Crônicas

Crônica para Cronistas

Você que faz crônicas, que olha para a rua, para os rostos, sente o vento e insinua um parágrafo…

Você que, no banco de uma praça ou em uma calçada, vê o movimento da vida e escreve…

Você sabe o peso de uma crônica?

Escrever crônicas é traduzir o complexo jogo da vida. É colocar em palavras o gesto, o beijo, a conversa, a fila e a briga, o trânsito, o nada e a terrível falta de assunto…

Entretanto, antes de qualquer coisa, é preciso reverenciar quem tornou a crônica esse texto tão especial, multifacetado e acessível!

Quando penso em escrever uma crônica, peço licença aos mestres que escreveram tantas crônicas simplesmente geniais!

É impossível pensar na palavra crônica e não pensar em tantos cronistas…

O domínio do humor em Veríssimo! A sensível ironia de Machado! O manuseio das palavras e o senso de observação de Drummond!

E a poesia de Rubem Braga!!? Passarinhos e passarada!

A vida conflitante de Clarice!? Apertos, acertos e desacertos! Quem foi que me disse?

E ainda apresentam o corte, a força, a leveza e o tempero Paulo Mendes Campos, Lourenço Diaféria, Fernando Sabino…

Ah! E o cenário carioca sem igual em João do Rio? O Rio tão belo em João, nas suas ruas e nas suas cores! João e sua emoção!

Você já ouviu falar no Sobrenatural de Almeida? Definitivamente, a crônica esportiva ganhou sua forma com Nelson Rodrigues!

Gingando com as palavras, soube driblar os adjetivos desnecessários outro cronista do futebol: Armando Nogueira!

A crítica e o engajamento de Lima Barreto! O Brasil e os seus fantasmas!

E muitas crônicas certeiras e, por que não, faceiras, escreveram também Cecília, Antônio Maria, Vinícius, José Carlos Oliveira…

Otto Lara Resende e Stanislaw Ponte Preta.

A crônica deve a todos os cronistas de ontem a caminhada, a formidável estrada, construída texto atrás de texto!

A partir do momento em que início uma nova crônica, sei da responsabilidade que tenho ao escrever!

Sei de todos esses nomes e histórias que fizeram da crônica o texto mais brasileiro de todos: irresistivelmente irreverente!

Um texto tão feito da gente que parece conversa, olho no olho, fala ao ouvido, abraço convidativo, enfim, a crônica nossa de cada dia…

Campista Cabral

Campista Cabral, leitor assíduo dos portugueses Camões e Pessoa, do poetinha Vinícius, herdou deles o gosto pelo soneto. A condensação dos temas do cotidiano, assim como a reflexão sobre o fazer poético, parece procurar a sua existência empírica ou, nas palavras do poeta, um rosto perfeito, na estrutura do soneto. Admirador e também leitor obsessivo de Umberto Eco, Ítalo Calvino, José Cardoso Pires, Lobo Antunes, do mestre Machado de Assis e do moçambicano Mia Couto, retira dessas leituras o gosto pela metalinguagem, o prazer em trabalhar um espaço de discussão da criação literária em sua prosa. A palavra, a todo instante, é objeto base dos contos e das crônicas. A memória, o dia-a-dia, o amor, as sensações do mundo e os sentidos e significados da vida estão presos nos mistérios e assombros da palavra.

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