Crônicas

  • Nem sempre é céu de brigadeiro

    Passeando pelo Instagram e lendo as primeiras linhas daquelas matérias aleatórias, esbarrei em uma que capturou a minha atenção: um britânico de 52 anos, Malcolm Myatt, sofreu um AVC (acidente vascular cerebral) e perdeu a capacidade de sentir tristeza. Meu primeiro pensamento foi: que sorte poder viver no conforto da alegria, não se abalar com os sacolejos do destino, se decepcionar com os invejosos, acordar com os olhos inchados de mágoa. Estava quase acreditando que há males que vêm para o bem quando descobri que essa alegria eterna é acompanhada de uma diminuição da capacidade de interpretar as relações, seus códigos e demandas. Na contramão dos ganhos, Malcolm apresenta um comportamento socialmente inadequado (para quem?). Faz piadas em velório, comentários constrangedores em qualquer ambiente, fala o que vem à cabeça, sem se preocupar com as consequências (talvez isso contribua para sua persistente alegria, não?). 

    Por fim, me convenci de que um estado de alegria inabalável depende de um estado de alienação absoluta. Um desligamento dos motores, das turbinas. Um infinito vagar à deriva num mar exaustivamente azul. 

    Quero não. Preciso sentir o embalo das ondas, a revolta do vento e depois descansar no cais. 

  • O Bairro Novo

    As calçadas são cinzas. Os muros também. 

    Opa! E as casas? Cinzas!

    E “harmonizam-se” com a cor preta e outros tons da mesma cor…

    Que moda é essa? Qual o guru da arquitetura moderna foi o precursor dessa escolha? 

    Sigo com o Google Maps aberto, como quem caminha sem saber o caminho, mesmo tendo um mapa na mão.

    É um bairro novo, de classe média alta.

    As casas, recentes, seguem o mesmo modelo arquitetônico: fachadas altas, linhas retas, vidro escuro, cimento aparente. A estética da segurança, do silêncio e da sobriedade. Tudo muito moderno. Tudo muito igual.

    Não bastasse a surpresa da cor, há algo mais que me inquieta.

    As janelas não se abrem. Não há som de crianças, nem cheiro de comida, nem sombra de varal. As ruas estão limpas. E totalmente vazias. O traço comum é o isolamento: portões que se erguem automaticamente, carros que entram e saem sem que se veja o rosto de quem os conduz.

    Casas habitadas por presenças ausentes.

    O cinza não está apenas nas paredes. Está também na atmosfera.

    Olho para o alto, ufa! Que alívio ver o céu azul…Suspiro. Mas ainda sinto o espírito do lugar.

    Há uma palidez existencial ali, como se a forma da moradia tivesse moldado o modo de viver.

    E me pergunto: quando foi que morar deixou de ser habitar e passou a ser apenas isolar-se?

    Quando foi que o abrigo virou trincheira?

    Sei que tudo é moda. A cor da tinta, o estilo da fachada, a lógica do silêncio.

    Mas temo que o hábito de fechar-se por fora acabe por selar também o lado de dentro. Que o desejo de proteção vire indiferença. Que o medo se disfarce de elegância.

    Ainda assim, insisto em acreditar que nem tudo se apaga sob o concreto.

    Que, de vez em quando, ao abrir o vidro para deixar escapar o calor do carro, alguém note o verde das plantas, o brilho do sol, o céu azul.

    Que um canto de pássaro ainda provoque surpresa.

    Que uma frase, uma música, uma lembrança rompam o lacre do hábito e façam vibrar algo bom no coração das pessoas que ali vivem. 

    Porque, no fundo, morar é mais que possuir um espaço.

    É deixar-se afetar por ele.

    E viver é mais que proteger-se do mundo: é permitir que o mundo nos atravesse, nos transforme, nos toque.

    Mesmo que as paredes sejam cinzentas.

    Ainda que a moda diga o contrário.

    Toco a campainha. Vou atuar, sei que vou…

  • Um Xamã para o meu piano

    Vou te contar o que vim fazer aqui. Faz algum tempo, uns meses já, que meu desempenho ao piano não avança. Estava muito preocupada em especial quando tentava executar “A Chegada da Rainha de Sabá”, de Handel. Pela sua cara nunca escutou, mas não tem problema é uma composição alegre, um pouco difícil eu admito, mas que merece ser tocada com precisão.

    Vai daí que ultimamente não tenho obtido nenhum progresso. Meu professor tem me olhado feio e insistido que não estou me esforçando. Eu pratico bastante mas sabe o que aconteceu?

    Aos poucos fui percebendo que algumas notas aparentemente fáceis e até básicas da composição não estavam saindo direito.

    Foi então que ouvi dizer que os pianos eventualmente carregavam os espíritos da natureza.

    Todo piano é feito de madeira, você sabe, e ela traz em si essa ligação com a mãe-natureza, foi o que me explicaram.

    Quando corta a madeira esses espíritos são separados dela, ficam perdidos. Desde então eles vagam de um piano para outro buscando seu lar. Nessa busca eles assombram os pianistas.

    Por vezes você vai tocar e o som sai tão pesado que parece que tem um elefante dentro do piano. Em outras ocasiões esses espíritos travessos camuflam a nota tocada certa tornando-a ruim.

    Enfim, um inferno.

    Ai me disseram que precisa pesquisar de onde vem a madeira do piano. Foi um trabalhão, já te digo. Meu piano é um Fritz, Fritz Dobbert. É, parece alemão, não é ? Só que não, porque a Frtiz Dobbert fabrica pianos no Brasil há quase 100 anos. Portanto, os espíritos são brasileiros certo? Aí a coisa complica.

    Com esse caldo de culturas que a gente tem que misturou índio com português, com africano com europeu, com jacaré e cobra d’água não dá para ter certeza da origem desses espíritos.

    Eles todos se misturaram aqui também.

    Os que moravam na árvore que foi cortada para fazer o piano se juntaram com os que vieram de fora, nos navios. Pensa, se as pessoas fizeram isso, por que não os espíritos? Tudo é possível nesse mundo fantástico que nos cerca, acredite em mim.

    Por isso que eu vim aqui. Me disseram que esse Xamã era a última palavra em conhecimento sobre essas coisas espirituais, sabe. Nem estranhei que ele ficava aqui em Copacabana mas tudo bem, o bairro é grande e tem de tudo um pouco, estou acostumada.

    Você sabia que ali um pouco depois da galeria Menescal tinha uma vidente turca que lia a sorte na borra do café? Menina, era uma coisa de louco! Não errava uma, segundo uma tia me contou que ficou sabendo por uma vizinha cuja prima veio de Minas só para se consultar. Tiro e queda.

    De qualquer forma, meu assunto aqui é um pouco mais focado, eu diria. Tenho fé que o Xamã vai me orientar, vai iluminar meus caminhos. Tomara que não me peça para fazer sacrifícios com animais que isso faz uma sujeirada da nada.

    Queimar incenso e até um fuminho assim diferente, se é que você me entende, eu topo.

    Opa, minha vez, até daqui a pouco amiga. (um tempo, assim, não tão grande depois…)

    Você não vai acreditar. Estou passada. Vim para pedir orientação ao Xamã e ele foi rápido como quem rouba. Depois de me escutar relatar o que estava acontecendo ele me perguntou quantas horas eu pratico ao piano. Eu respondi que duas horas por dia. Sabe o que ele me disse? Que se eu dobrar para quatro horas os espíritos irão embora.

    Acho que o Xamã está gozando da minha cara.

  • Oito anos

    Minha amiga está soturna, posto que falante. Vive a crise dos oito anos – oito anos de casada. Parece que seu rancor, antes de conjugal, é numérico.

    Deve ter lido em alguma revista especializada que existe “a crise dos oito anos” e, apercebendo-se de que está nessa faixa de tempo, convoca os agentes recônditos do cansaço e do tédio, o exército roaz produzido pelos infindáveis minutos, horas e dias de todos esses anos.

    “Oito anos”, ela pondera, como se os instantes tivessem de repente se transformado num bloco que a puxa para trás, um condensado handicap de história e de vida orientado em sentido negativo. Um tempo dado unicamente a outrem, a alguma coisa que não a ela. Tempo que terá sido “ausência” pela exclusão das alternativas e das vias paralelas – as muitas vias que espreitam tentadoramente a trilha das nossas opções.

    Realmente, por que se fixar nos oito anos? Conheço pessoas que referem como insuperável a crise dos cinco. Outros quase não passam pela barreira dos dois. E se a gente pesquisa, encontra quem mal tenha resistido ao limite dos seis meses e até ao do dia seguinte – aquele momento em que o sujeito olha para um lado e para outro e, epa!, depara-se nesse outro com alguém que, a partir dali, vai se constituir numa referência fixa, espécie de fronteira irremovível de sua pessoa. E como isso dá medo.

    Minha amiga vem fazendo análise. O objetivo, segundo ela, é “questionar profundamente os meus sentimentos e as minhas relações”. Devo dizer que está se frustrando um pouco, pois esperava através do processo analítico ganhar forças para revolucionar a vida pelo conhecimento de si mesma. Esperava talvez deter, na casa dos seis anos, o processo que redundaria nessa crise dos oito. Ela me diz, no entanto, que tudo está sendo em vão. A “ideia revolucionária” parece mais uma fantasia que, no decorrer das sessões, desvenda-se ante seus olhos. De fato, ninguém se transforma no que não é. Eu podia mesmo lhe citar Sartre: “On change souvent pour rester soi-même.”

    Agora faz essa catarse extra-analítica diante de mim, terapeuta sem divã. Além de falante, sombria. Fala dos oito anos como se ele fosse um recorde, parecendo não compreender que esse tempo é complicado porque condensa o bom e o ruim. Pesa porque é âncora. Generosamente, deixo minha amiga falar. É o melhor que se pode fazer por alguém nessas ocasiões.

    Ela fala, fala, e me ocorre, maldosamente, que esse é um tipo de sofrimento que comove e também diverte. Deve-se ficar atento, respeitar a dor da amiga – mas não se impressionar demais com o seu tom indignado, com o ar meio apoplético e cheio de ansiedade, com a postura o seu tanto esforçada
    e ridícula. Essa é uma dor minúscula, mais aborrecida do que pungente.

    Conversando com ela, ou melhor, ouvindo-a falar, a gente sabe que pode encontrá-la no dia seguinte saindo do cartório, aonde terá ido providenciar os papéis da separação – mas essa possibilidade é remota. O mais provável será surpreendê-la saindo do restaurante com o marido, depois de brindarem a mais um ano (o difícil oitavo, ufa!) de casamento. Tudo pode acontecer.

  • Embebida em éter!

    O engenheiro e capitão italiano, Agostino Ramelli (1531 – 1610), nasceu na comuna de Ponte Tresa, hoje um Cantão da Suíça. Ele viveu no ápice do Renascimento, e foi inventor de inúmeros mecanismos para fins militares. Na França, ele criou a “obra” que lhe deu fama até o hoje, a “roda de livros”, que nada mais é do que uma estante de livros rotativa, que lhe possibilitava ler, consultar e pesquisar vários livros sem que o leitor saísse de sua cadeira.

    Os livros ficavam em uma roda gigante, que girava como um moinho movido a água, e dessa forma o leitor absorvia múltiplos conhecimentos de diversos autores sem se dirigir até a próxima estante da biblioteca, e sem preencher sua escrivaninha com aquela tradicional pilha de livros. 

    Podemos dizer que Rameli foi o bisavô das bibliotecas digitais da “web”, inovadoras no quesito empilhar para ler. 

    Nossos ancestrais muito criativos pensavam a frente nas atividades humanas, antes do surgimento da tela do celular em nossos dedos. 

    Como, por exemplo, criaram o antigo hábito de ler e preencher suas cabeças com algo que não seja apenas queixas diárias, ou retirar o foco do próprio umbigo e se tornar um ser capaz de conviver com os psicopatas do cotidiano. 

    Porém, o “avô dos e-books” foi o poeta Bob Brown que viveu entre os anos 1930 e 1940 no Rio de Janeiro. Esse honroso título lhe foi dado pelo “New York Times”. 

    Ele fundou uma revista de negócios chamada “Brazilian American” e foi autor de literatura popular, roteirista de cinema, jornalista, editor e artista de vanguarda. 

    Seu nome completo era Robert Carlton Brown e nasceu em Chicago em 1886.

    Ele perseguia inovações no âmbito literário pensando em melhores formas para disseminar o conhecimento através do livro. Inquieto e resoluto, pensava que a palavra escrita não conseguia acompanhar o tempo. 

    Para continuar lendo na velocidade daqueles dias, ele precisou de uma instrumento. Uma máquina simples de leitura que permitisse que ele pudesse carregar consigo, ligar em qualquer tomada e ler romances de centenas de milhares de palavras em dez minutos se quisesse. 

    A tal máquina que chegou a ter um protótipo construído por um amigo, tinha uma fita de texto correndo por trás de uma lente de aumento a uma velocidade controlada pelo leitor. 

    Está mais para um microfilme do que uma reprodutora de livros. 

    Mr. Brown não queria parar por aí, ele antevia o dia em que as palavras seriam “gravadas diretamente no éter palpitante”. 

    Ele era um poeta, não imaginava como a web em 2025 necessitaria ser embebida em éter para acalmar sua efervescência.

  • O Sol

    A fluidez da manhã me capacita a digressões. Ainda me espanto e me encanto com o nascer do sol. Sinal de estar vivo. Sinal de uma tal de esperança que ainda vive em mim. Vou tomar uma medida para ser, sempre, amante do sol – desta feita, rigorosamente, como um penitente eterno. Apreciar, tomar o meu bom café, calmamente, para, só assim, encarar as profundezas do dia. Lorena não tem me deixado escapar da fadiga do dia como desejaria. Ela acorda tarde – e reclama de insônia –, e é um auê para arrumar o nosso filho. Portanto, como bom apreciador do nascer do sol, acordo invariavelmente às cinco da manhã. Já é o relógio biológico ativado que me desperta, não dependo, portanto, de apetrechos maquinais. Carlos Augusto volta e meia acorda mais cedo que a mãe e quer assistir à televisão, antes de ir ao colégio. Faço uma merendinha rasa, para que não fique morrendo de fome – já que a merenda do colégio é às 10h –, e o pobre infante não dá bola ao Sol. Fico chateado. Tento entretê-lo com a beleza do raiar do dia, mas ele, já com oito anos, diz que isso é besteira, que o dia nasce todo dia, e por isso não há nada de novo e interessante. Lorena, quando quer me irritar, inventa um exame pela manhã, e temos de sair aos sopapos cedo de casa. Semana passada fomos eu e o Carlos Augusto fazer um bendito exame de sangue. Não que isso atrapalhasse completamente a minha sanha de ver o Sol, mas o via de relance, sem o contemplar, e isso me aborrecia profundamente. Lorena, às vezes, só para me chatear, diz que eu preste atenção ao volante, que eu tenho filho e mulher para criar. Verdade seja dita, fico abobalhado, mas não amalucado. São duas coisas completamente diferentes. Mas o melhor dos mundos é quando pego Luna, a nossa labradora, para passear pela manhã. Tenho preguiça, gosto de acordar levemente como o Sol, mas, para agradar a minha bela cachorrinha, vou pelo menos três vezes na semana passear pela manhã com ela. Isso varia, também, pela tarde, no pôr do sol. Mas o pôr do sol é difícil para mim, porque ainda estou voltando do trabalho, e, por vezes, tenho de quarar na janela do carro vendo o Sol “se amostrar”. Já me chamaram de doido e de bestalhão – Lorena, principalmente. Ela, incauta, pensa que fé é só para os santos e congêneres. Não, me apego ao Deus Sol, como os Maias e tantas outras civilizações. O Sol é o meu Deus, e não há de se questionar, porque não existe explicação que me faça demover disso. Quando o Sol se deita, irradia beleza – uma luz que, ao se apagar, lentamente, se expande – e eu me abro às facetas de uma bela vida. Não me distraio muito, admiro, para melhor saber da sua sina; sobre o que ele tem para mim. Acredito no sol para acreditar em tudo que há.

  • Empadinhas de camarão

    O destino é meio brincalhão, vive tirando uma com a cara da gente — brinca de esconder, ora some completamente, ora se deixa achar de propósito, em todo caso, faz questão de lembrar quem é que dá as cartas.

    Nas últimas semanas, um desejo miúdo me tirava o sossego: uma empada de camarão. O problema é que, apesar de Belo Horizonte ser uma cidade onde se come muito bem, de camarão, propriamente, não tinha.

    Fui ao Biscoitim, ali na Rio de Janeiro, a moça do balcão me atendeu sorrindo:

    — Posso ajudar?
    — Tem empadinha de camarão?
    — Que pena, de camarão, a gente não faz.
    — Nem umazinha só?

    Aceitei, a contragosto, uma de quatro queijos, tomei um café. “A tarde seria azul, não houvesse tantos desejos”, como dizia Drummond. Viver é desejar. E, naquele instante, o que eu mais queria — sem dúvida — era sentir a suculenta se desmanchando na boca, derretendo, única, gloriosa.

    E não importava se estivesse murcha, fria, de ontem, desde que fosse ela, minha obsessão salgada.

    Perguntei num boteco pobre, esquina com a Rua dos Goitacazes, havia quatro empadinhas frias no balcão, olhando pra mim com cara de segunda-feira.

    — Boa tarde.
    — Posso ajudar, amigo?
    — Essa aí… tem empada de camarão?
    — Temos bacon, frango, alho-poró.
    — Não quero outra, só a de camarão.
    — É de hoje de manhã, pode ser?
    — Deixa pra outro dia 
    — respondi.

    Lembrei de Leminski: “Não discuto com o destino, o que pintar, eu assino.” E, naquele dia, a vida, Deus, ou o próprio destino, nenhum deles queria que eu encontrasse o tesouro que eu procurava.

    Belo Horizonte é uma cidade adorável, mas cheia de caprichos, imagine: no meio de tanta empada, não ter justamente a joia de camarão.

    Viver também é aprender a desejar o possível. Talvez, na falta de uma paixão arrebatadora — que é a tentação dourada — eu devesse, quem sabe, dar uma chance às de quatro queijos, frango com catupiri, ou até à de jiló, famosa lá no Ponto da Empada, no Mercado Central.

    Mas não adianta, meu coração não sabe desejar o possível. Poderia até me contentar com outros sabores, eleger uma predileção secundária, mas, mais cedo ou mais tarde, eu acharia a pequena maravilha, e, quando achasse, comeria com calma — e, como já havia decidido, tomaria junto um café fumegante.

    Nessas horas, quando saio com minhas obsessões gustativas, prefiro ir só. Se chamasse alguém, além de enfrentar esse complô injusto da cidade contra minha delícia, ainda teria que aguentar um amigo reclamando atrás de mim. Tudo, menos isso.

    Fui a um dos destinos mais famosos de BH: o Ponto da Empada, dentro do Mercado Central. Entrei pela Avenida Amazonas, fui percorrendo os corredores — aquele labirinto de cheiros, vozes e panelas — até que, de repente, para me distrair da saga, uma moça me ofereceu um copinho de suco de milho verde.

    O suco estava tão bom, mas tão bom, que acalmou minha alma um pouco. Deu até pena — verdade, pena — de quem não mora em Belo Horizonte, e não tem um Mercado Central por perto.

    Cheguei ao Ponto da Empada, e fiquei olhando os fregueses comendo de pé no balcão, um com café, outro com refrigerante, a maioria de olhos fechados, murmurando:

    — Hummm… bom, não é?
    — Ah, acho que vou levar meia dúzia.

    Olhei a lista de sabores, também não tinha.

    — E você, moço?
    — Uma de bacalhau.

    A atendente me deu, e, assim como todo mundo, eu falei:

    — Hummm… bom, não é?

    A empadinha derretia na boca, deslizava macia. Tomei um refrigerante. Falei pro rapaz do caixa:

    — Nossa, é uma maravilha.
    — Eu sou suspeito pra falar
    — respondeu, rindo.

    Pronto. A de bacalhau era minha favorita. Se pudesse, comeria todos os dias, com café, com suco de milho verde, sozinho, acompanhado, tanto faz.

    Fui colocar uma encomenda nos Correios e, ao parar no ponto de ônibus, vi uma lanchonete aberta, na estufa, uma fartura de empadinhas douradas.

    Entrei, olhei pra um lado, olhei pro outro, disfarcei e… olha lá. Olha lá! Quem estava ali? Uma quantidade imensa de empadas de camarão. Ali mesmo, na Rua Goiás, em frente ao ponto de ônibus.

    — Me vê uma empada de camarão aí.
    — Com catupiry ou sem?
    — Sem.
    — Mais alguma coisa?
    — Aquele café quentinho, por favor.

    Justo quando eu não esperava mais. Aí, me lembrei de Guimarães Rosa: “A felicidade se acha é em horinhas de descuido.”

  • De(i)vaga(R)ções sobre o surgimento de um novo líder no Morro(?) do Pau(?) da Bandeira – Sobre falar o óbvio(?)

    Brevíssimas considerações iniciais: Antes de iniciar esse texto, eu peço licença a você (leitor) para que possa fazer uma breve diferenciação semântica entre dois temos. Sei que a pressa dos dias atuais torna essa introdução chata, mas considero que esse movimento inicial pode enriquecer sua leitura. Dito isso, segundo o Dicio, o termo devagar significa: “De maneira lenta; que não possui nem apresenta pressa; vagarosamente”. Já divagar: “Vagar; caminhar sem destino certo: divagava pelas ruas vazias”. Esses não são os únicos significados destes termos, mas, para o intuito desse texto, são os necessários. Dito isso, vamos ao que interessa (?!).

    Na última semana do mês de outubro do ano de 2025, o Brasil teve um grande acontecimento. Para quem está achando que se trata do jogador Vinicius Junior assumindo a influencer Virginia como nova namorada, sinto dizer que você está errado.

    Na verdade, o que realmente causou polêmica, e ajudou a dividir ainda mais o país, foi a chamada megaoperação nos Complexos do Alemão e da Penha na cidade do Rio de Janeiro. Como alguém que gosta de acompanhar a reação das pessoas nas redes sociais, tenho percebido que existem defensores e críticos da operação. Não entrarei nesse detalhe, mas queria chamar atenção para um outro ponto, o aumento astronômico da popularidade do secretário de Polícia Civil Felipe Cury. Será que estamos diante do surgimento de um novo líder?

    Quando penso sobre essa pergunta, minha mente musical leva logo a canção “Zé do Caroço”, composição da incrível Leci Brandão. Quem conhece a letra sabe que nela a compositora se refere ao surgimento de um novo líder. Curiosamente, a primeira lembrança visual que tenho deste samba é do filme “Tropa de Elite 2”. Para quem não se lembra, no filme, quando o líder da milícia em uma comunidade vai receber políticosn para fazer campanha eleitoral, essa é a música que é tocada. Enquanto ela toca, o “dono da localidade” dança com uma pistola em punho escancarando todo o seu poder.

    Agora, precisamos voltar a falar sobre Felipe Cury. Um homem que, na última semana deu declarações como: “O traficante não é vítima da sociedade”, “o traficante outro dia passou a ser vítima do usuário” (Em clara alusão a uma fala recente do presidente Lula), “o policial está sendo tratado como vilão”, dentre muitas outras. Ele chegou até mesmo a levantar a hipótese de que corpos apareceram decapitados por obra dos próprios moradores. No entanto, o que mais assusta é o uso do termo “adolescentes apreendidos” e “bandidos neutralizados”. Assustador, não? (!?!) As falas têm um objetivo claro de desumanizar pessoas. Quando isso acontece, é fácil justificar mortes. A pergunta é, quem serão os próximos a sofrerem desumanização? A lógica do inimigo não possui limites. É ai que mora o grande perigo.

    Todo o ocorrido a que me referi anteriormente, obriga ao exercício esquisito de explicar o óbvio (?). Aliás, em tempos de pós-verdade, eu nem sei mais se é possível falar que essa palavra existe. Infelizmente, o Brasil é um país em que as pessoas não foram preparadas por meio de uma educação crítica, isso gera uma série de problemas facilmente visíveis e perceptíveis hoje em dia. Não ficarei falando sobre esse assunto, mas aproveitarei para comentar sobre outro que é tema deste texto. Antes disso, é preciso deixar algo bem claro.

    Imagino que, depois de falar tudo o que disse até agora, já posso ser rotulado, por alguns, como “defensor de bandidos”. Por isso, quero deixar claro que considero que o combate ao crime organizado deve ser uma das principais prioridades do governo brasileiro atualmente. Também que eu não acho que um traficante seja totalmente uma vítima da sociedade (embora ache que o tráfico nas favelas é diretamente derivado de problemas sociais. Para essa conversa vocês já estão preparados?). Não acho também que o policial é um vilão. Acho a polícia, embora tenha hoje muitos problemas, fundamental para a garantia da segurança. Enfim, são muitas coisas que, apesar de obvias, precisam ser faladas. Apesar de saber que esse exercício é inútil, pois quem quer rotular o fará por puro ato de má-fé.

    Dito isso, precisamos falar sobre Direitos humanos (Tá defendendo? Então leva um bandido pra morar na sua casa!). É muito interessante que, ao contrário dos mortos nos conflitos, essa palavra foi “humanizada”. Quem nunca ouviu alguém dizer: “Daqui a pouco vem o Direitos Humanos aqui pra defender“. Ou seja, além de humanizado, o conceito se tornou uma espécie de Geni que, tal qual a da música, foi feito para apanhar e para se cuspir. A pergunta é, qual o intuito de humanizar ou desumanizar algo? Na prática, pedras são jogadas ou tiros são dados sem que ao menos se dê chance de defesa.

    Aliás, quando se fala em direito de defesa, estamos falando na condição que difere (ou pelo menos deveria diferir) o Estado do poder paralelo. O tráfico não respeita as leis, ele executa por possuir poder. Esse poder, certamente, leva a uma série de injustiças. É por conta dessas injustiças que o Estado Democrático criou um mecanismo que permite a todo mundo se defender antes de sofrer uma pena. Mesmo que alguém seja culpado, é importante que responda dentro dos limites da lei. Se não, o que garante que, no futuro você (cidadão de bem) não pode ser vítima de uma injustiça do estado? Infelizmente, ninguém está alheio a isso.

    É por esse motivo que, às vezes, por mais absurdo que seja, precisamos defender as leis e o Estado Democrático de Direito. Da mesma forma que precisamos combater o crime e valorizar nossos policiais, médicos, enfermeiros, professores e tantas outras profissões dignas. Essa defesa é inegociável e não podemos renunciar a ela.

    Quanto ao personagem inspirador desse texto, vou esperar para ver se ele realmente se tornará uma nova figura política desse país. Agora, recorrendo mais uma vez a um mestre da música brasileira e, especialmente, do samba, acho que é preciso divagar devagarinho (com o perdão da alteração na letra) para que não voltemos a alçar ao posto de heróis figuras que o Brasil (e principalmente os cariocas) já estão cansados de conhecer.

    *As ideias expressas pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não refletem necessariamente o posicionamento do portal Crônicas Cariocas, que preza pela liberdade de expressão e não interfere no conteúdo de seus colaboradores.

  • Divagando

    Reza a lenda que quando os conquistadores espanhóis chegaram à América apresentaram-se montados em cavalos. Os nativos, que nunca tinham visto um animal assim, e muito menos armaduras reluzentes, enxergaram naquilo uma coisa só, meio homem, meio bicho de quatro patas.

    Pode não ter sido bem assim no século dezesseis, mas se os alienígenas aportassem hoje em certos locais da Terra, talvez achassem que o telefone celular faz parte do nosso corpo, uma coisa assim meio homem, meio tela.

    Andar agarrado ao celular é a marca registrada destas primeiras décadas do século vinte e um. Como essa simbiose vai evoluir é difícil prever. Quase sempre a realidade surpreende e contraria as expectativas de quem arrisca um palpite porque a visão do que vem por aí em tecnologia é privilégio de uns poucos gênios. A icônica fala de Steve Jobs ao declarar que as pessoas não sabem do que precisam até que você lhes mostre. Só uma coisa é certa: não há volta atrás.

    O que deslumbra uma geração não causa o menor espanto na seguinte. O que achamos maravilhoso hoje será banal amanhã. No futuro quem se lembrará de que o celular foi inicialmente um telefone, visto que esse é o uso menos comum que fazemos dele? Se é que ainda existirão celulares. E quem se recordará de nós que ainda nos lembramos de onde vem o sentido de rodar um filme ou revelar uma foto?

    E por que isso deveria nos preocupar, já que sempre foi desse jeito?

  • Brotam, simplesmente: delírio carioca em câmera lenta

    Às vezes, as coisas das quais mais gostamos não são coisas, e sim, memórias. Esses resíduos de existência têm umas esquisitices amorfas, incorpóreas, como um ‘ar’ de vendedores ambulantes em engarrafamentos: apenas brotam. Do nada. Em função única e exclusiva dessas ocasionais caravanas estagnadas – verdadeiras procissões suspensas – em que o asfalto, enfim, respira. Uma respiração congestionada. É isso, cinematograficamente falando: as reminiscências brotam. Do rés do chão. Da fervura titubeante do betume gasto. Da realidade simples. De um descuido do olhar, exausto da mesmice extenuante, o perceber do movimentar da paisagem, um segundo antes da fonética abafada dos jingles de esquina. Batalha de rimas, expressão genuinamente brasileira, rasgando o culto da língua.

    Paçoca é um real/ leve onze, pague dez real!
    Olha o amendoim torrado! / é doce, é salgado, é barato, é sagrado!
    Bala, chiclete e paçoca, / quem compra alegria, o tédio desloca!
    Capinha, carregador e esperança / o pacote completo pra quem não tem lembrança!
    Olha o mate! / Mate a sede! / Olha o mate, tem limão, natural e leão!

    Uma medina babelesca em tons verdes e amarelentos com suas barracas-corpos, mascates contemporâneos incorporando as mais básicas leis de oferta e procura: o largar de ensacoladas iguarias nos espelhos laterais dos carros; a malemolência dos chinelos emborrachados batucando chaves pix e pregões aos quatro cantos; ofertas de produtos sem valor, recheados de ecos de outrora. Uma bala juquinha reativa o paladar da infância, e você compra, mesmo com as taxas elevadas de diabetes; uma coca-cola estupidamente gelada dentro do isopor equilibrado, com esmero, na cabeça lisa e firme de um rapaz igual a todos os outros, faz você catar moedinhas só pelo barulho satisfatório e salivar que a abertura do lacre metálico carrega. É a fantasia do hiato, da bolha, do rolar dos dedos nas telas descarregadas dos celulares, a insatisfação das postagens que mascaram momentos como o presente, qual vida querendo passar corrida, mas comprida. A memória é culto e altar de todas as formas, odores, pesos e asperezas, o assobio descarrilhando trens automatizados. É no retrovisor do carro, quando carecemos de recursos distrativos, cafeína e paciência que esses souvenirs do acaso nos assaltam: fragmentados, vadios e apostólicos.

  • Onde está Fênix?

    O final de semana prometia ser intenso. Depois de anos sem nos reunirmos, decidi chamar Roberto, Samanta e Maritza para a casa de praia. Oficialmente, discutiríamos os detalhes das comemorações de Natal. Mas, no fundo, eu queria testá-los — ver até onde cada um iria, agora que o mundo estava virando do avesso.

    O governo de transição havia decretado novas normas financeiras e sociais, e o colapso lá fora fazia a cidade oscilar entre apagões e sirenes distantes.

    Dentro da casa, queria um microcosmo de controle absoluto, protegido pelo cheiro salgado do mar e pelo vento que assobiava pelas janelas mal vedadas.

    Samanta chegou primeiro, trazendo consigo Fênix, a gata preta de olhos verdes que pareciam perfurar minha mente. Eu não suportava felinos — alegava alergia, mas o que realmente me incomodava era essa sensação de ser avaliado a cada gesto. A gata se instalou na minha poltrona favorita, como se fosse a dona da casa, e me fitou com uma calma que doía.

    Logo depois, Roberto surgiu com seu Land Rover e uma caixa de espumantes caros, tentando impor normalidade. O vento carregava o aroma do álcool e do mar para dentro da sala.

    — Um brinde ao velho mundo! — anunciou.

    Brindei, polidamente. Ele não percebeu o veneno escondido na minha voz. Maritza chegou por último, exalando o cheiro químico do trabalho com taxidermia, os olhos brilhando de excitação e imprevisibilidade.

    — Não se preocupem — disse, rindo alto demais —, não trouxe o material.

    Mas vocês entenderam o recado.

    Ninguém riu. Sua risada reverberava, arrastando um eco que parecia pertencer a outra casa.

    O jantar foi uma encenação meticulosa. Rimos, brindamos, trocamos farpas sutis. A luz das velas tremia, projetando sombras alongadas e distorcidas pelas paredes descascadas. O vento arrastava folhas para dentro da varanda, e cada sussurro do mar parecia aproximar-se de nós. Eu os observava, maestro de um
    concerto dissonante, e sentia prazer no controle absoluto.

    Fênix permanecia imóvel sobre a poltrona, fitando-me com olhos que queimavam no escuro, como se compreendessem cada pensamento. Meu coração disparava, uma mistura de medo e fascínio.

    Mais tarde, aproximei-me de Maritza.

    — Maritza… aquela gata é perfeita. A pelagem, os olhos… uma obra de arte viva.

    Ela franziu o cenho.

    — Você está bêbado.

    — Ou lúcido demais — retruquei. — Imagine preservá-la… congelar o instante.

    Não é o que você faz com suas peças?

    Ela riu, nervosa, e o som reverberou pelo corredor.

    Na madrugada, não consegui dormir. Andei pelos corredores escuros, sentindo o chão frio sob os pés descalços. Cada rangido parecia amplificado, cada sombra movia-se de maneira suspeita. Roberto dormia, Samanta ressonava, e a tigela de Fênix estava vazia. A poltrona também.

    Acordei tarde, garganta seca, coração acelerado. Maritza e o furgão haviam desaparecido. Samanta perguntou pela gata.

    — Deve ter fugido — murmurei, tentando soar natural.

    Na tarde seguinte, Maritza retornou. Entrou silenciosa, depositou um pano preto sobre o banco traseiro do furgão e subiu para dentro da casa. Nada mais.

    Nenhum gesto, nenhum comentário. Apenas o pano imóvel, sem volume, como se fosse uma sombra esquecida.

    À noite, sozinho na sala, senti o ar pesado, o cheiro salgado misturado com algo metálico que não consegui identificar. Meus olhos se fixaram na poltrona vazia, e por um instante jurei ver dois olhos verdes me fitando. O olhar era intenso, perfurante, penetrando minha consciência como se me acusasse.

    Pisquei. A poltrona estava vazia. Mas a sensação permaneceu, tão viva que o som do vento e do mar se misturava a cada batida do meu coração. Como se Fênix, de algum modo, ainda estivesse lá.

  • O Rio sangra

    Fracassei em tudo o que tentei na vida. Tentei alfabetizar crianças, não consegui. Tentei salvar os índios, não consegui. Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei. Mas os fracassos são minhas vitórias. Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu”Darcy Ribeiro

    Desde que me entendo por gente eu escuto, ouço e vejo  a mesma “fórmula” para combater a violência e o narcotráfico no estado do Rio, sobretudo, na capital: Matar!

    E morre traficante, policial e todo ser vivente que ousar respirar no meio do fogo cruzado!

    E morre o próprio Rio, envenenado!

    Esta fórmula é por si só o fracasso já sabido e anunciado.

    Os verdadeiros e grandes donos do negócio nunca são alcançados! Engravatados e graúdos, estão protegidos nos seus castelos e privilégios…

    O Rio sangra! E sangram gerações de cariocas e fluminenses…

    O Rio sangra! E sangra há bastante tempo!

    Como se costuma dizer nas rodas de conversa de tantos e tantos lugares da cidade: chove-se no molhado e enxuga-se gelo!

    Com isso, há décadas a violência assola o estado. E a coisa só piora!

    Avenida Brasil interditada. Linha Vermelha interditada. As cenas de motoristas abaixados nas estradas por causa do tiroteio são fartas e fáceis de se achar. Os corpos empilhados nos becos e nos morros é rotina e se tornou banal. Mães chorando seus filhos é notícia de quase todo dia!

    A violência no Rio virou banalidade! É assunto diário. Pisado e repisado! Reprisado!

    O descaso das autoridades é revoltante!

    O saudoso Darcy Ribeiro, homem das letras e das ações, criador do melhor projeto educacional que o estado e o Brasil já tiveram, os CIEPS, disse certa vez que se em 20 anos os governantes não construírem escolas, faltará dinheiro para construir presídios.

    Darcy já alertava no final dos anos 80! O caminho passa pela educação. Crucial, fundamental, urgentemente necessária. A educação não é milagrosa e, sozinha, não surtirá qualquer efeito, mas sem ela é praticamente impossível pensar um país!

    Darcy não foi ouvido.

    A metáfora viva do descaso é ver aqui e ali em vários pontos do território fluminense algum CIEP (também chamado de Brizolão) arruinado, tomado pelo mato, pelo abandono, pelo tráfico…

    Darcy não foi ouvido.

    E muitos meninos e meninas do Rio tiveram suas infâncias interrompidas. Seja por uma bala perdida, seja pelo aliciamento da marginalidade.

    Darcy não foi ouvido.

    Ou melhor, foi solenemente ignorado.

    Hoje, cercado por facções diversas e por milícias, o estado do Rio possui um “estado paralelo”! Este estado se sobrepõe ao oficial, tem suas próprias leis e sua própria dinâmica e, com seus tentáculos, envolve e absorve políticos e agentes públicos, tornando-se um problema cada vez mais complexo.

    Darcy não foi ouvido.

    Os professores fluminenses recebem o pior salário da federação. Escolas sucateadas. Dinheiro que some pelo ralo… Alunos com pouca ou nenhuma perspectiva! Educação não é prioridade!

    E a massa de jovens no crime só aumenta e alimenta uma máquina…

    A máquina de moer gente prossegue seu trabalho e sua função: matar!

    O Rio sangra…

  • Pavê da vovó

    A receita era antiga e sua avó quando era viva nem lembrava mais sua origem. Talvez fosse portuguesa, talvez holandesa ou uma mistureba de influências. Mas assegurava que tinha aprendido ainda mocinha quando morava em Vassouras, no interior do estado do Rio. Seu avô nunca foi muito fã desse pavê, dizia ela rindo, nem seu pai. Mas você meu neto, faz a minha alegria. Era verdade. Ele comia tudo que ela fizesse e tinha uma predileção toda especial pelo pavê da vovó.

    Os ingredientes não tinham nada de especial. O pavê leva leite, creme de leite, baunilha, leite condensado, uma gema de ovo e biscoito de maisena claro, dizia sua avó. Biscoito champagne não se usava porque era caro e nem tinha lá na roça.

    Mas ele sabia que não era só isso. Não podia ser só isso. Outras pessoas tinham feito pavê com rigorosamente os mesmos ingredientes mas o sabor nunca era o mesmo. Tinha algo que sua avó fazia que dava aquele gosto especial. O que seria? A qualidade dos ingredientes? As marcas escolhidas? A forma de misturar? Não tinha a mínima idéia mas era insuperável.

    Uma vez quando era menino pediu de presente um pavê para comer sozinho, sem ter de dividir com as primas e os primos. Era uma das lembranças mais doces de sua infância.

    Sua avó morrera há uns 10 anos e não passou a receita para ninguém simplesmente porque ela tinha tudo de cabeça. Anotar para quê se eu faço pavê desde o século passado, ria.

    Com o passar dos anos, o assunto pavê da vovó acabava entrando até nas conversas entre amigos. Sabe quando alguém tem aquelas idéias pretensamente saudosistas de recordar o que tinha de bom na infância? Em verdade é só para alguém se mostrar contando aos outros como ele foi feliz quando era criança, blá, blá, blá. Mas para ele, felicidade era doce e gelada e atendia pelo nome de pavê da vovó. E todo mundo já sabia disso e dava risada porque ele nunca falava outra recordação da infância.

    Na última vez em que esse assunto veio à tona foi na festa de noivado dele. Ah sim, não contei mas o rapaz encontrou o amor de sua vida e, à moda antiga, noivou com a moça. Por sinal foi uma bela festa em um sitiozinho lá em Vargem Grande, na zona Oeste do Rio, mas isso eu conto outra hora.

    Ao ouvir pela enésima vez que bom mesmo era o “pavê da vovó” a moça se encheu de coragem e disse: vou fazer um igual ao dela. Todos olharam na direção dela e aplaudiram sua atitude. Afinal, já era hora do rapaz voltar a sentir aquele prazer de sua infância e quem melhor do que ela para fazer esse mimo com ele?

    Qualificações ela tinha de sobra. A moça era craque na cozinha, neta de mineira com baiana e com curso de pâtisserie na França. Na semana seguinte quando ele foi visita-la em casa, surpresa: pavê! Ela fizera sua sobremesa favorita. Das brumas do seu passado para o nosso doce presente, meu amor, cantarolou ela contente.

    O noivo se sentou na mesa da cozinha mesmo, pegou uma fatia generosa de pavê e comeu de lamber o prato. A noiva sorriu vitoriosa aguardando ele falar que era igual ao da avó. O noivo rasgou elogios sinceros, disse que estava maravilhoso, mas não era o da vovó!

    Ela não se abalou. Nas semanas seguintes ela arregaçou as mangas com decisão e entregou-se ao desafio: o pavê da vovó. Fez de novo, de novo, de novo e de novo. Passou semanas em pesquisas pela internet, em livros de receita e trocando informações com seus professores franceses. Buscava pessoalmente os ingredientes de melhor qualidade, a despeito do isolamento social provocado pela pandemia do Covid-19. Trocava as marcas, buscava alguma mais regional que não se encontrava no Rio de Janeiro, enfim fez piruetas. Ela dizia que valia o esforço para agradar o amor da sua vida.

    E em todas as vezes ela entregava um pavê diferente de tudo que seu noivo já havia provado na vida. Ela se superava a cada receita, a família acompanhava entre orgulhosa e tensa. O rapaz como era de se esperar dava cambalhota de prazer mas ao final tinha sempre aquele “mas” terrível.

    A moça não se abalava mas diante da situação que se repetia – “meu amorzinho está uma delícia mas…” – decidiu apelar: convocou sua avó, mais duas tias-avós de Barbacena e foram as quatro para a cozinha. Agora não tem mais jeito: esse pavê vai ter de sair nem que seja na marra, decretou a indignada noiva.

    Foram dois dias de trabalho, experiências e tentativas. Até que finalmente chegaram a uma conclusão e fizeram o pavê. O noivo foi chamado e apresentado ao doce. Ela estranhou que dessa vez ele não parecia tão animado como das outras ocasiões mas relevou. Deve ser receio de me desapontar ou cansaço de tanto comer, tadinho.

    O pavê foi posto na sua frente, uma fatia foi cortada. As quatro mulheres estavam à mesa com os olhos pregados nele. Com tanta pressão em cima, o noivo sorriu sem graça e disse que antes de provar precisava dizer uma coisa. A noiva se aproximou e olhou séria. Pode falar, disse.

    Sabe meu amor eu aprecio muito mas muito mesmo toda essa dedicação que você tem em fazer aquele pavê da minha avó. Mas tem um porém.

    Já sei, vai dizer que o pavê não existe, era delírio de criança, disse uma das tias-avós.

    Ou o ingrediente secreto era maconha, rebateu a outra tia-avó às gargalhadas.

    Tias, por favor, deixa ele falar, reclamou a noiva. Vai meu amor, me conta se abre comigo qual é o porém.

    Então como eu ia dizendo, lembra que eu tive Covid-19?, falou devagar o noivo.

    Sim, meu amor, foi um susto danado. Ainda bem que você teve a forma mais branda, recordou a noiva.

    Sim, foi mesmo mas tive sequelas, avançou o noivo.

    Quais?, espantou-se a noiva.

    Eu estou com anesmia, disse o rapaz.

    Você vai contar para a gente que diabo é isso ou vou ter de pesquisar no google?, disse a avó da noiva.

    Anosmia é perda de olfato, explicou ele.

    A noiva arregalou os olhos e ficou muda.

    O rapaz olhou para ela triste e segurou suas mãos: não sinto cheiro de nada e não tem qualquer perspectiva de que volte a sentir. E sem olfato não consigo sentir o gosto de nadinha…

    Xii, então fodeu de verde e amarelo, resmungou a avó.

  • Memória é pra quem pode

    Eu invejo as pessoas que conseguem lembrar de situações, cenas, casos que aconteceram há anos, sem titubear ou duvidar da veracidade dos fatos. Não sei que tipo de dom essas pessoas têm, mas é incrível observar a forma com que elas conseguem acessar o passado, como se ele ficasse dobrado na primeira gaveta da cômoda. Tenho uma amiga de infância que sabe dizer a roupa que estávamos vestindo no nosso primeiro baile. Minha irmã lembra de histórias de quando éramos crianças que eu não tenho o menor vestígio. Meu filho, de todas as partidas e gols do Fluminense. Essa habilidade não me pertence. Sou daquelas que viaja, anda por todos os lugares e, depois, se alguém pergunta se visitei determinado ponto turístico, de imediato, não sei dizer. Preciso perguntar a quem foi comigo. Por isso, amo tirar fotos. Quando revisito o álbum, recordo exatamente o momento, o lugar, a sensação, tudo. Mas, como uma dificuldade sempre gera alguma facilidade em outro ponto, jamais esqueço daquilo que ouço. As palavras me agarram com toda sua força. Sou capaz de relembrar frases inteiras. E como tudo que é bom, dependendo do ângulo, pode ser ruim também, não esqueço com facilidade uma palavra mal dita.

    Até o que escrevo, às vezes, esqueço. Tanto assim que, algumas vezes, leio um texto meu sem perceber que foi escrito por mim. Contudo, o que ouço fica para sempre.

    Há pouco tempo assisti no teatro um musical e me dei conta de que sabia cantar todas aquelas músicas antigas, que eu já não ouvia há anos. Descobri que as poucas lembranças que tenho da minha infância e adolescência envolvem a música. A minha família era musical. Ouvíamos de Roberto Carlos a marchinhas de carnaval. Aguardávamos ansiosos pelo lançamento do LP de samba-enredos. Ouvíamos Elis, Bethânia, Gal.

    Talvez por isso a memória auditiva seja meu forte. Nos amávamos pelos ouvidos.

    Ainda lembro a voz da minha vó.

  • Trilhas da Minha Vida – parte 3/5

    Meu destino foi moldado pelos filmes que assisti. A música que os acompanhou faz a trilha sonora da minha vida. Segue a 3ª parte:

    Um grande filme deve vir acompanhado de uma trilha sonora à altura. A música tem o poder de potencializar as sensações a nós repassadas pelas cenas assistidas. Em alguns casos, fica tão intimamente vinculada às imagens que delas se torna indissociável. Muitas obras cinematográficas devem seu sucesso à trilha sonora, havendo casos em que esta chega a ofuscar o próprio filme. Meu destino foi moldado pelos filmes que assisti. A música que os acompanhou faz a trilha sonora da minha vida.

    41) PULP FICTION (Quentin Tarantino), 1994

    Tarantino divide os críticos. Menos quando se trata das trilhas sonoras, quando a opinião unânime é que o diretor não dá bola fora. PULP FICTION é não apenas seu mais badalado filme, como o que possui a trilha mais arrojada. Além da sacada de ressuscitar empoeirados clássicos da surf music, realizou a proeza de transformar em sucesso uma antiga canção de Neil Diamond interpretada por Urge Overkill (GIRL YOU’LL BE A WOMAN SOUL). Tarantino tem por hábito garimpar músicas antigas esquecidas para servir como pano de fundo a suas películas. Teve por mérito permitir ao lendário Ennio Morricone faturar seu único Oscar pela trilha de OS OITO ODIADOS.

    42) SUPLÍCIO DE UMA SAUDADE (Henry King), 1955

    Alfred Newman foi um verdadeiro colecionador de Oscars, tendo composto para mais de 200 filmes. Sua parceria com o diretor Henry King foi das mais profícuas dos anos de ouro de Hollywood. Dentre as trilhas mais marcantes de Newman, destacam-se A MALVADA (ALL ABOUT EVE), O MORRO DOS VENTOS UIVANTES, COMO ERA VERDE O MEU VALE, CANÇÃO DE BERNARDETTE, AEROPORTO e a arrebatadora LOVE IS A MANY SPLENDORED THING, cujo tema (de autoria da dupla Fain/Webster) foi gravado por uma pá de artistas (Andy Williams, Matt Monro, Bing Crosby, Nat King Cole, Shirley Bassey, Frank Sinatra etc.) e até suplantou o sucesso do filme.

    43) ALÉM DA IMAGINAÇÃO (Rod Serling), 1959

    A série televisiva TWILIGHT ZONE que reúne elementos de ficção científica, fantasia e terror, criada e apresentada por Rod Serling, alcançou sucesso sem precedentes no período 1959 a 1964 com 5 temporadas, originando três revivals que não repetiram o êxito, além de um longo produzido por Steven Spielberg. Apesar de a primeira temporada receber trilha do celebrado Bernard Herrmann que trabalhou em diversas películas do mestre Hitchcock, o tema que ‘emplacou’ foi o que abriu a segunda temporada e as 3 seguintes, de autoria de Marius Constant com sons dissonantes que criam uma atmosfera perturbadora. 

    44) ZORBA O GREGO (Michael Cacoyannis), 1964

    A trilha do filme greco-americano, estrelado por Anthony Quinn, Alan Bates e Irene Papas, composta por Mikis Theodorakis, fez bastante sucesso, sobretudo o envolvente tema instrumental, ZORBA´S DANCE, utilizado para acompanhar a dança tradicional grega. Mikis, conhecido por seu engajamento em causas sociais, compôs também a trilha de SERPICO de Sidney Lumet e duas obras primas do cinema político de Costa Gavras, Z e ESTADO DE SÍTIO.

    45) O PIANO (Jane Campion), 1993

    O drama neozelandês transcorrido no século XIX e protagonizado por Holly Hunter e Harvey Keitel gira em torno da paixão de uma mulher muda desde a infância por seu piano, do qual se viu privada, ao iniciar vida em companhia do novo marido numa terra estranha. Com ele, a diretora Jane Campion consagrou-se como a primeira mulher a ganhar a Palma de Ouro de Cannes. A belíssima trilha ajudou a popularizar seu autor, o prestigiado pianista e compositor minimalista Michael Nyman. É dele também a trilha do instigante O COZINHEIRO, O LADRÃO, SUA MULHER E A AMANTE do diretor Peter Greenaway.

    46) O ÚLTIMO TANGO EM PARIS (Bernardo Bertolucci), 1972

    Bertolucci foi um dos maiores diretores de todos os tempos com inúmeras obras primas. Várias de suas trilhas se destacam, como a de 1900, composta por Ennio Morricone, O CÉU QUE NOS PROTEGE, O PEQUENO BUDA e O ÚLTIMO IMPERADOR, as 3 de Ryuichi Sakamoto, além de OS SONHADORES e BELEZA ROUBADA que apresentam um bem selecionado painel de temas pop. O ÚLTIMO TANGO EM PARIS foi um filme que provocou polêmica pelo conteúdo sexual explícito (em especial a insólita cena da manteiga como lubrificante), contracenado por Marlon Brando e Maria Schneider. Controvérsias à parte, a trilha sonora, composta pelo saxofonista argentino Gato Barbieri se sobressai, em especial o tema principal, um dos mais belos e pungentes do cinema.

    47) ROUND MIDNIGHT (Bertrand Tavernier), 1986

    O saxofonista Dexter Gordon surpreendeu por sua atuação nessa película do diretor francês, concorrendo ao Oscar como ator. A trilha sonora (vencedora da estatueta) homenageia os anos dourados do jazz reunindo cobras como Herbie Hancock, Ron Carter (que também atuaram no filme), Bobby McFerrin, John McLaughlin, Chet Baker, Freddie Hubbard e Wayne Shorter, dentre outros. Uma celebração ao nobre gênero musical. A canção que dá nome à película, composição de Thelonious Monk, é um dos principais clássicos do gênero, tendo recebido dezenas de gravações.

    48) O EXORCISTA (William Friedkin), 1973

    Friedkin foi laureado com 5 Oscars (incluindo filme e direção) por OPERAÇÃO FRANÇA que teve trilha composta pelo trompetista Don Ellis. Em O EXORCISTA, um dos mais horripilantes filmes de terror de todos os tempos, Friedkin rejeitou a composição de Lalo Schifrin feita de encomenda, acabando por utilizar alguns temas clássicos contemporâneos. Além disso, lançou mão de trechos do já consagrado álbum TUBULAR BELLS do multi-instrumentista Mike Oldfield (expoente do rock progressivo) que, embora não tenha sido elaborado com essa finalidade, acabou associado à película. O diretor considerou a atmosfera densa e repetitiva do álbum (em que Mike executa todos os instrumentos) apropriada para o tom sombrio imprimido ao filme, sendo utilizada a faixa GEORGETOWN como tema principal  

    49) MANHATTAN (Woody Allen), 1979

    Woody Allen sempre foi apaixonado pelo som dos anos de ouro de New Orleans e pelos clássicos dos anos 20/30. As trilhas sonoras de seus filmes refletem suas preferências musicais. Em MANHATTAN, filmado em preto e branco, em que atua ao lado de Diane Keaton e Meryl Streep, podemos encontrar os principais chavões que caracterizam suas comédias cerebrais. A ideia do filme surgiu a partir de uma canção de Gershwin (assim como Allen, um apaixonado por NY). Todas as canções da trilha sonora são do compositor norte-americano e executadas pela Filarmônica de Nova York sob a regência de Zubin Mehta, com destaque para as conhecidíssimas RHAPSODY IN BLUE e EMBRACEABLE YOU. Outro filme famoso com músicas de Gershwin é AN AMERICAN IN PARIS de Vincente Minnelli.

    50) BEN-HUR (William Wyler), 1959

    O compositor húngaro Miklós Rósza tornou-se conhecido por suas trilhas orquestrais de filmes épicos e bíblicos como BEN-HUR, EL CID, QUO VADIS, O REI DOS REIS, EL CID e JULIUS CAESAR, tendo influenciado fortemente John Williams. Indicado para 17 Oscars, faturou 3, incluindo BEN-HUR, personagem vivido por Charlton Heston, filme grandioso, um dos mais custosos da história, até então. São de Miklós também QUANDO FALA O CORAÇÃO de Hitchcock, UMA VIDA DUPLA de George Cukor (pelos quais também faturou Oscars), PACTO DE SANGUE e FARRAPO HUMANO, ambos de Billy Wilder, dentre outros.

    51) BETTY BLUE (Jean Jacque Beineix), 1985

    A carreira do celebrado compositor e pianista libanês Gabriel Yared (que chegou a morar no Brasil no início dos anos 70), deslanchou quando ele se dedicou à execução de trilhas para o cinema francês como CAMILLE CLAUDEL e SALVE-SE QUEM PUDER (Jean Luc Godard). Foi laureado com o Oscar pela trilha sonora do filme O PACIENTE INGLÊS de Anthony Minghella. Desse mesmo cineasta britânico, assinou as trilhas de COLD MOUNTAIN e O TALENTOSO RIPLEY, além de CIDADE DOS ANJOS. A película francesa 37º2 LE MATIN (que no Brasil recebeu o título de BETTY BLUE) teve uma trilha sonora que acabou se tornando mais badalada que o próprio filme.

    52) FOME DE VIVER (Tony Scott), 1983

    Primeiro filme dirigido pelo irmão mais novo de Ridley Scott, que depois se especializaria em filmes de ação como TOP GUN (que lançou Tom Cruise ao estrelato), CHAMAS DE VINGANGA, INIMIGOS DE ESTADO e DIAS DE TROVÃO. Estrelado por Catherine Deneuve, David Bowie e Susan Sarandon FOME DE VIVER (THE HUNGER) é um filme sobre vampirismo. Tornou-se cult por sua estética gótica, atmosfera sensual, abordagem sexual e pela trilha sonora que expôs como tema de abertura a canção BELA LUGOSI’S DEAD com o grupo Bauhaus, de 9 minutos de duração, que se tornou uma espécie de hino gótico com seus efeitos fantasmagóricos alucinantes.

    53) AGUIRRE, A CÓLERA DOS DEUSES (Werner Herzog), 1972

    Werner Herzog sempre foi um diretor obscuro cultuado por um grupo restrito de cinéfilos. Logicamente, as trilhas de seus filmes refletiam essa condição. Assim como ocorreu com o ator Klaus Klinki, o conjunto alemão Popol Vuh (capitaneado pelo tecladista Florian Fricke) foi colaborador recorrente do cineasta alemão. Assinou diversas trilhas, como as de FITZCARRALDO e NOSFERATU, conferindo às trilhas um clima onírico, combinando as viagens eletrônicas de grupos como o Kraftwerk e o Tangerine Dream com influências místicas e orientais e, no caso do filme em questão, andinas.

    54) INTERESTELAR (Christopher Nolan), 2014

    O diretor britânico Christopher Nolan tem uma parceria bem sucedida com Hans Zimmer que compôs algumas de suas trilhas mais icônicas como as de BATMAN BEGINS, BATMAN O CAVALEIRO DAS TREVAS, A ORIGEM e INTERESTELAR. Esse último, com um elenco (inter)estelar, liderado por Matthew McConaghey, é um épico de ficção científica ambientado num futuro distópico em que a Terra está ameaçada de extinção pela fome e catástrofes naturais. A trilha minimalista com o uso de órgão de tubos alterna suavidade e silêncio com momentos grandiosos. Zimmer musicou outras trilhas famosas como as de GLADIADOR, REI LEÃO, O ÚLTIMO SAMURAI e MELHOR É IMPOSSÍVEL.

    55) ALTA SOCIEDADE (Charles Walters), 1956

    Dispensável falar da importância de Cole Porter para a cultura norte-americana. Celebrados pelos principais nomes da música, seus standards tornaram-se presença obrigatória em qualquer compilação representativa da era de ouro do jazz. Sem falar dos inúmeros espetáculos da Broadway, muitos transpostos para a tela. Filmes como CAN CAN, KISS ME KATE e O PIRATA trazem a marca de Porter. HIGH SOCIETY, do diretor de musicais Charles Walters (o mesmo de EASTER PARADE) traz Bing Crosby, Frank Sinatra e Grace Kelly (seu último papel antes de se tornar princesa), e a presença marcante de Louis Armstrong e banda executando HIGH SOCIETY CALYPSO. Além de TRUE LOVE com Crosby e Grace, último grande sucesso do compositor.

    56) IMENSIDÃO AZUL (Luc Besson), 1988

    Éric Serra colaborou com o diretor francês Besson em diversas películas como O PROFISSIONAL, NIKITA e O QUINTO ELEMENTO. Em IMENSIDÂO AZUL (THE BIG BLUE), filme que trata da rivalidade esportiva entre dois mergulhadores que competem para obter maior profundidade no mar, procurou transferir para a música a sonoridade etérea do vasto oceano, misturando sons naturais com melodias suaves e elementos eletrônicos, com destaque para a faixa de abertura. Serra foi convocado também para compor a trilha de 007 CONTRA GOLDENEYE com Pierce Brosnan no papel de James Bond.

    57) TRAINSPOTTING (Danny Boyle), 1996

    O diretor de YESTERDAY (regravações de temas dos Beatles) e do premiado QUEM QUER SER UM MÍLIONÁRIO? (com canções indianas), já chamava a atenção dos cinéfilos desde os desconcertantes COVA RASA e TRAINSPOTTING, ambos com Ewan McGregor. Esse último retrata sem retoques o mundo das drogas em Edimburgo nos anos 80. A trilha tornou-se ainda mais cultuada que o filme, reunindo a nata da canção pop inglesa e americana da época: Lou Reed, Brian Eno, Iggy Pop, Blur, Primal Scream, New Order, destacando-se BORN UNSLEEPY com o grupo Underworld (que se tornou um hino rave).

    58) TITANIC (James Cameron), 1997

    O cineasta canadense James Cameron é o segundo com maior bilheteria (atrás apenas de Steven Spielberg). Duas de suas megaproduções receberam trilhas de James Horner, AVATAR e TITANIC. Esta última rendeu a Horner um Oscar, além de obter um enorme sucesso comercial com o álbum, um dos campeões de vendas de todos os tempos, em grande parte puxado pela canção tema (também de sua autoria em parceria), MY HEART WILL GO ON interpretada por Céline Dion, igualmente laureada pela Academia. Horner musicou ainda os filmes ALIENS, O RESGATE (também de Cameron), O HOMEM BICENTENÁRIO, CORAÇÃO SELVAGEM. APOLLO 13, COCOON, CAMPO DE SONHOS, JUMANJI, O NOME DA ROSA e DOSSIÊ PELICANO

    59) OS ÚLTIMOS PASSOS DE UM HOMEM (Tim Robbins), 1995

    Tim Robbins é conhecido como ator (como no aclamado UM SONHO DE LIBERDADE). Aqui exercita seus dotes de diretor (além de roteirista e produtor) num filme que retrata um prisioneiro condenado à morte (representado por Sean Penn), sendo confortado em seus momentos finais por uma freira (Susan Sarandon, que faturou o Oscar), estabelecendo-se entre os dois uma relação intensa e debates sobre justiça, perdão e responsabilidade. A memorável trilha sonora inclui artistas pop de renome como Bruce Springsteen, Patti Smith, Tom Waits e Suzanne Vega. Mas o ponto alto são duas faixas cantadas em dueto por Eddie Vedder, vocalista do Peal Jam, com o cantor paquistanês Nusrat Fateh Ali Khan que, a partir daí, ganhou visibilidade no Ocidente.

    60) DO FUNDO DO CORAÇÃO (Francis Ford Coppola), 1982

    O maior fracasso comercial da filmografia do cultuado diretor da trilogia O PODEROSO CHEFÃO talvez seja paradoxalmente o que tenha uma das trilhas mais cativantes, a cargo de Tom Waits. Não obstante Waits seja um músico cult, seu vínculo com o cinema fica mais por conta de suas atuações como ator coadjuvante, sobretudo em filmes de Jim Jarmush (DOWN BY LAW, COFFEE AND CIGARETTES) e do próprio Coppola (SELVAGEM DE MOTOCICLETA, VIDAS SEM RUMO, DRÁCULA DE BRAM STOKER). Em ONE FROM THE HEART, no entanto, brilha como compositor (sendo o autor das 12 faixas que integram o álbum) e como cantor, fazendo dupla com Crystal Gayle, convertida do country para o jazz romântico.

  • A melancolia e a preguiça!

    O tataravô da sofrência foi Ludwig Van Beethoven, que bebia demais como consequência de seus devaneios emocionais, o que colaborou com a sua morte prematura. 

    A perda da audição não foi uma predisposição genética como alguns pensam, esse ainda é um mistério que nos surpreende e assombra.

    Foi do pai Johann que Beethoven recebeu suas primeiras lições de música; o objetivo era afirmá-lo como “menino-prodígio ao piano”, dada sua habilidade musical desde cedo. 

    Por essa razão a partir dos cinco anos seu pai passou a obrigá-lo a estudar música diariamente durante muitas horas. 

    No entanto, seu pai terminou consumido pelo álcool que levou a infância de Ludwig ser muito infeliz. 

    A perturbação emocional daquele pai pode ter sido apenas uma característica individual, que não preencheria critérios para um diagnóstico psiquiátrico.

    É um típico sintoma que pode estar presente em muitas pessoas, por ser um comportamento repetitivo, peculiar e capaz de gerar prejuízo, e danos físicos e psicológicos a si mesmo ou aos que estão ao seu redor. 

    Essa salada de emoções e comportamentos exagerados, fez surgir o conceito de psicopatas do cotidiano, que são os indivíduos como o pai de Beethoven, que não chegam a perder o juízo da realidade, mas a maneira como interagem com o mundo, os torna de difícil convivência. 

    O simpático conceito que vovó oferecia aos mais difíceis de lidar, como sendo indivíduos com “um parafuso a menos”, abreviava a interpretação necessária do entendimento complexo dessas pessoas. 

    O fato é que o susto da possível presença de uma doença emocional, nos distancia em crer que ela exista, por isso a falta da colocação desse parafuso, passa por aceitar a realização de um tratamento especializado, que pode colaborar na saúde mental coletiva.

    O temperamento e o caráter costuram nossa personalidade nas entranhas do dia a dia, permitindo que sejamos alguém onipresente, pleno e com algum potencial humano para oferecer. 

    Abrir mão da convivência atraente entre nós, não é uma opção saudável como aquela troca de olhares, gestos e palavras com o colorido emocional mantido pela individualidade que possuímos para oferecer.

    Não espere consertar o outro com seus conselhos ou uma lista de regras básicas de convivência, que Hipócrates classificou separando o temperamento humano em quatro tendências específicas. 

    Se formos mais sonhadores, determinados e sociáveis, tenho a certeza que a melancolia e a preguiça podem se desfazer, e evitar maiores danos cotidianos á espreita dos olhos.

  • Fala, Memória! Belchior Vive!

    Ao lembrar, agorinha, da troca de roupa e mudança para outra cidade do nosso “Bigode” cearense, esse que não cantava tanto quanto aquele outro que cantava, o Bievenido Granda do Perfume de gardênia, no mesmo ano em que perdemos também os ótimos Luiz Melodia e Vander Lee, a porteira da memória foi aberta.

    Agora, com a fazenda de porteira aberta, casa destelhada e também de janelas abertas, lá fui eu de volta para os anos… 90 (?), na API, nossa ex-Associação Paraibana de Imprensa, hoje transformada em um self service ou coisa que o valha, encontrar-me com o excelente compositor de Alucinação e alucinações outras.

    Foi lá, ainda passeando pelas “Coisas do Momento”, vizinho da “Letra Lúdica” do excelente Hildeberto Barbosa Filho, amigo de priscas eras, no jornal do mesmo nome (O Momento), fundado e dirigido pelo saudoso Jório Machado, editado na época pelos saudosos Oduvaldo Batista e Maria José Limeira, que me encontrei pela primeira — somente o encontraria uma segunda — vez como ele, Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes.

    Nesse dia, no auditório — era esse o nome? — da API, ele ainda curtindo o sucesso do seu “rapaz latino americano”, dava um relaxada coletiva. Estava presente. Assim por acaso. Tomando umas e outras naquele barzinho que respirava cultura, meio as piadas e a performance do “artista” Moura, então responsável pelo bar, subi para ver esse que foi o melhor compositor daquela safra de nordestina que invadiu o Sul maravilha, com as suas histórias “a palo seco”, onde desfilavam pavões misteriosos.

    Hoje, passados os anos, confesso que não o achava tão diferente desse compositor cheio de ideias, filosofias e letras em que se transformou. O mais culto de sua geração. Sem dúvidas. Um compositor excelente. Autor de letras que quase não cabiam nas músicas que a sua cabeça em constante revolução fabricava.

    Naquele dia, lembro-me bem, os estudantes estavam nas ruas. Não buscando mudar o mundo, mas contra o aumento no preço das passagens de ônibus. Nada mais comum. Não havia um só cara-pintada. Todos de caras limpas. Negócio seguinte: foram ver o ídolo. E, aproveitando a oportunidade, pediram o seu apoio “à causa”. Lembro-me bem. 

    O protesto tem sentido… Lutar. Lutar. Lutar. Sempre. Mas, nesse momento, estou aqui como artista…

    Como?!

    Obtemperei.

    Sei ainda que, naquele momento, o papo, o nosso papo nada tinha a ver com o fato. Ou teria?

    Não entendi. Então quer dizer que o Belchior se preocupa apenas em vender o seu produto, e acha tudo muito legal quando a estudantada sai para comprá-lo? É isso?! Agora quando essa mesma molecada precisa do seu apoio numa reivindicação justa e legal, ele diz “Nada a ver com isso eu tenho, pois sou um artista? Estás parecendo aquele outro que não tá nem aí para o que acontece aqui fora, porque o seu único desejo é estar Odara!

    E aí? O que você quer dizer com isso?

    Agora foi a vez de ele Obtemperar.

    Sou um artista, Faço arte. Quer discutir arte comigo?!

    Não queria. Não quis. Não discuti. Não havia necessidade. Sabia. Era um artista e muito bom, e fazia uma arte muito boa. Mas o papo não era por ai.

    Tentei ainda lhe dizer que seria deixar que os Estudantes brigassem por ele, enquanto ele — fiz questão de abusar do “ele” — ficava em casa “contando o seu metal.” Aquele mesmo que a Elis Regina, por livre e espontânea vontade, resolveu transformar (e cantar) em “vil metal”. Disse-lhe. Mas, entre mortos e feridos, encontramos motivos para novas canções.

    Tive ainda a oportunidade de estar outra vez, mais uma vez e apenas uma, dessa vez em São Paulo, com o compositor da bela e datada “A Palo Seco”. Aquela famosa que fala no ano de 1973 (Chile). Ou teria sido no ano de 1976 (Soweto?)?

    Fala, memória, invoco Nabokov! Bons tempos aqueles, hein?!

  • Almoço mineiro

    Quarta-feira. Meio-dia. Belo Horizonte está nublada, como uma cidade que acabou de sair do banho. Desço a Rua da Bahia, venho do Minas Tênis Clube, fazer algo que não vem ao caso. Atrás de mim está a Praça da Liberdade, com os bancos onde já se sentaram Paulo Mendes Campos, Hélio Pellegrino, Fernando Sabino, Otto Lara Resende, Carlos Drummond de Andrade, Mário de Andrade e Manuel Bandeira. A cidade não é só um convite à crônica — ela é uma crônica pronta, basta olhar para ela.

    Decido ir andando até a Rua dos Caetés para almoçar. Almoço é coisa séria. E meu prato favorito é: arroz, feijão andu, língua de boi, couve refogada, farofa e ovo.

    Levo comigo o livro Amores difíceis, de Italo Calvino, além de uma carta que escrevi para um amigo meu, que está no Rio de Janeiro.

    Escolho uma mesa, noto que agora colocaram mesas e que a gente só come no balcão se quiser.

    — O seu é o que, amigo?

    — Com língua de boi, por favor.

    Perguntam se quero beber alguma coisa, mas só peço chope depois de comer.

    Enquanto o prato não chega, olho para as mesas: uma mulher come sozinha, debruçada no balcão. O garçom sorri como se fosse da família da gente; aliás, qualquer um ali — seja quem for, que se apaixona pelo mesmo prato — é como se fosse da família da gente.

    Penso que cada um tem seu prato favorito. O meu é minha alma exterior, como dizia um personagem antigo de Machado de Assis. Penso nos personagens de Italo Calvino, cujo livro está bem diante de mim, sobre a mesa.

    Eles se divertem com paixões impossíveis, desejando quem nunca terão. Eu não. Meu amor é mais possível, por aquele prato, que comi rezando, pelo chope que o garçom já trouxe.

    Depois do almoço, vou caminhando para fazer a digestão. Sinto vontade de escrever um conto, mas ando mais um pouco e espero passar. Vou ao banco e deposito algum dinheiro.

    No guardanapo que trouxe comigo, anoto: “O amor é uma coincidência. Às vezes coincide com o amor do outro, às vezes não; mas, com um prato de comida como aquele, até a dor de amor dói bem menos.”

    Gosto de caminhar. A cidade é cheia de árvores e gente simples andando na rua. Andu, para quem não sabe, é meu restaurante favorito — vou lá batendo perna sozinho, lendo um livro ou matutando um texto. Nem pensar em convidar um amigo. Vai que ele inventa de comer em outro lugar?

    Mas eu já te falei do meu prato preferido — e, se você comer, vai ser o seu também.

  • Poema #43: Carnaval, Bandeira e Eu

    Quero banhar-me nas águas sujas
    Quero banhar-me nas águas sórdidas
    Sou a mais solitária das criaturas
    Me sinto só.

    Confiei às mulheres os meus amores
    Caí de quatro pelas sarjetas
    Cobri minha alma de decepções
    Valei-me Manuel Bandeira.

    Vozes da morte contai a história
    Da pessoa boa que sempre fui
    E eu dormia ouvindo o ruído calmo
    Do bambuzal

    A Sentinela em Fuga e Outras Ausências

  • Defasagem

    Quando Zími ouviu Mila Cox bater à porta de seu quarto, pensou que fosse por causa das pilhas do controle remoto da televisão da sala.

    Ele as havia trocado,colocando pilhas usadas no lugar.

    Pecou miseravelmente e estava envergonhado.

    As pilhas dele já tinham acabado e eram da mesma marca das pilhas usadas por ela na outra televisão, pois foram compradas na mesma ocasião.

    Compraram poucas, mas ele compraria outras no dia seguinte.

    Antes de dividirem o apartamento, Zími nunca tinha tido à disposição tantos canais de documentários para assistir sozinho, numa tela grande.

    Isso deixava sua parceira musical intrigada, pois antes eram apenas os livros que o deixavam ausente por horas, como se ela estivesse sozinha em casa e ele fosse uma planta em outro cômodo.

    Ela gostava disso, mas era uma condição inédita em sua vida.

    Cox vivia antes numa casa de classe média na Penha, com a mãe e a avó, que consideravam o novo apartamento um muquifo. 

    Mas para ela era ideal. E para Zími era como um hotel de luxo.

    Ela não reclamou das pilhas.

    Na verdade, Mila Cox estava aflita naquele momento por conta de um e-mail que recebeu de um cara que assistiu a um show dos Crop Circles numa festa de aniversário em Santana do Parnaíba, no fim de semana anterior.

    Ela estava ali bebendo café numa caneca de chope e usava uma camiseta rosa, furada, do Black Flag.

    No dia desse show, aconteceu a estreia do amigo Silvano tocando ao vivo, que ensaiou seu repertório em menos de uma semana, em seu apartamento, vizinho de andar de Zími e Cox, isolado acusticamente com caixas de ovos nas paredes.

    No tal e-mail, o sujeito fez elogios à apresentação de Silvano e dos Crop CIrcles, acrescentando que nunca tinha ouvido falar deles, e que instantaneamente os viu como uma ‘pérola da obscuridade’. 

    Disse também nunca ter visto de perto, ao vivo, algo tão ‘cool’.

    Mila Cox sabia que Zími estaria satisfeito se passasse o resto da vida no underground, com trabalhos paralelos à música, para pagar as contas. 

    Ele prezava ir ao mercado e sair de bicicleta sem ser abordado a todo momento.

    Sabia também que continuar no underground era, na concepção dele, continuar sendo ‘cool’.

    Ele sabia que ela queria as duas coisas. 

    Ter algumas vantagens do mainstream, mas sob uma aura underground.

    Zími dizia que uma vida brasileira normal, com preocupações financeiras, políticos escrotos, fanáticos religiosos e a repulsa que a maior parte da população tem pelo rock, e especialmente pelo rock alternativo, dão legitimidade ao trabalho.

    Em tempos de internet, uma eventual repercussão no exterior se torna mais possível agora do que quando ele tinha a idade dela.

    Zími tinha quarenta e seis anos, e Mila Cox, dezenove. Além disso, ele gostava de se expressar através da música, sem pitacos de gente que não é do ramo. 

    Queria poder até mesmo errar de forma livre, e depois fazer de novo da maneira correta.

    Pediu que ela, no contexto do e-mail, pensasse apenas nas palavras ‘pérola’ e ‘cool’, ignorando a palavra ‘obscuridade’, caso se incomodasse com ela.

    A Zimi, isso não incomodava.

    Damo Suzuki era obscuro ao grande público e era uma das principais referências artísticas para ele, que também nunca escondeu seu desprezo por tudo que é mainstream no Brasil.

    Segundo Zími, toda sua contribuição para a banda, formada apenas por ele na bateria e vocal, e Mila Cox no baixo, vocal e sintetizadores, sem um guitarrista, é tirada do que ele via no dia a dia, admirando ou repudiando o que estava lá, e muitas vezes se favorecendo de seu anonimato.

    Cox sabia, no entanto, que ele adoraria se ganhasse dinheiro suficiente para que não tivesse que fazer mais nada que não quisesse.

    Com o dinheiro, ele poderia perder o interesse pela música, pagaria as contas no débito automático e ficaria em casa fumando maconha e vendo documentários enquanto estivesse acordado.

    E ele estaria tão pleno, etéreo e abstrato, que ela jamais ousaria incomodá-lo, sabendo principalmente que ele diria, de imediato, que estava com os boletos pagos. E a sua tendência de se tornar recluso e misterioso se acentuaria.

    Sem contar que não era segredo que Zími preparava um livro havia um bom tempo, e dizia que ainda não havia ficado pronto por causa dos compromissos musicais, sendo essa a vertente cultural a que daria prioridade.

    Mas dizia que o livro ficaria pronto a tempo do lançamento futuro de um box da banda, com todo o material gravado, para atender aos desejos megalomaníacos de Mila Cox.

    Ele desconversava quando o assunto era ter mais dinheiro do que ele jamais teve, porque não contava com essa sorte, e não queria gastar seu tempo de sonhar com algo que considerava ilusório.

    Enquanto não escondia sua vontade de se tornar relevante para um público maior, principalmente fora do país, Mila Cox alegava que não podia entrar nos sonhos dele para saber se ele dizia a verdade., em relação ao que ela chamava de conformismo.

    A isso, Zími chamava de aproveitar a recompensa pelos esforços do passado, e não contava com essa recompensa enquanto não considerar ter feito tudo que podia.

    Ele disse que a arte tem que ser produzida de forma independente porque ela jamais vai se sobrepor aos valores do mercado, que poderia estar vendendo o que fosse, desde que gerasse lucros.

    Então, sempre que as conversas entre eles sobre esse assunto chegavam a essa parte das diferenças que tinham entre si, Zími dizia que para ele nunca houve zona de conforto em nenhum setor da vida, em nenhum período, e a arte, antes de uma fonte de renda, deveria ter um propósito em si mesma, antes que pudesse ser vendida como o produto arte.

    Insistia também sobre o fato do amanhã ser um bônus. Tudo o que tinham de fato, era tempo, sem saber quanto.

    Ele lembrou que enquanto Silvano fazia seu primeiro show no último fim de semana abrindo para os Crop Circles, eles já estavam no show de número duzentos e trinta e nove, além de trinta e quatro singles e duas coletâneas.

    Silvano nem mesmo havia terminado seu disco no dia de sua estréia.

    Tinha gravado um esboço tosco com as dez músicas que entrariam no disco, e se apresentou tocando guitarra sentado, também tocando bumbo e caixa acionados por pedais. Zími usava o mesmo kit,acrescentando apenas um chimbal.

    A guitarra era uma imitação de Rickenbacker, comprada na semana anterior, e seu amplificador era um cubo preto sem marca aparente.

    Deixou para lançar o disco no show seguinte, que ainda não havia sido marcado, e seria gravado com a produção de Zími.

    Silvano queria ver a reação do público e também a sua própria diante dele, perder a virgindade de tocar ao vivo e só então disponibilizar o álbum na internet.

    No caminho de ida, ouviram duas vezes seguidas o álbum ‘Enemy of the enemy’, do Asian Dub Fundation, colocado por Silvano, que dirigiu em um silêncio nunca visto antes em dias de show.

    Zími e Mila Cox não sabiam se ele estava muito nervoso ou se estava apenas concentrado para seu show. Era um sítio grande, e havia ali, entre muitos carros, uma Veraneio 73 de colecionador, que fez com que Silvano parasse para olhar por vários minutos, sem soltar o case de sua guitarra, nem o amplificador, que levava com a outra mão.

    Mila Cox tirou a foto e postou no dia seguinte nas redes sociais da banda.

    A garota que fazia aniversário em Santana do Parnaíba era filha do dono do sítio, e havia ouvido falar deles por conta da repercussão de um show em Tanabi, semanas antes. Alguém que esteve presente os recomendou para que tocassem na festa.

    A providencial aparição do uruguaio Silvano em suas vidas fez com que eles mudassem de patamar em termos de estrutura, e mais do que nunca seria preciso, de acordo com Zími falando para Mila Cox, ter paciência para que a popularidade deles também alcançasse um nível superior, como ela desejava.

    Agora que viajavam na Kombi de Silvano, Zími deixou de se queixar das noites seguintes aos shows, com eles dormindo no Chevette Jeans 79 de Cox. 

    Dormir na Kombi era bem mais fácil e o veículo era muito mais apropriado para aquele tipo de rolê.

    A estreia ao vivo de Silvano correu bem, durou trinta e cinco minutos e gerou curiosidade das cerca de trezentas pessoas presentes e conseguiu arrancar aplausos. Antes do show estava tenso, mas se controlou na bebida, deixando para beber depois da apresentação.

    Era uma monobanda, algo ainda mais minimalista que o duo que tocaria em seguida. 

    O som era uma mistura convincente de blues e punk rock.

    Ninguém ali diria que era o primeiro show daquele sujeito.

    De maneira nenhuma Silvano era alguém que projetava sua autoestima na própria aparência, mas ele tinha um tênis Pony de cano alto, uma calça preta de moletom e um colete jeans, que foram o suficiente para que as pessoas saíssem da frente quando ele passava.

    Parecia um Pappo Napolitano brasiguaio.

    Ele assistiu ao show dos Crop Circles na lateral do palco, sem camisa e enrolado numa toalha, com uma caneca em que bebia alguma das cachaças artesanais que, como sempre, haviam sido compradas com antecedência num alambique local.

    Bastava que Mila Cox anunciasse um show fora da cidade de São Paulo, para que ele pesquisasse onde compraria as bebidas, e logo entrasse em contato com o fornecedor.

    Ela havia colocado o Chevette à venda, para comprar um amplificador Orange para seu baixo.

    Zími mencionou também esse fato para lembrar a ela que estavam evoluindo, e o tempo que os separava de uma eventual fama maior, deveria ser aproveitado para tentarem entender o que seria ter problemas que não fossem financeiros.

    Mila Cox respondeu dizendo que problemas financeiros infelizmente são, no mundo tosco em que viviam, a causa de muitas outras aflições.

    Zími concordou e pediu a ela novamente que tivesse paciência, salientando que se ela conseguir logo viver apenas de música, isso pode se tornar tão ou mais exaustivo do que ter trabalhos paralelos para sustentar a banda.

    Os trabalhos que eles pegavam como copywriters podiam ser chatos às vezes, mas eram previsíveis, toleráveis e pagavam o suficiente para que eles existissem como pessoas e artistas.

    Ao bater na porta de Zími, Mila Cox interrompeu um pensamento sobre como a maturidade não vem com a idade, e agradecia pelo fato de Mila Cox compensar essa sua defasagem.

    A isso, eles chamavam mutualismo não simbiótico.

  • Por mais segundas-feiras e não sábados ensolarados

    É manhã de sábado, os raios de um dia ensolarado rasgam os tecidos da cortina e iluminam meu rosto adormecido. Há muito barulho de vida lá fora.

    Levanto com os pés quentes e sonhadores no piso frio, lembrete físico das tarefas ainda por fazer. Me espreguiço, levanto o tampo da bacia sanitária, mijo. Descarga, torneira e sabonete líquido: jogo uma água de qualquer jeito no rosto, a toalha felpuda brinca de me fazer cócegas e eu sorrio.

    Café. Preciso de café.

    Pego água no purificador, encho a chaleira elétrica, ligo o botão, pote de pó de café, xícara vermelha. Não ouso olhar pelo vidro do armário e pegar a prensa francesa. Muita lembrança, a dor ainda arde no meio do peito, carne viva, vida ainda, enfim. A campainha toca. A chaleira estala. Tiro o interfone do gancho.

    — oi, então… voltei. Posso subir?

    (..!)

    Ela vinha devagar, como quem teme assustar as paredes. Um pouco desengonçada, com os olhos verdes, quase cinzas. Um rumor de vento antes que os nós de seus dedos bateressem na face externa da porta antecede a minha falta de juízo: ela está ali, com a mesma roupa de sempre, o mesmo olhar **suplicante por abrigo. Eu estou ali, acreditando uma outra vez que, talvez, dessa vez, a palavra “voltei” dure. Nada nela pede licença: entrou, simples como um sopro.

    Eu, sem antever a previsão repetida, me torno o personagem em slowmotion de novo – que inquietante a potência dos outros em fabricar nossas próprias características! Cena de filme clichê, coisa etérea, poeira suspensa. Uma nuvem entre o céu vazio que ela tanto se esbalda.

    No começo, como em todos os começos antes, achei que o amor era isso: ficar leve. O café não esfria, ela me serve antes que isso aconteça. Encosta a cerâmica fria em meus lábios, me faz respirar diferente. É a minha cozinha. Não é a mesma cozinha. Ela joga os cabelos para um lado só com as pontas dos dedos — gesto comum, mas que suspende o ar da cozinha. O tempo pára, ou finge parar. Eu, que sinto e confundo sonho e acontecimento, observo: ela é mais ideia do que corpo. Parece feita do mesmo material das manhãs que não voltam. Há nela um quê de desenho inacabado: o contorno treme, a pele é quase vento, o olhar pesa mais do que o rosto. E, mesmo assim, sorri — um sorriso de quem se desculpa por existir e por não conseguir deixar de existir.

    Sinto que a inventei e ela, por delicadeza, continua encenando que é real.

    Difícil entender que leveza demais é outra forma de se partir: um vaso de plantas que se quebrou e colei sozinho, mas não segura a água das plantas; um eco de lembrança que se recusa a morrer; vento, sua forma mais triste de permanência. Irônico e cômico.

    E eu, bobo, inteiro, continuo acreditando. Ela é boa em cuidar — não de mim, mas da imagem que deixei dela. Cautelosa demais, como se desarmasse sempre uma bomba, para ser humana.

    Um fantasma educado, incapaz de errar, dessas pessoas que não sangram por medo de manchar o chão. Não é antifragil. Não admite consertos. Teme o caminho de desconstrução; é desconfortável o transitório. É tóxico se deixar transformar.

    É desconcertante a sutil e total diferença entre sentimento e condição.

    Jamais suportara ver o que fica depois do “cuidar”, o real: a bagunça dos gestos, o fedor da presença, o convívio que tira o amor do ideal. Queria o brilho, não o suor. Não entendera a distinção poética e viva entre abrir mão e dar as mãos; vivia no mundo idealizado da precisão, das decisões calculadas — não no das concessões e imperfeições humanas. Planejava demais, deixava pouco espaço para o acaso, para o erro, para o viver de verdade.

    É mais máquina que mulher, mais tese que pele. E quando falha, usa o discurso pronto, como quem cita, não como quem sente:

    — Errar é humano, está tudo bem.

    Mas não está. Não quando quem erra é ela. Não suporta o reflexo da própria admiração; nem a vontade, secreta e infantil, de ser o outro. Eu sou esse espelho, e sei que ela tentou. Tentou ter os meus sonhos, camuflar-se no meu mundo. Não me abriu porta nenhuma para o seu. Mudar não é uma opção. Assumir a mim e a si, tampouco.

    Estar presente não é para ela. Ela brinca de amarelinha numa superfície de casas

    passadas e futuras. Pisa leve, pulando. Torce as pernas com graciosidade. Sorri em ambos os tempos – recentemente aprendeu a sorrir com os dentes endireitados por aparelhos ortodontários e pela minha presença em sua vida. Se viu perdida de identidade. Surtou.

    — Quem sou, se não estou pronta?

    É bonita, a danada da imagem distorcida! Mas ela não quer estar aqui, na minha cozinha, o saguão inexorável de um aeroporto internacional. Quer estar no movimento que a faz ser alguma coisa.

    Vai indo embora da mesma forma sorrateira e desonesta que entrou, à francesa tal qual a origem da cafeteira que me encara, relembrando-me que, sim, tudo o que tivemos foi real, eco do que poderia ter sido numa frequência de momento eterno. Ela prometeu. Prometeu me olhando nos olhos. Olhos verdes. Olhos-cinza. Tudo virou pó, eu suspirei, comunguei sozinho junto à fênix derradeira.

    — imbecil de mim, que chamei o eco de sentimento.

    Não sei se era falta de amor, não acredito verdadeiramente… Acho que tal proteção desmedida nunca teve motivo. Era medo, e só isso. Do sucesso. Do mundo a julgar. De se permitir viver a vida, gozar dela; o embate entre o enxergar meu excesso de alma e sua rasa profusão de quem nasceu para pilotar aviões com copilotos artificiais e sem passageiros. Sabe de cor o que estuda, os manuais de aeronaves. Teorias que precisam funcionar, é preto no branco.

    Deixou escapar, num momento de retorno, que eu a fazia ver o mundo com cores. Que ali, no aconchego das 4 pernas debaixo de um cobertor no meu sofá, comendo pipoca, era plenitude. E que o conjunto era poderoso.

    Tais coisas se confundem quando o tempo esgarça. E com ela, sempre, involuntariamente, se esgarça. Eu lhe dou de presente o que eu existo no agora. Ela só tem fusos horários que não me encontram.

    Só sei que ela ama e odeia com a pressa de quem tem de pegar o próximo voo. Viagens sem reembolsos. Voos sem pouso e sem escalas. Combustível infinito, vida perdida. Viagem… a viagem na paranóia humana.

    E eu, que sou pedra, não peso, mas gemo a me lapidar pelo processo da vida. Gemo em gema e brilho. Pareço os raios que me acordam com a furiosa simpatia de um nascer de dia: eu sonhei ser terra fértil.

    Preparei a minha casa para um corpo vento. Projetei os fluxos livres. Convidei as brisas, todas. Me enfeitei com o perfume mais marcante, para que ela o carregasse consigo. Um vento que ela escolhia ser, pois a humanidade, nela, a enfraquece. Ela prefere relacionar-se com máquinas. Prefere o irreversível irreal. Sua condição de menina ferida, adolescente que finge acreditar tão somente em seu poder interior.

    E o que é o amor, senão o desapego da matéria para se manter leve? Leve é ser vento ou se estar seguro em uma estrutura que resista e acolha a ele próprio?

    (nada se movimenta, só o visor digital do relógio de cabeceira).

    Guardo dela o som dos passos que sempre se vão, não o rosto. O tom do verde desbotado e craquelado em cinzas, é tudo o que me resta.

    A chaleira esvaziou. O pó de café firmou-se no filtro de pano. Lacrei a prensa francesa em uma caixa de papelão destinada a doações. A natureza é morta em todos os quadros da casa.

    Guardo a ideia de que talvez o amor não precise durar — basta doer bonito. Doer queimando. Doer para não existir e dar sentido a não ser.

    Durmo.

    Na manhã de hoje, tal domingo em que os despertadores são o silêncio prolongado da madrugada companheira, minha taça de vinho substitui a xícara vermelha. Me olha do topo de seu corpo translúcido e brilhante, fixamente, como quem pergunta:

    — Voltaria a amá-la?

    Ao que respondo “sim”, pois verdade seja entendida: não se deixa de amar por um triz, por uma mera vontade, desilusão ou capricho. É um processo. É a dor de não querer apagar o possível, que jamais será aceito, da parte dela.

    Amá-la é fazer um pacto com o silêncio. É espetar-me e sangrar sozinho. É aguardar o próximo vento, ou uma mísera brisa.

    Desta dolorosa manhã repetida de sábado, resta o domingo árido. Resta a realidade sem. Restamos eu e meus desenganos.

    Graças aos céus amanhã é segunda-feira.

  • Desconfio que nasci pata. Pata pateta?

    Sabe aquela pessoa especialista em uma atividade, focada, perseverante, que se destaca pela alta performance? Não estou falando de quem nasceu com um dom divino — porque aí seria fácil dizer: se não foi abençoado, desista. Falo do ser comum que escolhe um caminho e segue nele, dia após dia, sem desvio. Pois é… essa não sou eu. Pelo contrário.

    Sempre tive necessidade de pular de galho em galho: cada hora um foco, um novo desafio, sempre para explorar algo diferente em mim. Da taquigrafia à flauta doce, da escrita literária ao pudim de leite sem furinhos — tudo me capturava a atenção, mas nunca a dedicação. No meu pula-pula, abri tanto o leque e o passo da dança que nunca fui virtuose em nada, a bem da verdade.

    E aí vem aquela pergunta que arrepia: qual é a sua especialidade?

    Para esse tipo de angústia, só mesmo consultando os universitários — no caso, uma psicóloga. Ela me perguntou — Já pensou em escolher um animal que a represente?

    Respondi sem hesitar: — Sim, sempre imaginei um pássaro. Um sabiá, talvez… ou um beija-flor, voando em busca de novos rumos.

    E qual não foi a minha surpresa quando ela disse: — Que tal um pato?

    Pato? Só me faltava essa! Lembrei logo do Pato Pateta da música do Toquinho, já sentindo meu bico crescer e amarelar. Antes de soltar um “quá, quá”, resolvi esperar o diagnóstico.

    — Veja — explicou ela —, o pato é a única ave que anda, nada e voa. Faz de tudo um pouco. Não com perfeição, mas com competência. É isso que chamamos de “multipotencialidade”.

    Aos poucos a ficha caiu: o pato pode até parecer desengonçado na terra, mas na água desliza com elegância, e no céu encara o vento com coragem. Não precisa ser o rei de nada para ser bom em muita coisa.

    Respirei fundo. Ufa, redimida! Sou uma multipata.

  • Poema #14: Fluxo

    E vem
    é frio é pouco
    e quente e certo
    incerto

    é leve é tarde
    e breve e louco
    solto

    é muito é medo
    e mesmo e igual
    real

    parte e vem
    vem e parte
    uma parte
    e vai…

  • Trilhas da Minha Vida – parte 2/5

    Meu destino foi moldado pelos filmes que assisti. A música que os acompanhou faz a trilha sonora da minha vida.

    Um grande filme deve vir acompanhado de uma trilha sonora à altura. A música tem o poder de potencializar as sensações a nós repassadas pelas cenas assistidas. Em alguns casos, fica tão intimamente vinculada às imagens que delas se torna indissociável. Muitas obras cinematográficas devem seu sucesso à trilha sonora, havendo casos em que esta chega a ofuscar o próprio filme. Meu destino foi moldado pelos filmes que assisti. A música que os acompanhou faz a trilha sonora da minha vida.

    21) CASABLANCA (Michael Curtiz), 1942

    Impossível não associar o cultuado drama ambientado durante a II Guerra a AS TIME GOES BY, uma das canções mais marcantes do cinema que, tocada ao piano num bar, faz com que o galã Humphrey Bogart se recorde de seu antigo amor, Ingrid Bergman. Curiosamente, o aclamado tema é de 10 anos antes, não tendo sido composto para o filme, cuja trilha sonora pertence a Max Steiner que o utilizou habilmente. O austríaco Steiner é um dos maiores compositores de Hollywood, assinando mais de 300 trilhas com 24 indicações ao Oscar, destacando-se outro clássico, E O VENTO LEVOU (1939), além do primeiro (e melhor) King Kong, o de 1933.

    22) DIAMANTES SÃO ETERNOS (Guy Hamilton), 1971

    Não se pode deixar de mencionar as diversas trilhas da franquia 007. Injusto ressaltar uma dentre elas, já que muitas foram marcantes, em especial aquelas compostas por John Barry (também um dos autores do famoso tema de James Bond). Cada novo filme revelou uma canção principal com algum intérprete renomado: Paul McCartney (LIVE AND LET DIE), Carly Simon (NOBODY DOES IT BETTER), Matt Monro (FROM RUSSIA WITH LOVE), Louis Armstrong (WE HAVE ALL THE TIME IN THE WORLD), Tom Jones (THUNDERBALL), Duran Duran (A VIEW TO A KILL), Nancy Sinatra (YOU ONLY LIVE TWICE), Sheena Easton (FOR YOUR EYES ONLY), Adele (SKYFALL) etc. Mas a coroa vai para Shirley Bassey, agraciada com 3 temas (GOLDFINGER, DIAMONDS ARE FOREVER e MOONRAKER).

    23) LUZES DA CIDADE (Charles Chaplin), 1931

    Nesse clássico que combina comédia e drama, Carlitos desempenha um vagabundo que sustenta uma florista cega que, ao voltar a enxergar, não consegue esconder a frustração ao reconhecer seu maltrapilho benfeitor. Não bastasse ser diretor, produtor, roteirista e ator principal, Chaplin ainda compôs a bela trilha sonora. Em se tratando de um filme mudo, a música desempenha papel primordial traduzindo as emoções dos personagens. É utilizada também a espanhola VIOLETERA como tema da florista. Deve-se ressaltar que Chaplin compôs outras duas pérolas: THIS IS MY SONG (sucesso na voz de Petula Clark) para o filme CONDESSA DE HONG KONG, além da célebre SMILE (filme TEMPOS MODERNOS), regravada por Nat King Cole, Michael Jackson, Judy Garland, Barbra Streisand e Lady Gaga, dentre tantos.

    24)  OS EMBALOS DE SÁBADO À NOITE (John Badham), 1977

    Na década de 60, os Bee Gees eram tidos como um trio de soft rock que alcançou sucesso com canções singelas como MASSACHUSETTS e I STARTED THE JOKE. Pegando carona na onda ‘disco’, os irmãos Gibb emplacaram uma das mais bem sucedidas trilhas, SATURDAY NIGHT FEVER com canções como STAYIN’ ALIVE, HOW DEEP IS YOUR LOVE, YOU SHOULD BE DANCING e NIGHT FEVER com John Travolta arrepiando na pista. De quebra, outros grupos representativos dos anos 70: Kool & the Gang, KC & Sunshine Band e Tavares.

    25) UM HOMEM, UMA MULHER (Claude Lelouch), 1966

    Esse drama romântico de Lelouch, vencedor da Palma de Ouro de Cannes e do Oscar de filme estrangeiro, que consolidou a importância do diretor francês no contexto internacional, deve seu sucesso em grande parte à maravilhosa trilha de Francis Lai. Aliás, a parceria entre Lelouch e Lai estendeu-se para outros filmes do diretor, como VIVER POR VIVER, UM BOM ANO etc. Outra trilha icônica de Lai, que lhe valeu um Oscar, é a do blockbuster americano LOVE STORY de 1970. O tema instrumental de Lai, THEME FROM LOVE STORY, lançado em single por Henry Mancini, alcançou grande êxito comercial. Quando lhe foi adicionada uma letra, sendo rebatizado como WHERE DO I BEGIN?, voltou repetidamente às paradas nas vozes de Andy Williams, Tony Bennett e Shirley Bassey.

    26) SE MEU APARTAMENTO FALASSE (Billy Wilder), 1960

    Billy Wilder é um dos mais respeitados diretores do cinema com obras primas inesquecíveis como CREPÚSCULO DOS DEUSES, PACTO DE SANGUE, FARRAPO HUMANO e SABRINA, versão com Humphrey Bogart e Audrey Hepburn. A que tem a trilha mais conhecida – composta por Adolf Deutsch – é provavelmente THE APARTMENT com Jack Lemmon e Shirley MacLaine, destacando-se a canção JEALOUS LOVER. Deutsch musicou também outra comédia de Wilder, QUANTO MAIS QUENTE MELHOR além de RELÍQUIA MACABRA (de John Huston) e o musical SETE NOIVAS PARA SETE IRMÃOS (Stanley Donen).

    27) ORFEU NEGRO (Marcel Camus), 1959

    Apesar de o enredo (baseado na mitologia grega) ter transcorrido no Rio de Janeiro durante o Carnaval, com elenco de atores brasileiros, os méritos ficaram com a França do diretor Camus, nos grandes festivais em que concorreu, por aquele país ganhando o Oscar de melhor filme estrangeiro e a Palma de Ouro em Cannes. A trilha sonora, de autoria de Tom Jobim (em colaboração com Vinícius) e do violonista Luiz Bonfá, que compôs os temas MANHÃ DE CARNAVAL (interpretado por Agostinho dos Santos) e SAMBA DE ORFEU (ambos em parceria com Antônio Maria) marca o início da explosão da bossa nova. MANHÃ DE CARNAVAL consolidou-se como uma das músicas brasileiras mais conhecidas no exterior com versões de Sinatra, Sarah Vaughan, Nina Simone, Stan Getz, Paul Desmond, Quincy Jones etc.

    28) THE BLUES BROTHERS (John Landis), 1980

    A simpática comédia musical estrelada por John Belushi e Dan Aykroyd, por aqui recebendo o título de OS IRMÃOS CARA-DE-PAU, teve uma das ‘soundtracks’ mais bem sucedidas de todos os tempos. Boa parte das músicas (clássicos de blues, soul e R&B, inclusive uma versão de PETER GUNN de Henry Mancini) foi executada pela própria dupla, algumas ao lado de astros de primeira linha que participaram pessoalmente da trama como Ray Charles, Aretha Franklin, James Brown e Cab Calloway. Houve uma continuação, BLUES BROTHERS 2000, que, apesar da boa seleção musical, não vingou.

    29) FALE COM ELA (Pedro Almodóvar), 2002

    Preferido de Almodóvar, Alberto Iglesias compôs diversas trilhas para o cineasta espanhol como VOLVER, MÁ EDUCAÇÃO e TUDO SOBRE MINHA MÃE. A mais bela e pungente talvez tenha sido HABLE CON ELLA que abre espaço para temas da MPB com Elis Regina interpretando POR TODA A MINHA VIDA (Tom & Vinícius) e Caetano Veloso com CUCURRUCUCÚ PALOMA que aparece em pessoa cantando  a pérola do folclore mexicano, faixa do álbum FINA ESTAMPA AO VIVO. Iglesias musicou outros filmes como LÚCIA E O SEXO, CHE, O CAÇADOR DE PIPAS e O JARDINEIRO FIEL, este dirigido por Fernando Meirelles.

    30)  MY FAIR LADY (George Cukor), 1964

    Baseada no megassucesso do musical da Broadway, a comédia estrelada por Audrey Hepburn e Rex Harrison arrebatou 8 Oscars incluindo o de trilha sonora com a memorável I COULD HAVE DANCED ALL NIGHT interpretada pela própria atriz. A trilha foi composta e supervisionada pelo maestro e pianista André Previn, outro colecionador de indicações às estatuetas, tendo faturado mais três: GIGI, PORGY AND BESS e IRMA LA DOUCE, sempre fundindo pop com jazz e música clássica. Cukor foi também o diretor da mais famosa versão de NASCE UMA ESTRELA (1954) com Judy Garland e canções da dupla Arlen/Gershwin.

    31)  EASY RIDER, SEM DESTINO (Dennis Hopper), 1969

    O celebrado ‘road movie’ protagonizado por Peter Fonda (que também o produziu) e Dennis Hopper (que também o dirigiu) marcou o surgimento da geração beat com uma trilha sonora pertinente que traz The Jimi Hendrix Experience e The Byrds (com seu líder Roger McGuinn em duas faixas solo). Mas a canção que marcou realmente foi o hino libertário BORN TO BE WILD (que passou a ser também o hino dos motociclistas) interpretada pelo grupo Steppenwolf que a lançara em seu álbum de estreia um ano antes. À icônica canção é atribuída a origem do termo ‘heavy metal’, contido em um de seus versos.

    32)  CANTANDO NA CHUVA (Stanley Donen), 1952

    A cena começa com Gene Kelly deixando Debbie Reynolds em casa e termina com ele entregando o guarda-chuva a um necessitado, sob o olhar repreensivo de um guarda. Esses 4 antológicos minutos bastaram para credenciar SINGIN’ IN THE RAIN como um dos musicais mais famosos do cinema. O curioso é que quase nenhuma das músicas da dupla Freed/Brown que tocam no musical foi feita para o filme, tendo sido oriundas de outros espetáculos da MGM, inclusive a que dá título à película, composta em 1929, época em que não havia quase filmes falados, inspirando o diretor Donen que popularizou a canção.

    33)  MISSÃO IMPOSSÍVEL (Bruce Geller), 1966

    Não estamos nos referindo à franquia estrelada por Tom Cruise com diversos longas metragens de ação iniciada em 1996, mas ao bem sucedido seriado para a TV em que ela se baseou, criado e produzido por Bruce Geller que foi ao ar entre 1966 e 1973 em 7 temporadas. O famosíssimo tema musical (reaproveitado na versão cinematográfica) marca o ponto alto da carreira de Lalo Schifrin. O maestro, músico e arranjador argentino trabalhou com diretores de renome, como Peter Yates (BULLITT com Steve McQueen) e Don Siegel (DIRTY HARRY com Clint Eastwood), além das trilhas de OPERAÇÃO DRAGÃO (Bruce Lee), A HORA DO RUSH (Jackie Chan) e TERROR EM AMITYVILLE dentre tantas.

    34)  VELUDO AZUL (David Lynch), 1986

    Angelo Badalamenti foi o compositor preferido de David Lynch, compondo 4 trilhas de destaque: TWIN PEAKS, CIDADE DOS SONHOS, ESTRADA PERDIDA e BLUE VELVET. Nessa última, a canção tema, mega-sucesso do cantor Bobby Vinton (interpretada no filme pela atriz Isabella Rossellini) inspirou o título. Roy Orbison também comparece com IN DREAMS, reforçando o clima pop vintage, justaposto por uma partitura orquestral conduzida por Badalamenti, tendo como referência o compositor clássico Shostakovich. A combinação desses elementos tão díspares criou um clima perfeito para o perturbador enredo com características neo-noir.

    35)  O PICOLINO (Mark Sandrich), 1935

    Russo de nascimento, Irving Berlin foi indiscutivelmente um dos mais profícuos compositores da história, com inúmeras canções que se tornaram clássicos do cancioneiro americano. Dentre as trilhas mais famosas, O PICOLINO (TOP HAT) com a inesquecível CHEEK TO CHEEK em que Fred Astaire exibe suas habilidades vocais e de sapateado acompanhado de Ginger Rogers. Outros filmes que contaram com composições de Berlin são BLUE SKIES, EASTER PARADE (DESFILE DE PÁSCOA) e HOLIDAY INN que revelou WHITE CHRISTMAS imortalizada por Bing Crosby, referenciado como o single mais vendido de todos os tempos, com 50 milhões de cópias.

    36) FURYO (Nagisa Oshima), 1983

    A produção nipônica de guerra estrelada por David Bowie ganhou uma bastante pertinente trilha assinada por Ryuichi Sakamoto, combinando composição sinfônica ocidental com sons tradicionais do extremo oriente e um toque de música eletrônica. O conhecido tema instrumental ganhou uma maravilhosa versão vocal de David Sylvian do grupo Japan (que de japonês só tem o nome). Sakamoto viria também a compor para três filmes de Bernardo Bertolucci, O CÉU QUE NOS PROTEGE, O PEQUENO BUDA e O ÚLTIMO IMPERADOR (ganhando o Oscar por esse último).  Compôs também para OLHOS DE SERPENTE (Brian de Palma) e DE SALTO ALTO (Almodóvar). O diretor Oshima é o mesmo do arrojado IMPÉRIO DOS SENTIDOS, filme que desafiou os padrões de censura com suas cenas de sexo explícito.

    37) ADEUS ÀS ILUSÕES (Vincente Minnelli), 1965

    Nesse filme rodado na costa da Califórnia, o casal Richard Burton & Elizabeth Taylor protagonizou um tórrido romance proibido que desafiou as convenções moralistas da época. Apesar das críticas mornas e do desempenho comercial sofrível, o filme teve o mérito de revelar THE SHADOW OF YOUR SMILE (também conhecida como LOVE THEME FROM SANDPIPER), composição de Johnny Mandel, que, não apenas ganhou o Oscar de melhor canção, como foi, devido à sua melodia refinada, uma das preferidas por intérpretes ligados ao jazz, com incontáveis gravações: Tony Bennett, Andy Williams, Frank Sinatra, Barbra Streisand, Astrud Gilberto, Stevie Wonder, Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan, George Benson, Gerry Mulligan, Bill Evans etc.

    38)  HAIR (Milos Forman), 1979

    O diretor e roteirista tcheco Milos Forman é um dos mais respeitados do cinema, com diversos filmes premiados como UM ESTRANHO NO NINHO, AMADEUS, HAIR e O POVO CONTRA LARRY FLYNT, dos quais, HAIR, recheado de hinos hippies é o que dispõe da trilha sonora mais conhecida. A ópera-rock antibelicista, baseada no musical homônimo da Broadway de 1968, captou o clima da contracultura e da rejeição à guerra do Vietnã. O álbum vendeu milhões de cópias revelando canções como AQUARIUS/LET THE SUNSHINE IN (imortalizada pelo grupo 5th Dimension) e GOOD MORNING STARSHINE (hit do cantor Oliver). Por sua vez, a trilha de AMADEUS com músicas de Mozart regidas por Neville Marriner ajudou a popularizar o músico erudito.

    39) O SENHOR DOS ANÉIS (Peter Jackson), 2001

    A quantidade de trilhas assinadas por Howard Shore impressiona. Musicou quase todos os filmes de Cronenberg (A MOSCA, VIDEODROME, SCANNERS, MARCAS DA VIOLÊNCIA) e diversos de Scorsese (O AVIADOR, OS INFILTRADOS, GANGUES DE NOVA YORK, AFTER HOURS), além de O SILÊNCIO DOS INOCENTES, SEVEN dentre tantas. Mas, indubitavelmente, suas trilhas mais conhecidas são as das trilogias O SENHOR DOS ANÉIS e O HOBBIT dirigidas por Peter Jackson com base na literatura fantástica de J R R Tolkien. A grandiosidade da tarefa de Howard é notável, empenhando uma orquestra com uma quantidade absurda de músicos e instrumentos. Como resultado, faturou 3 Oscars, inclusive melhor canção para INTO THE WEST (parceria com Annie Lennox).

    40)  FAÇA A COISA CERTA (Spike Lee), 1989

    Spike Lee é conhecido por explorar, em filmes engajados, temáticas raciais. DO THE RIGHT THING foi seu maior êxito. O filme trata da escalada de violência gerada pela instalação no bairro predominantemente negro do Brooklin, NY, de uma pizzaria por um italiano branco e seus filhos. A trilha que serve como fundo a esse quadro de conflitos traz diversos ritmos da música black: hip hop (Public Enemy), jazz (Al Jarreau), swing (Teddy Riley), reggae (Steel Pulse), gospel (Take 6) e até salsa (Ruben Blades).

  • A atemporalidade da dor

    Naquela manhã de sábado, um senhor de setenta e poucos anos acordou decidido a acabar com o tormento vivido nas últimas cinco décadas. Aquela vergonha entranhada nos poros, aquela humilhação cravada na mente, aquelas risadas de escárnio ecoando na lembrança, que não lhe davam um segundo de paz, chegariam ao fim. 

    Carl levantou cedo, se arrumou, tomou seu café e foi até o endereço do seu desafeto. Tocou a campainha. Quando a porta abriu, diante dele estava um homem velho, cabeça branca e lentidão nos gestos.

    Os olhares se encontraram, mas tanto tempo havia passado que os rostos não eram mais familiares um para o outro.

    — Norman, é você? 

    — Sim.

    Sem pestanejar, Carl disparou dois tiros. Norman caiu morto sem ter tido tempo de reconhecer seu agressor ou desconfiar da motivação do crime. 

    Carl se declarou culpado e foi condenado à prisão perpétua. Em sua defesa, o assassino confesso alegou que durante mais de meio século sofreu intensamente com a lembrança daquele trote humilhante (ter sua cueca puxada para cima na frente dos outros colegas). 

    Depois de ler essa história, me peguei pensando na cruel atemporalidade da dor, na gosma tóxica e sufocante que é o ódio, seja ele destinado aos outros ou a nós mesmos. Quantas vezes somos nosso maior crítico, algoz? Quantas vezes Carl odiou Norman por ter lhe feito de otário? Quantas vezes ele se torturou por não ter conseguido evitar que fosse tolo? 

    Não tem jeito, o perdão é mais eficaz, enquanto remédio, para quem perdoa do que para quem é perdoado.

    O perdão, ao qual me refiro aqui, não é necessariamente a retomada do afeto, da amizade, da relação. Muitas vezes, é só o cessar da importância. O silenciar do desarranjo afetivo.

    Um deixar ir para poder seguir em frente, apostando na estrada que se forma quando se começa a caminhar com uma nova passada. 

    Perdoar, para mim, é olhar fixo para o horizonte, deixando as pegadas no seu lugar de destino, o passado, que fica atrás de mim, mas não tem o poder de me perseguir ou aprisionar.

  • Dia de Algodão-Doce

    Sobre o mistério de viver com os olhos encantados e o coração desperto.

    Se o homem, esse ser racional, se apegar apenas ao pensamento e desacreditar dos mistérios e belezas que há no mundo, estará morto, embora vivo.

    Sonhar, comover-se, sentir-se maravilhado com pequenos ou grandes mistérios, sorrir das delicadezas inesperadas, espantar-se, sentir gratidão ou culpa são manifestações que nos conectam uns aos outros e dão sentido à nossa vida.

    É aquele instante que, de repente, nos olhamos surpresos e sorrimos ao mesmo tempo.

    Vamos de histórias:

    Há quem conte os degraus antes de subir uma escada. Há quem só se sinta tranquilo se alinhar os talheres na mesa. Uns somam os números das casas; outros evitam pisar nas linhas do chão.

    São rituais pequenos, manias inofensivas. Dá a impressão de que a pessoa se organiza por dentro, como se o mundo só fizesse sentido a partir de certas repetições.

    Cada pessoa tem sua forma de lidar com o caos. Alguns o enfrentam com listas; outros, com orações.

    Eu, confesso, traduzo o mundo em comparações.

    Vejo bichos nas expressões humanas, metáforas nas situações, poesia nas coincidências.

    Hoje, por exemplo, vivi um dia de algodão-doce.

    Estava na missa. Era dia do meu aniversário.

    Ajoelhada, olhos baixos eu  agradecia a Deus por mais um ano de vida. Ao levantar a cabeça vi um menino que vinha sorrindo em minha direção.

    Pareceu-me vagamente familiar…

    Meu neto?

    Surpresa, olhei para o corredor por onde ele entrou e vi outro neto… e mais outro… depois o pai, a mãe, minhas filhas e seus filhos, nora, genros.

    Levantei do banco da igreja e percebi: estava cercada!

    Filhos, filhas, netos! Todos ali reunidos, como que guiados por um mesmo chamado silencioso.

    Uma onda de amor me envolveu.

    A riqueza da vida interior proporciona experiências lindas até na simplicidade.

    Dia de algodão-doce, com certeza! 

  • Fábula do Afeto e do Amor

    Um dia Afeto chamou Amor para conversar. O olhar de Afeto era afetuoso, assim como o tom de suas palavras. Mas aos ouvidos de Amor dessa vez elas soaram estranhas, porque inéditas. Nunca ouvira da boca de Afeto nada tão neutro. Não havia agressividade, verdade seja dita, mas faltava algo. Calor.

    As palavras escolhidas por Afeto eram muito distantes das que Amor se acostumara a escutar em sua convivência. O que Afeto disse, a sugestão de conversarem, desceu pelos ouvidos de Amor causando calafrios. Isso, as palavras eram frias.

    Amor se arrepiou e custou a acreditar que estava mesmo diante de Afeto e não de Rancor ou Mágoa. Afeto queria conversar mas o convite vinha desprovido de afeto. Era algo quase formal, como se cumprisse uma obrigação desagradável.

    Amor engoliu em seco, sorriu sem graça para disfarçar o incômodo e disse que sim, claro, vamos conversar. Os dois se encontraram e aconteceu o inesperado: da boca de Afeto nenhuma palavra saiu. Amor espiava curioso sem entender o que estava acontecendo. E Afeto ficava ali sem jeito, sorrindo tímido como se esperasse que Amor tomasse a iniciativa.

    O silêncio entre os dois perdurou o tempo de ficar constrangedor além da conta e a ansiedade de Amor transbordar. Se controlando e usando voz suave e tom baixo, com receio de desagradar, Amor perguntou porque Afeto não falava nada. Ao que Afeto retrucou sem graça que a iniciativa de falar sempre fora de Amor e que Afeto sempre respondia ou reagia às palavras de amor do Amor. Você sempre falou tão bem, tem um domínio tão lindo das palavras, sorriu Afeto, utilizando um encantamento corriqueiro entre eles. Um charminho quase dengoso que era o início de conversas sinuosamente agradáveis e íntimas. Mas que dessa vez não surtiu efeito. A química entre os dois fora afetada.

    Amor lembrou a Afeto que quem havia sugerido a conversa tinha sido ele, Afeto, e por isso ele, Amor, entendia que a iniciativa não cabia a si. Sorrindo sem jeito Afeto concordou porém nada disse.

    Enquanto permanecia silenciosamente diante de Afeto, Amor percebeu que estavam sentados curiosamente próximos mas ao mesmo tempo distantes. Em outras eras quando Amor encontrava Afeto sempre se aproximavam mais, chegando ao ápice de se misturarem a tal ponto que ficava difícil saber onde terminava o Afeto e começava o Amor. Difícil e desnecessário, dizia nessas ocasiões Amor, derramando todo seu repertório amoroso para deleite de Afeto.

    Mas agora, tudo mudara. Afeto percebeu que Amor notou a distância que surgira entre eles. De sua parte, seguia em seu mutismo constrangido. Como se não soubesse o que fazer. Afeto e Amor pela primeira vez desde que se conheciam não conseguiram falar nada um para o outro.

    Amor se mexia em seu assento, inquieto. Não tinha costume de ficar longe de Afeto e a cada momento notava alarmado que eles se distanciavam cada vez mais. O olhar de Amor era agonia e ansiedade. O de Afeto, tristeza.

    Para piorar, Amor estava com receio de falar. Sempre foram sinceros e transparentes um com o outro. Mas ali, naquele momento, não mais. Algo se quebrara e Amor não sabia o quê, nem como, nem porquê. Decidiu perguntar a Afeto. Amor escolhia as palavras, selecionava o tom de voz mais tranquilo para se expressar mas nada saía ainda de sua boca. Na hora de dizer algo, calou-se indeciso e triste sob o olhar enigmático de Afeto. O mutismo constrangedor era contagiante.

    Por quanto tempo eles ficaram assim, nesse impasse, ninguém sabe dizer. Se fosse perguntado, Afeto diria que foi um pouco, talvez mais. Amor diria que durou uma eternidade ou um pouco menos.

    Há várias verdades no mundo e uma delas é que ninguém mora na casa da Tristeza para sempre. Ela tem um bom número de hóspedes ocasionais mas nenhum morador fixo. Amor foi um deles. Mudou-se para lá logo após esse encontro silencioso. Se Afeto também tomou essa decisão, Amor não saberia dizer. A morada da Tristeza era enorme e dava para ter muitos hóspedes ao mesmo tempo sem que eles se cruzassem por seus frios e silenciosos corredores. Amor ficou lá até o dia em que abriu a janela do seu quarto e viu o Sol com outros olhos.

    Chegou até a janela do seu quarto para se aquecer e sentiu o vento matinal que parecia convida-lo a fazer algo, tomar uma atitude. Por fim, Amor ouviu as ondas do mar ao longe e disse para si: hora de ir embora.

    Arrumou sua bagagem, pequena em comparação com a que tinha trazido, e botou o pé na estrada. Se sentia um pouco melhor, não por completo, mas o suficiente para caminhar. Saiu devagar pela porta da morada da Tristeza enquanto cantarolava bem baixinho os versos de Travessia, de Milton Nascimento.

    Diante de si surgiram vários caminhos. Alguns ainda com suas pegadas e outros com marcas difíceis de identificar. Amor suspirou profundamente e seguiu em frente por um deles. A brisa que soprava era agradável e por quase todo o trajeto ele sorriu leve. Eventualmente a cada nuvem que encobria um pouco o Sol lembrava do que ocorrera entre ele e Afeto. Primeiro forte, depois mais branda a lembrança foi diminuindo até sobrar um eco triste e carregado de decepção. Nada além. No fim do caminho ele encontrou a praia de areia branca indicando ao Amor que havia chegado ao local de descanso e paz.

    O tempo passou, não se sabe quanto. O Amor seguia leve de frente para o mar. Um dia qualquer, com Sol quente mas não muito, mar calmo e água convidativamente fria, estava o Amor conversando alegremente com Compreensão, Razão e Felicidade. Ao se virar distraído, para sua surpresa viu, a meia distância de onde estava, Afeto. Calou-se estático e sentiu um aperto no coração.

    Afeto sorriu tímido. Compreensão, Razão e Felicidade olhavam perplexas de um para outro. O silêncio e a imobilidade dos dois era angustiante. Ali diante de Afeto, Amor repassou toda a existência em comum deles dois. Toda a lembrança do que haviam passado veio forte novamente. Os bons momentos, que não foram poucos e muito quentes, e o final triste e gélido.

    Então, Amor se virou devagar e tomou outro rumo. Sem acenar ou olhar para trás. Felicidade ficou com lágrimas nos olhos, Compreensão suspirou e Razão nem se mexeu, lançando somente seu olhar neutro. Afeto ficou perplexo com a atitude de Amor. Sentiu um aperto na garganta enquanto ele se distanciava devagar e sozinho.

    Dizem que à noite, cada um em seu bangalô à beira mar, os dois choraram baixinho.

  • Viver com medo, é ser escravo!

    O precursor da carta dos direitos humanos, foi o Cilindro de Ciro que é uma peça rara cunhada em forma de barril e argila cozida, descoberto nas ruínas de Babilônia na Mesopotâmia em 1879.

    Ele foi criado em vários estágios, mede 22,5 centímetros por 10 cm no seu diâmetro máximo. Data do século VI a.C. (539 a.C.), e o texto talhado sua estrutura elogia Ciro, o Grande, e lista sua genealogia como um rei de uma linhagem de Reis. Nele foi declarada a liberdade de religião e a abolição da escravatura, apesar de que alguns estudiosos e o Museu Britânico, rejeitem essa interpretação de protagonismo sobre as normas que reconhecem a dignidade humana.

    Porém, seu brilhantismo salta os olhos e mantém informações importantes sobre a liberdade dos homens, já pensada naquela época mais primitiva de nossos povos.

    A ideia de estabelecer “direitos humanos”, tem origem no conceito filosófico de direitos naturais, que seriam atribuídos por Deus porque são as normas que reconhecem e protegem a dignidade de todos. 

    Os direitos humanos regem o modo como os seres individualmente vivem em sociedade e entre si, bem como sua relação com o Estado e as obrigações em relação a eles.

    A “Declaração Universal dos Direitos Humanos” é um dos documentos básicos das Nações Unidas, e nela são enumerados os direitos que todos possuem, de ir e vir livres em sociedade com dignidade, com espírito de fraternidade.

    Esse curto espaço de tempo, nossa vida, que é o intermédio entre o tempo e a eternidade, nos foi concedido para usufruir com fraternidade e pulsão pela paz, por isso, devemos lembrar que ninguém deverá ser mantido em escravidão ou servidão; e que devem ser proibidos em todas as suas formas.

    O escritor e filósofo germânico, Georg Wilhelm Friedrich Hegel, nos deixou uma frase cunhada em um de seus livros dourados: “viver com medo é ser escravo”, é por isso que o escravo não se rebela, e acaba por não perceber que sua vida já é puro sofrimento. 

    Diante de rebelar-se e morrer, ou submeter-se e sofrer, o escravo encontra uma nova forma de liberdade, desenvolvendo melhor consciência pessoal.

    Valorizando a equidade e não a igualdade, encontramos menos dor e sofrimento, mais realizações e benesses aos que teimam em respirar em nosso planeta azul. 

    Frutos do amor, não poderíamos deixar de nos submeter ao amor sem ressentimentos, mas sim do resultado de mãos estendidas, que poderiam ser as suas.

  • Era uma vez Dona Namoradeira

    Dona Maria era uma mulher metódica. Todos os dias cumpria seu ritual sem faltar. Acordava pelas manhãs logo que o dia raiava, preparava um café bem preto, forte e aguardava por Zequinha, o menino que vinha trazer seu pão, sempre quentinho e fresquinho. Quando chegava, ela despejava o líquido, ainda quente, em sua xicara e ia bater ponto em sua janela. Maria jamais atrasava nesse compromisso matinal.

    Gostava sempre de chegar em seu “serviço” bem cedo, pois o tempo perdido poderia ser o causo não presenciado.

    Geralmente, logo pela manhã era difícil que algo acontecesse. Todo mundo da vila passava em disparada para que não atrasasse no seu dever sagrado diário. Cada pessoa que passava pela janela daquela casa falava “Bom dia Dona Namoradeira” e ela retrucava “Meu nome é Maria, fio(a) de satanás”. A verdade é que todos sabiam que já havia adotado aquele apelido carinhoso, mas ela fazia questão de demonstrar que não gostava nada daquilo.

    Certa vez, um garoto que costumava passar o dia brincando naquela rua e era bem do atrevido decidiu lhe perguntar de onde vinha aquele apelido. Brava, ela respondeu:

    — Foi um sujeitinho saidinho que andava por essas bandas faz muito tempo e era doidinho pra se engraçar pro meu lado. Como eu nunca dei bola, ele tentou criar essa história de namoradeira, vê se pode meu fio?

    Nada que acontecia por naquela vila passava despercebido aos olhos da senhorinha. Por esse motivo, o povo da vila criou o hábito de logo de noitinha, um pouco depois da noite tomar conta da cidade, se reunir na casa de Maria. Nessa hora, ela se dedicava a contar os causos do dia. As histórias eram diversas, como no dia em que o marido da vizinha voltou mais cedo pra casa e encontrou sua mulher na cama com o carteiro. Ela contou, a quem estava naquela sala a seguinte história:

    — Meus fios, hoje aconteceu por aqui a tragédia que estava se anunciando faz é tempo. Todo dia eu percebia que o carteiro trazia uma carta pra Celinha e ficava lá dentro da casa dela de proza. O ritual era sagrado. Até que hoje, o Gumercindo, coitado desse homi trabalhado que só ele, decidiu voltar pra casa mais cedo, Trouxe até flores! Só que quando chegou viu a danada da Celinha no rala e rola com o carteiro. Que confusão meus fios. Vuou foi roupa e mala pra todo lado. Tadinho do seu Gumercindo, tão trabalhadô.

    Geralmente, ela procurava contar as histórias e acontecimentos do dia, mas nem sempre seu radar conseguia apurar notícias fresquinhas. Nesse caso, era comum que ela contasse histórias do passado, de uma época em que nenhum dos que se faziam presentes naquela sala viveu. Foi assim que descobriram que certa vez morou naquela vila um homem bem estranho que, como muitos falavam na época, todo dia de lua cheia saia de sua casa uivando atordoado igual a um animal descontrolado.

    Certo dia, o povo daquela vila passou pela janela da namoradeira e viu que ela não estava cumprindo seu dever diário. Todo mundo estranhou, mas, na correria do dia, ninguém teve tempo de ir perguntar a senhora o que havia acontecido.

    De noite, ao perceberem que ela não apareceu em sua janela durante nem uma hora daquele dia, os moradores decidiram bater em sua casa. Batidas sem nenhuma resposta… Alfredo, o fortão da vila, decidiu arrombar a porta e, quando todos entraram, se depararam com Dona Maria totalmente em paz em sua cama dormindo um sono eterno. Ao lado, na cabeceira, havia um bilhete que dizia “meus fios, o homem e a muié morrem, a carne vira comida pra bicho, mas as histórias nunca podem morrer. Eu estou indo, mas nunca deixem que morram as histórias que contei e as histórias que ainda acontecerão nesse lugar.”

  • O homem que não gostava de nada

    Tenho um amigo que não gosta de nada. Comprou um livro, mas não leu porque precisa descansar.
    Descansar do quê? Nem ele mesmo sabe.

    Certo dia, chamei para um cinema.
    — Nossa, cinema é tão chato.
    — Mas é filme do Almodóvar.
    — Pois é. Cor demais, e muita pouca vergonha.

    Veio o carnaval. Sugeri uns bloquinhos.
    — Eu não. Aquele monte de gente.
    — Uai, mas você não gosta de gente?
    — Gosto, mas vou preferir ir pra roça, descansar.
    — Descansar do quê?
    — Ah, sei não. Descansar só.

    Aí veio uma banda de rock, num pub legal, um lugar escondido em BH.
    — E aí, topa?
    — Vai, e depois me conta.
    — Mas você adorava rock.
    — Ah, seria bom, mas roqueiro, em geral, grita muito. E fora o flanelinha, não é? Sempre de olho nas moedinhas da gente.

    Sugeri uma ida para a praia.
    — Mar? Não acho a menor graça.
    — Mas com este calor?
    — Ah, muito sol. Mar é perigoso. Outro dia, vi na televisão que três banhistas…

    Última tentativa.
    — E se a gente saísse pra comer?
    — Onde?
    — Naquele restaurante de sempre.
    — Vixe, estou de dieta.
    — Mas lá tem comida vegetariana.
    — Não é a mesma coisa.
    — Por que não?
    — Porque eu só como carne de hambúrguer e alface, e tem que ser do alface aqui perto de casa, que é mais saudável, nutritivo, e o hambúrguer no mesmo sacolão.

    Não gosta de samba, de sol, de chorinho, de mar, ou de lagoa. Desliguei o telefone, olhei para o garçom, e ele disse:
    — Mais um chopinho?
    — Pode trazer.

    O chope estava absurdamente gelado, e era só o que eu precisava.

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