Muitas vezes, ao argumentar, o redator deve contestar um ponto de vista diferente do seu. É preciso cuidado ao fazer isso. Quando a opinião a ser contestada vai de encontro a valores ou crenças, ele corre o risco de deixar de lado as ideias e investir contra as pessoas.
Um exemplo: numa redação sobre “Nível cultural e opção religiosa”, apresentei no suporte o fragmento de uma entrevista com Richard Lynn. Nessa entrevista o pesquisador britânico afirma que os indivíduos inteligentes são mais propensos a se tornar ateus, pois têm acesso a teorias alternativas de criação do mundo. Diz também que no Brasil, devido à miscigenação, há menos ateus e mais religiosos.
Um dos alunos tentou contestar o ponto de vista do estudioso dizendo que “essas duas afirmações estão totalmente equivocadas, ele com certeza não sabe nada sobre religião.” Afirmou isto sem explicar em que residiria o equívoco do pesquisador nem por que Lynn, uma autoridade no assunto, não saberia “nada” de religião.
Juízos apressados e genéricos não demonstram inteligência, mas birra e intolerância. Dão a entender que o emissor, tomado pela emoção, não está disposto a refletir, debater, avaliar os argumentos do outro. Há neles um predomínio quase que exclusivo dos afetos, que são um obstáculo ao discurso racional.
Existem maneiras mais inteligentes de demonstrar que não se concorda com as ideias ou as atitudes de alguém. Contestar pessoas, além de ineficiente do ponto de vista argumentativo, constitui o primeiro passo para a intolerância e o preconceito. É o que se vê neste fragmento de uma redação sobre o caso Bruno: “Eliza Samudio não foi apenas vítima. Ela teve o que merecia. Quis dar o golpe do baú e acabou se dando mal. Ela deve ter importunado tanto a vida do ex-goleiro que ele não teve outra saída.”
É fácil perceber nessa passagem que a precariedade dos argumentos decorre do propósito de julgar a vítima. A afirmação de que Eliza “quis dar o golpe do baú” e “deve ter importunado tanto a vida do ex-goleiro” não se baseia em fatos; é mera presunção. E, mesmo que fosse verdadeira, de modo algum justificaria o que se fez com ela.
Respeito muito a ideia de que cada geração tem sua música. Nem sempre concordo com o que é tocado, já vou avisando. Mas respeito.
Em outro momento, volto a falar sobre música geracional, mas confesso que meu respeito é movido menos por qualquer elevação espiritual e mais pelo medo de ser apedrejado em praça pública. A execração na ágora me arrepia; ser apontado nas ruas é meu pior pesadelo.
Mas, voltando ao que interessa: a música, e não as minhas fobias. Minhas filhas seguem o padrão, e para elas, K-Pop é sinônimo de música.
Como pai, fiquei curioso para saber do que se tratava. “É música pop coreana”, me explicaram e completaram: “Tem J-Pop, que é japonesa; C-Pop, a chinesa…”. E eu, engraçadinho, quis completar com B-Pop, a brasileira, mas elas logo me cortaram: “Não é nada disso”. E fiquei calado, segurando o riso.
Existem grupos de K-Pop masculinos e femininos, todos super jovens. Elas preferem as meninas, e eu achei que eram todas coreanas. Fui repreendido: “Não, pai, nem todas nasceram na Coreia do Sul”, me cortaram elas de novo. “Asiáticas, então?”, rebati. “Também não, a Rosé é da Nova Zelândia.” Balancei a cabeça, sem saber o que dizer.
Elas são fãs, ou melhor, k-popers. Por elas, já fui ao cinema ver um filme com o encerramento da turnê mundial do Black Pink. Cenas dos diversos shows, das moças nos bastidores, e muitas músicas perfeitamente dançáveis. Sim, do alto dos meus 59 anos, vejo que o balanço delas é bom. Ponto para elas.
Por isso, qual não foi minha surpresa ao ser brindado por uma das minhas filhas com a informação de que “Garota de Ipanema” havia sido gravada no mundo K-Pop. Em uma pesquisa rápida, descobri que a música é comum no repertório dos grupos de K-Pop. Achei ao menos umas três gravações distintas.
Mas a informação de que K-Pop gravara Tom e Vinicius veio acompanhada de: “Quer ouvir?” Prontamente, concordei e qual não foi minha alegria ao escutar a gravação feita pelo Tom Jobim em um CD de 1987!
Suspirei ao volante e escutei minha outra filha falar baixinho: “Olha a cara de relaxado do velho”…
Especialistas e pensadores debatem quais são os dilemas acerca da passagem dos anos. O documentário “Quantos dias. Quantas noites” abraça a conexão humana com a idade e o tempo desde o aumento da expectativa de vida até as desigualdades que envolvem esse tema.
O longa de Maria Farinha Filmes, dirigido por Cacau Rhoden, realiza um profundo mergulho nos propósitos de nossa existência no planeta, e lhe faz refletir o que realmente tem valor para se preocupar nesse exato momento.
Drauzio Varella “considerou que se você transformar sua vida num vale de lágrimas no qual submerge de corpo e alma, estará tornando-a uma experiência medíocre. Julgar que aos seus 80 anos, seus melhores momentos foram aqueles dos 15 aos 25, é não levar em conta que a memória é editora autoritária, capaz de suprimir por si as experiências traumáticas, e relegar ao esquecimento as inseguranças, medos, desilusões afetivas, riscos desnecessários e as burradas que fizemos em nossa tenra época.
Nada mais ofensivo para o velho do que dizer que ele tem “cabeça de jovem”, isso é considerá-lo mais inadequado do que o indivíduo de 20 anos que se comporta como criança de 10″.
A melhor idade é aquela que lhe traz qualidade em um determinado momento, e não somente na velhice. Quanto mais cedo você construir seu melhor capital social de amigos e parentes, sua base de satisfação se tornará sólida e larga, bem antes daquele instante que vais necessitar de um ombro como apoio à seus passos doloridos.
O curioso é que a vida de uma pessoa se encerra somente quando morre aquele que falava dela, e que até então as memórias do que ela viveu ainda são lembradas em falas curtas e incompletas. Por isso, nada mais razoável fazer se valer da presença desse indivíduo em sua vida, e demonstrar o valor e suas habilidades únicas em qualquer época de sua curta existência.
“Os sábios geralmente morrem loucos, os tolos morrem sufocados pelos conselhos. Embora muitos morram de tolhices, outros tantos nem começaram a viver.” (Antônio Abujamra)
Aprenda a andar mais perto dos jovens, eles trazem novas ideias e formas de conviver diferentes nesse mesmo instante fugaz, por vezes mais leve, e assim lhe oportunizam sentir melhor no mesmo momento por estar envelhecendo, e não aborrecendo. A dor passa, mas a beleza permanece.
Não deixei de brincar pelo medo de cair, nem de sorrir depois de receber um “carão”.
Não deixei de assistir a desenhos por perceber que estava perdendo tempo em frente à TV.
Não deixei de falar com meus pais sobre como foi meu dia, mesmo que para eles fosse apenas um dia qualquer.
Não deixei de me enturmar, mesmo percebendo que não era bem-vinda.
Criança não tem filtro. Por vezes, ouvimos que as crianças são páginas em branco que precisam ser preenchidas com uma vida idealizada pelos pais. A gente só entende o “ser criança” observando uma.
Na beleza da sua inocência infantil, a gente é quem aprende, em vez de ensinar.
Embarquei na decoreba das tabuadas e na escrita torta no quadro de giz. Mal sabia eu que, aos pedidos de biscoito recheado e à vontade de não mais largar minha amiga da escola, não existia comparação nem competição; a gente apenas queria passar de ano e desejava que o recreio não acabasse.
A palavra futuro era um palavrão que aparecia no livro de português nas conjugações dos verbos.
Tínhamos de distinguir bem o que era o futuro do pretérito, ou futuro do presente. E o que dizer do pretérito mais-que-perfeito? Sempre achei bonita essa composição de palavras, mas, ao pé da letra, existe um passado mais-que-perfeito?
A vida podia ser simples, mas profunda. Não havia artifícios; apenas tudo acontecia naturalmente. O medo vinha, mas bastava fechar os olhos bem forte e se cobrir com o lençol para que tivéssemos um mundo só nosso, na nossa imaginação fértil.
Deus quis que a fase mais feliz fosse a infância, para que entendêssemos sobre a pureza, dependência, restauração, lealdade e amor incondicional.
Hoje não é um dia de tributo ao Peter Pan, mas quem sabe a gente aprendeu mais na idade em que tudo era uma brincadeira, onde nada era tão sério, a não ser o amor desmedido dos pais e a preocupação deles ao perceber que não íamos bem na escola, sabendo que só queríamos brincar e deixar o dever pra lá.
Está se aproximando o Halloween e, com ele, o momento de brincar com algo que nos assusta. Mesmo que não se leve nada a sério, entrar na brincadeira, se fantasiar, é ter contato com figuras fantasmagóricas, com o objetivo de causar medo. Assumir a identidade dessas criaturas é uma forma lúdica de extravasar a face maligna que, de certa forma, está presente em todos nós. Aquele território obscuro do mal que nos habita.
Me chama a atenção que as representações figurativas do mal venham, na maioria das vezes, associadas à morte. Talvez porque, na cultura ocidental, consideramos morrer algo negativo, a passagem para o indefinido. Seja para os que acreditam que não há nenhum outro plano de existência depois da morte, seja para as pessoas com alto grau de crença na vida eterna, ou mesmo entre os que acreditam na reencarnação, não há certeza do que nos espera do outro lado.
Não por menos, o Dia das Bruxas antecede o Dia dos Mortos, como se a brincadeira de se vestir de alma penada por um dia fosse uma forma de se preparar para encarar a passagem para o outro lado, no dia seguinte.
Nessa sequência comemorativa do final de outubro, o Dia dos Mortos é reverenciado com visitas aos cemitérios, e outros rituais. As pessoas reagem de diferentes formas à perspectiva da morte: algumas a encaram de uma maneira suave e natural; outras se apavoram, não podem nem ouvir falar nessa palavra; e há aquelas que cultuam esse momento, seja de pessoas próximas ou mesmo desconhecidas e, como carpideiras, aproveitam para liberar lágrimas de outras emoções reprimidas.
Sem entrar no mérito de qual seria a melhor maneira de lidar com a passagem para a morada eterna, creio que qualquer pessoa evita pensar em quão próxima ela está. Por isso mesmo, ao ler esse “convite” colocado no portal de um cemitério, dei uma risada, confesso, um pouco nervosa.
Alguns acontecimentos recentes me despertaram para algo que suspeito faz tempo: a sorte tem seus escolhidos.
Por mais que não haja um processo claro e justo para esse favoritismo, ele acontece ali diante dos nossos olhos. É como assistir seu irmão ganhar de presente de Natal um carro elétrico e você um lindo pijama florido de flanela. A diferença é gritante, a revolta é muda, a raiva, efervescente; e uma pergunta que sobe pelas paredes: por quê? Por quê?
A sorte assume seus filhos preferidos de forma escandalosa. Faz concessões absurdas, muda as regras e os critérios para agraciar seus queridinhos. E não adianta reclamar, bater pé, rogar por igualdade, o jogo é sujo e indecoroso.
Quem tem sua benção, em geral, não precisa de esforço, empenho, desgaste, a coisa acontece, cai no colo, bate na porta. Quem não conhece alguém que tem a vida afortunada pelo acaso? Nem me refiro aos que nascem herdeiros, não. Esses também têm o que eu queria ter, mas, muitas vezes, pagam o preço de uma família insuportável, vivem numa selva emocional, de competição e vazios que eu não invejo.
Refiro-me ao sujeito comum, assim como eu, que por ordem da Mãe Suprema, Dona sorte, recebe, de mão beijada, o que eu não alcanço nem de mão cuspida. Exemplos não faltam: a pessoa que se dedica ao trabalho e nunca chega a sua vez de ser promovida porque tem sempre alguém que não faz nada, mas é a escolhida; as colegas de academia, fisicamente privilegiadas em curvas e formas que comem de tudo e não engordam, os que acertam na Mega-Sena. Enfim, diante dos fatos não há argumentos. Ou a Sorte tem seus escolhidos, ou a vida tem um prazer mórbido de ser injusta, implicante e ordinária, ou ainda eu e todos os filhos renegados somos invejosos e despeitados. Mas assumo: ouvir uma escritora, premiadíssima, dizer que nunca desejou fazer sucesso, apenas “aconteceu” em sua vida, me derrubou. Constatei de forma brutal que não sou mesmo atraente para sorte. Passo longe de ser a favorita, a preferida, a escolhida, a queridinha. Pelo visto, ela se agrada dos filhos rebeldes, desinteressados ou distraídos. Só me resta saber: todo patinho feio pode virar cisne pelo seu próprio esforço ou só deixa de ser patinho feio se um cisne poderoso decide promovê-lo ou enxergá-lo como tal?
Sem encontrar a resposta ou garantias, me atravessa outra dúvida: continuo escrevendo minhas crônicas, livros e poemas? Sigo divulgando, postando, fazendo cursos, indo às feiras literárias na tentativa de construir meu lugar? Insisto em esperar que os amigos leiam, compartilhem meus escritos? Alimento o sonho que me abraça de ser lida por muitos e pelo mundo, de habitar escolas e bibliotecas? Ou me faço de tonta para que a sorte me perceba e a magia aconteça?
Acho muito cansativo tudo isso. Prefiro torcer para que a persistência seja aquela tia boa que, inconformada com o favoritismo do caçula, se empenha em compensar o renegado, lhe dando um sorvete de casquinha, um brinquedo interessante, um colo quentinho e um cafuné reconfortante.
No diálogo acima há um jogo de palavras que se apoia na homonímia da palavra “sola”. Ela é verbo e substantivo. Significa, no primeiro caso, o ato de “executar um canto ou solo”. E no segundo, a “sola do sapato”.
O jogo de palavras só foi possível graças ao emprego do verbo “fazer”. Ele significa “produzir, confeccionar” no que diz respeito ao ofício do sapateiro (“sola”, ou “solado”, é mesmo o que o sapateiro faz). No que tange à atividade do músico, “fazer” não tem sentido próprio; substitui o verbo “solar”. Ou seja: é um verbo vicário.
Vicários são os termos que aparecem no lugar de outros. Pronomes, numerais, advérbios (sim e não) e o verbo “ser” também desempenham esse papel. Veja alguns exemplos: “Pedro desistiu de concorrer a uma vaga para medicina. Ele não tinha esperança de passar”, “Veio acompanhado de um irmão e um primo; o primeiro era mais educado do que o segundo”, “Você gosta de cinema? Sim (ou seja: gosto)”, “Se desistiu, foi porque não teve o estímulo da família (quer dizer: “desistiu porque não teve o estímulo da família)”.
O verbo “fazer”, seguido ou não de pronome, pode substituir qualquer verbo de ação da língua portuguesa. Uma pergunta como “O que você faz?” admite como respostas frases do tipo: “Estudo”, “Construo prédios”, “Organizo eventos” etc. “Fazer” toma o lugar de todas essas ações.
A amplitude semântica desse verbo pode levar a abusos no seu emprego. É quando, em vez de empregar uma forma verbal específica, usa-se “fazer” seguido de substantivo. Eis alguns exemplos retirados de redações: “Decidiu-se fazer a votação de duas propostas bem especiais”, “É preciso fazer uma avaliação honesta do que está ocorrendo no País”, “O governo precisa fazer uma sondagem na opinião pública”.
Devem-se evitar essas construções perifrásticas. O texto ganha em economia e expressividade quando elas são substituídas pelos verbos correspondentes. Por que não dizer “votar duas propostas” “avaliar honestamente” ou “sondar a opinião pública”? Além de ter mais energia do que o nome, o verbo designa diretamente a ação.
Há casos em que o conjunto “verbo mais substantivo” é pertinente (como em “fazer um levantamento”), mas na maioria das vezes ele afrouxa a expressão.
Quem gosta de viver com a sombra dos outros é o cacau, cultivado em regiões com temperaturas superiores a 21ºC. O clima frio ainda prejudica a qualidade das sementes, por isso o plantio é recomendado em regiões mais úmidas e quentes. Como o cacaueiro necessita de arborização para ficar protegido dos raios solares, seu brilho e sua vida dependem muito da sombra que o protege.
Viver dessa forma ou por vezes no escuro, não deveria ser motivo de desistência, apenas uma condição a ser atendida, como outras tantas necessárias para nossa subsistência.
Folheando meu novo livro, descobri que além da Fontana Di Trevi, existem outras três fontes em Roma: Fontaine dei Quattro Fiumi, Fontana di Nettuno e Fontana del Moro, todas adornadas com esculturas. Ainda não tive o prazer de conhecê-las pessoalmente, porém, nenhum amigo ou outros tantos que já fizeram uma viagem a Roma, me descreveram a existência das fontes com riqueza de detalhes.
O livro se chama “Como Vejo o Mundo”, escrito por Gilberto Henrique Buchmann, escritor, graduado em letras, funcionário público federal, notável viajante internacional. O Giba ilustra diversos lugares espetaculares visitados por ele, durante sua jornada de viagens internacionais independentes.
Em sua infância alguns quiseram imaginar que ele não poderia frequentar escolas públicas, porém, a sombra lançada desde cedo, não o fez desistir de seus sonhos, apenas atrasou um pouco o despertar para a vida mundana.
No livro ele conta suas experiências em cinco países, desde a concepção do projeto até os detalhes diários, enriquecidos em cada página desse quase guia turístico.
Ele estuda esperanto, que é a língua planejada mais falada no mundo, por isso pôde participar do encontro da Liga internacional de Esperantistas na cidade de San Benedetto del Tronto a 164 km de Roma, tão preparado como um componente do paragone, que debatia a arte de forma superior.
Gilberto é daquelas pessoas generosas que compartilham suas boas experiências, típico comportamento de um homem atencioso com os outros, que tem algo a nos acrescentar.
Dia 15 de outubro sempre foi uma data importante para as crianças, momento de demonstrar o carinho por seus mestres. Para alguns a escolha é simples, pois com pouca imaginação podem comprar um presente convencional que certamente agradará.
Não foi o caso de Lucas, não. Naquele ano, queria muito homenagear seu professor preferido, o de biologia. Um homem apaixonado pela profissão e que tinha uma vida bastante solitária depois da morte da esposa. Por esse motivo, o menino queria que o presente fosse algo que pudesse preencher esse vazio.
Depois de muito queimar as pestanas, teve uma ideia inusitada, certo de que ninguém na sala o superaria no quesito surpresa. Sabendo da predileção do mestre pelos répteis, começou a pesquisar como poderia presenteá-lo com um espécime que fosse adaptável ao ambiente doméstico. Inicialmente pensou em um jacaré, pois já tinha ouvido falar de pessoas que criam crocodilianos em tanques na residência. Como não sabia se ele teria espaço para um réptil desse porte, descartou a ideia.
Fez então uma lista de requisitos que o rep-pet deveria atender: não fazer barulho, não atacar, não defecar grandes quantidades, não precisar ser alimentado, não destruir móveis, não comer roupas ou livros e, por último, não necessitar de atenção permanente.
Passou dias pensativo, passando em revista a lista de répteis que tinha no material de aula e suas características. Sapos foram descartados direto por conta do barulho. Cobras nem pensar pela agressividade. Jabutis seriam simpáticos, mas têm que sernalimentados. A escolha estava difícil. Até que, finalmente, numa noite quente, ao olhar para a parede viu algo se movimentando. Com o coração aos pulos, percebeu que tinha encontrado o pet-rep ideal: uma lagartixa! Sim, perfeito!! Ela passou com louvor na prova, atendendo a todos os requisitos da lista.
Teve uma certa dificuldade em captura-la, mas com muito cuidado conseguiu encurralar a bichinha e coloca-la numa caixa com furinhos, para que tivesse condições de sobrevivência até o grande momento do presente. Ao entrar na sala de aula, Lucas teve até um lampejo de dúvida — Como seria a reação do professor a esse presente tão estranho?
Quando chegou sua vez, com uma certa ansiedade ofereceu a caixinha com os seguintes dizeres gravados em cima: Ao mestre, com carinho, um companheiro fiel para suas noites solitárias. Olhos mareados, o professor abraçou Lucas, sem conseguir proferir uma única palavra. Desconcertado, o menino voltou para casa sem saber se tinha atingido ou não seu objetivo.
Dizem que as lagartixas vivem por cinco anos, e pelo visto isso é uma verdade. Um dia, já formado, Lucas encontrou com o professor de biologia que, sorrindo, lhe disse: “Sabe que o Lucartixa continua me visitando todas as noites?”
Pai vamos fazer panqueca? A pergunta-convite me acendeu os olhos de alegria!
Chequei se tinha tudo que ela precisava. Sim, nada faltava. Peguei um avental para cada um e fomos à cozinha. Estava radiante, afinal cozinharia com uma de minhas filhas. Prometi ser seu assistente.
Abri o livro com a receita, ela se inclinou sobre a página, concentrada. Separou os ingredientes, testou os ovos (Não sabe como faz? Põe na água, se boiar joga fora). Se enrolou um pouco com aquela estória de colher de café, de sobremesa e de sopa.
Mas quando começou a operação percebi que estava diante de alguém de padrão muito elevado. A farinha foi medida no copo medidor com uma precisão de deixar qualquer câmera de trânsito, daquelas que flagram os infratores, no chinelo.
E os ovos? Nem na próxima encarnação serei capaz de quebra-los com aquela eficiência. Nem um caquinho da casca caiu no liquidificador.
Depois de misturar a massa – o que é mesmo homogênea, papai? – chegou a vez de aquecer a frigideira. De primeira, ligou o fogão com uma intimidade de chef de cozinha.
E veio o toque especial: com um gesto quase diáfano estendeu uma camada fina de massa na frigideira. Eu ali, em silêncio reverencial, porque as minhas são grossas como sola de sapato. Fez umas seis panquecas, fininhas, deliciosas. A irmã comeu, gostou, elogiou pouco, levantou da mesa e sumiu. Ficamos nós dois. A chef e seu assistente.
Eu comi encantado. Enebriado. Afinal, cozinhar com filha pré-adolescente não tem preço.
Já ela, compenetrada, comia avaliando sua obra recém concluída.
Quando terminou me mirou com olhar blasé e soltou: ficaram boazinhas. Eu prendi o riso.
Escrevo esta crônica pensando na razão de escrevê-la! Por que escrever uma crônica? De que me serve a crônica?
Mas qual seria a razão de todas as crônicas?
Dizem que a crônica é metida a besta porque ora é prosa, ora é poesia, ora é ensaio, ora não é nada…
Dizem os estudiosos que a crônica é o testemunho de um tempo, o registro dos homens e seus conflitos.
Dizem ainda que a crônica é o texto do dia, da linguagem do dia, das questões do dia…
Muitos concordam que a crônica está intimamente ligada ao calendário, aos fatos corriqueiros…
Mas, se for assim, a crônica nasce inevitavelmente velha, fadada ao nada, ao ostracismo. Como um número, um dia um mês, um ano…
No entanto, creio que a crônica é muito mais que o dia! Ela é uma voz, ou melhor, as vozes de todos os cronistas que, atentos ao mundo e aos outros, escrevem sobre o amor e a tristeza, sobre os sucessos e os fracassos, sobre a vida e a morte, o trânsito, a rua cheia e a rua vazia, o beijo dos namorados, os encontros e os desencontros, os sabores e os dissabores, o que é eterno e o que é finito, o que é sagrado e o que é profano, o que se usa e se diz e o que não se usa e não se diz…
O pequenino gesto de uma criança, uma nuvem no céu, o nascer ou o pôr do sol, a lua, as canções do vento e o vento das canções, todas, todas as sensações, o corpo suado de espanto, os olhos marejados de expectativas, ora concretizadas, ora destruídas…
A crônica é o estalo e o espasmo, a grande surpresa de estarmos aqui neste mundo!
A crônica é, em suma, o melhor texto para nos apresentar como somos, seres transitórios e contraditórios, mas cheios de ideias e talentos!
Por isso, quando as pessoas falam da crônica como um texto menor, elas estão enganadas, na verdade, ela, a crônica, é o maior dos textos justamente porque fala, de maneira simples, da nossa essência: a essência que reside nas pequenas coisas.
Então, respondendo ao que foi colocado no início deste texto, escrevo porque a escrita é a minha maneira de entender o mundo e a mim… Escrevo também porque, a despeito de todas as provas ao contrário, acredito no humano e sigo teimosamente nesta crença…
Esta a razão da crônica! Continuar acreditando, apesar de tudo…
O ressentimento nasce dentro da culpa que o indivíduo criou, em detrimento de algo que alguém pretensiosamente provocou para chegar em sua condição atual inaceitável. O mais difícil é entender porque isso não passa. A versão provável desse drama é a de que essa queixa se mantém porque ele terá que assumir que foi ele quem fracassou em algum momento, e não os outros que provocaram o problema.
A pintora Maud Lewis, foi retratada no filme “Maudie”, que narra sua vida de artista em Nova Scotia no Canadá, passada com muito sofrimento até sua morte aos 67 anos. Ela vivia com a tia que a tratava como inválida, não deixava Maud sair, era muito grosseira e a escravizava nos serviços domésticos. Maud então vê a oportunidade de se livrar dessa tia, quando encontra um anúncio em uma loja, para contratação de doméstica, e se candidatou para assumir os serviços a um homem rude, de poucos recursos, que veio a ser seu marido.
A artista se manteve pobre em grande parte de sua existência, e permaneceu em uma pequena casa ao lado do esposo.
Ela foi uma excelente pintora, porém, sua condição de saúde reduziu a mobilidade de suas mãos, que eram o principal instrumento nas pinturas. Sua mãe Agnes foi quem influenciou a menina a se apaixonar pelas artes desde cedo. Na infância, ela incentivava a filha a pintar cartões postais para vender no Natal. Mesmo com todo pacote de problemas, Maudi persistiu sem reclamar da falta de ajuda dos outros, muito menos culpar sua família pela genética complicada, e tampouco recriminou a Deus a dificuldade em subsistir. Ela conquistou um enorme reconhecimento entre os anos 1964 e 1965, quando foi destaque no Telescope da CBC-TV, tornando-se uma artista popular e amada, e muito conhecida por suas obras. Duas das pinturas de Maud foram encomendadas pela Casa Branca na década de 1970, durante a presidência de Richard Nixon, mas a artrite limitava sua capacidade em concluir muitas encomendas.
Quantas limitações você carrega que lhe mantém sem ação e com mau-humor frequente por não ter sido acolhido(a) de braços abertos pelo mundo?
Qual é o tamanho de seu ressentimento ao conhecer suas reais limitações que foram decididas e desenhadas ao longo de seu caminhar.
Assim como a literatura, alimente-se com a capacidade de observar o mundo a sua volta, do contrário, pode matar de fome sua alma.
Situationships, termo que entrou na moda por volta de 2017, vem ganhando cada vez mais espaço nos últimos anos. Ele se refere a relações que se baseiam em uma conexão emocional sem compromissos ou planos, sem rótulos.
O termo se tornou popular a partir do crescimento dos aplicativos de relacionamento, que introduziram o conceito de match. No entanto, esse tipo de conexão vai além de uma simples “ficada” ou encontro casual, pois existe uma ligação emocional e íntima entre os que dela participam, mesmo que de forma fluída e não permanente.
A possibilidade de relações intensamente mutáveis, como no situationship, remete ao conceito sociológico de modernidade líquida, desenvolvido pelo acadêmico Zygmunt Bauman. Sem me aprofundar no tema por ele desenvolvido, a ideia central do autor é de que a contemporaneidade vem transformando as relações sociais e interpessoais, em relações frágeis, fugazes e maleáveis.
No âmbito amoroso, elas se tornam susceptíveis a transformações rápidas e imprevisíveis, dando origem ao conceito de amor líquido, que é caracterizado pela fragilidade, pela falta de compromisso duradouro e pela busca constante por novas experiências e conexões.
Pensando em uma linha do tempo da vida amorosa, as relações fluidas parecem ser um caminho trilhado atualmente pelas duas pontas: as pessoas muito jovens e os que eu chamaria de muito adultos. Sim, pois a liberdade de não seguir padrões preestabelecidos torna esse modelo muito atrativo para as novas gerações, mas também vem ganhando espaço entre aqueles que já viveram relacionamentos mais sólidos e permanentes durante a vida e procuram, agora, alguma coisa mais “liquida”.
Na prática, por significar um envolvimento flexível e volátil, viver uma experiência de amor líquido não é para qualquer um. Se por um lado ele gera uma maior autonomia na relação, para quem não está preparado o amor líquido pode provocar uma sensação de insegurança e ansiedade, uma certa inquietação emocional e, a busca constante pelo par ideal.
Para não cair nessa armadilha, quem pretende se aventurar pelas trilhas do Situationship, como já cantou Gilberto Gil, tem que ter a alma e o corpo são. A condição pode ser resumida na sabedoria desse pequeno parágrafo de Fernando Pessoa (e quase sempre volto a ele):
“Enquanto não atravessarmos a dor da nossa própria solidão, continuaremos a nos buscar em outras metades. Para viver a dois, antes, é necessário ser um”.
Sou Cassionei Niches Petry, 45 anos (com corpinho de 44 e meio), trabalho como professor, pois nenhuma outra profissão me aceitou. Cabelos: ainda tenho, começando a rarear e clarear. Altura: alguma coisa entre 1,60m e 1,69m. Peso: entre 1kg e 105kg. Uso óculos de lentes grossas (que aumentam consideravelmente os números da balança), tenho miopia e um pouco de astigmatismo, os graus eu não lembro e não encontro a receita do oftalmologista, que ainda por cima escreveu com letra pequena, sacaneando o paciente. Quando nasci, a família morava num porão de um CTG, portanto vim ao mundo com o peso da tradição gaúcha sobre mim, mas bah!, logo me livrei, tchê!, e hoje sou um cidadão do mundo que nunca saiu da sua cidade, Santa Cruz do Sul, cidade inapropriada para um ateu viver. Tenho uma união estável com a mulher que me incentivou a continuar estudando e por isso me livrou de ser um rapper sem sucesso e ainda, o melhor, me deu uma filha, por sorte mais bonita e inteligente do que o pai.
Prato predileto: prato fundo, de preferência com bastante carne de churrasco. Gosto de ler livros, ouvir música lendo livros, assistir à TV lendo livros, comer lendo livros e navegar na internet em busca de livros. Escrevo algumas coisas que chamei de contos e romances e algumas pessoas acreditam que são mesmo, chegando a dizer que sou escritor e, como sou do contra, digo modestamente, “não, não, que é isso, sou só um escrevinhador”.
Queria era escrever crônicas de humor, como as de Luis Fernando Verissimo, Millôr Fernandes, Stanislaw Ponte Preta e Leon Eliachar, mas como não tenho esse talento, pratico o plágio descarado desses autores, sem a mesma qualidade, é claro (é agora que o leitor comenta, “não, que é isso, você tem muito talento”). Na política, sou um “em cima do muro” assumido, vendo os dois lados discutindo e jogando pedras uns nos outros, mas quem é atingido sou eu, por não ter lado (aliás, como sou barrigudo feito uma bola, tenho dois lados, o dentro e o de fora). Sou uma metamorfose ambulante que muda de opinião a todo o instante, mas não deixo de opinar democraticamente sobre as coisas relevantes do país, como por exemplo, se se deve pôr o feijão por baixo ou por cima do arroz e afirmo: é lógico que é por baixo, quem pensa diferente deve ser fuzilado ou enforcado.
No futebol, sou colorado não praticante, já assisti masoquistamente a todos os jogos do Internacional, mas hoje é mais emocionante assistir na TV de madrugada aos pastores da Universal exorcizando demônios. Já disse que sou ateu, mas tenho santos de devoção: São Kafka, São Cortázar e São Machado de Assis (este último é a prova de que santo de casa não faz milagre e que nascer no Brasil é uma merda). Tenho uma visão trágica e pessimista da vida, acredito que o ser humano não tem solução (inclusive eu, claro, pois sou um ser humano, até alguém me cortar e ver os fios e os mecanismos internos que me mantêm aqui), que não existe esperança (pelo menos não para nós, como escreveu Kafka, ops, São Kafka, amém) e não acredito e nem quero que exista vida além da morte (imagina ter que me aguentar a mim mesmo durante toda a eternidade). Por último, e não menos importante, quero ser cremando quando morrer e que minhas cinzas sejam jogadas no vaso sanitário ou no lixo mesmo, mas se eu fosse enterrado gostaria que estivesse escrito na minha lápide:
Joguei meus cadernos no lixo três semanas antes de saber que o concurso ia sair. Foram dois anos estudando, minguando as horas de sono e deixando o lazer para depois. Fumava uma carteira de cigarros por dia e isso era toda a minha diversão. O restante do tempo, ou trabalhava na loja ou estudava. Alguns amigos com quem saía me abandonaram, parece que desertei da vida ou virei um alienígena. Se pensar bem, no nosso país, quase todo mundo que estuda a sério é meio alienígena.
Sempre fui vidrado nos livros do Erich Von Däniken e confabular sobre os deuses astronautas é um dos meus assuntos preferidos. Eu gosto dessa coisa de alienígenas. Talvez pensar que exista algo mais inteligente que o homem (o que não é muito difícil) em algum lugar por aí, me faça ter um tantinho de esperanças de que a vida não seja só isso, sabe? Só esse negócio da realidade construí por boa parte da vida, que se resume a trabalhar, trabalhar, trabalhar, esperar ansiosamente o fim de semana, beber igual uma jamanta no cio para esquecer a semana ou para tentar transar, passar o domingo regado a chás e remédios, e recomeçar. Trabalhar, trabalhar, trabalhar, esperar ansiosamente o fim de semana, beber igual um jamanta no cio para esquecer a semana ou para tentar transar, passar um domingo regado a chás e remédios, e recomeçar.
Sim, estou generalizando e aumentando. Nem todo mundo bebia igual uma jamanta e quase ninguém transava, mas sempre estava no cio. Eu curtia essa vida, mas acabava arrependido no domingo, principalmente depois dos quarenta. Essa história de que os cinquenta são os novos quarenta, de que os quarenta são os novos trinta e assim por diante, vai fazendo a gente achar que é jovem para sempre e isso é absolutamente irritante. Gente jovem é chata e tem energia para fazer a sua chatice ser estrondosamente incômoda. Percebi isso quando estava lendo o Viagem a Kiribati, do Däniken, e o meu vizinho lavava a sua saveiro rebaixada com o som absurdamente alto, tocando uma música tão pornográfica que fiquei de pau duro. Aquilo era patético, principalmente porque eu tinha brochado umas duas vezes no mês anterior.
Na crise dos quarenta, comecei a pensar na vida e decidi que pararia de viver como um adolescente. Sim! Eu era o tio da balada que muito raramente comia alguém, mas que estava sempre lá, louco para gastar o dinheiro que os jovens não têm e pronto para qualquer parada, achando que essa fase nunca terminaria. A gente só enxerga o quão estúpida é essa situação quando a poeira baixa. Nessa época decidi que faria um concurso. Escolhi, comprei cursos, organizei meus horários, deixei as baladinhas, reduzi quase completamente as saídas para beber, me isolei, meti a cara nos livros, e o concurso não abria.
Estudava dia e noite, não tinha tempo para mais nada. Comecei a ficar mais triste, ou mais culto. No fundo, sem admitir, acho que sentia uma ponta de saudades do tempo em que saía toda semana e não me importava com nada. Por outro lado, não queria voltar para aquele estado. Vivia um estranho paradoxo, mas continuei estudando.
O concurso simplesmente não abria e, vez ou outra, batia a sede de uma cervejinha gelada e inflacionada numa balada sem graça com músicas horríveis, do lado de meninas desconhecidas e com idade para serem minhas filhas. Acho que isso vicia um pouco. Deveríamos talvez criar um grupo parecido com os AA para nos apoiarmos, poderia ser algo como o Tio Da Balada Anônimos ou coisa do gênero. No entanto, era melhor manter o foco no concurso de data indefinida. Ouvi várias vezes os professores dizendo para esperar mais um pouco e mais um pouco. Comecei a achar que só queriam o meu dinheiro. Talvez estivesse paranoico.
Uma noite calorosa de sábado, cansado de estudar, fui até um bar perto de casa, jurando que tomaria uma única gelada e voltaria. Feliz ou infelizmente encontrei alguns conhecidos que não via há muito tempo. Bebemos até amanhecer, rimos muito relembrando histórias, falamos de futebol, mulheres e outras bobagens de gente bêbada. Que saudades. Nem percebi o tempo passar e aquilo foi realmente relaxante. Meus pensamentos rondavam a desistência e acabei diminuindo as horas de estudo. Parei de frequentar as aulas e de quando em vez dava uma conferida nas matérias em casa. Na verdade, só pensava no concurso quando limpava a casa e via os livros e cadernos um tanto quanto empoeirados em cima da escrivaninha. Fui aceitando a derrota.
Fiquei sabendo, tempos depois, que o edital do meu concurso havia sido lançado, quando as únicas informações que rondavam a minha cabeça eram os deuses astronautas e a festa do sábado seguinte. Não adiantava mais, eu não lembrava do conteúdo e tinha me desfeito dos materiais. Aqueles dois anos, no fim das contas, seriam uma mancha na minha biografia.
Passados alguns meses, acabei aceitando um bico em um domingo à tarde para ter alguma coisa a fazer e ganhar um dinheirinho. Por ironia do destino, fui um dos aplicadores da prova do concurso para o qual estudei durante tanto tempo. Dolorosa ironia. Tive pena daqueles muitos concorrentes. Sabe-se lá o que estavam deixando de lado para tentar aquela vaga. Inocentes, talvez. Pelo menos tinha conseguido uma transa na noite anterior. Gente fina, a menina, mas acho que roubou uma garrafa de vinho que estava guardando para uma ocasião especial. Do concurso tirei apenas os cento e cinquenta reais que ganhei para aplicar a prova. Daria outra garrafa de vinho. Ou nem isso.
*Publicado originalmente em 16 de out. de 2022, 21:30
Um pouco de tradição e nostalgia guarda o que há tempos foi um clássico do futebol carioca: Flamengo x Bangu. Lembrando que craques como Zizinho, Domingos da Guia e Zózimo já vestiram a camisa dos dois clubes.
O primeiro título do Flamengo no Maracanã foi em cima do Bangu, o Torneio Início (aquele do jogo em 15 minutos e no final a disputa por pênaltis) de 1950. Embora na estreia do Flamengo no estádio, o Bangu tenha vencido por inacreditáveis 6×0 – até hoje a maior goleada sofrida pelo rubro-negro no Maracanã (igualada uma vez, pelo Botafogo, em 1972, com direito a resposta digna e à altura no 6 a 0 do gol do Andrade, no Carioca de 1981).
Exceção feita à briga generalizada, capitaneada por Almir Pernambuquinho na final de 1966, o Flamengo foi feliz em decisões com o Bangu. Em 1915, se sagrou bicampeão carioca, e em 1943 a história se repetiu, com o Flamengo conquistando novo bicampeonato ao vencer o Bangu. Em 1948, o Flamengo jogou com o Bangu na inauguração do Estádio de Moça Bonita e, como bom convidado, perdeu o amistoso por 4 a 2.
Duas conquistas da Taça Rio pelo Flamengo foram em decisões com o Bangu, com igual placar e gols do mesmo jogador. Em 1983, o Flamengo conquistou a Taça Rio no Maracanã, com gol de Adílio; e em 1985, voltou a conquistá-la, vencendo o Bangu no Maracanã, coincidentemente com gol de Adílio.
Deslizes, glórias e tragédias à parte, o retrospecto histórico aponta uma grande superioridade rubro-negra. Assim, são 217 partidas, com uma larga vantagem do Flamengo, com 136 vitórias, 32 empates e 49 derrotas.
A favor do Bangu o fato de ter sido um dos pioneiros do futebol nacional a contar com jogadores negros e operários em seu elenco, o que levou outros clubes a seguirem o exemplo, transformando a prática do futebol – até então um esporte elitista – num espaço bem mais democrático.
Apesar de o Flamengo ser o clube das massas, e muitos atribuirem ao Vasco da Gama a primazia da inclusão de negros no time, na verdade foi o Bangu (mais um vice do Vasco). Em 1905, Francisco Carregal foi o primeiro jogador negro a praticar futebol oficialmente no Brasil, atuando pelo Bangu e depois se tornando tesoureiro do clube. O enfrentamento ao racismo não foi uma tarefa simples. O Bangu se retirou do Campeonato Carioca, em 1907, e só voltou quase dez anos depois, quando finalmente a federação aceitou os seus atletas negros.
Como se vê, inescrupulosos e incompetentes no comando das federações de futebol vêm de longa data.
Mas o jogo do Flamengo e Bangu que me interessa contar aqui, e que não decidiu nada e nem teve maiores consequências, é bem pouco conhecido e se passou numa esquecida noite de 19 de julho de 1973. Naquele tempo a televisão não transmitia as partidas porque os dirigentes temiam que isso retirasse os torcedores dos estádios.
Era também época da novidade do videotape, e as tevês podiam apresentar o jogo horas depois do seu término. A opção do torcedor para asssitir ao jogo com mais emoção era não saber o resultado e ver pelo videotape, mais ou menos no começo da madrugada, quase no fim da programação. Naquele dia 19 de julho, eu fiz o recomendado: não liguei o rádio, tomei o cuidado de não saber o resultado e aguardei com paciência o jogo no videotape.
A televisão que passava a partida, se não me engano, era a Tupi, tinha como comentarista esportivo o saudoso Ruy Porto. Gaúcho de Garibaldi, inicialmente locutor e que hoje é nome de uma rua na Barra, ficou famoso quando, na Copa de 70, chamou a bola de “leviana” ao comparar o seu peso, mais leve do que nas outras competições…
O jogo transcorria e o primeiro tempo terminava com a vantagem rubro-negra de dois gols. Nos comentários de praxe no intervalo, nosso Ruy avisava que o Flamengo tramava bem, criando jogadas e finalizando, mas que o Bangu se encontrava vivo na partida e poderia reagir. Foi quando alertou os telespectadores, na maioria torcedores do Flamengo, tratar-se de um jogo parelho e que todos não se iludissem, esperando por um jogo fácil. Era aguardar a segunda etapa e certamente aquele jogo não viraria uma goleada, de cinco, seis, sete ou oito a zero, por exemplo.
Vieram os anunciantes e o jogo reiniciava seu segundo tempo. O Flamengo, avassalador para desespero do Ruy, marcava um gol após o outro e, diante do locutor sem graça e de um comentarista agora calado, aplicava contundente goleada. Final: Flamengo 8 x 0!
Morador da Zona Norte do Rio e boa-praça assumido, Thogun ganhou projeção nacional com o documentário Fala Tu (2003), de Guilherme Coelho e Nathaniel Leclery, que acompanhava o cotidiano de rappers cariocas em busca do sonho de viver da música. Ex-vendedor ambulante, dono de voz marcante e apaixonado por jornalismo, ele reconhece que o filme mudou sua trajetória: “Se não fosse o mano Thales, produtor do filme e companheiro de militância há mais de 20 anos no hip-hop carioca, eu não teria conseguido”, afirma.
A relação com o cinema não parou aí. No mesmo período, participou também de Notícias de uma Guerra Particular, de João Moreira Salles, documentário que retrata a violência urbana e o papel do tráfico nas favelas. “Se a influência do Fala Tu tem esse formato, deve-se ao Coutinho e ao João”, diz, citando os documentaristas Eduardo Coutinho e João Moreira Salles como referências.
Nesta entrevista exclusiva, concedida por e-mail, Thogun conta um pouco de sua trajetória.
Crônicas Cariocas:Você foi um dos quatro cariocas participantes do documentário Fala Tu (de Guilherme Coelho e Nathaniel Leclery), que mostra o dia a dia dos rappers e seus sonhos de ganhar a vida cantando. Como você avalia a sua vida após o filme?
Thogun: Ganhar a vida cantando, ainda não enxerguei essa possibilidade. Mas reconheço que, se não fosse o mano Thales — produtor do filme e companheiro de militância, há mais de 20 anos no movimento hip-hop carioca — eu não teria conseguido.
Crônicas:Foi na mesma época em que você filmou com João Moreira Salles, o longa Notícias de uma Guerra Particular. O que esses dois filmes têm em comum?
Thogun: Cara, eu assisti ao filme em 94 e daí soube como pensava o João. Se a influência do Fala Tu tem esse formato, deve-se ao Coutinho e ao João.
Crônicas:Em Fala Tu, os personagens são carregados de peculiaridades. O Macarrão, por exemplo — outro rapper que participou do filme — perdeu a mulher, vítima de eclâmpsia, durante as filmagens. Você ficou sabendo desse episódio? Isso o afetou de alguma forma?
Thogun: É forte, e isso acontece com as mães de baixa renda em todo o território nacional. Uma vergonha. Fico muito puto só de pensar nisso, uma covardia muito cruel com mulheres guerreiras como a Mônica, esposa do Macarrão.
Crônicas: Você continua vivendo no subúrbio?
Thogun: Sim, mas quero implantar projetos em Cavalcante e sair pelo mundo sem esquecer minhas raízes e minha base. Sou da Zona Norte até morrer (risos). Esse cheiro não tem que sair da minha alma.
Crônicas:Você filmou para Fala Tu no hospital onde seu pai estava internado por causa de um câncer, e ele faleceu antes do lançamento do filme. Vocês chegaram a conviver um tempo juntos? Deu para recuperar os anos que ficaram longe um do outro?
Thogun: Deu para alcançar o perdão. O meu de filho e o dele de pai.
Crônicas:Como surgiu o convite para participar da série da HBO Filhos do Carnaval (que agora está sendo reprisada aos domingos)?
Thogun: Cara, a roteirista Helena Soares obrigou os diretores a assistirem ao Fala Tu. Os diretores Cal Hambúrguer e César Rodrigues viram, com certeza, que eu preenchia o perfil do personagem. Fiz dois testes e passei.
Crônicas:Nela você é Nilo, filho bastardo e segurança do bicheiro Gebarão (Jece Valadão), mas também é o personagem que narra toda a trama. Por que você acha que foi escolhido para viver esse papel de destaque?
Thogun: Força de expressão: finalmente eu vi como é bom ser rapper, pois até Filhos do Carnaval eu não era ator.
Crônicas:Como foi trabalhar ao lado de feras como Felipe Camargo, Henrique Diaz e o próprio Jece Valadão?
Thogun: Senti-me premiado, e esses caras não mediram esforços para me ajudar. Foi maneiro, em especial, o Sr. Jorge Coutinho, que viveu o Joel, meu pai postiço. Ele é foda! Muito bom ator.
Crônicas:Como é sua vida hoje? Você continua fazendo músicas?
Thogun: Sim, montei minha empresa e coordeno uma ONG chamada Qmovimenta do Brasil, que atua no Morro do Pinto.
Crônicas:Como é o convívio com outros rappers do Rio?
Thogun: O melhor, pois o rap é extremamente democrático. Vale a postura de cada um.
Crônicas:Já tem novos convites para participar de outros projetos como ator?
Thogun: Sim, mas quando forem confirmados, te falo.
Crônicas: Já conseguiu realizar o sonho de se tornar jornalista?
Thogun:As faculdades que me prometeram bolsas “cagaram o pau”, mas semestre que vem ninguém me segura!
Crônicas:Você acompanha a política brasileira?
Thogun: Faço política desde que acordo. Não adianta fechar os olhos para as realidades do nosso país.
Crônicas:O que espera que mude no Brasil a partir das eleições?
Thogun: Que o povo pare de acreditar em novela, participe realmente, com verdade, desse processo de mudança, e aprenda a lutar por seus interesses.
Crônicas:O que você diria para a molecada das favelas que pretende viver da arte e o que fazer para não cair na rede do tráfico?
Thogun: A arte é um trampolim, e nem todos vão estar à frente das câmeras e dos holofotes, mas podem fortalecer os bastidores e ser protagonistas das suas realidades; vencer e potencializar para que outros vençam. Assim, a molecada vai ficar longe do tráfico quando souber, verdadeiramente, se valorizar, deixando de se ver como massa de manobra de governantes, capitalistas e traficantes. Porque realmente existe a opção de estar vivo, e vale a pena lutar pela vida. Valeu! Paz! Saudações quilombolas!
Particularmente, eu gosto da Praça Mauá. Passo por ela quase todos os dias, indo ou voltando do trabalho. O trânsito é estressante, as pessoas se esquivam sem se olhar, e ainda assim me agrada. De manhã, o corre-corre assusta: passos apressados, buzinas impacientes, motoristas malcriados. Afinal, ali começa a Avenida Rio Branco, a mais movimentada do centro do Rio de Janeiro. Mas eu gosto. Gosto de saber que, no meio do caos, ainda sobrevive um restinho de boemia, um fiapo de solidariedade.
À noite, tudo se transforma. É como se a praça trocasse de pele. A agitação continua, mas de outro jeito, paradoxalmente mais lento.
Às vezes, sem motivo nenhum, sento num banco e fico ali, quieto, por horas. Observo o vaivém frenético dos carros, o tropeço dos transeuntes. E, no fim, o que me prende sempre é o ser humano.
Foi assim que conheci a família de Zirão. Ele dizia ter vinte e seis anos, mas aparentava mais de trinta. Ainda assim, liderava sua pequena tropa com calma. A mulher, bem mais velha — quarenta, talvez quarenta e cinco — observava seus gestos com um ar de aprovação. O filho mais velho, um garoto de uns treze anos, a caçula de seis e dois cães vira-latas completavam o retrato.
Zirão não se curvava à vida, mesmo vivendo na rua. Era ele quem dobrava os panos usados na noite anterior e os guardava na sacola. Era ele quem ralhava com o filho por “passear” pela Cinelândia e Praça 15, enquanto afagava a cabeça da menorzinha, choramingando inconsolável por não encontrar a boneca seminua e rabiscada, o único brinquedo que possuía. Pedia paciência à mãe, que resmungava sobre o café aguado, sem ser exatamente ríspida. E, no entanto, havia ali uma felicidade que não sei explicar. Realmente, talvez, felicidade não seja algo que se explique.
Fiquei imaginando se aquela felicidade deles poderia, por encanto, se tornar a minha também. Sem perceber, já não apenas observava: me metia, opinava, aconselhava. Foi assim que ouvi fragmentos das histórias deles. Zirão, tão novo, já no terceiro “casamento” — como ele mesmo dizia, com aspas invisíveis para casamento — afirmava que, finalmente, encontrara a paz. Sonhava ver a filha veterinária, já que ela adorava cuidar dos bichinhos. Obedecia às Leis Divinas e dizia esperar nunca mais sair das ruas: queria a casa sonhada, mais uns vinte anos de vida para ver os filhos felizes. Ele mesmo fazia as contas: vinte e seis que tinha, mais vinte que desejava, cinquenta e seis. “Já dá pra ver os sonhos acontecendo”, repetia, embora reconhecesse que quem vive nas ruas, vive menos.
Volta e meia, passo pela Praça Mauá à procura da família de Zirão. Às vezes, levo uma comida ou um brinquedo para a menina. Outras vezes, só vou para vê-los e não esquecer que a felicidade, quando verdadeira, custa muito pouco.
Foi esse o chavão que aprendi a escutar nos sinais de trânsito e nos pontos de ônibus cariocas desde que cheguei ao Rio, lá nos anos de 1990. Mas a verdade é que o Globo já caminhava pelas ruas muito antes de mim. Mais de quarenta anos de história, embalagens imutáveis, sabor cristalizado no tempo — como se fosse um pacto silencioso com a cidade.
As rosquinhas de polvilho, crocantes e viciantes, custavam quase nada: um ou dois reais. Mas quem come uma nunca fica só nela. A segunda vem fácil, a terceira inevitável. Até o saco esvaziar e os farelos denunciarem a gula na camisa ou no banco do carro. O próprio slogan não mente: “o biscoito que você não pára de comer”.
Na Avenida Brasil, Via Dutra ou na Linha Vermelha, madrugada ainda fresca e motores presos no engarrafamento, lá estão eles: camelôs surgindo como miragens. Carregam nos braços os saquinhos brancos com aquele bonequinho-mapa-múndi sorridente. Verde para o salgado, vermelho para o doce. E eu, invariavelmente, caio na tentação. Sempre digo a mim mesmo que vou resistir. Nunca resisto. Abro o pacote, começo a comer, e só percebo que acabou quando o vazio do saco pesa mais do que o próprio biscoito. A vontade do quero-mais é um vício que se disfarça de hábito.
Semana passada, algo mudou. No lugar do velho Globo, um novo concorrente se impôs: o Biscoito Extra. Saquinho branco também, mas com outra estampa. Uma garotinha segurando a rosquinha no alto, o Pão de Açúcar desenhado abaixo, e atravessando tudo a palavra “extra”, azul turquesa sobre fundo amarelo. Por um instante, parece o mesmo. Mas não é.
Gabriel, um dos donos, jura que a matéria-prima é a mesma. E talvez seja mesmo. Mas não é disso que se trata. Ao mastigar o Extra, sinto como se cometesse uma pequena traição. Globo é memória, é fidelidade, é aquilo que a gente carrega sem precisar explicar. Como quem bebe Coca-Cola e insiste que Pepsi não é igual. Pode até enganar, mas não convence.
Não sei se o carioca vai trocar um pelo outro. Eu, pelo menos, não consigo. Talvez no fim das contas nem importe. Porque os ambulantes continuarão a impor seus produtos, e a cidade seguirá engolindo-os, distraída, como sempre foi.
E lá se repete a pergunta, reformulada:
— Doce ou salgado? Biscoito de polvilho Extra, quem vai?
*Escrito originalmente em: Rio de Janeiro, 25 de fevereiro de 2006
To provide the best experiences, we use technologies like cookies to store and/or access device information. Consenting to these technologies will allow us to process data such as browsing behavior or unique IDs on this site. Not consenting or withdrawing consent, may adversely affect certain features and functions.
Functional
Sempre ativo
The technical storage or access is strictly necessary for the legitimate purpose of enabling the use of a specific service explicitly requested by the subscriber or user, or for the sole purpose of carrying out the transmission of a communication over an electronic communications network.
Preferences
The technical storage or access is necessary for the legitimate purpose of storing preferences that are not requested by the subscriber or user.
Statistics
The technical storage or access that is used exclusively for statistical purposes.The technical storage or access that is used exclusively for anonymous statistical purposes. Without a subpoena, voluntary compliance on the part of your Internet Service Provider, or additional records from a third party, information stored or retrieved for this purpose alone cannot usually be used to identify you.
Marketing
The technical storage or access is required to create user profiles to send advertising, or to track the user on a website or across several websites for similar marketing purposes.