Crônicas

  • O Bom Humor de Cada Dia

    Não sei quanto a vocês, mas acho que o bom humor anda em falta no mercado. Houve um tempo em que bastava virar pro sujeito no ponto de ônibus, reclamar da demora, e alguém já emendava uma piada. O dono da banca comentava o calor, o porteiro dizia qualquer bobagem, o manobrista ria de si mesmo, o flanelinha improvisava um comentário espirituoso, a moça da farmácia devolvia o troco com uma graça inesperada. A gente ria no meio do dia, sem perceber. De uns tempos pra cá, perdemos esse jeito tão brasileiro de ser, trocar o mau humor por uma boa risada virou exceção.

    Pensei nisso quando reli a oração de São Tomás More, inglês do século XVI, nascido em Londres em 1477, juiz conhecido pela honestidade, de quem o Papa Francisco tanto gostava. “Dai-me, Senhor, um pouco de sol, algum trabalho e um pouco de alegria”, pedia ele. Veio a pandemia, depois a morte do Papa, e alguma coisa se perdeu pelo caminho. As pessoas andam sérias demais, economizando o riso, como se ele fosse artigo de luxo, reservado às festas de família.

    Não sou lá muito religioso, mas desconfio que a alegria seja a coisa mais sagrada. Mesmo sem missa aos domingos, faço dela a minha. “Dai-me uma boa digestão e algo para digerir”, rezo no trânsito, parado, olhando o sinal fechar outra vez. Todo mundo deveria pedir o mesmo, criança, velho, adolescente, marido, mulher, jovem. O bom humor sempre foi traço do nosso povo, algo espontâneo, quase automático.

    Condenado por não aderir ao cisma religioso, São Tomás More escreveu essa oração na prisão. “Dai-me a graça de encontrar o bom sentido”, suplicava. Nós também vivemos cercados, cada um em sua pequena prisão particular, o trânsito, as contas, a solidão. Um sorriso ao porteiro, retribuído, ainda faz diferença, mesmo que a gente não saiba medir.

  • Solas

    Me apaixonei, ou pelo menos acho que me apaixonei; fui a uma festa e perdi a cabeça. Comprei um cavalo que não preciso de jeito nenhum. Regras. Não ofereça preço por algo que você não precisa. Ao chegar a um baile, convide alguém para dançar imediatamente e dance uma valsa ou uma polca com essa pessoa. Pense em maneiras de organizar meus assuntos esta noite. Fique em casa.

    25 de Janeiro de 1851

    Mormaço em Copacabana; brunch no Leme e um copo suado me espera pelas entranhas do Flamengo. A luz é perfeita; Jobim canta ao pé do meu ouvido, sua respiração quase roça minha nuca, numa versão acústica em que o som se propaga, encontra os meus poros e traduz-se em arrepio. Meus olhos observam o entorno, meus sentimentos exalam bossa nova e transformam o banal nessa crônica (não sei se haverá fôlego para chegar ao final):

    Os sapatos, importam

    Desde sempre.
    As solas se aprimoraram ao longo dos tempos para que, integralmente, a pele do peito do pé não endureça. Engenharia, borracha, costura, cálculo. Os sapatos importam tanto ou mais que os relacionamentos, que acabam por endurecer os corações. Não protegemos nosso centro vital com a mesma engenharia obsessiva dedicada às solas.

    Me deparei, por acaso — dessas coincidências que fingem surpresa, ou não passam de meros algorítimos— com um diário de Tolstói. A data do registro é a mesma deste domingo. As palavras não envelhecem nem obedecem à finalidade de quem as trouxe ao mundo; apenas se deslocam. Cento e setenta e cinco anos depois, arrebentam como ondas inesperadas no asfalto carioca.

    “Fique em casa”. Reverbera enquanto entro no Uber, ar climatizado e motorista sisudo. À primeira vista.

    Comprar um cavalo.
    Fazer as malas.
    Esperar quem não volta.

    Tolstói faria disso um erro juvenil.
    Eu, com algum acúmulo de maturidade gasto na sola dos sapatos, chamo de insistir no que já deu sinais de fracasso. Meu uber me guia para caminhos com cheiro de casa. Avançava devagar. Chovia daquele jeito que não é chuva — é o teste de humor do carioca. Tudo ficou cinza. A expectativa do por do sol nubla.

    Anteontem choveu muito. Quando chove assim, a gente aumenta a atenção, ele disse. Um carro passou na minha frente, bem aqui perto. Era tudo água. Do nada, uma onda engoliu o carro. Pense no desespero.

    Fiquei em silêncio.
    Era exatamente o tipo de coisa que Vinícius diria, apoiando o cotovelo numa mesa da Glória, antes do segundo chope.

    A vida acontece nesses momentos, eu continuei. Do nada, um carro surge na contramão; um pedestre corre fugindo de um assalto; um motorista cauteloso tem a esposa a parir no banco de trás. A vida não é planejamento. A gente se ilude achando que tem controle sobre uma coisa qualquer. Nem sobre o mundo, nem sobre o que existe dentro da gente. Às vezes, nem sobre a própria pele. Do nada aparece uma gripe.

    Mas sempre podemos fazer uma tatuagem a nossa maneira, sorriu o astuto motorista. Desci.

    Jobim cantaria isso com um piano manso, como quem sabe que não há solução — só caminho. E o caminho, meus caros, só serve aos pés.

    Já escrevi diários prometendo preenchê-los até o fim. Hoje prefiro anotações em folhas avulsas, presas por argolas metálicas: a ilusão honesta de que posso reorganizar tudo depois. A arquitetura me ensinou que o processo de criação não é linear. O Chico parece ter aprendido isso cedo, quando desgarrou de arquiteto para artista. Eu ando experimentando o mesmo tipo de sapatos. A vida acabou me sinalizando que os pensamentos também não são lineares, tampouco unidimensionais. Sequer o tempo é regido por algo que seja levemente parecido.

    Logo pela manhã, ao despertar ao lado de Copacabana, em inércia horizontal, a pele é nua; os pés nem chegam a sentir o peso do lençol. Há preguiça, há coerência, há segurança. Levantar é sempre um risco. O encerado do piso chega antes à cabeça que ao toque dos pés. Por isso calçamos sapatos, sejam eles despojadas havaianas: para atravessar o dia enganando-nos de algum controle.

    Se Tolstói não trajasse sapatos, talvez o registro fosse outro. Protegendo as solas para chegar às festas, perdeu a cabeça — e quem sofreu, coitado, foi o peito. Qual não seria o estrago se os pés sentissem sem amortecer o impacto?

    Há paixões que são lindos girassóis. Há encontros que despertam uma das partes mais bonitas que temos dentro de nós, honestamente livres, que vivem apenas de chinelo nos pés. Não pesam nada, não prometem nada. Destravam a intensidade, a vontade de viver e excesso de medo que trazemos dentro. Tiram nossos sapatos e fazem a conexão instantânea dos pés à cabeça. Não protegem. E cumprem exatamente isso: vida. Há quem chame esses tipos carioca. Não é o gentílico, mas um tipo cultural de se existir. Podemos encontrar cariocas por todo o mundo. A liberdade alheia não é o problema; é a insistência de um turista em levar adiante idealizações alimentadas promessas regadas a pele bronzeada e sorrisos com sabor de água de coco. Amores que vivem melhor no papel do que no chão, porque no chão, a sola protege. Na espera, no entremeio, na possibilidade há segurança.

    Comprar um cavalo.
    Fazer as malas.
    Esperar quem não volta.

    O sentimento é o mesmo de se ver, da janela, o Corcovado e o Redentor. Que lindo.

    Existe esse conselho antigo — e suspeito — de que o poeta só é grande quando sofre. Sofrer e gastar muitas solas de sapato. Antônio acreditava nisso. Um exímio amante dos sapatos. Eu desconfio: a grandeza, quem sabe, não esteja no sofrimento, mas na travessia. Em se saber quando não comprar o
    cavalo. Em desfazer a mala. Em não confundir chuva com destino.

    Nossa casa querida, que não é o Rio de Janeiro, em si, nas as entranhas desprovidas de segurança do nosso corpo, é como amendoeiras à espera de jacarandás. Vida e sonho.

    Achegue-se, meu bem.
    O mundo é mal, mas leva — se levar — outra vez a um caminho que pede solas novas. Me abrace simplesmente, diz a árvore, sábia com seus troncos largos. Não fale. Não lembre.

    Porque eu sei — e você sabe — que a distância não existe.
    O que existe é o chão.

    E todo grande amor só parece grande quando é triste porque, no fundo, nos obriga a caminhar descalços por territórios para os quais não nos preparamos. O poeta sofre, dizem, porque anda demais. Talvez sofra porque insiste em proteger os pés quando o corpo inteiro pede impacto.

    Se é para doer, que doa sem amortecedor.
    Se é para seguir, que seja com as solas nas mãos.

    Há caminhos que não pedem sapatos, pedem presença.
    E o coração vai sentir — de um jeito ou de outro.

    Que ao menos sinta inteiro.

  • Chegar partindo

    Sempre é tarde quando se pede perdão. Tarde demais para apagar o que não devia ter sido feito, falado, sentido, e até pensado, mas que explodiu algumas vezes em uma súbita golfada, outras em uma enxurro daquilo que fermentava há tempos.

    E aí, a dor é sufocante, a vergonha chega a ser desoladora. Saber que o único caminho é pedir perdão consome as entranhas e cutuca insistente, como um alfinete esquecido na roupa.

    Na tentativa de minorar a culpa, a busca de alguma justificativa que abrande o remorso, acalme o coração.

    Mas eu não sabia que você sabia.
    Que a vida é tão boa.

    Não sabia, não queria, não, não…a negação brota e floresce com a proposta de um bálsamo para a dor do erro. Escusa que se repete como um mantra e ressoa, na esperança da complacência divina, humana, ou da própria consciência. Há perdão para quem não percebe a grandeza da vida?

    Se é tarde, me perdoa.
    Eu cheguei mentindo.
    Eu cheguei partindo.
    Eu cheguei à-toa.

    Ninguém chega à toa nessa vida. A chegada é uma porta que se abre para qualquer direção.

    Chegar partindo é chegar mentindo para si mesmo, como se nada houvesse entre o nascente e o poente. É como quebrar a bússola que orienta o caminho da existência, para que ela nãoMmostre os desencantos do amor ao Sul, os banhos de lágrimas ao Leste, mas também o quentura do amor ao sol do Leste. Somente o ponto Oeste da redentora despedida.

    Em cima da mesa, um bilhete dobrado. Maria sentou-se para ler, ainda atordoada pela partida de João. Chegou como quem chega do nada, nunca esteve totalmente presente na relação, e do nada se afastou. A que veio então? O bilhete assim dizia:

    Se é tarde, me perdoa.
    Trago desencantos.
    De amores tantos pela madrugada.
    Se é tarde me perdoa.
    Vinha só cansado.

    Tema de inspiração: Carlos Lyra / Ronaldo Bôscoli: Se é tarde, me perdoa

  • Quando deixamos de ser heróis

    É… Não sei em que ponto e não sei e talvez nunca saiba o momento exato em que deixamos de ser heróis para nos transformarmos em vilões!

    Não deveria ser assim, mas é…

    Quando crianças, olhamos nossos pais como nossos heróis, prontos para nos defender! Entretanto, com o passar do tempo e o embaçar ou desembaçar das horas, passamos a olhar de forma diferente. E olhamos, ou melhor, questionamos essa imagem!

    Mas… e quando nós somos olhados dessa forma?

    Deixamos o uniforme de herói para virarmos vilões. E revelamos, conscientemente ou não, nossas fragilidades e nossos erros…

    E, sim, ficam à mostra homens e mulheres com suas fraquezas, suas rabugices e suas limitações!

    E, sim, ficam à mostra homens e mulheres com seus genuínos defeitos, marcas, cicatrizes atemporais…

    E a vida segue!

    Afinal, o baile não para e não pode parar!

    Entre palavras não ditas e seus silêncios perturbadores, entre palavras que não deveriam ser ditas, mas foram à exaustão, entre reticências e pausas provocadas ou não, vamos nos construindo e nos desconstruindo, tudo ao mesmo tempo…

    E ser um herói durante muito tempo não impede que você se torne um vilão! É assim, num deslize, em uma contramão… Mas como disse, nunca sabemos esse momento exato…

    E desse jeito, viramos o vilão da história ou das histórias! E não, não é vitimização, mas a mais objetiva e sincera constatação!

    No meio disso tudo, vamos sobrevivendo e aprendendo, reaprendendo e ensinando, entre lágrimas e sorrisos, olhares e soluços… Seguimos!

    E talvez seja essa a grande essência da nossa caminhada, um aprender continuamente!

    Não somos perfeitos e nunca seremos.

    E justamente na nossa imperfeição, vamos escrevendo as nossas várias histórias.

    Histórias de conquistas, histórias de fracassos, histórias de amor, histórias de horror, simplesmente, histórias humanas…

  • Eu sou motoboy

    Você que me vê um pivete mau caráter, um delinquente montado numa moto assassina, presta atenção. Não fosse o motoboy aqui, o folgado aí não teria em domicílio o game das crianças, a ração do dogue ou o tênis da patroa comprado barato no aplicativo. Você me deve essa, mano.

    Então vê se te recolhe no teu mundinho mixuruca e para de praguejar do jeito que eu dirijo. Ou você acha que seguindo o guia de boas maneiras do Detran, eu faria a mágica de chegar no teu sofá hoje o bagulho que você pediu ontem no Shopee? Sou o zé-ninguém faz-tudo que dá conta do delivery do supermercado e da farmácia. O curinga que garante a marmita fresca do I-Food e a pizza quentinha no teu portão.

    Passo sim farol vermelho. E daí? Queimo as faixas, subo as calçadas, atropelo coroas ceguetas, entro na contramão. E não tem ‘otoridade’ que me enquadre, nem radar que anote minha placa coberta. Eu não importo pros caras.

    Mas nas ruas das cidades grandes só dá eu. Você pode cantar de galo no jardim da tua casa, no pátio do teu condomínio boiola. Mas dos muros pra fora, é do meu jeito que as coisas rolam. Fica na tua e bico calado.

    Os trouxas ficam cagando de medo dos pontos na carteira por queimar a faixa das avenidas. Já eu costuro, faço malabarismo, passo pela direita e ninguém é macho pra encarar ou caguetar o Zé-Mané aqui.  Então vê se tira esse carango fedorento da frente ou arranco fora teu espelho. E nem vem arrumar perrengue pro meu lado senão chamo os chapas e o prejuízo do retrovisor vai sair pior pra você, véi. Aceita que dói menos.

    Regrinhas de velocidade não vão me barrar de cumprir minha escala e faturar meu ganha-pão. Não tenho opção. Não tenho um puto no bolso. Não tenho carteira assinada. Não tenho férias. Não tenho plano de saúde. Não posso dar bobeira. Se um maluco passar de caminhão por cima, viro mais um presunto a entrar pras estatísticas de acidentes. Já era.

    Recebo por entrega e tem uns algoritmos atrozes que me fazem trabalhar como um camelo, sem tempo pra mijar ou bater umazinha pra aliviar. Fico sob estresse o dia todo, tiro do vale-miséria e dos trocados da caixinha os custos pra manter a máquina ativa. Nessa guerra desigual minha chance de sobrar inteiro é pequena. Mas se eu sair vivo dessa, um dia abrirei um trampo só meu, sem ninguém pra encher o saco. Pode crer.

    Sou produto do caos urbano e das tretas sociais sem saída. Venho das favelas, onde polícia não entra, juiz quer distância e político bambambã não apita. Lá manda quem pode mais. Uns traficam pó, outros se seguram com metranca. Minha arma pra me manter limpo e garantir o feijão do meu muquifo é minha fiel motoca.

    Trago para os bairros dos bacanas o som dos pancadões da perifa e libero os decibéis dos escapamentos envenenados para assombrar tuas noites de sono. É pra te lembrar que eu existo. E não tem GCM bunda mole que me faça aquietar.

    Por isso, bro’, arranca da minha frente e fica esperto. Eu sou motoboy e exijo respeito.

  • O Encontro

    O encontro durou dias, e mesmo assim teve gosto de quero mais…

    Não teve atrasos, cada um chegou no seu tempo…

    Tinha tema, mas não script. O comando era a vontade e a alegria em participar.

    O sorriso feliz de cada participante ao chegar ao local do encontro e mais ainda ao sair, dá a certeza de que as memórias dos dias felizes vividos vai ser um oásis guardado no fundo da alma e, durará para sempre, pois será contado entre pais, filhos, primos, parceiros e amigos desta e até os das próximas gerações!

    Tivemos:

    Sonhos, quimeras, desejos.

    Preguiças, perguntas, sabores.

    Alegrias, sonecas, caretas, sorrisos.

    Canecas, risadas, maletas, moquecas.

    Vontades, pinheiros, passagens, passeios.

    Saudades, verdades, bananas, pudins.

    Lasanhas, picanhas, pizzas, quindins.

    Estudos, esperanças, futuros, glórias.

    Sorrisos, banhos, vestidos e afins.

    Missas, orações, esteiras e gansos.

    Lambretas, corvetas, ovos e cuscuz

    Piadas, desafios, piscina, cafés.

    Brindes, conversas, sorvetes, mergulhos e sóis…

    Futebol, charadas, séries, piadas, engraçadas, repetidas, criadas…

    Namoros, promessas, chamegos — enfim.

    Ar, mar, brilhos, texturas, areia.

    Sabores, odores, valores.

    Graça, beleza, amor.

    Idosos, peixes, pessoas.

    Areia, azul, queijos, crustáceos.

    Jovens, pets, jogos e luzes.

    Macacos, gatos, guirlandas, enfeites.

    Imagens, saudades, lembranças, afetos.

    Amigos, irmãos, caminhos, jornadas.

    Plenitude.

    Bênçãos.

    Afeto.

    Amor.

  • Sabedoria de bar

    Três amigos se encontravam com frequência em um botequim no Bairro dos Prazeres. Depois de uns goles de cerveja, ganhava fôlego o debate sobre as idiossincrasiasda humanidade. A cada semana uma nova reflexão.

    — Ser humano é um bicho engraçado. Reclama da falta de sorte, de tempo, de oportunidade, mas quando surge uma chance de mudança se angustia, perde o sono com medo do risco, do desconhecido.

    — Sim, verdade. Mas o que eu acho mais bizarro é a síndrome do insatisfeito. A pessoa sofre por tanto desejar uma determinada coisa e quando consegue, em pouco tempo, a graça se vai. Sem falar que o que pertence aos outros é sempre muito mais interessante.

    ─ Para mim, o que considero mais intrigante é o maldito apego ao sofrimento. As experiências ruins, as relações traumáticas, as decepções geram marcas existenciais insuperáveis. Nenhuma felicidade, sorte, conquista ou vitória é capaz de restaurar o estado inicial de alegria ingênua. A marca da insegurança fica ali eternamente ecoando a necessidade de atenção ao perigo. Uma vez perdida a fé na vida, para sempre o martírio do medo de sofrer.

    — Concordo com você, em parte, porque tem gente que apresenta uma inclinação natural para as relações desastrosas. Nutrem uma atração mortal pelos ordinários. Não aprendem com a experiência.

    — Sim, mas defendo que mesmo nesses casos, onde há um certo prazer no drama, não podemos descartar a existência do apego ao sofrimento. Embora talvez se apresente disfarçado de uma esperança masoquista. 

    — Pois eu já penso que o maior infortúnio da condição humana é essa necessidade de ser genial. Quanto mais necessitamos dos louros do reconhecimento, mais nos distanciamos de nós mesmos. Fica latente aquele medo de não corresponder às expectativas do outro, de não ser o melhor, o majestoso. Dou crédito às palavras do Freud: “Nós ser muito melhores se não quiséssemos ser tão bons”. 

    ─ Setúbal, aproveite que você está servindo a nossa cerveja e nos brinde com um pensamento sobre a vida.

    ─ O amor é tudo menos ausência. Fiado só amanhã.

  • Para entender aquarela – ou não

    É assim, quando você pinta aquarela você se põe diante de uma situação que beira a ficção. No momento em que você coloca as tintas sobre o papel tem início uma relação estranha, quase surreal, entre artista e cores.

    Veja bem, você sabe o que você quer pintar mas depende da colaboração da tinta.

    Você não comanda as cores, elas são surdas aos seus apelos desesperados quando se espalham à vontade e aleatoriamente pelo papel.

    Se a superfície estiver seca, elas vão reagir de uma forma. Se o papel estiver úmido, a estória é outra e, claro, vai sempre depender do grau de umidade da superfície. E, por falar nela, a umidade, há outra muito importante, a do ar, que interfere decisivamente na consistência das tintas à medida que deixam os tubos onde jaziam no escuro, compactas e imóveis. Pintar aquarela no deserto do Thar não deve ser a mesma coisa que pintar em Belém do Pará, pode estar certo.

    Assim, quando o artista aperta o tubo tem início uma reação que dificilmente ele terá controle completo. Não há diálogo possível com substâncias que se movem ao seu bel prazer. As tintas são manhosas, caprichosas, donas de suas efêmeras vidas. Se espalham da forma que querem e na direção que decidem, independente da vontade da pintora ou do pintor. Ao artista cabe somente tentar corrigir o curso que as cores tomam à sua frente.

    Alguns conseguem, outros não. Na fúria de não ver seu talento expresso pelas tintas, muitos rasgam o papel e o atiram a lixeira, encerrando o que as tintas decidiram fazer, se obra de arte ou esboço colorido. Como saber? Não há, e por vezes é um teste supremo de paciência. Mas uma coisa eu tenho certeza é que as melhores aquarelistas do mundo, como a Gemma Capdevila ou a Anna Mason, com certeza sabem conversar com as cores. Elas, assim como os demais expoentes dessa bela arte, seguramente falam a língua das cores, elas falam tintês.

    E, você, minha amiga, já aprendeu esse idioma misterioso?

    Ainda não, mas me disseram que tem um aplicativo de tradução universal que é uma coisa!

    Tá bom, vou querer mais desse seu chá, por favor.

  • A verdade pela mentira!

    A composição de um mosaico de histórias, pode ser aprendido nas páginas de um livro bem narrado, que nos transporta ao momento da escrita do autor.

    Se o livro for mal-ajambrado, e não nos levar ao fundo dos sentimentos do personagem, fica difícil ser atraente para um leitor mais crítico, que busca temáticas diferentes, sensíveis ao coração humano.

    A desconstrução de uma tradição, serve como alavanca para o desenho de uma nova narrativa, descrita pelos olhos e a percepção do escritor, envolvido na trama de uma obra de arte. 

    Sendo orgânica, não deve ter um fio desencapado onde o personagem está escorado em outro, como naquele momento em que Pedro ao falar de Paulo, transgride sua narrativa em forma de fofoca, e passamos a conhecer mais sobre Pedro do que sobre Paulo. 

    O Jornalista Italiano Tomaso Debenedetti costumava transgredir a verdade em seus textos, e como descrito acima, debochava do leitor. Trabalhou entre 1994 a 2010 para jornais locais em seu país de origem e criou uma conta falsa no Twitter onde anunciava a morte de personalidades, e com simplicidade estratégica utilizou aquele espaço, imitando um perfil confiável. 

    Lançava seu torpedo falso, para minutos depois anunciar que tudo não passava de uma pegadinha, coisa que repetiu por 10 anos, lucrando nessa toada.

     Uma delas deu errado, e ele assumiu sua jornada como “campeão da mentira”, como gosta de ser classificado. O mais incrível é que nunca foi processado por suas vítimas de seu ataque verborrágico jornalístico. O que o inspira é “dizer a verdade pela mentira” como definiu Mário Vargas Llosa. 

    Essas formas textuais ganharam nome atualizado de fake news, e ele escancarou as fraquezas do jornalismo com suas publicações reais e falsas, na primeira página de portais de notícias importantes. 

    Quando suportamos as confidências de um desconhecido, a revelação de seus segredos nos enche de assombros. Depois disso, devemos situar seus tormentos no drama ou na farsa? 

    Depende de nossa benevolência ou de nossa fadiga. O fraco de atenção sempre sofre mais que os outros, porque os olhos que o cuidam são cegos. 

    Igual a uma terra que não cuida de seus mortos, e que provavelmente está sendo governada pela morte. 

    Não deixe se esconder de você mesmo tão profundamente, pode ser difícil retornar ao mundo dos vivos e de suas rotinas.

     Seu destino com dedos cruzados é de responsabilidade unicamente de suas mãos, as mesmas que desenharam em canetas, poesias de sua história. 

    Os mortos não podem modificar suas esquinas, esses já encerraram as possíveis paixões. 

    Quanto a você, faça valer seus dias de glória junto aos seus, assumindo decisões escolhidas a dedo. Cada letra tem sua palavra pra juntar, e essa, suas famílias, que podem mudar de ideia, eventualmente de uma só vez.

  • Rio abaixo…

    Reconectar, rever, retomar a amizade – foi o mantra de Clô ao receber o convite para a festa dos 40 anos de formatura. Quarenta! Ela leu a lista de colegas com um sorriso nostálgico no rosto e um pensamento ligeiramente suspeito:

    “Que tempos maravilhosos… mais ríamos do que estudávamos, e ainda assim conseguimos o diploma! Milagre puro. Laís, Marina e eu éramos uma trinca imbatível!” Sabiam tudo da vida uma da outra – inclusive os detalhes mais cabeludos.

    Só que a vida, essa bagunceira, foi jogando cada uma para um lado. “Como estarão agora? Bonitinhas, como éramos? Ou detonadas pelo tempo, como todo mundo?”

    Aí veio o pânico, aquele clássico pânico feminino com data marcada.

    Dois meses até o evento. Tempo suficiente para virar uma versão 2025 de si mesma – sem filtro, sem Photoshop, ao vivo e em HD.

    Missão Clotilde em modo turbo:
    - Reforçou a academia (alô, personal trainer);
    - Clareamento nos dentes (tchau, café e vinho);
    - Mechas loiras (tom “iluminada e despreocupada”);
    - Botox e uma esticadinha nas pálpebras (cirurgia rápida, que ninguém precisa saber);
    x Harmonização facial? Quase. Mas faltou coragem. Ainda bem.

    Chegou ao evento com a autoestima no volume máximo. O espaço era charmoso, mesas e sofás espalhados, vibe “sunset de senhora elegante”.

    E lá estavam elas: Marina e Laís. Reconhecíveis, porém… um pouco vencidas pelo prazo de validade.

    “Gastei horrores pra nada. Estão caidinhas. Ufa!”

    Mas Clô era educada. E disfarçava bem.

    Abraços, beijinhos, aquela conversa-padrão de reencontro:
    “Casou?”
    “Tem filhos?”
    “Trabalha ainda?”
    “Mora onde?”
    “E seus pais, vivos?”

    Checklist da vida em andamento.

    Logo vieram umas lembranças – aquelas piadas internas que antes causavam ataques de riso e agora só rendiam sorrisos educados.

    A festa seguia animada: bebida boa, DJ animado, comida de primeira… tudo propício ao tal reencontro inesquecível.

    Menos… na mesa de Clô.

    Ali, o silêncio começou a pesar como prataria herdada.

    Ela olhou para as “meninas” e viu… duas estranhas. Nada da antiga conexão, nenhuma faísca do trio explosivo que um dia foram.

    Sem rodeios, soltou: — Gente… que tal dar uma voltinha por aí?

    Levantou-se, ajeitou o vestido, ergueu o queixo renovado pelo botox e, ao dar o primeiro passo, lembrou de uma frase que leu num cartão postal ou num biscoito da sorte, sei lá: “O rio nunca passa duas vezes no mesmo lugar.”

    E, naquele momento, ela achou a metáfora perfeita.

    Para as amigas, para a noite, para a vida.

  • Sem frases motivacionais daqui pra frente

    Não sei se vocês já repararam, mas, depois dos 40, o mundo parece decretar: “Pronto, acabou o estoque de incentivos”. Aos 20, todo mundo te empurra pra frente — “Estuda! Viaja! Conquista o mundo!”. Aos 30, ainda rola um “Vai lá, compra a casa, casa, tenha filhos”. Mas aos 40? Silêncio radioativo. 

    É como se a sociedade tivesse investido tudo em você e agora só contasse os prejuízos. “Já casou, já doutorou, pós-doutorou, comprou o carro, a casa na praia, aprendeu três idiomas. E agora? Desiste, vai”. Ninguém mais te motiva a recomeçar. Ninguém diz: “Ei, e aquele sonho engavetado? Corre atrás!”. Aos 40, você vira um capítulo fechado no livro alheio. 

    Só muito tempo depois eu parei e pensei: espera aí, onde foram parar aquelas frases motivacionais que eu ouvia tanto aos 20? “Cara, você consegue! Não desiste, não! Você ainda tem muito tempo pela frente. Tem muitos amores pra você viver ainda. Aprende um quarto idioma, por que não? Você consegue, você é novo, inteligente! Para de sofrer por este ingrato, é essa ingrata. Vai viajar o mundo!”.

    Mas o que muda — e o que torna essa fase fascinante — é que você só conta com você mesmo. Precisa encontrar seus próprios motivos pra levantar da cama de manhã. Precisa ser um pouco maluco, porque a felicidade depois dos 40 é uma espécie de maluquice. Se encontrar simplesmente aquilo que te faz feliz e correr atrás. Nessa idade, se for esperar alguém empurrando, a gente nem sai da cama. Aquelas frases bonitinhas — “Você consegue, você chega lá” — param quando você faz 30.

    Eu olho pros lados e vejo amigos fingindo contentamento, mas no fundo é um vazio quieto. Onde foram parar aqueles “você consegue”? Talvez a gente precise se incentivar sozinho agora. Ou quem sabe inventar nossos próprios troféus — um idioma novo aos 45, uma viagem maluca aos 50. Porque parar de ser incentivado não significa parar de voar.

  • SUB VIDA

    A sobrinha perguntou para o tio no churrasco da família: ‘Quando você percebeu que estava fodido e não tinha mais volta?’

    O tio respondeu: ‘Desde cedo, nos anos 70, no primeiro dia na escola, aos quatro anos. Eu apenas não sabia expressar em palavras o que sentia, mas sabia que a jornada seria terrível desde aquele momento.’

    Sobrinha: ‘Qual era o sentimento?’

    Tio: ‘Era o sentimento de que a vida, da forma como era vivida pelas pessoas que eu conhecia, e pelo que via na televisão, não fazia sentido.’

    Sobrinha: ‘Por quê?’

    Tio: ‘Porque somos escravos e a maioria das pessoas é cega em relação a isso, e por medo e para defender uma falsa segurança, defendem a própria condição de escravos a qualquer custo.’
    Sobrinha: ‘Você já pensou em se suicidar?’

    Tio: ‘Sempre pensei que fosse melhor ir até o fim, só pra ver o que acontecia, porque de qualquer forma todo mundo morre no fim.’

    Sobrinha: ‘Eu penso a mesma coisa, só que na juventude já convivo com pandemia e guerra, e na sua juventude não havia nada disso.’

    Tio: ‘Mas você já nasceu com a internet, ela serve como escapismo. Na minha juventude a bizarrice era tanta que você pode imaginar apenas remotamente. Não havia nem mesmo o sentimento pela falta de algo que não existia, como a internet. Na minha juventude havia o medo da AIDS, o racismo era considerado normal, a guerra era em casa mesmo, pra decidir quem escolhia o canal de televisão a ser assistido. Na escola havia bullying, que nem tinha esse nome e era considerado normal, e as crianças eram deixadas ali para se matarem. Esses atos eram praticados sem que os autores sequer temessem o repúdio. Na minha juventude brasileira houve a ditadura, e depois o que se convencionou chamar de fim da ditadura, o que é uma falácia tão cretina quanto todas as mentiras que ouvimos de políticos até hoje. Mas hoje vocês tem a internet e ficam cada um na sua bolha, o que é terrível, mas antes não havia nem mesmo essa possibilidade. Na minha infância e juventude, os mais velhos ora diziam que a juventude deles era melhor, ora diziam que era pior. Isso variava de acordo com os interessem momentâneos dessas pessoas, que na maioria morreram. Os que sobraram estão aí pra você tirar suas próprias conclusões’.

    Sobrinha: ‘Por que você não tem filhos?’

    Tio: ‘Porque tenho uma mágoa enorme por ter nascido, e não faria o mesmo com outra pessoa. E também porque não tenho condições financeiras para isso. E sobretudo porque tenho essa convicção desde cedo, desde um tempo em que as pessoas mais velhas diziam que com o tempo, eu mudaria de idéia. E também porque seria questionado sobre coisas para as quais não tenho as respostas.’

    Sobrinha: ‘Mas eu gosto das respostas que você me dá!’

    Tio: ‘Mas é porque isso só nos encontramos de vez em quando.’

    Sobrinha: ‘Mas meu pai é obtuso e nem fala desses assuntos comigo!’

    Tio: ‘Não sei o que responder sobre isso. Ele deve achar que é errado falar sobre essas coisas.’
    Sobrinha: ‘Você tem fama de pegador. Por que nunca casou?’

    Tio: ‘As mulheres que mais me intrigavam eram as que me rejeitavam e desprezavam. Mas com a internet pude ver o que elas se tornaram, e se há algo pelo qual sou agradecido na vida, é o fato dessas pessoas terem me desprezado.’

    Sobrinha: ‘A sua namorada nem tinha nascido quando você fazia faculdade. Nunca vai casar com ela?’

    Tio: ‘A única razão pela qual ela me suporta é o fato de que ela pensa como eu em vários aspectos. Cada um na sua casa é melhor para nós.’

    Sobrinha: ‘Ela é rica, bonita e jovem. Por que você reclama tanto?’

    Tio: ‘Antes de conhece-la, eu já tinha décadas de uma bagagem que até hoje não sei ao certo como usar. Quando ela nasceu, eu era bem mais revoltado. Hoje em dia eu continuo odiando certas coisas, mas sei que nunca vou poder mudá-las. Continuarão existindo políticos, as pessoas continuarão saindo de casa em dia de eleição, e não apenas votarão nesses políticos, como farão propaganda não remunerada pra eles. Esse foi o primeiro exemplo que me ocorreu sobre coisas que continuo desprezando, mas que provavelmente não vão mudar enquanto houver humanidade.’

    Sobrinha: ‘Quais são as cinco melhores bandas de rock?’

    Tio: ‘Se você me perguntar a mesma coisa amanhã, ou se tivesse perguntado ontem, a resposta talvez fosse diferente. ‘

    Sobrinha: ‘Essa é a parte legal disso. Responda sem pensar muito!’

    Tio: ‘Kinks, Husker Dü, X Ray Spex, Jesus and Mary Chain e Big Star. Menções honrosas para Teenage Fanclub e Replecements.

    Então olharam ao redor. Um outro tio estava bêbado e escolhia só músicas ruins.

    Eles nem pediam mais para escolher as músicas.

     Só havia vergonha e constrangimento.

  • Looping quotidiano

    O calor voltara, sem dó, piedade ou qualquer advertência de brisas amistosas. Já desgastada do clima instável, como da própria prudência em largar o vício do sedentarismo, Cíntia tinha na ponta da língua todas as séries numéricas que a identificavam:

    — Data de nascimento?
    — CPF…?
    — CEP..?
    — Telefone, com DDD:
    — Sabe seu peso?

    Inacreditável como um arsenal de números insiste em sintetizar quem somos. Sorriu, mentindo sobre o real valor de sua altura. Registro facial bem-sucedido, criptografado no sistema sob a forma de incontáveis outros dígitos. Catraca liberada. Mais um número: 853, surgiu no visor digital ao atravessar os braços esterilizados e refrigerados.

    Vamos lá.
    Um passo.
    Outro.
    Mais um (já são 3!)

    Pessoas em quantidades consideráveis. Nenhum conhecido. Alguns olhares. A maioria perdida entre movimentos ensaiados e ritmos particulares que cada um compartilha consigo mesmo, sem fios, nos minimalistas fones de ouvido.

    Detestava, mais do que qualquer outra coisa, o ambiente colorido, suarento e repleto de reflexos, equipamentos e câmeras das academias.

    Essa é diferente, você vai ver!

    Até agora, nada novo: a manifesta vontade de sair correndo por onde a haviam taxado 853, naquela manhã de janeiro de 2026. R$ 99,90 por 3 meses… Compreendia que não duraria tempo suficiente para descobrir o valor legítimo da mensalidade.

    Aproximou-se de uma parede repleta de portinhas. Escolheu a 23. Escrutinou o ambiente na surdina ao deixar seus pertences ali. Não tinha cadeado — anotou mentalmente a necessidade de trazer um na segunda aparição, que faria, se fizesse. Alguns passos para a esquerda. Bebedouro à direita. Um QR code com a programação das aulas.

    Retorna ao armário. Zíper da bolsa laranja. Tateia até sentir o celular. Alguém a esbarra.

    O que as pessoas veem em ambientes assim?

    Encosta a portinhola. Volta ao QR code. Analisa as possibilidades que a deixariam
    distantes da esteira com vista para a TV de 60‘.

    8h06, informa o canto superior direito do seu smartphone.
    8h10, aula de alongamento.
    É isso.

    Procura a sala. Porta 5. Lá dentro, lâmpadas tubulares coloridas no forro pintado de preto.

    8 mulheres. 2 homens.
    Sorri cabisbaixa querendo sumir. Escolhe um colchonete no fundo da sala.
    A professora sobe num pequeno palanque.
    Sucessão de gestos copiados, respirações contadas no “1,2,3”
    Suspensão de oxigênio.
    “6,5,4,3,2…”.
    E de novo.

    Estalo de ossos. Músculos doloridos, pouco a pouco descontraem-se.
    45 minutos depois, fim. Está de novo à deriva.

    Recorre ao QR code. Próxima aula… zumba… não.
    9h30, bike.

    Gastar 25 minutos conhecendo a academia?
    Fingir fazer algo importante no celular?
    Beber água.
    Fila no bebedouro. Trazer garrafinha.

    O próximo a hidratar-se, curvando o pescoço e exercitando o abdômen involuntariamente, é um ex-professor da faculdade. Sente-se desconfortável. Abre uma rede social qualquer e finge curtir tudo o que aparece — finge ou curte mesmo, culpa da aflição.

    Ele passa.
    Ela suspira.
    Um barulho ao longe. Ganha força. Volume.
    Balança a cabeça.
    Novamente o bip bip insistente.
    Rotaciona o pescoço. Direita. Esquerda.

    Fecha os olhos, tentando descobrir de onde vem tal balbúrdia incômoda. Inspira.
    “1,2,3”
    Abre os olhos.
    O teto mostra números luminosos.

    7:01.
    Levanta o dorso. Pisca. Não entende.
    Não passara de um sonho.
    Desliga o alarme com a mão esquerda e volta a dormir.
    Pelo menos não era real, essa história de academia…

    De novo o alarme.
    7:06.

    Levanta-se atordoada. Banheiro. Lava o rosto. Escova os dentes. Os cabelos são um amontoado de nada com nada.

    Cozinha: limão, água, pão e manteiga. Cafeteira: café.
    Banheiro, novamente. Topper. Camisa de manga curta. Calças legging. Meias. Protetor solar facial. Ensaia um sorriso. Penteia os cabelos. Rabo de cavalo. Bolsa laranja. Tênis. Fecha a porta.

    Elevador.andar. Pátio descoberto.
    O calor voltara, sem dó, piedade ou qualquer advertência de brisas amistosas. Já desgastada do clima instável, como da própria prudência em largar o vício do sedentarismo, dirige-se, por 1ª vez a uma porta envidraçada de bordas pretas. Entra. Recepção. Cíntia tinha na ponta da língua todas as séries numéricas que a identificavam.

    — Data de nascimento?
    — CPF…?


    Olha com uma sensação de estranha familiaridade para o seu reflexo, quadruplicado.
    Um espelho está de frente para um outro. Atrás de si, um visor acende. Barulho
    inquietante.
    Um número pisca.

    7:01

    O alarme — em algum tempo, no mesmo lugar — se prepara para tocar outra vez.

  • TOC-TOC: crônica das loucuras cotidianas

    Desconfio que, em vidas passadas, andei frequentando a Casa Verde do Simão Bacamarte. Não que eu me dedique profissionalmente ao estudo da loucura, mas traçar o perfil das manias alheias é um talento que cultivo com facilidade — e um tantinho de desfaçatez.

    Outro dia quase me levantei da mesa e despedi com uma desculpa qualquer quando um amigo passou álcool num copo de vinho antes de se servir. Mas o leitor há de convir que essa neura de contaminação acaba com qualquer romantismo de um encontro, não?

    E o que dizer daquelas pessoas que, em qualquer situação, soltam um sonoro “Louva Deus”? Um cacoete religioso? Ou uma saudação digna dos fanáticos de Handmaid’s Tale“Bendito seja o fruto”? Só mesmo rebatendo com um bem-humorado “Que o Senhor abra”.

    Repassando as loucuras que identifico nos outros, cheguei ao fascínio por simetria. Convidada para um almoço, a pessoa entra na minha casa e pede permissão para arrumar o quadro que está um pouco fora do alinhamento. Em seguida, comenta que a mesa de almoço não está centralizada com o lustre, e termina perguntando se eu não me importo dela alinhar os talheres. Dou aquele sorriso bem-educado, e digo “fique à vontade”, com vontade de trocar o “i” pelo “u”.

    Cheia de razão (assim eu achava), rotulei esses comportamentos como TOC — Transtorno Obsessivo-Compulsivo. Pobres criaturas, devem sofrer com isso… por que não buscam uma ajuda psicológica?

    Até que, outro dia, ao organizar as pastas no computador, percebi que estava renomeando aquelas que fugiam do padrão. Se começo usando maiúsculas no nome da pasta, todas precisam estar em maiúsculas. Inadmissível misturar!

    Epa… será que eu também tenho o meu TOC?

    Mas vejam bem: nem de longe isso me preocupa. Afinal, como já dizia Bacamarte, de médico e de louco todo mundo tem um pouco. Agora, com licença que vou ali renomear umas pastas fora do padrão.

  • Palavras nem tão bonitinhas assim

    Toca, por primeira vez em meus ouvidos, uma canção intrigante: I’m All I Got, de um grupo chamado Dead Brothers. O nome não passa incólume. Há algo ali que cheira a flores murchas, deixadas tempo demais num vaso a mercê de sabe-se-lá-o-quê. Palavras que já foram belas, mas agora exalam um odor agridoce, quase fétido. O conjunto de palavras ressoa, reprisa, ritmada insiste — e me tira por completo da leitura. A melodia dançante também, em contraste quase cruel. Passei a ter o hábito de usar fones de ouvido para ler quando o entorno me entristece — ou quando quero me sintonizar com o presente, totalmente. Sinto-me dentro de uma redoma, protegida. Se ‘todo homem é uma ilha’ – ed è vero –, cada um de nós cria seus próprios mecanismos para embarcar nessa solitude que somos nós mesmos, mesmo quando ela se parte, se afunda, some e sangra.

    Entre páginas de milhares de livros que me circundam, móveis com mais biografia que meus avós, objetos que simbolizam tantas memórias, minhas pernas se cruzam, esticadas, sobre a superfície gentil da escrivaninha. Respiro fundo. Concentro-me, tortuosa, entre letras recém-nascidas de músicas estrangeiras, páginas que exalam palavras traduzidas para meu idioma materno; minhas mãos carregam camadas de esmaltes que se complementam — resquícios de réveillon — escolhidos pelo tom de amarelo e por trazerem “artista” em seu nome de cor. Pequenas combinações concentradas em 8ml, garantia sem devolução de autoestima.

    Só escolho meus esmaltes pelos nomes. Assim como escolho minhas vestimentas pelo que meu coração me nomeia, diariamente. Orgulho-me por não ter um estilo único. Talvez porque estilos fixos também acabem cheirando a flores mortas quando insistimos demais neles. E lá se vão dias úteis neste ano com cheiro de caderno novo. E, ainda assim, tempestades e raios me lembram da promessa que me fiz de não cometer mais os mesmos poemas, nos mesmos versos e estrofes — como quem tenta não repetir feridas já infeccionadas. Pele cicatrizada é cura, não fecho-éclair. É tudo novo, me repito. É página em branco.

    Eis o ponto em que a pele deixa de ser sombra da morte, perde o espanto e se torna rotina.

    “Suportar” e “sobreviver”: dois verbos que carregam duras penas, tão necessárias a nossa existência. Duros e honestos verbos… Como ter uma vida longa sem tais ações? Impossível. O provável é acostumarmo-nos a elas. Torná-las menos pesadas aos sentidos. Abusar, para isso, do lado racional do qual fomos providos. Quem sabe aceitar que algumas palavras nem sempre se perfumam para nos encontrar; vêm fétidas e com mal hálito, para que percebamos o quanto ainda estamos vivos.

    Ao zanzar neste sábado, pela casa que é parte minha e, ao mesmo tempo, reflexo parcial de tantas existências, li um poema que decreta: a garganta fica entre a mente e o coração. Dei-me, assim, de encontrão com as minhas infecções de garganta, quando pequena. Lembrei-me de como sangravam. E de como aquela dor era infinitamente menor do que os sangramentos atuais da mente e do coração.

    “Adultez”, chamar-se-ia isso, fosse um potinho de esmalte. Padecem desse mal todos os abençoados com vidas longas — ou relativamente alargadas. Sentimos. Experimentamos. Falhamos. Nos envaidecemos. Choramos, seja por alegrias ou arrasamentos da alma. Estamos vivos. Existimos. E seguimos colecionando momentos e memórias neste labirinto que traz placas em línguas diversas (traduzirei para vocês):

    SUPORTAR
    ENTRANCE
    INGRESSO
    = ENTRADA

    _
    ———– | <<< >>> [ ] (x) ( )

    _

    SOBREVIVER
    EXIT
    USCITA

    = SAÍDA

  • Notas de Dezembro

    Minha filha se diz triste na noite de Natal. Informo-lhe que ninguém é alegre ou triste conforme o calendário. Explico-lhe que, por uma espécie de imposição da data, todos “devemos” nos sentir alegres nessa ocasião. Como nem sempre isso acontece, fatalmente confrontamos nosso estado com o que a regra determina – aí sim, acabamos ficando tristes de verdade. Ou seja: entristecemo-nos por não estarmos tão alegres quanto se exige que estejamos. É um típico fenômeno de época, alimentado por uma economia intrínseca ao calendário. E ninguém é alegre ou triste conforme a folhinha – repito-lhe na tentativa de tranquilizá-la.  

    Minha filha agora se diz mais triste por “não ter entendido nada”.

    * * *

    Aconteceu quando eu voltava do Recife, à tardinha, e já estava quase na estação rodoviária. Perto havia um bar, e no bar alguns homens. Um pouco ao lado, deitada entre os homens que bebiam, uma vaca. Ninguém lhe prestava a mínima atenção. Malhada, episcopal, a vaca reinava entre os homens que tentavam esquecer – erma de si mesma, ela já naturalmente esquecida. Talvez por isso ninguém a percebesse. Era apenas mais um espírito evadido, um ser sem angústia nem pressa no manso burburinho do bar.

    Eu me dei conta de que só ali aquela cena era possível. Somente num bar, e com tamanha naturalidade, uma vaca dividiria o espaço com o homem – os dois fazendo quase a mesma coisa. Tentasse o animal entrar numa igreja – por exemplo, na missa de domingo à tarde – e seria enxotado com horror. Esqueceriam o nascimento de Cristo entre cabras, porcos, jumentos, e rechaçariam essa vaca ao vivo. Pois no templo, conforme se vê nos presépios, ela só pode figurar como ícone, adorno, jamais com suas orelhas e seu rabo.

    A imagem desse quadro me ficou, confundida com a gravidade do crepúsculo. A vaca tão solene e tão pura, com o seu olhar desabrochado e líquido. Entre homens desocupados e sozinhos, que ali pastavam a vida.

    * * *

    Mais um ano se passa. Meu primeiro e natural impulso é dizer: e eu com isso? Queria ignorar a data, a convenção expressa na folhinha, e atravessar indiferente a passagem de um ano para o outro. Ignorar o tempo, como ele nos ignora. Acordar no novo ano sem ter me despedido do anterior, isto é, sem ter passado pela ingênua solenidade com que, vestidos de branco ou azul, nos postamos à beira de um túmulo invisível, vendo enterrar-se um cadáver feito de pequenas partes de mim, de ti, de nós.

    O ano velho é o rótulo sob o qual alinhamos nossos feitos – tantos deles, em verdade, malfeitos – a fim de proceder a uma espécie de contabilidade filosófica. Através dela buscamos provar que os bons momentos compensaram os maus, e que a vida, no fim das contas, vale mesmo a pena de ser vivida.

    Com filosofia ou não, o certo é que o tempo passa. É melhor não resistir e encarar isso com bom humor. Imaginando, por exemplo, como cada um dos tipos abaixo saúda a chegada do novo ano:

    • o otimista: “Um ano a mais!”
    • o pessimista: “Um ano a menos…”
    • o religioso: “Um ano… Amai!”
    • o niilista: “Um mal a menos.”
    • o agiota: “Um mais ao ano.”
    • o leiloeiro: “Um ano, e quem dá mais?”
    • o condenado: “Um ano, ao menos!…”
    • o asmático: “Um ano. Ar menos.”
    • o indiferente: “Mais ou menos um ano, tanto faz.”
    • o medíocre: “Um ano mais ou menos.”
    • o matemático: “1 ano é + e –”
    • o banqueiro: “Um ano e mais, mais, mais…”
    • o indeciso: “Um ano, a menos que…”
    • o belicista: “Um ano. Armemo-nos!”

              E um proveitoso 2026 para os leitores que tiveram a paciência de chegar até aqui! 

  • Deixe-se levar

    No ano que começou agora há pouco desejo menos organização e mais espontaneidade. Mais espaço para contemplação e menos para observação.

    Compromisso só nas obrigações, porque são implacáveis. No mais, vamos levando em espirais diáfanas.

    Planejar é preciso, certo, mas não pode ser um ato imperativo em nossas vidas. Umas boas doses de imprevisto, reunidas a golpes de vista felizes, não farão mal algum.

    Caminhar por caminhar. Espiar e deixar o olhar seguir até onde a vista alcança para só aí decidir se vamos por essa estrada ou por aquela ou, até, por nenhuma.

    Que nossas escolhas de onde ir possam seguir o que Robert Frost soprou suavemente em seu poema O caminho não percorrido:

    “Duas estradas divergiam em uma floresta, e eu…
    Peguei o menos percorrido,
    E isso tem feito toda a diferença.”

    Sim, fazer a diferença por nossas escolhas ainda é uma sábia opção.

    Que no próximo ano uma parte dos nossos movimentos sejam em direção ao estático. Parar por parar. Parar porque é bom.

    Olhar para um lado ao invés do outro e vice-versa.

    Escutar, falar, sorrir, chorar.

    Conter-se, expandir-se, rir-se.

    Deitar, dormir, sonhar.

    Sonhar acordado, sonhar enlevado por uma doce lembrança.

    E, para encerrar, desejo que tenhamos mais confiança e que olhemos mais para dentro de nós mesmos. Atitudes que só podem nos trazer coisas boas.

    Nem que nos conduzam somente à citação de Walt Whitman, na “Canção da estrada aberta”:

    “eu sou maior e melhor do que eu pensava”.

  • Ponte emocional!

    Certa vez, um grande amigo do poeta Olavo Bilac queria muito vender uma propriedade rural, um sítio que lhe dava trabalho e despesas. Ele reclamava que era um homem sem sorte, pois, as suas propriedades davam-lhe muitas dores de cabeça e não valia a pena conservá-las. Pediu então ao amigo poeta para redigir o anúncio de venda do seu sítio para publicá-lo no jornal, pois, acreditava que se ele descrevesse a sua propriedade com palavras bonitas, seria muito mais fácil vendê-la.

    E assim, Olavo Bilac, que conhecia muito bem o sítio do amigo, redigiu o seguinte texto:

    “Vende-se encantadora propriedade onde cantam os pássaros, ao amanhecer, no extenso arvoredo. É cortada por cristalinas e refrescantes águas de um ribeiro. A casa, banhada pelo sol nascente, oferece a sombra tranquila das tardes, na varanda”.

    Meses depois, o poeta encontrou seu amigo e perguntou-lhe se tinha vendido a propriedade.

    — Nem pensei mais nisso — respondeu ele. — Quando li o anúncio que você escreveu, percebi a maravilha que possuo. Desisti de pronto.

    Algumas vezes, só conseguimos enxergar o que possuímos quando pegamos emprestado os olhos alheios.

    Isso nos serve de lição para melhor observar também o outro, que nos cerca e anda de mãos dadas conosco, e sorri todos os dias quando tomamos a iniciativa de uma bela atitude.

    Por vezes não sabemos o valor do que nos envolve, e nos parece que ainda não acordamos de um sonho onde tivemos que dizer adeus. 

    Mas como sobrevivemos, percebemos que onde quer que andemos, gostaríamos que fossemos seguidos. Porque ninguém tem o amanhã garantido, e por isso necessitamos amar toda noite como se fosse a última.

    Se o mundo acabar amanhã, quem você gostaria que estivesse a seu lado?

    Ou, se a festa tivesse terminado e nosso tempo na terra também, quem você gostaria de abraçar, só por mais um instante?

    Às vezes, não tiro uma foto do momento que estou contemplando, porque ela vai atrapalhar. O mais importante, é só ficar nele, como está se passando em meus olhos, transmitindo uma sensação única que a fotografia não vai gravar, porque as coisas belas não pedem atenção.

    Escolha seu melhor para oferecer a quem deseja atrair, vai que o outro pense da mesma forma e aquela ponte emocional tão esperada, se perpetua como exemplo.

  • Votos Teimosos

    Meu coração transborda desejos teimosos, daqueles que povoam o peito da gente e não arredam pé. Que no ano que se aproxima o amor seja maior que o ódio, e nenhum ser humano neste Brasil de meu Deus fique sem almoçar, tomar café da manhã ou jantar.

    Que o carnaval, de fora a fora no Brasil, siga firme e forte, pois brincar ainda é coisa séria, e a fantasia é o que nos ajuda a suportar a vida. Desejo que os homens, ao se separarem de uma mulher, ergam a cabeça e saiam andando, sem jamais cogitar levantar a mão. Que cada vizinho sorria e dê um bom-dia ao triste e solitário, todos os dias, sempre com um sorriso de acompanhamento. Que o amor pela leitura contagie crianças, velhos, idosos, homens ou mulheres.

    Desejo que filmes, livros, exposições de arte, música e poemas — tudo isso que chamamos de cultura — entrem na cesta básica de todo brasileiro. Ainda que aprendamos a conviver com quem pensa diferente: o que votou no outro candidato, o que curte outra música, o que nasceu em família oposta à nossa. Que essa pessoa jamais seja inimigo, mas tratada com respeito e cordialidade, até nas redes sociais.

    Que quem gosta da cachacinha beba só o necessário, sem exageros; que o amor jamais saia de moda, e tenhamos liberdade para amar e desejar quem quisermos. Que a luta por um mundo mais justo não nos tire os olhos do amor, guiando escolhas políticas e relações privadas. Que ninguém saia a roubar o bem alheio, mas conquiste desejos com trabalho digno e condições justas. Que apreciemos as coisas supérfluas da vida, não só o essencial.

    Que os jovens redescubram o prazer da vida ao vivo e a cores, sem telas o tempo todo; que vivamos em harmonia com peles, finanças e idades diferentes, velhos e moços aprendendo uns com os outros. Que ninguém fume exageradamente, que ignoremos desaforos no trânsito, e que quem tem fé seja respeitado — assim como quem não tem. Esses são os votos mais sinceros do meu coração para o ano que vem. Até a próxima.

  • O Patriota

    Depois de muitos anos de resistência, Brasilino, respeitado pesquisador brasileiro, aceitou sair de seu país e ir fazer uma palestra na maior universidade dos Estados Unidos.

    Os norte americanos estavam eufóricos por conseguirem levar ao seu país um dos responsáveis por grandes contribuições no ramo da saúde nos últimos anos. Seu Brasilino, no entanto, não se sentia da mesma forma e sempre viu com maus olhos a saída de terras brasileiras.

    Logo ao descer do aeroporto, ele foi abordado por uma série de jornalistas americanos que disputavam espaço para ver quem seria o primeiro a fazer uma pergunta. Então, uma bela repórter ostentando cabelos loiros e olhos azuis indagou o brasileiro:

    — Qual é a sensação que o senhor sente em palestrar na maior universidade do maior país do mundo? — Perguntou em inglês.

    — Maior país do mundo? — respondeu Brasilino em português.

    — Em inglês, por favor. — pediu a repórter em inglês.

    — Eu sou brasileiro, falo português.

    — O senhor não sabe falar inglês? Como pode um dos maiores cientistas não saber falar inglês? — seguiu a jornalista em tom mais debochado ainda falando inglês.

    Brasilino limitou-se a agradecer a todos os repórteres presentes (em português) e dizer que estava cansado em razão da viagem e que iria descansar.

    Após sua declaração, um furioso repórter gritou para o brasileiro em inglês:

    — Você deveria respeitar o nosso país, sem ele nada do que você descobriu seria possível!

    Brasilino então, respirou fundo, deu meia volta a foi até os jornalistas. Sem dar espaço para nenhuma pergunta, ele começou a falar:

    — Eu sou do Brasil. Minha terra possui riquezas sem fim. Essas, muito antes dos colonizadores chegarem, já eram utilizadas por nossos indígenas para viver. Fomos extorquidos pelas grandes potências mundiais de forma sequencial, cada uma no seu respectivo momento de hegemonia. Ainda assim, temos o país mais lindo da face da terra. Falo não só de nossa natureza, mas também de nossa cultura. Eu venho do país onde nasceu o samba, a bossa, uma música popular riquíssima. Um país que produziu Gonzagas, Gonzaguinhas, Chicos, Caetanos, Gals, Grandes Otelos, Nelsons Pereiras dos Santos, Glauber Rochas, Miltons Nascimentos, Cassias Ellers, Marias Bethanias e tantos, mas tantos outros grandes personagens. Vocês acham mesmo que eu irei concordar que o país de vocês é o maior do mundo?

    Brasilino falou tudo isso em um bom e sonoro português. Depois, pegou suas malas e entrou novamente em seu avião. Sentado na cadeira, só disse mais uma frase:

    — Me levem de volta para minha terra.

  • Ema, ema, ema cada um com seus problemas

    Emília entra no elevador enorme da repartição pública, desses feitos para transportar pelo menos vinte pessoas, mas que, naquele horário, estava quase vazio. Quase. No fundo, uma pessoinha encolhida chorava baixinho.

    Emília desvia o olhar. Final de um dia estressante — só me faltava agora ter que consolar alguém que nem conheço. Vira-se de frente para a porta, torce a boca e entoa seu meme preferido: ema, ema, ema, cada um com seus problemas.

    Milena se joga no sofá para conferir as mensagens de WhatsApp que ainda estavam na caixa. Começa pelas mais urgentes: o grupo da faculdade marcando um happy hour, a faxineira avisando que não vai poder trabalhar amanhã. Em seguida, aparece uma que começa com: Família, quem pode me ajudar? — acompanhada de emojis com mãozinhas postas em prece.

    Milena titubeia. Se abrir a mensagem, vai ter que responder, se envolver. Melhor nem abrir. Afinal, também tem seus próprios problemas. Portanto… ema, ema, ema, cada um com seus problemas. E passa para a próxima.

    Amélia segue paciente na fila de carros para pegar a filha na escola. Já está quase na sua vez quando, de repente, um carro emparelha e a janela se abre. Uma moça, descabelada, suplica:

    — Será que eu poderia passar na sua frente? Minha filha está tendo uma crise de angústia. Ela está no espectro do autismo, preciso pegá-la o mais rápido possível. É uma urgência.

    Amélia hesita por um segundo. Pensa que ainda precisa levar a filha ao dentista, que já está atrasada. Então acelera o carro. Afinal, ema, ema, ema, cada um com seus problemas.

    Emília, Milena, Amélia. Trocam-se as letras, muda-se o cenário — o refrão é o mesmo.

    Talvez sejamos todos um pouco essas emas. Não por crueldade, mas por exaustão. Cansaço, medo, excesso de solicitações. Nossos problemas individuais sempre se sobrepondo aos dos outros, como se não houvesse espaço para mais nada.

    Nunca tivemos tantos “problemas próprios” e tão pouco espaço para os problemas alheios. Talvez não seja falta de empatia, mas excesso — de tarefas, de ruído, de cansaço. Cada um cheio demais de si para caber no outro. E assim seguimos: um coro afinado na pressa, cantando juntos a mesma cantiga. Ema, ema, ema, cada um com seus problemas.

  • Contabilidade emocional

    Todo fim de ano aproveito para fazer minha contabilidade anual. O balancete tem como objetivo listar os saldos das minhas contas emocionais (ativo, passivo, receita, despesa). Esse fechamento contábil possibilita uma leitura mais detalhada dos investimentos afetivos realizados. É, também, nessa hora, que projetos importantes, esquecidos na gaveta do tempo, vêm cobrar seu lugar.  

    Quando isso acontece, não resta outra alternativa, senão realinhar o capital-tempo à nova empreitada. Para isso, infelizmente, alguns ciclos precisam ser encerrados ou, como gosto de acreditar, pausados, por tempo indeterminado, mas não infinito. Contudo, antes de colocar em prática um novo projeto, há que se celebrar, com aqueles que colaboraram para que o saldo emocional fosse positivo, os frutos colhidos. 

    Obrigada, Crônicas Cariocas (Francci e demais escritores) e todas as pessoas que me leem, pela parceria leal e investimento contínuo. A escrita de um novo livro me convoca e preciso concentrar esforços nesse projeto, mas a grandeza do que foi vivido aqui segue comigo.  

    A vida é assim: uma dança de roda que não se cansa de girar. Então, dancemos, todos juntos!

    Feliz 2026!

  • Sandálias divisionistas

    As notícias estão ficando cada vez mais surreais. A última é que estão acusando as outrora inocentes sandálias havaianas de estar a serviço do comunismo internacional. Nem me dei ao trabalho de entender a origem dessa estapafúrdia ideia, fruto de um ambiente social doentio.

    Esclareço que embora não seja usuário dessas sandálias, reconheço nelas a virtude da perfeita adaptabilidade às necessidades das extremidades dos membros inferiores da perna, também chamadas de pés, que têm a função crucial de promover o equilíbrio e a sustentação do corpo.

    São elas práticas, laváveis, arejadas, não usam costuras e seu formato anatômico proporciona bem estar ao referido órgão de apoio, com uma base homogênea de borracha em que se sobressai a famosa tira em Y, sua marca registrada.

     Além disso, são baratas e duradouras, sendo por isso acessíveis a pessoas de todas as classes sociais. A possibilidade de se adotar milhões de estampas com motivos e cores variadas permitiu que caíssem no gosto até de pessoas mais estilosas, sem perder o charme de sua estrutura básica.

    Com isso, conquistaram corações e pés de todos. Há lojas de havaianas espalhadas mundo afora. Sim, é um item essencialmente brasileiro que alcançou sucesso internacional e colocou o mundo abaixo de nossos resguardados pés, o que deveria encher de orgulho esse país tão pobre em referências.

    Então por que a implicância agora com esse artefato tão simpático que exporta a descontração e a maneira de ser do brasileiro?

    Devo dizer que particularmente não sou fã das havaianas, ao contrário de minha esposa que se esbalda com os inúmeros modelos de estampas que parecem nunca se repetir, em exposição tanto nas vitrines produzidas dos shoppings como em araras improvisadas de mercadinhos populares.

    Minha desavença com elas é de cunho estritamente pessoal. Não me dou bem com a sua peculiar tira que separa o dedão dos demais dedos. Por natureza, acho que os cinco dedos de cada pé, ainda que por natureza tenham autonomia, foram moldados para ficar perfilados uns ao lado dos outros sem barreiras. A tira da sandália que faz com que ela se sustente no pé deixa o dedão separado, o que me passa uma dolorosa sensação de ‘divisionismo podal’ que gera certo desconforto.

    Mas para 99% dos humanos, homens e mulheres, adultos e crianças, essa característica parece não importar, tanto que as sandálias são um sucesso. Exceto para aquela parcela paranoica da sociedade que, por alguma razão, teima em achar que o divisionismo das havaianas vai muito além da questão do dedão.

  • Seu próprio molde!

    A lagosta se esconde embaixo das pedras quando sua concha está apertada. Essa condição a provoca providenciar uma nova proteção, porque seu corpo cresceu. Nossas vidas apresentam situações de muito estresse e desconforto, e rapidamente buscamos um remédio ou conforto. 

    Mas, na verdade, esse momento tenso é uma transição para o crescimento pessoal, após uma análise e profundo entendimento do que se passa em nossas mentes, porque naquele instante não possuímos a noção de uma resposta, e, nessa altura, passamos a entender onde é nosso novo lugar, e como chegar lá.

    Uma vez tivemos 15 anos, e observávamos a passagem dos dias com leveza, despreocupados com maiores problemas, éramos um livro a ser preenchido com experiências, que nos valeram a oportunidade de errar sem culpa, moldar nossa personalidade com vida, mudanças boas e ruins, porém, intensas e marcantes.

    Muito diferente do chamado “método Fiorelli”, que serviu de técnica para moldar corpos no fatídico ano de 79 d.C., quando o Vesúvio libertou sua fúria sobre as cidades romanas de Pompéia e Herculano, e enterrou sob uma pesada camada de cinzas e escombros vulcânicos, centenas de pessoas nas mais diversas posições, eternizadas naquele triste evento.

    Os habitantes não conseguiram escapar, e ficaram imobilizados sob toneladas de material incandescente.

    Com o passar dos séculos, seus corpos desapareceram, deixando vazios na rocha solidificada que se formou sobre eles.

    Foi no século XIX que os arqueólogos, explorando as ruínas de Pompéia, descobriram um método engenhoso para moldar esses buracos.

    Enchendo-os com gesso líquido, eles conseguiram criar figuras que capturavam com fidelidade os últimos momentos das vítimas.

    Essas esculturas espontâneas mostravam suas posturas, seus gestos e até detalhes de suas roupas e poses.

    A técnica foi atribuída a Giuseppe Fiorelli que foi quem permitiu que a tragédia se mostrasse com uma intensidade surpreendente.

    Os moldes revelam fragmentos de humanidade detida no tempo: famílias abraçando-se no medo, corpos que tentaram fugir do inevitável e outros que procuravam refúgio diante da tempestade ardente.

     Não perca a oportunidade latente de você fazer seu próprio molde, caso contrário, mais tarde, vai sobrar somente o lugar para o gesso.

  • Feliz Natal

    Sempre achei que, embora viver com gente dê trabalho, viver sozinho simplesmente não funciona. Somos seres de comunicação. Precisamos de gente por perto — pais, mães, amigos, irmãos, colegas de trabalho, professores, clientes, fregueses, marido, mulher, namorado, crush — Todos nós. Precisamos. De gente.

    Mesmo quando temos dinheiro, mesmo quando achamos que já resolvemos tudo. Viver sozinho? Não dá. Talvez por isso a vida nos obrigue a nos renovar o tempo todo — a repensar atitudes —. Porque, convenhamos, todo mundo é um pouco egoísta, de vez em quando. Ninguém acorda todos os dias disposto a dar bom dia a um desconhecido, muito menos numa segunda-feira.

    A vida é feita de pequenas provas de resistência: chefes que tiram nossa paciência; trânsito engarrafado, quando estamos atrasados; telefone que resolve dar problema justo no dia em que guarda todas as nossas senhas e dados bancários. A vida testa e, quando estamos no limite, qualquer um pode ser grosseiro. Ainda assim, é reconfortante quando percebemos que dá para tentar de novo, se renovar.

    Renovar-se é um exercício diário. Sem glamour. Como não somos perfeitos, passamos a vida tentando ser pais melhores; filhos melhores; parceiros melhores. Às vezes, passamos anos tentando aprender algo básico: ser amigo. Cuidar das amizades dá trabalho — e dá trabalho para sempre.

    Pensei nisso esta semana, ao assistir a “O Natal dos Muppets”. Um filme americano — bonito, delicado —. A história acompanha Ebenezer Scrooge, um homem que mede tudo em dinheiro; não se importa em demitir pessoas nem em cobrar dívidas altas, mesmo no Natal. Um sujeito que acredita não precisar de ninguém.

    E é impossível não se reconhecer um pouco nele. No corre-corre do cotidiano, a gente se ocupa demais em ganhar dinheiro, comprar coisas, acumular. O filme, no entanto, lembra algo simples: é possível ser feliz com pouco. E, quando isso acontece, a gente ama melhor quem está ao nosso lado. A gente se renova, um pouco a cada dia.

    Talvez esse seja o verdadeiro sentido do Natal. Não apenas a troca de presentes, a ceia farta ou os abraços. Há quem trabalhe na noite de Natal, há quem sinta a falta de quem já se foi. O espírito natalino tem mais a ver com sair um pouco de si e enxergar o outro. Com se renovar.

    Gostando ou não da data comemorativa, aproveito para agradecer aos leitores do Crônicas Cariocas por um ano generoso. Esta casa me acolheu muito bem. Desejo a todos os leitores, amigos e colegas cronistas um Feliz Natal, cada um celebrando à sua maneira.

  • Errância

    Os parceiros musicais Mila Cox e Zími haviam conversado sobre adotarem ou não temas mais políticos em suas músicas.

    Para ela, as músicas tinham abordagem política, mesmo com letras minimalistas e sem serem panfletárias, mas sempre enfatizando, entre outras coisas, uma posição antifascista.

    Ela falou: “Não precisamos ser chatos como o Bono”.

    Mas para Zími, era preciso amplificar essa abordagem, pois estavam passando por um período perigoso e ameaçador, num país que nasceu de um projeto que podia ser chamado de proto-fascista, com invasão das terras e extermínio de uma civilização.

    A conversa se deu na volta de um show que fizeram como o duo Crop Circles numa festa junina em Catanduva que deu espaço para quatro bandas de rock, de diferentes subgêneros.

    Ele já tinha quase cinquenta anos e começou um outro dia praguejando sobre quanta merda uma pessoa tem que aguentar apenas para se manter viva.  

    Dessa vez a queixa era por conta de um pagamento não realizado por um trabalho que realizou como freelancer, como porteiro substituto num prédio residencial na Rua Aurora.

    Então enfiou a mão entre o assento e o encosto do sofá, onde havia dormido à noite.  

    Correu-a por ali e encontrou uma moeda de dez centavos, um pente e uma tampa de caneta.

    Logo tomou algum ânimo para procurar se atualizar um pouco sobre a situação do resto do mundo, através de fontes que ele confiava, para que isso melhorasse sua estima, pois isso o fazia lembrar que não tinha tantos motivos para lamúrias.

    Era estranho, mas em dias ruins, ele ganhava sobrevida ao se deparar com notícias tristes, outras trágicas e outras constrangedoras, lembrando que problemas do cotidiano são para todos, mesmo que em diferentes circunstâncias.

    Cada uma dessas notícias, um resultado crônico de repetidas ações que ele repudiava, idealizadas e comandadas por gente que ele também repudiava. Tudo isso seguido e praticado por um imenso rebanho humano cego, burro e passivo, desprovido de qualquer autonomia intelectual.

    Nativo de um país agora regredido ao agrarismo da soja, sob ameaça de fascismo, e com o planeta à beira de um colapso climático.

    Entendia a razão de poder ser considerado um fracassado, pois só seria vencedor no sistema excludente e perverso em que vive se não fosse a pessoa que é.  

    Apesar de estar cansado de lembrar que a falência do sistema é a origem de muitas mazelas humanas e saber que utopias não o tirariam daquela miséria existencial, sabia também que elas serviam ao menos para que não mandasse tudo às favas de uma vez, entrando propositadamente numa overdose letal.

    O sistema educacional estimula a todos que a ele tem acesso, a buscar por um tipo de vitória, que por questão de índole, nunca o estimulou.

    É necessário que haja milhares de derrotados para cada vencedor.

    Milhares de almas atormentadas com pensamentos suicidas que também se perguntam o porquê de tudo isso, apenas para adiar a morte, que levaria a um esquecimento absoluto, até para quem era próximo, e que provavelmente terá o mesmo destino.

    Isso tudo enquanto o que há de verdadeiramente heroico num ser humano é não pertencer a nenhum rebanho.

    Não há lugar algum para chegar, não ser a tumba, e para depois disso, talvez a distinção pós morte para aqueles que deixam na Terra algum legado que também não caia no esquecimento, caso de um entre milhares, sendo que muitos dos quais chegaram a sonhar com a tal vitória, buscada por uma fé cega que os moveu até lugar nenhum.

    Algo típico de quem é enganado durante muito tempo, e que tende a rejeitar qualquer prova de fraude, se desinteressando em descobrir a verdade, pois é doloroso reconhecer, ainda que para si mesmo, que fora enganado, às vezes por toda a vida.

    Pelo menos as manhãs não eram todas iguais, porque para ele também havia aquelas em que podia acordar calmo, com o apagamento das urgências, das angústias e dos receios de irrealização, resultado de alguma pequena vitória recente ou da própria insolubilidade de questões perturbadoras.  

    O dia anterior havia sido de derrota, com muito tempo na porta de um supermercado esperando pelo pagamento do freela, fumando e verificando a todo momento o aplicativo do banco do qual era cliente, para ver se finalmente o pagamento havia sido efetuado.

    Havia agora, na porta de qualquer mercado de toda a região central de São Paulo, um número cada dia maior de pessoas desesperadas de fome, pedindo algum tipo de ajuda, e olhadas com perplexidade e rancor pela maioria dos que ainda saiam de lá com sacolas de comida para levar para casa.

    Algumas dessas pessoas ainda são capazes de ostentar certos privilégios, em plena crise aguda numa terra sem deus nem lei.

    Sempre que ele saía de algum desses lugares depois de alguma compra, carregava com sua sacola de mantimentos um tipo de culpa bastante incômodo, ao ver tanta miséria.

    Nessas horas lembrava novamente do sistema, porque sabia que a miséria é culpa dele, e não de simples fracassos pessoais, como tanta gente está condicionada a acreditar.

    Foi obrigado a desistir da espera quando a bateria de seu celular vagabundo acabou, de tanto que verificava o aplicativo do banco à espera do dinheiro.  

    Então, voltou pra casa, abriu as bitucas de cigarro de sua lixeira e bolou o recheio delas em guardanapos de boteco, como se fossem baseados, e depois dormiu com fome.

    Nem mesmo esse tipo de perrengue era capaz de fazê-lo desistir de fazer esses bicos em vez de algum emprego com carteira assinada numa empresa que chama o empregado de “colaborador”, com longas jornadas de trabalho, baixa remuneração e assédio moral.

    Enquanto isso, Mila Cox apenas se lembrava da frase que ouviu dele certa vez, em que dizia ter se enganado apenas uma vez, ao pensar estar enganado sobre um tema menos importante que a conclusão tirada dele.

    Era um indício de que o problema dele não era falta de autoestima.

    E aquele dia seria bom para ele, que ao encontrá-la, sempre revive sua sociabilidade, tão comprometida por tempos de escassez de tempo e dinheiro, o que então lhe fazia ter que gastar energia, completando a tríade que tanto prezava, que era tempo, dinheiro e energia.

    Ela era muito mais jovem, e isso o levava, andando com ela, a fazer coisas que jamais faria sem sua influência.  

    Servia também, até certo ponto, como renovação no ânimo de viver.

    Sair de sua zona de “conforto” não era tão dramático para Zími, porque não havia ali, de fato, muito conforto.  

    Havia, sim, uma rotina razoavelmente previsível, até para se preparar com certa antecedência para a chegada de perrengues, que para ele, eram sempre financeiros.  

    Vivia sozinho num apartamento no centro da cidade, sendo um consumidor minimalista e praticante do desperdício zero.

    Já Cox tinha seus próprios problemas, e carregava bastante insatisfação, não exatamente pela vida que levava individualmente, mas pelas mazelas da conjuntura.

    Mas ainda era jovem o bastante para gritar um pouco mais, por causa do retrospecto de vida mais curto e por teoricamente ter mais tempo pela frente, para enfrentar desdobramentos malignos de eventuais tendências equivocadas dos dias atuais e anteriores.

    Tinha vinte e um anos, e apesar de ter um porte físico pequeno, era o tipo de pessoa que se reconhece de tão longe, quanto se possa enxergar, com o cabelo curto cuja cor era mudada quase semanalmente.

    Ela tem um Chevette Jeans 79 que chama atenção por onde passa, desde shows que faz pelo interior de São Paulo, até estacionamentos de supermercado.

    Quando questionada se era tímida ou premeditadamente antissocial, respondia que costumava conversar com quem realmente interessava, pois muitas pessoas hoje em dia vivem se sentindo insultadas, e quando não tem a resposta que querem ouvir, a tomam como uma afronta, e que a música a ajuda nessa questão, mesmo quando suas músicas geram dúvidas sobre o que realmente querem expressar.

    Estudava Letras e era uma copywriter freelancer, com ganhos sempre superiores aos de Zími, e mora com os pais numa boa casa na Penha.

    No atual momento, ambos apenas vivem, cada um à sua maneira, esperando o que há por vir para a humanidade, sem tanta esperança de dias melhores, mas com a certeza de que ainda não vimos nada em termos de tempos surreais, e que o pior ainda está por vir.

  • Onde mora o seu olhar

    Nunca havia pensado na morada dos olhos, e sua relação com a inspiração necessária para um bom escritor, até que me caiu no colo o texto magnífico de Rubem Alves – A arte de ver.

    Me encantou esse termo, morada dos olhos, pois ele dá uma outra dimensão à diferença entre o ver e o olhar, que está relacionada à morada onde guardamos aquilo que nossos olhos captam.

    Se captamos as imagens somente com a visão, elas são armazenadas em uma caixa de retratos.

    Colecionamos imagens que nos são úteis para referenciar, objetivamente, o mundo que nos cerca. Pensando na arte da escrita, essa caixa nos fornece material para descrever a forma, a cor, o tamanho dos objetos que vemos – um bolo de chocolate com cobertura, por exemplo. Se bem descrito, podemos até sentir na boca sua cremosidade.

    Mas, se captamos o que nos cerca com o olhar, se abrimos nossos escaninhos, conseguimos romper com a racionalidade objetiva e nos conectarmos com significados e emoções que vão muito além do objeto. E, aí, a morada desse olhar é uma porta aberta dentro de nós; o olhar nos habita, mas é livre, cigano, vagando por aqui e ali. É o olhar do escritor poeta, que ao pousar em um bolo de chocolate, é capaz de sentir e nos fazer sentir, em seu texto, a cremosidade de um beijo apaixonado.

    Como poeticamente colocou Alberto Caeiro (citado no texto de Rubem Alves), para isso é preciso “partejar olhos vagabundos”

  • A última crônica do ano – amanhã há de ser outro dia

    E terminamos mais um ano. Mais um ano que corre e corremos juntos para não perder a viagem! Empacotamos novos e velhos sonhos para o ano que virá…

    O mês de dezembro é assim: o último mês do ano é tão apressado, mas tão apressado que parece querer o novo calendário!

    E correm as pessoas com as festas de Natal e as festas da virada. Roupas, nomes, mensagens, sorrisos, promessas, presentes, viagens…

    E terminamos mais um ano.

    As velhas e repetidas canções de natal, de todos os natais, embalam as ruas e as casas, embalam a fraterna pressa tão típica de fim de ano, todos os anos…

    Mas…

    Mesmo que façamos as mesmas coisas (ou pelo menos, boa parte delas), guardamos dentro de nós mesmos uma certa urgência e uma necessidade verdadeira de acreditar que as coisas vão mudar, vão se acertar… E colocamos confiança, fé, esperança em um novo momento, como se fosse um presente, um bálsamo, um afago que nos dá força para continuarmos a grande aventura da vida…

    Assim, enfeitamos a casa, arrumamos a mesa, chamamos os amigos, colocamos luzes nas janelas, nas varandas, nos quintais…

    Assim, preparamos a melhor roupa, damos um trato no cabelo, organizamos a melhor ceia e colocamos no rosto o melhor sorriso.

    Seguir em frente é preciso… É preciso!

    Termino esta última crônica parafraseando o velho mestre Chico Buarque…

    Apesar das bombas, da cara feia, dos políticos e suas politicagens, dos malandros e das suas malandragens, amanhã há de ser outro dia!

    Apesar das intempéries da vida e dos sobressaltos diários, amanhã há de ser outro dia!

    E daqui a alguns dias, há de ser natal!

    E daqui mais alguns dias, há de ser um novo ano!

    Com toda certeza, será um outro dia!

  • Entre

    A arte salva momentos.
    A frase foi construída por Matilde Campilho, num vídeo brevíssimo — desses que carregam a tônica do fulgaz que uma gravação de Instagram faz reverberar por nossas pupilas. Prendeu-me num eco posterior ao instante do encontro com a postagem, enquanto eu dedilhava a tela com a ansiedade tão comum — e tão normalizada — no comportamento contemporâneo.

    A arte salva.
    E, às vezes, sem que sequer nos demos conta de que precisávamos ser salvos. Tomemos o exemplo da poetisa portuguesa Matilde,

    • que: contou a história de um dia em que, ainda criança, resolveu dar um passeio sozinha, desbravadora assim, acompanhada apenas por sua mochila — artista desde sempre;
    • entrou num museu e se estarreceu diante da enormidade de uma pintura imensa, instalada numa sala igualmente imensa;
    • não, não era apenas a diferença de escala entre a menina pequena e a obra monumental que fez seus joelhos fraquejarem;
    • ali ela se deixou ficar. “Trinta minutos, um quarto de hora”;
    • quando voltou para a família e contou, com os olhos brilhando, que havia visto algo incrível, não soube responder aos adultos o que exatamente era.

    A arte não precisa significar, propriamente.
    Ela é um todo que se percebe pelos sentidos, não pela razão. Racionalizar o mundo tende a retirar-lhe a beleza. Explicar demais, mostrar demais, produzir conteúdo a torto e a direito — numa onda que, inevitavelmente, vai quebrar mais adiante — também. A arte tem como propriedade o encantamento. E o encantamento se retém apenas por percepções: tato, olfato, visão, audição, paladar. E, sobretudo, na dimensão do tempo.

    O tempo.
    Ele vem regendo meu modo de encarar o mundo desde que meu pai se foi. Parece que se chocaram em mim — ou por mim — as três vertentes conhecidas: a do ontem, a do agora e a do amanhã de manhã, esse futuro imediato. O presente, então, pulsa em outra frequência. Acaricia meu rosto com mãos delicadas e, ao mesmo tempo, quando me olho com profundidade, faz com que eu me apaixone perdidamente pela vida, sem saber ao certo que rumo tomar.

    Estou viva.
    É final de 2025 — ano torto, ano obscuro, ano adoentado e, ainda assim, tão necessário no intramundo de cada um. A mente, como os livros, as pinturas, as instalações artísticas, os filmes, é uma máquina do tempo literal e literária.

    E alguém aqui já leu… H. G. Wells?

  • Reflexões em tempos de espanto

    Nas últimas semanas, tenho pensado a respeito de uma dúvida que sempre me ocorreu: as palavras têm, por si só, o poder de iludir ou é a paixão quem confere a elas esse dote?

    Quem não conhece a facilidade do sujeito apaixonado para confundir alô com amor? Não adianta defender que dessa leseira não sofreremos. Basta uma breve reflexão sobre antigas decepções amorosas e logo se apresenta a pergunta: Como não percebemos isso? Estava na cara que não valia nada…

    A bem da verdade, só vemos o que nos conforta ou suportamos ver. Essa é a raiz da cegueira afetiva. E a palavra, pelo visto, embaça a visão.

    A ideia de um encaixe perfeito ou de uma imaginária completude entre as pessoas, independentemente do tipo de relação em que se apoie, porta sempre uma ilusão, uma fala(cia). O discurso se faz tijolo na construção do trono mítico do amado. E mais, à medida que o apaixonamento avança para o campo da idolatria, situação na qual o objeto cultuado é aquele a quem nos entregamos como único salvador, mais ensebamos as palavras na tentativa de escamotear a verdade áspera da nossa própria escuridão.

    Se mais nos vestimos de encanto, mais nos despimos de realidade. É assim que os olhos perdem sua função, e as ações, sua significância. A razão, senhora justa e ponderada, é esculachada em praça pública. Quem quer saber dela? O próprio ditado insinua a ingenuidade desastrosa do sentimento: o que os olhos não veem o coração não sente. Faço aqui um adendo e uma advertência: Não importa se os olhos veem e o coração sente, isso não dá sustância. A paixão tem fome de doces promessas. Engole sem mastigar. Se farta e se lambuza de casadinhos feitos de palavras e ilusão. É perigosa, mas não necessariamente letal.

    Num dado momento, saciamos a fome e, por vezes até, vomitamos. A palavra recupera sua roupa de andar em casa.

    O mesmo não se pode dizer no enamoramento cego, típico da idolatria. Nele, acredito, há uma duplicação do sujeito e do seu dito.

    O objeto amado, venerado e enaltecido, ainda que em condições insalubres de afeto, é puro reflexo. Representa uma versão esmaltada e lustrosa desse sujeito que até então vagava desalmado de sentido. Faminto de importância, engole sem mastigar casadinhos de narcisismo e ostentação. Não enjoa, não
    cansa. Arrota insanidade.

    Nada importa. Ninguém.

    Nenhuma explicação é capaz de abarcar a submissão profana de um corpo ao seu reflexo, visto em carne e osso do lado de fora. Não nos enganemos.

    ]Ninguém venera a diferença.

    Só se idolatra a própria imagem, cifrada nas palavras e ações do outro idolatrado. Ambos se pertencem.

    E quanto à palavra, concluo que ela não é culpada. Para que a palavra iluda, alguém precisa dizê-la. Alguém precisa ouvi-la e querer validá-la.

Botão Voltar ao topo

Adblock detectado

Desative para continuar