
Quem falou?
Há palavras e frases que, de tanto serem repetidas, acabam se esvaziando. Ou talvez já nasçam assim: sem sustentação.
Uma delas sempre me intriga.
— Descansou.
Não falo do descanso de um fim de semana, do fim do expediente ou das férias.
Falo daquele outro.
Morreu?
Coitado… descansou.
Morreu e descansou.
Sempre me pergunto: quem decidiu isso?
Quem garante que aquela pessoa estava cansada?
Talvez ainda tivesse planos, uma viagem marcada, um livro aberto sobre a mesa, alguém para reencontrar.
É claro que pode acontecer.
Há quem enfrente uma longa doença, um sofrimento sem alívio, um corpo exausto.
Mas também pode não ser assim.
Talvez estivesse cheia de vida, de projetos e de sonhos.
Ainda assim, dizemos que descansou.
Há muitas frases assim, que circulam de boca em boca sem jamais serem interrogadas.
“Foi Deus quem quis.”
“Era a hora.”
“Tudo acontece por uma razão.”
Expressões herdadas, repetidas quase por reflexo, apenas porque nos acostumamos a elas, chegando antes mesmo do pensamento.
Diante do que não sabemos explicar, criamos atalhos.
Ao não sabermos lidar com a perda, recorremos a fórmulas prontas e entregamos frases feitas, como se pudessem preencher o espaço que a ausência deixou.
Isso pode acontecer porque estamos assustados, porque a dor do outro também nos afeta ou simplesmente porque repetir é mais fácil do que refletir.
Em momentos difíceis, buscamos apoio nas palavras.
Ainda assim, surpreende que certas expressões atravessem gerações sem que nos perguntemos se ainda fazem sentido. Ou se fizeram um dia!
Podemos adotar despedidas mais verdadeiras.
Simplesmente um abraço.
Um olhar demorado.
Ou palavras simples, mas cheias de significado.
“Vou sentir falta dele.”
“Ela fará muita falta.”
“Não sei o que dizer.”
O abraço, o olhar, a companhia, o cuidado dizem muito mais do que as palavras conseguem dizer.
Alguém que prepare um café, ofereça um copo d’água, sente-se ao lado sem a obrigação de preencher o silêncio.
Gestos simples, quase invisíveis, mas que dizem: eu estou aqui.
Talvez o desejo de encontrar uma frase para suavizar a despedida não devesse superar a disposição de cuidar de quem ficou.
Diante da morte, o que consola raramente é o que dizemos.
É o que fazemos.























