Segunda-feira

  • 9ª Escola a Desfilar: Paraíso do Tuiuti – Lonã Ifá Lukumi

    “Ibarabô, agô lona/ Olukumí/ Iboru iboya ibosheshe/ Canta Tuiuti!”. Agô Ilé, início esse texto pedindo licença para comentar sobre o enredo da Paraiso da Tuiuti em 2026. Esses belos versos de um refrão em Iorubá que serão cantados pela escola na Sapucai, em 2026, revelam diversos aprendizados que fazem do carnaval uma festa necessária para o aprendizado.

    No Brasil. É muito comum a associação direta dos Orixás a todas as religiões de matriz africana. No entanto, o culto a essas divindades é uma característica partícular dos povos denominados Iorubás. Vamos conhecer um pouco dessa história?

    Quando Olodumaré. criador do mundo, soprou o Emi para que fosse criado, por Obatalá o primeiro ser humano, Orunmila tudo assistiu. Nesse momento, todos os seres foram conectados aos Orixás. Orunmila recebeu, de Olodumaré, a missão de ser porta-voz do oráculo de Ifá guiando a humanidade pelos bons caminhos.

    Após essa tarefa, Orunmila, na cidade de Ilé Ifé, transmitiu o conhecimento do oráculo de Ifá para os Babalaôs que aprenderam a decifrar suas mensagens.

    Então, foram eles os responsáveis por disseminar a mensagem do Ifá pelo mundo.

    Por meio da escravidão, essa tradição chegou ao continente americano, mais precisamente a ilha de Cuba, lugar onde os escravizados trabalharam em fazendas de cana e café e lutaram contra a injustiça da colonização.

    Foi nessa local onde o Ifá Cubano, também chamado de Santeria para fugir da perseguição, criou suas raízes e se transformou em um culto bastante popular na ilha até os dias de hoje. Essa popularidade chegou ao Brasil onde, conforme já mencionado, os Orixás são imediatamente ligados as religiões africanas, embora nem todas elas os cultuem.

    O enredo da Tuiuti é riquíssimo, fator que torna a missão de resumi-lo em um texto limitado do Instagram bastante ingrata. No entanto, só por esses detalhes fica claro que a escola vem com ricos ensinamentos. Ansioso para ver o desfile?

  • SUB VIDA

    A sobrinha perguntou para o tio no churrasco da família: ‘Quando você percebeu que estava fodido e não tinha mais volta?’

    O tio respondeu: ‘Desde cedo, nos anos 70, no primeiro dia na escola, aos quatro anos. Eu apenas não sabia expressar em palavras o que sentia, mas sabia que a jornada seria terrível desde aquele momento.’

    Sobrinha: ‘Qual era o sentimento?’

    Tio: ‘Era o sentimento de que a vida, da forma como era vivida pelas pessoas que eu conhecia, e pelo que via na televisão, não fazia sentido.’

    Sobrinha: ‘Por quê?’

    Tio: ‘Porque somos escravos e a maioria das pessoas é cega em relação a isso, e por medo e para defender uma falsa segurança, defendem a própria condição de escravos a qualquer custo.’
    Sobrinha: ‘Você já pensou em se suicidar?’

    Tio: ‘Sempre pensei que fosse melhor ir até o fim, só pra ver o que acontecia, porque de qualquer forma todo mundo morre no fim.’

    Sobrinha: ‘Eu penso a mesma coisa, só que na juventude já convivo com pandemia e guerra, e na sua juventude não havia nada disso.’

    Tio: ‘Mas você já nasceu com a internet, ela serve como escapismo. Na minha juventude a bizarrice era tanta que você pode imaginar apenas remotamente. Não havia nem mesmo o sentimento pela falta de algo que não existia, como a internet. Na minha juventude havia o medo da AIDS, o racismo era considerado normal, a guerra era em casa mesmo, pra decidir quem escolhia o canal de televisão a ser assistido. Na escola havia bullying, que nem tinha esse nome e era considerado normal, e as crianças eram deixadas ali para se matarem. Esses atos eram praticados sem que os autores sequer temessem o repúdio. Na minha juventude brasileira houve a ditadura, e depois o que se convencionou chamar de fim da ditadura, o que é uma falácia tão cretina quanto todas as mentiras que ouvimos de políticos até hoje. Mas hoje vocês tem a internet e ficam cada um na sua bolha, o que é terrível, mas antes não havia nem mesmo essa possibilidade. Na minha infância e juventude, os mais velhos ora diziam que a juventude deles era melhor, ora diziam que era pior. Isso variava de acordo com os interessem momentâneos dessas pessoas, que na maioria morreram. Os que sobraram estão aí pra você tirar suas próprias conclusões’.

    Sobrinha: ‘Por que você não tem filhos?’

    Tio: ‘Porque tenho uma mágoa enorme por ter nascido, e não faria o mesmo com outra pessoa. E também porque não tenho condições financeiras para isso. E sobretudo porque tenho essa convicção desde cedo, desde um tempo em que as pessoas mais velhas diziam que com o tempo, eu mudaria de idéia. E também porque seria questionado sobre coisas para as quais não tenho as respostas.’

    Sobrinha: ‘Mas eu gosto das respostas que você me dá!’

    Tio: ‘Mas é porque isso só nos encontramos de vez em quando.’

    Sobrinha: ‘Mas meu pai é obtuso e nem fala desses assuntos comigo!’

    Tio: ‘Não sei o que responder sobre isso. Ele deve achar que é errado falar sobre essas coisas.’
    Sobrinha: ‘Você tem fama de pegador. Por que nunca casou?’

    Tio: ‘As mulheres que mais me intrigavam eram as que me rejeitavam e desprezavam. Mas com a internet pude ver o que elas se tornaram, e se há algo pelo qual sou agradecido na vida, é o fato dessas pessoas terem me desprezado.’

    Sobrinha: ‘A sua namorada nem tinha nascido quando você fazia faculdade. Nunca vai casar com ela?’

    Tio: ‘A única razão pela qual ela me suporta é o fato de que ela pensa como eu em vários aspectos. Cada um na sua casa é melhor para nós.’

    Sobrinha: ‘Ela é rica, bonita e jovem. Por que você reclama tanto?’

    Tio: ‘Antes de conhece-la, eu já tinha décadas de uma bagagem que até hoje não sei ao certo como usar. Quando ela nasceu, eu era bem mais revoltado. Hoje em dia eu continuo odiando certas coisas, mas sei que nunca vou poder mudá-las. Continuarão existindo políticos, as pessoas continuarão saindo de casa em dia de eleição, e não apenas votarão nesses políticos, como farão propaganda não remunerada pra eles. Esse foi o primeiro exemplo que me ocorreu sobre coisas que continuo desprezando, mas que provavelmente não vão mudar enquanto houver humanidade.’

    Sobrinha: ‘Quais são as cinco melhores bandas de rock?’

    Tio: ‘Se você me perguntar a mesma coisa amanhã, ou se tivesse perguntado ontem, a resposta talvez fosse diferente. ‘

    Sobrinha: ‘Essa é a parte legal disso. Responda sem pensar muito!’

    Tio: ‘Kinks, Husker Dü, X Ray Spex, Jesus and Mary Chain e Big Star. Menções honrosas para Teenage Fanclub e Replecements.

    Então olharam ao redor. Um outro tio estava bêbado e escolhia só músicas ruins.

    Eles nem pediam mais para escolher as músicas.

     Só havia vergonha e constrangimento.

  • Errância

    Os parceiros musicais Mila Cox e Zími haviam conversado sobre adotarem ou não temas mais políticos em suas músicas.

    Para ela, as músicas tinham abordagem política, mesmo com letras minimalistas e sem serem panfletárias, mas sempre enfatizando, entre outras coisas, uma posição antifascista.

    Ela falou: “Não precisamos ser chatos como o Bono”.

    Mas para Zími, era preciso amplificar essa abordagem, pois estavam passando por um período perigoso e ameaçador, num país que nasceu de um projeto que podia ser chamado de proto-fascista, com invasão das terras e extermínio de uma civilização.

    A conversa se deu na volta de um show que fizeram como o duo Crop Circles numa festa junina em Catanduva que deu espaço para quatro bandas de rock, de diferentes subgêneros.

    Ele já tinha quase cinquenta anos e começou um outro dia praguejando sobre quanta merda uma pessoa tem que aguentar apenas para se manter viva.  

    Dessa vez a queixa era por conta de um pagamento não realizado por um trabalho que realizou como freelancer, como porteiro substituto num prédio residencial na Rua Aurora.

    Então enfiou a mão entre o assento e o encosto do sofá, onde havia dormido à noite.  

    Correu-a por ali e encontrou uma moeda de dez centavos, um pente e uma tampa de caneta.

    Logo tomou algum ânimo para procurar se atualizar um pouco sobre a situação do resto do mundo, através de fontes que ele confiava, para que isso melhorasse sua estima, pois isso o fazia lembrar que não tinha tantos motivos para lamúrias.

    Era estranho, mas em dias ruins, ele ganhava sobrevida ao se deparar com notícias tristes, outras trágicas e outras constrangedoras, lembrando que problemas do cotidiano são para todos, mesmo que em diferentes circunstâncias.

    Cada uma dessas notícias, um resultado crônico de repetidas ações que ele repudiava, idealizadas e comandadas por gente que ele também repudiava. Tudo isso seguido e praticado por um imenso rebanho humano cego, burro e passivo, desprovido de qualquer autonomia intelectual.

    Nativo de um país agora regredido ao agrarismo da soja, sob ameaça de fascismo, e com o planeta à beira de um colapso climático.

    Entendia a razão de poder ser considerado um fracassado, pois só seria vencedor no sistema excludente e perverso em que vive se não fosse a pessoa que é.  

    Apesar de estar cansado de lembrar que a falência do sistema é a origem de muitas mazelas humanas e saber que utopias não o tirariam daquela miséria existencial, sabia também que elas serviam ao menos para que não mandasse tudo às favas de uma vez, entrando propositadamente numa overdose letal.

    O sistema educacional estimula a todos que a ele tem acesso, a buscar por um tipo de vitória, que por questão de índole, nunca o estimulou.

    É necessário que haja milhares de derrotados para cada vencedor.

    Milhares de almas atormentadas com pensamentos suicidas que também se perguntam o porquê de tudo isso, apenas para adiar a morte, que levaria a um esquecimento absoluto, até para quem era próximo, e que provavelmente terá o mesmo destino.

    Isso tudo enquanto o que há de verdadeiramente heroico num ser humano é não pertencer a nenhum rebanho.

    Não há lugar algum para chegar, não ser a tumba, e para depois disso, talvez a distinção pós morte para aqueles que deixam na Terra algum legado que também não caia no esquecimento, caso de um entre milhares, sendo que muitos dos quais chegaram a sonhar com a tal vitória, buscada por uma fé cega que os moveu até lugar nenhum.

    Algo típico de quem é enganado durante muito tempo, e que tende a rejeitar qualquer prova de fraude, se desinteressando em descobrir a verdade, pois é doloroso reconhecer, ainda que para si mesmo, que fora enganado, às vezes por toda a vida.

    Pelo menos as manhãs não eram todas iguais, porque para ele também havia aquelas em que podia acordar calmo, com o apagamento das urgências, das angústias e dos receios de irrealização, resultado de alguma pequena vitória recente ou da própria insolubilidade de questões perturbadoras.  

    O dia anterior havia sido de derrota, com muito tempo na porta de um supermercado esperando pelo pagamento do freela, fumando e verificando a todo momento o aplicativo do banco do qual era cliente, para ver se finalmente o pagamento havia sido efetuado.

    Havia agora, na porta de qualquer mercado de toda a região central de São Paulo, um número cada dia maior de pessoas desesperadas de fome, pedindo algum tipo de ajuda, e olhadas com perplexidade e rancor pela maioria dos que ainda saiam de lá com sacolas de comida para levar para casa.

    Algumas dessas pessoas ainda são capazes de ostentar certos privilégios, em plena crise aguda numa terra sem deus nem lei.

    Sempre que ele saía de algum desses lugares depois de alguma compra, carregava com sua sacola de mantimentos um tipo de culpa bastante incômodo, ao ver tanta miséria.

    Nessas horas lembrava novamente do sistema, porque sabia que a miséria é culpa dele, e não de simples fracassos pessoais, como tanta gente está condicionada a acreditar.

    Foi obrigado a desistir da espera quando a bateria de seu celular vagabundo acabou, de tanto que verificava o aplicativo do banco à espera do dinheiro.  

    Então, voltou pra casa, abriu as bitucas de cigarro de sua lixeira e bolou o recheio delas em guardanapos de boteco, como se fossem baseados, e depois dormiu com fome.

    Nem mesmo esse tipo de perrengue era capaz de fazê-lo desistir de fazer esses bicos em vez de algum emprego com carteira assinada numa empresa que chama o empregado de “colaborador”, com longas jornadas de trabalho, baixa remuneração e assédio moral.

    Enquanto isso, Mila Cox apenas se lembrava da frase que ouviu dele certa vez, em que dizia ter se enganado apenas uma vez, ao pensar estar enganado sobre um tema menos importante que a conclusão tirada dele.

    Era um indício de que o problema dele não era falta de autoestima.

    E aquele dia seria bom para ele, que ao encontrá-la, sempre revive sua sociabilidade, tão comprometida por tempos de escassez de tempo e dinheiro, o que então lhe fazia ter que gastar energia, completando a tríade que tanto prezava, que era tempo, dinheiro e energia.

    Ela era muito mais jovem, e isso o levava, andando com ela, a fazer coisas que jamais faria sem sua influência.  

    Servia também, até certo ponto, como renovação no ânimo de viver.

    Sair de sua zona de “conforto” não era tão dramático para Zími, porque não havia ali, de fato, muito conforto.  

    Havia, sim, uma rotina razoavelmente previsível, até para se preparar com certa antecedência para a chegada de perrengues, que para ele, eram sempre financeiros.  

    Vivia sozinho num apartamento no centro da cidade, sendo um consumidor minimalista e praticante do desperdício zero.

    Já Cox tinha seus próprios problemas, e carregava bastante insatisfação, não exatamente pela vida que levava individualmente, mas pelas mazelas da conjuntura.

    Mas ainda era jovem o bastante para gritar um pouco mais, por causa do retrospecto de vida mais curto e por teoricamente ter mais tempo pela frente, para enfrentar desdobramentos malignos de eventuais tendências equivocadas dos dias atuais e anteriores.

    Tinha vinte e um anos, e apesar de ter um porte físico pequeno, era o tipo de pessoa que se reconhece de tão longe, quanto se possa enxergar, com o cabelo curto cuja cor era mudada quase semanalmente.

    Ela tem um Chevette Jeans 79 que chama atenção por onde passa, desde shows que faz pelo interior de São Paulo, até estacionamentos de supermercado.

    Quando questionada se era tímida ou premeditadamente antissocial, respondia que costumava conversar com quem realmente interessava, pois muitas pessoas hoje em dia vivem se sentindo insultadas, e quando não tem a resposta que querem ouvir, a tomam como uma afronta, e que a música a ajuda nessa questão, mesmo quando suas músicas geram dúvidas sobre o que realmente querem expressar.

    Estudava Letras e era uma copywriter freelancer, com ganhos sempre superiores aos de Zími, e mora com os pais numa boa casa na Penha.

    No atual momento, ambos apenas vivem, cada um à sua maneira, esperando o que há por vir para a humanidade, sem tanta esperança de dias melhores, mas com a certeza de que ainda não vimos nada em termos de tempos surreais, e que o pior ainda está por vir.

  • Na verdade, a verdade é Judicial

    Enquanto acordava comecei a pensar sobre uma palavra que tem sido bastante falada nesses últimos tempos, ou seja, “verdade”. O que seria verdade? Segundo o DICIO, essa palavra significa: “Que está em conformidade com os fatos ou com a realidade: as provas comprovavam a verdade sobre o crime”. Dada a significação, eu volto a perguntar: é possível dizer com precisão os fatos ou a realidade?

    Deixo esse primeiro parágrafo apenas como uma reflexão. Isso porque, nos últimos tempos estamos vivendo no mundo uma verdadeira disputa pelo que é verdadeiro. Acontecimentos históricos são reinterpretados de acordo com as ideologias de quem os conta. Dessa constatação, ganhou muito espaço o conceito de pós-verdade, que segundo o mesmo DICIO significa: “Contexto em que se desvaloriza a verdade objetiva, comprovada pelos fatos, aceitando qualquer discurso como correto”.

    Nesse sentido, será que existe verdade ou é tudo pós-verdade? Ou seja, será que é impossível chegar a uma versão verdadeira sobre um fato? Esse texto de perguntas e mais perguntas, no fundo, serve como uma mera reflexão, pois a intenção é dizer que se tem uma palavra cujo real significado ficou perdido, trata-se do termo “verdade”. Apesar disso, a busca por ela é uma constante na vida de todo o ser humano, seja qual ideologia ele segue.

    Por exemplo, o reconhecido pensador Walter Benjamin defende a ideia de “escovar a história a contrapelo”. Nesse sentido, diante da predominância da versão do vencedor sobre a do vencido, é importante que os historiadores se preocupem também em contar a história de quem perdeu. Esse autor faz pensar na perspectiva de um interessantíssimo ponto de vista. Agora, será que em um contexto de redes sociais podemos falar em um contexto de história do vencido e do perdedor?

    Quando eu falo isso, me refiro ao caráter extremamente plural das redes sociais. Até seu surgimento, muitas pessoas poderiam se sentir totalmente isoladas do que ocorre no mundo. Agora, com a possibilidade de conexão em escala global, até a pessoa com os hábitos socialmente mais esquisitos pode achar outras com quem se identifique. Em um contexto como esse, existe a possibilidade de existência de “múltiplas verdades”.

    Voltando ao conceito de verdade, para exemplificar, eu diria que ela, na realidade, não é definitiva, mas muito parecida com o objetivo de um processo judicial. Ou seja, nele partes opostas tentam provar seu ponto de vista sobre um fato trazendo provas que os favoreçam. Esses pontos de vista contarão com diversas figuras de apoio (advogados, promotores, testemunhas de defesa ou acusação, dentre outros). No final, tudo isso será decidido por um juiz que será o responsável por “estabelecer a verdade”.

    Como seria mágico se em nossas vidas tivesse um juiz que determinasse a verdade, não é mesmo? Dessa forma não precisaríamos nos preocupar e nem arrepiar os cabelos. Bastaria seguir o que o juiz determinou. Falou, está falado. Infelizmente, a vida não é assim, e sendo a verdade judicial (ou processual) é muito importante que estejamos sempre servindo como guardas ou vigias dela. Caso contrário, daqui a alguns anos estaremos sofrendo sérias consequências pela predominância de versões absurdas de fatos passados.

  • Poema #48: Instante de delírio

    Olho para o vazio
    de meus olhos.
    O espelho
    não reflete mais o amor,
    outrora visível.

    Imagens tão nítidas
    se me afloram perdidas
    na incongruência do vidro,
    uma vez descascada sua tinta
    prateada de reflexão.

    E agora as manhãs
    trazem o hálito da perda,
    do que fui e que no meu delírio
    se esgotou em fome.

    Não a fome dos homens
    do nordeste, biológica.
    Tampouco a fome dos homens
    civilizados, que inventaram a fome
    para dois terços do mundo.

    Mas fome ela mesma,
    que não se come e me digere.
    Não se alimenta e me fez assim
    um antropófago de mim.

    Fome que se reverte em morte
    e não me assusta, pois construí
    a vida a partir dela.

    Sou um desses seres que acreditam
    que na sombra se esconde a morte,
    e se perde a vida e se ganha a vida.

    A vida ganha com a morte
    não é metafísica.
    Por isso eu me mato a cada dia,
    consciente de que um vazio com outro
    não se compatibiliza.

    O Acaso das Manhãs

  • A lei do retorno

    Eu sempre tive implicância com a segunda-feira.

    Para mim, segunda era igual a prima chata que a família faz questão de enaltecer na sua frente, porque é obediente e comportada, ou aquele irmão mais velho que serve de referência para tudo o que você não faz direito, ou aquela amiga da escola muito boazinha, que por isso mesmo não servia como companhia para as aventuras da adolescência.

    Segunda sempre funcionou como aquela régua social que mede os procrastinadores, os menos abastados de disciplina e engajamento nos projetos de futuro.

    Eu realmente tinha pinimba com a coitada. Ficava na espreita só sacando seus defeitos e se, por ventura, não tivesse, eu inventava. Como a gente faz quando não gosta de alguém de cara, sabe?

    O abrir dos olhos no pós-domingo era batizado com o desabafo: maldita segunda-feira! Sempre chega para tirar o gosto do fim de semana. Parece pai na porta da festa antes da meia-noite. Trabalho que surge no final do expediente de sexta. Email de chefe cobrando relatório.

    O curioso era esbravejar essa reclamação para o universo, ainda que o final de semana fosse tedioso pela falta de ânimo para sair da cama.

    No final do domingo, aquele enjoo de véspera aumentava até chegar um certo refluxo no pensamento. Logo invadia aquela indisposição de existir, igual a gente sente quando chega visita em casa e não se estava esperando.

    Acontece que o tempo é um homem espirituoso, provocador, que gosta de fazer graça com as nossas convicções, e, pelo visto, tem um certo apreço pelos dias mais injustiçados.

    Só pode ser essa a explicação para o que vou contar aqui ou simplesmente sou a prova de que a lei do retorno existe e vocês foram as testemunhas escolhidas pelo destino.

    Há vinte e cinco anos, grávida do meu único filho, e na necessidade de realizar uma cesárea devido a quadro hipertensivo, fiz um único pedido ao obstetra: marque qualquer dia menos segunda-feira.

    Tudo certo, meu herdeiro de alma nasceria numa terça-feira, cinco de novembro.

    Assim seria, se o Senhor Tempo não estivesse disposto a vingar toda minha implicância com uma de suas filhas.

    Comecei com as contrações no domingo. Minha mãe, pela contagem das luas, alertava que havia chegado a hora. Eu rogava aos minutos que me deixassem alcançar a terça, que até de nome me parecia mais simpática.

    Nada feito, Bernardo nasceu em uma estonteante segunda-feira. Trouxe com ele uma advertência da vida em relação ao desperdício de cinco dias na espera de um sábado e meio domingo para ser feliz. Sim, porque depois do almoço, era só preguiça e angústia.

    Desde então, as segundas têm um gosto especial, um sabor de brigadeiro com refrigerante, um lançar de dados na esperança do seis, uma mensagem desejada no celular.

    Não tem como ignorar, o tempo é um piadista insistente e a vida uma mocinha muito surpreendente.

    Lembram que falei que vocês seriam testestemunhas de uma certa lei do retorno? Pois bem, acabo de nascer como cronista nesta segunda-feira ensolarada de paixão. Vocês são cúmplices dessa traquinagem jocosa do destino.

    Sou mãe e filha desse dia tão primoroso que deveria se chamar Primeira-feira.

    Quem diria que a donzela rejeitada passaria à condição de mulher amada.

    O mundo dá muitas voltas e, pelo visto, prefere as segundas-feiras.

  • Poema #44: Numa Janela do Mundo

    As nuvens tecem
    uma história diária
    e sem antecedentes.
    Não sei se pode
    chamar de trabalho
    (o trabalho das nuvens)
    o que parece ser mais
    um deslizar contínuo
    de um sonho que não
    se sabe a si mesmo
    e apenas escorre
    para um vazio profundo.

    Eu, que estou na janela,
    vejo as nuvens
    e não enxergo a razão
    de se estar a vê-las
    sem que se possa
    interferir ou sustar
    a sua indiferença.
    A vida humana é mesmo esse
    estar-sempre-dependurado
    a uma janela da inércia
    fechada para o infinito.

    Inventário de Sombras

  • Bichanos

    Larissa me pregou uma peça. Chegou em casa com uma gatinha filhote, embrulhada em sua camisa da malhação. Disse que a pobrezinha estava embaixo de seu carro, no centro da cidade, abandonada, que ela não poderia ficar assim. Logo rebati, mandando que levasse para doação. Larissa, com mil beijinhos e abraços – é assim que ela faz quando quer alguma coisa –, suplicou que ficássemos com a “neném”. Fiquei emburrado e desajeitado com a nova integrante, mas, aos poucos, coisa de horas, ganhou a minha afeição. Ela de fato é muito meiga e carente, está sempre nos meus pés, pedindo algo – penso que a ânsia da fome por que passou a deixa assim. Achei estranho que nos primeiros dias ela procurava um lugar para se esconder. Arranjou um esconderijo dentro do nosso guarda-roupas. Fez do lugar um ninho, literalmente. Um mês depois, já estava com a barriga por acolá. Meu Deus, entrei em pânico, a neném estava doente ou o quê? Levamos à veterinária, nossa amiga, a Sara. Assim que tocou na neném, disse que estava grávida. Que no primeiro cio teria engravidado! Ou seja, uma gravidez adolescente, complicada, no mínimo, pois não tinha mais do que seis meses de idade. Eu não queria bicho nenhum em casa e agora teria uma grande família de bichanos. Que horror! Como seria possível isso? Tivemos uma conversa séria, e disse à Larissa que a pequena teria os bebês, mas não ficaríamos com nenhum, iriam todos para a adoção. Larissa ainda implorou para que ficássemos com pelo menos um, para fazer companhia à neném. Não disse que sim nem não. Eu estava completamente alvoroçado com essa notícia, e não sabia agir diante de tamanha questão. Era, para mim, um grande desafio, já que teria criado, na adolescência, somente um cachorro, o Téo, que morreu com treze anos e deixou muita dor. Prometi a mim mesmo que não queria outro bicho, porque não tinha capacidade emocional para lidar com a situação, de alguma doença ou mesmo a morte. Fato é que, na verdade, só teríamos que esperar e ver no que ia dar. Fomos à veterinária no sábado, e a neném teve os bebês na segunda, sozinha. Chegamos em casa, e vimos cinco miúdos, lindos, parecendo uns ratinhos. Me empolguei e quis arranjar um lugar no nosso quarto para ela ficar. Aliás, separei o lugar que ela, a neném, já tinha escolhido. Larissa estava tão feliz quando um pinto no lixo. Mas não conseguia pegar as criaturinhas. Eu que seria, portanto, o intermediário entre a mãe e o mundo dos humanos. Os dias foram passando, e os bebês foram crescendo. Eu já repensava em doá-los. Mas claro que não dizia à Larissa. Com um mês e meio os lindinhos estavam prontos para a adoção e resolvemos, em conjunto, ficar com todos. Isso já faz dois anos. Temos maravilhosos seis gatos, que amamos muito. Cada um com sua personalidade, mas todos amáveis e carinhosos.

  • Na parede do banheiro

    Mila Cox estava filmando e gravando uma entrevista a que seu parceiro musical Zími estava sendo submetido.

    Estavam na sala do apartamento que dividiam no bairro da Liberdade.

    Eram cinco horas e sete minutos de uma tarde de chuva e São Paulo estava caótica.

    Notícias de alagamentos e quedas de árvores eram a tônica dos noticiários locais.

    Fazia tempo que não sentiam tanta satisfação por poderem trabalhar em casa e poderem ficar de boa quando as condições climáticas tornam a cidade inviável.

    Moravam no sexto andar de um prédio na Rua da Glória, e o barulho que vinha da rua durante os dias influenciava diretamente no som que faziam.

    A entrevista era para um universitário que foi ao show dos Crop Circles em Registro, no sábado anterior.

    Era parte de um trabalho para a faculdade de jornalismo que o jovem cursava, e tratava sobre música alternativa.

    Crop Circles é a banda formada por Mila Cox e Zími.

    Eles tinham piadas internas sobre quando eram chamados para entrevistas.

    Cox toca baixo e sintetizador, e Zími toca de pé um kit minimalista de bateria, como fazia Bobbie Gilespie nos primórdios do Jesus and Mary Chain.

    Os dois eram vocalistas, alternando as músicas em que cada um cantava.

    Eles pagam as contas trabalhando como copywriters.

    Nunca davam entrevistas juntos. 

    Mila Cox era quem geralmente atendia esses jovens.

    Dessa vez Zími aceitou falar, a pedido do universitário, porque no dia do show em que eles se conheceram, o jovem tentou uma aproximação com Mila Cox, e prontamente levou um toco.

    Agora ela estava acompanhando a conversa, porque sentia que seria necessário editar o resultado antes que o estudante o mandasse para o professor.

    À certa altura, já conversando pela webcam, o rapaz perguntou sobre a motivação de Zími para fazer música com uma parceira musical mais jovem.

    (Zími tem quarenta e oito anos, e Mila Cox tem vinte e três. O estudante que está entrevistando Zími tem dezenove.)

    A entrevista havia demorado alguns minutos para decolar, mas de repente, com aquela pergunta, o jeito que Zími se mexeu na cadeira, de frente para o computador, fez Mila Cox saber que naquele momento ele começaria um grande discurso, que logo se transformaria numa metralhadora verbal que poderia perder a linearidade e fugir do assunto a qualquer momento, caso sua raiva seguisse aumentando.

    Então, enquanto Cox já suspeitava de encenação, Zími começou a falar, quase exaltado:

    “Algumas pessoas podem pensar que há algum tipo de glamour a ser alcançado, mas isso não existe. É um trabalho sério, porque é a sua imagem entregue a um público, seja qual for seu tamanho. E se a internet serve muito bem pra divulgar a qualidade artística da pessoa, serve ainda mais para expor milhares de cretinos ao ridículo eterno. A minha vida melhorou depois que montamos essa banda. Melhorou inclusive financeiramente. Mas nós nunca lucramos com a banda. Eu estava bastante falido, e agora provavelmente sou um pobre premium. Provavelmente nunca pagaremos as contas tocando. A questão é que para que a banda pudesse existir, era preciso que eu mudasse de vida antes mesmo de ter uma música pronta pra lançar na internet sob o nome de uma banda. Estarmos vivos também é uma motivação fantástica. Nosso vizinho morreu na pandemia, ainda jovem, sem nunca ter bebido, fumado ou dado um teco. Eu reclamo muito, mas prezo demais pela vida. Tento aproveitar. Mas uma coisa que nunca conheci foi o que chamam de ‘zona de conforto’. As pessoas que podem fugir pra essa zona quando o negócio fica louco não vivem a mesma realidade que eu, e provavelmente a maioria das pessoas não conhecem de verdade essa área. Mas me surpreende que eu ouça tanto falar sobre isso.”

    Zími então fez uma pausa em sua fala, deu um trago no cigarro e soprou a fumaça mirando a tela do computador, diretamente na cara daquele jovem. 

    Estava imaginando que ele fosse criado pela avó, que tinha cabelo de algodão e fazia uma vitamina para ele tomar antes de ir para a escola. 

    Possivelmente teve babá até pouco tempo atrás, e talvez até motorista.

    Ele tinha o cabelo penteado e não podia confrontar as expectativas da família, e muito menos expectativas sociais mais abrangentes.

    Então, sem falar ainda, Zími fez uma careta ao imaginar que aquele cara deixava a cama desarrumada e cheia de farelo, e a encontraria arrumada quando voltasse.

    Ele vestia uma camiseta desbotada da banda Carniça de Bode, a mesma que usou no dia do show em Registro.

    Mila Cox sabia que ali Zími, quando voltasse a falar, responderia de uma só vez a todas as perguntas que o estudante poderia conceber, antes que ele perguntasse qualquer coisa novamente.

    E então Zími voltou a falar.

    “Quando montamos a banda, ela tinha dezoito anos e queria se tornar inesquecível. Eu tinha quarenta e três, e queria mesmo era ser esquecido, e viver do jeito que eu quisesse, muitas vezes pagando caro por escolher esse caminho. Para muito além do gosto musical, o que nos atraiu pra esse projeto de vida e de arte foi reconhecermos um no outro a completa impossibilidade de ser domesticado. Continuei vivendo do jeito que eu quero, embora continue insatisfeito com certas bizarrices , que lamentavelmente existem ou ocorrem independente da minha vontade. A sociedade já estava falida desde muito antes de eu nascer, eu sei que há coisas sobre as quais não temos controle, e que nunca vão mudar. Já tive bandas antes, uma delas antes de existir internet. Eu não tinha qualquer ilusão sobre encontrar glamour nessa atividade. E repito: O que deve haver é um propósito muito mais verdadeiro, porque sendo popular ou não, é a sua imagem que está ali, premeditadamente exposta. As bandas legais ficam soterradas pelo lixo de quem não tem a menor ideia do que está fazendo e nem ao menos gosta de arte. Hoje o perigo de fazer um papel ridículo e virar meme é, ou deveria ser, muito mais assustador do que um fracasso comercial. E para quem já tem algum legado, o esforço pra mantê-lo deve ser tão intenso quanto a vontade que se tinha pra emergir. Um legado pode se tornar algo tentador pra ser vendido, quando se quer resolver o setor financeiro da vida. No meu caso, esse sempre foi o setor que me causou depressão e desespero. A lida com algumas pessoas também pode ser um pesadelo, mas que muitas vezes pode ser remediado justamente pelo dinheiro. Comprando o conforto de um isolamento que só é rompido por quem desejamos.”

    Depois disso, combinaram que o universitário editaria a entrevista e enviaria para Zími e Cox, antes de mandar para o professor.

    Mila Cox falou para Zími:

    “Tem que aguentar mesmo. O cara é parte do nosso público. Talvez esteja logo na imprensa.Isso será editado a fim de cortar partes machistas, por exemplo. Toda semana tenho que conversar com um deles.Esse aí parece mais playboy, tem alguma coisa estranha nele que não gostei.”

    Zími falou:

    “Ainda bem que se aparecer alguém da imprensa mesmo é você que vai falar.”

    Ela respondeu:

    “Talvez com eles seja mais fácil e certamente a repercussão será melhor também.”

    Cox se levantou e foi fazer café.

    Zími então atentou novamente para o barulho que vinha da rua e foi olhar pela janela.

    Bateu o cheiro do café e ele ficou feliz, mas não só pelo café.

    Ele estava bem alcoólatra, e até os bêbados mais clássicos do bairro falavam isso para ele.

    À noite ele beberia com certeza, mas naquela hora ele queria café, porque ainda não estava tremendo.

    Ele achou que Mila Cox tinha sorte por beber pouco.

    No momento em que ela implicou com o universitário, ela bebia depois do show.

    Zími pensou em puxar esse assunto, mas Mila Cox era uma das pessoas que o alertava sobre o abuso de cachaça.

    Zími resolveu que beberia na padaria do outro lado da rua, que estava enchendo porque à noite haveria um jogo do campeonato brasileiro.

    Da padaria ele podia ver a janela de seu apartamento e isso era muito confortável para ele.

    Então, justamente ele, que praguejava horrores apenas por ouvir o termo ‘zona de conforto’, talvez estivesse descobrindo que a sua era a calçada da padaria, onde ficava bêbado e estaria perto de casa.

    Zími tomou banho e desceu. 

    O porteiro daquela noite em seu prédio era gente fina.

    Atravessou a rua, e na padaria ninguém parecia estar com medo de ingerir metanol.

    A alienação ali era tão completa, que Zími se sentia livre de qualquer culpa.

    Ele estava com a sua caderneta e no dia seguinte estaria entregando à Mila Cox a ideia de uma nova música, que ela concluiria.

  • Poema #39: House Of Dying

    Febre
    Sudorese
    Incontinências
    Vômitos
    Sitofobia
    Excesso de saliva
    Falta de ar
    Palidez
    Convulsões
    Feridas
    Gritos
    Roncos
    Fedor
    Espumas na boca
    Excesso de gás
    catinguento
    Dor no calcanhar
    e cansaço no mesmo.

    Uma pequena lista
    do que somos e
    ainda tem gente
    que se jacta.

    O Jardim Simultâneo

  • Cheiro de jaula

    Ainda era um pensionato aquela casa da rua Humaitá, onde Zími sempre parava na frente quando passava por ela, e ficava olhando durante a duração de um cigarro .

    Ele havia morado lá por alguns anos, atravessando o período da pandemia ali. Aquele lugar não havia sido a sua última moradia antes de dividir um apartamento com sua parceira musical Mila Cox.

    Ele alugou o quarto menor no apartamento de seu irmão mais novo, e ficou ali por seis meses. Era o prazo que tinha para tomar outro rumo.

    E então Mila Cox, que queria sair da casa em que morava com a mãe e a avó, no bairro da Penha, aceitou dividir um apartamento com Zími, num lugar mais perto do centro.

    Encontraram o lugar com melhor custo-benefício no bairro da Liberdade. Num domingo, Mila Cox estava de bicicleta, voltando da feira cultural do Bixiga, e parou na frente da pensão que Zími havia morado.

    Viu um casal que morava ali sair para a rua. O portão ficava destrancado, Não havia placa indicando que ali havia aluguel de quartos.

    Então ela entrou na casa e a conheceu parcialmente a parte de baixo por dentro. Havia ainda uma escada e um andar superior.

    Pela escada, logo apareceu um sujeito que era gerente, e ele mostrou a Cox um quarto que estava disponível. Depois mostrou-lhe o resto da casa.

    Os moradores ficaram curiosos com a presença de qualquer pessoa nova na casa dela. Abriram suas portas e a viram passar com o gerente.

    O cheiro que pairava nos corredores era uma mistura de xampú, maconha e incenso. Nos quartos em que moravam mulheres, havia mais ordem e limpeza, mas na maioria dos quartos, onde apenas moravam homens, havia quartos em ordem e outros degradados.

    Mas havia um quarto que tinha cheiro de jaula. Dois sujeitos dividiam o cômodo. Havia um deles que Mila Cox já tinha visto antes, e não estava lembrando de onde. O cara também a olhou como se já a tivesse visto.

    Antes de sair, Mila Cox perguntou ao gerente se ele conheceu Zími.

    O cara disse que sim, mas que nunca mais teve notícias desde que ele foi embora dali. Falou também que Zími dividia o espaço com um dos sujeitos que ainda morava no quarto com cheiro de jaula, o que esclarecia parcialmente a questão sobre como ela conhecera aquele cara.

    O gerente falava e a olhava embasbacado, quase intrigado com aquela figura tão cool. Quase baixinha, jovem, cabelo chanel vermelho, com franja, tatuada, e usando uma camiseta com estampa do álbum ‘No more heroes’, dos Stranglers.

    Tinha um olhar seco, sério e fulminante.

    O sujeito pensava sobre como ela conhecera Zími, se havia entre eles algum parentesco ou se havia outros motivos.

    A verdade é que antes de Mila Cox nascer, Zími foi colega de faculdade de Sara Cox, tia de Mila, e os dois ajudaram muito a moldar o gosto musical da garota.

    Zími e Sara se formaram em Jornalismo nos anos noventa. Depois, ela se mudou para a Inglaterra e ele seguiu uma jornada errante, da qual ele nunca se arrependeu.

    E agora Mila Cox pensava novamente sobre a podridão do universo masculino, ao mesmo tempo em que tentava imaginar o que aconteceria com o apartamento que dividia com Zími, caso ela tivesse que se ausentar por alguns dias.

    Cox saiu da pensão sem memorizar a fisionomia do cara que a atendeu, mas não esqueceu do cheiro de jaula até chegar em casa.

    Ela pegou a bicicleta e desceu da Bela Vista até a Liberdade. O caminho era de descida e ela chegou rápido.

    Subiu ao apartamento e ali estava Zími.

    Com ele estava Silvano, o vizinho uruguaio que morava na porta ao lado, que é multiinstrumentista e morava sozinho em seu apartamento.

    Silvano já morava naquele prédio muito antes de Mila Cox e Zími. Seu apartamento, embora não tivesse cheiro de jaula, não primava pela ordem.

    À essa altura, Mila Cox já entendia e partilhava dessa que era a razão em comum para quem resolve morar sozinho.

    E era muito simples. Poder fazer em casa o que não se fazia quando ainda se morava com a mãe. E provavelmente o que não faria depois, se a pessoa fosse casada.

    Zími e Silvano fumavam, bebiam a comiam no sofá.

    Ainda não estavam tão horrendamente bêbados. Nunca ficavam muito loucos antes que ela chegasse em casa.

    Ficavam mais bêbados só depois que ela soubesse antecipadamente que isso aconteceria inevitavelmente, quando era dia de folga das atividades que exerciam para pagar as contas, ou atividades musicais.

    E preferiam beber em casa, pois é mais barato que beber na rua.

    O assunto era música e Zími dizia: “Pelo menos três discos dos Beach Boys são ainda melhores que o Pet Sounds, e estão naquele período posterior a ele. Nesse bloco, entram o ‘Friends’, ‘Wild Honey’ e o espetacular ‘Surf’s Up’, que tem na faixa título a prova daquilo que estou querendo dizer. O ‘Holland’ também é muito bom. Depois veio aquela coletânea que só abrangia a primeira fase, sobre surf e carros, o que estigmatizou ainda mais a banda, depois da tentativa de fazer uma música muito mais abrangente nas temáticas. Foi uma tentativa muito bem sucedida, mas não comercialmente falando O que importa é que aqueles discos ficaram pra provar a relevância que deveriam ter também na época. Mas no fim dos anos sessenta e início dos anos setenta foram lançados tantos discos maravilhosos e as pessoas ainda associavam os Beach Boys à velha fórmula com que tiveram sucesso dez anos antes, falando de surf e carros.”

    Silvano queria fazer uma cover de Beach Boys.

    Zími falou: “Se é pra fazer cover, que seja como os Byrds fizeram com as músicas do Bob Dylan, dando uma roupagem diferente, recriando as músicas.”

    Quando ele falou essa frase, Mila Cox percebeu em sua voz, agora já um pouco pastosa, os primeiros sinais de embriaguez.

    Então ela falou: “Entrei na pensão que você morava, na Bela Vista.”

    Zími respondeu: “Nem posso imaginar o atual estado daquele lugar. Mas a época em que morei lá será mencionada no livro que estou escrevendo.”

    E o cara com quem você dividia o quarto?” – Mila Cox perguntou.

    “É o Elton, é baterista, tocou em várias bandas.”– Zími respondeu.

    Mila Cox: “Ele estava lá, e eu não lembrava de onde o conhecia. Na verdade não lembro ainda”

    Zími: “Foi num show em Catanduva, a banda dele tocou no mesmo evento. Na época ele era baterista de uma banda chamada ‘Quase’. O tempo em que morei lá com ele foi o pior momento da minha vida. Eu estava sem grana e dividi quarto pra baratear o aluguel. Dividir um quarto com quem quer que seja é inconcebível pra mim. Não sei quanto aos outros, e espero que façam o que quiserem com suas vidas, mas ter um quarto individual é essencial.”

    A pergunta seguinte de Mila Cox seria sobre o cheiro de jaula, mas ela preferiu deixar quieto naquele momento, já que Zími, de uma certa forma, já havia respondido.

    Antes de ter lembrado do cheiro de jaula e esperado pela oportunidade de falar sobre isso, Mila Cox pensou sobre sua antisociabilidade, já que tinha apenas vinte e um anos e também preferia beber em casa, independente da economia feita com a compra de bebidas no mercado.

    Eventualmente bebiam na padaria que havia no quarteirão onde moravam, quando o aluguel já estava pago e havia como gastar ali para beber.

    Mesmo sendo jovem, viu o declínio das competências linguísticas e intelectuais das pessoas, produto da falta de leitura e de referências culturais de qualidade.

    A qualidade humana, de uma maneira geral, parecia estar em declínio, principalmente pelo fato de tanta gente ter perdido a capacidade de pensar com a própria cabeça, ou mesmo nem ter desenvolvido essa capacidade ao longo da vida, o que resulta em vidas infelizes e a espera de uma recompensa póstuma. Essa é uma deixa para pastores e coachs picaretas lucrarem milhões. E a quantidade de charlatões não para de crescer.

    Então Mila Cox via aqueles dois sujeitos que só sociabilizavam realmente quando faziam shows. Quem realmente importava estava lá e havia diálogo.

    Nessas ocasiões havia amigos que eles não podiam encontrar sempre e mulheres que gostavam de rock.

    Por isso ela os compreendia. A diferença é que os dois já beiravam os cinquenta anos e ela tinha vinte e um.

    Ela já havia lido nos livros o que os filósofos dizem sobre não se misturar ao rebanho e sobre como é alarmante se ver ao lado da maioria, no que quer que seja. Zími era o baterista e eventual vocalista da banda Crop Circles, um duo formado por ele e Mila Cox, que além de tocar contrabaixo e sintetizadores, se revezava com Zími nos vocais. O mote da banda eram as angústias da existência e o som lembra o da banda Suicide. Quando se uniram para tocar, Zími já conhecia essa banda, mas Mila Cox, ainda não.

    Silvano era uma monobanda. Autodidata, Nos shows, ele tocava guitarra e fazia a parte de bateria minimalista de suas músicas no pedal.

    Eles e Zími diziam que Mila Cox era um prodígio em coisas que eles tanto prezavam, entre elas, buscar sempre frustrar as expectativas capacitacistas, higienistas, competivistas e produtivistas da asquerosa sociedade neoliberal em que vivem.

    Os três sabiam que qualquer solução ou revolução só pode realmente acontecer se for primeiramente pelo indivíduo, e talvez depois pela sociedade. Nunca pelo Estado.

    Eles sabiam também que o medo da opinião dos outros é a maior escravidão do mundo.

    Para ter paciência com a maioria das pessoas, lembravam que nem todo mundo é artista.

  • Poema #38: Em Brancas Nuvens

    Alguns dos meus
    poemas são como
    letras de música
    sem música.

    Alguns dos meus
    gestos são como
    atos de uma peça
    sem atores.

    Alguns dos meus
    sonhos são como
    um comício público
    sem plateia.

    Alguns dos meus
    atos são como
    um filme mudo
    sem cenário.

    Alguns dos meus
    delírios são como
    uma transgressão
    da vida no sonho.

    Muitas das minhas
    loucuras são como
    a minha própria
    vida & literatura,
    inéditas no final
    das contas.

    Inventário de Sombras
  • Poema #05: Não É Aqui, Mas Perto

    Estou debruçado
    sob a fagulha do instante.
    Me distorço enquanto crio
    a ilusão de um esboço para algo
    que sequer sei o quê.

    Ouso um salto, um pêndulo.
    Giro de cá e de lá.
    Laço-me à vertente de um vértice,
    dobro os olhares e os reviro, o sintoma.
    Tu, que me devoraste.

    A vertigem do hoje faz hora
    Há tempo…

    Apressa-te, que o passo é passado.
    Vagueia a tormenta, é futuro.
    Perdoa o vivido, é achado.
    Lamenta, já se fora perdido
    feito pássaro garrido,
    debatendo-se,
    sangrando,
    só,

    estilhaçado.

    Tomba-me a silhueta assombrosa.
    Insinuo que assim continuo.
    Pesa-me o pestanejo, pelos
    entulhos do mundo, filhos
    da moral errante,
    do tocante instrumento de voz,
    secularizado pelo silêncio
    nas penumbras
    corriqueiras, talhados em
    estantes.

    O momento que pulsa tenaz
    é fruto bastardo, pauso.
    Um entrave, acordo
    em um lapso constante.
    O retenho aguçado, assim apazigua-me a
    centelha, o bastante.

    Entrelaço
    um acorde dentre as
    frestas da forma.
    Cravo o risco em páginas

    onde clamo, se por forçosa a teima,
    que ouça o riso da peste
    que sofre, que sonha.

    Estão cansados os poetas.
    Aos retirados à pruma
    surte o rumo da crença.
    E quanto à verdade, meu pai..
    É certo que dela me esqueça
    perene, enquanto perdure
    o delíquio de vossas cabeças
    renques, trépidas de um senso
    cabal,
    diz-se amargo
    o careta.

    A estibordo este vórtice
    que me devora, que me devora..
    Sinuosa esta vida
    que me despoja o agora
    e que sopra, sopra…
    Mas se por dizer
    que escrever possa ser
    velejo,

    e se a vida for mar…
    Viver seja tornar o sopro forte
    E amar, amar bem depressa,
    pois querer vê-la, já
    é tocar
    o amor
    de toda a sorte.

  • Poema #06: Eco

    talvez uma nota só
    surge avulso na meia luz
    monótono feito o canto
    que se destina a embalar
    o teto o chão as paredes

    a coreografia do pó
    projeta no espaço em branco
    o sonho de não morrer
    o ritmo é a bolha que estoura
    no silêncio da distância

    rebate elástico o nó
    duelo que prende a resposta
    ao mesmo som da pergunta
    na teia da repetição
    a voz desafia o infinito

  • A Espera

    Esta reflexão não é sobre gramática ou semântica. Ela se refere à vida. Os tempos e movimentos do viver. Sobre esperar ou ficar em estado de espera. Estado de espera é o mesmo que esperar? É correta essa expressão? Não sei. Noto imediatismo na palavra esperar. A outra palavra me evoca serenidade.

    Sendo assim, em estado de espera, torço para que a minha percepção não seja um mero detalhe. Tenho observado uma espécie de urgência na vida. A idade e o tempo me deixam assim, às vezes curiosa, em outras confusas.

    Como todo ser humano eu vivi muitas esperas! Algumas vivo até hoje. Amar e ser amada, por exemplo. Enfim!

    Sinto que a espera mais significativa em minha vida, sem dúvida nenhuma, foi a gestação. O tempo marcado, o prazo, a expectativa, o medo, as adaptações, tudo! Foi uma espera intensa e envolta em muitas emoções.

    Da primeira infância percebo que não há muito a ser dito quanto ao assunto. Pudera! Pais, mães, avós e as pessoas todas ao redor, vivem em função de atender e não deixar faltar nada à criança, até mesmo antes de pedirem. Posso dizer então, que via de regra, crianças quase não sabem o que é esperar.

    Fiquei adolescente. Jovens inquietos ou apáticos e, com certeza, os campeões em espera. Questões importantes, incertezas, pressas. Qual profissão devo escolher? Poderei viajar com os colegas no feriado Será que eu sei beijar? Meu pai vai entender? Minha mãe ouviu? Quando? Onde? Com quem? Nós e nossas intermináveis filas de perguntas! Uma roda gigante de dúvidas! Eu vivi isso, com certeza, mas tenho memória fraca para “coisas” fortes, e além disso a forma intensa dessa fase gostosa e rápida da vida chamada adolescência, é a essência do estado de espera.

    Enquanto isso, os jovens adultos são reféns da espera. As dúvidas e perguntas podem se tornar um tormento e não um mero detalhe. Como adulta fui um turbilhão de urgências. Não soube e nem quis esperar. Adultos agem. Sentem-se autores da vida. Aprender, dominar, fazer, enfrentar, resolver, recuar, mandar… a vida tornou-se célere.

    Esperas deviam ser evitadas, o importante centrava-se em conseguir resultados imediatos. Perguntas, só se fossem a busca dos fatos, das realizações. Pensamos e agimos, como se não houvesse amanhã. Passadas as diversas fases do ser humano, chega o tempo daquela que é a mais estranha de todas as esperas. A espera do idoso.

    O embrião, o menino, o jovem e o adulto ficam no passado, tornam-se memórias. Os sonhos, dúvidas e realizações perdem a vez, quer tenham se realizado ou não. Na verdade, os recursos materiais e imateriais ganham outras nuances, nesta fase da vida.

    A idade avançada chegou. Sou idosa. Minhas derrotas ou alegrias não se tornaram um fardo. Dos objetivos da vida, a colheita material e imaterial está feita. A velhice é nova, e muitas vezes, afoita. Sendo assim, me obrigo a caminhar mais lentamente e com mais leveza. A pressa perdeu o sentido. Quem ganhou foram as folhas, os ventos, as flores. Contemplo.

    De forma consciente busco o que de melhor há em mim. Garimpo entre os vícios e virtudes, exercito a paciência, olho o outro, e como uma jóia rara eu exercito a arte de ouvir.

    Viver é para os fortes.
    Esperar é só um detalhe.
    Viva!


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