Crônicas

Alô, alô, seu Chacrinha – aquele abraço!

Fevereiro começa no domingo, como quem abre as alegorias do descanso — esse mesmo que sonha com samba no pé e os zirigundús dos foliões. Janeiro já anunciava as entradas da folia, com blocos em teste espalhados pelas ruas do Rio de Janeiro

Tive a oportunidade de presenciar um deles na feira da Glória, quando assumi a tarefa de vender artigos culinários japoneses de primeiríssima linha, na barraca do meu grande amigo Shizuto e de sua família. Vale a pena conferir as comidas de rua do Japão — barraca 71, próxima ao portão da Lapa, na Praça Paris.

Outra ocasião foi num domingo em que me lancei à capital para celebrar o aniversário da minha afilhada Lulu, quatro aninhos. Unindo encontros familiares a agendas profissionais, estiquei meus dias no meu Rio de Janeiro. No domingo passado, encontrei a Marcela no Flamengo, onde, no Planalto, nos unimos às palmas de um parabéns com glitter, estandarte, sorrisos largos e corpos carnavalescos espalhados pelas calçadas.

Antes de retornar à minha serra, tomei café da manhã no quiosque Ginga, na praia do Leme — um ponto aberto 24 horas por dia. Algo inacreditavelmente maravilhoso para alguém cosmopolita e do mundo como eu, que se acostumou a não encontrar nada aberto depois das dez da noite, durante a semana. Domingo, então…

No aguardo de uma carona prevista para as nove, caminhei pelas areias de calça jeans, cruzando os limites com Copacabana. Ah, a princesinha do mar — que hoje verei novamente. E novamente a Glória, os agitos da Praça Paris, os corredores da maratona no Aterro, o bloco da Ivete no centro e a rotina dos moradores que circulam pelas redondezas: o cotidiano de quem sai cedo para montar barracas e vender até o fim da tarde.

Em meio ao percurso ainda escurecido da partida, me espanta o amanhecer da serra: a troca de azuis, o passar espaçado dos carros, a felicidade solta na voz dos amigos no carro. Nasceres e pores do sol sempre mexeram comigo de forma arrebatadora.

São sete da manhã. Vejo o Cristo da janela.

Da janela do carona, sobre a ponte Rio–Niterói, fecho esta primeira crônica brindando ao Rio de Janeiro, a fevereiro e a março. Algo do Rio ainda pulsa em mim — um pulsar que antecede o retorno e já carrega a saudade. Como se o caminho não fosse uma linha, mas um estado.

Talvez eu viva assim — é bem provável, eu diria: chegando ao que sou agora, partindo sempre de algo que me ensinou a ficar.

Bom dia, caro leitor!

Bia Mies

BIA MIES é carioca da Serra Fluminense, autointitula-se "do mundo" e reflete em sua escrita um olhar sensível sobre a vida do seu "entremeio": cada crônica torna-se uma interação entre o trivial e a reflexão poética, uma tapeçaria de influências e insights. Tece pontes entre arquitetura, urbanismo, artes visuais e cênicas, moda, leituras, cafés, viagens, família, amores, Zeca (seu fiel companheiro de quatro patas), amigos, Itália e "experiências dos usuários", área na qual atualmente se especializa. Cada percepção transforma-se em texto, numa busca exploratória de pensamentos e emoções, através de uma visão pessoal do cotidiano e do extraordinário. Celebra a beleza da imperfeição e convida o leitor a uma jornada introspectiva, onde cada palavra é cuidadosamente escolhida para ressoar e provocar. Como o sopro das vivências que se entrelaçam pelo seu caminho, Bia Mies homenageia quase duas décadas de exploração literária no Crônicas Cariocas.

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