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  • mar- 2025 -
    1 março

    Carnavais

    Admiro o carnaval. A espera, o frenesi, os preparos do corpo — regimes, bronzeamentos, fortalecimentos. A rotina dos exercícios e treinos; a dedicação da passista em horas e horas de ensaios; o tratamento e implante de cabelos, cílios e o que mais puderem. A entrega do ritmista, a criatividade dos sambistas, as costureiras e suas fábricas de fantasias e adereços. Tudo isso compõe esse evento grandioso. Vou falar… admiro mesmo! Mais do que isso: fico perplexa. O carnaval me causa espanto… ou será que sou eu a própria estranheza? Como assim, não ser apaixonada por essa festa impressionante? Ignorar essa extraordinária celebração? Não, isso não deve ser normal! Volto no tempo, na minha meninice. Quem sabe lá eu tenha me encantado com uma serpentina ou com um brilho de purpurina no rosto… talvez uma sapatilha dourada, um saquinho de confete. Vasculho minhas lembranças, tento encontrar um sinal, uma pista… talvez o barulho de um tambor, o gemido de uma cuíca, a luz e o brilho daquele que é considerado “o maior espetáculo da terra.” Que besteira! Fui criança de cidade do interior, onde os bailes de carnaval eram exclusividade dos associados. Ainda assim, talvez tenha me assustado com a irreverência …

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  • fev- 2025 -
    28 fevereiro

    Jogo contra jogo

    Era para ser xadrez. Um jogo elegante e íntimo. Como se as mentes por instantes se vaporizassem se entrelaçando no espaço entre os dois. Peças brancas e pretas, com dois reis impávidos e duas rainhas poderosas. Ao redor seus respectivos exércitos prontos para matar e morrer. Sem contudo faltar a admiração mútua, parte integrante da relação dos dois. Elegante. Mas de uma hora para outra vira pôquer. As rainhas e os reis permanecem mas as cores foram alteradas. Onde antes havia um par de monarcas agora existem quatro pares. As peças se transmutaram quase em sua totalidade em números, a exceção de mais uma figura humana. As três dimensões do xadrez foram trocadas pela bidimensionalidade do carteado. A tensão e o raciocínio do jogo aumentaram nos dois motivados pela competição. Antes havia observação e tentativa de entender as jogadas do outro. Agora instalou-se outra forma de raciocínio ditado pela sorte. Cada ação do passado, as cartas que se vão, ganha mais intensidade no presente como forma de prever o futuro. A capacidade de memorizar os descartes é fundamental para tentar prever o que ainda está por vir. Incontrolável. A sorte tomou lugar da ação consciente. Quase que instantaneamente vem a …

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  • 28 fevereiro

    Em torno de “Conclave”

    Recentemente assisti a “Conclave”, um dos candidatos ao Oscar 2025. O filme trata da escolha de um novo papa por cardeais de várias partes do mundo, como é próprio desse tipo de pleito, e chama a atenção pelas disputas que existem entre eles. Nesses embates transparece a diversidade de posições dentro da Igreja (basicamente, entre os progressistas e os retrógrados), mas sobretudo ressalta-se um traço que é peculiar aos seres humanos – a busca pelo poder. O filme me fez pensar em Antonio Carlos Villaça. Para quem não sabe, Villaça era um dos maiores conhecedores do pensamento católico no Brasil e no mundo. Conhecia a fundo a obra de pensadores como Bernanos, Léon Bloy, Tomás de Aquino, Jacques Maritain. Em seus escritos pulsa o dilema vivenciado pela intelectualidade católica brasileira ao longo do século passado, a qual se dividia entre a participação política e o recolhimento à vida espiritual. Alceu Amoroso Lima e Gustavo Corção eram os maiores representantes de cada uma dessas posições. Villaça foi um ser fronteiriço, viveu na zona do quase – quase padre secular, quase frade dominicano, quase monge beneditino e, no fim, escritor convicto. Se jamais foi tocado pela Graça, foi no entanto bafejado pelo …

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  • 27 fevereiro

    Persistir na presença solitária!

    Não há necessidade de esperar tanto tempo para cair na real, ou no chão, como ocorreu com o meteorito contrito ordinário, santa filomena, que se alojou em nosso planeta após vagar solitariamente por 4,5 bilhões de anos no deep space. Ao esculpir sua vida dura como pedra, não sonhe com o além túmulo por causa de uma saudade imensa de alguém que se foi, porque o indivíduo “morde e assopra” e deixa os que ficaram por aqui “pisando em ovos” com uma incômoda impressão de impotência. Por isso, viver com a expectativa que somente após a morte exista amor e felicidade, pode ser arriscado para seus projetos nesse plano de agora. Erros fazem parte da escrita inclusive dos gênios, muitas experiências boas nasceram após uma lista de modificações durante o percurso de uma jornada. Leonardo da Vinci, por exemplo, esculpiu Moisés com chifres, após ler na Bíblia os detalhes de como ele desceu da montanha. Leonardo foi vítima de uma tradução mal feita da Bíblia, escrita por São Jeronimo, que ao invés de escrever Karan sobre a descida de Moisés, que significa adornado por feixes de luz, escreveu Keren, cabeça adornada por chifres.  E assim, nós, comuns mortais, apreciamos a …

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  • 27 fevereiro

    UM SUJEITO PECULIAR

    Silas Arruda é um sujeito peculiar, do tipo que, vagando pela cidade dentro do ônibus, observa pela janela as pessoas que andam apressadas pela calçada e tenta encontrar seus olhos, adivinhar sua história, criar-lhes uma vida. Registra tudo com o olhar silencioso. Não conversa com ninguém, fechado nos próprios pensamentos. Na padaria, enquanto aguarda sua vez, fixa os olhos na vitrine cheia de pães e escolhe dois do fundo, aqueles que — ele acredita — ainda não foram tocados pelo atendente. Vai se sentir mais seguro quando, ao preparar seu lanche habitual, colocar na boca um produto sobre o qual ninguém pôs as mãos. No miolo estenderá três fatias de queijo e duas de presunto, sobras da noite anterior. Se ainda houver tomate na geladeira, cortará duas fatias pequenas e as colocará nas extremidades do pão, nunca no meio. O copo de leite com chocolate amargo em pó será o complemento líquido de sua refeição noturna e solitária, degustada na frente da televisão. Costuma passear pelo bairro à noite, depois que assiste ao jornal de notícias. Não se olha no espelho antes de sair. Também não leva guarda-chuva, mesmo que esteja chovendo. Prefere se esgueirar pelas marquises das lojas e …

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  • 25 fevereiro

    Ficar de repouso

    Desconheço três palavras do nosso idioma que, juntas, formam uma pequena sentença de morte. Em vida. Ela me assombra como uma prisão para maus comportamentos que parecem surgir até de vidas passadas. Um castigo para as travessuras, repouso para mim é inferno na terra e ainda me deixa de mau humor. Essa pequena frase que para muitos pode soar com um alívio no caos consegue me tirar totalmente do sério, apesar de serem necessárias, principalmente depois de uma cirurgia delicada que não foi exatamente como esperávamos. Ok. Mas para uma sagitariana com elemento “fogo no rabo” e ascendente em comichão, ficar de repouso é puro castigo. Com a mente inquieta e o corpo curioso, nada me deixa mais mal-humorada quanto não poder fazer qualquer coisa a toda e qualquer hora. Toda bobagem vira uma luta e as pequenas coisas se tornam um desafio de paciência que chegam a me dar nervoso. Inocentes vão dizer: aproveite esse tempo para ler e relaxar! Claro! Mas, e aquelas roupas no armário que teimam em se misturarem seguindo uma lógica que não é a minha? E as surpresas pela casa – em obra – que surgem apenas quando estamos por perto e incapacitadas de …

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  • 24 fevereiro

    #012 – ATÔMICO

    . Nossos filhos nascem cegospela poeira do nosso tempo.Nós ainda enxergamosporque já entendemos o mundoa partir da poeira que há nele,e que não nos incomoda muito.Areia (À Fragmentação da Pedra)

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  • 23 fevereiro

    Dilema

    Uma decisão da maior importância para uma mulher é qual o formato vai dar para o seu penteado. Primeiro porque ele é um cartão de visitas, a primeira coisa que as outras mulheres vão reparar e comentar. Ele diz muito a respeito do estilo da pessoa, demonstra o quanto ela está antenada com as tendências da moda, e, muitas vezes, dependendo do grau de maldade das amigas “intimas”, é uma pista sobre o tipo de salão que a pessoa frequenta, ou seja, um salão de primeira ou de segunda linha. Até aí, nada de novo. Outro dia, porém, me vi em frente ao espelho, cabelos molhados e uma decisão a tomar: “devo pentear o meu cabelo com as pontas viradas para fora ou para dentro?” falta esclarecer que se trata de um cabelo bastante liso, portanto esse detalhe das pontas é que dá o toque ao visual. Comecei a pensar que essa escolha não é somente estética; existe aí algo mais subjetivo que norteia o ímpeto de virar as pontas para dentro ou para fora. Passei a lembrar em que momentos decidi pelo estilo mais Channel, e aqueles em que a decisão pendeu para o mais esvoaçante, ajudada por algumas …

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  • 23 fevereiro

    Ilusões

    Surgem como uma pulsada, naquela subida de sangue que invade o cérebro, insufla as veias, tonteia, bambeia as pernas. Se fazem presentes no sonho desperto, no pensamento à toa, na dispersão do foco. Se estabelecem, prosperam. Na quentura do coração, fermentam. Levain que cresce a cada dia. Da própria farinha imaginária se alimentam. Regadas por nossos sonhos se multiplicam, se agigantam. Atingem seu auge, ocupam os vazios, preenchem, inebriam. Esplendor colorido de uma bola de chiclé sabor tutti-frutti. Pingue-pongue! A costura da vida alfineta, impiedosa. A esfera estala, murcha. Lá se vão as quimeras com que inflamos nosso balão de ilusões. Resta só uma goma indigesta que gruda na nossa cara, perplexa.

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  • 23 fevereiro

    UMA CRÔNICA PARA ANNE FRANK

    Olá Anne! Bem, eu imaginei diversas formas para começar esta crônica e, na verdade, creio que o melhor começo seja agradecer a sua resistência!   E eu começo com uma pergunta que você mesma faz: “…por que as pessoas não podem viver juntas em paz? Por que toda essa destruição?” O seu diário fez toda a diferença pra mim! O seu diário fez diferença para milhares de pessoas! É um sucesso em todos os lugares do mundo! Acredito que não há um lugar que não conheça a sua história! E, voltando às perguntas feitas, o ser humano, nas suas complexidades, frustrações e influências, age de maneira irracional, por vezes, busca a guerra… Como você observou muito bem, “há uma necessidade destrutiva nas pessoas, a necessidade de demonstrar fúria, de assassinar e matar. E até que toda a humanidade, sem exceção, passe por uma metamorfose, as guerras continuarão a ser declaradas…” Estou escrevendo esta crônica porque, infelizmente, mesmo passado tanto tempo da guerra que você viveu e conheceu, o mundo parece não aprender nunca. No tempo em que estou, bem distante da Europa de Hitler, ainda vivemos com guerras. Pior, os homens maus nunca desistem do poder. Os homens maus não …

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  • 22 fevereiro

    Viagem no Tempo

    13 de fevereiro é o Dia do Rádio. Aquele que já foi essencial nas casas das famílias, por mais simples que fossem. O pai ouvia as notícias através da Voz do Brasil. A mãe encantava-se com as vozes dos heróis e heroínas das novelas de rádio. Ah, Albertinho Limonta, como você pôde renegar seu filho em O Direito de Nascer? E as mocinhas sonhadoras? Encantavam-se com as músicas apaixonadas dos cantores que se tornavam ídolos da juventude: “Quero beijar-te as mãos, minha queridaÉs o maior enlevo da minha vida.” O rádio era um passaporte para outros mundos e, ao mesmo tempo, reunia a família ao redor de suas ondas sonoras. Juntos, apreciavam a música, vibravam com partidas esportivas e acompanhavam programas de entretenimento. Ah, e não se perdia o horóscopo! Na sala de casa, ocupava um lugar de destaque, e os locutores de rádio tornavam-se quase membros da família, de tão conhecidos que eram. O próprio aparelho era um símbolo de status. Famílias mais abastadas das décadas de 70 e 80 passaram a ter o rádio vitrola em suas salas e, posteriormente, o famoso três em um, o auge da ostentação. Com o tempo, o rádio perdeu seu trono na sala de …

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  • 22 fevereiro

    URUGUAI

    “Pobres no son los que tienen poco. Pobres son los que quieren mucho” (José Mujica) Tivemos há pouco eleições no Uruguai. O país esteve em tal clima de tranquilidade que nem parece que se disputava a troca de comando. Sem turbulências, sem ameaças de rupturas, sem contestação de resultado das urnas. Ganhou a esquerda. Ganhasse a direita, as coisas não seriam muito diferentes. Aliás, o revezamento do poder parece ser o combustível que mantém acesa a democracia por lá. O presidente Lacalle Pou não conseguiu eleger seu sucessor. Nem por isso fugiu para Miami, tramou golpe militar ou insuflou seus apoiadores a ocupar a Plaza Independencia, onde fica a sede da presidência. Civilizadamente parabenizou o vencedor e vai passar a faixa respeitando o ritual democrático, que há 4 décadas tem-se repetido religiosamente de 5 em 5 anos. E a vida segue pulsando nesse estranho e admirável país em que, ao contrário do que acontece em certas repúblicas bananeiras, a direita e a esquerda são civilizadas e têm em comum o respeito às instituições que está acima de suas circunstanciais divergências ideológicas e que fazem do país um exemplo de estabilidade. Os militares, depois que foram chutados do poder em 1985, …

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  • 22 fevereiro

    O agora é o antídoto da frustração

    Telma acordou cedo para cumprir tudo que havia programado: passear com seu cachorro, ir ao pilates, mercado, banco. À tarde pegar a roupa na costureira e depois tomar um café com Silvia, sua amiga de infância.  À medida que realizava o seu cronograma, experimentava aquela alegria fagueira dos que honram as promessas feitas para si mesmo.  Telma se encaminhou para o ponto de ônibus embalada pela leveza de não cair nos cambalachos da procrastinação. Tudo resolvido. Tudo pronto. Tudo perfeito. Mal podia acreditar que em trinta minutos estaria com sua amiga de uma vida inteira. Quanto tempo… quanta saudade.  Acostumada a dar vazão às emoções, embora sua mãe chamasse isso de ansiedade, enviou um áudio para Silvia declarando sua felicidade com o reencontro que estava para acontecer.  — Silvinha, já estou chegando. Tô doida pra te ver. Te amo, amiga! Silvia ouviu a mensagem aliviada por não ter desmarcado o encontro com Telma, embora ainda estivesse um pouco indisposta. Pensou em responder, mas estava atrasada, deixou para falar pessoalmente. Queria chegar logo e abraçá-la como nos velhos tempos.  Na saída de casa, a dor aumentou. Foram três passos e mais nada.  Telma jamais saberá o quanto sua amiga desejou revê-la.  Silvia tinha planos para um futuro que …

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  • 21 fevereiro

    O CACHORRO ENCADERNADO

    Tenho uma relação antiga com o livro. E feliz. Eu acredito que ninguém é obrigado a ler tudo. O básico de cada um é o resultado de suas predileções e inclinações. Momentâneas ou não, ditadas por tantas coisas que reúnem um pouco de tudo que se chama você. Mutante por natureza, esponja que absorve e que despeja os excessos pelo caminho. O olhar muda com o tempo porque é forjado por nossa maturidade. Não ter idade para ler alguém é uma verdade, mesmo que incomode nossa vaidade intelectual. Acontece. As vezes você retorna ao livro mais adiante na sua vida. As vezes ele desaparece pelo caminho. Nossa estante de livros, a metafórica quero dizer, não é melhor nem pior do que a dos outros. São nossas escolhas, sem competir com ninguém. Na adolescência uns amigos se tornaram fãs do J.R.R. Tolkien e sua saga “O Senhor dos Anéis”. Eu descobrira Garcia Marques a partir de “Cem anos de solidão”. Nossos caminhos literários não se cruzavam. Eles insistiam em me dizer que eu não sabia o que estava perdendo por não conhecer a Terra Média. Lá em Macondo eu balançava minha rede e suspirava. Influências externas podem te empurrar na direção …

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  • 21 fevereiro

    Errata celeste

    Os que acreditam na influência dos astros em suas vidas devem ter ficado chateados com Parke Kunkle, professor de uma instituição americana. Segundo ele, “está errada a interpretação dos movimentos celestes usada pela astrologia para determinar os signos de acordo com a data do nascimento das pessoas”. Isso porque os mapas astrológicos, produzidos 3.000 anos atrás, estariam há muito defasados. Com a mudança no posicionamento do eixo da Terra, uma pessoa que se imaginava capricorniana, por exemplo, é na verdade de Sagitário. Um suposto taurino, como eu, pertence ao signo de Áries.   Sem querer ser presunçoso, confesso que no íntimo eu desconfiava disso. Sentia certo descompasso entre o meu modo de ser e o desenho do meu signo, que me colocava sob a égide de um touro (bicho grosso e intratável), quando em minha alma pasta um cordato carneirinho. Não exagero se disser que essa foi uma das razões para eu nunca ter dado muita importância aos astrólogos. Sempre confiei mais nos genes e na força das circunstâncias.  Imagino a confusão que esse quiproquó planetário está causando na cabeça daqueles que programam suas vidas conforme o alinhamento da Terra em relação às estrelas. Eles têm na cartografia celeste um …

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  • 20 fevereiro

    Porque a escola não é só a classe!

    O neurocientista Miguel Nicolelis publicou o livro “O verdadeiro criador de tudo”, onde tratou sobre aquilo que são as criações do cérebro humano (dinheiro, religião, ideologia, entre outras).  Esse órgão que deveria ser o centro do universo, desenhou nossa existência e se mantém evoluindo num caminho adverso e sem volta.  Como não somos máquinas ou sistemas digitais, nosso sistema nervoso opera em um estado analógico muito oposto ao digital.  Algumas pessoas acreditam que podemos aproximar nosso cérebro dos sistemas digitais, mas nunca chegaremos ao ponto ideal, porque a inteligência é uma propriedade de um sistema orgânico, que não foi construído, mas evoluiu em relação ao ambiente e durante o contato com outros membros de sua espécie.  Não há nada de inteligente na inteligência artificial, ela é um imenso amontoado de memória que opera através de estatística, e não cria nada, é um grande golpe de “marketing” para o mundo.  Os neurocientistas já sabem disso, porque em seu meio científico todos entendem que isso é balela.  Porém, essa imersão na lógica digital está alterando fisicamente e funcionalmente a forma do cérebro operar.  Na Universidade de Helsinki, os finlandeses estão revertendo o uso de computadores em sala de aula, porque descobriram que …

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  • 20 fevereiro

    Carmen, a faxineira prática

    Os familiares da morta explicam que querem a casa limpa o mais breve possível, já há um comprador interessado. O imóvel precisa virar dinheiro logo e ser dividido entre eles. Perguntam a Carmen se não tem medo de entrar sozinha na residência de uma defunta. Ela responde que deixou o medo lá na terra dela, depois da chacina que matou seu pai e seus irmãos. Que necessita trabalhar, que trabalha desde criança e que não escolhe serviço. Que gente morta não faz mal a ninguém, só gente viva. Que faxina é faxina, não tem segredo nenhum, é só deixar limpo o que está sujo e pronto. Que pede a Deus para nunca lhe faltar trabalho, seja em casa de vivo ou de morto, tanto faz. Que, brinca ela, um leproso nunca reclama de uma ou duas feridas a mais num corpo todo cheio de chagas. Carmen não se mostra disposta a alongar a conversa fiada e trata logo de combinar dia, horário e pagamento para fazer o trabalho. Informa que levará o próprio material de limpeza. Dizem para voltar no dia seguinte, às dez horas. Carmen gira na fechadura a chave que lhe deram, empurra a porta de madeira escura …

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  • 19 fevereiro

    Sobre quando os negócios vão bem (ou nem tanto)

    Não é novidade para ninguém: a Burrice está em alta. Tão em alta como nunca antes. Embora existam os alienados que afirmem o contrário, nenhum argumento contorna a verdade, mesmo sendo complexo e recheado de palavras bonitas, técnicas e pomposas. E a verdade é que a Burrice cresce rápido. E é moda. Correndo sério risco de extinção, a Inteligência tem se escondido nas vielas pouco movimentadas e andado, quando necessário, camuflada na multidão, de cabeça coberta e passos ligeiros, se esguelhando entre um e outro, sem dar chances para o azar nem cogitar paradinhas despreocupadas em frente às chamativas vitrines que ornam a realidade. Não tem sido fácil a sua jornada. A morada da Inteligência é desconhecida há muito. Ao que tudo indica, nas últimas duas ou três décadas fez seguidas mudanças. Talvez tenha incorporado uma veia um tanto desbravadora e passou a buscar novos horizontes de tempos em tempos, talvez tenha se enfastiado ou assustado com a evolução da concorrente, optando pela reclusão. A concorrente, de fato, decolou. Diferente de alguns analistas mais afobados, não acho que seu crescimento foi abrupto, tampouco acredito que tenha sido por acaso. Minha teoria defende a evidência de um planejamento milimétrico e execução …

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  • 17 fevereiro

    #011 – Quando acordei do coma parece que entrei num pesadelo

    Quando acordei do comaeu já não tinha maisa mobilidade de antes.Olhei para as paredesde vidro do isolamentoe já não tinha a mesma visãode antesa mesma audiçãode antes. O mundo parecia ser outro. Perna e braço direitosestavam paralisados,dormentes e um sonode letargia na noitefria com pedras de gelono peito, do ladoesquerdo, assim penso. O mundo já não era o mesmo. Dois dedos do pé esquerdohaviam sido afetadose minhas afeições epercepções já não eramas mesmas. Fúria denão ter sido antes. Minha intimidadee meus defeitos haviamsido expostos comoescaras do tempo. Nunca mais quis tirar fotografias. Havia um corpo estranhono meu corpo fragilizadoe uma tela no estômagode baixo para cima eu haviasido atingido por um golpedo destino e várias cirurgias. Não tinha mais condiçõessuficientes para podertrabalhar, sobrevivere tive que dependerde apoio, de cestas básicasda vida como um doentea quem falta alguma coragem. Remédios para a goela grande das farmácias. Acordei como quem entra no pesadeloe já não podia sonhar acordado ou dentrode uma noite normal e previsível.O eixo de tudo continuava gastocomo o eixo do mundo, ANTES. Da Essencialidade da Água

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  • 16 fevereiro

    Chapéu revelador

    Gosto muito de usar chapéus, tanto no verão como no inverno, mas nunca me preocupei em destrinchar o significado dessa minha predileção. Depois do evento em que Melania Trump apareceu com um chapéu cobrindo os olhos e gerou uma série de interpretações sobre o significado dessa escolha, passei a pensar um pouco mais sobre o assunto. Se for analisar esse meu gosto por cobrir a cabeça sob um ponto de vista racional, os chapéus de feltro que adoto no inverno pretendem agasalhar a cabeça, sem colocar aqueles gorros de lã que me deixam com o visual de um gnomo velho. Já as peças de verão são plenamente justificadas pela proteção da pele do rosto. Por ser muito clara e ter um fator genético envolvido, mesmo com a proteção de um filtro solar potente, não tem como evitar os spots marrons que a velhice só faz ressaltar. E o que mais estaria por trás desse encantamento meu com chapéus? Achei interessante pesquisar o que se falou sobre o chapéu da primeira-dama e daí puxar o fio da meada. Descobri que o estilo de chapéu de palha de lã adotado, com as abas obscurecendo quase totalmente os olhos, foi projetado pelo chapeleiro …

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  • 16 fevereiro

    A magia nos persegue (Ou será o contrário?)

    Alguns de nossos antepassados adoravam o sol, outros atribuíam almas a objetos inanimados. Se você acha que está muito acima disso, é melhor pensar duas vezes: o pensamento mágico nunca saiu de moda. A tecnologia muda cada vez mais depressa, mas a natureza humana muda lentamente – se é que muda. Afirmamos que o verdadeiro poder está na fé, no entanto insistimos em dialogar com símbolos. Conversamos com medalhinhas e imagens mesmo sabendo não passam de artefatos comuns. Não parece ser muito diferente de falar com pedras sagradas ou escutar espíritos de lobos. Suponho que, a não ser em filmes de ficção, não mais se imolem carneiros, porém continuamos fazendo oferendas aos deuses em forma de votos e promessas. Prometemos sacrifícios, rezamos terços, lançamos flores ao mar, damos pão aos pobres em nome de Santo Antônio. Outras culturas fazem de outros jeitos, mas a ideia é a mesma. Rimos quando nos falam em sereias e duendes, mas acreditamos em anjos protetores. Em situações extremas vale tudo: recorremos a curas milagrosas e a medicações que nos dizem ser boas para isto ou aquilo. Ansiamos por fórmulas mágicas que nos farão emagrecer sem esforço e sem abrir mão do chocolate. Cultivamos superstições. …

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  • 16 fevereiro

    O BALÃO E O MENINO

    Esta é a história de um menino. Não sei o seu nome. Entre tantos meninos que vivem nas ruas, embrulhados pela fumaça dos carros, continuam caminhando. Um menino, um sonho e algumas palavras. Esse menino sonhava com um balão, mas não um balão qualquer, um balão comum. Um balão que revelasse o tamanho do mundo, que mostrasse, do alto das nuvens, a paisagem perfeita. E tudo poderia ver e sentir e imaginar. Um balão que levasse toda a tristeza embora. Balão no céu, balão no ar. Céu azul, céu quase azul. Confundindo-se com o mar… Sonhava o menino com fúria, com vontade e se achava solto no tempo, voando atrás do balão, atravessando o céu. Grito estridente de um vendedor ambulante, buzinas ecoam… Com esforço e movimentos repetidos, o menino manobrava a carroça de papel para não ser atropelado. Tudo o que tinha era uma carroça que carregava todos os dias: papel, papelão, papelote. Assim era a vida. Muitos papéis. A vida inteira. Uma senhora de expressão fechada e casaco marrom reclama com o policial. Um carro passa. Pessoas passam. A vida passa. O menino sonha com um balão, mas não um balão qualquer. Nunca o deixaria. O sonho era …

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  • 15 fevereiro

    MARCHINHA

    “O teu cabelo não nega, mulata, porque és mulata na cor. Mas como a cor não pega, mulata, mulata, eu quero o teu amor” (Lamartine Babo, Irmãos Valença) A marchinha de Carnaval faz parte da história da música brasileira e, por mais surpreendente que pareça, é mais antiga que o samba. Quando Donga registrou sua composição “Pelo Telefone”, oficialmente considerado o primeiro samba da história, a marchinha “Ô Abre Alas” (de 1899), de autoria da maestrina Chiquinha Gonzaga, já contava com 17 anos de idade! A partir de 1920, o ritmo reinou absoluto no Carnaval por quatro décadas. Apenas a partir da década de 1960 foi destituído nos desfiles das escolas de samba pelo samba-enredo. Mais recentemente, perdeu espaço também nos blocos de rua para o axé e canções descartáveis que mal duram até a próxima estação. Permanece, todavia, com suas letras insolentes, divertidas e de fácil memorização, na lembrança de todos. Traduz o espírito brincalhão do nosso povo. “A marchinha é um gênero marcado pela crônica de época e pela malícia”, diz o musicólogo Ricardo Cravo Albin, autor do famoso dicionário musical que leva seu nome. Devido a suas características desaforadas, as marchinhas passaram a ser alvo da intolerância …

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  • 15 fevereiro

    A Pauta

    A pauta está em alta. E, por favor, caros leitores, puxem bem o L para não parecer que estou fazendo uma rima… Hoje, a frase da moda é: “Essa é a pauta” ou “Não é essa a pauta?” Os adjetivos, substantivos e tudo o mais que aprendemos nas aulas gramaticais estão praticamente reduzidos a frases e expressões prontas. As conversas estão fora de moda? Longas e gostosas conversas, em que há respeito aos pontos de vista divergentes; em que seja possível discordar sem que o outro entenda isso como agressão; diálogos com escuta atenta, perguntas e respostas sem sarcasmo ou ironia. As pessoas parecem estar desacostumadas ao antigo costume de trocar ideias ou mesmo “jogar conversa fora”. Ao contrário, o novo normal é o destempero, o cancelamento, as indiretas e, principalmente, a exposição ao mundo virtual antes de qualquer tentativa de conversa. O que antes era tratado entre quatro paredes — traições, términos de relacionamentos, cenas de ciúmes, mal-entendidos — está ali, “na rua” da internet, pronto para receber likes, na busca por sensações de sucesso ou aprovação. Reconhecer o valor do diálogo, das conversas profundas, dos bate-papos leves, não nos apequena — ao contrário. Antes que me digam “Vamos encerrar logo com …

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  • 15 fevereiro

    Sobre não saber

    Chegou a hora de escolher o esmalte a ser usado amanhã para o ensaio técnico da minha escola de samba, a verde e branco, Imperatriz Leopoldinense. Parece uma questão tosca, sem relevância social, mas para mim não é. Imagino, inclusive, que para vocês, leitores, seja uma situação desprezível, o que não diminui o poder de impacto da maldita dúvida no meu dia: verde-claro com glitter ou verde-bandeira? Postei a questão no grupo de amigas do zapp. “Escolha qualquer um”, disse uma amiga. “Quem vai ver sua unha no meio da multidão?”, argumentou outra querida. “Não perca tempo com isso. O importante é estar lá”, falou a mais objetiva.  Enquanto isso, na minha cabeça, batucava a dúvida: o claro divertido ou o escuro classudo? As manifestações no grupo não pararam por aí. Mais amigos queriam resolver o meu problema, cessar a minha angústia: “No casamento do meu filho, fiquei na dúvida entre branco e nude e acabei usando o rosa.” “Pior sou eu, não posso usar nenhum esmalte porque estou com unheiro.” “Eu nem esmalto mais a unha, tenho alergia. Larguei pra lá.” De fato, não posso elevar a minha dúvida à categoria de catástrofe ou considerá-la um problema real diante de tantas coisas sérias no …

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  • 14 fevereiro

    Notas para um jovem professor

    Meu prezado aprendiz. Deixo esses apontamentos na esperança de tornar sua jornada pelo magistério mais suave. Você sabe e eu sei que isso é impossível. Mas enganar a si mesmo é um dos passatempos dos viventes e eu, eventualmente, o pratico sem pudor quando a causa me interessa. Portanto, preste atenção que seu sucesso na carreira acadêmica pode depender de seguir ou não meus venerandos conselhos. Quando 50 pares de olhos apontarem na sua direção não faça movimentos bruscos. Seja suave, cordial, mas mantenha distância. Em geral eles não mordem mas como no ato de matrícula não é exigido carteira de vacinação atualizado é bom se prevenir. Não alimente os alunos porque pode viciá-los, mas equilibradamente passe pílulas bem calibradas de conhecimento de maneira que eles não se saciem. Escute, ouça e fale. Não preciso dizer que deixe eles falarem porque a maioria ou não abre a boca ou só fala coisas sem noção. Raramente alguém dirá mais de três palavras em linha reta. Esses, marque-os bem pois vão garantir sua entrada no reino dos Céus das graças da Reitoria. Seja resiliente, se aborreça com o que vale a pena e encontre forças para ignorar o restante. E sobretudo aprenda …

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  • 14 fevereiro

    Andarilho urbano

    Já fui um adepto da corrida. Comprei o livro de Kenneth Cooper e o li com aplicação, procurando seguir seus conselhos para melhorar a capacidade cardiorrespiratória e ganhar mais anos de vida. Costumava acordar cedo para trotar cinco ou mais quilômetros na calçadinha da praia. Quando cursava pós-graduação no Rio participei da corrida Leblon-Leme e não fiz feio, embora terminasse o percurso esbofado como um touro de arena antes do golpe fatal. A corrida se tornou para mim uma espécie de vício; era impossível abdicar do prazer propiciado pela endorfina, que chamei num texto de “vinho do suor” (nesse tempo eu queria ser um literato e achava que só chegaria a isso se produzisse imagens esdrúxulas). Com o tempo, fui aumentando a frequência das corridas e estendendo o trajeto. Os joelhos se ressentiram do excesso. Certa manhã, depois de um exercício mais puxado, senti uma dor violenta no joelho esquerdo e tive que parar. Voltei para casa mancando e tratei de procurar um médico, que foi curto no diagnóstico: lesão meniscal. Passei por fisioterapia e infiltração, mas o que resolveu mesmo foi a mesa cirúrgica.   Após essa traumática experiência, deixei a corrida e passei a caminhar. Com o tempo …

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  • 13 fevereiro

    Nosso espelho franco e claro!

    A desesperança dói e prejudica nossos rumos quase sempre que escolhemos sozinhos um caminho tortuoso, que torna-se um entrave para novos planos e projetos, passíveis de execução entre o antes e o depois do infinito. O ser humano descobre sua própria diversão quando essa lhe é retirada, por isso o desmame de uma colaboração mental ou financeira, a busca de solução para nossos problemas, traz uma oportunidade no pensar em si com mais esforço e dedicação, na busca do aprimoramento de habilidades da melhor forma em caráter solitário.  Como fizeram os jovens escritores americanos, que lutaram voluntariamente na Primeira Guerra Mundial na França, onde passaram sua vida adulta até a grande depressão.  Eles buscavam realização intelectual no outro continente porque os EUA era um país jovem demais, imaturo, que impedia o surgimento de uma civilização e um clima favoráveis ao crescimento da cultura literária e artística.  Na França ganharam o rótulo de “geração perdida”, da escritora Gertrude Stein, se referindo a falta de direção às suas vidas nos anos seguintes ao final da primeira Guerra. Outros jovens naturais de regiões em torno de Paris, moldaram gerações apaixonadas, identificadas com cada ponto do território que tinham construído, amado, defendido com armas, …

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  • 13 fevereiro

    Silenciosa

    Toda noite uma mulher atravessa minha casa por dentro. Passa pela sala, alcança o corredor e sai pelo terraço dos fundos. Pede desculpas assim que me vê, diz que este é o seu caminho até o trabalho e que não conhece nenhum outro. Com o tempo me acostumei com sua presença. Ela é linda, e nem em sonho vi mulher igual. Espero-a todas as noites, e todas as noites ela vem. Algumas vezes cheguei a pedir que fizesse uma pausa e gastasse uns minutos comigo. Poderíamos beber algo juntos, rir sem preocupação, esquecer o mundo um pouco. Ela nunca aceitou. Hoje resolvi fazer-lhe uma surpresa. Preparei um jantar caprichado. Arrumei a mesa, acendi velas, arranjei flores. Ela não veio. Nem nessa noite nem nas seguintes. Talvez tenha descoberto um caminho diferente ou foi despedida do trabalho. Ou então retornou, tão silenciosa quanto viera, para o sonho do qual saiu.

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  • 10 fevereiro

    #10 – TECNO-POEMA

    . – Fala o poeta de vanguarda: A estrutura do verso está invertida em meu caleidoscópio. Preciso de uma máquina rápida e perfeita para fazer uma circuncisão mental: “Quero que a estrofe gravada ao jeito do vídeo cassete saia nítida, sem um defeito”. – Fala a crítica especializada: A infraestrutura do verso está evoluída em meu laboratório. Preciso de um computador rarefeito e sem defeito para efeito de análise poética: “O crítico é um digitador, digita tão completamente que chega a digitar a dor, a dor que sua mãe sente”. – Fala o homem pensante: A superestrutura dos acima está equivocada em minha concepção histórica. Preciso de uma filosofia autêntica e própria agora para escrever um poema-amostra: “A sombra projetada de um homem exclui o mecanismo da repetição alheia, pois a condição intrínseca dele mesmo exige que seu poema se faça de ideias e despreze a vida enquanto justificativa para o erro de se caminhar junto ao tempo”. – Fala um observador imparcial: Poesia significa abrir caminho para o abismo e pedir que nos devolvam o nosso sonho antiatômico. O Acaso das Manhãs

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