Crônicas

A fome

Uma mão vasculha alguma coisa que se possa comer no meio do papel, do plástico…

Outra mão manuseia as teclas de um computador em um lugar distante e escreve este texto…

Alguns olhos procuram nas calçadas e nas caçambas de lixo um alimento qualquer…

Em uma esquina de uma grande cidade, outros olhos observam o espetáculo de luzes e imagens nos telões expostos na avenida.

Como podemos viver, ao mesmo tempo, tantos avanços tecnológicos e ainda presenciarmos a fome?

Carros elétricos, robôs, cirurgias a distância, redes sociais, mas há gente passando fome.

O ser humano já foi à lua (mesmo que haja gente que não acredite), mas não resolvemos a fome do outro.

O ser humano faz foguetes, pontes, edifícios gigantescos… Perfura o fundo dos oceanos em busca de petróleo, cria satélites e uma estação espacial, mas a fome, a fome de doer a barriga e tirar a dignidade, nunca é resolvida!

É sintomático perceber que a ganância e a perversidade vão construindo o painel do paradoxo: luxo e lixo, vida e morte, paz e guerra… Indissociáveis? Maquiavelicamente indissociáveis…

A fome desfigura as pessoas, tornando-as objetos das cidades. Estes seres, carregados de esquecimento, tristeza e fuligem, transitam pelas ruas atônitos, perdidos dentro da própria fome…

E sente fome a criança que equilibra bolas em um sinal.

E sente fome a mãe que não tem trabalho, mas precisa alimentar desesperadamente o seu filho.

E sentem fome centenas de milhares de homens sem nome, uma legião de espantalhos vivos espalhados pelo mundo…

Fazemos planos mirabolantes, erguemos cidades inteiras no meio do deserto, desenvolvemos mais e mais ferramentas para facilitar as demandas do dia a dia, mas a fome, bruta, pesada, palpável… a fome, continua…

Ao redor do globo, toneladas e toneladas de comida são jogadas fora.

A fome, implacável, escancara um mundo difuso e contraditório.

E esta crônica se encerra com o silêncio…

Campista Cabral

Campista Cabral, leitor assíduo dos portugueses Camões e Pessoa, do poetinha Vinícius, herdou deles o gosto pelo soneto. A condensação dos temas do cotidiano, assim como a reflexão sobre o fazer poético, parece procurar a sua existência empírica ou, nas palavras do poeta, um rosto perfeito, na estrutura do soneto. Admirador e também leitor obsessivo de Umberto Eco, Ítalo Calvino, José Cardoso Pires, Lobo Antunes, do mestre Machado de Assis e do moçambicano Mia Couto, retira dessas leituras o gosto pela metalinguagem, o prazer em trabalhar um espaço de discussão da criação literária em sua prosa. A palavra, a todo instante, é objeto base dos contos e das crônicas. A memória, o dia-a-dia, o amor, as sensações do mundo e os sentidos e significados da vida estão presos nos mistérios e assombros da palavra.

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