
A fome
Uma mão vasculha alguma coisa que se possa comer no meio do papel, do plástico…
Outra mão manuseia as teclas de um computador em um lugar distante e escreve este texto…
Alguns olhos procuram nas calçadas e nas caçambas de lixo um alimento qualquer…
Em uma esquina de uma grande cidade, outros olhos observam o espetáculo de luzes e imagens nos telões expostos na avenida.
Como podemos viver, ao mesmo tempo, tantos avanços tecnológicos e ainda presenciarmos a fome?
Carros elétricos, robôs, cirurgias a distância, redes sociais, mas há gente passando fome.
O ser humano já foi à lua (mesmo que haja gente que não acredite), mas não resolvemos a fome do outro.
O ser humano faz foguetes, pontes, edifícios gigantescos… Perfura o fundo dos oceanos em busca de petróleo, cria satélites e uma estação espacial, mas a fome, a fome de doer a barriga e tirar a dignidade, nunca é resolvida!
É sintomático perceber que a ganância e a perversidade vão construindo o painel do paradoxo: luxo e lixo, vida e morte, paz e guerra… Indissociáveis? Maquiavelicamente indissociáveis…
A fome desfigura as pessoas, tornando-as objetos das cidades. Estes seres, carregados de esquecimento, tristeza e fuligem, transitam pelas ruas atônitos, perdidos dentro da própria fome…
E sente fome a criança que equilibra bolas em um sinal.
E sente fome a mãe que não tem trabalho, mas precisa alimentar desesperadamente o seu filho.
E sentem fome centenas de milhares de homens sem nome, uma legião de espantalhos vivos espalhados pelo mundo…
Fazemos planos mirabolantes, erguemos cidades inteiras no meio do deserto, desenvolvemos mais e mais ferramentas para facilitar as demandas do dia a dia, mas a fome, bruta, pesada, palpável… a fome, continua…
Ao redor do globo, toneladas e toneladas de comida são jogadas fora.
A fome, implacável, escancara um mundo difuso e contraditório.
E esta crônica se encerra com o silêncio…













