Crônicas

um outro sentido humano, não apenas sentimento

O vazio é um lugar insuportável: fede à ausência.

O vazio, cujo endereço é nômade (na pressa), é também essência humana — carrega-se como um caramujo.

O vazio como morada, cuja forma é o fazer nada.

O desespero da entrega que não afeta a vida do consumidor final.

Tanto se fazer por nada.

O suor total por um gesto que o mundo faz corriqueiramente: levar à boca e engolir, sem mastigar.

O vazio é o que se encontra quando já se leu demais.

Já fez demais.

Já deu demais.

E mesmo, ainda, depois de tanto, insiste.

O vazio é o resultado de sustentar uma imagem de força, quando se pede, aos 

mais próximos, por favor, um pouco de ajuda.

É o troféu dos fortes: ninguém leva a sério a fraca franqueza de quem é visto como forte, porque o vazio é um canto de sereia rouca — estabilidade em vertigem.

O vazio é ensurdecedor.

O vazio é pesado, é surdo, é cheio, é muito, é tanto.

É estática.

E dói — dói ancestral. Dói além. Dói de dói pungentemente, palavra retrógrada, não é mesmo?

Qual o problema em usá-la, se um dia fez sentido? Bonita, intensa, fora de moda. 

À palavra cabe o espaço em que repousam as outrora vitórias, agora normal[t]izadas como excesso — o mesmo espaço dos erros ortográficos: lápides em um cemitério de condecorações.

O vazio é um conjunto de excessos que ninguém quer mais.

O vazio é o lixo — todo o lixo — o fundo fétido do lixo.

O vazio é o que se encontra quando, após mil diferentes formas de se fazer estar presente — com amigos, familiares, relacionamentos profissionais —, se olha no espelho e se enxerga apenas as olheiras, a palidez, o opaco dos olhos, o silêncio.

O vazio sangra.

É onde estou agora.

Os dias amanhecem lindos, indecentes de tão lindos.

Permanecem lindos. Intocáveis, para mim.

Música alguma é capaz de alterar a dinâmica.

Todo e qualquer outro esforço, aqui, é dor e mais falta.

O alcance do vazio é uma frequência do 

tudo.

Sintonizá-la não é tarefa simplória.

No vazio não há oxigênio.

Atmosfera rarefeita, há luz demais quando se quer dormir.

A cabeça jamais pausa: desgasta o pouco de vida que resta tentando se calar.

Vida como incontinência urinária: constante e desagradável, dominadora e… desfeita.

Bia Mies

BIA MIES é carioca da Serra Fluminense, autointitula-se "do mundo" e reflete em sua escrita um olhar sensível sobre a vida do seu "entremeio": cada crônica torna-se uma interação entre o trivial e a reflexão poética, uma tapeçaria de influências e insights. Tece pontes entre arquitetura, urbanismo, artes visuais e cênicas, moda, leituras, cafés, viagens, família, amores, Zeca (seu fiel companheiro de quatro patas), amigos, Itália e "experiências dos usuários", área na qual atualmente se especializa. Cada percepção transforma-se em texto, numa busca exploratória de pensamentos e emoções, através de uma visão pessoal do cotidiano e do extraordinário. Celebra a beleza da imperfeição e convida o leitor a uma jornada introspectiva, onde cada palavra é cuidadosamente escolhida para ressoar e provocar. Como o sopro das vivências que se entrelaçam pelo seu caminho, Bia Mies homenageia quase duas décadas de exploração literária no Crônicas Cariocas.

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