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  • nov- 2024 -
    16 novembro

    Só se vive no agora

    Num almoço animado com as amigas, um engasgo rasga o tempo entre o vivido e o viver. O ar não passa pela garganta, os olhos arregalam diante da impossibilidade da salvação. Um ruído no peito anuncia o desengonçar dos segundos, a fragilidade do devir. Tento tossir, não consigo. O que parecia abundante se torna rarefeito. O ar não entra, não sai. Meu olhar aterrorizado de desespero encontra o olhar pronto da amiga médica. Uma manobra feita.  Nada. De novo, nada. Mais uma vez. Tento. Tento. Ouço meu nome entre pedidos de calma. Alguém me abraça pelas costas. Me aperta. Me sacode. Penso no sorriso do meu filho. Nas pessoas que eu amo. Que seja assim a despedida. Que me amparem as melhores memórias. O ar volta, a vida abraça, a morte se vai.  Uma alegria faceira dança em meus lábios. As cores retornam aos seus lugares, os sonhos se arrumam, mais uma vez, nas gavetas do pensamento. Uma certeza ordinária me agarra: sobrevivi! A obviedade corpórea desses feitos (respiro, enxergo, ouço, falo, ando) esconde no cotidiano um segredo cruel: a qualquer momento o sempre pode decidir partir. Hoje, por sorte, bênção ou privilégio, ele decidiu continuar a meu lado. Então, …

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  • 14 novembro

    De passagem

    Lembro-me bem daquela noite. Minha família e eu íamos começar a jantar quando ele chegou. Abri a porta e ouvi sua voz sumida na boca murcha dizendo “Boa noite. Estou de passagem. Posso ficar uns dias? Serão poucos.” Eu tentei disfarçar a enorme surpresa, disse “Claro!” e fiz com que entrasse. Ele cumprimentou minha mulher e meus filhos, depois olhou para mim e eu indiquei a direção do corredor. Mostrei-lhe o quarto em que poderia ficar. Ele agradeceu. Eu disse “Largue sua mala aí. Venha jantar conosco.” Comemos em silêncio. Não estranhei: a lembrança mais forte que tinha era a de que meu pai nunca foi de falar muito mesmo. Eu tinha treze anos quando ele nos abandonou e nunca mais o vi até aquela noite. Minha mãe nunca comentou sobre o motivo de ele ter saído de casa, deixando atrás de si mulher e filhos, e eu tampouco perguntei. Ela apenas disse para mim “Agora você manda na casa. Use a voz e a palavra que seu pai nunca teve.” Naquela época, àquela idade adolescente, eu também não tinha voz nem palavra, mas logo aprendi a ter. Cuidei de minha mãe e de minhas irmãs menores. Faz tempo que minha mãe morreu, minhas …

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  • 14 novembro

    Uma Vida

    Dramas gigantescos da humanidade oportunizam momentos para que indivíduos de bom coração se tornem heróis, e figuras lembradas por não terem se acomodado perante um drama, como é comum a muitos.  Uma deles foi Sir Nicholas George Winton, que nasceu em Londres em 1920, onde mais tarde foi corretor da bolsa de valores de Londres e um socialista fervoroso do Partido Trabalhista. Tornou-se parte de um círculo de esquerda preocupado com os perigos representados pelos nazistas. Quando visitou Praga em 1938, se deparou com famílias vivendo em condições extremamente precárias e sob a constante ameaça de uma invasão nazista. Em uma corrida contra o tempo, Winton e um improvável grupo de apoio, trabalharam incansavelmente para resgatar o maior número de crianças possível, antes do fechamento das fronteiras. Ele ajudou a salvar 669 crianças judias da morte certa, nos momentos que antecederam o início da Segunda Guerra Mundial. Pouco antes do Natal de 1938, quando Winton tinha cerca de 29 anos, ele planejava passar suas férias esquiando na Suíça, entretanto, após o pedido de um amigo, mudou o trajeto até Praga para ajudar o Comitê Britânico para Refugiados da Tchecoslováquia — país que estava em processo de ocupação pela Alemanha nazista. …

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  • 13 novembro

    Sobre as angústias de um pé-frio

    Tenho muito medo da morte. Um medo estranho, próximo, escuro, paralisante por vezes, e por vezes aterrador. Isso não me obriga a amar demais a vida. Não acho tudo maravilhoso, não faço parte da galera do gratiluz nem gosto de acordar cedo. Geralmente, estimo a vida nas sextas após o expediente e nos sábados à tarde. Mesmo assim, ante o bafo azedo do óbito, até a semana corrida me apetece. Um dos motivos de preocupação e temor quando penso nesse assunto, em particular, é a provável impossibilidade de seguir acompanhando as ocorrências terrenas. Sendo sincero, meu receio, por idiota que pareça, é não saber do Grêmio no pós-morte. Sei que há coisas mais importantes, você não precisa me explicar o quanto isso é mesquinho, mas é a mais crua verdade. O fato é que me apavora a ideia de estarmos (ou estarem, no caso) em 2158 sem saber quantos Estaduais, Brasileiros e Libertadores o Grêmio ganhou nesse período. Me apavora não saber quem surpreendeu e quem decepcionou. Me apavora desconhecer a quantidade de Grenais vencidos com facilidade até lá. Espero que todos, naturalmente. Tudo isso é uma grande bobagem. Eu sei. No fundo, odeio gostar de futebol. No entanto, sou …

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  • 11 novembro

    A Troca

    Na quietude da noite, em meio ao escuro do quarto, eles iniciam uma conversa.Uns indignados, outros seguros de si, e alguns, incrédulos.Como todos a conhecem, não poderia ser diferente.—  Naturalmente, diz o preto, eu megaranto; vou com ela aos mais diversos lugares, do escritório às noitadas, restaurantes e bailes. Comigo ela fica tranquila, sabe que não sou inconveniente.  Dou segurança e conforto. Portanto, serei o último a ser trocado ou nem isso, podem apostar!— Querido, presta atenção!Sabemos o quanto você a atende  e, por isso, acaba sendo o preferido. Mas não  pense que é pela sua cor.Eu por exemplo!Também vou a todos os lugares, sou seguro, discreto e tudo mais.— Alguém me nota?  Só se for para perguntar onde ela me encontrou. E suas amigas ainda dizem: com esse não tem erro! A cor não é o ponto da questão, já que sou considerado pardo.— Verdade! eles dizem, ao mesmo tempo.— Eu não sei de nada, pois sou a companhia certa dela para irmos em casamentos, batizados e ocasiões especiais. Estranho seria se não fosse assim. Só os brancos me entenderão!Eles estavam ali, no quarto dela, discutindo, buscando entender o que havia. Tudo aconteceu muito rápido.Há pouco tempo, ela ficava …

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  • 10 novembro

    A sucinta e individual força dos Verbos e Substantivos:

    (…) “vence, leva, ‘sai-vitorioso’, fede, terminam, caminham, garantir, levou, votarem, vence,consolida, vence, conquista, foi-eleito, abandonaram, levar, conversam, ‘não-fará’, pede, nega, inclui, deixar” (…) Arizona, estados-chave, eleição; disputa, estado; estados-chave, eleição; vitória,eleições; contagem, delegados, ‘X’; maioria, câmara; mulheres, EUA, republicano;Arizona, vitória, estados-pêndulos; 7-Estados; presidente, pobres, ‘faxina’, pentágono, sombra, COP29, Azerbaijão, eleição, parte, governo, alívio, acusações, complô, posição, Ucrânia, sinais, Kremlin, EUA (…) passado futuro Biden Lula Trump Bolsonaro posse vitória Trump pai chances Moraes vitória Trump sinal alerta Lula dois-mil-e-vinte-e-seis senador foto vitória Bolsonaro utilidade Lula candidatos Bolsonaro vitória Trump dois-mil-e-vinte-e-seis apoioBolsonaro Trump Lula ex-presidente Trump (continua).

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  • 10 novembro

    Treinamento para habilitados

    Dois dias atrás, o carro da frente do meu exibia uma placa: Em Treinamento para Habilitados. Achei fantástico esse serviço – dar um treinamento para os já habilitados. Isso pressupõe que, mesmo tendo sido considerada apta para a função a que se propõe, a criatura não tem domínio do assunto. Incrível, não? Como será, então, que foi considerada apta a exercer essa atividade? Quando se trata de carteira de habilitação de condutor, a nossa tão conhecida CNH, é fácil de entender – o candidato a condutor passa por um curso rápido em que decora algumas regras de trânsito, e faz, se não me engano, umas 40 horas de treino sobre como se portar ao entrar no veículo: regular os espelhos, o banco, a partida, freio de mão, as setas, etc. Aí vem o percurso, a baliza, sair na ladeira (que é o mais temido) e, salvo alguma barbeiragem muito grande, a esperada aprovação. Orgulhosamente com seu atestado na mão, o novo condutor começa a enfrenta a vida real – trânsito, cruzamentos, se aventurar a mudar de faixa visto que tem que entrar à direita logo mais, estar preparado para os sinais que mudam de repente, enfrenar alguém que corta a …

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  • 10 novembro

    Botas, cavalos e moscas

    Embora eu adore cavalos, nunca aprendi a montar. Como bom-senso e juventude nem sempre andam juntos, quase comprei um pangaré em Águas de Lindóia que fica a mais de quinhentos quilômetros do Rio. O preço não arruinaria completamente as minhas finanças, mas obviamente a distância entre mim e o cavalo não nos tornaria próximos. Foi mais um sonho do que um projeto viável. Tempos depois uma amiga que também gostava de cavalos conseguiu comprar um e o colocou em um estábulo razoavelmente barato na Barra da Tijuca. Generosa, ofereceu o cavalo para que eu aprendesse a montar. Impôs uma única condição: que eu providenciasse botas adequadas. Indicaram-me um sapateiro especializado dentro do Jockey Clube. Fui lá, ele tirou medidas dos meus pés e marcou data para a primeira prova. Voltei no dia combinado, nada estava pronto. O sapateiro era um senhor de muita idade, puxou conversa e, sabe-se lá porquê, o assunto foi parar no jogo do bicho, cujas regras mais avançadas sempre despertaram minha curiosidade. O sapateiro era um pouco enrolado no seu ofício, nas explicações do jogo do bicho também, e marcou nova data para a prova das botas. Não estavam sequer cortadas quando voltei pela segunda vez. …

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  • 10 novembro

    Não existem mais heróis

    Não Existem mais heróis… Estes, ficaram em fotos, figuras coloridas ou desbotadas, ficaram nas páginas de um livro velho, ou então, são relembrados de maneira torpe e fragmentada por aqueles que contam histórias antigas, mas têm já uma memória vaga das coisas. Hoje, o tempo é de homens perversos. Tempos de perversidade! Hoje, o tempo é de guerra e divisão, de discurso copiado na rede e de arma na mão! Hoje é o tempo de imbecis! É o tempo do fim da nação! Nas fronteiras do mundo, homens rasgados, mulheres cortadas, crianças interrompidas tentam fugir do caos. No entanto, apenas prolongam a agonia do desterro… Não existem mais heróis. Estes, enganaram a troco de pouco, por trinta moedas ou menos… Hoje, o tempo é de muros mais altos, dedos em riste, cercas e arame farpado. É o tempo do discurso do ódio, da banalização da morte e da miséria, da mediocridade como solução! Não existem mais heróis nem cavalos pra montar. Não existe mais o final feliz, não há mais aprendiz. O que há é a marca. O que fica é a cicatriz! Hoje, o tempo é de revolver cascalhos, olhar os escombros, contar os mortos… É o tempo de …

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  • 9 novembro

    ENEM – cada inscrição uma história

    Martina, quando pequena, adorava pegar a seringa de brinquedo e dar injeção nasbonecas. Aprendeu com seu pai que, quando crescesse, seria médica. Sua família incentivava, com gosto, a brincadeira da menina. Sabiam que, se a fantasiaganhasse espaço na realidade, o futuro estaria garantido.  Estudiosa, a filha não era. Tinha dificuldade em matemática e português, e preguiçapara os deveres. Mas desde quando os sonhos respeitam os limites da verdade? Seu paijá havia determinado: se espelharia no seu tio-avô. Renomado e rico. Ano a ano, na cabeça dele, a história ganhava enredo: Martina estudaria medicina nafederal, seria assistente do tio Aldomiro, trabalharia na clínica dele. Embora fosse netade um pintor falido, conquistaria o status que seu avô não foi capaz de alcançar. “Nuncamais serei o primo pobre”, repetia o pai em seu secreto pensamento. No aniversário de doze anos da filha, de forma solene, a presenteou com um jalecobranco e nome bordado em dourado. Nessa época, Martina não via mais graça em darinjeção. Seu novo divertimento era desenhar vestidos e acessórios. Também amavaexperimentar suas roupas e desfilar pela casa fazendo pose. Deu esse destino ao jaleco.Usou-o com cinto, lenço, salto alto da mãe. O pai insistia no sonho. Tinha por hábito, ao chegar do …

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  • 7 novembro

    Minha alma, meu cão, minha calma

    Nesse armário guardo minha alma. Entre paletós, camisas e calças repousa, num cabide só seu, lavada e passada, a alma que é minha. É uma coisa preciosa, única, e por essa razão só a levo comigo em ocasiões especiais. Uma alma é para toda a vida, é artigo que não se dá, não se empresta, não se esquece. Quebrada, não haverá outra para reposição. Só vou com ela a lugares aonde não se deve ir sem alma. À literatura, por exemplo. A um roseiral, atraído pelo perfume. A um copo de bom vinho, erguido em brinde entre amigos. Em eventos assim minha alma está sempre comigo. Em outros, não. É diferente de meu tempo de criança, quando não ia a nenhum lado sem alma. Não a tirava de mim nem para dormir. Era minha companhia constante nos brinquedos, nas descobertas, nos espantos, nas felicidades. Hoje em dia quase não saio com minha alma para a rua. Apavora-me pensar que as pessoas, ao me verem com ela, vão me enxergar pelo avesso e descobrir tudo sobre mim. É um risco que não quero correr. Não posso negar que, quando visto minha alma, cresço em profundidade. Fico mais brilhante que o Sossego, …

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  • 7 novembro

    Custos irrecuperáveis!

    Nossos telefones celulares oferecem dopamina digital 24 horas, 7 dias por semana, aos indivíduos conectados com seus interesses apenas, e alheios ao que acontece ao seu redor. Estamos vivendo em uma época de acesso sem precedentes a estímulos de alta recompensa e muita dopamina: drogas, comida, notícias, jogos, compras, sexo e redes sociais. A variedade e a potência desses estímulos são impressionantes, e todos somos vulneráveis ao consumo excessivo e à compulsão ao utilizar as redes sociais, sendo que qualquer pessoa pode desenvolver um vício desses. Na era moderna, é fácil perceber o problema, porque sabemos muito bem que os celulares, a “internet” e as mídias digitais são drogas potentes cujas baterias podem ser recarregadas todas as noites. As redes ativam os mesmos circuitos que as drogas tradicionais, como o álcool, a cocaína e os comprimidos sintéticos. Eles liberam dopamina (nosso neurotransmissor de prazer) no sistema de recompensa do cérebro. Quanto mais dopa mais viciante é a experiência. E a consequência disso é o que chamamos de custos irrecuperáveis, de tempo, saúde, dinheiro e uma lista amarga que surpreende os especialistas à busca de soluções. A Dra. Anna Lembke, psiquiatra e professora da Escola de Medicina da Universidade Stanford, escreveu o livro “Nação dopamina”, e explorou …

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  • 3 novembro

    Equilibristas!

    Somos equilibristas! E fazemos isso com muita eficiência e profissionalismo! Não sabemos o tamanho da nossa força até que somos forçados, por circunstâncias várias, a viver a vida nas suas complexas contradições! Como não falar da vida e dos seus altos e baixos!? Na verdade, vivemos entre o riso e as lágrimas, o sol e a chuva, o sabor do tempero e o insosso. Vivemos entre dias quentes e dias frios, oscilando agudos e graves, pagando as contas, sonhando os sonhos e seguindo o fluxo! Em um momento estamos subindo, subindo… quase voamos! No momento seguinte, descemos e descemos… quase um túnel em direção ao centro do planeta! Transitamos entre o silêncio e a lentidão de um lugar remoto e o nervosismo e o caos da civilização! E assim, como perfeitos equilibristas, andamos por um fio, com passos ora leves e ligeiros, ora pesados e trêmulos. E assim, como desconcertados equilibristas, estamos sempre por um fio: os compromissos, as urgências, o sim e o não! A eterna fila do pão! Com ou sem luz, com ou sem mar, vamos seguindo… Com ou sem dinheiro, com ou sem energia, vamos seguindo… Na luta intensa de todo dia, escrevemos e apagamos, abrimos …

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  • 3 novembro

    Flashes, vazios e universos paralelos: Leila

    Em meio a um comercial de televisão de sábado à tarde, coisa que não lhe é por nada usual assistir – excetuando-se as ocasiões em que se encontra à casa de seus pais -, algo que Leila não se recorda ao certo acendeu umas memórias preguiçosas, episódios de infância, o cheiro da sua lancheira do maternal (que sente como se a estivesse segurando agora mesmo, uma maleta plástica de proporções retangulares na cor amarela, com alça branca); lembranças várias e disformes, como a de momentos que precederam fotos que jazem, em um sono nada profundo, no interior de uma caixa dentro de um armário, fechado em um cômodo abarrotado de móveis aposentados e poeira. Um simples gatilho para uma viagem neurólogica que rompeu as barreiras do tempo, como a contemporaneidade o dita aos quatro ventos, flashes mais rápidos que o piscar dos olhos. Em diminutos instantes, toda uma vida se descortinou dentro das íris esverdeadas de seus olhos: um processo estroboscópico que alternava a dilatação e a miose de suas pupilas com o acenar sorridente de tantas recordações inesperadas. Abruptamente a realidade, sob a forma quase aveludada do tom na voz de sua mãe alertando para o esfriar do desjejum, …

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  • 3 novembro

    Papilas gustativas do viver 

    Na última semana, por ocasião do aniversário de uma grande amiga, me deparei com o desafio de escrever um cartão de felicitação. Não me servia aquele que já vem com a mensagem pronta e só precisamos assinar. Tampouco queria escrever apenas: Parabéns! Saúde e Paz. Muito embora essas palavras, por si só, já representem as joias raras da sorte, queria desejar algo a mais. É certo que dependemos da saúde para realizarmos qualquer feito e da paz para desfrutarmos de qualquer situação, mas há que se ter outros requisitos para a magia do sorriso solar acontecer. Visando garantir a minha amiga o melhor dos mundos, achei de bom tom incluir a coragem. A vida depende desse impulso, dessa força propulsora que quebra a potência destruidora do medo de errar e de ser quem se é. Caprichei na letra e nas palavras para que a mensagem carregasse em si o poder magnético do afeto, da amizade e do pensamento positivo. Já estava pronta para assinar quando algo me inquietou por dentro. Tudo estava dito, o novo ciclo seria perfeito, repleto de bons acontecimentos, sonhos e conquistas. Mas, nesses termos, pareceu inverossímil o meu voto de felicidade. Necessitava alertar minha amiga de …

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  • 3 novembro

    Tirando a máscara todo mundo é fantasma

    Outubro me lembra Halloween, até porque, como uma bruxa legítima, nasci no dia 31 à meia-noite. Bruxas, vassouras, abóboras e todas as figuras fantasmagóricas que povoam o imaginário popular são inspiração para as mais diversas fantasias: esqueletos, vampiros, mulas sem cabeça, ao lado de figuras famosas como o Conde Drácula, Morgana, Cruella, Freddy Krueger e outras encarnações do mal. Para as crianças, 31 de outubro é um dia de alegria, pois significa a possibilidade de comer doces sem nenhum policiamento dos pais, por conta da brincadeira de “Trick or Treat”. Esse hábito remonta a uma prática celta do Samhain, uma festa que marcava o fim da colheita e o começo do inverno. Daí o costume de ir de casa em casa pedindo contribuições em alimentos, hoje adaptadas para guloseimas. Reza a lenda que, durante a noite do Samhain, a fronteira entre o nosso mundo e o “outro mundo”, o dos mortos, podia ser cruzada, permitindo que espíritos maus vagassem pela Terra. Por esse motivo, os celtas usavam máscaras para não serem reconhecidos, originando o uso de fantasias no Halloween. Esse uso de máscaras como forma de esconder a identidade me fez lembrar de Erik, o personagem criado por Gaston Leroux …

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  • out- 2024 -
    31 outubro

    Livro, o cachorro encadernado

    Tenho uma relação antiga com o livro. E feliz. Acredito que ninguém é obrigado a ler tudo. O básico de cada um é o resultado de suas predileções e inclinações, momentâneas ou não, ditadas por tantas coisas que reúnem um pouco de tudo que se chama você. Mutante por natureza, esponja que absorve e que despeja os excessos pelo caminho. O olhar muda com o tempo porque é forjado por nossa maturidade. Não ter idade para ler alguém é uma verdade, mesmo que incomode nossa vaidade intelectual. Acontece. Às vezes, você retorna ao livro mais adiante na sua vida. Às vezes, ele desaparece pelo caminho. Nossa estante de livros, a metafórica, quero dizer, não é melhor nem pior do que a dos outros. São nossas escolhas, sem competir com ninguém. Na adolescência, alguns amigos se tornaram fãs de J.R.R. Tolkien e sua saga “O Senhor dos Anéis”. Eu descobri Garcia Márquez a partir de “Cem anos de solidão”. Nossos caminhos literários não se cruzavam. Eles insistiam em me dizer que eu não sabia o que estava perdendo por não conhecer a Terra Média. Lá em Macondo, eu balançava minha rede e suspirava. Influências externas podem te empurrar na direção de …

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  • 31 outubro

    Mês da História da Mulher!

    Lutar por causas importantes tornam pessoas desenvolvidas e preocupadas com o futuro de todos. Pensamentos racistas, homofóbicos, xenofóbicos, sexistas, misóginos, mantém mentes e comportamentos presos ao Renascimento. Por isso movimentos como o racismo e a misoginia seguem seu próprio código civil descrito na idade média, ou seja, sem sentido em nosso tempo que tem sede de respeito, que deseja se manter moderno e intelectualizado, desenvolvido para os povos que almejam espalhar o respeito e a oportunidade a todos, e não somente aquela casta que preconiza o isolamento e a falta de dignidade aos que pensam no coletivo. Gestos atenciosos sobre esses temas demonstram a qualidade das relações e a dimensão do respeito ao próximo. Como o fizeram os italianos para comemorar o dia internacional da mulher. Eles se presentearam com cachos de pequenas mimosas amarelas. Símbolo que demonstra a força feminina, e as mulheres se presentearam como sinal de solidariedade. Na Romênia, esse mesmo dia foi celebrado de um jeito parecido com o dia das Mães, dando motivo particularmente aos homens, do reconhecimento às suas mães, avós, e amigas, entregando-lhes cartões e flores. Já nos EUA não foi feriado oficial, mesmo que março seja conhecido como o Mês da História da Mulher; um período para dar atenção às conquistas …

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  • 31 outubro

    O SACRIFÍCIO

    Dinah, nascida da mãe de Caim e Abel, era irmã desses dois. Irmã legítima, de mesmo sangue, mas diferente pelos músculos menores, pelas tetas, pelas pernas roliças. Diferente também por dentro: tinha útero. Olhavam-na. A mãe: “É uma mulher como eu, quando chegar o dia certo vai sangrar no meio das pernas.” O pai: “Não tem força pra me ajudar na lavoura, não serve de muita coisa.” E os irmãos: “É como uma ovelha, só que maior; quando chegar a hora, Deus se agradará de uma oferta assim gorda.” Tempos mais tarde, a família colocou Dinah na frente da pedra do sacrifício. A mãe cobriu o rosto com as mãos. O pai cuidou de despir as roupas da filha, cobrindo sua nudez com um mínimo de panos. Os irmãos tratavam de avivar as chamas do carvão. O fogo estalava. Antes de tudo, oraram de olhos fechados, braços abertos e dirigidos para o alto. Ouve-nos, Deus!Olha-nos, Deus!Aceita esta oferta, Deus!Abençoa-nos, Deus! O sol do meio do dia é inclemente e queima tanto quanto o fogo. A medula de Dinah começa a derreter. Um espanto: acima dos músculos dilacerados, bem acima das tetas inchadas, no fim do labirinto do útero, Dinah tinha …

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  • 30 outubro

    Os signos da crítica

    Costumo ler em voz alta quando estou em casa. Peguei esse hábito da minha mãe, que todo sábado à tarde distribuía na mesa da sala uma penca de cadernos e livros para corrigir trabalhos, ler e reler textos, planejar as aulas da semana seguinte, tudo em alto e bom tom. Uma resma de folhas em branco e o mimeógrafo aguardavam na estante, ali ao lado. Eu podia destruir a casa desde que não relasse naquela mesa. Trinta anos depois, não temos um mimeógrafo e nem uma resma de papel por perto, mas mantenho a cultura familiar da leitura em voz alta que, por acaso, tem dado o que falar. Lia há alguns dias uma crítica literária no sofá enquanto minha esposa fuçava numa das gavetas da cômoda. Em algum ponto da argumentação, ela parou para ouvir, prestando uma atenção quase intimidatória; fiquei inclusive receoso com possíveis tropeços ou gaguejos. Quando cheguei ao fim do texto, ela me perguntou quem era o autor e, logo após a resposta, completou: — É taurino. Encerrou o papo saindo para a cozinha. Dois ou três dias depois, em outra leitura, veio a sentença: — É aquariano. Novamente, assunto encerrado sem mais delongas Aquilo não …

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  • 27 outubro

    Nunca iguais, revisitadas

    Assim como as folhas altas nas copas das árvores balançam com o prenúncio de intensas chuvas… tal qual o som de passos ligeiros em direção a um compromisso que estar por iniciar… ou ainda a terceira badalada de uma campainha teatral que, após outras duas de igual duração, alerta os desavisados de que o espetáculo se iniciará, assim é a vida dos recomeços. Nunca iguais, revisitados. E entre tantos reinícios em minha vida ao longo deste último ano, as campainhas, os passos e o vento trazem o Crônicas Cariocas novamente à minha rotina, o acender de uma vela em meio às trevas. O portal, que há 18 anos está colado ao meu corpo, pelo avesso; uma sinfonia interna que faz dançar o coração – e atento ao olhar sobre o cotidiano. É como se eu adentrasse pela porta da frente uma casa que sempre foi meu lar. Pois bem. Como em qualquer reenceto, há de se dividir o espaço com certa cautela, nada muito marcante, porém presente: o segurar da pena que vacila ao encontrar o nanquim, trechos sem amarração de uma narrativa base – logo papéis amassados por fora de cestos de lixo. A emoção é enorme. O timing …

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  • 27 outubro

    A vida pela janela

    Ver a vida pela janela! A janela de casa, com a rua e as pessoas que pintam o cenário de cada dia. Com suas cores e sons! Com seus dramas e tons! A janela do carro ou do ônibus e a velocidade de tudo o que se vê na cidade: placas, cartazes, rostos, histórias… Ver a vida pela janela! E ver, com a pressa dos urbanoides de plantão, num frenesi e caos que não dão a certeza de nada. Ou ver, com a calma do poeta, com a atenção para todos os lados e lugares, sabores, odores, enfim, com todos os olhares! Assim, como o poeta, vejo a vida pela janela! Às vezes, vemos o mar, prolongado, com seu movimento constante, espumas e brilho, mostrando sua força e imponência. Às vezes, vemos a avenida e as milhares de histórias que se cruzam nos rostos de todos os que passam. E são aqueles que lutam a luta diária do pão. E são aqueles que procuram o sentido das coisas no meio do turbilhão. E são aqueles que se sentem sozinhos entre a multidão. Às vezes, algumas crianças, no colo, ainda cheias de sono, sendo levadas por mães e pais cansados, alheias …

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  • 27 outubro

    O lixo que não é lixo

    Se você fosse responsável pela limpeza de um local e encontrasse duas latas de cerveja amassadas no chão, decerto as recolheria para jogar no lixo. De agora em diante pense duas vezes: isso aconteceu com um funcionário zeloso em um museu de Amsterdã, porém as tais latas eram uma obra de arte propositalmente deixada no chão de um elevador já que o museu acredita que a arte deve ocupar todos os espaços, inclusive os mais inesperados. O erro foi descoberto a tempo, embora o verdadeiro responsável fosse quem teve a ideia de jerico de considerar o chão do elevador um lugar adequado para expor aquele trabalho. Essa notícia saiu na mídia e a pergunta é sempre a mesma: como definir o que é arte? Assunto polêmico. O curador do museu alegou que as latas foram meticulosamente pintadas à mão e consumiram imenso tempo e esforço do artista. Critério estranho: alguns criam maravilhas em pouco tempo, outros nunca dão por encerrado um empreendimento (dizem que isso aconteceu com Leonardo Da Vinci e a Mona Lisa). Falta de habilidade ou talento também demanda mais tempo e esforço sem garantir a qualidade do produto final. Ao menos o curador declarou que no futuro …

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  • 27 outubro

    O Beco

    Dia frio, chuvoso, cair da tarde. Penido se preparou para a volta à casa, depois de um expediente na repartição que lhe rendera uma tremenda enxaqueca. Não era para menos, pois o contato com o público lhe estressava. Na maioria dos casos ignorava as queixas desses “infelizes”, como bem dizia, que lhe importunavam e canetava um “indeferido” na petição. A têmpora direita latejava. Tomou uma dose dupla dos comprimidos que sempre guardava na gaveta, fechou os olhos por alguns segundos para esperar o efeito do medicamento. O barulho dos pingos no vidro da janela aumentou, invadiu seus tímpanos causando um temporal de dor. Lembranças afogadas em poças d’água foram tomando conta de sua mente. Os sintomas da cefaléia cresciam, uma névoa lhe toldava a visão. *** De paletó, galochas, e guarda-chuva só lhe restava enfrentar o caminho até o ponto de ônibus, caminhando atento ao chão. O percurso era grande, a noite baixava sem luar, deserta, soturna. Começou a tremer de frio e desconforto, sentindo os pés mergulhados na água enlameada que cascateava pelos paralelepípedos irregulares da ruela em frente ao escritório. A cabeça pesava e um reboliço gasoso começou a lhe importunar o estômago. Se viu frente à entrada …

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  • 26 outubro

    Recado ao senhor 903, 1003 e 2024

    A aula teve início com a seguinte frase: o texto que vamos trabalhar hoje é muito conhecido. Com certeza, todos vocês já leram. Antes mesmo de descobrir que eu estava na contramão das certezas, jamais tinha lido tal texto. Me indaguei a respeito do propósito dessa afirmativa. Ela não tem nenhuma utilidade para quem endossa a fila dos aplicados (a não ser que ofereçam uma estrelinha dourada) e, ao mesmo tempo, causa grande desconforto/culpa em quem não acompanhou a fila dos sensacionais. Ora, se estou ali para aprender e me surpreender, por que deveria saber sobre aquilo de antemão? A relação já começou devedora e com indícios de um etarismo intelectual: “velha demais para o novo”. A bem da verdade, não notei no professor nenhuma intenção de alfinetar ninguém. Tive a impressão de se tratar de mais uma daquelas frases ditas por hábito, falta de traquejo ou de assunto. Voltando à sala de aula, a situação ainda ficou pior. Lá pelas tantas, uma coleguinha de turma afirmou que quem tinha mais de 50 anos, com certeza (sempre a maldita) conhecia o famigerado texto, afinal fazia parte de um livro didático usado naqueles tempos. Querida, eu rasguei o caderno de caligrafia, …

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  • 24 outubro

    K-Pop apresenta Tom Jobim

    Respeito muito a ideia de que cada geração tem sua música. Nem sempre concordo com o que é tocado, já vou avisando. Mas respeito. Em outro momento, volto a falar sobre música geracional, mas confesso que meu respeito é movido menos por qualquer elevação espiritual e mais pelo medo de ser apedrejado em praça pública. A execração na ágora me arrepia; ser apontado nas ruas é meu pior pesadelo. Mas, voltando ao que interessa: a música, e não as minhas fobias. Minhas filhas seguem o padrão, e para elas, K-Pop é sinônimo de música. Como pai, fiquei curioso para saber do que se tratava. “É música pop coreana”, me explicaram e completaram: “Tem J-Pop, que é japonesa; C-Pop, a chinesa…”. E eu, engraçadinho, quis completar com B-Pop, a brasileira, mas elas logo me cortaram: “Não é nada disso”. E fiquei calado, segurando o riso. Existem grupos de K-Pop masculinos e femininos, todos super jovens. Elas preferem as meninas, e eu achei que eram todas coreanas. Fui repreendido: “Não, pai, nem todas nasceram na Coreia do Sul”, me cortaram elas de novo. “Asiáticas, então?”, rebati. “Também não, a Rosé é da Nova Zelândia.” Balancei a cabeça, sem saber o que dizer. …

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  • 24 outubro

    Quando um amigo me visita

    Amigos. É assim que os chamo. Caracterizam-se por exalar nítido cheiro de afeto. Dessa nitidez brotam o contorno de seus ombros, seu nome, suas palavras e gestos, sua presença, mesmo quando já não estão perto de mim. São o contrário da pedra dura. São o revés do espinho. São o oposto do metal cortante. Gosto de pensar neles como esponjas com formato humano. Eis que um deles chega à minha casa. Aperto sua massa corporal entre meus braços e fico feliz por me sentir um dos seus. Peito com peito, calor compartilhado, olhar terno indo e vindo. “João!”, ele exclama. “Dalton!”, eu exclamo igual. Assim que começamos a conversar, a linguagem ganha corpo e sentido em torno de nós. Repartimos, como pão, a luz do dia em dois. Falamos de literatura, nosso assunto predileto. Falamos de poesia. Falamos de amigos comuns. Eu o convido a um pássaro, ele retribui com o balançar de um ramo seguro de árvore, perfeito para um ninho. Pergunto-lhe sobre o mar, que há tempos não vejo, e sobre o sol nele refletido. Ele me pede que fale das montanhas e do verde que há no lugar onde moro agora. A distância nos aproxima, a saudade …

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  • 24 outubro

    Mesmo instante fugaz!

    Especialistas e pensadores debatem quais são os dilemas acerca da passagem dos anos. O documentário “Quantos dias. Quantas noites” abraça a conexão humana com a idade e o tempo desde o aumento da expectativa de vida até as desigualdades que envolvem esse tema.  O longa de Maria Farinha Filmes, dirigido por Cacau Rhoden, realiza um profundo mergulho nos propósitos de nossa existência no planeta, e lhe faz refletir o que realmente tem valor para se preocupar nesse exato momento. Drauzio Varella “considerou que se você transformar sua vida num vale de lágrimas no qual submerge de corpo e alma, estará tornando-a uma experiência medíocre. Julgar que aos seus 80 anos, seus melhores momentos foram aqueles dos 15 aos 25, é não levar em conta que a memória é editora autoritária, capaz de suprimir por si as experiências traumáticas, e relegar ao esquecimento as inseguranças, medos, desilusões afetivas, riscos desnecessários e as burradas que fizemos em nossa tenra época. Nada mais ofensivo para o velho do que dizer que ele tem “cabeça de jovem”, isso é considerá-lo mais inadequado do que o indivíduo de 20 anos que se comporta como criança de 10″. A melhor idade é aquela que lhe traz qualidade em um determinado momento, e não somente na velhice. …

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  • 22 outubro

    À Criança

    Não deixei de brincar pelo medo de cair, nem de sorrir depois de receber um “carão”. Não deixei de assistir a desenhos por perceber que estava perdendo tempo em frente à TV. Não deixei de falar com meus pais sobre como foi meu dia, mesmo que para eles fosse apenas um dia qualquer. Não deixei de me enturmar, mesmo percebendo que não era bem-vinda. Criança não tem filtro. Por vezes, ouvimos que as crianças são páginas em branco que precisam ser preenchidas com uma vida idealizada pelos pais. A gente só entende o “ser criança” observando uma. Na beleza da sua inocência infantil, a gente é quem aprende, em vez de ensinar. Embarquei na decoreba das tabuadas e na escrita torta no quadro de giz. Mal sabia eu que, aos pedidos de biscoito recheado e à vontade de não mais largar minha amiga da escola, não existia comparação nem competição; a gente apenas queria passar de ano e desejava que o recreio não acabasse. A palavra futuro era um palavrão que aparecia no livro de português nas conjugações dos verbos. Tínhamos de distinguir bem o que era o futuro do pretérito, ou futuro do presente. E o que dizer do …

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  • 22 outubro

    Voltemos

    Em 2023, o Crônicas Cariocas tirou um período sabático. No mesmo ano, praticamente no mesmo período, foi a minha vez, o momento de – mergulhado (ou afogado mesmo) em outras páginas da vida – me distanciar um pouco dos periódicos. Como um legítimo casal, demos uma pausa e saímos juntos para o recesso. Porém, o tempo passa e é necessário calçar a botina outra vez. Em nova situação, retorno à cronicidade que estava de férias e da qual sentia falta. E, tenho certeza, foi com saudades dos seus autores e leitores que o portal voltou, de nova cara e a todo vapor. Saudades que leitores e escritores também nutriam pela revista, que, completando 18 anos, ostenta o título de “maior portal de literatura do Brasil”. Não é para qualquer um. E, dessa forma, volta o Crônicas, sempre carioca e, mais ainda, brasileiríssimo. Como tal, sinto-me em casa. Afinal, torcedor do Vasco, amante de samba, leitor de João do Rio e cronista, tenho um quê de carioca, é ou não é? Assim como o Crônicas Cariocas tem uma boa dose de paraibano, a começar pelo seu editor, passando pelo mestre Chico Viana. Com estes e com outros tantos, reencontro-me nesta bancada. …

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