
Escaneie para comer
Fui almoçar com uma amiga. O garçom chegou sorridente, apontou um adesivo colado na mesa e disse:
— O cardápio está no QR Code.
Ela suspirou, sacou o celular da bolsa e começou a procurar o ícone da câmera. Fez uma cara de quem acabara de perder o apetite.
— Esqueci os óculos de leitura em casa. Esses cardápios parecem bula de antibiótico.
— Que saudade de um cardápio de papel. Bastava levantar os olhos.
— Esse peixe é bom?
— O risoto serve duas pessoas?
— A sobremesa é muito doce?
— Que saudade daquele cardápio já meio engordurado de tanto azeite.
— Sim, retruquei, folhear as páginas virou “scroll”.
— Em vez de escolher o almoço, parece que estou aceitando os termos de uso.
Lá no fundo da sala, o garçom observa inquieto, pois já deveríamos estar prontas para fazer o pedido.
Ele passa. Olha.
Passa de novo. Olha.
Já desistiu.
Foi atender outra mesa.
Minha amiga tentou aumentar um pouco a letra na tela e me perguntou:
— Já descobriu a seção de “Massas”? era a minha opção, mas ainda não achei aqui.
— Fecha a tela e escaneia de novo, sugeri. Que olhar no meu celular? Acho que já encontrei o que queria.
Quando a mesa ao lado já estava no café, perguntei:]
— E aí, amiga, já encontrou a seção de massas?
— Ainda não.
O garçom voltou.
— Posso ajudar?
Minha amiga respirou, aliviada.
— Finalmente.
— Onde fica o cardápio?
Na volta para casa, me peguei cantarolando Noel Rosa: “Seu garçom, faça o favor de me trazer depressa…”























