Poesias de 1 a 99

Poema #03: Oferenda

Da onda ao pé da praia,
recolho as relíquias do mar:
sigilo
deslumbrante encanto
pronúncia sincera de uma fé sem dogmas.

Preservo meus amuletos.
Quisera crer somente na força
das águas que os trouxeram,
banhados em luz e sal,
sutil religação do corpo ao mistério.

Algo estranho, porém, corta
minhas mãos, meus pés.
Fio afiado de faca
cravado nas costas da mansidão.
Em vão vasculho a areia:
misericórdia amor tolerância
estão enterrados tão fundo
que sequer a mais teimosa esperança
pode trazê-los à tona.

Os detritos e os dejetos
de uma deturpada devoção
soterram sem piedade
o que um dia foi oferenda.

Felipe Duarte de Paula

Felipe Duarte de Paula nasceu em 1987. Formado pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, é promotor de justiça. Mora com a família em São Paulo. Em 2024, lançou o livro de poemas Vida selvagem, pela editora Patuá, disponível em https://www.editorapatua.com.br/vida-selvagem-poemas-de-felipe- duarte-de-paula/p e em https://www.amazon.com.br/Vida-selvagem-Felipe-Duarte- Paula/dp/655864794X

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