
Acaso e correlações à brasileira
Não há o nostálgico soar do ‘tic tac’ de relógios analógicos, mas a tela mágica do meu notebook indica que já ultrapassa a meia-noite. Desato nós de uma miríade de tarefas quando um barulhinho agudo e oco ecoa por cima da lauda da peça teatral que em breve encenarei, em minha improvisada mesa de home office:
Uma joaninha.
O corpinho vermelho hesita em emergir por entre asas a se debater, incessantemente. As características pintas pretas estão lá, e eis uma joaninha dentro da minha casa, a pousar sobre os intrincados nós da minha vida presente! Que auspicioso!, reflito comigo mesma. O exíguo inseto caminha um tanto quanto tremelicante sobre o título do espetáculo, passa pelo meu nome artístico, assinado à caneta (como se eu fosse alguém de prestígio na vida) e desliza para fora dos papéis, alcançando a laminação melamínica da chapa de MDF, o improviso de uma superfície de trabalho. Acima, nas paredes com tinta desbotada pelo tempo, veem-se adesivados o cartaz do espetáculo vindouro, desenhos, rabiscos, várias anotações e medidas que, à primeira vista, não fazem sentido. O ventilador às minhas costas tenta assoprar para longe o calor deste ‘pré-verão’, que veremos, sem dúvida, muito mais forte na próxima estação. A primavera já anuncia sua partida, ela que é a mais bonita e majestosa de todos os quatro ciclos, e soma mais um ano à minha vida – 2023 tem se revelado, especialmente, um ano desafiador e habilidoso na criação de emaranhados labirintos.
Minha cabeça, que estava a mil há pouquíssimos segundos, reseta a si mesma enquanto observa o inseto — que cai por entre o espaço do MDF e da parede, e retorna, triunfante à marcação cênica iluminada pelos holofotes que são meus olhos.
Joaninha…, mas… Por quê?
Por qual motivo este minúsculo ser alado carrega o nome de uma dama? Fosse o início do ano, dirigiria a pergunta ao Google, mas temos o ChatGPT — que a esta hora se configura como uma das mais ilustres companhias, sem externar qualquer traço de cansaço; prontamente recebo um breve relato sobre a afinidade de São João e a dama sobre a minha mesa, Joana (peço desculpas pelo apelo ao vocativo, se o inseto em questão for do gênero masculino): geralmente a Coccinellidae aparece em 24 de junho, onomástico de São João Batista. Em outras culturas é ainda conhecida por “vaquinha de Deus” ou “vaca louca” — mais condizente com seu pouso em minha noite.
Vaca por conta das manchas/ pintas, sublinha o resumo. E ainda compartilha o nome científico de sua linhagem com outros artrópodes, a exemplo das “marias-fedidas”. E ainda assim é associada a um presságio positivo, vai entender. O fato é que, vermelha como a nova tendência nas passarelas milanesas, “Jo” velozmente se adequa ao layout dos meus dilemas, conferindo elegância à minha noite repleta de inquietações. O silêncio da madrugada amplifica cada movimento, tornando os passos desajeitados da pobre criatura ainda mais evidentes e perceptíveis.
Se a esta hora, em meio ao meu inferno astral, surpreendida sou pela visita de toda a sorte do mundo, bem…, é como acertar os números na loteria! Persigo os mais próximos, mais emblemáticos e percebo apenas letras. Construo uma lógica e uma contrária, e ainda outra que transforma o alfabeto em uma equação matemática. No entanto, passa da meia noite; a loteria federal sorteia aos sábados e quartas-feiras, já é domingo… Me resta o jogo do bicho, sorteio único domingueiro, na banca do Chico.
Hoje vai dar vaca na cabeça!
*Texto escrito originalmente em 12/11/2023 para o Crônicas Cariocas.













