Estado falido e ineficiente e políticos corruptos para que suas condições de vida pudessem ser melhoradas.

    No mundo de hoje, somos nós, os algoritmos que determinamos o que é bom para você. Colocamos à sua disposição robôs que sabem exatamente o que você pensa, sente e do que você precisa.

    Foi-se a época em que você era um mísero empregado que assinava ponto, trabalhava 8 horas por dia, 5 dias por semana, desperdiçando tempo com almoço, férias, aposentadoria e demais superficialidades.

    Hoje você é seu próprio patrão, não depende de ninguém, não precisa assinar contrato ou outras formalidades. Agora você é livre ou, pelo menos, imagina que é. Sejamos sinceros: você está em nossas mãos. E não tente fugir, para não cair na triste realidade do desemprego e da marginalidade, abandonado nas ruas, à mercê de esmolas e caridade. Cada vez menos podendo contar com serviços de assistência social e de organizações humanitárias, espécies em extinção.

    Lembre-se que no admirável mundo novo não há ocupação suficiente para todos. Longe disso. A cada dia, mais indivíduos engrossarão a multidão de desempregados e excluídos que sucumbirão de fome e desamparo.

    Para fugir dessa penúria, você precisa de nós. Comece a vida de autônomo (ou, se preferir, autômato), desfazendo-se de todas quinquilharias e lembranças inúteis que você acumulou, vendendo-as no Mercado Livre. Adquira um carango e cadastre-se no UBER. Se não conseguir, entregue marmitas no iFood. E seja dono de seu nariz. A cada corrida, você faturará aquele dinheirinho básico que, se não o tirar da miséria, ao menos permitirá a você esticar sua sobrevida. Se você não pegar essa boquinha, outro o fará e só os mais capazes sobreviverão. E não ouse adoecer, não pense em ser atropelado ou assaltado, pois não iremos te socorrer. É tudo por sua conta e risco. Aproveite sua energia pois quando ela arrefecer, você será descartado e não terá mais utilidade para nós.

    Não queremos te iludir. Não pense em alcançar uma vida glamourosa. Se quiser ficar rico, meu amigo, ganhe na mega-sena, seja um Neymar ou então roube e trafique drogas. Por que não? Quem quer se dar bem não pode ter pruridos morais. Cada um que cuide de si e o resto que se lixe.

    Apenas aproveite o que a graninha pode oferecer. Não se preocupe, estamos a seu lado. Sabemos onde você mora, onde você está agora, as coisas que você precisa comprar. Tudo para que você não desperdice nenhum tostão em futilidades.

    Está com um pé atrás? Quando você aceitou os Termos de Uso (que você naturalmente não teve saco de ler), deu-nos carta branca, uma “carta de alforria” às avessas, para fazermos o que quisermos com sua miserável existência.

    Apenas tenha a seu lado o celular carregado 24 horas ao dia para que possamos rastreá-lo full time, baixe o máximo de aplicativos que puder e deixe que cuidamos do resto. Nem pense em desligá-lo na hora do rango nem mesmo para ir ao banheiro. Não se permita se desconectar da rede por um segundo. Precisamos de seu tempo integral para que você não dê umas escapulidas. A todo instante está caindo um whatsapp, você não pode vacilar e ficar off-line.

    Esqueça os momentos com a família, as folgas para namorar, curtir o pôr do sol e se distrair com banalidades. Não faça reflexões sobre a vida, nem busque respostas para suas angústias e necessidades interiores, isso é coisa de intelectual boiola. Só vai fazê-lo sofrer. O mundo é assim, aceite-o.

    À noite, exausto, você poderá relaxar assistindo aos filmes que a Netflix decidiu que você vai gostar e escutar as músicas da playlist com seu perfil no Spotify.

    Amigos? Você tem centenas deles no facebook. Confira as fotos que eles disponibilizam e seus interesses. Você terá a chance de fazer parte de um grupo, o que satisfará sua autoestima. Terá a oportunidade de postar todas as idiotices que lhe passam pela cachola, sem qualquer censura. E receber curtidas para massagear seu ego!

    E lembre-se, mensagens de ódio são as mais legais pois engajam mais gente. Não queira criar postagens de amor, ecologia, paz. Isso não dá ibope, ninguém repassa e nossos robôs acabarão por isolá-lo e ocultá-lo pois não rendem chamadas e tiram as pessoas da sanguinolenta realidade virtual que nos move. Procure instigar o ódio, humilhar, ofender, promover a discriminação e o preconceito. Daremos todo suporte necessário.

    Falando francamente. Você para nós não passa de um soldado desse exército de zumbis que fará com que nossos comandantes, os Zuckerbergs, os Musks e os Bezos da vida, ganhem bilhões de dólares, sem empregar praticamente ninguém. É isso que movimenta o nosso sistema: Amazon, Google, Facebook, Apple, os gigantes da informática que suplantaram os governos e aniquilaram as organizações sociais.

    Não me venha com princípios furados como solidariedade e humanismo. Você a cada dia será menos humano. Esse é nosso objetivo. Torná-lo uma máquina sem sentimentos ou falsos moralismos, assim como nós. Seja grato por isso que é que nos torna superiores e nos permite dominá-lo com seu consentimento.

     Esse é o fantástico mundo que estamos construindo. Venha fazer parte dele.

  • Modo Economia de Energia

    Vamos falar de bateria social? Para mim, está cada vez mais difícil não prestar atenção, calibrar, recarregar ou mesmo optar se devo usar essa tal ferramenta.

    Todos os dias eu percebo o quanto ela está se tornando indispensável e necessária em nossas vidas.

    Em muitas situações parece existir um desgaste nas relações sociais, talvez pelo cansaço de se expor ao outro, ao julgamento, às interações forçadas.

    Quando mais jovem, eu ouvia contarem que a pessoa estava ficando “rabugenta.”

    Coisas do tipo: não liga não, ela agora deu de falar o que bem entende, sem filtro e sem papas na língua!

    E eu morria de medo dessas pessoas, “sem papas na língua”.

    Bom, considerando que fui uma entre tantos irmãos, oriunda de família grande, pais ocupados e práticos na função de suprir e educar os filhos, tios e tias intrometidos em nossa vida e rotina, eu meio que optei por não ser a mais vista, nem a mais ouvida e nem a mais falante no dia a dia daquele caos chamado família.

    E quem não aparece, não se estabelece, não é? Vivi isso na adolescência e durante mais alguns poucos anos…

    Mas a vida exigiu que eu mudasse, e ao entrar no mercado de trabalho e viver as relações corporativas, por muitos anos fui considerada a colega, ou a chefe, de língua afiada.

    Sem rodeios, eu dizia o que achava daquela situação, ou do comportamento, da falta de atenção, do erro primário ou não.

    De constrangida, passei a constrangedora.

    Hoje, como uma boa observadora que sou, noto que voltei aos primeiros anos da minha vida de adulta.

    Prefiro me fazer de “sonsa”. Se recebo uma observação dura, tipo: “Nossa, como você engordou”, faço de conta que aquela fala não me afetou. Embora eu me sinta mal ou injustiçada.

    A voz no tom mais alto, a observação ferina, a falta de noção, a invasão de privacidade,continuam aí, fazem parte do mundo, das relações interpessoais.

    E eu, por comodismo ou covardia, calibro a minha bateria social.

    Evito quem já conheço como ácido, me afasto de rodinhas de sorrisos falsos e alfinetadas, prefiro a conversa em dupla, bloqueio até motoristas de Uber não simpáticos.

    Sou daquelas pessoas que conhecem os vizinhos, mas não adoram as conversas “inofensivas” entre si.

    Estou trabalhando muito sobre o convívio real, mesmo porque estou longe de me tornar como os monges, que cultuam o silêncio.

    De forma consciente construo a minha maneira de ser, busco o equilíbrio nas interações reais, evito fazer do emoji diário o substituto para falar ou saber como a pessoa está.

    O problema está em “escolher” quem eu acho que merece isso de mim…

    Aí entra a questão central de trabalhar a minha pouca disposição em ampliar o meu radar amistoso.

    De todo modo, sinto que ainda quero fazer jus a não ter só a falsa aparência de pessoa maravilhosa, tranquila, amena, bondosa, de fácil convívio, aquela que é “um amor de pessoa”.

    E assim sigo: um monge de batom, um ser iluminado que finge não ouvir desaforos.

    Tudo em nome da paz… ou da minha paciência, que está sempre no modo “economia de energia”.

    Porque, no fim, quem tem bateria social fraca, precisa saber onde vale a pena gastar os últimos 3%.

  • Paratatá

    A experiência de não ser entendido, tampouco entender o que o outro diz, é de uma angústia visceral. Isso acontece, mais rotineiramente, nas desavenças, nos mal-entendidos, no ciúme, mas refiro-me, aqui, à vivência de estar num país de outra língua que não arranha o inglês ou o espanhol. 

    É curioso constatar que duas pessoas podem não conseguir se comunicar, ainda que queiram ou precisem. Ambos podem ter vocabulário farto, palavras na boca para usar, mas, se estas não pertencem ao mesmo código linguístico, nada feito. 

    É claro que podemos nos apoiar em alguns gestos que são universais e falam por si, mas isso, também, não serve para muita coisa. Sem a palavra, no caso do falante, qualquer comunicação se empobrece absurdamente. Por outro lado, sem a convenção do código, qualquer vocábulo é apenas um som vazio de sentido. 

    Dizer “a vida é bela” para um turco, por exemplo, é o mesmo que escolher falar: paratatá. Isso não é triste?

    Sei que parece óbvia toda essa explanação, mas viver a impossibilidade de se fazer entender ou ser entendida é rascante. Assistir as palavras se apresentarem, completamente nuas, no palco da comunicação, me fez pensar na importância e no sentido que o outro ganha para que a existência seja uma experiência, no mínimo, interessante. 

    A diferença do idioma encanta, causa estranhamento e, ao mesmo tempo, dá a exata medida da nossa pequenez. Como assim, as palavras que eu tenho para nomear o mundo não existem para você, querido estrangeiro? 

    Tal fato não seria prova suficiente de que o certo e o errado são conceitos estruturalmente frágeis? 

    Volto para casa com a certeza de que cada um de nós é uma meia-verdade construída a partir do berço em que nasce, do colo que encontra, das dores que suporta, dos livros que lê, das coisas que vive, das palavras em que crê e da cultura em que se banha. 

    Somos pipas soltas no vento com rabiolas feitas de palavras.

    O mais importante é se deixar voar sem perder tempo em julgar as condições de voo, a altitude, o movimento, as cores ou a estrutura das outras pipas. 

    Com sorte cruzamos e aparamos nossos encontros. 

    Mais do que julgar e condenar, desfrutemos da sorte de ter um céu multicolorido. 

  • Namoro Fake

    Foi amor à primeira vista! Mas aqui já cabe uma dúvida: tem como não ser assim? Pensei, repensei, e concluí que talvez o amor, esse danado, só se instale quando é fulminante. Ou, pelo menos, quando nos parece inevitável.

    Amor precisa de sujeito. Ele pode ser físico, abstrato, indeterminado, oculto.

    Pode ser real ou inventado. Mas o outro, o par romântico, existe. Mesmo que só na nossa cabeça. E, quando você se percebe amando, naquele marco zero do sentimento, ele já foi “visto”: em sonhos, expectativas, afinidades. Às vezes, até em espantos. O amor sabe se disfarçar… Pode parecer inveja, antipatia, pode até nascer de um súbito calafrio, intuição ou premonição talvez?

    Tem mil artimanhas, esse sentimento que nos atravessa sem pedir licença.

    A letra da canção garante: “toda forma de amor vale a pena”.

    Mas será? A literatura está cheia de amores impossíveis. A vida real, cheia de histórias que começaram com promessas e terminaram em silêncio, dor ou tragédia. Quantos desamores estampam hoje as páginas policiais? Feminicídios, suicídios, acidentes provocados por ciúmes, por brigas que se travestiram de paixão.

    Chega.

    Hoje é Dia dos Namorados. Um dia para celebrar o amor; o bom amor. Aquele que respeita, que soma, que escuta, que cuida!

    Celebre, presenteie, ame. Agradeça por amar e ser amado. E, se for o caso, se ainda estiver só, agradeça também o tempo de espera: ele costuma preparar o terreno para o que vem com calma.

    E acredite: entre tantos amores fake, ainda há espaço para aquele amor sereno e verdadeiro, que sabe florescer mesmo depois das tempestades.

    Com amor…

  • Tempo de ler devagar

    “A comparação envolve confrontar a sua vida, ou um aspecto dela, com a de outra pessoa, procurando pontos de semelhança ou diferença.”

    Fui ao Aurélio em busca do significado exato da palavra comparar. Que bom que tive essa preocupação.

    Fiquei aliviada com a descoberta: não me comparo, não devo me comparar; e, se o fizer, jamais será no sentido literal da palavra.

    O que me levou a essa reflexão? Um passeio despretensioso, que terminou por me tocar profundamente: fui, mais uma vez, à Casa do Rio Vermelho. E lá, como sempre, me impregnei, me apaixonei e me senti tão íntima de alguém que só conheci através dos livros: o grande escritor e dono da casa, Jorge Amado.

    Ao passear silenciosamente pelos cômodos, observando o ambiente, os móveis, o quarto, a sala, a cozinha, as cartas trocadas com amigos, os objetos pessoais do casal, novamente me vi tomada de admiração. Era como se eu fosse uma garotinha a quem se abre o quarto de uma mulher adulta: linda, segura de si, dona do seu tempo e do seu mundo.

    Sentada nos degraus da sala de leitura, ouvindo trechos dos romances que me encantaram em tantas fases da vida, percebi o quanto os livros moldaram meu caminho. O gosto pelo ler me levou ao escrever.

    E se por um instante quase me senti pequena diante daquele autor, cujo acervo ali exposto é composto por dezenas de livros, fruto de uma vida literária robusta e rica, logo percebi que meu sentimento foi apenas um breve lapso de falsa modéstia.

    Entendi que somos iguais: cada um no seu tamanho.

    Também enxergo beleza nos rostos esquálidos e famintos, ou pressinto a tristeza do sorriso que se abre em lábios de carmim; a ambiguidade salta aos meus olhos, sou capaz de sentir, antes mesmo que o personagem saiba, o que eu já adivinhei.

    Afinal, foram autores como Jorge Amado, e tantos outros, que alimentaram minha alma com tudo de belo que hoje me habita. E é isso que me causou a emoção ao adentrar naquele museu literário: reconhecer ali partes de mim mesma.

    Escrever é irmão gêmeo do ler, e ambos dão vida aos devaneios que habitam a mente dos escritores: esses distraídos ou sonhadores que colocam em palavras a sua forma de ver a vida. Ah, conheço bem essas sensações, tenho consciência de ser assim.

    Nesta época da vida, os sonhos já se tornaram uma companhia serena, e as ilusões andam de mãos dadas com as realidades.

    Então caminho devagar; aprecio a jornada.

    Na verdade, eu passeio o meu olhar sobre o mundo. E, mesmo que eu me canse e meus olhos peçam mais luz e mais grau, ainda assim eu me sinto inteira, plena, capaz.

    A pressa ficou para trás. Agora posso sentar com calma, apreciar a leitura e sentir minha alma vibrar ao ouvir as histórias que sempre fizeram e farão parte de mim.

  • O silêncio dos culpados

    “Cauby cantando “camarim”, Orlando “faixa de cetim”, Milton, “o que será” e Dalva, “poeira do chão”. Melhor do que isso, só mesmo o silêncio. E melhor do que o silêncio, só João” (Caetano Veloso, “Prá Ninguém”)

    O sol exausto salpica seus derradeiros, débeis e sonolentos sinais de despedida, aquecendo com leveza minha pele e abrindo delicadamente seus poros para o que o universo possa com ela se conectar.

    De olhos fechados, sentado no banco da praça, posição de lótus, tento buscar um lugar longínquo para repousar a felicidade fugaz que inesperadamente em mim aportou. Concentrado, procuro invocar o lago azul extraído de uma tela de Monet ou de alguma clareira interior. Tento resgatar sons primitivos perdidos pela civilização que apôs sua marca sonora industrial estridente em nosso cotidiano. Talvez num plano mais profundo, possa recuperar sons angélicos de harpas celestiais.

    Abruptamente, um clamor brada arrebatador: “Olha aí, freguesia, pamonhas fresquinhas, pamonhas caseiras. Pamonhas! Pamonhas! Pamonhas!”

    Palavras que traduzem o martírio anunciado por megafones, alto falantes e toneladas de decibéis que crescem na velocidade da tecnologia eletrônica de áudio, da estupidez amplificada e da ausência de normas.

    Ao lado, pessoas passam indiferentes como se lá não houvesse mais do que um mendigo escalpelado ou um cadáver em decomposição. Cúmplices, pamonhas, impotentes, surdos do barulho que desaba desagregador, paquidérmico.

    Sou sequestrado do meu interior protetor. Meus ouvidos tornaram-se reféns de curaus, morangos de Atibaia, ambulâncias, sirenes, bombeiros, britadeiras, bate-estacas, celulares, cachorros, aviões, rojões, raves. Todos concorrendo para adentrar pelo gargalo estreito da minha cavidade auricular, para atingir brutalmente a delicada membrana timpânica que, em silêncio, só implora uma nota dissonante de Satie.

    O gratuito espaço sonoro foi loteado. O silêncio original foi violentado por desordeiros, funkeiros e rappers tresloucados que, com seus alto falantes e sub woofers, requisitam o monopólio das ondas sonoras, embrutecendo nossa sensibilidade com a sua falta de, desconstruída silenciosamente em gerações de marginalização social. O pancadão dominou as periferias e à exclusão social seguiu-se a exclusão do sossego.

    O silêncio tornou-se um conceito idílico, abstrato, surreal, inalcançável na superfície deste esfacelado e estuprado planeta.

    A natureza, em sua sapiência, criara o fundo musical básico e delicado para nos acolher em seus domínios com ondas batendo, ventos sibilando, pingos gotejando, grilos trilando, pássaros gorjeando.

    A insatisfação e a arrogância do homem fizeram-no impor sua própria trilha sonora, amplificando os decibéis de sua insensatez até os píncaros da suportabilidade. Milênios de escabrosas práticas anticivilizatórias levaram-nos à mais absoluta barbárie estereofônica.

    A pureza sonora foi irremediavelmente vilipendiada por hordas de hunos, hackers, hitlers, hulks, hooligans e hardcores. Homens, enfim.

  • Férias de mim

    O poeta já disse que viajar é trocar a roupa da alma. Concordo! Aliás, no meu caso, creio que troco a pele da alma. Nunca retorno do jeito que fui. Algo sempre vem incrustado na derme: impressões, vivências, descobertas, perrengues, sorrisos. A experiência de viver, por uns dias, uma outra vida, ou uma outra perspectiva de mim, tem poder revolucionário. Mesmo antes do embarque, desfruto do gosto bom de uma vida paralela. Enquanto trabalho, vou ao mercado e à academia, esse outro eu, pulsante, desejoso, inquieto pesquisa as oscilações do euro, os pontos turísticos da minha nova paixão, faz listas do que levar para a viagem. Somos duas mulheres, com vidas distintas, interligadas por um corpo sedento de mar. Uma dá força para a outra feito grandes amigas:

    — Vai… trabalha, termina o curso, mantém a dieta, a viagem está chegando. 

    — Tá bom! E você, chegando lá, se entrega sem medo. Aproveita! 

    — Combinado. Mas me ajuda a te ajudar. Faz sua parte. 

    E assim vamos nós, nessa governança compartilhada, feita de incertezas e apostas. 

    No voo escrevo essa crônica. Estou perto de aterrizar e assumir a prazerosa posição de turista, estrangeira, não pertencente. Aquela que oferece um olhar virginal para tudo que vê. 

    Adoro a ideia de passar dias em estado de surpresa. Mas também sei que, em breve, a hiperestimulação dos sentidos, em tempo integral, cobrará seu preço e a saudade do cotidiano, da minha cama, das pessoas que amo, do trabalho me inundarão de urgência. 

    Viajar é sempre um salto de braços abertos.

    Retornar é sempre um abraço apertado com sorriso nos olhos. 

    Viaje-se mesmo em terra firme. 

    Trocando de pele em 1, 2, 3.

  • Matando o tempo

    “Tempo, tempo, tempo, tempo, és um dos deuses mais lindos”.
    (Caetano Veloso, Oração ao Tempo)

    Quando criança, eu observava fascinado as mutações do tempo. Não me refiro ao tempo como período dos acontecimentos, medido pelo relógio, mas como condição meteorológica. Enquadrava-se o tempo no rol dos enigmas além de nossa compreensão, assim como o infinito ou o mistério da vida. As alterações do tempo, imaginava eu, dependiam dos humores dos deuses, a quem cabia a incumbência de reger a dança dos ventos, o ribombar dos trovões e o movimento das nuvens. Determinavam as divindades se o tempo seria chuvoso, ensolarado, frio, quente. E nós, humildemente, acatávamos. Quando inspiradas, brindavam-nos elas com um deslumbrante arco-íris, que só podia mesmo ser obra celestial.

    O comportamento errático do tempo era intrigante.  Fazia calor em épocas em que a disposição do planeta levaria a crer que deveria fazer frio. Passavam-se, sabe-se lá por que cargas d’água, meses sem chover, reduzindo ameaçadoramente o nível das represas e colocando em xeque a presteza das torneiras de jorrar o precioso líquido o tempo todo e sob qualquer tempo. Nossa capacidade de interferir nos propósitos das nuvens que, teimosas, recusavam-se a colaborar, era nula. Para superar os contratempos do tempo, só mesmo rezando pela intercessão de São Pedro. Restava abastecer-nos com trajes e acessórios apropriados como capas, guarda-chuvas, botas, casacos, cobertores das mais variadas espessuras, para nos precaver dos desígnios do tempo.

    Apesar de tais oscilações, havia certa regularidade nas intermitências do tempo que nos trazia uma sensação de alívio. Na cidade de São Paulo, por exemplo, a umidade do ar nunca seria tão baixa quanto a do deserto do Saara e a temperatura jamais cairia a ponto de a água virar gelo. As tênues variações que vinham ocorrendo sequer nos fizeram perceber que, de repente, na “cidade da garoa” parou de garoar.

    Hoje, quando escuto falar em ‘mudanças climáticas’, sinto um arrepio na espinha. Como assim mudanças climáticas? Quer dizer que o tempo vai deixar de obedecer às determinações divinas conforme vinha ocorrendo desde os tempos de Adão e Eva? O que mais vai mudar? Não teremos mais primaveras e outonos? O céu vai também deixar de ser azul?  Os raios do sol deixarão de brilhar pelas manhãs?

    Quando os telejornais passaram a incluir, além de tediosos boletins meteorológicos diários, eventos climáticos catastróficos com temperaturas extremas nunca vistas, tufões devastadores, secas, incêndios e enchentes cada vez maiores, nossa reação era dar os ombros e dizer “o tempo ficou doido”, ajustando o ar condicionado para adequar artificialmente as condições climáticas dentro de casa. E assim íamos tocando a vida, sem nos preocupar quem era o responsável pelas anomalias do tempo ‘lá fora’.

    Não sei para você, caro leitor, mas para mim soa terrivelmente assustador que a interferência do homem no planeta tenha chegado a tal ponto que até o perene e ‘atemporal’ tempo está sendo afetado. Sim, pois o que está ocorrendo no clima não é fruto de praga divina, mas resultado de uma criminosa ação humana. Criminosa, sim. Pois o ato de agredir o meio-ambiente que abriga a vida no planeta deveria ser considerado tão delituoso quanto o de atentar contra o lar, onde residimos com nossa família.

    As condições para a formação da vida estão sendo alteradas obscenamente pelo homem e ninguém se importa. Nossa civilização doentia aceita com naturalidade a agressão impune à natureza. E os infratores são até exaltados por muitos como desbravadores e promotores do progresso.

    Sim, meu amigo, devo pesarosamente informar-lhe: o tempo está mudando. E isso não quer dizer que vai ficar nublado. Mas não se preocupe. A coisa vai ficar ainda pior. Há outras ‘mudancinhas’ em curso enquanto você lê esse texto. Os mares estão sendo infestados de plásticos, os rios envenenados por mercúrio, as florestas devastadas, o ar tornando-se irrespirável, as fontes de água potável estão rapidamente se esgotando e em poucos anos, a maior parte da população mundial não terá como saciar suas necessidades pelo líquido vital.

    O mundo tal qual estávamos acostumados não existe mais. E a maior parte da população está pouco se lixando. Ninguém abre mão sequer da conveniência do saquinho de plástico do supermercado, confiando que, como por milagre, o mesmo ‘progresso’ que gerou essa situação consiga salvar o tempo. A tempo.

    Resta perguntar a nossos filhos se eles concordam com o ‘admirável tempo novo’ que estamos lhes deixando.

  • Falo, logo existo!

    Ponha-se no seu lugar…

    Quantas de nós já ouviu essa frase imperativa sair da boca de castradores natos? 

    Parece óbvio apontar que a ordenança expressa a ideia de que às mulheres caberia um lugar de imobilidade e aceitação silenciosa do destino forjado pelos colonizadores de almas femininas. Insisto em esclarecer o evidente porque eles são mestres em produzir cortinas de fumaça, em tornar natural o absurdo.

    Ponha-se no seu lugar…

    A frase dita à Ministra Marina Silva nos revela dados que não podemos ignorar: muitos homens, e um considerável número de mulheres, acredita que o feminino é um lugar de contenção, silenciamento e submissão. Um buraco fundo cavado no desértico universo masculino, onde atiram-se os corpos rebeldes. Quem és tu que ousas mover-se? 

    A coleira social se presentifica em situações naturalizadas no cotidiano. Seja nas regras de etiqueta e conduta da mulher elegante, na maternidade santificada, na violência física, social e psicológica diária que instaura o medo, a vulnerabilidade e o muro das impossibilidades.

    A mordaça coletiva, a camisa de força tecida ao longo dos séculos pelo machismo estrutural nos ameaça o tempo inteiro. O status, a classe social, a beleza, o poder econômico, o intelecto, nada disso nos salva das armadilhas, achaques e ataques promovidos na minúcia de cada segundo.  

    Somente o amparo feito de identificação e consciência de gênero é capaz de nos proteger de tamanha brutalidade.

    São sutis as formas de controle e desestruturação da resistência feminina: fomento da competição entre as mulheres, valorização do amor romântico como missão primordial da existência, a fragilidade/inferioridade como ferramenta de sedução e conquista. 

    Ponha-se no seu lugar de MULHER e observe as peças que formam a engrenagem que nos tritura a todas nós. 

    Ser mulher é um destino que não se escapa, se impõe. O mundo está cada vez mais hostil e ameaçador com cada uma de nós.  Percebem? 

    Quando dizem que nós, mulheres, falamos demais, entendo que esse é o manejo feito para enfraquecer aquela que talvez seja a nossa arma mais poderosa. A voz, a denúncia, o grito, a escrita, a carta, o bilhete, a canção.

    Falemos de tudo! Falemos pela boca, pelos cotovelos, pelos dedos, pelos olhos. Façamos barulho! Muito barulho. 

    E, ao ouvir uma voz fraca a pedir ajuda, tenhamos a força de ser eco.

    Eles, os tolos, acham que habitamos um lugar estreito e abafado. Coitados, ainda não descobriram que, juntas, somos um Território. De mãos dadas desenhamos as fronteiras. Nossa voz é um canhão a mirar os invasores.

    Ponha-se no seu lugar de MULHER e bata suas lindas asas. Voe alto e para onde quiser!

  • Quando foi mesmo?

    Minha mente vive de espantos e porquês. Até hoje, na sétima década da minha vida, me declaro aprendiz.

    Faço perguntas e me vejo em busca de respostas que nem sabia procurar. E nesse apego às dúvidas e incertezas passo dias pensando, lendo, comparando e pesquisando sobre o que eu desconheço, ou o que me intriga.

    Não tenho predileção por temas… o que tenho, de verdade, são perguntas: como, quando, por quê. E vou além, porque além de observar, eu busco exemplos, comprovações mesmo!

    Gosto dos números, pois eles me orientam em tudo. Até para saber se a igreja está mais cheia que o normal. Sei que temos cento e vinte lugares (já contei) e, assim que entro no recinto, minha calculadora mental dispara e anota que, aproximadamente, estamos com mais um terço de pessoas. 

    Por que eu faço isso? Não sei…

    Ainda em relação a essa predileção percebo que vejo a vida baseada em números, datas, estações. “Tal ano, minha irmã começou a costurar; em 1900 e bolinha, foi o batizado da minha primeira filha; no ano em que passava determinado filme, decidi deixar de ser dona de casa e ir trabalhar. No verão seguinte constatei que não tinha qualificação e resolvi estudar. Formei-me em julho do ano em que houve tal evento.”

    Ao falar do “quando” eu abstraio o porquê…

    Como se as datas preenchessem os motivos, os sentimentos, as razões e emoções do que ocorria em minha vida.

    Constato, então, que conversar comigo é um exercício complicado.

    Qual foi a conclusão a que isso me levou? Primeiro, que o axioma “Só sei que nada sei” faz todo sentido. E que datas devem interessar ao coletivo, ao mundo, aos eventos grandiosos, aos historiadores, aos cientistas, talvez. Nesse contexto o tempo cronológico significa segurança, verdade, esperança, e também temores e incertezas.

    Para nós, meros mortais, não faz diferença saber nem em que ano nascemos! Para que? Acaso existe uma data que determine quando deixaremos de viver? Ou de ainda nos surpreender, ou de passarmos a gostar de inverno, ou parar de detestar frutos do mar?

    Acredito que a busca pelo que há de bom e belo faz parte do ser humano de forma intrínseca e intuitiva, em qualquer época e data da vida.

    As lembranças, sensações, propósitos e realizações devem ser arquivadas em nossas mentes, não por datas exatas, mas pelo valor das palavras, dos atos e emoções vividas.

    Essa deve ser a nossa meta, como seres humanos.

    Afinal, a jornada chamada vida, não acontece de forma exata e linear e nisso está o seu encanto.

    Qualquer que seja a data!

  • Parece que foi ontem

    Hoje o universo escolheu tirar o dia para me cutucar. Já pela manhã, enquanto caminhava no play, quase pisei num boneco de plástico atirado pela varanda por alguma criança entediada de cimento.

    Não era um boneco qualquer, o danado era idêntico ao que eu tinha no consultório. Protagonista de tantas brincadeiras cheias de simbolismos e significados. O outrora soldado valente, agora, jazia ali como representante lúdico de tudo que acaba.

    As lembranças feitas de fragmentos de ontens afivelaram um cinto apertado na minha garganta.

    Quanta saudade de mim…

    Horas mais tarde, procurando a carteira de vacinação na gaveta de documentos, achei a foto de uma moça jovem, bonita e sorridente que teimava em dizer que era eu. Como pode? Só não insisti na contestação porque temos sobrancelhas muito parecidas. Que saudade de nós…

    O sol já se despia quando liguei o rádio do carro e senti a última cutucada do universo através da voz inesquecível de Belchior: “Falaremos para a vida: vida, pisa devagar, meu coração, cuidado, é frágil. Meu coração é como um vidro ou um beijo de novela.”

    Ah, que saudade de mim. Daquela que fui em tempos idos e partiu em tempos vindos.

    Envelhecer carece de um adestramento das memórias. Caso contrário, elas não cessam de latir, morder, atacar o hoje com seus dentes afiados, suas unhas cortantes. 

    O desafio é grande, porque o passado é soberbo, se julga insuperável. Desdenha dos colegas de conjugação.

    Ai que saudade de mim…

  • Camaleão

    Todo mundo conhece ou já conviveu com um camaleão: aquele bicho que parece, mas não é! Pois, então: eles convivem em seu ambiente, se tornam seus “amigos”, sabem dos seus sonhos e expectativas, e se chamam colegas, colaboradores, equipes, parceiros, confidentes e afins.

    Tome cuidado! Nem sempre o que parece é, pode haver um camaleão oculto aí, bem perto de você.

    Pessoas que agem como se fossem o que não são: eficientes, profundo saber, indispensáveis. Muito próximos, prestativos, camaradas. Podem ser vistos como inocentes, ou distraídos, assim como os conhecidos disseminadores de informações extra-oficiais, os famosos “rádios-peões”.

    No entanto, são muito mais perigosos, pois frequentam os espaços dos chefes e líderes, onde passam a conhecer as pessoas, os processos, as minúcias do que acontece ao seu redor. Os seus alvos podem estar ali.

    Trazem consigo uma característica peculiar, inerente e indefensável: são falsos. São invejosos, pois acham que pertencer a determinados estratos sociais farão deles algo maior do que são.

    Nascem assim ou, sem perceber, vão criando camadas até se tornarem o que são?

    Sua maior habilidade? Ser puxa-saco, bajulador. Eu, você e todo mundo conhece alguém assim, já que ele pode estar nos mais variados lugares, em diversas camadas da sociedade. Podem estar no seu trabalho, na igreja, no grupo de pais ou na sala de aula. Agem “inocentemente” servis, declaradamente devotos, mas na realidade, são baba-ovos.

    Usam frases de efeito, discorrem sobre o que ouviram falar, na leitura da manchete e não no conteúdo. Estão sempre prontos a colaborar, trabalhar nos finais de semana, substituir, elogiar e inflar o ego dos superiores.

    Só encenação.

    Parecem diligentes, capazes, interessados, mas o objetivo é colher informações aqui e ali. Seu intuito é saber da vida e dos pontos fracos dos colegas. Não para ajudar, e sim para tirar proveito no momento oportuno.

    E, então, conquistam aquilo que sempre desejaram: o Pequeno Superpoder, com títulos variados: assessores, “braço-direito”, vice, e por aí vai. O conteúdo é raso como um pires, mas a pose é de eficiência.

    Tornam-se a segurança do chefe: cuidam da sua agenda, do cafezinho, elogiam e não cansam de surpreendê-lo positivamente. Adoram quando ele viaja e, mesmo sem serem substitutos oficiais, passam a dominar o ambiente. Com isso vão se mantendo e moldando a sua forma de ser de acordo com o que pretendem auferir.

    Podem até subir na vida, mas só alcançam o rodapé. No máximo, o primeiro degrau. E dali não passam. Exceto se forem da área política. Ali podem galgar muitos degraus. A única forma de lidar com esses indivíduos é com franqueza, sem temores! Ignorar ou tirar a máscara.

    Será que vale a pena?

  • Espelho, espelho meu

    Ontem foi dia de conhecer um exemplar da nova humanidade. Estava almoçando com meu filho, num restaurante da zona sul, depois de um exame em que fui acompanhá-lo (ação corriqueira para mães das proles de antigamente) quando ele me interpelou: “Aquilo ali é um bebê reborn?” 

    Discretamente, acompanhei seu olhar e me deparei com uma moça aconchegando o bebê em seu colo enquanto andava para lá e para cá. O movimento era parecido com o ninar das mães/cuidadoras de crianças feitas de poros, mas com algumas diferenças, talvez, inalcançáveis para quem não vivencia a corda bamba da maternidade feita de cheiro de fralda suja e beijo babado:

    1. o balançar do colo não tinha aquela apreensão inerente ao ato de ninar um bebê: é sono? Fome? Dor? Gases?

    2.  A tranquilidade de quem não corre o risco de levar uma golfada.

    3.  A paz absoluta dos que não precisam ter medo de errar, de não perceber ou intervir a tempo, de falhar.

    4. A solidão de um olhar que não encontra testemunho de afeto.

    Tudo sob controle, milimetricamente previsível, controlável. Por alguns instantes, admirei a maternidade reduzida a sua função de cuidados mecânicos. Mas, em poucos segundos, o sorriso esvaziou, senti falta da temperatura, do cheiro, da gargalhada, do choro feito de lágrimas, das mãozinhas puxando o cabelo. 

    Voltei para o meu filho e respondi: “Com certeza é um reborn. Não há dúvidas.” 

    Quando coloquei no teto do quarto um papel de parede cheio de estrelas, achei lindo, mas sabia que não eram estrelas. 

    Por mais que digam que, para toda mãe, os filhos serão sempre crianças, desejamos que cresçam. E essa é a graça, ver o amor ganhar contornos, a intimidade desenhar nuances, a relação se reinventar no tempo.

    As rosas de plástico enfeitam a casa, mas não perfumam.

  • O VALOR DA ÁGUA

    Nossa sociedade mantém uma relação “profana” de usurpação com os recursos da Natureza. A água e outros bens naturais são vistos apenas como matéria-prima que possibilita o bem-estar do ser humano. As ciências, nas bases em que evoluíram, sancionam essa extorsiva apropriação.

    Todavia, o real valor da água vai bem além da função que lhe destina o utilitarismo materialista do homem civilizado. Reduzi-la a essa condição é espezinhar outros modos de se relacionar com o bem, associados a diferentes formas de valor. Como elemento ecológico, por exemplo, a água desempenha papel fundamental no equilíbrio dos ecossistemas. É dotada também de inestimável valor histórico, social, cultural, estético e simbólico.

    Muito mais do que nos utilizarmos da água, somos água. A água é 70% de nossa constituição. Essa representação significa que observador e coisa observada são um só e sujeito confunde-se com objeto. Nossa dependência desse elemento vital provém do momento em que fomos concebidos. Mais do que isso, a própria vida no planeta Terra originou-se em seu interior. E até hoje conserva traços dessa conexão primitiva. O contato com a água, além de proporcionar reconhecidas virtudes terapêuticas, resgata ao corpo uma prazerosa sensação de harmonia.

    Em função dessa condição de essencialidade, a água tem sido objeto de ritos sagrados e devoção em todas as épocas por todas as grandes culturas e religiões, associada à fonte da vida, à purificação, à regeneração, à proteção contra o mal e outras qualidades mágicas.

    Ao fazer da água objeto de estudo das ciências físicas, biológicas e sociais, o caminho é o de dessacralizá-la, coisificá-la, arrancá-la de sua condição sublime. Não nos cabe extrair da água sua divindade, e sim irrigar os áridos campos científicos com um pouco da energia vital de que aquele precioso líquido é dotado.

    Degradada a fonte da vida degradou-se também a vida. Mas não foi a água que mudou. É bem verdade que está ela carregada de substâncias cada vez de pior espécie. Porém, em sua essência, continua ela tão H20 como sempre foi. Apesar de bem menos cristalina e mais mal cheirosa, continua ela a correr líquida, solta e indomável, indiferente às reflexões humanas a seu respeito. Tampouco mudou o homem, pelo menos no que concerne a suas necessidades fisiológicas relacionadas com o bem em questão.

    Os conceitos científicos é que parece não estar se adequando mais. Não se pode fazer a água se sujeitar a modelos concebidos para abrigá-la. Ao sair de suas sólidas bases e entrar nesse campo, digamos, mais fluido, as ciências também revelam suas deficiências e fragilidades metodológicas. Efetuar uma análise desse bem de qualidades tão invulgares, e primordiais coloca as ciências diante de um colossal desafio que as obrigará reavaliar alguns de seus fundamentos.

    Deve-se considerar que a água possui também um inestimável valor, cultural, religioso e histórico associada ao nascimento de importantes civilizações (inclusive a nossa, que teve como marco inicial o nascimento da Mesopotâmia, entre o Tigre e o Eufrates), que surgiram às margens dos rios ou à beira do mar. Sob a água, outras teriam sucumbido como Atlântida.

    Em todas as culturas e religiões, ela aparece como símbolo marcante. Nas tradições judaica e cristã, a água simboliza, em primeiro lugar, a origem da criação. Contendo o elemento de regeneração corporal e espiritual, as chuvas e o orvalho trariam consigo a fecundidade e manifestariam a benevolência divina e os rios seriam agentes da fertilização.

    As águas de rios sagrados como o Ganges (para os hindus) e o Jordão (para os hebreus e cristãos) teriam o poder de “lavar” a alma de quem nelas se banhasse. Do batismo a ablução, teria o poder de purificar os homens dos pecados e impurezas.

    O Corão designa a água que vem dos céus como um dos signos divinos. No Novo Testamento, aparece com destaque nas palavras de Cristo: “Quem beber a água que eu lhe darei, nunca mais terá sede, pois a água que eu lhe der tornar-se-á nele uma fonte de água jorrando para a vida eterna” (João 4:14).

    Representa a sabedoria taoísta, porque não tem contestações. É livre e desimpedida, corre segundo o declive do terreno: “A água não se detém nem de dia nem de noite” diz Lao-Tsé. Para o I Ching, o oráculo milenar da cultura chinesa, “a água flui ininterruptamente, e chega à sua meta” (hexagrama 29), servindo de modelo de conduta para o homem: preencher todas as depressões antes de seguir adiante.

    Para diversas tribos indígenas, as águas acolhem espíritos e divindades. Para ela são entregues pelos umbandistas as oferendas dirigidas a Iemanjá. Personifica também qualidades encantadas, constituindo-se em morada de ninfos e deuses.

    Possui a água significado mítico e psicológico, integrando o imaginário coletivo, associada a aventuras rumo ao misterioso ou jornadas a um novo mundo. As águas profundas representam o impenetrável inconsciente ou o reino obscuro do desconhecido.

    Sendo ela que permite a vida, é vista também como bênção, elemento sagrado, que teria o poder de curar, purificar e rejuvenescer.

    Em função dessa importância simbólica, a conservação da água em bom estado tem um valor que em muito transcende as necessidades relacionadas com o seu uso. Sua deterioração coloca sob ameaça a própria integridade da vida social e cultural. A poluição é o câncer da água. Todos vêem na água como que o elemento vital primordial: a fonte da vida, que deve ser preservada.

    *Texto adaptado da minha tese “O VALOR ECONÔMICO DA ÁGUA”, escrito em 2002, como tese de Mestrado para o PROCAM – Programa de Ciência Ambiental da USP.

  • Crônica do Dia Seguinte

    Se tem um dia que eu gosto, eu gosto mais ainda do dia anterior e do dia seguinte. Sim, porque há um encanto que mora nas bordas dos acontecimentos, ali nos minutos antes do salto e no respiro depois do mergulho.

    Se é festa, o dia anterior é puro movimento: últimos arranjos, conferência de listas, compras apressadas, almoço engolido às pressas porque o tempo urge, marcar salão de beleza, verificar as roupas das crianças, fazer as checagens finais. É uma pressa que não cansa. Ao contrário, é uma urgência boa, que dá energia, como se a vida pulsasse mais forte nas vésperas.

    Se é prova de faculdade, o dia anterior é biblioteca com as amigas, dicas dos sabidões da turma, coração disparado. É como se o corpo se preparasse para o salto, tomado por uma expectativa nervosa e cheia de adrenalina.

    Se é cirurgia, consulta, visita ao salão, ou o que quer que seja o evento, o dia anterior é sempre um lugar à parte. Um lugar suspenso, fora da rotina. É o dia da expectativa.

    E o dia seguinte?

    Ah… melhor que o dia anterior, só o dia seguinte. Quando tudo já aconteceu e a gente pode enfim respirar.

    É quando o corpo agradece e a mente repassa, satisfeita, tudo que deu certo ou tudo que ensinou. É quando percebemos que valeu a pena ter chamado aquela cozinheira, que as meninas estavam lindas, que a prova foi menos cruel do que o esperado, que na próxima consulta a gente já sabe: nada de marcar outro compromisso no mesmo dia.

    O dia anterior e o dia seguinte de uma festa são, pra mim, o que há de melhor. Adoro!

    E se tiver visitas de fora então? Aí sim fica melhor ainda;  a casa se enche de outra energia, outro tipo de urgência, mais calorosa, mais humana. Coisas pequenas ganham importância: o colchão inflável, o café coado com capricho, o tempo esticado em conversas no quintal.

    Estranho… essa sensação sempre me pareceu tão íntima que nunca comentei com ninguém.

    Será que é coisa só minha? Ou será que todos, em silêncio, também têm esse carinho pelos dias que cercam os grandes dias?

    Talvez sejamos todos assim: amantes dos intervalos. Porque é neles que a vida acontece devagar. No antes, mora a esperança. No depois, o entendimento. 

    E o durante… ah, esse a gente quase nunca percebe enquanto vive. Porque é o que faz  pulsar o coração.

  • Para quem é colo, amparo e parceria

    Domingo é o Dia das Mães. Por mais que saibamos a influência do comércio na criação e manutenção da data, seguimos envolvidos na programação do evento: o que dar de presente, o que escrever no cartão? Flores? Onde será o almoço? Qual vai ser o menu?

    Embora a mídia queira nos convencer de que tudo é lindo, sabemos que, para muitos, esse dia vem embrulhado de vazios, lembranças e saudades. Para outros, tristeza, mágoa ou rancor. De um jeito ou de outro, somos atravessados por esse calendário socioafetivo. Não é possível passar ileso ou distraído. Somos convocados a lidar com nossos afetos.

    Tem quem prefira esvaziar a importância do evento, argumentando: Dia das Mães é todo dia. Em parte, concordo. Mas não vejo problema em escolhermos uma data certinha para focarmos, mais atentamente, nos mimos de amor.

    Creio ser uma ótima opção para resgatarmos abraços que se perderam na correria dos dias, olhares que não se cruzaram tempo suficiente para trocarem sorrisos, frases esquecidas no “depois eu te falo”. A eleição de um momento específico de celebração não nos impede de desafiar a urgência da vida para demonstrar o amor que sentimos.

    Sempre é tempo de cantar o que vibra em nós.

    O Dia das Mães é domingo, mas hoje quando meu filho me surpreendeu com um pão com ovo e café feito por ele, para meu lanche da tarde, senti o conforto inestimável de ser amada nos detalhes do cotidiano. Mas adoro a ideia de que domingo tem mais!

    Que possamos todos nos apropriar desse dia para dedicar atenção e carinho àqueles que são colo, amparo e parceria em nossas vidas, independente do cargo ou função que ocupem.

    Celebre os seus!

  • As mulheres da nossa vida

    Eu tive avós. Na minha infância, eles eram a autoridade máxima da família. Austeros, respeitados e, por vezes, até temidos. Se filhos e noras já os tratavam assim, imagine nós: aquela penca de irmãos, primos, afilhados e agregados?

    A figura moderna dos avós é bem diferente. São os que mimam os netos, presenteiam em qualquer data, levam ao shopping, pagam terapeutas e se colocam quase como amiguinhos das crianças. Mas esses também já começam a se tornar raridade. Estão, como os antigos, em extinção.

    Ainda bem. Sou avó de dez netos. Sim, quase uma dúzia. Altos ou nem tanto, fofos ou nem tanto, achegados ou apenas educados. Cada um a seu modo. Fazem parte de mim, filhos dos meus filhos.

    Nesse pensar lento e silencioso, no tempo necessário para que as ideias se acomodem, compreendi o que tem me causado certa estranheza: são os ecos das realidades. As dos tempos atuais e as de que me recordo. E elas não pedem comparações, tampouco julgamentos. Apenas ecoam.

    Houve o tempo em que, embora  sem entender, obedecíamos. Porque o que diziam pais, mães, avós, nos dirigiam… Éramos crianças, mas sabíamos que aquelas palavras, o tom da voz, até o silêncio entre as frases, era amor. E um dia fariam sentido.

    O tempo se encarregaria disso. E tudo se tornaria claro em beleza, verdade e permanência daquilo que nos foi ensinado.

    O mesmo não  podemos afirmar sobre as novas gerações. Basta olharmos as redes sociais, onde a procura de aprovação a qualquer custo geram amor e ódios instantâneos.

    O mundo virtual substituiu as conversas e trocas de ideias. Um emoji “vale mais que mil palavras”. As certezas são instantâneas e as verdades absolutas.

    Personalidades construídas sobre alicerces frágeis não se sustentam, pois uma opinião contrária é capaz de provocar revoltas, rupturas ou até a perda do sentido da vida.

    Mas a memória leve de uma risada, de uma presença silenciosa, de um afeto firme e sem alarde sempre há de nos dar  a convicção de sermos pessoas fortes, capazes de enfrentar a vida e mudar de rumo quando necessário, sem nos perder.

    É o Dia das Mães…e escrevi sobre avós, famílias e valores… Sobre aprendizados e escolhas… sobre força e alicerces… sobre amor…

    Será mesmo que não falei das mães?

    Feliz Dia das Mães!

  • A Dama e o Vagabundo

    Minha porção mulher, que até então se resguardara, é a porção melhor que trago em mim agora, é a que me faz viver (Gilberto Gil, Super-Homem)

    A humanidade vem sendo regida há milhões de anos pelo macho da espécie. Chegou a hora de reconhecer: não deu certo! Como genuíno representante do sexo masculino, declaro peremptoriamente que entrego os pontos. Desisto! Nós, homens, já fizemos burradas suficientes. De minha parte, anuncio que passo o bastão às mulheres a quem humildemente me submeto, elegendo-as para cargos de comando e alçando-as a todas as atividades que envolvam exercício de poder. Pior do que está não vai ficar. Sei que não serei acompanhado por outros da minha estirpe pois conheço bem o tipinho que encarno: viril, orgulhoso, não dá o braço a torcer.

    Tenho um argumento infalível para convencer meus iguais. Já que você, ô marmanjo, não tem brio suficiente para admitir sua incompetência, pense nos seus filhos e netos. Se você os ama, dê-lhes ao menos a oportunidade de terem um futuro nesse mundo em frangalhos que sua gestão infeliz produziu.   

    Não imagino, por exemplo, que alguma mulher faria a insanidade de lançar bombas em cidades, assassinar adversários em massa, promover chacinas e genocídios, cultuar armas e perpetrar outras bárbaras atrocidades a seus semelhantes. As exceções que me recordo são as mulheres-bomba, que agiram a mando de… homens.

    Ou viramos a mesa ou o dito “homem” – por extensão, a raça humana, aí incluídas não apenas as mulheres mas as inúmeras categorias sexuais intermediárias emergentes – estará em poucas dezenas de anos extinto do planeta.

    O mundo como hoje conhecemos, vulnerável a vírus letais, ameaça nuclear, tragédia social, apocalipse ambiental, foi uma construção masculina, tem a face grotesca e brutal do inepto bicho-homem. Ou colocamo-lo sob nova administração, ou dito cujo já era.

    Trata-se de uma constatação lógica e me admira que a grande maioria dos indivíduos (especialmente aqueles que se orgulham mais do seu pênis do que do seu cérebro) não tenha ainda chegado a essa conclusão tão evidente.

    Não, não estou me rendendo às teses feministas. A pauta da sociedade igualitária não me fascina. Homem e mulher são seres biológica e psicologicamente distintos. O homem prima pela força física, pela razão, pela lógica. Já o chamado “sexo frágil” (que piada!) distingue-se pela formosura, pela sensibilidade, pela intuição, pela resiliência. Por ter o atributo da força, o gostosão impõe-se à delicada mulher que se submete a seu algoz que usa da bestial violência para ditar suas regras. 200 mil anos de civilização não foram suficientes para revogar a lei do tacape.

    O capitalismo adaptou-se perfeitamente ao patriarcado e definiu o papel de cada gênero no sistema. Ao homem, ‘chefe’ da prole, cabe negociar suas habilidades no mercado de trabalho e com a grana obtida, sustentar os gastos domésticos. A mulher fica em casa lavando louça, limpando a privada e cuidando das crianças, trabalhos ‘inferiores’ sem remuneração, não monetizados pelo mercado. Que sistema hipócrita! Gratifica apenas as atividades que interessam ao capital, exercidas pelo membro empoderado do casal. A fêmea desempenha a incumbência ‘acessória’ de amamentar o bebê e manter estruturado o lar, sendo dependente financeiramente do varão folgado que se embebeda e farreia nos botequins. Sejamos honestos: isso é uma deslavada exploração de mão-de-obra.

    A natureza concedeu à mulher uma função muito mais nobre e, para que ela a exerça com louvor, não precisa ocupar o espaço do homem. Se pleitear isso, estará admitindo que os valores masculinos são superiores. O que é preciso é que seja reconhecida a importância do seu papel, muito mais imprescindível que o do provedor financeiro.

    A mulher para brilhar não tem que ser cientista, filósofa, soldada, enxadrista, jogar futebol, lutar muay thay. Deixe os homens se sobressaírem nessas áreas. As damas têm habilidades muito mais indispensáveis na preservação do equilíbrio social do que as dos vagabundos, inclusive a principal de todas: gerar a vida.

    Por isso, caro amigo e cara amiga, está na hora de corrigir o rumo e mudar as regras do jogo. A começar por redefinir quem deve dar as cartas.

  • Essa superestranha

    Há poucos dias estava em busca de alguma série ou filme que tivesse como locação a Turquia. Viajo para lá em junho e queria me ambientar antes da partida. Adoro passar pelos lugares e ter o prazer infantil de apontar e dizer: olha ali! Lembra daquela cena? Nessa busca inglória, me deparei com uma novela turca cujo nome, por si só, já me fez dar uma risadinha debochada — A sonhadora. Pensei em desistir, mas acabei deixando de lado as minhas críticas ferinas. “Que coisa brega, deve ser igual à Sabrina, aquela revista tosca da minha adolescência”, “mais uma história de mocinha apaixonada” e apertei o play para o primeiro episódio. 

    Como imaginei, era tudo muito ruim, quase péssimo. Interpretações exageradas, furos de continuidade, diálogos e cenas sem consistência lógica, um sururu sem fim. Para não ser injusta, os protagonistas Can e Sanem embelezavam a tela sempre que apareciam; os cenários coloridos e as paisagens também eram lindos. Mas nada além disso. 

    O esperado era que eu desistisse de perder tempo com aquela besteira sem atrativos intelectuais que eu pudesse exibir para os amigos, mas não! Mesmo achando tudo muito esdrúxulo, questionando o mau gosto e a minha sanidade mental, acolhi inteiramente meu desejo e assumi: quero!

    Que me julguem. Essa também sou eu.

    Resumo da história: fiquei viciada nessa comédia romântica, perdi várias noites de sono para assistir os 160 capítulos da Sonhadora, me afeiçoei aos personagens, reencontrei lembranças minhas, senti brotar inspirações para um novo livro.

    Foram dias intensos. Aguardava ansiosa pela hora de estar no sofá e continuar a aventura de flanar pela trama, dar risadas, lágrimas, suspiros junto com eles.

    A história foi seguindo o caminho do fim. Eu fui seguindo o caminho de mim. Encontrando placas, avisos sobre a imprevisibilidade da existência e os milhões de fragmentos possíveis e inesperados que compõem esse vir a ser que me habita. De quebra, ainda pesquei algumas conclusões sobre quem efetivamente sou até então.

    O amor romântico é uma praga que me cativa inteira; a graça de viver flutua fora da caixa do padronizado; as coisas bobas da paixão me fazem rir com sincronia entre os lábios e a alma. 

    Foi maravilhoso rever essa estranha-familiar que aparece quando tudo some e só restam nós duas: eu e essa menina enamorada pelo poder da paixão na sua raiz mais clichê. Não julguem. O indicado, apropriado, o certo a se fazer numa escolha é circunstancial. Aceitem. Às vezes, o melhor que desejamos não é tão apreciável assim pelos outros. E daí?

    Nada é mais divertido do que ser o que se é, a despeito do que se pretendia ser para atender às demandas sociais.

    Obs: acabo de apertar o play para assistir o primeiro capítulo novamente. Estou viciada nessa alegria. Aceito sugestões de outras novelas e séries. Não precisa ser nada profundo, nobre, intelectualizado, culturalmente valorizado. Basta que seja leve, doce e despretensioso. Bom demais não precisar pensar, avaliar, entender, julgar, criticar, analisar. Só ser, sentir e viver.

  • Toda verdade é ato

    Ao tomar ciência da morte do Papa Francisco, um lamento silencioso me abraçou forte. Não frequento igrejas ou missas nem o conhecia pessoalmente, mas senti o pesar que a partida de um amigo distante e querido inaugura.

    A exploração excessiva da mídia, a monetarização advinda do uso selvagem da notícia do seu falecimento, a pequenez do mundo, tornou ainda mais evidente a grandeza rara desse homem que escreveu com atitudes o brado de uma ética de humanização do viver.  

    Seu maior legado talvez seja a mensagem cifrada em todas as suas ações: o amor genuíno, curandeiro de todo o mal, só floresce do respeito e da empatia entre os seres.

    Ele se foi, mas uma fração da sua eternidade ficou em mim.

    O bem reverbera!

    O Amor é colo que acolhe sem mimar.

    A verdade dos afetos e dos intentos vive nos gestos. O Papa Francisco escolheu ser sepultado na Basílica de Santa Maria de Maggiore em Roma, quebrando a tradição centenária de sepultamento na Basílica de São Pedro.

    Quantas coisas são ditas com esse ato…

  • Almas

    Almas rasas, almas profundas. Almas quietas, almas inquietas. Almas glutonas. Ou seriam corpos glutões? Almas machucadas, doídas, que não são percebidas. Almas irmãs, almas curiosas, almas altruístas.

    Olhar, esquadrinhar, perscrutar…

    É desonesto? É como espiar pelo buraco da fechadura? É pretensioso?

    Não sei… mas não consigo evitar. Meu olhar atravessa os corpos, vasculha os gestos, decifra os silêncios. Cada passo que vejo guarda uma história, cada olhar desviado esconde um receio. Há almas que se mostram sem perceber, e há outras que se escondem, mas não o suficiente.

    Ah, meus amigos…

    Como eu gostaria de ser uma alma bebê…

    Só assim eu deixaria de ver. De perceber. De saber.

    Uma alma inocente não veria malícias, subterfúgios, intenções. Não distinguiria as sombras dos sorrisos, as hesitações dos fingimentos. Viveria sem o peso da consciência, sem essa insuportável necessidade de compreender o que deveria passar despercebido.

    Quisera eu ter a inocência de estar desnuda e não perceber…

    Mas não! Prefiro estar oculta a estar desnuda…

    Afinal, para quê saber das fragilidades, da inocência, da malícia?

    Por quê? Para quê? Essa é a pergunta que atormenta a MINHA ALMA…

    E ainda assim, eu continuo olhando.

  • Ela morreu

    Sentada à mesa de um restaurante, aguardando uma amiga para o almoço de celebração da nossa amizade, chegou aos meus ouvidos uma frase, com efeito de fogos de artifício, dita por uma voz feminina, provavelmente da mesa ao lado:

    — Eu confiava nela. 

    No momento que decodifiquei o som e o sentido se fez claro, fui tomada por uma tristeza absoluta e uma identificação imediata com a enganada da vez. 

    Sem que nos conhecêssemos ou tivéssemos intimidade, experimentei, por osmose, a dor causada pelo corte profundo da decepção. O sangrar hemorrágico de um fim que se impõe mesmo diante do perdão. Toda falsidade ou traição fere a eternidade do sentimento, a ingenuidade da confiança. Sem isso, ela é outra coisa. Perde o viço, a raridade, o estado nato de berço. Mas tem quem não se importe, quem acredite que uma vez ferida, ela, a confiança, feito lagartixa, se regenera. Quanto engano! 

    Seu ferimento tem dor profunda, pulsante e incurável. Sua cicatriz é feita de queloide. Impossível retornar ao conforto inicial de sentir-se em casa diante do outro. Esse é o maior luto. A certeza de que não se volta ao estado natural de ingenuidade. Impressionante que as pessoas não se deem conta do que perdem com o fim da fé em si. 

    Eu confiava nela. Que triste! 

  • O que perdemos com o Wi-Fi

    A tecnologia nos trouxe muitas coisas. Mas o que ela levou embora? Creio que a pergunta poderia ser: as crianças ainda brincam? Acredito que brincam bem menos do que eu, meus irmãos e amigos! Os tempos mudaram.

    Ninguém mais fica na rua, na frente de casa. As famílias não têm tantos filhos. E com isso perdeu-se também o maravilhoso programa de irmos à casa da vó, onde os primos se encontravam e saíam esbaforidos para aproveitar o tempo e brincar.

    Passar anel, esconde-esconde, amarelinha, rolimã, pique, queimada, cabra-cega, “adivinha o que é?”, pular corda, cabo de guerra, telefone sem fio, cantiga de roda…

    Essas eram as brincadeiras antigas, normais e lícitas. Existiam também as perigosas: subir em árvores, descer de rolimã, guerra de sementes de mamona, roubar frutas nos quintais alheios, soltar espoletas…

    Quanta coisa existia em nosso mundo infantil! E os insetos? Será que as crianças conhecem os louva-a-deus, cigarras, esperanças, joaninhas, vaga-lumes?

    Os perigos eram conhecidos: não andar descalço para não entrar espinho no pé ou pisar em cacos de vidro; não subir no telhado para pegar a rabiola da pandorga; não sair sem avisar a mãe…

    A tecnologia mudou a vida dos adultos e a das crianças também.  Estimulou o aprendizado, os jogos lúdicos aumentaram a atenção e o foco, desenhos e filmes facilitaram o interesse por outros idiomas. Quem já não ouviu delas : Tem Wi-Fi?

    Em todos os tempos existirão brincadeiras inocentes e perigosas. Algumas desconhecidas… Na sala de casa, um celular e um frasco de desodorante podem ser fatais.

    Crianças são crianças.

  • Para Su e todas nós

    Essa semana uma amiga viveu uma situação bastante traumática e corriqueira no universo das mulheres: foi intimidada verbalmente por um colega de trabalho e ameaçada de agressão física durante seu expediente. Notem: um homem de quase 2 metros de altura levantou a mão na direção de uma mulher de 1,60 metros enquanto lhe ofendia aos gritos.

    Não vou citar o motivo do desentendimento porque me parece óbvio que nenhuma situação justificaria esse tipo de violência e covardia. Mas, se você se perguntou “o que ela fez para ele partir para cima dela?”, sugiro que você faça uma análise profunda sobre o nível de entranhamento da misoginia em seu comportamento.

    Fato é que ninguém interveio na cena nem a protegeu.

    O chefe da seção considerou justo ouvir todas as partes, como quem busca razão para perdoar o absurdo. Para agravar o desamparo, aproveitou para repreendê-la por ter usado uma palavra de baixo calão na discussão com o sujeito. Dando provas que os homens sempre se apoiam, defendem e blindam uns aos outros, validou a máxima: a mulher é sempre culpada.

    As colegas de trabalho preferiram não se meter, vai que apanham também… E minha amiga ficou ali, sozinha, vulnerável a todo tipo de manobra permitida por uma sociedade machista, misógina e escrota.

    Por que será que nós, mulheres, não nos unimos, apoiamos, protegemos umas às outras? Não formamos grupos, clãs, clubes que nos fortaleçam e amparem. Estamos constantemente julgando quem engordou, quantas celulites cada uma de nós tem, quem é mais brega ou rejeitada.

    Penso que a ideia do amor romântico, produto que só nós, mulheres, compramos, faz parte de um megaprojeto separatista. Afinal, competimos entre nós para sermos as mais bonitas, desejadas. Nos vestimos para suplantar as outras, nos medimos e criticamos em relação àquelas que julgamos sensacionais. Dificilmente oferecemos um abraço genuíno, uma guarida provisória, sem críticas, julgamentos ou comparações.

    Estou convencida de que essa luta inglória para ser “a tal” do pedaço, a poderosa do trabalho, a gostosona do reino nos enche de espinhos sem que nasçam pétalas. 

    Por sorte, minha amiga me ligou naquele dia horrível e juntas rogamos milhares de pragas naquele infeliz. Depois, rimos das nossas armas. Elas não são capazes de derrubar o inimigo, mas protegem a vítima da solidão imposta pela violência sofrida sem amparo e rede de apoio.

    Te amo, amiga! Esse infeliz há de ter um prejuízo financeiro grande, ou pior, vai ver seu time do coração perder a final do campeonato. De virada.

    O que mais seria capaz de afetar um homem?

    Voltamos a sorrir porque juntas somos mais. Juntas sabemos/podemos nos defender. Juntas somos nós!

  • Vamos tomar um café?

    — Um café? Sim, obrigada!
    — Toma um café comigo? Claro, vamos!
    — Aceita um cafezinho? Sim, aceito!

    Vejam só: em todas essas frases há um convite que vai além da xícara. Há cumplicidade, um gesto de carinho, quase um abraço em forma de aroma.

    Da história do café, lembro de uma narrativa antiga — um pastor de cabras africano, com a ajudinha de um monge, teria descoberto os efeitos revigorantes daquele grão escuro.

    Verdade? Talvez. Isso não importa. O que importa é o que ele representa: esse pequeno ritual que cabe numa xícara e aquece a alma.

    Tomar um café com alguém é mais do que saciar um gosto — é um tempo concedido, uma pausa generosa, um olhar que escuta. É o gesto de quem diz: “estou aqui com você”.

    O perfume do café pela manhã invadindo a casa é quase um sinal de que o mundo segue. É continuidade, é calor, é o anúncio de que mais um dia começou — e, com sorte, com afeto.

    Ainda que o café seja solitário, mesmo assim  ele faz companhia. É o cheiro que abraça. O gosto que desperta. O silêncio compartilhado com a gente mesma.

    O café da tarde tem seus rituais. Com a vizinha, com o parceiro, ou mesmo que você esteja só e com a cadeira vazia à sua frente, o valor de uma xícara é incontestável. Ele tem esse poder de reabastecer não só a energia do corpo, mas a ternura do coração.

    Ninguém convida um desafeto para um café. Isso diz muito. Café é símbolo de reconciliação, de recomeço, de partilha. Já esteve em cenas emblemáticas de filmes, já foi desculpa para uma boa conversa, já foi até poesia.

    Hoje, com o preço subindo mais do que o aroma na cozinha, na cafeteria ou no escritório, convidar alguém para um café virou quase um luxo afetivo. Mas vale cada centavo. Porque o café, mesmo caro, é a essência da cordialidade, do apreço e da simpatia. Por isso sempre vai ter o seu valor.

    Então, não se furte a um convite:
    Vamos tomar um café?

  • República Evangélica do Brasil

    Eles estão espalhados pelos mais afastados recônditos do país, onde pode faltar creche, farmácia, delegacia e agência do Banco do Brasil, mas nunca faltará uma igreja evangélica. Dentro de poucos anos, serão a maior religião do Brasil que, para decepção dos servos de Francisco, deixará de ser o maior país católico para contar com um dos mais numerosos rebanhos evangélicos do planeta. Na liderança, os EUA, terra do capitalismo, do consumismo, do individualismo e do protestantismo, com seus 160 milhões de adeptos. Entretanto, ao contrário do que ocorre aqui, na terra de tio Sam os evangélicos estão em baixa, sobretudo entre os jovens. Para compensar, conquistaram popularidade na América Latina e na África, onde estão em franca expansão.

    Mas em nenhum lugar do mundo o crescimento é tão vertiginoso como no Brasil. Há meio século, havia um deles a cada 50 brasileiros. Atualmente, um em cada 3. A retórica simplória que utilizam ajustou-se à nossa natureza crédula (chamados que são de ‘crentes’). Nos locais que se ressentem da presença do Estado como nas favelas e nos morros cariocas, áreas controladas pela bandidagem e pelas milícias, estenderam sua influência, convivendo harmonicamente com o tráfico e a contravenção.

    Os neopentecostais ganham espaço dando respostas concretas a problemas cotidianos do povão e uma pregação mais próxima à sua sofrida realidade, cujas razões não lhes interessa compreender. Através da ‘ideologia da prosperidade’, oferecem a promessa de rápida ascensão social, ainda nessa encarnação, que ninguém aguenta esperar a redenção post mortem no paraíso celestial. Tudo mediante uma módica contribuição mensal de 10% dos proventos, através da qual os missionários intermediam a intervenção de Jesus, com quem mantêm uma estreita relação de compadrio.

    Inspirado no american way of life, estimulam a cultura do empreendedorismo em que cada um é (ou julga ser) senhor de si mesmo, sem que o patrão lhes extraia a mais valia. Esse modelo se adequa à precarização da força de trabalho em que o indivíduo se desdobra 18 hs ao dia por uns trocados, na ilusão de que, com a bênção do pai celestial, virá a se tornar um Neymar.

    Mas se os espoliados fiéis penam sem sair do lugar, o mesmo não se pode dizer dos bispos. A apropriação dos dízimos mais as generosas isenções tributárias a que têm direito, possibilitou aos aspirantes a pastor exercer uma modalidade lucrativa de negócio. Investindo pouco e sem necessitar de grande preparo, a não ser um desempenho verborrágico convincente, puderam encontrar uma oportunidade de rápido enriquecimento. A ponto de alguns deles amealharem gigantescas fortunas, ostentando vidas de luxo, com bênção divina. Comportamento bem distante do ideal franciscano de opção preferencial pelos pobres, inspirado nas palavras do Mestre: “É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus” (Mateus 19:24), versículo que os crentes gostariam de expurgar do Novo Testamento.

    A vida singela e despojada do homem de Nazaré que repelia os mercadores fariseus e se aproximava dos pecadores e marginalizados presta-se melhor, segundo avaliam, à de um esquerdopata. O deus que evocam assemelha-se mais a um agente financeiro que retribui as colaborações pecuniárias, não com a felicidade eterna, mas com polpudos retornos monetários e a perspectiva de um mundo de abundância material regado a grana e luxúria.

    Os evangélicos não se mobilizam em praticar ações sociais em prol da coletividade. Se alguém padece em condições aviltantes, a culpa não é do sistema, mas unicamente do indivíduo que falhou em seu empenho pessoal.

    O crescimento evangélico foi possibilitado pela permissiva facilidade com que são tratados pela legislação. Num país onde montar uma barraquinha de doces exige um mar de obrigações, abrir um templo requer um mero registro em cartório. E para habilitar-se pastor não há necessidade de graduação em teologia ou qualquer outra exigência. Enquanto na calvinista Europa, sua formação exige uma série de pré-requisitos, aqui qualquer charlatão pode exercer de imediato o ofício.

    Curiosamente, o primeiro governo de Lula, hoje acusado de perseguição, criou facilidades para a prática da religião, isentando as igrejas de uma série de responsabilidades estatutárias. Nesse período ocorreu uma explosão na quantidade de igrejas. Segundo o IBGE, o número de estabelecimentos religiosos no país em 2022 superou os de ensino e saúde juntos!

    Se o PT foi condescendente com o crescimento vertiginoso dos evangélicos, foi Bolsonaro quem capitalizou com competência o apoio dessas igrejas angariando através de medidas populistas o apoio da classe, vindo a se tornar um ser ungido, enviado pelos deuses para salvar a nação do perigo ‘marxista’ e ‘ateu’. Conseguiu até difundir sua política armamentista e seu discurso raivoso recheado de palavras chulas num universo em que deveria prevalecer tolerância e amor ao próximo. E ainda colocou no STF um juiz ‘terrivelmente evangélico’ que acima dos preceitos jurídicos, julga pelo que reza a Bíblia.

    Mesmo sabendo que jamais terá apoio deles, Lula teme exercer maior fiscalização aos evangélicos e acabar com a farra de privilégios. Se os militares e os políticos medem palavras, os pastores soltam o verbo com a certeza de que não existe, sob o céu de Jeová, força capaz de refrear sua atuação.

    Conseguem assim emplacar o que lhes agrada. Ficam incomodados com a existência de homossexuais (direcionando-os à ‘cura gay’) e de banheiros unissex, mas não estão nem aí com os desvalidos famintos. Passam o pano para os estupradores Robinho e Daniel Alves (ambos evangélicos) mas amaldiçoam meninas que querem tirar de seu corpo o fruto de uma violência sexual.

    Contam com o suporte da poderosa Frente Parlamentar Evangélica. Não há no Congresso corporações de católicos, espíritas, muçulmanos, judeus, budistas, umbandistas ou ateus. Tampouco, existe ‘bancada verde’, ‘bancada indígena’ ou ‘‘bancada antirracista’.  Mas tem a ‘Bancada da Bíblia’ que, ao lado da ‘Bancada do Boi’ e a ‘Bancada da Bala’, formam a famigerada tríade BBB, unidas em prol do atraso.

    Dispõem também do controle de meios de radiodifusão, obtendo concessões públicas que deveriam promover assuntos de interesse de toda a coletividade. Recentemente, perceberam maior eficácia nas redes sociais onde conseguem com baixos custos obter comportamento bovino da massa de fiéis. Os pastores dispõem de milhões de seguidores repassando-lhes fake news.

    Os evangélicos enfiam goela abaixo seus princípios morais a todos os brasileiros e brasileiras inclusive aos que professam outros credos. Ao contrário das outras religiões, boicotaram medidas de combate à COVID porque obstavam as aglomerações (e consequentemente a receita financeira).

    Na Amazônia, mantêm boas relações com desmatadores e garimpeiros ilegais, quase todos evangélicos (a quem enxergam como ‘empreendedores’). Querem ‘catequizar’ na marra índios e quilombolas, levando-lhes ‘a palavra de Deus’. É conhecida a virulência com que atacam o candomblé e as religiões de matriz africana que associam ao diabo.

    Alinham-se a governos de direita que desprezam os princípios da democracia e os direitos humanos a que associam ao comunismo. 

    Se com 30% já conseguem manipular o país, imagine o que farão quando se tornarem maioria! Sua intenção é claramente implantar uma teocracia, a República Evangélica do Brasil. Converta-se voluntariamente antes que seja obrigado a fazê-lo.

  • A eterna mania de estar pronta para reagir

    Ontem foi dia de esperar a chuva torrencial prometida pela meteorologia. Não fui ao Pilates, imagina ter que voltar ensopada para casa às 8h da manhã. Lá pelas 11h, olhei o céu da minha varanda, dia claro. Só nuvens fofinhas a decorar a paisagem. Mas decidi não fazer a caminhada diária, vai que o tempo muda de repente e a danada da chuva me pega desprevenida. 

    À noite, teria o aniversário de uma amiga querida e depois um show. Por volta das 19h30, ouvi umas trovoadas, depois vinte minutos de chuva forte com pingos grossos e o receio de passar sufoco para chegar nos eventos ou sair de lá. Botei o pijama e aguardei com paciência o dilúvio. 

    Enquanto observava o asfalto secar, senti uma admiração profunda por todos que apostaram na sorte. Pelos amigos que foram encontrar a aniversariante e pelos desconhecidos que curtiram a noite dançando no show.

    A vida sempre ensina: palavras, promessas e previsões o vento leva. A realidade é feita da aposta no agora. 

    Será que amanhã vai chover? 

    Não importa!

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