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out- 2024 -19 outubro
Nós que aqui estamos…
Está se aproximando o Halloween e, com ele, o momento de brincar com algo que nos assusta. Mesmo que não se leve nada a sério, entrar na brincadeira, se fantasiar, é ter contato com figuras fantasmagóricas, com o objetivo de causar medo. Assumir a identidade dessas criaturas é uma forma lúdica de extravasar a face maligna que, de certa forma, está presente em todos nós. Aquele território obscuro do mal que nos habita. Me chama a atenção que as representações figurativas do mal venham, na maioria das vezes, associadas à morte. Talvez porque, na cultura ocidental, consideramos morrer algo negativo, a passagem para o indefinido. Seja para os que acreditam que não há nenhum outro plano de existência depois da morte, seja para as pessoas com alto grau de crença na vida eterna, ou mesmo entre os que acreditam na reencarnação, não há certeza do que nos espera do outro lado. Não por menos, o Dia das Bruxas antecede o Dia dos Mortos, como se a brincadeira de se vestir de alma penada por um dia fosse uma forma de se preparar para encarar a passagem para o outro lado, no dia seguinte. Nessa sequência comemorativa do final de outubro, …
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19 outubro
A inveja é um sentimento que brota
Alguns acontecimentos recentes me despertaram para algo que suspeito faz tempo: a sorte tem seus escolhidos. Por mais que não haja um processo claro e justo para esse favoritismo, ele acontece ali diante dos nossos olhos. É como assistir seu irmão ganhar de presente de Natal um carro elétrico e você um lindo pijama florido de flanela. A diferença é gritante, a revolta é muda, a raiva, efervescente; e uma pergunta que sobe pelas paredes: por quê? Por quê? A sorte assume seus filhos preferidos de forma escandalosa. Faz concessões absurdas, muda as regras e os critérios para agraciar seus queridinhos. E não adianta reclamar, bater pé, rogar por igualdade, o jogo é sujo e indecoroso. Quem tem sua benção, em geral, não precisa de esforço, empenho, desgaste, a coisa acontece, cai no colo, bate na porta. Quem não conhece alguém que tem a vida afortunada pelo acaso? Nem me refiro aos que nascem herdeiros, não. Esses também têm o que eu queria ter, mas, muitas vezes, pagam o preço de uma família insuportável, vivem numa selva emocional, de competição e vazios que eu não invejo. Refiro-me ao sujeito comum, assim como eu, que por ordem da Mãe Suprema, Dona …
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17 outubro
Lasanha
E a lasanha deu certo. Sim, confesso que por um momento eu duvidei que o resultado final ficaria bom. Minha filha decidiu fazer sua receita a partir de outra receita. Explico. Começou com o pedido dela para fazer lasanha. Cantei de felicidade. Concordei que ela deveria fazer diferente da que a avó faz, claro. E fui em busca da receita. Ela leu e disse que queria fazer do jeito dela. Engoli em seco e perguntei do que se tratava. Não queria presunto. Tudo bem. Nem pimenta do reino. Me espantei. Ponderei que tirar tempero não dava. Era essencial para dar sabor. Ela estava irredutível e ai apelei: perguntei se já tinha provado. Disse que não. Peguei um pouco e pus na mão. Arregalou os olhos azuis como se tivesse visto o diabo em pessoa. Acalmei-a e já ia capitular – ela era a chef – mas para meu espanto ela concordou em manter desde que não provasse a pimenta do reino. Concordei em silêncio para não perturbar o equilíbrio cósmico que decidira a favor do sabor. Fui seu assistente. Abri lata de tomate pelado, lavei coisas e indiquei onde achar talheres. Ela temperou a carne moída, picou cebola e alho, …
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17 outubro
ENQUANTO ISSO
O tempo está sujeito a chuvas e trovoadas, o horizonte parece mais distante e inatingível como o daquelas tardes à beira do mar, quando se faz planos inúteis para o futuro. Uma garota brinca com seu cachorro na rua onde poucos carros passam. Corre uma ambulância com a sirene ligada, e eu jogo fora, mais uma vez, outro poema que escrevi sem pensar. A história é escrita diariamente por um robô, tantos fatos iguais se repetem até que fiquemos fartos. Caem os heróis de ontem, e hoje não conseguimos fabricar um novo — não tiramos ninguém de real valor do meio dessa gente de pele mole, olhos opacos e nervos flácidos. Minha memória tenta resistir, mas já conhece seu tempo de validade, e eu luto à exaustão para permanecer. Sei que só ela sobrará quando eu não estiver mais aqui. Vejo presidentes passando na rua, vejo também os opositores, e a proximidade entre todos eles me espanta. Vejo um bloco de Carnaval vestido de falsa alegria, os foliões tocam bumbo e corneta e gritam frases estridentes, mas as vozes não têm vibrato nem metal e não alcançam além dos próprios ouvidos. Ouço sobre o suicídio coletivo das baleias no Mar …
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16 outubro
O hambúrguer e o pós-estruturalismo publicitário
Lavava o banheiro num sábado à tarde ouvindo um quilométrico solo do Zakk Wylde quando uma propaganda em volume absurdo atravessou a música anunciando a inauguração da mais nova hamburgueria da cidade, naquela noite, com diversas atrações e um precinho supimpa. Toda vez que isso acontece me culpo por não pagar uns míseros reais para matarem os anúncios do aplicativo. O susto faz qualquer pessoa prestar atenção naquela porcaria por alguns segundos, malditos publicitários. O Zakk e os outros membros do Black Label Society provavelmente não se importam com a intromissão porque a plataforma deve depositar uns centavos na conta da banda de quando em vez. Eu, no entanto, continuo aproveitando a versão grátis até a curta paciência consumir as barreiras da minha verve mão de vaca. Mais tarde abri o Instagram e lá estava um conterrâneo metido a influencer fazendo o maior merchan da hamburgueria. Ele mostrava os diversos molhos e opções de lanches a perder de vista, um espaço arejado e confortável, perfeito para passar algumas horas aproveitando o bom da vida com os amigos, vez ou outra, com promoções e música ao vivo. A cidade crescia, o mundo mudava, a gastronomia davaum salto a outro patamar. Incrível …
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14 outubro
Como vejo o mundo!
Quem gosta de viver com a sombra dos outros é o cacau, cultivado em regiões com temperaturas superiores a 21ºC. O clima frio ainda prejudica a qualidade das sementes, por isso o plantio é recomendado em regiões mais úmidas e quentes. Como o cacaueiro necessita de arborização para ficar protegido dos raios solares, seu brilho e sua vida dependem muito da sombra que o protege. Viver dessa forma ou por vezes no escuro, não deveria ser motivo de desistência, apenas uma condição a ser atendida, como outras tantas necessárias para nossa subsistência. Folheando meu novo livro, descobri que além da Fontana Di Trevi, existem outras três fontes em Roma: Fontaine dei Quattro Fiumi, Fontana di Nettuno e Fontana del Moro, todas adornadas com esculturas. Ainda não tive o prazer de conhecê-las pessoalmente, porém, nenhum amigo ou outros tantos que já fizeram uma viagem a Roma, me descreveram a existência das fontes com riqueza de detalhes. O livro se chama “Como Vejo o Mundo”, escrito por Gilberto Henrique Buchmann, escritor, graduado em letras, funcionário público federal, notável viajante internacional. O Giba ilustra diversos lugares espetaculares visitados por ele, durante sua jornada de viagens internacionais independentes. Em sua infância alguns quiseram imaginar …
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13 outubro
Deixe as quinas livres!
Não é notório o peremptório pacto sobre formas de estrutura de quina nos guarda-corpos (popularmente ditos corrimãos). Deixemos que a liberdade flua por entre as forças físicas que o mantêm firme: deitemos por terra a quina, uma reta majestosamente anacrônica, que se vangloriza da sua sina – e importância ‘inforjável’(1). Estruturas… abalemo-nas! Libertemos os ângulos, para que sejam mais agudos ou obtusos aos olhos de um passante com tempo livre – cada vez mais curioso… raro é o observar; os ângulos podem ser o que lhes convir, a torto ou a direito – tudo é ilusão e perspectiva. Um guarda-corpo sem discernimento pode se encontrar na esquina de si mesmo – ou foi o ponto no qual entendeu-se perdido? Labiríntico idílico! Interface por interface, sejamos ousados no trilhar dos nossos limites: esquecei os ângulos retos! O mundo não está mais para a certeza do que já foi traçado. A complexidade dita, as pernas de ponta a cabeça sem que as veias se exaltem e o sangue avermelhe-nos a face, pelo rigor da gravidade – nem esta é contínua no mundo ubíquo da tecnologia. Hoje, em 2024, é possível contratar um pacote turístico com destino à Lua. Deixar um avatar artificialmente …
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13 outubro
Caminhos da Jordânia
A Jordânia é quase toda um deserto de areia e pedras, mas definitivamente vale a pena visitá-la, em especial Petra. Por enquanto, coloque o país na sua lista de destinos a fundo perdido, já que as coisas por lá andam complicadas. Os conflitos da região são milenares e periódicos, assim como as tréguas. Espere uma oportunidade e acredite: é possível. No entanto, se você tiver que esperar até ficar velho demais, desista de Petra. Uma visita básica, sem explorar todos os monumentos significa andar a pé uns dez quilômetros, sob sol escaldante se for verão. Eu andei cerca de doze e acabei recorrendo a uma carroça puxada por um pobre cavalo. A pena que senti de mim superou a que senti dele, então deixei culpa e a empatia para depois. Em alguns trechos você também pode optar por carrinhos elétricos, camelos ou burricos, mas aviso: se escolher os simpáticos animais sua roupa vai se lembrar do cheiro por muito tempo, quiçá precisará livrar-se dela para sempre. A volta de Petra para Amã foi de carro, um serviço excelente e confortável, em uma van com apenas três passageiros cujo simpático motorista mal sabia duas dúzias de palavras em inglês. Na estrada …
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12 outubro
Ao mestre com carinho
Dia 15 de outubro sempre foi uma data importante para as crianças, momento de demonstrar o carinho por seus mestres. Para alguns a escolha é simples, pois com pouca imaginação podem comprar um presente convencional que certamente agradará. Não foi o caso de Lucas, não. Naquele ano, queria muito homenagear seu professor preferido, o de biologia. Um homem apaixonado pela profissão e que tinha uma vida bastante solitária depois da morte da esposa. Por esse motivo, o menino queria que o presente fosse algo que pudesse preencher esse vazio. Depois de muito queimar as pestanas, teve uma ideia inusitada, certo de que ninguém na sala o superaria no quesito surpresa. Sabendo da predileção do mestre pelos répteis, começou a pesquisar como poderia presenteá-lo com um espécime que fosse adaptável ao ambiente doméstico. Inicialmente pensou em um jacaré, pois já tinha ouvido falar de pessoas que criam crocodilianos em tanques na residência. Como não sabia se ele teria espaço para um réptil desse porte, descartou a ideia. Fez então uma lista de requisitos que o rep-pet deveria atender: não fazer barulho, não atacar, não defecar grandes quantidades, não precisar ser alimentado, não destruir móveis, não comer roupas ou livros e, por …
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10 outubro
Panqueca
Pai vamos fazer panqueca? A pergunta-convite me acendeu os olhos de alegria! Chequei se tinha tudo que ela precisava. Sim, nada faltava. Peguei um avental para cada um e fomos à cozinha. Estava radiante, afinal cozinharia com uma de minhas filhas. Prometi ser seu assistente. Abri o livro com a receita, ela se inclinou sobre a página, concentrada. Separou os ingredientes, testou os ovos (Não sabe como faz? Põe na água, se boiar joga fora). Se enrolou um pouco com aquela estória de colher de café, de sobremesa e de sopa. Mas quando começou a operação percebi que estava diante de alguém de padrão muito elevado. A farinha foi medida no copo medidor com uma precisão de deixar qualquer câmera de trânsito, daquelas que flagram os infratores, no chinelo. E os ovos? Nem na próxima encarnação serei capaz de quebra-los com aquela eficiência. Nem um caquinho da casca caiu no liquidificador. Depois de misturar a massa – o que é mesmo homogênea, papai? – chegou a vez de aquecer a frigideira. De primeira, ligou o fogão com uma intimidade de chef de cozinha. E veio o toque especial: com um gesto quase diáfano estendeu uma camada fina de massa na …
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10 outubro
VISITA AOS MUTANTES
Retornarei ao planeta Terra daqui a dois ou três mil anos A guerra será uma vaga lembrança do tempo em que todos éramos bárbaros. Saudarei os mutantes que aqui permaneceram e direi a eles: “Vim desde o terceiro milênio para vê-los e conhecer a vida que levam hoje. Gozam todos de boa saúde? Encontraram o que buscavam? A paz, a felicidade, a fartura?” (Naquela época os homens criaram armas nucleares de grande potência para arrasar cidades e aniquilar inimigos, destruir lavouras de alimentos e os bichos que se movimentavam na superfície da terra e dentro dos rios. Foi o que aconteceu na Era das Trevas, quando os humanos inventaram um ser à sua imagem e semelhança e se dedicaram a matar em nome dele.) Intuo que os mutantes não compreenderão sobre o que falo. Sei que me olharão com espanto e voltarão em silêncio ao que faziam antes da minha chegada. Entrarão novamente na caverna para adorar a imagem de seu deus, que é uma nuvem alaranjada em forma de cogumelo.
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9 outubro
A razão da crônica
Escrevo esta crônica pensando na razão de escrevê-la! Por que escrever uma crônica? De que me serve a crônica? Mas qual seria a razão de todas as crônicas? Dizem que a crônica é metida a besta porque ora é prosa, ora é poesia, ora é ensaio, ora não é nada… Dizem os estudiosos que a crônica é o testemunho de um tempo, o registro dos homens e seus conflitos. Dizem ainda que a crônica é o texto do dia, da linguagem do dia, das questões do dia… Muitos concordam que a crônica está intimamente ligada ao calendário, aos fatos corriqueiros… Mas, se for assim, a crônica nasce inevitavelmente velha, fadada ao nada, ao ostracismo. Como um número, um dia um mês, um ano… No entanto, creio que a crônica é muito mais que o dia! Ela é uma voz, ou melhor, as vozes de todos os cronistas que, atentos ao mundo e aos outros, escrevem sobre o amor e a tristeza, sobre os sucessos e os fracassos, sobre a vida e a morte, o trânsito, a rua cheia e a rua vazia, o beijo dos namorados, os encontros e os desencontros, os sabores e os dissabores, o que é eterno …
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8 outubro
O tamanho de seu ressentimento!
O ressentimento nasce dentro da culpa que o indivíduo criou, em detrimento de algo que alguém pretensiosamente provocou para chegar em sua condição atual inaceitável. O mais difícil é entender porque isso não passa. A versão provável desse drama é a de que essa queixa se mantém porque ele terá que assumir que foi ele quem fracassou em algum momento, e não os outros que provocaram o problema. A pintora Maud Lewis, foi retratada no filme “Maudie”, que narra sua vida de artista em Nova Scotia no Canadá, passada com muito sofrimento até sua morte aos 67 anos. Ela vivia com a tia que a tratava como inválida, não deixava Maud sair, era muito grosseira e a escravizava nos serviços domésticos. Maud então vê a oportunidade de se livrar dessa tia, quando encontra um anúncio em uma loja, para contratação de doméstica, e se candidatou para assumir os serviços a um homem rude, de poucos recursos, que veio a ser seu marido. A artista se manteve pobre em grande parte de sua existência, e permaneceu em uma pequena casa ao lado do esposo. Ela foi uma excelente pintora, porém, sua condição de saúde reduziu a mobilidade de suas mãos, que eram o principal instrumento nas pinturas. Sua mãe Agnes foi quem influenciou …
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5 outubro
Relações fluidas
Situationships, termo que entrou na moda por volta de 2017, vem ganhando cada vez mais espaço nos últimos anos. Ele se refere a relações que se baseiam em uma conexão emocional sem compromissos ou planos, sem rótulos. O termo se tornou popular a partir do crescimento dos aplicativos de relacionamento, que introduziram o conceito de match. No entanto, esse tipo de conexão vai além de uma simples “ficada” ou encontro casual, pois existe uma ligação emocional e íntima entre os que dela participam, mesmo que de forma fluída e não permanente. A possibilidade de relações intensamente mutáveis, como no situationship, remete ao conceito sociológico de modernidade líquida, desenvolvido pelo acadêmico Zygmunt Bauman. Sem me aprofundar no tema por ele desenvolvido, a ideia central do autor é de que a contemporaneidade vem transformando as relações sociais e interpessoais, em relações frágeis, fugazes e maleáveis. No âmbito amoroso, elas se tornam susceptíveis a transformações rápidas e imprevisíveis, dando origem ao conceito de amor líquido, que é caracterizado pela fragilidade, pela falta de compromisso duradouro e pela busca constante por novas experiências e conexões. Pensando em uma linha do tempo da vida amorosa, as relações fluidas parecem ser um caminho trilhado atualmente pelas …
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3 outubro
Sem grilhões
Li agora a pouco, cinco minutos dentro do dia 1º de outubro, que ninguém pode ser preso no Brasil. Calma, não foi instituído nenhum perdão antecipado para crimes e criminosos e muito menos entramos no estado do “vale-tudo”. É só efeito da legislação eleitoral, cujos detalhes não sei nem conferi e se você que me lê estiver muito curioso vai lá e pesquisa, combinado? Porque o assunto aqui é outro. Bom seria se pudéssemos nos livrar dos grilhões antecipadamente. As amarras da vergonha e do medo. Não sentir culpa por nada. Não evitar o ato pela mania besta de antecipar que pode dar errado. Correr riscos, sim, porque o desconhecido nem sempre é ruim. Andar de cabeça erguida sem temer o dedo acusador, a censura. Expressar quem você é e o que deseja ser. Não se envergonhar porque abriu a porta errada e ter coragem de dar um passinho para trás. Suspirar profundamente ao invés de responder o que não merece resposta. Afirmar que beber café em pé é melhor porque a bebida desce mais fácil. Defender por menos de um minuto uma tese sem sentido, como essa aí de antes do café. Mas não abrir mão da cerveja sem …
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2 outubro
Baixo retrato
Sou Cassionei Niches Petry, 45 anos (com corpinho de 44 e meio), trabalho como professor, pois nenhuma outra profissão me aceitou. Cabelos: ainda tenho, começando a rarear e clarear. Altura: alguma coisa entre 1,60m e 1,69m. Peso: entre 1kg e 105kg. Uso óculos de lentes grossas (que aumentam consideravelmente os números da balança), tenho miopia e um pouco de astigmatismo, os graus eu não lembro e não encontro a receita do oftalmologista, que ainda por cima escreveu com letra pequena, sacaneando o paciente. Quando nasci, a família morava num porão de um CTG, portanto vim ao mundo com o peso da tradição gaúcha sobre mim, mas bah!, logo me livrei, tchê!, e hoje sou um cidadão do mundo que nunca saiu da sua cidade, Santa Cruz do Sul, cidade inapropriada para um ateu viver. Tenho uma união estável com a mulher que me incentivou a continuar estudando e por isso me livrou de ser um rapper sem sucesso e ainda, o melhor, me deu uma filha, por sorte mais bonita e inteligente do que o pai. Prato predileto: prato fundo, de preferência com bastante carne de churrasco. Gosto de ler livros, ouvir música lendo livros, assistir à TV lendo livros, …
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2 outubro
Empolgação mata
Os primeiros duzentos metros foram tranquilos, com exceção do tênis apertado e da provável gestação de uma bolha no calcanhar. Também apareceu a taquicardia, a omissão do fôlego e o arranhar dos joelhos, mas estava tudo bem. Só depois, talvez na casa dos trezentos, brotou-me a desconfortável memória muscular de uma distensão na virilha. A caminhada até lá foi uma tentação. Afinal, por qual motivo haveria tantas barraquinhas de cachorro-quente, sorveterias e pastelarias no entorno da pista de atletismo? Aquela pastelaria, aliás, vendia uma inesquecível coxinha recheada de frango com catupiry. Entendi a prerrogativa comercial quando notei as várias pessoas com corpos atléticos e suados abocanhando lanches gordurentos após o treino. A cena é inclusive ofensiva para os mais roliços, que, digamos, salivam desmedidamente. O primeiro puxão chegou mais ou menos nos seiscentos metros, mas o peguei como um toque de ansiedade. O ritmo das passadas vinha diminuindo enquanto assaduras ensaiavam um tango argentino no entremeio das minhas coxas. O corpo inteiro arquejava clamando por meio metro de sombra, descanso e água. A ansiedade costumava chegar aos cutucões, então brinquei com o perigo achando se tratar de outro caso ansiolítico. Na terceira ou quarta pontada corei de vergonha porque revelaria …
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1 outubro
Vertigem
Se olham, se pressentem, se desejam,se acariciam, se beijam, se desnudam,se respiram, deitam juntos, se cheiram,se penetram, se chupam, se demudam,adormecem, despertam, se iluminam,se apalpam, se mastigam, se babam,se confundem, se encaixam, se machucam,se apertam, se beliscam, estremecem,se tateiam, se grudam, desfalecem,se repelem, se chutam, se provocam,se irritam, se cospem, se esbofeteiam,se enlaçam, se apartam, se procuram,se lambem, se mordem, se ferem,se apressam, se perfuram, se injetam,desmaiam, revivem, resplandecem,gritam, se querem, se perseguem,se inflamam, enlouquecem, se abrem,se derretem, se soldam, se incendeiam,se maldizem, se xingam, mentem,sentem cãibra, torcicolo, tendinite,estrebucham, arregaçam, empinam,praguejam, se odeiam, se matam,ressuscitam, se buscam, se esfregam,choram, se acalmam, respirame se amam.
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set- 2024 -30 setembro
A falta da falta!
Qual é o tamanho de seu universo, onde se encontram os que você se relaciona e mantém a memória de seus antepassados. Ele cabe em sua gaiola mental que demonstra a frágil tentação em imaginar uma possibilidade de liberdade. Por vezes, nos faz ter medo em avançar para novos rumos, mas que durante o caminho em verdade voz digo, a única coisa que devemos temer é o próprio medo. Assim surgem expressões no rosto como símbolo de uma trajetória, e como o tempo é o tecido de nossas vidas, o desenho em sua face demostra a diferença entre a experiência e a vivência. A experiência é aquele momento em que você compartilha através de uma história bem contada e que deseja que outros saibam os detalhes que lhe marcaram. A vivência é nossa existência que acontece todos os dias no mesmo instante que respiramos para nos manter ainda por aqui. A psicanalista Maria Rita Kehl em seu livro “O Cão e o Tempo”, escreve para nós leigos no pensar, que aquilo que abate o depressivo é a falta da falta, podendo ser entendida pela inexistência do que fazer, ou uma vida vazia, que não foi preenchida com alguma atividade útil …
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28 setembro
Ulisses
Silas e Douglas eram escritores iniciantes. Assistindo a uma conferência num evento literário, ouviram do palestrante que dois importantes autores portugueses haviam decidido escrever um livro juntos: o primeiro redigia um trecho, o outro continuava a história. Silas e Douglas resolveram reproduzir essa ideia. O resultado da experiência pode ser conferido a seguir: “Ulisses jamais foi visto na companhia de outras pessoas. Nunca cumprimentava os vizinhos, não tinha amigos, parentes nem animais de estimação. Também não tinha emprego. As pessoas comentavam que vivia de herança. Morava na última casa da vila fazia pelo menos quarenta anos. Dona Mirtes, atualmente com 90 anos de idade, era a única moradora do lugar mais antiga do que ele. Quando uma loja de roupas femininas foi inaugurada nas redondezas, Ulisses passou a postar-se diante das vitrines por horas, queria examinar cada detalhe das roupas expostas. Se alguma vendedora vinha ao seu encontro oferecendo ajuda, ele a repelia com um gesto rude”. O pessoal da loja até chegou a chamar a polícia. Só que Ulisses não estava cometendo crime algum, e nada pôde ser feito contra ele. Esse doido espanta os fregueses, alegou a gerente. Em vão. Um dia, Ulisses passou a fotografar os modelos. …
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25 setembro
Os Marçais e os tais
Eles invadiram o Brasil! Na malandragem, na picaretagem, com suas falas instantâneas e posturas messiânicas, são virais! Destroem debates e cérebros e querem muito mais! Dividem o país já dividido, Entopem o sistema já entupido com suas porcarias e quinquilharias digitais!Eles são os Marçais!Têm, todos eles, algumas diferenças, mas, no fundo, são iguais:Egoístas, egolatras, estúpidos e fenomenais!Fenômenos nas bizarrices, nas idiotices, nas fanfarronices eleitorais!Vão ganhando seguidores atrás de seguidores! Na sua ignorância, são tratados como doutores, como pessoas especiais!Ganham rios de dinheiro, o ano inteiro com fórmulas triviais!São grandes imbecis, mas se vendem como geniais!Eles são os Marçais!No fim de tudo, em terra arrasada, ensinam o impossível e o intransponível!Entre emblemáticas afirmações, vendem tudo: pátria, caráter, sentimentos e emoções!São profissionais, os Marçais,Vendedores de ilusões!
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24 setembro
Acordei…
Felícia se achegou ronronando, olhei o visor do celular e apenas passei a mão nela, a minha gata amiga e companheira. Nem a olhei, não era hora de comer e, se ela tem os truques dela, eu também desenvolvi os meus. A convivência, a rotina faz dessas coisas. Eu e ela não brigamos, nem criamos traumas. O que não é comum entre pessoas, ah não! Como assim? Ora, se não há conflitos, os experts em palestras, cursos, imersões e demais produtos para destravar “gatilhos”, curar a criança interior, ressignificar e todas essas maravilhas não sobreviveriam! Se não estivermos “alinhados”, a solução está aí, ao nosso alcance , em suaves ou nem tantas parcelas mensais. É inadmissível que nós, pessoas esclarecidas e atualizadas com as inúmeras soluções disponíveis, ainda não estejamos “terapeutizados” e vivendo prósperos e felizes! Resolvi diminuir o tempo, procurei alguma leitura interessante no celular. Lixo. Anúncios e quetais de coachs, vendedores de pó (não me entendam mal!) e chás, para reumatismos, gastrites, quedas de cabelos, impotências, e o que você precisar. Olho o mostrador do celular. A hora avançou, mas o sono não retornou. Continuei a me ocupar no infinito mundo virtual, até que cheguei ao threads… Não, …
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24 setembro
Montanha pedregosa!
Estamos passando como o tempo, deslizando semelhante à água em recantos brumados, serenos e constantes. Nossos corpos não são mais como há alguns anos, porque se esgotou a textura, a firmeza e os sonhos. Muitos deles se apagaram com o chegar de noites duras e críticas, nem sempre fáceis de encontrar soluções e que frequentemente batem em nossas portas. Que caminho você escolheu para hoje onde aparece um novo dia, apesar da amargura de ontem, apesar da nova solidão inerente a sua existência, cansada de insistir na felicidade? A forma de nossas lágrimas não modificam o choro, mas parece que é mais profunda, e o significado está completo de dúvidas, que pairam ao tentar entender o amanhã. Será que vivemos o suficiente, será que fizemos nosso melhor naquele tempo que ganhamos? Um senhor chamado Jan Harman Imigrante alemão, católico fervoroso, mas vivendo em um país protestante encontrou uma maneira de realizar suas preces com outras ovelhas de seu rebanho. Decidiu comprar três casas vizinhas em 1661, e as uniu para construir a igreja no sótão. Foi um plano maluco, mas cheio de fé e que preencheu seu coração, de muitos de seus amigos e outros tantos que compartilhavam da mesma …
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23 setembro
UM ESCÂNDALO
Nem bem entrou no vagão do metrô, você ouviu os aplausos. Os passageiros que lá estavam o olharam e começaram a bater palmas em sua direção. Quem lia dobrou o jornal, os outros olhos saíram da tela do celular e todos passaram a aplaudir, aplaudir. Os velhos sorriram e balançaram a cabeça em aprovação. As crianças se assustaram com o barulho. Os jovens eram os mais estridentes, juntaram gritos e assovios aos aplausos. Era um modo teatral de aplaudir, pausado, ritmado, uníssono, como costuma acontecer no final de uma peça, em que os atores saem do palco e voltam em seguida para agradecer outra vez o entusiasmo do público. Como um bicho solitário dentro de uma jaula, sentindo o peso do olhar de todos, você não sabe se sorri ou se cobre o rosto, envergonhado. Não sabe se mostra gratidão pelos aplausos. Não sabe por que está sendo ovacionado. Você não sabe nada. Na estação seguinte, mal as portas se abriram, você saltou e correu desembestado pela plataforma. Não olhou para trás, não quis sofrer mais do que sofre diariamente. Mirar-se no espelho todas as manhãs e confirmar o engodo e a fraude em que tinha se transformado já era …
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23 setembro
Encontro de ponteiros
Desde pequena ouço dizer que tudo na vida tem seu tempo. Não que eu duvide dessa afirmativa, mas me causa profunda irritação o fato de que nós (eu e o tempo) temos ritmos, velocidades, cadências e interesses distintos. Pelo menos, no que diz respeito às minhas expectativas, o mocinho sempre se mostra desatento, desorganizado e procrastinador. Não importa se tenho pressa de saber o resultado de uma prova ou entrevista, de receber uma ligação importante ou ouvir um “eu te amo”, o tal do tempo vem lento, pesado, arrastando o chinelo pelo caminho das horas.Contudo, sua chegada, ainda que tardia, inaugura esperanças, ânimo e novas possibilidades. O danado, na maioria das vezes, me desaponta, frustra, estressa, mas quando bate na porta, com seu jeitinho jocoso, traz com ele um alívio, um gosto de algodão-doce, uma promessa de roda gigante que só me resta abrir os braços e sorrir. É verdade, tudo tem seu tempo. Ainda bem! Há tempo para começar, curtir, terminar. Sempre é tempo de se reinventar, ressurgir, renascer. Enfim, chegou o dia de recomeçar no Crônicas Cariocas. Tempo de florescer as mais belas cores. Retomar caminhos inaugurando um novo percurso. Bem-aventurado seja todo primeiro passo que encerra a …
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23 setembro
Crônicas Cariocas: Voltamos
Crônicas cariocas das ondas do mar. Rio, calçadão, agitação… Isso me faz pensar! Crônica capixaba, mineira, baiana.Crônica pernambucana, gaúcha, paraibana!Crônicas de todo lugar!Crônicas de vento,Crônicas de ar!Crônicas das montanhasE crônicas para confabular!E assim, desde 2006, o Crônicas Cariocas mostrou um Brasil inteiro: homens e mulheres de vidas tão singulares!No entanto, aproximando norte e sul e seus diversos olhares, textos e mais textos registraram vida, amores, perplexidade. Revelaram a contradição, o senão e as coisas da cidade!E assim, o Crônicas Cariocas, com música, dança, cinema, confete e serpentina e até mesmo uma literatura canina nos emocionou!Palavras, imagens, sons e pura arte nos contagiou!Esta crônica com cara de poesia, assim se veste para derramar alegria! De parágrafo em parágrafo vai afinando a melodia para convidar leitores e leitoras a embarcar na fantasia!Mas que fantasia?A de um mundo de cultura e resistência!Malemolência, irreverência…Que muitas e muitas crônicas sejam feitas por aqui! Com leveza ou aspereza, com olhar duro ou sutileza, não importa! Importa que contem histórias e construam nossas memórias!Ah! Essas crônicas cariocas…
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23 setembro
Sobre dentes e livros
Retomando a minha colaboração com o Crônicas Cariocas , que retorna aos leitores, pensei em escrever mais crônicas do que críticas, meu foco na fase anterior do site. De certa forma, porém, não deixo de falar sobre livros, pois eles servem de ponto de partida para minhas elucubrações, ainda mais quando refletem justamente sobre algo do meu cotidiano. Foi o que aconteceu por esses dias, quando tive que enfrentar duas dentistas e, por coincidência, me caiu em mãos certo livro policial que envolve dentes. O dente é uma das provas de que a natureza é imperfeita. Quem acredita em um Criador, jamais pode dizer que ele primou pela perfeição. Não me venham com chorumelas!, como diria um personagem da Escolinha do Professor Raimundo. Quer acreditar, leitor, acredite, mas não tente me convencer. Por que essa desgraça tem que doer, mesmo quando você tenta cuidar do dito cujo? Por que existe o tal de dente sensível? Por que a gengiva se retrai e você corre o risco de perder seus dentes? Por que diabos você tem que ter bruxismo à noite? No creo en brujas, pero que las hay las hay. É por causa do bruxismo, segundo uma das dentistas que …
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23 setembro
Crônicas Cariocas 18 anos
Depois de um ano sabático, o Crônicas Cariocas retorna, rejuvenescido, para comemorar com seus colaboradores, colunistas e seguidores dezoito anos de existência voltados à divulgação da cultura e dos autores nacionais. Vamos, juntos, para torná-lo cada vez mais um ponto de encontro de talentos da literatura.
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23 setembro
Fazer a coisa
Assim que entrou em casa de volta do trabalho, encontrou seu marido pendurado pelo pescoço na viga do teto, bem no meio da sala. Analisou a cena por dois minutos, tentando entender o que acontecia. Viu quando ele, arrependido do gesto impensado e louco, apontou para a corda que o sustentava, querendo dizer algo sem conseguir, a garganta fechada pelo nó. Esperou mais três minutos antes de ir à cozinha, calçar um par de luvas e voltar com uma faca na mão. Seu marido esboçou um sorriso de alívio quando a viu subir num banquinho para alcançá-lo. “Se quer fazer a coisa, faça direito ou então não seja burro e não se atreva”, resmungou ela, ao mesmo tempo em que executava, com o gume afiado da faca, um talho profundo nos dois pulsos do marido. O sangue começou a escorrer e a encharcar o tapete. Voltou para a cozinha, guardou as luvas numa gaveta e lavou a faca ensanguentada sob o jorro de água quente da torneira. Enquanto aguardava que o marido finalmente ficasse exangue, começou a preparar o jantar. Estava com vontade de comer lasanha aquela noite.
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out- 2022 -16 outubro
Labuta de um quase concurseiro
Joguei meus cadernos no lixo três semanas antes de saber que o concurso ia sair. Foram dois anos estudando, minguando as horas de sono e deixando o lazer para depois. Fumava uma carteira de cigarros por dia e isso era toda a minha diversão. O restante do tempo, ou trabalhava na loja ou estudava. Alguns amigos com quem saía me abandonaram, parece que desertei da vida ou virei um alienígena. Se pensar bem, no nosso país, quase todo mundo que estuda a sério é meio alienígena. Sempre fui vidrado nos livros do Erich Von Däniken e confabular sobre os deuses astronautas é um dos meus assuntos preferidos. Eu gosto dessa coisa de alienígenas. Talvez pensar que exista algo mais inteligente que o homem (o que não é muito difícil) em algum lugar por aí, me faça ter um tantinho de esperanças de que a vida não seja só isso, sabe? Só esse negócio da realidade construí por boa parte da vida, que se resume a trabalhar, trabalhar, trabalhar, esperar ansiosamente o fim de semana, beber igual uma jamanta no cio para esquecer a semana ou para tentar transar, passar o domingo regado a chás e remédios, e recomeçar. Trabalhar, trabalhar, …
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