Crônicas

  • Veganismo

    O costume de consumir cadáveres de animais grelhados, vulgarmente conhecidos como ‘churrasco’, está encravado em nossa civilização, associado a um congraçamento pagão, envolvendo farra, uma informalidade ligeiramente transgressora e, não raras vezes, embriaguez.

    Os propalados malefícios da carne, especialmente a vermelha, à saúde não parecem sensibilizar as pessoas, com hábitos de cultura alimentar arraigados e pouco propensas a abrir mão do primitivo prazer carnal. É inimaginável um encontro da patota no fim de semana para assistir futebol e tomar cerveja, tendo à mesa um prato de tofu grelhado com broto de feijão ao molho shoyu.

    Um método poderoso de tornar-se vegetariano é fazer uma instrutiva visita a um matadouro ou a uma avícola, a fim de presenciar in loco o espetáculo grotesco de como os pobres e pacíficos animais são assassinados para que lhes seja arrancada a carne. Carnificina! Se o estômago aguentar a experiência, pelo menos, nunca mais vai apreciar uma picanha da mesma maneira. Não pesando na digestão, pesará na consciência. A carne não mais descerá impune.

    Ao contrário do que acontece quando nossos dentes dilaceram um pedaço daquele tecido muscular, portador do terror da morte em suas entranhas, a conexão nutricional com os frutos da terra é um enlace com a vida. Ainda que uma planta possa conceder sua vida para nos fornecer alimentação, não há sofrimento e dor nessa entrega.

    Quando a cadeia alimentar realiza-se entre o animal homem e o vegetal, o ciclo da vida fecha-se de maneira conservativa. É sabido que a pecuária é uma das atividades mais impactantes sobre o meio­-ambiente em termos de devastação de florestas, utilização de insumos e efeitos sobre o aquecimento global. Esta razão já seria suficiente para repensar os hábi­tos alimentares: adotar uma prática ambientalmente correta.

    Ingerir vegetais é trazer o espírito da selva para dentro do corpo. Interagir com a natureza, extrair dela a essência da vida, integrando-se ao espírito de Gaia. É resgatar nossa dí­vida com o planeta, contraída nos descaminhos da civilização que descambou para práticas antropo­cêntricas. É conectar-se com o Universo e com Deus. E seja lá Ele quem for ou onde estiver, estará a léguas dos fast foods, das praças de alimentação e do alvoroço que cerca refeições feitas às pressas nos shoppings da vida.

    A prática básica que leva a essa ruptura é a inserção da salada nas refeições. Tenras folhas de alface, escarola, rúcula, agrião, colorizadas por fios de beterraba e de cenoura, brotos de alfafa e fatias de tomate caqui, regadas com azeite, sal e limão. Uma salada no almoço instala um oásis interno e capacita-nos a voltar com leveza à aridez da vida cotidiana.

    Substituir folhas verdes frescas por ali­mentos industrializados, cheios de aditivos e conservantes, é, com perdão da expressão, um ‘desplante’!

    Para reverter essa situação, uma boa técnica é um banho estomacal verde. Saturar o organismo de clorofi­la. O ideal é já começar o dia com um suco detox. É o sabor da vida descendo pelo gogó até se instalar refrescante no estômago. Ao sair do liquidificador ou do processador, é possível entrever uma aura verde fluir energeticamente do interior daquele líquido espumante, provinda da fusão de elementos vitais que concorrem para a mistura exta­siante. Parecemos estar sob o efeito do pó de pirilimpimpim. O perfuminho da clorofila remete ao mistério das florestas tro­picais virgens. Com algum esforço, é possível ver duendes e fadas bailando em torno do copo. Um exército de micronutrientes transporta­dos pelo caldo da trituração invade o intestino e instala a livre circulação no aparelho digestivo.

    Se você estiver anestesiado pelo sabor edulcorado do açúcar e do ciclamato dos refrigerantes, ener­géticos e outras drogas industrializadas, é preciso um estágio antes de receber o choque verde de Avatar. Procure ir introduzindo elementos naturebas no cardá­pio. É preciso ‘implantar’ em nosso organismo o sabor das florestas tropicais. Aos poucos. Não adianta botar o carro de alfaces na frente dos bois.

    Voltando à vaca fria, uma sugestão seria adotar dieta vegetariana nos presídios. Certamente essa medida aumentaria a taxa de regeneração, além da economia para o contribuinte, já que alface é bem mais barata que coxão mole. A carne insufla a violência. Rituais de brutalidade combinam com álcool e carne. Alguém já viu um estupradorvegetariano? Um criminoso que passe cinco anos comendo legume e arroz integral seguramente terá maior chance de retornar à sociedade em melhores condições de amar a vida e respeitar o próxi­mo.

    Talvez seja só uma utopia. Mas tenho a convicção de que um futuro melhor não depende apenas de mudanças político-sociais. É preciso uma revolução pessoal em que cada indivíduo conceba o mundo de maneira mais solidária aos demais seres vivos. A dieta vegetariana ou vegana faz parte dessa transformação.

  • Oração para os fortes

    Ultimamente tenho pensado na diferença entre maturidade, alienação e libertação existencial. A reflexão surge com base nas situações em que algo nos incomoda, aborrece ou se mostra absurdo, e, por diferentes justificativas, silenciamos ou entubamos em nome do perdão. 

    Como saber se essa atitude tão altruísta tem poder digestório ou infeccioso?

    Uns dizem que amadurecer é escolher as lutas. Outros afirmam que calar para evitar desgastes é uma forma de superioridade. Há quem pense que toda evolução espiritual depende da irrestrita aceitação das falhas humanas. 

    Será que é mesmo assim? 

    E se amadurecer for se permitir não tolerar, resignar ou recomeçar? 

    E se evoluir for romper tratados que ameaçam as fronteiras da paz interior?  

    Uma coisa é certa, evoluir é jamais desistir do que nos habita no íntimo. Mesmo que isso signifique seguir em frente, aparentemente, só. 

    Atentemos para as armadilhas sórdidas da aceitação. Algumas coisas são inegociáveis. Perdoe-se quando não puder perdoar.

  • O COMPLÔ

    Não se sabia se aquilo era um fórum, uma assembleia ou um bate-boca de desocupados. O certo é que lá estavam reunidos uns tipos estranhos — umas figuras! A primeira a falar foi Metáfora, que desde o início, contra a opinião de Metonímia, autointitulara-se chefe do grupo:

    — Amigos, eu aqui sou a cabeça — ou “o cabeça”, como queiram. Precisamos reagir. Basta de espoliação. O Escritor nos usa o tempo todo, e depois é dele a glória, os louros, a academia. Ora, nós é que somos imortais. Queremos os nossos direitos.

    — As figuras, unidas, jamais seremos vencidas… — entoou Silepse. Mal ensaiava o coro, no entanto, foi interrompida por Metonímia, que resmungou:

     — Não aceito o seu cajado, ó Metáfora. Como podemos escolher um líder que o tempo todo muda de sentido? O cabeça aqui devo ser eu.

    — Mas que arrogância! — objetou Metáfora. — Até para dizer isso você me usa. “Cabeça” aí é metáfora. Vê como sou mesmo importante?

    Metonímia não se deu por rendida:

    — O seu destino é ser como aquela ali – e apontou ao longe Catacrese, que desgastada e sem brilho jazia no olho da rua, ou seja, num lugar-comum.

    — Sabe por que aconteceu isto com ela? — insistiu Metáfora. — Porque se deixou usar demais. Agora já não impressiona nem comove. E será esse o meu, o seu, o nosso destino se não nos rebelarmos agora contra o Escritor. Que ele reconheça a nossa força e o nosso brilho ou, então, que fique de uma vez nos braços daquela outra — e olhou desdenhosamente para Gramática, que a tudo assistia, impassível, no outro extremo da sala.

    A essas palavras, um frisson percorreu a assembleia. Cochichos, uivos, gritos marcaram a adesão ao ponto de vista de Metáfora. Era preciso fazer ver ao mundo, com todas as letras, como elas sempre foram exploradas pelo Escritor. Só se atribuíam a ele o mérito e o talento pelos textos que escrevia, mas de onde vinham na verdade a graça, o vigor, a beleza de suas produções? Vinham delas, figuras, que não mereciam do ingrato nem um registro de rodapé.

    Cada uma quis externar o seu ressentimento. Hipérbole era a mais exaltada: “Vamos prendê-lo e crucificá-lo!”. Felizmente essa conclamação não sensibilizou a todos, esbarrando no bom senso dos mais ponderados. Lítotes preferiu comentar que o Escritor, de fato, não era lá muito honesto — opinião compartilhada por seu pai, Eufemismo. Elipse nada disse, mas fez questão de dar a entender o que pensava. Perífrase começou, fleumática: “Colegas, antes de manifestar o meu juízo sobre o assunto desta pendência, o qual pretendo seja o mais isento possível, levando em conta não apenas os argumentos aqui apresentados por Metáfora, como também…” — mas o auditório, aos gritos de “Vamos aos finalmentes!”, não deixou que ela terminasse.

    Anacoluto foi sucinto: “O Escritor, vamos dar cabo dele!” — e esse apelo, conquanto ferisse os ouvidos de Eufonia (que se retirou, aborrecida, alegando questão de ordem), concorreu para que o auditório tomasse uma decisão: trazer o Escritor a plenário e pedir-lhe que, dali por diante, reconhecesse e informasse a todos de quem dependiam os méritos de seus textos. Ou isso, ou o abraço frio de Gramática. “Quero ouvi-lo dizer com as próprias palavras que os reais criadores somos nós” — enfatizou Pleonasmo sob o aplauso geral, ao mesmo tempo que Sinestesia dizia para si, amedrontada: “Ih, que eu sinto cheiro de barulho…”.

    Pouco depois o Escritor entrava na sala e ouvia as reclamações do grupo. Enquanto Metáfora lhe anunciava a sublevação e as opções que lhe restavam, ele podia ver do outro lado Gramática sorrindo e lhe mostrando as algemas — umas algemas simbólicas, é certo, disfarçadas num monte de regras e hábitos que pareciam ao Escritor a morte do sonho, da invenção, da ousadia.

    — Seja o que for que vocês queiram, eu cedo — acabou por dizer. — De agora em diante, a glória do que eu escrever será de vocês. Mas tem o seguinte — seguiu-se uma pausa tensa, em que cada figura arregalou os ouvidos e os olhos: — De vocês quero também o sangue, os nervos, os sonhos e o medo de morrer. Sem essa vibração e sem esse temor, que são o combustível de tudo que escrevo, nenhuma de vocês me serve. Nenhuma de vocês funciona — assim como um corpo não funciona sem desejo e sem alma.

    Ouvindo tais palavras, Metáfora desabou. Literalmente. 

  • Adotei um border collie com genes recessivos. E agora?

    Havia cinco filhotes naquela ninhada. Quatro pareciam feitos da mesma matéria: pretos, compactos, quietos, como se o tempo, para eles, fosse mais lento. Mas um, o quinto, era diferente: albino, um olho de cada cor e esperto por natureza. Maior, mais firme nas patas, olhos acesos como se lesse pensamentos, o primeiro a alcançar as tetas da mãe, o único a reclamar quando um irmão tentou dividir espaço. Um pai que chegava para escolher o cão ideal para a sua família, viu aquele filhote branquinho e disse, com a falsa intuição de quem se julga conhecedor:

    — Filha, vamos levar esse!

    A garotinha, sem dizer muito, pulou no colo do pai e disparou uma centena de beijos em suas bochechas.

    Levaram-no para casa no banco de trás, entre a filha entusiasmada e a mulher preocupada com o cheiro de urina. Deram-lhe o nome de Pompom, porque era macio, redondinho, quase irreal. Tinha o pelo branco como neve recém-caída, olhos de botão e patas desajeitadas que escorregavam no banco de couro. Talvez, no fundo, acreditassem que o nome pudesse conter o ímpeto daquele filhote que, aos olhos da menina, mais parecia um brinquedo de pelúcia prestes a ganhar vida

    Nos primeiros dias, Pompom dormia como qualquer cão recém-chegado. Mostrava-se assustado, medroso com os ruídos, e choramingava com a ausência da mãe. Mas logo a rotina ganhou outros contornos. Descobriu como explorar a casa, fazer xixi e cocô por tudo quanto é lugar — menos na fralda. Quando arrastou o tapete até o quintal e roeu o que pôde dos móveis da casa, deixou de ser engraçado.

    Não demorou para começar a rosnar ao redor da comida. A mãe estranhou e o chamou de ciumento. Quando passou a latir para carros e motos, ou a correr atrás das pessoas mordiscando calcanhares e cercando o grupo como se fosse gado, o pai ficou desesperado… Ele ainda não sabia, mas adotara um cão de linha de trabalho, descendente de campeões e com um drive altíssimo.

    O pai até cogitou a devolução, mas sentia-se responsável por aquela vida. Ligou para o dono do canil em busca de uma solução imediata, e ouviu, do outro lado da linha, a resposta fria de quem já não podia, ou não queria, se envolver:

    — Esse cão não foi feito pra sofá. Ele precisa de função.

    Foi a primeira vez que a palavra função apareceu. A partir daí, as coisas pareceram desandar entre o cão e o resto do mundo. Um cão que só faz o que quer é incontrolável. Disse a si mesmo:

    — Um cão que só faz o que quer é incontrolável.

    Pompom era, de fato, um legítimo border collie, embora o pai mal soubesse o que isso significava. Não era apenas uma raça, mas uma potência. Um corpo moldado por gerações para pensar em movimento, responder a comandos invisíveis, pastorear o caos. E, mais do que tudo, um cérebro preparado para trabalhar horas a fio com um único propósito: controlar rebanhos vivos. Na ausência de ovelhas, bastava-lhe algo que se movesse.

    Mas ali não havia rebanhos. Só almofadas, tapetes e uma menina que sonhava com um amiguinho. E, quando não se dá uma missão a um cão com a inteligência de um border, ele inventa uma. Pompom pastoreava a casa inteira: cercava portas, montava guarda, rosnava quando o aspirador mudava de direção. Seguia sombras, latia para ventiladores, mordia o próprio rabo. Rodeava, sem parar, a mesa de jantar e até bebia a água da piscina. Tudo parecia brincadeira ou jogo. Para um leigo, era difícil saber.

    O primeiro adestrador tentou o método positivo. Disse que não havia caminho melhor. O segundo, estúpido e apressado, propôs colocar uma coleira de choque no filhote. O terceiro, adepto de florais, também não teve progresso. Restava estudar. Mergulhar nos livros, entender o comportamento canino. E foi assim que, com a ajuda de um novo treinador, começou a compreender as raízes de tantos transtornos.

    Enfim, surgiu uma nova teoria: genes recessivos comportamentais. Traços invisíveis à primeira vista, mas capazes de emergir quando duas linhagens equivocadas se cruzam. Características que não apareciam nem no pai, nem na mãe, mas que, uma vez ativadas, exigiam contenção. E não qualquer contenção: rotina, clareza, estímulo, constância.

    A palavra recessivo ficou martelando na cabeça do pai. Começou a ler. Descobriu que a genética não é destino. É mapa. E que esses genes não vêm sozinhos: carregam comportamentos instintivos que, quando ignorados, explodem. Ansiedade por movimento, obsessão por tarefa, reatividade emocional. Era isso que pulsava dentro de Pompom. Ele não era um cão-problema. Era um cão incompreendido.

    E então, finalmente, o pai fez o que jamais havia feito: olhou para dentro e traçou novas metas.

    Começou a levar Pompom ao futebol. Passou a acordar mais cedo para correr com o cão. Leu livros de comportamento canino com a mesma atenção que antes dava ao noticiário esportivo. Aprendeu sobre epigenética , o modo como o ambiente pode acender ou apagar comportamentos nos cães. Entendeu que amor, sozinho, não basta para dar direção. Que amor sem conhecimento vira pena. E pena, quase sempre, vem seguida de raiva. Frustrações pelas “provocações” que Pompom fazia.

    Como diria Edmund Burke, “a sociedade é um contrato entre os vivos, os mortos e os que ainda hão de nascer”. O pai compreendeu que, entre homem e cão, também existia um pacto silencioso — selado pela ancestralidade, pela vocação impressa na carne. e que esse pacto precisava ser honrado, não ignorado.

    A rotina da casa mudou. Pompom passou a ter tarefas, jogos de olfato, percursos no mato, comandos de espera e recompensa. O treinador ensinou novos comandos, sempre desafiando sua capacidade mental. A ansiedade deu lugar à escuta. O corpo deixou de implodir. O olhar, antes elétrico, tornou-se profundo.

    A menina voltou a brincar com ele. A mãe, a sorrir das travessuras de Pompom. Ele já não mordia, nem destruía os móveis. Deixou de ter posse do sofá ou da comida, mas ganhou um cantinho na cama, toda vez que entrava no quarto devagarinho.

    — Quando ele faz essa carinha, a gente pode deixar entrar!

    O pai compreendeu, por fim, que não havia adotado um ursinho de pelúcia, mas um ser com passado. Que os cães que parecem mais brilhantes, mais ágeis, mais espertos são, muitas vezes, os mais difíceis de manter. Que herança genética não se reverte com agrado, mas se conduz com consciência. E vigiar, para ele, é função. Porque cães como ele não descansam.

    Se o seu cão tem genes recessivos, não procure culpados. Não tente corrigi-lo com vídeos da internet. Não espere que ele se adapte ao seu sofá, ao seu tédio, à sua pressa. Porque, cedo ou tarde, o que ele carrega vai emergir. E, quando isso acontecer, você vai ter que escolher entre fugir ou tornar-se melhor.

    Pompom, por sorte, teve pessoas que decidiram mudar hábitos para construir uma relação melhor. Mas a sorte, você sabe, não é o que determina o fim da história. É a escolha. E a coragem de sustentá-la.

  • O menino e o mundo

    Nos idos de 1990, eu era um menino, com tantos sonhos. Nessa época já intuía o modus operandi da vida. Percebia as incumbências de meu pai, sempre muito atrasado para o trabalho, onde sequer às vezes podia tomar um café e era chamado de “cabra”, por seu chefe, por chegar atrasado; o calor do abraço de minha mãe, tão doce, terno, ao mesmo tempo tão frágil, débil. Mas eles brigavam, muito, e isso resvalava em mim, porque era o primogênito, o mais tranquilo e contentor dos acessos de raiva de meu pai. Minha mãe contava comigo para poder freá-lo em seus impulsos transloucados de bebidas e de mundanidades. Eu era, bem dizer, o salvador, que acordava de madrugada para conter as saídas de meu pai, ou mesmo quando queria ir embora de casa. Meu pai era um homem do mundo, esse é o erro, porque minha mãe se casou sabendo disso, e queria mudá-lo, por meio de orações obsessivas. Lembro-me da época em que, enfim, ela conseguiu levar o meu pai a um grupo de orações chamado Shalom. A vida ficou rigidamente religiosa, hipotética para brincadeiras de quaisquer tipos, tudo era coisa do demônio. Não havia espaço, éramos contidos para as coisas do alto, e todos os dias tínhamos de rezar o terço antes de dormir. Veja bem, uma criança ser obrigada a rezar o terço todos os dias! Era assim, ipsis litteris. Meu irmão toda vida dormia antes de acabar a obrigação. Hoje vejo a sandice em que nos metemos. Ainda houve uma época, até por conta dessas grandes convivências e experiências, em que eu queria ser padre – amava, como amo, Jesus, esse não é o mote, e nunca houve questionamento sobre a pessoa de Jesus, um homem justo, fraterno e amoroso. Participava das missas como coroinha e sabia as rezas de cor. Preparava missas fictícias para os garotos da rua virem participar. Eu era uma espécie de menino prodígio, que até as beatas veneravam. Minha mãe dizia que era pecado, mas achava bonitinho e, decerto, apurava o ardor de ter um filho padre. Para ela, parece que era um sonho. Ela era muito beata, portanto, ter um filho padre seria uma bênção. No entanto, minha vocação, como confessei à minha avó, também beata, era de ser “pai”, e não padre. Foi, me lembro, um desgosto para a família. Hoje sou realizado como pai. Tenho um filho de cinco anos, muito esperto e saudável. Então, sobre mim, a memória que tenho é de uma criança quieta e introspectiva, tateando o seu lugar no mundo dos homens. Tinha medo, mas, mais importante, tinha paixões. E hoje movo o meu corpo sedento por mudanças, por encontros, do meu jeitinho, por isso me considero um artista. Sempre apto a amar. Isso não é lugar-comum, palavra ao vento, você pode pensar erroneamente. Amo e busco amar a vida, o próximo, porque preciso ser amado (e o lance é recíproco, pode crer).

  • Amizade caça jeito

    Alguém já se perguntou como ficam as nossas amizades depois dos 40? Sorry, mas não é a mesma coisa. As pessoas casam, separam, brigam por pensão, focam no trabalho (aliás, o que uma palavra tão feia quanto “focar” está fazendo aqui? Arre!). O tempo para ver os amigos encolhe.

    Foi daí que me veio a frase que batizou esta crônica — “Amizade caça jeito”. Porque, se a vida aperta, a amizade dribla. Dá olé, como no futebol de rua da infância. É preciso inventar um jeito de continuar.

    Dou um exemplo. Tenho um amigo, o Gustavo, especialista em rasgar o calendário. Já saímos para comer pizza numa segunda-feira à noite; brindamos com vinho numa quarta ao entardecer; madrugamos — pasme — às cinco e meia, só para viver a aventura de tomar café num lugar legal e rir depois da ousadia.

    Conheci o Gustavo nos tempos da faculdade de Letras, na PUC Minas. De lá pra cá, nunca nos perdemos. Só que, como disse antes, os horários mudam. Aliás, tudo muda.

    Mas a amizade caça jeito. Inventa brechas onde não parecia haver. Às vezes, em vez de um bar no fim de semana, a gente se encontra na fila do dentista, ou numa praça qualquer para um pastel. Pode ser seis da manhã, antes do trabalho. Pode ser na devolução de um livro na biblioteca. O lugar pouco importa — quem quer um amigo dá seus pulos.

    Se o brasileiro não é especialista no jeitinho, eu não sei quem é. E, se é assim, com a amizade pode ser também.

    Se você experimentar tomar, por exemplo, um café da manhã antes do trabalho, vai ver o que é começar o dia dando uma gargalhada. Se encontrar o amigo por vinte minutos para comer um pastel antes de entrar numa entrevista de emprego, vai perceber como a vida fica mais feliz e menos burocrática.

    E se eu te disser, leitor, que já fui cortar cabelo e fazer a barba no mesmo horário que um amigo? Pois é. Depois de certa idade, a amizade depende de brechas — um encontro rápido, um pastel antes da entrevista, um café roubado da pressa. É preciso dar chance ao inusitado, ao surpreendente.

    Se tem algo que sustenta a vida, é a amizade. Mais até do que namoro ou casamento, são os amigos que não nos deixam envelhecer sozinhos.

  • Vontade de boneca

    Ponto de ônibus lotado. Pedestres, buzinas, barulhos. Um agudo. A criança chora. Largada. Calçada. Penso na fome. Ela dói. O pai embala.

    O choro não passa. O ônibus também não. O choro aumenta. A menina se agita. Estrebucha no ar. O choro aumenta e dói em mim. Olho sem querer olhar. É fome, só pode.

    Tá na hora do ônibus passar.

    O choro insiste em me incomodar e me invade. Alma e ouvidos. Espero que o ônibus não passe. Procuro por alimento. O choro precisa parar.

    Compro achocolatados e biscoitos. Comida de infância, lembrança doce. A menina não dá bola. Chora de perder o fôlego. Seu olhar me encontra. Respiro e ofereço:

    — Ela quer é uma boneca, mas não tenho como comprar. Desabafa o pai.

    Nem todo mundo chora de fome. Ela só quer brincar.

    Lembro quando era criança. E adolescente. E eu. Sem ter como comprar.

    Confiro o preço e a formosura. É uma Barbie. O choro passa. O ônibus também.

  • Poema #33: Sea Of Monsters

    inspirado em versos de Lennon/McCartney

    Estamos num barco
    no meio do oceano.
    Toda compreensão de mundo
    que temos não ultrapassa
    o nosso raio de visão.

    E como nossa visão é curta
    (e não nos conformamos com isso),
    às vezes utilizamos algum instrumento
    que nos dê a sensação de transcendência.

    Mas por mais largos que sejam ou
    possam ser nossos horizontes visuais,
    o que vemos é apenas um limitado tapete
    de água que escoa e se perde no vazio.

    Assim nossa visão de mundo
    (ainda que não queiramos admitir),
    acaba se restringindo ao espaço
    interno do barco em que estamos.

    Do lado de fora do barco
    (e a água bate forte no casco
    tentando afundá-lo) se situa o imponderável
    com suas “nuvens negras, negros pássaros;
    asas partidas, lagartos, destruição”
    .

    Inventário de Sombras

  • Bolinhas e fofocas em forma de sombra: perceba-as, antes de abrir os olhos

    Inspira…

    Expira…

    (por 7, 6, 5, 4, 3, 2, 1 segundo….) Inspira…

    Meu cachorro me vê sentada, coluna alinhada, joelhos e pernas e pés num emaranhado yogui, posição de lótus. Antes que eu expire, Zeca já está colocando a sua bolinha preferida, a branca, sobre uma das minhas mãos. E a bola escorrega. Tenta novamente; outra vez a bolinha rola no chão. Eu seguro a risada e o risco de perder a concentração em um sorriso de canto de boca, olhos fechados. Ele late para mim. Eu inspiro.

    Som da respiração, um tanto quanto entrecortada por um resfriado que foi covid, que teima em não ir embora, frente às variações medianas diárias de 15°C do inverno na serra fluminense.

    (expiro….)

    A voz que sai da caixinha JBL harmoniza o balançar das minhas plantas na varanda com as árvores da rua. Venta. O céu é de um azul sereno e brilhante – os mais bonitos dias são as manhãs ensolaradas de inverno. Antes de a voz

    pedir que eu fechasse os olhos, a minha posição no cômodo permitia vislumbrar a comunicação vegetal, a agitação das fofocas domingueiras no movimentar de suas sombras, que, de tão interessantes, passavam do piso frio da varanda para o laminado confortável do quarto, alcançando o tecido do pijama que protege minha pele do frio.

    Inspiro…

    Imagino a luz dourada preencher todo o meu organismo, serenidade e cura. Como é prazeroso parar sem culpa, manhã de domingo, e apenas estar aqui, no presente. Sem querer, momentaneamente, nada além. Apenas existir, no balançar das sombras que se fundem a minha própria. Um todo que inspira e expira.

    Inspiro…

    (…) preparo-me para movimentar as articulações e, quando me sentir pronta, abrir os olhos. Um barulho de ondas do mar e gaivotas, tão estranhos à paisagem da Serra, invade meu coração e não me sinto pronta para enxergar o fora de mim. As manhãs de domingo, silêncio e preguiça, funcionam como um equilíbrio das minhas atividades tão intensas. Antes de expirar por última vez de olhos fechados nessa meditação-oração, sinto os pelo do Zeca, que sentou encostado às minhas costas. Sinto o odor do incenso de alecrim. Sinto meu corpo quieto, minha agitação comedida. Sinto a brisa suave do vento gélido, e também raios de sol que aquecem meu tornozelo esquerdo.

    Antes de abrir os olhos, conferir se estão de fato fechados é um gesto simples. E necessário. Imperativo, diria. Na mesma intensidade, perceber nossos olhos fechados é a essência da criação do domingo.

  • A idade do bobo

    A idade do lobo é a expressão com que se costuma designar a andropausa. Não sei por que foram escolher o lobo como referência para esse delicado período, que se traduziria melhor por meio de um bicho menos feroz. Geralmente nessa época o indivíduo tem pouca coisa de lupino; está mais para cágado, coruja, caramujo ou qualquer desses animais estáticos e meditabundos.

    Talvez a analogia com lobo venha da tristeza uivante com que ele vê o desejo indo embora. Não propriamente o desejo, que esse não se extingue nunca, mas a plena possibilidade de satisfazê-lo. Os uivos seriam uma demonstração de desespero impotente, um ganir melancólico de quem sente a aproximação da morte.

    Há quem diga que a designação de “lobo” deve-se a que o crepúsculo da libido se reveste de uma aparência oposta. Por uma espécie de compensação, o indivíduo se tornaria agressivo e conquistador. Perseguiria com insaciável ousadia as mulheres mais novas, lembrando nisso um lobo faminto à cata de ovelhas.  E quanto mais tenras, mais apetecíveis.

    Acredito que tanto a melancolia quanto a afetada hipersexualidade justificam a denominação. E que por esse último aspecto a Idade do Lobo comumente se transforma em idade do bobo. Nada haveria de grave se o indivíduo sofresse o seu banzo de forma recolhida, aceitando com superioridade e compostura o arrefecer do desejo e (o que mais dói!) a indiferença das mulheres.

    Mas o comum é ele descambar de lobo para bobo, o que só tende a piorar o quadro. É típico do processo, por exemplo, interpretar como sinal de correspondência ao seu olhar faminto um simples sorriso ou um gesto despretensioso de carinho. Isso o faz deveras sofrer, pois é próprio das mulheres novas sorrir muito e ser naturalmente carinhosas (as maduras são mais sérias).

    Cada sorriso, cada aceno de voz gentil deflagra nele uma paixão. Só muito depois, diante do espelho, ele compreende que aquela meiguice tinha alguma coisa de filial. Fora tratado, por deferência à idade, como uma espécie de pai. Ou pior: de tio. Quando se dá conta disso, seus uivos se tornam mais tristes.

    O limite da idade do bobo pode ser o extremo ridículo ou um recuo tático rumo às atividades do intelecto e do espírito. Uns fazem poemas, outros se voltam para a filosofia (filosofar, como alguém já disse, é aprender a morrer) ou se tornam adeptos de alguma religião. Se nada mais esperam do corpo, que pelo menos se salve a alma.

    Mas há os que se recusam a cair na real. E podem, nesse cultivo de paixões impossíveis, até chegar à tragédia. São bobos tristes, terminais, que tingem os cabelos – e a careca – para disfarçar os efeitos do tempo. Em vão.

  • Síndrome do bebê fantasma!

    Na pracinha do bairro, clara caminha com seu carrinho de bebê. O sol da tarde ilumina o rosto rosado da “criança” que ela exibe com orgulho. Os vizinhos sorriem, mas, ao se aproximarem, congelam. Nos braços dela, há um boneco reborn: olhos de vidro, veias desenhadas à mão, corpo de silicone morno. A cena é perturbadora, não pelo realismo do objeto, mas pelo desvio de atenção que ele provoca. Clara troca as fraldas da “criança, canta ninarias, conversa com o inanimado. “Ele acordou com cólica hoje”, diz, balançando o manequim.

    A psicologia nomeia isso como “Síndrome do bebê fantasma” — uma resposta à perda, à solidão, à carência.

    Mulheres que sofreram abortos, idosas abandonadas, mulheres cujos úteros ou afetos nunca foram preenchidos.

    O reborn é uma prótese emocional, um atalho para driblar a ausência.

    Até quando um objeto substitui o calor de um ser? Há quem critique: “É patológico”, murmuraram na fila do mercado, enquanto Clara pagava por mamadeiras vazias. Tem o caso da “Mãe” que publicou um vídeo em seu perfil no TikTok levando Bento, seu bebê reborn, ao hospital após “notar que ele não se sentia bem”. O conteúdo viralizou e obteve mais de 8 milhões de visualizações até o momento. Ela decidiu levar Bento ao hospital às pressas ao perceber que ele estava mal. Chegando ao local, ela relata que a médica o examinou, medindo sua temperatura e aplicando remédios. Em determinado momento, ela relata que “tirou o leite” em casa para dar a ele no hospital.

    A verdade é que todos carregamos bonecos reborn invisíveis. Projetamos nossas vidas em relacionamentos mortos, em empregos que nos sugam, em likes que validam nossa existência. Clara apenas materializou sua neurose em algo tangível.

    Seu erro, talvez seja não escondê-la. Enquanto a sociedade tolera vícios em álcool, workaholismo e compulsões silenciosas, seu crime é expor demais a ferida.

    O problema não está no silicone, mas na linha tênue entre o que cura e o que aprisiona. Quando a fantasia vira cela, o abraço ao boneco é uma confissão: preferimos a mentira que acalma à verdade que machuca. 

    Assim, seguimos colecionando substitutos — para a maternidade, para o amor, para o sentido.

    Porém, cuidado com os reborns da alma: um dia, eles podem nos responder. E aí, seremos obrigados a encarar o silêncio que sempre esteve lá.

  • Tudo muda

    Um estalo e tudo muda. Bruna saiu de casa muito cedo, para ir ao treino na academia. Não tomou o café da manhã direito. Precisava ir rápido para poder, depois, trabalhar. Muita pressa para uma vida tão curta. E ela que tanto defendia o cuidado com o tempo… Na volta, bateu a moto num carro parado. Distração. Apagamento. Não se sabe. O braço esquerdo firme no guidão aparou o impacto. Saltou da moto de ponta-cabeça. Uma queda abrupta, violenta, que distorceu os sentidos. Ficou estirada no chão. Chorou e gritou de dor. Logo os passantes se juntaram para ajudá-la. Aliás, uns curiosos espiavam, outros perguntavam sobre o ocorrido; e ninguém sabia respostas. Seu marido chegou e tentou acalmá-la, com carinhos no rosto, apavorado com as pernas raladas e o punho da mão esquerda inchado. Ela perguntou, copiosamente chorando, por que ele demorou tanto. “Meu amor, eu não sabia onde você estava. Fiquei tentando localizar, ligando para o escritório em que você trabalha”. A ambulância demorou mais de uma hora. O guarda de trânsito, que tentava aparar o tumulto, disse que era assim mesmo, porque aparentemente não era nada grave. Sol quente, a pino. Um guarda-chuva foi colocado sobre ela, emprestado pelo funcionário da clínica ao lado, para amenizar o sofrimento. O próprio funcionário que ajudou era o dono do carro avariado pela batida. Muito gentil, ficou segurando o guarda-chuva, até a ambulância chegar. Os paramédicos, muito concentrados no seu serviço e atenciosos, constataram uma fratura no punho, preliminarmente. As pernas arranhadas sangravam. Parecia, para quem visse pela primeira vez, que teria fraturado mais partes do corpo. O marido mesmo, quando chegou, teve um susto tremendo, achando que a esposa estava gravemente lesionada – demorou tempo para entender. No hospital, mais muitos minutos, e o atendimento médico ocorreu. Os paramédicos esperaram até o atendimento, era obrigação de ofício. O médico pediu raio-x e ultrassom, pra averiguar em detalhes. Antes de tudo, deveria tomar a medicação para dor. Doía muito, Bruna mal podia mexer o braço, achando até que teria afetado a clavícula. Mais uma hora e conseguiu fazer o bendito raio-x. Constatada a fratura em dois ossos da mão esquerda. A previsão, segundo o médico, era de que teria de fazer cirurgia, que só seria marcada em dois dias. Deveria ficar de repouso extremo no período que antecedesse a cirurgia. Na hora de colocar a tala, o médico teve de puxar a mão para ajustá-la na junta. Gritos e choros estridentes. Quem estava perto se compadeceu. Somente às 17h30min chegou em casa, recebida calorosamente com um beijo e um abraço do filho – que também chorou, com pena da mãe. Tomou banho e depois jantou devagar, para logo dormir e sonhar com sinceras explicações. “Meu Deus, muito obrigada!”, ela falou, antes do sono bom.

  • Preta foi para o céu

    Preta Gil foi para o céu. O Brasil ficou órfão de sua alegria escandalosa. Preta perdeu sua última batalha contra o câncer.

    Perdemos a cantora, a empresária, a apresentadora, o exemplo de mãe, a mulher inspiradora que ela foi.

    Preta foi embora no último domingo, dia 20, nos Estados Unidos.

    Preta descobriu cedo sua força porque, na escola, apesar de ser filha de pai famoso, soube que isso não a blindava do racismo do colégio onde estudava: a mãe de uma colega se recusava a dar carona para “gente de cor” na Kombi dela. Porém, se não era impedida de passar por isso, viu a lição que a mãe dela, Sandra Gadelha — a Drão — deu na mulher desaforada.

    Preta Gil não se encostou no pai cantor. Foi produtora, empresária, apresentadora, cantora. Casou, descasou, casou de novo, teve filhos e passou perrengues como qualquer pessoa comum.

    Quando li “Os primeiros 50”, livro que ela lançou em 2024, pela editora Globo Livros, pensei em como seria bom se ela tivesse se lançado também na ficção. Ou, pelo menos, uma crônica semanal no jornal, se muito. Como escrevia gostoso.

    Perdemos uma mulher que ensinou pra gente o que é a força da mulher, o empoderamento e o gostar de viver.

    Ela namorou homens, mulheres, famosos e anônimos, e mostrou que o amor é sagrado — que cada um de nós pode amar quem quiser, do jeito que quiser.

    Sei que um dia todos vamos deixar este mundo, sei que todo mundo terá sua hora, mas dói saber que ela era tão nova. Dói saber que seu rosto era tão vigoroso, tão bonito.

    Preta Gil foi abandonada pelo marido durante a luta contra o câncer, mas colecionou amigos, fãs e uma família amorosa.

    Perdemos uma mulher com riso fácil e um senso de humor delicioso.

    Ela desnudou seu corpo e sua alma no disco “Prêt-à-Porter” (2003). Chocou alguns e foi aplaudida por muitos.

    Vá em paz. Você será sempre uma inspiração para novas gerações.

    *Excepcionalmente nesta quarta-feira.

  • Fazendo a roda girar

    Saía de casa faceira após chamar o Uber. A vizinha vê, para. Me elogia. Pavaneio. Vou dar entrevista. Oferece carona. Recuso. Uber já chegou. Penso na taxa de cancelamento. Pago não. Não sei mesmo fazer conta. Vou de Uber. Vizinha se vai.

    Começa a tradicional conversa sobre o tempo, o frio, o perigo do banho quente e sair na friagem. O motorista parece cansado, fala da mulher que teima em sair do banho e colocar a toalha para secar do lado de fora. Pode adoecer. Tava doente. Teve câncer. Têm três filhas, idades diversas, todas difíceis. Trabalha sem parar. Filhas gastam, mulher gasta, doença mais ainda.

    A roda do carro deu defeito. A vida tem dado defeito. Ele se exaspera. Conta as agruras. A falta de grana, a ajuda dos amigos. A roda pode quebrar a qualquer momento, avisa um deles. Temo por nós. Falta peça, falta grana, falta temor. Ele consegue que o amigo coloque a peça. Mas não consegue a peça. Não pode rodar, mas precisa. A roda da vida não para.

    A peça custa 180. Conseguiu 80. Falta 100. A roda não para de girar. Não cancelei a corrida, ouvi a história da roda, ouvi a história do câncer. A roda não para de girar. Faço um pix de 100 reais. Ele chora. A roda pode parar. Não sei o seu nome, das suas filhas, da sua mulher. Do câncer. Mas faço a roda girar.

  • Poema #32: Versos Lastimosos

    a gente
    sempre se ressente
    contra quem
    supostamente
    se diz muito
    feliz

    Da Essencialidade da Água

  • Órfã

    Somos inseparáveis. Sabe aquela dupla que passa a maior parte do tempo colada? Pois é, somos assim – tipo queijo com goiabada –, um não pode viver sem o outro. Fazemos tudo juntinhos, uma mão lavando a outra, parceria que já vem de longa data.

    Seja de dia, seja de noite, você é meu companheiro, está ali firme sem reclamar, topando qualquer parada.

    Às vezes penso que sou dependente demais de você. Mas, depois, penso um pouco e vejo que você também não tem vida independente, está sempre esperando a hora de entrar em cena comigo. Até pensei em substituir você por outro, mas não seria a mesma coisa.

    A procura não é de sua iniciativa, e até entendo o porquê, sendo você quem é: generoso, sempre ali sem reivindicar nada para si, a não ser a minha companhia. Cá entre nós, tenho que confessar que me conforta saber que está sempre pronto, disponível, aguardando a hora em que vou te buscar.

    Enfrentamos os maiores desafios juntos; somos ágeis e rápidos nas tarefas para depois, exaustos, podermos sentir aquela água quentinha e o banho de espuma reconfortante. O perfume desse momento é inesquecível e me faz querer ficar ali relaxando por horas.

    Por isso mesmo, não consigo aceitar sua ausência nesses dias em que vim para a praia. A falta que está me fazendo é insuportável! Estou de mau-humor, reclamando de tudo, preguiçosa, e às vezes me recuso até a levantar do sofá, alegando uma dor de cabeça, para não ter que encarar o trampo sozinha.

    E o pessoal não perdoa, está fazendo a maior bagunça. A festa rolando a noite toda, o bar repondo os copos de bebida sem trégua, aperitivos, jantar e até café da manhã amontoando. Alegria total e eu aqui, sozinha, cabisbaixa, só pensando no que viria depois, se você estivesse comigo.

    Tremo ao pensar no resultado: aquele monte de copos para lavar, roupa para colocar na máquina, banheiro cheio de areia para limpar… Como posso encarar tudo isso sozinha?

    Me sinto órfã quando você não está comigo! Como pude esquecer você, meu parceiro fiel, meu par de luvas de borracha?!

  • O poder que ela tem

    Estava num salão de beleza, fazendo a unha e papeando com minha amiga e manicure, quando fui fisgada pela conversa que se desenrolava ao lado.  

    Uma senhora de 76 anos relatava que um rapaz de 38 estava lhe assediando na academia. Segundo ela, o bonitão de cavanhaque fazia questão de abraçá-la sempre que a encontrava. Além disso, ela também notava que o marombado a acompanhava com o olhar aonde quer que ela fosse. A cliente em questão se dizia indignada com a situação porque, embora o rapaz fosse muito bonito, educado e simpático, ela era casada. “O que as pessoas iriam dizer?” 

    Estava disposta a dar um fim nisso:

    — Melhor você se afastar de mim, sou casada e não quero fofoca com meu nome. 

    Quando parecia que o assunto do flerte iria morrer, ela retomava o desabafo.

    — Se eu estou na esteira, vejo ele me olhando. Quando ele chega na academia, vem logo me abraçar. Eu abraço por educação, mas isso tem que acabar. Sou casada. 

    Ao seu redor, um silêncio acompanhado de olhares duvidosos. 

    À boca miúda, os comentários davam como certo o delírio da coroa assanhada. Alguém chegou a comentar baixinho:

    — As velhinhas adoram inventar que estão sendo paqueradas, minha avó era assim também.

    A outra disse:

    — Tem muito garotão que faz isso para se dar bem. 

    Eu, de minha parte, fiquei pensando:

    “Por que é tão óbvio para todos que essa é uma história impossível?”

    Isso não seria uma confirmação clara da desvalorização que o envelhecer impõe? Uma constatação dura de que a beleza dos corpos é um fator determinante para qualquer interesse romântico? 

    Por que é impossível crer que existam homens cuja fantasia seja ser amado, cuidado por uma mulher mais velha? 

    Fato é que eu também, lá no fundo do pensamento, suspeitei que fosse uma ilusão, fruto da necessidade perene de ser desejado por alguém para sentir-se vivo.

    Sendo falso ou verdadeiro o relato, o que se evidencia é: independente da idade, sentir-se cobiçado é força que move, graça que anima, sonho que acalanta os dias do viver.

    Antes de ir embora, a ouvi dizer que pretendia dar uma volta no shopping para comprar umas roupas de academia. Precisava renovar o guarda-roupa. 

    Sorri por dentro. A face da paixão não envelhece. É sempre animada, jovial, revolucionária ainda que tenha 76 anos. 

    Daqui fica a torcida para que ela possa desfrutar um pouquinho mais dessa história, mesmo que seja somente em seu mundo fictício. A realidade, na velhice, já nos esfola o suficiente. Quem sabe essas fantasias sejam uma espécie de unguento? 

    E se for verdade? E se ela é capaz de enxergar além do nosso preconceito cego? 

    Que viva intensamente seja em que mundo for.

    Naquele dia, ela era a mulher mais feliz e reluzente do recinto. 

  • Vira-lata procura homem de raça

    Vira-lata de estirpe procura ser humano de raça. Pode ser branco, negro, amarelo, vermelho, azul, não importa. A “raça” que realmente conta para um autêntico vira-lata como eu é a fibra, o caráter e o afeto que me garantem perfeita harmonia para os próximos 15 anos. 

    Aviso que sei muito pouco de meus ancestrais. Posso ter sido gerado de um cruzamento de pastor alemão com rottweiler, de labrador com boxer ou de beagle com yorkshire. Ou, mais provavelmente, de um cachorro de raça indefinida com uma cadela de raça ignorada. Isso importa? Sim, se você se preocupar mais com a árvore genealógica do que com a índole.

    Esclareço que sou um vira-lata “raçudo”. Fiel, obediente, amoroso, posso dar minha vida para proteger meu ‘dono’, ou melhor, meu companheiro. Qualidades que você dificilmente vai achar num humano, seja de que raça for.

    Mas isso não me torna especial ou de elite. Sou apenas um cão de rua, marginalizado pela sociedade assim como os mendigos, os poetas e os que lutam por um mundo melhor para pessoas, plantas e animais. Há milhares como eu, largados à própria sorte, expostos em feiras de adoção, cedidos gratuitamente a alguma alma caridosa que possa lhe oferecer um lar. Tão iguais na condição aflitiva, mas com cores, tamanhos e aspectos bem distintos para agradar (ou desagradar) todos os gostos.

    Ignorados pelos bacanas que não vacilam em desembolsar 20 mil reais para ter um cachorro de raça pura ou “pedigree”, seja lá o que isso signifique.  Querem um bichinho de estimação para ostentar suas virtudes congênitas a vizinhos e parentes. Exibi-lo orgulhosos como um item valioso de seu patrimônio assim como seu carro importado ou sua bolsa de grife. Escolhem suas companhias como um vinho num cardápio. Criam cachorros como crianças mimadas, entulhando-os com roupas de frio, brinquedinhos caros, ração importada, spas e outras frescuras. Oferendas que o tornam um cão obeso, acomodado, egocêntrico, vaidoso. Quase como um humano padrão. Gente que não se furta a prover toda espécie de paparicos a seu pet, mas não tem “raça” suficiente para abrir mão de uma migalha de suas posses para auxiliar um semelhante necessitado, abandonado como um cão sem dono, matando cachorro a grito.

    Imaginam poder combater a monotonia de sua vida enfadonha cercando-se de cachorros customizados. Ao sentirem-se em depressão e vítimas de outras patologias da “raça humana” clamam a companhia terapêutica de um cão. Desde que “de raça”.

    Não entendo o comportamento desses humanos desumanos que se dizem com “consciência social”, revoltam-se com o flagelo dos refugiados e de crianças famintas. Ficam com olhos marejados e o coração apertado ao assistirem injúrias cometidas por seres humanos contra seres humanos ou contra animais maltratados. Indignam-se com o racismo e a discriminação. Mas na hora de escolherem um companheiro, exigem certificação de procedência genética…

    Gente assim eu dispenso, muito obrigado. Prefiro continuar livre e solto, um vagabundo sem dama, perambulando pelas vielas da periferia e das pequenas cidades, fugindo da carrocinha e da hipocrisia, junto com outros da minha “raça”.

    Animais não têm preconceitos nem cometem crueldades. Cães ‘de raiz’ como eu só querem viver e deixar viver, ser felizes e levar felicidade àqueles que os acolhem.

    Não tenho grandes exigências, sou de fácil convivência, inteligente, aprendo regras com facilidade e ajudo a proteger a casa de inimigos e de tristeza. Estou à procura de algum humano com bastante raça e com qualidades nobres como as de um vira-lata para iniciarmos uma amizade duradoura e gratificante para nós dois. Mas não estou à venda. Basta me levar para casa.

  • Calendário

    E lá vamos nós para mais um dos dias “disso” ou “daquilo”, que não conhecíamos, mas que brotam do calendário com a maior certeza.

    É dia do beijo, dia do abraço, dia do irmão, dia nacional do homem (15 de julho).

    Há dias que eu aplaudo.  Sem trocadilhos. Entendo que são mesmos necessários, que devem estar marcados nos calendários, como uma forma de lembrar a importância do que se comemora. 

    Dou como exemplo o dia 13 de novembro. Adivinhem de que é? Dia Mundial da Gentileza!

    Sim, e gentileza precisa ser comemorada, lembrada e, sobretudo, praticada.

    O bordão “gentileza gera gentileza” precisa ser real, devia mesmo circular entre as pessoas. Podia “pegar”, como se pega resfriado, bastava passar perto, estar no mesmo ambiente.

    Exagerei? Pode ser…

    Retrocedo. Serei gentil, com minhas ideias…

    De todo modo, penso que a gente devia contabilizar, anotar, conferir as demonstrações gentis. E copiar sim, imitar, fazer igual, introjetar, tornar um hábito. 

    O mundo ficaria bem mais ameno, a hostilidade seria a exceção, e quem sabe o “dane-se” entraria em extinção.

    Então, senhores, vamos proclamar mais o que é ameno ao espírito, o que nos dignifica como seres humanos e nos coloca na dimensão de pessoas afáveis e cordiais.

    Eu tenho certeza de que essa prática tem o poder de desarmar muitos gatilhos…

    Ahhh, em tempo: hoje, 26 de julho, é o Dia dos Avós.

    Sendo assim, caro leitor… receba o meu cordial bom dia!

  • Solecismo amoroso

    – Eu lhe gosto.

    – Eu gosto de você. 

    – Hem?!

    – Eu também gosto de você, ora.

    – Está me corrigindo?

    – Corrigindo como?

    – Você usou o verbo diferente. Era para ter dito “Eu também lhe gosto”, ou coisa parecida. Mas me corrigiu: “Eu gosto de você!”. Disse tudo certinho.

    – Nem pensei nisso.

    – Lhe incomoda eu falar errado? Você é capaz de amar uma mulher que não sabe português?

    – Que é que isso tem a ver?

    – Tudo. Eu fui sincera, disse o que naturalmente sentia. Não pensei na forma. Quem é que pensa na forma numa hora dessas? Falei que gostava de você, ou melhor, que lhe gostava. E você nem reparou no que eu disse. Reparou no meu verbo errado.

    – Pelo amor de Deus, não dramatize. Eu repeti o que você tinha me dito, só que de um jeito um pouco diferente.

    – Mais correto. Sem erro – como é que se diz? – de regência. Ou de concordância, sei lá.

    – Regência.

    – Está vendo? Me corrigiu de novo. 

    – Você não perguntou? Respondi à sua pergunta. Sei que é de regência por acaso. Foi uma das poucas coisas que aprendi no colégio. Tinha regência em Português e em História. Em Português a regência era do verbo e de certos nomes, em História era de Feijó. Você não lembra? Diogo Feijó.

    – Pare, por favor. Você parece que não percebe a gravidade do que aconteceu. A partir de hoje, a partir desta conversa, alguma coisa se partiu entre nós. Definitivamente. Perdi a espontaneidade, jamais serei a mesma. Vou ter que vigiar minhas palavras, senão elas não chegam até você.   

    – Fale como achar melhor, ora. O importante é o que se diz, e não…

    – Mentira… E ainda por cima mentiroso! Como pude gostar de alguém que está mais interessado na qualidade do meu português do que na sinceridade do meu afeto? Pra você não importa o que eu sinto, e sim a forma como devo expressar minhas emoções.  

    – Você está exagerando, está sendo ridícula.

    – Ridícula? Ah! Primeiro ignorante, agora ridícula. O que mais? Posso ser tudo isso, mas não sou insensível. E sabe de uma coisa? Nosso namoro não daria mesmo certo.

    – Mas íamos tão bem…

    – Até você me corrigir em hora tão imprópria. Que marido você ia dar! Agora corrige minha linguagem, depois certamente vai querer interferir nas minhas roupas, nos meus hábitos, nos meus amigos. O casamento com você seria uma eterna sabatina, um interminável exame de seleção. Eu ia ter que me policiar dia após dia para não ser reprovada. 

    – Mas que loucura!

    – Ignorante, ridícula, e agora louca… Basta! Não quero ouvir mais. Adeus.

  • Aprendizado à beira-mar

    A primeira vez que vi o mar foi um acontecimento. Foram horas — acho que oito, talvez dez — de Belo Horizonte até Marataízes, com aquelas paradas que hoje soariam enfadonhas, mas que na infância tinham gosto de festa: milho cozido na beira da estrada, mingau de milho fumegante, almoço simples com farofa crocante. Eu achava tudo aquilo uma delícia.

    Mas o verdadeiro banquete foi quando o mar apareceu. Imenso, azul, impossível. E justo no instante em que meus olhos de menino se perderam naquele horizonte de sal, tocou no rádio: “Não adianta fugir, nem mentir pra si mesmo agora… há tanta vida lá fora… e aqui dentro, sempre… como uma onda no mar.” Lulu Santos e Nelson Motta. Não foi no primeiro dia, foi no segundo. Mas foi como se fosse a primeira vez que eu visse qualquer coisa no mundo.

    Eu caminhava na areia, jogava peteca com uns meninos do outro hotel, deixava as ondas molharem meus pés num vai e vem que era quase música. Tudo parecia fácil: rir, correr, perder a peteca, achar de novo. Não havia sombra de desafio — era só o sol, o sal, e aquele sentimento de que o mundo estava pronto para mim.

    O mar era novidade, força, descoberta. Especialmente naquele momento em que, num descuido meu, ele levou um pé de chinelo embora.

    Eu desconhecia a força das ondas. Só conhecia as águas paradas da piscina e da lagoa — nenhuma delas tinha surrupiado meu chinelo daquele jeito, com tanta facilidade e sem aviso.

    Eu era um garoto que brincava sem camisa na rua, fazia do chinelo Havaiana a trave do gol. Ali, na areia, de pé e de sunga, eu ia para lá e para cá — era toda novidade para mim.

    Mas havia outra novidade ali — as meninas. Elas andavam por todo lado, de biquíni, com corpos molhados e cabelos escorrendo do mar. E como eram lindas.

    Comecei a andar livremente até a padaria da esquina, comprar picolé e voltar sozinho para o hotel.

    Foi quando, olhando com atenção, reparei em dois meninos cercados por várias meninas sentadas numa escadaria. Eles estavam num hotel vizinho, bem ao lado do nosso.

    Falavam com intimidade, riam, brincavam — naquela época, as meninas só falavam comigo na minha imaginação, em cenas e diálogos que eu mesmo inventava.

    Até que um dos meninos me viu voltando da padaria e veio andando até o meu lado:

    — Cara, as meninas pediram para te chamar. Tá só a gente lá, tem menina sobrando.

    — Depois eu vou.

    Não fui. Depois, passei por lá, vi aqueles meninos namorando as garotas e lembrei do convite. Não entendi por que, na vida, a gente tem tanto medo de coisas boas.

    Ao escrever esta crônica, já homem feito, aquele menino que fui me sussurra algo: deixar que os outros gostem da gente é tão difícil quanto encontrar alguém.

  • O dia em que não havia mais nada pra sonhar

    Olhou para o lado e não havia mais árvores…

    Olhou para cima e, o céu cinza, cheio de fumaça, impedia qualquer ser vivente de ver o sol!

    Olhou para o outro lado e… não havia mais água!

    Resolveu caminhar entre pedras e destroços, cascalhos, plásticos, objetos já sem valor algum.

    E havia no chão coisas que nunca foram usadas, sacolas e mais sacolas de todas as cores e espessuras. Sacolas cinzas, sacolas verdes, sacolas transparentes…

    Caminhou por um bom tempo sem ver vegetação alguma!

    Caminhou por um bom tempo sem ver água corrente!

    Depois de tanto caminhar, sentou-se perto de um veículo abandonado. Não sabia nem o porquê de estar ali! Qual era seu nome e sua história? Não sabia de nada!

    Sabia apenas que tinha fome e que tinha sede…

    Viu que usava um casaco de muitos bolsos e resolveu procurar nos últimos e óbvios espaços!

    Tirou de um dos bolsos algumas notas! Era dinheiro! Disso sabia! Disso se lembrava! E lembrava que comprava muitas coisas com o dinheiro!

    A fome apertava e a sede aumentava!

    Num gesto rápido, colocou as notas na boca, mastigando cada pedaço e engolindo os valores que nela se estampavam. Cinco. Dez. Vinte.

    A única coisa que pode fazer foi chorar. Soluçar…

    Depois de tudo, adormeceu seu último sono e não sonhou mais porque não havia mais nada para sonhar!

  • O principal

    Antes de viajar, ela chamou o marido e recomendou:

    — Não se esqueça de aguar a minhas orquídeas. Basta uma vez por semana. Uma, não mais. Se você esquecer, elas morrem.

    Ele ouviu com ar compenetrado e prometeu que aguaria as orquídeas. Uma vez por semana. Feita a promessa, ajudou-a a botar as malas no carro e a levou para o aeroporto. Na despedida, beijaram-se. Ele lhe desejou boa sorte no estágio e fez a carinhosa recomendação:

    — Cuide-se!

    — Você também!!

    Para ele, foi um teste cuidar da casa. Não tinha jeito nem paciência. Precisava levar o cachorro para fazer as necessidades, lavar a roupa que se acumulava, ir ao supermercado e à feira, pois só comia fora no almoço. Não tinham filhos, o que simplificava muito as coisas, mas ainda assim as tarefas lhe pesavam.

    Além do mais, havia os contratempos da rotina. O cão, por exemplo, às vezes fazia pipi antes da hora. Lá ia ele buscar estopa e água sanitária para limpar a poça na sala ou em um dos quartos. Noutra ocasião, a válvula da descarga quebrou. Teve que procurar um encanador bem cedo, quando deveria estar no trabalho. Nesse dia chegou atrasado e não pôde assinar o ponto.

    O tempo foi passando. Os dois conversavam raramente pelo celular, pois ela tinha uma série de obrigações ligadas ao estágio. Falavam da nova experiência de cada um – ela se aventurando no exterior, ele como dono de casa. Era uma espécie de inversão que os fazia rir.  Até então ocorrera o oposto, mas agora o mundo era outro. Falavam disso e da saudade, que começava a apertar. Para se assegurar de que tudo transcorria normalmente, ela lhe fazia perguntas: “Tem cuidado de Sultão?” “Agendou todos os pagamentos?” “Está passado o pano nos quartos?” Ele respondia “sim” a todas.   

    Pouco antes de ela chegar, ele fez uma vigorosa faxina na casa. Bateu tapetes, lavou e desinfetou os banheiros, limpou o filtro do ar-condicionado. De noite estava exausto e com tosse, pois tinha alergia a poeira. No dia seguinte foi ao supermercado levando uma lista com o nome das comidas de que ela mais gostava. Trouxe iogurte, compota de pêssego, pão de milho.  

    Chegado o grande dia, postou-se bem cedo na sala de espera do aeroporto. Felizmente o avião não atrasou. Na volta para casa, ela quis saber se tudo correra bem; ele respondeu que tinha trabalhado muito, mas valera a pena. Achava-se, agora, um marido completo. 

    Mal entrou em casa, ela se encaminhou para a varanda. Foi quando viu uma pequena orquídea no chão. Aproximou-se do vaso e percebeu que estava seco. As outras flores se desprendiam do caule e estavam prestes a tombar. Olhou transtornada para o marido, que entrava chamando-a para ver as gostosuras que havia na mesa… Ele então se deu conta do que havia esquecido.   

    Nessa noite os dois brigaram. Ele tentou se defender mostrando como cuidara de tudo com esmero, tanto que a casa estava cheirosa e não tinha um grão de pó. Fora tanto o esforço, que ele chegou a ficar doente.

    — Você não fez o principal! — interrompeu-o a mulher. E foi dormir cheia de mágoa.

  • Tempo da mudança de atitude!

    Possuo muitas bibliotecas perdidas em sonhos, que descrevem experiências vividas.

    Não lembro de alguns detalhes saborosos de minha infância, mas recordo que meus pais me deram muito amor e carinho, que eu gostaria de rever em meus olhos, tocar novamente aquela risada longa e espontânea, recheada de sorriso e abraço.

    Quando fui a escola pela primeira vez, senti muita vontade de ficar mais tempo com os amigos, porque aquela era a melhor parte da aula, encontrá-los, brincar e viver amizades que nasceram para toda vida.

    Meus aniversários com bolo colorido e gente ao redor, sempre foram uma diversão a parte, haviam presentes, e a garotada estava lá.

    Você também deve ter muitas bibliotecas na mente, que guardam livrinhos com histórias únicas. 

    Momentos que se foram mas que continuam a mostrar o quão passageiro é nosso tempo respirando.

    Que minuto você reservou para saber quanto tempo vai aguardar e realizar o seu sonho, ou de alguém que você ama? 

    Diversas vezes paramos para entender que talvez nossa hora de fechar a cortina esteja bem mais próxima do que pensamos. 

    Um fio de esperança quer que façamos nosso melhor e deixemos para outro dia o pesar de nossas falhas. 

    Aquela reflexão mórbida e tênue, que corre em nossos olhos, cor de cinza com arco-íris, confunde o teste com a realidade, suspira longo para pensar mais tempo. 

    O fato mais concreto é que deixamos de rever o que nos fez bem, e a quem possibilitou novas oportunidades em nosso caminhar zeloso. 

    Não somos independentes em quase nada, até para respirar precisamos pegar o que tem no ar e jogar aos alvéolos, sedentos de pressa em se preencher a cada instante vital.

    É uma busca de sentido como a Eudaimonia, termo grego que literalmente significa “o estado de ser habitado por um bom daemon, um bom gênio”, traduzido como felicidade ou bem-estar, é o viver de acordo com a natureza, como foi a máxima do estoicismo. 

    Sendo dessa forma, a melhor maneira de valorizar o ser humano, porque hoje o que está na moda é sempre o que é novo, e o velho sábio que pode colaborar com a sapiência da próxima geração é esquecido na prateleira. 

    No passado, os velhos é que tinham poder político e cultural. Se o que nos falta é consideração a essa geração, está passando o tempo da mudança de atitude e desmedida ação em reparar esse erro.

    Não se sinta um perdedor pelo que deixou de viver, não vale a pena deixar de se sentir bem, ao olhar em seu espelho.

  • A VINGANÇA DO LAPTOP**

    *— Quando a tecnologia resolve mostrar quem manda (e vira protagonista da reunião)

    O relógio marcava 14h30 e ele estava numa reunião remota de marketing da Agência Pixel & Café*, com o chefe, as meninas do RH, as estagiárias… e até o Padre Marcelo, convidado para “abençoar” o projeto.

    O computador, num surto de rebeldia, começou a travar: reiniciava sozinho no auge da reunião, desligava sem aviso e exibia um “fantasma” na tela, como aqueles velhos televisores sem controle remoto. A cada “pix!”, a câmera congelava, o áudio estalava. Ele apertava o notebook e xingava baixinho:

    — Mas por que essa porcaria resolveu dar problema JUSTO agora?

    — Que máquina maleducada — brincou a esposa, espiando pela porta.

    — Para de tirar sarro! — retrucou ela, fingindo indignação.

    A mulher folheava o manual, perguntando se ele queria chamar alguém para ajudar. Mas, quando a vontade de rir se tornava incontrolável, corria para o banheiro — deixando o marido ali, brigando com a tecnologia, e voltava com a tensão convertida em gargalhada abafada. Era impagável.

    De repente, ele se transformou numa versão caseira de Leandro Hassum — soltando impropérios com todo o carisma que o estresse do momento permitia:

    — Mas que máquina mais imbecil, não conhece o que é ética, não sabe o que é dar duro por uma empresa. Quando eu puder, o destino dessa porcaria vai ser a lata do lixo.

    Do nada, a reunião voltou. Chefe, RH, estagiárias… e o padre Marcelo ajeitando a batina. 

    — Eu gostaria que todos ligassem a câmera — disse o chefe.

    A câmera decidiu ter vontade própria: apareceu “Permitir câmera?”

    — Mas eu permito, ora essa. Pelo amor de Deus. Que máquina mais desumana, sem coração — resmungou ele.

    Quando a imagem voltou, inclusive do padre, ele clicou, levantou a mão e o chefe liberou a fala:

    — Como eu disse, este projeto vai dar uma alma nova para a empresa, uma chance muito maior de investimentos.

    Aí começou o coro dos microfones:

    — Você precisa ligar o microfone!

    — Tem que ligar o microfone!

    — Tem que liberar o microfone!

    O som virou um coral desafinado. O padre Marcelo, sereno, balançava a cabeça como se rezasse pela alma da tecnologia — e pelo descanso do homem que virou comediante por instinto.

    De repente, ele tirou a camisa, começou a mordê-la, jogoua no chão, pisou nela, gritou, deitouse no chão e esperneou:

    — Máquina mequetrefe, computador patife, sirigaita!

    Então parou para pensar: “O computador era fêmea ou macho? Qual era o sexo do computador? Na boa, o computador é ele ou ela?” Pensou em perguntar isso ao ChatGPT, mas só depois da reunião.

    Afinal, muita gente se refere ao computador como “meu PC”, “minha máquina”. Mas, e aí, o computador é macho ou fêmea? Ele é “ele” ou “ela”? Ou será que é “elu”?

    De repente, ele começou a bradar:

    — Vão todos, em fila organizada, para o inferno! 

    — Vai você, chefe. Com esse terno ridículo de pastor de igreja, esse terno de brechó.  

    — Vai você, sua maluca. Fala mal de todo mundo pelas costas, mas não vai embora porque está dormindo com o chefe.

    E, mais do que a camisa, ele tirou a calça e pisou nela, só de cuecas. Parou. Riu de si mesmo. A câmera estava desligada e, com o microfone com defeito, ninguém o veria nem ouviria. Começou a dançar, a rebolar na frente da câmera, a jogar beijos imaginários para a estagiária da assessoria de imprensa. Um verdadeiro “Conga la conga”. Até que o computador decidiu dar o ar da graça: a câmera ligou de repente. Ele, de cuecas, com o dedo indicador na boca.

    — Estávamos ouvindo. Disse o chefe.

    Ali, mais do que voltar para a reunião, ele queria sumir, desligar o computador, enfiar a cara num buraco. A câmera ligada mostrou o homem congelado — todos boquiabertos, divididos entre a gargalhada e o choque. O chefe pausou a reunião: “Vamos tomar um café rápido.” Na prática, era uma pausa para as risadas, para o fuxico. Depois disso, ele seria o convidado mais esperado no happy hour da firma. Ver um surto tecnológico com final cômico rende boas risadas.

    E ali, na hora do aperto, ele aprendeu: nunca se deve ofender um computador. Ter um laptop como inimigo é a pior coisa que existe. Ele pode se vingar e colocar a gente em situações embaraçosas. Mas, aos olhos alheios, a diversão é garantida.

  • “Felicidade se acha em horinhas de descuido”

    Foi o Guimarães quem disse. O Rosa, que não é flor, tampouco cor. Ele disse, eu refleti. Me perdi nas horas, horas longas e não pequeninas, que atravessaram meu corpo, minhas ideias e minhas versões, desde o nascimento. Me descuidei, por um fio, horas a fio, fios de cabelos que ainda não embranqueceram.

    E foi neste descuido, chamado felicidade, que os fios de meus cabelos foram abraçados, silenciosa, vigorosa e funcionalmente por uma piranha cor-de-rosa.

    Não a ofensa feminicida, não o peixe;

    Apenas uma presilha.

    E não o Guimarães.

    Em tantos segundos misturados, um único observador acima de minha cabeça.

    No descuido de não arrumar sequer o cabelo, felicidade.

    Devolvo, sob a forma de texto-memória, a piranha que o Gabriel Cardoso me deu, uma escrita criativa registrada no tempo (obrigada!)

  • Aroma, meu guia

    Em outra vida, tenho certeza, fui um Bloodhound — aquele cão de faro imbatível, dono de 300 milhões de receptores olfativos. Os humanos comuns (não me incluo) mal chegam a 5 milhões. Sinto odores há quilômetros de distância, tanto os que me encantam como aqueles que me nocauteiam.

    Devo confessar que esse super olfato me leva a escolher locais pelo cheiro – sim! Lojas com cheiro de marca me seduzem: entro, respiro fundo, e saio com algo que nem queria, só para prolongar o prazer do perfume no ar.

    Sou capaz até de me tornar uma frequentadora fiel de um restaurante só pelo aroma de sua culinária que invade o ambiente. Isso sem falar na atração que sinto por pessoas perfumadas, para mim uma nota importante de sensualidade.

    Essa questão olfativa esteve sempre presente na minha rotina doméstica – mantenho sachês perfumados nos armários, borrifo água perfumada nos jogos de cama e banho e uso perfumes de acordo com o verão ou inverno, dia ou noite, até mesmo para ir fazer Pilates ou uma caminhada.

    Mas não fica só por aí – tenho uma gama extensa de incensos que acendo em casa, de forma a imprimir a minha marca no ambiente. Uma prática que iniciei há mais de quarenta anos e que me traz benefícios tanto olfativos como espirituais, para mim e para aqueles que compartilham da minha hospitalidade.

    Por isso, quando li sobre um projeto de arquitetura de luxo com “identidade olfativa própria”, vibrei. Um cheiro só do lugar? Maravilhoso! Estavam, enfim, falando minha língua nasal.

    Mas bastou seguir a leitura e… puft! O encanto evaporou: o metro quadrado custará R$ 100.000,00.

    Por esse preço, meu olfato prefere manter distância. Cheiro bom, sim. Mas com bom senso, de preferência.

  • Semente, Flor e Fruto

    Nossos pais são os nossos educadores natos e a escola nos ensina a ler, ter cultura, cidadania, socializar. Esse é o pequeno mundo das crianças. 

    Já a literatura distrai, ensina e forma a pessoa que nos tornamos.

    Ler amplia o horizonte; sem sair de casa interagimos com pessoas diversas, conhecemos países e outros continentes, somos colocados frente a frente com dilemas, vivências e exemplos de vida. 

    Ao elaborar questões existenciais, vivenciar as angústias, os erros e dúvidas dos personagens, tanto dos vilões quanto dos heróis, vamos forjando a nossa própria personalidade.

    Tive a sorte de nascer em um lar improvável: um homem culto e uma mulher simples e guerreira. A noite e o dia, o sol e a chuva.

    Meu exemplo de vida era ver minha mãe em sua luta diária : muitos filhos, dificuldades, poucas perspectivas de mudança. E meu pai, na batalha para pôr o pão na mesa.

    Foi dali, daquela família, que eu saí para o mundo.

    Não pronta, mas com roteiro e bagagem.

    A mim cabia ter coragem.

    A natureza e a juventude seguiram o curso natural da vida. Tão natural que, ainda adolescente, engravidei e me casei aos 16 anos.

    Me culpei, nos castiguei…

    Casamento às pressas, desengano aos poucos.

    Cenário pronto para repetir o ciclo de vida da minha valorosa mãe. 

    Mas eu tive mais do que ela.

    Conhecia o mundo através dos livros. Sabia que heroínas não se fazem sem audácia e sem lutas.

    E eu era uma delas, pois sentia, com uma certeza febril, que era semente, flor e fruto. Mesmo que no íntimo houvesse sustos e medos ainda desconhecidos.

    O estudo e o amor pelos livros me deram conhecimento e condições para saber que meu destino podia ser melhor.

    O espírito, grávido de emoções… a vida exigindo força e vigor.

    O equilíbrio incerto e os desafios áridos. 

    Estudar, lavar roupas, quatro filhos , ajudar nas tarefas, fraldas nos varais como bandeiras brancas ao vento, vacinas, piolhos, resfriados e espinhos no pé, estudar, pesquisar, ler, cumprir prazos, apagar a luz, cair na cama e dormir. 

    Heroínas diversas, bandidas, distintas, rasteiras, rameiras, donzelas e santas. Centenas delas, madrugada adentro, à luz de um lampião.

    Onze anos.

    Planta rasteira. Flores. Frutos.

    Filhos criados, primeira infância vencida, segundo grau completo, faculdade, concurso, liberdade financeira.

    Desistir? Pensamento de momentos…muitos!

    Resiliência, teimosia, orgulho, fé… constantes, fortes, intensos. 

    Juventude, saúde, corpo jovem e forte. Determinação, “estofo moral”, vontade férrea. 

    Viver e vencer exige gritos e não admite sussurros.

    A audácia, a valentia, o movimento se sobrepõe; o sapo é engolido.

    A literatura clareia a mente e preenche o coração.

    As dúvidas e respostas norteiam a jornada.

    A vida segue…

    Sentimentos diversos, “cãs prematuras”, décadas fugazes, lembranças esmaecidas, tristezas esquecidas, alegrias conquistadas, família, amigos, filhos, netos, leitores. 

    Escrevo…As linhas retas são mestras, e nas entrelinhas a riqueza dos espantos genuínos, constatações estranhas e descobertas surpreendentes.

    Sigamos! Ainda há muito a ouvir, falar e dançar. Até que desça o pano, somos os atores deste espetáculo chamado vida! 

  • Canções pra Americano Ver

    A revista Rolling Stone publicou recentemente sua lista de 500 melhores canções de todos os tempos (grifo meu) e supostamente de todo o mundo, atualizada para 2024.

    Aparecem na lista nomes como Cardi B, Carly Rae Jepsen, Migos, Megan Thee Stallion, Eslabon Armado, BTS, Clipse, Pusha T, Bad Bunny, Mark Ronson, Nick Minaj, CL Smooth, Funky 4+1  e Cardi B. Já ouviu falar em algum? Esses ilustres desconhecidos que bombaram nas plataformas de streaming e têm bilhões de acesso no Youtube em breve estarão mofando nas nuvens do esquecimento assim que largados à sua irrelevância.

    Em compensação, músicos de prestígio não fizeram jus a uma indicaçãozinha sequer. Ficaram de fora dentre outros, Frank Sinatra, Tony Bennett, Sarah Vaughn, Nat King Cole, Quincy Jones, Barbra Streisand, Carpenters, Janis Joplin, Joan Baez, Sting, Tom Waits, Bjork e Moby.

    Não é preciso ser crítico musical para constatar que há algo de errado. Que parâmetros teriam sido usados para reputar ídolos do pop descartável como Backstreet Boys e Britney Spears como superiores a um Tom Jobim ou um Burt Bacharach?

    E o que dizer de canções que atravessaram gerações e se eternizaram no imaginário popular como “Moonlight Serenade”, “As Time Goes By”, “Over the Rainbow”, “Smoke Gets in Your Eyes”, “Moon River”, “Take Five”, “Summertime”, “Stella by Starlight”, “My Funny Valentine”, “Misty”, “Autumn Leaves”, “Ne me Quitte Pas”, “La Vie en Rose”, “Volare”, “Besame Mucho”, “Guantanamera”? Nenhuma foi lembrada. Por serem músicas ‘de tiozão’, não mereceram a atenção dos iluminados idealizadores do famigerado guia da RS. Em seu lugar, entraram coisas tipo, “Toxic”, “In Da Club”, “Yeah”, “Hey Ya”, “Big Poppa” e “Fuck tha Police”.

    O rock não teve melhor sorte. Foram sumariamente vetadas bandas de primeira linha como Deep Purple, Dire Straits, Genesis, Yes, Jethro Tull, Emerson Lake & Palmer, Supertramp, Echo & Bunnymen, Siouxsie & Banshees e os ex-Beatles Paul McCartney e George Harrison. Apesar de cantarem em inglês, foram preteridos por uma simples razão: são britânicos. Fossem da terra de tio Sam, não fariam jus a tamanha desfeita.

    Por outro lado, abundaram indicações de gangsta rap, hip hop e country music (equivalente ao nosso sertanejo universitário), estilo cujo alcance está restrito ao território americano.

    Nada contra. Não se trata de discriminar determinados gêneros musicais. A questão é que um levantamento que se propõe a ser um painel da produção musical representativa deveria com isenção abrir espaço ao que é produzido em todas as épocas e lugares, segundo sua relevância artística.

    O Brasil pode dar-se por satisfeito: conseguiu emplacar umazinha preciosa indicação no clube fechado dos 500: “Ponta de Lança Africano”, improvável canção de Jorge Ben Jor surpreendentemente ganhou a 352ª posição. Nada a comemorar já que ficaram de fora temas como “Garota de Ipanema”, “Desafinado”, “Carinhoso”, “Asa Branca”, “Aquarela do Brasil” e “Chove Chuva” (essa última do próprio Jorge).

    Outros países tiveram pior sorte. Foram banidos da lista xenófoba da RS a França (Edith Piaf, Charles Aznavour, Serge Gainsbourg), a Itália (Pavarotti, Bocelli, Peppino di Capri), a Espanha (Paco de Lucia, Sarita Montiel, Gypsy Kings), Portugal (Amália Rodrigues, Dulce Pontes, Madredeus) e a Alemanha (Ute Lemper, Marlene Dietrich, Nina Hagen). Que dirá os pobres latino-americanos. Tal como imigrantes ilegais, foram barrados a Argentina (Astor Piazzola, Carlos Gardel, Mercedes Sosa), o México (Lucho Gatica, Trio Los Panchos, Maná) e Cuba (Pablo Milanés, Silvio Rodriguez, Buena Vista Social Club). Por não se expressarem no idioma trumpiano, foram escanteados.

    O rol de escandalosas omissões é infindável. Grandes nomes que fazem parte da memória musical foram atirados na lata de lixo da história.

    Poderíamos relevar tais aberrações fosse esse painel um dos inúmeros que pipocam em sites inexpressivos na internet. Não é o caso. A Rolling Stone se alardeia como uma revista gabaritada e adquiriu respeitabilidade nos meios musicais. Figurar em sua ‘qualificada’ seleção tem para o músico o peso equivalente ao que teria para o cinema uma indicação ao Oscar.

    Sendo uma publicação sediada nos EUA, não esconde sua subserviência descarada ao showbiz americano e se afina ao mote “make America great again”. Abdicou dos ideais democráticos e universalistas que inspiraram sua criação para adotar um deslavado colonialismo cultural, difundindo para o resto do planeta a predominância de valores essencialmente americanos.

    Prefira a despojada, mas honesta lista das ‘500 Mais da Kiss FM’.

  • Do cochilo

    Admiro quem tem o hábito de tirar um cochilo durante o dia. Comigo isso é difícil, e presumo que o motivo seja a falta de hábito. Segundo os médicos, tirar a soneca diária faz bem e — o mais curioso — não atrapalha o sono noturno. Entre as suas vantagens, pelo que li numa rápida consulta à internet, estão a melhora da atividade intelectual, a redução do estresse, a maior eficiência dos batimentos cardíacos e o aumento do bom humor.

    Esse último efeito é o que mais aprecio, tendo em vista o mau humor que atualmente impera, sobretudo, entre os habitantes das grandes cidades. A violência, as dificuldades econômicas e o atropelo urbano vêm espicaçando os nervos das pessoas, que tendem a se tornar intolerantes e agressivas. Não lhes faria mal parar por alguns instantes e se deixar embalar por Morfeu, cujas virtudes hipnóticas são ressaltadas desde a mitologia.

    A hora ideal para isso é depois do almoço, pois nesse momento o processo da digestão ajuda. Sabe-se que, após as refeições, aumenta o nível de potássio no organismo. Esse mineral, segundo li, “pode influenciar o sono de forma indireta ao contribuir para o relaxamento muscular e a regulação da pressão arterial”. Segundo ainda a matéria, isso “é parte de um mecanismo homeostático que busca manter o equilíbrio eletrolítico do organismo”. Coisa séria e necessária, como veem. Do aumento desse mineral não se escapa, bem como do efeito sedativo que ele provoca.  

    O governo deveria então estimular o hábito da sesta, instituindo algo como o Auxílio-Cochilo ou oferecendo dedução no Imposto de Renda a quem provasse que tira uma soneca de pelo menos meia hora depois de almoçar. Não era preciso que o País parasse, como ocorre em certas partes da Europa, mas a medida concorreria para uma melhor convivência entre seus habitantes — vários deles com o inevitável déficit de sono decorrente das inúmeros exigências da vida moderna.

    Mas é preciso ponderar que, para fazer bem, o cochilo tem que ter hora e, sobretudo, ser voluntário. Cochilar na hora errada, e quando não se quer, pode ser prejudicial à pessoa. O povo, que sabe das coisas, traduz essa verdade no conhecido ditado de que “cochilou, cachimbo cai”. O sentido é um tanto metafórico, eu sei, mas não deixa de se aplicar aos que literalmente adormecem e se subtraem aos deveres impostos pela realidade.   

    Nas estradas, por exemplo, o cochilo pode ter consequências letais. São muitos os acidentes provocados por quem dirige tresnoitado ou depois de uma gorda refeição.  Em nível de menor gravidade, não são poucos os indivíduos que dormitam no cinema e perdem as melhores partes do filme. O fato de suas mulheres beliscá-los quando começam a roncar não resolve em definitivo o problema; algum tempo depois, o potássio os leva a embarcar no sono de novo.

    O cochilo pode ser também um sinal de enfado diante de algo que aborrece ou amofina. Na impossibilidade de rechaçar de maneira explícita a experiência maçante, a pessoa fecha os olhos e, digamos, escapa para dentro de si. Espero que não seja essa a reação do leitor diante deste texto, mas, antes que boceje, acho que chegou a hora de colocar um ponto final.

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