Poesias de 1 a 99

Poema #47: Andarilho deitado

O vento sopra um frio doido e esquisito
na curva da esquina de um terreno baldio.
Estou entre sapos e grilos e entulhos de lixo,
atrás de um muro quebrado e com muitos cacos
de vidro onde me escondo dos meus inimigos.
Apaguei todas as luzes da esperança
e estou sendo mordido por cachorros de rua.
“Atualmente eu vivo rodeado por minhas
paixões defuntas”. Todas inclusive,
menos uma delas: a paixão do absoluto.
Ando sozinho pelas ruas de bairros e ouço:
(você quer pegar os balões? Coitado, mas
eles são feitos de sonhos que estão muito
acima da sua compleição). Talvez nunca,
quem sabe, mas eu acabei de comer agora
uma casca de pão e um pedaço de linguiça
como tira-gosto da pinga. Houve uma época
distante em que eu comia arroz e tomate
nos degraus da escada de uma igreja no alto.
A vida estava lá embaixo, mas havia pessoas comigo.
Hoje eu quero morrer sem contar pra ninguém que eu fiz isso.

Uma Escada que Deságua no Silêncio

Milton Rezende

Milton Rezende, poeta e escritor, nasceu em Ervália (MG), em 23 de setembro de 1962. Viveu parte da sua vida em Juiz de Fora (MG), onde foi estudante de Letras na UFJF, depois morou e trabalhou em Varginha (MG). Funcionário público aposentado, morou em Campinas (SP), Ervália (MG) e retornou a Campinas (SP). Escreve em prosa e poesia e sua obra consiste de quinze livros publicados e quatro e-books. Fortuna crítica: “Tempo de Poesia: Intertextualidade, heteronímia e inventário poético em Milton Rezende”, de Maria José Rezende Campos (Penalux, 2015).

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