Crônicas

  • Coisas duráveis

    Há uma pergunta que atravessa os séculos sem nunca envelhecer: se tudo passa, o que nos resta pensar, e porque valorizar o que temos e vivemos hoje? Os gregos chamavam esse fluxo ininterrupto de panta rhei (tudo flui) e Heráclito o personificou no rio onde jamais nos banhamos duas vezes na mesma água. A efemeridade não é apenas uma característica acidental da existência, ela é a própria textura. Talvez o primeiro espanto filosófico diante da brevidade das coisas venha da comparação entre a solidez aparente do mundo e a fragilidade real de tudo o que nele habita. As montanhas parecem eternas, mas a geologia nos ensina que elas também se erguem e se desgastam, como ondas petrificadas. As estrelas, que os antigos supunham fixas na abóbada celeste, nascem, brilham e morrem em explosões tão vastas quanto silenciosas. Se até o cosmos tem seu prazo de validade, o que dizer de nós, criaturas de passagem?

    Há uma dimensão trágica nessa constatação, mas também uma beleza sutil. Os estoicos compreenderam que a consciência da finitude não deveria nos lançar no desespero, mas sim na valorização radical do presente. Marco Aurélio escrevia para si mesmo: “Você poderia viver agora a vida que pensa que viverá quando se aposentar”. A efemeridade, vista com olhos lúcidos, é um convite à presença. Se o instante é tudo o que temos, que seja então plenamente vivido. Os existencialistas do século XX radicalizaram essa percepção. Para Heidegger, o ser para a morte não é uma patologia, mas a condição que nos torna autênticos. É a consciência de que nossa existência é limitada que nos permite escolher, nos comprometer, dar direção à vida. Sem o horizonte do fim, tudo seria indiferente, poderíamos adiar eternamente as decisões, como personagens de um teatro sem cortinas.

    No Oriente, o pensamento budista oferece outra chave, a impermanência (anicca), é uma das três marcas da existência, ao lado do sofrimento e da ausência de um eu permanente. Mas longe de ser uma maldição, ela é precisamente o que torna possível a transformação. Se tudo fosse permanente, estaríamos condenados à repetição do mesmo. Devido a mudança continua temos a oportunidade de florescer, aprender, nos libertar.

    A contemporaneidade, no entanto, vive uma relação esquizofrênica com a efemeridade. Por um lado, aceleramos o fluxo, por outro, tentamos desesperadamente congelar a vida em imagens, memórias digitais, registros que prometem imortalidade num disco rígido qualquer. Fotografamos a flor para que ela não murche, sem perceber que a flor murchou enquanto a fotografávamos. A experiência do belo, do amor, da amizade, todas elas são intensas justamente porque são passageiras. Uma felicidade eterna deixaria de ser felicidade para se tornar uma tediosa repetição. O que dá sabor ao vinho é saber que a garrafa se esvazia, o que torna precioso o encontro é saber que ele termina, mesmo entendendo que, mais cedo ou mais tarde, uma mão distraída nos colherá, pois as coisas duráveis são feitas do tempo que passa.

  • A Vida Privada e o Transporte Público

    Há bastante tempo, penso em falar sobre um hábito que se tem mostrado cada vez mais comum entre nós, brasileiros. Minhas numerosas procrastinações e desistências ocorreram menos por causa da complexidade do costume do que pela virtual controvérsia que ele carrega em si. Haja vista o uso generalizado de tal prática, suponho que poderei ferir certos egos e criar algumas animosidades. Mas assumo que quem vive de dar pitacos pretensamente sociológicos deve encarar os riscos e as consequências de ter uma bocarra descomedida.

    Como eventual usuário do transporte público de nossa cidade, tenho notado em mim uma crescente curiosidade pela vida alheia. Não creio que isso seja efeito da velhice ou do ócio. Por razões pouco pertinentes a este desabafo, assumo que minha idade não seja tão avantajada e que minha rotina não seja tão monótona. Mas o certo é que esse interesse surge, repentina e incontrolavelmente, quando estou dentro de um ônibus urbano. Você já deve ter passado por alguma situação parecida, e, por isso, saberá do que estou falando. Os diálogos que os usuários do transporte coletivo estabelecem aos seus celulares parecem cada vez mais frequentes e instigantes. Na maioria das vezes, o que antigamente costumava ser dito em ligações telefônicas é retratado, hoje em dia, por meio do envio de sucessivos e frenéticos áudios. Minha experiência permite afirmar que, quanto mais cheio estiver o ônibus, mais altas e indiscretas soarão essas conversas!

    — Carolina, não adianta insistir! Já saí do trabalho, e não tenho dinheiro!

    Confesso que tive vontade de perguntar o motivo do aborrecimento. Mas, aparentemente, minha cara de pau estava de recesso. O calor extenuante do começo de verão e a superlotação do ônibus impediram-me de satisfazer minha curiosidade. A bem da verdade, acho que a fadiga foi amiga do bom-senso. Geralmente, as pessoas não gostam de bisbilhoteiros. “A curiosidade matou o gato!”, diria meu finado avô. Mas o volume daquela conversa era bastante elevado para alguém preocupado com sua privacidade. Suponho eu que uma filha adolescente exigia daquela mulher que ela passasse no mercado para comprar alguma guloseima. O mercadinho ficava logo ali, entre o trabalho e o ponto de ônibus. Pobre mulher! Após um dia inteiro de trabalho, não via a hora de chegar a sua casa. Já estava no ônibus, ora! Por que não pediu antes?! E dizer que também já fomos adolescentes intransigentes…

    — Estou sem internet há quase dois dias! E vocês continuam só enrolando!

    Convenhamos! Ninguém merece ficar sem internet por tanto tempo! Atualmente, tal infortúnio equivale a condenar o desaventurado sujeito a uma espécie de solitária, sem contato com o mundo exterior. O caso daquele rapaz parecia distante de uma resolução satisfatória. A julgar por sua indignação, nem mesmo um atendimento feito por uma pessoa de carne e osso seus protestos mereceram receber. A tranquilidade com que o atendente virtual fazia-lhe perguntas já respondidas em ligação precedente aumentava a sua impaciência e, por consequência, a irritação de meus ouvidos. Apesar de toda aquela ruidosa reclamação, consegui sustentar minha mais íntima solidariedade a ele. Torci por aquele infeliz, mas suspeito que minha honesta simpatia não foi suficiente para acabar com seu calvário.

    — Amiga! Eu tenho que te contar! A Mari terminou o namoro!

    Isso foi demais! Como se não bastassem uma mãe sendo importunada pela filha adolescente e um cidadão enclausurado digitalmente por seu provedor de internet, agora eu acompanhava o triste fim de um romance. Não pude evitar que lembranças tão longínquas e supostamente superadas voltassem à tona. Mas o que dizer à minha psicóloga?! Tive uma recaída por causa de uma conversa que escutei no ônibus. Enxerido! Cuide de sua vida! Mas a pobre menina está sofrendo! Isso não é de sua conta! Felizmente, a notícia completa foi guardada para um posterior encontro entre as duas amigas. Os áudios enviados foram apenas o famoso lide, aquela síntese feita para capturar a nossa atenção. Por pouco não cometi a indiscrição de perguntar como estava o antigo casal. Afinal, um término tão inesperado como esse é capaz de abalar ambas as partes. Minha sorte foi que a jornalista de plantão chegou ao seu destino antes de mim.

    Entre dívidas cobradas, fofocas contadas e términos relatados, noto que meus deslocamentos pela cidade tornaram-se, aparentemente, mais rápidos. O problema é que, como tenho prestado atenção a vidas alheias em demasia, sinto-me sobrecarregado com tantos assuntos curiosos e pertinentes. Obviamente, não seria de bom tom pedir a tanta gente que falasse mais baixo. Sem poder me retirar do agradável convívio social que somente um coletivo é capaz de proporcionar, restam-me desabafar com você e dar o troco na mesma moeda a tantos falantes anônimos. Aguarde, pois, minha próxima ligação!

  • A quem você deve seu mérito

    No Brasil, o discurso da meritocracia ainda encontra solo fértil. Acredita-se, com quase cega devoção, que o topo da montanha foi conquistado a passos individuais – fruto exclusivo do talento, da disciplina e das noites mal dormidas. O discurso é sedutor, embora ignore uma pergunta que possa soar incômoda: quando você chegou lá, quem segurava a escada?

    ​Por trás de cada trajetória de sucesso, há uma estrutura invisível operando nos bastidores. Independentemente dos marcadores sociais ou da classe econômica, ninguém avança em absoluto isolamento. Há sempre alguém abrindo espaço, viabilizando o tempo e absorvendo os impactos diários para que outro possa brilhar. E é justamente esse ecossistema de suporte que uma parcela significativa dos “vencedores” se recusa a reconhecer.

    ​Vamos olhar para as estruturas corporativas, a ascensão meteórica de um homem de negócios frequentemente repousa sobre a anulação do tempo de uma mulher. Enquanto ele acumula horas extras e networking, há quem garanta a roupa passada, a refeição pronta e a casa funcional. O topo da carreira é financiado pela renúncia alheia.

    ​O mesmo fenômeno se repete no universo feminino. Para que uma mulher não racializada, de classe média ou alta conquiste espaço no mercado corporativo ou na academia, provavelmente precisa de outra mulher – frequentemente negra, periférica ou da própria rede familiar, como mães e avós – precisa assumir a retaguarda do cuidado. A emancipação de uma costuma ser pavimentada pela sobrecarga de outra.

    ​Medir a vida do outro pela própria régua é um exercício de miopia social. Dizer “se eu consegui, qualquer um consegue” desconsidera que nem todos navegam com os mesmos mapas ou sob as mesmas condições climáticas. Há quem enfrente a tempestade a bordo de um navio estruturado; outros estão sozinhos, em uma canoa rachada no meio do oceano, tentando tirar a água com as mãos antes que a estrutura afunde de vez.

    ​Pois deve ser fácil e delicioso bradar ao mundo que o sol nasce para todos quando o seu tempo, o seu estudo ou trabalho e a sua estabilidade foram construídos a partir do esforço e da exploração silenciosa de outros corpos – quase sempre, femininos. O mérito que ignora os bastidores não é conquista; é apenas privilégio desmemoriado.

  • Caixinha de música

    — O que você faz aí?

    — Não está vendo?

    — Estou, mas por que aí?

    — Você não sabe?

    — Não!

    — O meu criador disse: “Vá e enfeite o mundo!”

    — Então você é um enfeite.

    — Sim.

    — Pra quem?

    — Pra todo mundo.

    — Mas não os vejo.

    — Quem?

    — Todo mundo.

    — Porque você me trouxe pra cá.

    — Então agora você é meu enfeite?

    — Sim.

    — Desça daí.

    — Para quê?

    — Vou mostrá-la a todo mundo.

    — Não entendi. Você não me trouxe pra você?

    — Eu te trouxe para ser.

    — Ser o quê?

    — O que você quiser.

    — Sozinha?

    — Inteira.

    — E você?

    — Se você deixar, serei inteiramente seu.

    — Eu desço?

    — Eu posso subir.

    — …

    — Onde estivermos, seremos.

    — Movimento e dança.

    — Ritmo e poesia.

    — Vento e voo.

    — Sintonia e sinfonia.

    — Vamos?

    — Começou.

  • Em Bocas de MATILDE

    Quando pequena, Matilde surpreendia a todos com sua estranha mania de engolir objetos. Chupetas, partes de brinquedos de borracha, bicos de mamadeira. Na escola impressionava colegas, engolindo canetas e lapiseiras. Era um dom. Todos diziam que no futuro ela trabalharia no circo como engolidora de espadas.

    A mãe culpava o pai por ter levado a menina no circo. Agora, essa novidade, engolidora de espadas…

    Matilde não vinha de uma família circense e nunca teve transmissão de saber artístico. Engolia e pronto. Aos poucos foi aprendendo a dominar as ânsias de vômito e os engasgos. A arte de engolir exigia treinamento para controlar músculos e reflexos do corpo. Sem dúvida, uma prática arriscada, se não houvesse preparação adequada. Para piorar, era autodidata e destemida.

    Com a mania de Matilde vieram também as dores de garganta, as inflamações. Examinada, teve suspeita de ulceração no esôfago. Mas nada nem ninguém conseguia afastá-la da tentação de engolir objetos.

    Sua mãe trancou todas as gavetas da cozinha que continham facas e garfos, como se isso fosse intimidar a filha. O desafio de encontrar outros artefatos cortantes a estimulava ainda mais.

    Na verdade, Matilde não aspirava tornar-se uma engolidora de espadas num circo. Apenas uma forma de se exibir e chamar a atenção.

    Na adolescência, com os namorados, ganhou fama no sexo oral e despertou a inveja e os ciúmes das colegas.

    Coincidência ou não, acabou solteira. Nenhum namoro foi adiante, apesar da reputação favorável do seu fetiche.

    Com o tempo, Matilde conseguiu o domínio de engolir cada vez mais fundo as coisas, com a inserção progressiva de objetos lisos, tubos e bastões de metal, alongando a língua, relaxando a garganta e controlando a respiração. Nessa época, também retirou as amigdalas.

    Por mais bizarro que possa parecer, tinha dificuldade em tomar comprimidos. Preferia esmagá-los com uma colher. Outra excentricidade era o cacoete de produzir um ruído constante, emitindo sons guturais com a garganta.

    Hospitalizada repetidamente para tratamento de feridas na faringe e inchaços na língua, finalizou seus dias solitária num instituto psiquiátrico. Impressionava a todos sua curiosa habilidade em engolir sapos.

  • Quantos anos cabem no breve espaço das 03h17 de um amanhecer de sexta-feira?

    Quantos anos cabem no breve espaço das 03h17 de um amanhecer de sexta-feira? Há passos no eco, pisos empoeirados da semana passada, taciturnos. Há o Cachambi, que dorme, às três e dezessete da manhã, já dezoito. Há o streaming para quem, como eu, de tão cansada, não dorme. Há um filme pandêmico, dor humana, tristeza, perda do olfato. Num streaming — todo o meu amor aos streamings que nos fazem companhia junto a uma Hocus Pocus de 500ml, 8.5% de teor alcoólico, promoção no Carrefour. Há a camisa verde oliva com cheiro do improvável. Lençóis limpos, travesseiros e a camisa verde que não reflete a cor dos olhos, mas do destino. Nada além, a pele é o único resquício, entre tecidos, aromas e memória.

    — Toc-toc

    — Quem bate?

    — Sou eu

    — É Tarde, entra

  • Essa vai para a coleção

    Meu armário abriga uma coleção curiosa: caixas vazias, sacolas elegantes e potes de vidro sem função definida.

    Em comum, todos carregam a mesma etiqueta imaginária: “Pode ser útil um dia.”

    Tenho uma verdadeira compulsão por colecionar inutilidades que considero superimportante guardar.

    Vai que surge um presente de última hora.

    Vai que resolvo organizar a papelada.

    Vai que abro uma loja de embalagens recicladas.

    Vai que descubro um talento oculto para Personal Organizer e transformo meu armário num caso de sucesso.

    Tenho potes suficientes para iniciar uma pequena fábrica de conservas.

    O detalhe é que não faço conservas.

    Nem pretendo.

    Guardo porque vai que preciso.

    Mas, vejam bem – isso não quer dizer que sou aquele tipo de pessoa que não desapega.

    Sou perfeitamente capaz de descartar um tênis velho, uma roupa que não serve mais, um saco Zip-Loc usado uma única vez…

    Humm… ato falho.

    O Zip-Loc não.

    É só lavar e reutilizar.

    A verdade é que não guardamos caixas, potes ou sacolas.

    Guardamos futuros imaginários.

    Meu armário já não fecha direito, mas sigo firme.

    Afinal, quando chegar o grande dia em que eu precisar de uma caixa dourada, três potes decorados e seis sacolas de papel reforçado ao mesmo tempo, estarei pronta.

  • Dia dos Pais

    Um dia em que se homenageiam os meninos que se tornam homens e, um belo dia, se descobrem pais.

    Descobrem-se pais e não há nenhuma alteração fisiológica!

    Não sentem o seio intumescer segundos antes de o bebê chorar. Não têm um corpo que lhes avise, de maneira tão evidente, que chegou a hora de alimentar a cria. Não amamentam, não experimentam as mesmas transformações físicas da gestação e do nascimento.

    As mães contam com uma espécie de alarde da natureza.

    O corpo muda, os hormônios se alteram, o leite chega, o bebê chora e alguma coisa responde.

    E eles? Nove meses de espera sem que se altere em seu corpo nem um fio de cabelo?

    Os pais que lutem!

    Mas será mesmo?

    Pode ser que haja escondido em algum recanto da fisiologia masculina, um mecanismo que desperte o homem para a paternidade?

    Algo que desperte o instinto paterno?

    Ou pai é coisa que se aprende?

    Talvez alguns amanheçam pais.

    Outros entardeçam.

    Alguns, quem sabe, só escureçam pais.

    E há aqueles que vão se tornando pais devagarinho.

    No primeiro colo meio desajeitado. Na primeira fralda colocada ao contrário. Na madrugada em que caminham pela casa com um bebê que não para de chorar. Na febre que assusta. Na mão pequena que procura a sua para atravessar a rua.

    Ahhh… A natureza não lhes deu o leite, mas deu-lhes braços, inteligência, senso familiar, de proteção, de valor e de clã.

    E, depois, cabe a cada um decidir o que fará com tudo isso. Que pai será…

    Pode ser que a paternidade esteja justamente aí: menos no que desperta espontaneamente no corpo e mais no que um homem escolhe construir todos os dias.

    Sou afortunada.

    Tive um bom pai.

    O pai dos meus filhos foi um bom pai.

    Meus netos têm bons pais.

    Talvez por isso, depois de começar esta crônica desconfiando um pouco da natureza e bastante dos homens, eu chegue ao fim quase boazinha.

    Quase.

    Porque pai também não precisa de santificação. Precisa ser! 

    O olhar, a escuta, a atenção e a presença serão, com certeza, aquilo que seus filhos guardarão de você. E, um dia, talvez contem aos próprios filhos, que contarão aos seus…

    E, na beleza deste domingo de sol, 9 de agosto de 2026, quero, desejo e proclamo ao mundo:

    Feliz Dia dos Pais!

  • Um gato chamado Bartolomeu

    Não, eu não vou arrumar um gato. Nem em sonho. Mas uma das minhas filhas sim. Quer dizer, essa é a intenção dela.

    Essa semana ela me procurou com essa conversa. Veio com aquele papinho sinuoso, típico de adolescente que quer algo. Se seria possível, quando ela se tornasse mais responsável, ter um gato.

    Ela tem 14 anos e tem um quarto só dela onde deixa uma bagunça razoavelmente organizada. Com as coisas da escola é bem responsável, não deixa nenhuma tarefa por fazer e muito menos de estudar quando é necessário.

    Cuida do seu bilhete único, sabe onde está sua carteira de identificação nacional e é incapaz de voltar da escola tendo deixado algum rastro, como livro, caderno ou casaco.

    Enfim, para uma garota de 14 anos ela é até responsável. Não disse isso a ela, claro. Se admitir ela vai querer o gato ontem e não em três anos.

    Sim, o prazo que ela considera que estará mais responsável e capaz de ter um bicho só dela é aos 17 anos. Perguntei porque e ela me disse que já terá votado pela primeira vez e estará às portas da universidade.

    Ponderei que justamente por isso que deveria não pensar em ter o gato ainda. Ela me questionou: se posso votar para prefeito posso ter um gato. E eu repliquei que a questão não tem a ver eleição mas sim com a preparação dela para entrar na universidade. Aos 17 anos ela estará no terceiro ano do médio. Ou, como diziam os antigos, na marca do pênalti.

    Ai comecei aquela ladainha paterna. Que não vai ser uma época fácil, que vai precisar estar muito concentrada, que terá que estudar, que isso e que aquilo. Ela me escutou calada. Terminei e olhei para ela que me disse devagar: mas o Bartolomeu vai me fazer companhia.

    Suspirei e me calei pensativo. Daqui a três anos não vai ser fácil…

  • Traídos

    Chamava-se Marisa, era casada e não desgostava dessa condição. O que lhe era mais caro na vida, porém, era o seu sentimento de liberdade. Costumava comentar com Nébia, a amiga íntima: “Sempre fiz tudo, ou quase tudo, que quis”. A amiga contestava: “Tudo, não. Ninguém pode fazer tudo. E você é uma mulher casada”. Marisa reconhecia: “Claro, claro, sempre respeitei Eustáquio”. A outra: “E não está fazendo nenhum favor. Eustáquio é um homem corretíssimo. Além do mais, adora você”.

    De fato, o marido a amava e de uma maneira que se podia chamar servil. A rigor, endeusava-a, e tal idolatria chateava um pouco Marisa. Mas ela tinha a impressão de que, casada com qualquer outro, sentiria o mesmo rancor aborrecido que só tinha uma razão: o marido era o obstáculo ao que sempre lhe fora mais caro – a decantada liberdade. Então Marisa foi, aos poucos, alimentando a certeza de que não seria errado trair Eustáquio – pelo menos uma vez. Uma vezinha só, para provar a si mesma que podia, e depois voltava a ser-lhe fiel. Tinha a íntima convicção de que o marido, se por acaso viesse a saber, sofreria mas acabava perdoando-a. Não podia viver sem ela.

    Deu-se que um grupo de colegas de trabalho convidou Marisa para uma excursão. Iriam passar duas, três semanas na Europa. Entre eles estava Haroldo, que desde sempre lançara para Marisa uns olhos cobiçosos. A mulher sabia que ele a desejava, e fazia um jogo sutil de negaças; ria e logo ficava séria, para mais o confundir. Aproveitaria a viagem para em definitivo dar sinal verde a Haroldo. Nada mais poético, e nada mais prático, do que trair Eustáquio no Velho Mundo (decidiu que seria em Paris; a Cidade Luz sempre lhe parecera, nem sabia direito por quê, o ninho ideal para o adultério). Trairia em Paris, sim. O marido estaria longe de saber e a mulher deixaria o temor, talvez o remorso, do outro lado do Atlântico.

    Ocorreu a viagem e Marisa regressou um mês depois. Trouxe para Eustáquio um belíssimo cortador de grama (ele tinha obsessão pelo jardim de casa), comprado numa loja bem próxima do motel onde se encontrara, mais de uma vez, com Haroldo. Por sinal, depois da viagem Marisa não quis mais conversa com o colega. Insatisfeito e despeitado, Haroldo contou a aventura a um amigo, pedindo-lhe sigilo. O mesmo fez esse amigo com relação a outro – e assim, no final das contas, todos na repartição sabiam sigilosamente da aventura de Marisa.

    Foi quando um dos amigos do casal apiedou-se de Eustáquio e resolveu contar-lhe tudo. Numa noite redigiu a carta, em letra de forma, e enviou-a no dia seguinte.

    Na tarde desse dia, Marisa voltava satisfeita das compras. Vivia uma espécie de absoluto espiritual, pois tinha do casamento o conforto, o serviço, a companhia – mas não tinha o dever nem a prisão. Pouco depois, entrando em casa, viu Eustáquio sentado na mesa da sala, cabisbaixo e chorando. Ao lado, um papel de carta. Perguntou de que se tratava. “Leia”, disse o marido. Antes que ela terminasse a leitura, perguntou cheio de esperança: “É mentira, não é? Diga que é mentira”. Marisa respondeu com tranquila dureza: “Não. Foi verdade”.

    Eustáquio então pediu-lhe a carta, rasgou-a em vários pedaços. E de repente, como se acordasse de um pesadelo ruim, exclamou: “A grama! Esta semana ainda não aparei”. Foi à despensa e tirou o cortador importado. Pouco depois, com uma aplicação de funcionário, debruçava-se sobre o jardim.

    Marisa então percebeu que o que fizera fora inútil. Não rompera padrões, não desafiara ninguém – não havia, de fato, a quem desafiar. Olhou o marido operando o cortador e teve a impressão de era a sua liberdade que ali, a poucos metros, rastejava na grama. E sem mais orgulho ou maldade, antes com uma pena que se estendia a si mesma, deu-se conta de quanto os dois se mereciam.

  • Preservação da dignidade

    Em 20 de dezembro de 1943, o bombardeiro americano B-17 “Ye Olde Pub”, severamente danificado, pilotado por Charlie Brown, de apenas 21 anos, retornava de uma missão sobre a cidade de Bremen, na Alemanha. A aeronave tinha dois motores destruídos, sistemas avariados, vários tripulantes feridos e um artilheiro morto. Voando como um “straggler” (retardatário), isolado de sua formação, o bombardeiro era um alvo fácil. Em um determinado momento, o piloto alemão Franz Stigler, um veterano de 28 anos com 27 vitórias aéreas, decolou em seu Messerschmitt Bf 109 para o que seria mais um abate. Ao se aproximar do bombardeiro americano, Stigler viu através dos buracos na fuselagem, um tripulação ferida e indefesa, e ao invés de atirar, Stigler tomou uma decisão surpreendente. Ele emparelhou seu caça com o bombardeiro, gesticulou para que Brown pousasse e se rendesse e, diante da incompreensão dos americanos, assumiu um risco imenso: escoltou o inimigo para fora do território alemão, voando em formação cerrada para que a artilharia antiaérea não atacasse o B-17, confundindo como uma escolta alemã. Ao chegar ao mar do Norte, Stigler saudou Brown e retornou à base. Os dois pilotos só se reencontraram quase 50 anos depois, em 1990, quando Brown, após décadas de busca, publicou um anúncio em uma revista de aviadores. Tornaram-se grandes amigos e morreram com poucos meses de diferença, em 2008.

    Para Stiegler, a dignidade não é um dado, mas um processo de elevação através da sublimação das pulsões. Stigler não viu apenas um alvo, mas seres humanos feridos e agonizantes. Ele os equiparou a pilotos em paraquedas, indefesos, e merecedores de clemência sob o código de honra que escolheu seguir. Stiegler, ao invés de ser um mero instrumento da máquina de guerra nazista, afirmou sua autonomia ética. Transformou o encontro com o inimigo abatido em uma oportunidade para agir conforme seus próprios valores, mesmo correndo o risco de ser fuzilado por traição. O reencontro dos pilotos décadas depois e a amizade que formaram, simbolizam a recuperação da dignidade coletiva. A história de Stigler e Brown é a encarnação histórica do conflito entre a pulsão de rebaixamento e a capacidade de elevação do ser. É a prova de que, mesmo sob o jugo de uma máquina ideológica e militar, o ser humano pode resistir à racionalidade e preservar um núcleo de dignidade. Esse ato de misericórdia do piloto alemão, nos céus da Segunda Guerra Mundial, pode ser interpretado como uma manifestação prática da “elevação” ética humana. No próximo domingo, comemoramos a ressurreição de Cristo, após sua morte na cruz, simbolizando a vitória da vida sobre a morte. Nessa Páscoa, procure encontrar a quem voce possa salvar, como fez o sr Browm, mesmo que seja somente ouvir as lágrimas de sofrimento do outro.

    Feliz Páscoa

  • As meias rotas do Presidente

    Não raramente, atribuímos a personagens importantes da história oficial qualidades inigualáveis e sobre-humanas. Altas autoridades, políticos de grande projeção, empresários bem-sucedidos, artistas de renome, todos eles adquirem um status que os coloca vários degraus acima da grande massa dos mais vis mortais. A fama, a riqueza e/ou o poder de que desfrutam obrigam-nos a projetar em suas figuras as características necessárias para que a atração e o frenesi que costumam provocar sejam, devidamente, justificados e legitimados.

    Ainda no começo de minha carreira profissional — quando já não estava mais tão deslumbrado com o jornalismo, mas também não me indispunha com facilidade para aventuras investigativas -, fui designado por minha chefa para cobrir a visita de nosso então Presidente da República a um país árabe. Quando fui comunicado de tal missão, devo admitir que um misto de receio com satisfação tomou conta de mim. Afinal, para alguém acostumado a trabalhar como setorista em Brasília, mais afeito a questões de política doméstica do que de política exterior, o desafio da empreitada não poderia passar despercebido. A viagem do Presidente poderia, todavia, significar meu primeiro passo numa tão sonhada carreira como correspondente internacional.

    Como nunca fui uma exceção às regras que melhor caracterizam nossa sociedade, em geral, e nossa psique, em particular, posso dizer que eu também sofria daquela idealização pueril e ingênua que nos acomete com certa frequência. Aquele personagem, em especial, por ocupar o mais alto cargo representativo de nossa República, não poderia incitar no ainda inexperiente profissional nada menos do que temor e deferência. O problema é que, enquanto o respeito abria portas, o receio criava uma barreira instransponível entre nós dois. Não ousava fazer a ele perguntas um pouco mais incômodas não por falta de oportunidade ou por parca relevância. Estou certo de que as questões que me vinham à mente eram pertinentes e condiziam com o que meu público buscava saber. O que me imobilizava, porém, era imaginar aquele ser humano sobre um pedestal supremo e inatingível.

    Aos trancos e barrancos, tentei lidar com essas limitações da melhor forma possível. No fundo, estava ciente de que as perspectivas de curto prazo não eram nada animadoras. Até que, durante nossa estadia no exterior, o Presidente foi convidado a visitar uma mesquita na capital daquele belíssimo país. A princípio, apenas mais um compromisso protocolar na atribulada agenda de um chefe de Estado. Apesar do laicismo do país visitado, tal gesto poderia, de alguma forma, consolidar a almejada aproximação dos nossos potenciais clientes árabes. No entanto, o detalhe que nosso governante desconhecia é que, ao entrar na mesquita, pediriam a ele que retirasse seus sapatos. Assim, o que seria um pormenor transformou-se, rapidamente, numa fonte de embaraço e de comicidade.

    Talvez por desmazelo, talvez por descuido… Não importa! As meias do Senhor Presidente da República estavam rasgadas! Não posso cometer a difamação de dizer que estavam sujas! Isso, não! Por uma questão de ética, não costumo aumentar o teor das fofocas. Digo, das notícias! A cena foi, levemente, constrangedora, mas não chegou a gerar um incidente diplomático. A verdade é que aquelas meias estavam muito esburacadas, especialmente a que tentava, em vão, cobrir o pé direito! E para deleite de todos os fotógrafos presentes, os dedos daqueles pés quase desnudos pareciam encolher-se de vergonha, como se aquela mínima contração pudesse mitigar o efeito visual da insólita cena.

    — Por que não me avisaram que eu teria de ficar descalço?! — perguntou a seus assessores um furibundo e envergonhado, mas ainda educado, chefe de Estado.

    Após o primeiro impacto, o experiente e matreiro político teve a habilidade suficiente para fazer daquele imprevisto mais uma oportunidade de aproximação de seus interlocutores árabes. Como um verdadeiro sem-vergonha, quebrou o protocolo com risadas e piadas, dando àquela situação um elevado grau de informalidade e de descontração. Mas, para mim, aquele acidente de percurso do homem mais poderoso de nossa República foi um autêntico divisor de águas. Reveladoras da simplicidade mais humana e comezinha, aquelas meias rotas e escangalhadas esfacelaram o muro que se erguia entre mim e o Presidente. E se, em minha mente, aquele poderoso homem caía, fragorosamente, de sua base celestial, quem mais poderia incutir medo e timidez neste não mais jovem correspondente internacional?

    Hoje em dia, não sei se o agora ex-Presidente continua descuidado com suas meias. Mas o que ele me ensinou, ainda que involuntariamente, segue guardado como um antídoto contra esses medos que habitam em nosso inconsciente. Vez ou outra, devo lembrar essa peculiar história a fim de superar meus bloqueios internos. No fim das contas, somos todos feitos da mesma matéria! Mas, então, onde estaria nosso diferencial? Creio, pois, que ele deve estar apenas na espirituosidade com que revelamos nossa face mais humana diante de terceiros, sendo eles estranhos ou não.

  • Sobre voar

    — Desaprendeu?

    — desaprendi.

    — mas você era tão…

    — Era! Muito tempo atrás. Não sou mais.

    — Tem certeza? Isso a gente nunca esquece. Basta uma vez pra nunca mais esquecer.

    — Não foi só uma vez…

    — Não?! Bem, comigo… Pensei que tivesse sido apenas comigo…

    — A primeira sim, mas houve outras. Tantas… Tão boas, tão lindas… O que foi?

    — Nada! Quer dizer… nada! Nada não.

    — Ficou com ciúmes?

    — Sim.

    — Não fique. A primeira nunca esquecemos.

    — Não?! Então por que desaprendeu?

    — Porque…

    — Por quê…?

    — Sei lá! Fui crescendo. Ficando mais pesada. Deixando de lado.

    — Por quê?

    — Você nunca parou?

    — Não. Por que pararia?

    — Mas você também cresceu. Também ficou mais pesado…

    — Cresci.

    — Então?

    — O quê?

    — Não ficou mais difícil?

    — Não.

    — …

    — Não havia como.

    — …

    — É o meu sentido. É para o que existo.

    — Como sabe?

    — É lógico!

    — Não entendi.

    — É lógico!

    — Tá! Agora me explica.

    — Temos asas.

    — E daí?

    — Como e daí? Temos a-sas!

    — Aff!

    — Qual o motivo de termos asas se não for pra voar?

    — … Você acha?

    — Meu Deus! Tenho certeza.

    — Mas também temos pés. Podemos andar.

    — E a-sas!

    — …

    — Cadê as suas? Elas eram tão bonitas! Tão lindas, cheias de plumas…

    — Não são mais as mesmas. Mas as suas estão mais bonitas, mais definidas.

    — Eu voo.

    — Eu cresci.

    — Você cresceu e desaprendeu.

    — Cresci e desaprendi a voar…

    — Não! Cresceu e desaprendeu a ser.

    — A ser?

    — Sim.

    — A ser o quê?

    — Feliz.

    — …

  • Se eu me perder

    O silêncio cresceu com a sombra mais densa. Então, os fones acenderam as lâmpadas incandescentes da plataforma, que pousava, num instante eterno, sobre a água. Era um simples trajeto de retorno à casa: sobre rodas que não tinha controle, observava o horizonte em que nada tinha fim, tampouco início. De repente, uma centelha flutuou acima, no compasso de seu coração. 

    Itália.

    Fevereiro.

    Março.

    Aquele abraço…

    “Um simples caso de sorte genuína“, alguém disse.

    Sorte como híbrido entre sortilégio e providência; qual linguagem explica o que está diante dos olhos? O veículo estremece. Qualquer um percebe.

    O passar balança o assento; fora, o ritmo é outro. E então o tempo aniquila-se e desrelativiza anos em décadas, gerações em séculos. “Faça um pedido e levante os pés ao passar sobre trilhos de trem“, ouviu dizer.  Atenção ao trecho da rodovia que marca o passado na alma das cargas cheias de fumaça em sintonia constante às despedidas. Despir-se em idas. Voltar, outro.

    “Faça um pedido“. Hoje. De novo. O mesmo pedido. Sempre.

    Predestinação como resposta a um chamado interno, lançado através das partículas desprendidas da luz de estrelas silenciadas.

    Um brilho cego. Partes que não são os pedaços de um todo, mas o próprio todo. Trechos intermináveis reconhecendo-se pelo caminhar. A boa e desejada sina, lapidada através dos sussurros internos. Nenhum sussurro passa incólume pelo universo.

    Ali, à sorte das rodas que a levavam de volta para casa, estava o que já havia chegado:

    duas pequenas marcas, dois pólos de uma só coisa, duas pintas. Marcas de nascença, tomadas de dois pinos espalhadas em corpos-

    espelho. Baco e Eros na certa apostaram alguma deliciosa ousadia, arremessando as marcas ao tabuleiro da Terra:

    “Ache-o-par“, decretou Baco, erguendo mais uma taça de vinho tinto. 

    Mas o sabor era de um negroni sbagliato.

    As pintas reconheceram-se primeiro: eram dois pontos. No achar, perder-se . . Não mover-se: ninguém se move de si. 

    Escreveu-me, nesta manhã, o vidente e anti-cético Instagram:

    “If I get lost, return me to Italy.”

  • SOLIDÃO

    Do nada, ela resolveu se isolar do mundo. Sumir do mapa. Escafeder-se. Largar tudo de vez. Pensou numa viagem solitária de barco pelos oceanos. Mas Yolanda nem sabia nadar. Aposentada pelo INSS, seu último emprego foi como caixa do Banco do Brasil. Lidou com o público e com a absoluta contrariedade de fazer isso. Tinha dias que parecia explodir. Controlou-se à base de comprimidos e orações.

    Não tinha mais ninguém, nem amigos nem família. Sua única filha, formada em Economia, tinha casado e se mudado para Boston, onde o marido trabalhava. Yolanda, ainda uma mulher atraente, havia se separado e não considerava, por ora, novos relacionamentos. Fechada para balanço, costumava dizer.

    A ideia era mesmo desaparecer. Alugou seu apartamento no Grajaú e mudou-se para Macuco, município de Cordeiro, na região serrana. Um pequeno sítio no meio do nada, cercado de jequitibás-rosa e muito mato. Um refúgio sonhado, longe da maçante humanidade.

    Yolanda sabia que o passar dos anos cobrava seu preço. As pessoas comentavam que envelhecer com alguém era mais divertido. Você podia compartilhar dores, aflições, limites e remédios. Na solidão da roça, não teria com quem conversar ou se aborrecer. Mas isso não a preocupava.

    Ainda não tinha vivenciado, na plenitude, a reclusão irrestrita. Uma coisa era não se ter vida social, fugir das aglomerações, da vizinhança impertinente, dos grupos de whatsapp, outra era o mergulho no abandono e no isolamento completo.

    A favor de sua ida para o sítio, havia a afinidade com a natureza. Yolanda adorava plantas. Em sua antiga casa, no Grajaú, colecionou vasos com orquídeas, samambaias e suculentas. Um problema a ser enfrentado seriam os mosquitos. Em especial, pernilongos. Na verdade, qualquer tipo de inseto. Nem precisava ser barata voadora, uma mariposa já causava pânico.

    Para se viver na solidão seria preciso aceitar a própria companhia. Yolanda achava que gostava à beça de si mesma. Não havia necessidade de estar convivendo com alguém. Sem contar o lado econômico: as principais despesas resumiam-se a alimentação e livros. Ela adorava ler e era boa cozinheira.

    Outra delícia era não haver televisão, sinal para a Internet e o celular ficar desligado. Bênçãos. Teria, enfim, seus ansiados momentos de autoconhecimento, foco e bem-vindo descanso.

    Com duas semanas no sítio, Yolanda pirou. Ouvia vozes, deu para gritar do nada e ter dificuldade para dormir com o silêncio opressivo. Também não havia supermercado perto e faltavam itens básicos, como sorvete de creme com nozes, iogurte grego e castanhas do Pará. Os malditos cachorros do sítio ao lado, volta e meia, invadiam seu quintal. Yolanda sempre teve medo de cachorro.

    Os dias se arrastavam. Quando chovia ficava tudo enlameado e se necessitasse de atendimento médico, o hospital ficava a quilômetros. Ela pensava seriamente em retornar à agitação urbana, ao progresso massacrante e à chatice das relações interpessoais. O sítio era bucólico, a natureza convidativa, a solidão plena, mas havia também um enorme vazio que ela não conseguia entender. Era como se tivesse o homem mais bonito do mundo, mas não houvesse ninguém para contar.

    Atualmente, Yolanda reside no Grajaú e divide o apartamento com uma ex-colega dos tempos do Banco do Brasil. De vez em quando, gosta de ficar isolada.

  • POLICARPO

    É Policarpo, seu país não veio, não vingou…

    A bandeira que tremula na haste não conta mais as glórias do passado (se é que um dia já contou) e tampouco vislumbra as glórias do presente…

    Sua pátria, escondida entre farrapos, negociações e falsas intenções, desmorona todo dia. Todos os dias!

    No trabalhador que sua e sangra e não descansa!

    Na esquina em que se perde uma outra infância!

    Nas escolas abandonadas e no futuro dos jovens.

    Na promessa quebrada em que não há mais lembrança!

    É Policarpo… Você sonhou um país que nunca existiu!

    Aqui, o que plantam é mamata, rachadinhas, picuinhas, um arremedo de Brasil.

    Um país que maltrata professores e livros!

    Um país que não guarda a sua própria memória e vive errando a sua história.

    Um país que idolatra políticos e influenciadores e desvaloriza conteúdos e autores.

    É Policarpo… o avanço não veio. Não veio a utopia! E você não tem um cavalo que fuja a galope!

    Tudo acabou! Tudo fugiu! Tudo mudou! E seu nome não é José!

    Se você refizesse, se você reclamasse, se você mudasse, se você esquecesse… Mas você não está no poema de Drummond!

    Você acredita em um país que jamais existiu!

    Aqui, os piores são o exemplo. Os canalhas, os burocratas, os pilantras e sanguessugas ditam a moral! E, contra esse mal, parece que não há muito o que fazer! Desfazer?

    Aqui, quem tem padrinho tem sucesso e “reconhecimento”!

    Quem trabalha de verdade precisa trabalhar até a exaustão para se iludir com o crescimento!

    É Policarpo… O melhor mesmo é sonhar. No sonho, o que nos resta, é possível ver e viver um outro país. É possível criar Pasárgada!

    No sonho, é possível escrever uma nova história e, nesta história criada, pintar rostos diversos e sorrisos singulares que vão palmilhar muitos caminhos.

    Nestes caminhos, a palavra Brasil terá, enfim, o significado de futuro…

  • Amém

    Por debaixo da porta, a convocação. Primeira chamada às 19h.

    Salão lotado, ordem do dia sobre as cadeiras.

    Quando viu “3º item — sorteio das vagas”, Severo percebeu que cometera um erro grave: não tinha jantado.

    Leitura da ata.
    — Amém.
    Leitura do orçamento.
    — Amém.
    Leitura da troca do capacho.
    — Amém.

    …

    Sorteio das vagas. Aí o inferno começa.

    — Alguém tem algo a colocar antes do sorteio?

    A senhora do 1º andar logo se manifesta: — Temos que estabelecer as prioridades. Tenho um problema crônico de coluna.

    Severo arregalou: — e o Hip-Hop?

    — O senhor do 18º: esse motivo não justifica. Eu, por exemplo, tenho dificuldade para enxergar.

    Severo ri: — Hoje está enxergando bem…

    A moradora do 2º andar se levantou, exaltada: — Nada disso! Tenho três crianças pequenas que chegam cansadas.

    Severo ia contestar.
    Suspirou fundo.

    Severo olha o relógio.

    Pensa no sanduíche.

    Sente cheiro imaginário de pizza.

    O estômago votou a favor do sorteio.

    — Amigos, sorteio é sorteio e vale para todos.

    Aos gritos pula a encrenqueira de plantão: — Você diz isso porque aluga a sua vaga, assim é fácil!

    Motim a bordo.

    Síndico e administradora se entreolharam.
    — Batem na mesa.

    — Está decidido – usaremos um software de sorteio aleatório dos apartamentos e de suas vagas.

    O grupinho do fundo, deu um pulo: — Somos totalmente contra!

    — Não é confiável.

    Recomeça a discussão.

    Severo pega o celular: — Jantar já era. Melhor pedir um delivery.

    Demora só 40’…

    Finalmente, silêncio.

    O software sorteia.

    Prenderam a respiração.

    O síndico anuncia: — Parabéns.

    Nada mudou. As vagas permaneceram exatamente as mesmas.

    Amém!

    Cadê o entregador de pizza?

  • A loja do Joca

    — Oi! Vó do Digo, Vó do Digo! Eu tenho uma loja. Você quer comprar o que eu vendo?

    — Mas onde fica essa loja? Eu pergunto, com a maior naturalidade.

    — Peraí. Vou lá buscar.

    E saiu saltitando, feliz da vida com a possibilidade de fazer mais uma venda.

    Essa é a segunda empreitada comercial do Joca.

    Antes disso, foi caubói. Tinha cavalo, chapéu preto e colete de franjas.

    Depois virou dono de um caminhão de gado.

    Também foi tratorista.

    Mais tarde resolveu abandonar, por algum tempo, as atividades ligadas ao campo e entrou para a área da tecnologia.

    Nessa época quase desapareceu. Já não era visto com a mesma frequência de sempre.

    Acho que descobriu rapidamente que telas não conversam.

    E o Joca gosta é de gente.

    Gosta de contar novidades, perguntar da vida dos outros, dar notícias, ouvir histórias.

    Logo abandonou a carreira tecnológica e voltou ao convívio humano.

    Mas, se depender da herança, tanto da genética quanto da financeira, ainda acredito que acabará no setor rural.

    Foi então que ouvi:

    — Mãe, o que você está fazendo aí? Venha. Nós já vamos almoçar.

    — Já vou. Estou esperando o Joca.

    Lá vinha ele, carregando sua loja.

    — Tia, você também quer comprar?

    — Quero. O que você vende?

    Ele respondeu com toda a naturalidade do mundo:

    — Eu vendo lápis… ou melhorias.

    Eu esperava qualquer coisa. Mas desta vez, confesso que fugiu ao meu alcance! O que ele queria dizer com “lápis e melhorias”?

    Abriu uma caixa de papelão, colocou-a sobre a cadeira e levantou a tampa.

    Lá dentro havia três ou quatro lápis.

    Olhei para a caixa e perguntei:

    — E as melhorias? O que são?

    Sem dizer uma palavra, pegou um apontador.

    Ergueu-o diante de mim, como quem apresenta uma grande invenção.

    — Se você já tiver um lápis, eu vendo só a melhoria.

    Fez uma pequena pausa.

    — Mas, se você não tiver, eu vendo o lápis… e dou a melhoria de graça.

    Na lógica dos adultos, aquilo talvez nem fizesse sentido.

    Na lógica do Joca, fazia todo.

    Porque, para ele, um lápis nunca é apenas um lápis.

    Sempre pode melhorar.

    E talvez seja justamente isso que a infância saiba fazer como ninguém: enxergar melhorias onde nós só vemos um apontador.

  • Vira-lata Escudeira

    Há exatamente dois anos, no dia 21 de julho, adotei uma rebolativa de cambitos finos. No recesso profissional fomos à feira de filhotes. Queríamos adotar uma cadela como companheira à nossa Pretinha, já idosa, que entristeceu com a morte da parceira.

    Domingo invernoso ensolarado. Descemos a Serra contando o tempo. Chegamos com meia hora para a feirinha acabar. Não planejei e nem nunca quis ter um cão. Elvis, o Canário Belga, como já contei, esbarrou em minha caminhada na calçada. Não voava, só corria e pulava. Como cantava! Parceiro de felicidade por cinco anos. Sofri. Estanquei vontade de outro bichinho. Mas o destino nos prega peças. É pretensioso.

    Na Feira, avistei uma cadelinha de olhos brilhantes, cílios castanhos e orelhas caídas, nos braços da Veterinária. Encantei. Não tenho palavras para explicar. Não sei o que me deu. Me aproximei, encantada com aquele olhar. Está para adoção? É fêmea? Emoção estranha me apoderou. Senti o coração a comemorar em saltitos. Um afeto brotou instantaneamente. Que lindinha! Posso pegar? Tomei-a nos braços. E assim Mafalda, com dois meses de nascida, entrou para a família.

    Dois anos após a adoção ainda não consigo explicar aquele encontro. Mafalda parecia estar me esperando. Só ela restava da ninhada, encontrada abandonada em uma rua de Teresópolis. Ambas viemos para o Rio de Janeiro. Eu de Petrópolis e ela de Teresópolis. Descemos a Serra para o encontro mágico. Ser tão pequeno e indefeso que emana só felicidade. A propósito, também adotamos a Nina para ser amiga da Pretinha.

    Agora tenho vários pedacinhos de alegria durante o dia. Mafalda é minha fiel escudeira. Adora coco seco, ovo cozido e olhar a rua pelo vidro da varanda latindo para os cães que passam. Uma fofoqueira! Sabe quando não estou bem, quando estou para chegar do trabalho e vai comigo para todos os lugares e viagens. Acordo com os olhinhos dela a me darem bom dia. Ao chegar do trabalho, por mais que eu esteja cansada, zangada com o trânsito, tudo se desfaz quando a vejo. Ela me enche de lambeijos e não sossega enquanto não lhe dou carinho. Sou grata por esta artimanha do Universo chamada AMOR.

  • Sem direção

    Os humanos mais valentes creem que a solidão não vá corroer seus desejos, ao vagar pelo mundo sem olhos para fitar, que não é a forma mais sutil de ser gente. Passar minutos apreciando os outros se amontoarem em si, vagando em suas ideias ou cruzando pelas ruas frias e úmidas, pode nos trazer uma sabedoria solitária. 

    Porém, é uma companhia quase ausente de um par de mãos, que poderiam acalentar um nobre olhar. O oposto a esses instantes se percebe na vivência amorosa de quem se doou por outra vida.

    Quanto pode pesar para um pai no leito de morte de seu filho? A mão que a poucos minutos pressionava com o amor de um abraço, foge para o silêncio eterno. 

    A criatura foi gerada do desejo de um ser, que acalentava sua forma de manter-se vivo no filho, e nos breves instantes seguintes, o rumo muda o tempo.

    A vida inteira acreditamos que temos tempo, mas depois disso, descobrimos que ele era escasso, e se foi entre os dedos.

    Imagine se você encontrasse a criança que você foi um dia, numa mesa de uma cafeteria, pronta para uma conversa leve.

    O que você acha que ela diria com franqueza sobre sua vida? Que parte mais lhe interessa saber? e qual dela esconder?

    A parte mais difícil não é partir, mas sim voltar ao lugar onde você estava. 

    Porque quando você retorna percebe que não trouxe de volta quem você costumava ser. Aquela versão de você, ficou para trás, perdida em algum lugar no tempo. Você caminha pelos mesmos lugares, pelas mesmas ruas, mas algo não se encaixa. 

    Os lugares ainda estão lá, intocados, como se o tempo nunca tivesse passado. E você olha ao redor e entende o quanto você mudou. As pessoas ainda veem a sua versão antiga, como se você fosse uma fotografia guardada na memória delas. Mas aquela versão de você, não existe mais, foi deixada para trás pelo tempo, e você se sente deslocado em um lugar tão familiar. 

    Talvez por isso, a parte mais difícil não é partir. É voltar. E perceber que você não cabe mais onde um dia pertenceu.

    Por vezes novas vidas nos lembram a peça de Samuel Beckett, “Esperando Godot”, onde dois homens esperam por alguém, que nunca chega. Nada acontece. E, ainda assim, tudo acontece. 

    Eles conversam, repetem gestos, esquecem o que disseram, pensam em ir embora, mas ficam, sempre ficam, como nós, esperando algum sentido, ou respostas. Esperando o momento que a vida finalmente começará. Ele nos mostra que a existência humana não é uma jornada épica, mas uma repetição de dias, hábitos, pensamentos e esperas que sustentam nossa própria angústia. 

    O vazio não é falta de conteúdo, é o próprio conteúdo. Essa espera pode ser pelo sentido da vida, ou pela felicidade futura que prometemos a nós mesmos, ou apenas uma desculpa para não confrontar o vazio do presente. No final ninguém é salvo, e nada é resolvido, mas mesmo assim eles continuam esperando. 

    Admitir que nada é mais angustiante do que imaginar que algo deva estar a caminho. “O Ser humano suporta o absurdo, desde que possa esperar por algo” (Samuel Beckett)

  • A tirania da coerência

    Desde cedo, acostumamo-nos a avaliar a coerência como uma elogiável característica a ser vista nas atitudes de algumas pessoas. Em sua ausência, as divergências entre o que se diz e o que se faz costumam ser apontadas com a virulência de que apenas os mais empedernidos moralistas dispõem. Mas uma vivência menos tirânica e intransigente pode sugerir que todos nós, sem exceção, refletimos em nossos atos as próprias contradições internas. Diferentemente de máquinas cuidadosamente planejadas, somos seres incompletos e em permanente mutação.

    Evidentemente, nem sempre essas transformações levam-nos às nossas melhores versões. Por mais que tentemos acreditar numa história linear de superação e de evolução, somos apresentados a desafios que nos fazem, volta e meia, sucumbir moral e animicamente. No entanto, as histórias de sucesso tendem a alcançar mais espectadores que os relatos de fracasso. Poucos parecem ser aqueles que nutrem uma honesta simpatia pelos derrotados e marginalizados. Em vista disso, creio ser suficiente contar o caso não de um errante qualquer, mas o de uma respeitada pessoa que viu na própria incoerência sua tábua de salvação. Conhecer um pouco de Rodolfo Pacheco ajudar-nos-á, pois, a rever alguns de nossos dogmas existenciais – essas supostas verdades absolutas que nos fazem ser tão casmurros e cabeças-duras.

    Dedicado pai de família, honesto e trabalhador, seu Pacheco era um típico pequeno-burguês a habitar uma de nossas efervescentes cidades. Proprietário de uma loja de materiais de construção, seu trabalho não lhe conferiu grande riqueza. Mas, apesar dos sacrifícios e da austeridade, ascendeu socialmente, chegando a ter uma vida razoavelmente confortável. Teimoso por natureza e sovina por convicção, não admitia que seus funcionários fizessem corpo mole durante o expediente. Se o trabalho era coisa a ser levada a sério, a disciplina acompanhava-o também em casa, onde sua esposa conseguia, muito raramente, amansá-lo. À relativa harmonia familiar sobrepunha-se, entretanto, a rigidez na criação de seu único filho. Seu Pacheco projetava em Diego nada menos do que a excelência, tanto em seus estudos como em seus afazeres fora da escola.

    — Ai de você, se um dia souber que anda fazendo coisa errada por aí! Não criei filho pra ser vagabundo! — prevenia um pai excessivamente preocupado com as armadilhas que rodeiam a juventude.

    Para satisfazer seu ego, seu Pacheco costumava comparar-se com os outros. Visava, especialmente, a família de seu antigo vizinho Antônio Ramires, pai de dois filhos adolescentes e servidor público. Se o trabalho do pobre vizinho gerava um certo desprezo, muito pior era o tipo de criação que a família Ramires dispensava para seus rebentos. Excessivamente permissivo e liberal, Antônio

    deveria, segundo o antiquado seu Pacheco, ser visto como um espantalho moral para todo e qualquer cidadão de bem, devidamente cioso dos perigos que ideias muito modernas representariam às famílias e à juventude.

    Essa discreta antipatia por Antônio foi, ao longo de muitos anos, alimentada por futricos e fofocas até que Diego revelou ter transcendido os limites de uma criação tão rígida. Tomado pela mais lancinante angústia, mas também pela mais resoluta coragem, Diego revelou a seus pais ser homossexual. Tamanho desplante não poderia, obviamente, passar sem maiores consequências! Onde já se viu?! O descaramento custou a antiga e superficial harmonia da casa. Não era mais possível dirigir a palavra tampouco o olhar àquele indecente jovem que vivia sob o mesmo teto do impoluto Rodolfo Pacheco! Se o amor não era costumeiramente expressado, nunca havia faltado conforto material àquele que outrora era chamado de filho.

    Por muitos anos, o suporte materno foi o único esteio que amparou o pobre rapaz. Sem perspectiva de mudança na relação com seu pai, Diego formou-se na faculdade e foi trabalhar no estrangeiro. Não sei dizer em qual país, mas atravessou o Atlântico – distante o suficiente para tentar esquecer o sofrimento que um pai pode causar a seu filho. Mas, com o tempo, até mesmo as pessoas mais inflexíveis e intransigentes são capazes de surpreender. De vez em quando, o grande espetáculo da vida demanda improvisos e correções, haja vista a limitada serventia de seus roteiros. Assim, foi por meio de um telefonema que Diego soube que seu pai, angustiado por uma doença terminal, desejava corrigir o maior de todos os seus erros.

    — Que bom que você veio, meu filho! Eu não poderia descansar em paz, se não pudesse te pedir perdão por ter sido tão injusto com você.

    Entre lágrimas e beijos, abraçaram-se pai e filho. Talvez pela primeira vez, Diego sentia como era ser amado por seu pai. Seu nervosismo e sua apreensão foram abafados pelo calor que emanava do peito daquele homem tão claramente debilitado, mas tão forte e impávido em outros tempos. Todo o sofrimento causado por anos de desprezo esmaecia diante do reconhecimento paterno de que estava errado. Não obstante o pedido de perdão ter chegado somente na véspera de seus derradeiros estertores, a sinceridade de tal ato transbordava dos olhos do enfermo pai. Diego sabia o quão difícil seria para um sujeito tão caturra e grosseirão como o pai reconhecer um erro e expressar seu amor. Nem mesmo a deprimente situação em que se encontrava reduziria a importância do último capítulo da história de Rodolfo Pacheco.

    Seu Pacheco foi, ao longo de praticamente toda sua vida, escravo de uma determinada visão de mundo. Suas ideias não admitiam o diferente, o heterogêneo, o sincrético. Não estava autorizado sequer a colocar em dúvida a valência moral de tal código de conduta. Mas seu último ato gravou na memória e no coração de seu filho que algumas de nossas incoerências podem ser salutares.

    Mais do que romper os grilhões de seus preconceitos, seu Pacheco conseguiu libertar-se, enfim, da tirania de uma inútil e nefasta coerência.

  • Semente

    A ladeira de paralelepípedos cria obstáculos até o ponto de ônibus. Mal amanhece, o café preto, o banho, a escova de dentes. A roupa, cuidadosamente separada no dia anterior, e a corrida de sempre para não perder a condução.

    O corpo magro vai contra o vento, e sopra uma canção nos seus ouvidos. Ela cantarola.

    No trânsito, procura na paisagem de sempre algum novo detalhe e, invariavelmente, encontra. Tudo está no mesmo lugar, mas seu olhar é novo a cada dia. Não tem consciência da própria sensibilidade. Emociona-se com o que é invisível aos outros e pensa que é normal. Chora com as histórias que lê, com os filmes a que assiste. Inventa histórias longas que nunca serão escritas e, à sua maneira, é feliz.

    Os cadernos presos ao corpo em sacolas improvisadas. Sonha. Tem medo de que tudo seja apenas imaginação. Imagina sempre.

    O vento sopra uma canção nos seus ouvidos. Escuta-a atenta. Apenas o tempo dirá se a canção é tudo, se as histórias vingarão, se o sonho virará realidade.

    Nesse vão, tece.

    As roupas não se ajustam bem. As calças são mais curtas que suas pernas finas. “Pescam siri”, ouve dizerem. O desgaste dos sapatos é coberto por graxa. Apesar de tudo, brilham.

    A vida também a lapida, a cada palavra que machuca, a cada desejo não realizado, a cada manhã em que tem um novo olhar sobre tudo.

    O vento sopra uma canção nos seus ouvidos. Nela há esperança e grandiosidade de sinfonia.

    A menina que desce a ladeira correndo, que tropeça nas pontas soltas dos paralelepípedos, não sabe que planta beleza, que seus sonhos são sombras de um futuro que ainda não viu.

    A menina não sabe, mas é semente da mulher que, em algum ponto distante no tempo, já existe.

  • VANILDA não será mãe

    Acho que estou me tornando uma sociopata. Só fico à vontade quando estou enfiada no meu mundo. Concentrada, recolhida comigo, sem interferências. Os amigos me perguntam, Vanilda, você não vai conosco? Vanilda, você está tão sumida; Vanilda, você parece uma velha… Odeio ser colocada contra a parede. Será que não veem que preciso de reclusão? Não é pela idade, mas por escolha.

    A minha fase antissocial começou depois que constatei que odiava crianças. Podia soar meio absurdo, não convencional, eu sabia. Seria um desvio? O mundo é hipócrita desde os primórdios. Conheci muita gente que também pensa como eu, embora se recuse a admitir. Ou receie as repercussões. Que encanto, como é bonitinha, fofinha, uma princesa, e eu, calada, pensava: que peste!

    Nada de dedos melados de chocolate, brinquedos espalhados pelo chão e, definitivamente, choro estridente no meio da noite. O mundo lá fora pode estar cheio de mães com seus filhos, às voltas com joelhos ralados e tendo de responder perguntas intermináveis: por que o céu é azul, por que chove, por que os dinossauros sumiram? Não é meu caso. Não quis ter filhos. Prefiro viver a vida sem a obrigação de perder a identidade pessoal. O paraíso foi feito para se aproveitar, nunca padecer. Não nasci para abnegações nem lido bem com cansaço extremo. Se não durmo oito horas diárias, fico um caco.

    Ainda há a singela responsabilidade de ser a “mãe perfeita”. Um padrão de exigência quase irreal, acompanhado de uma culpa constante em não conseguir atender às expectativas. Dos filhos e da sociedade. Não vim ao mundo para me candidatar a mãe do ano.

    Os amigos contra-argumentavam: Vanilda, se sua mãe tivesse pensado assim, você não nasceria… Pode ser, talvez tivesse sido até melhor. Mamãe – que Deus a tenha bem guardada – não foi essas coisas como genitora. Nessas horas, celebro Machado de Assis: não ter filhos para não transmitir a nenhuma criatura o legado da sua miséria. Grande Brás Cubas.

    Já associei minha fobia ao medo do parto. A adoção poderia ser uma alternativa, se o adotado – ou adotada – viesse maior de idade, saudável e independente.

    O normalizado, o aceito, o natural é você pensar a criança como pura, inocente e coisa e tal. Vai nessa. Crianças também podem personificar o mal. Vide “A Profecia” ou “O “Exorcista”. Todo o cuidado é pouco. Quem vê cara não sabe o que lhe advém.

    E o que dizer daqueles pirralhos mal-educados, mimados e sem limites? Quando me deparo com um desses, tenho gana de lhe torcer o pescoço. Viva Herodes!

    Minha irmã ficou um tempo sem falar comigo, porque no nascimento do meu sobrinho, comentei que ele era feio demais. Parecia com um rato-toupeira careca. O que fazer se o recém-nascido tinha a cabeça grande, dois fiapos de cabelo pela testa, o rosto inchado e a pele avermelhada, enrugada, coberta por uma gosma?

    Aprendi a lição. Para evitar problemas, não falo aos outros da minha aversão. Procuro disfarçar e, em casos extremos, consigo até ser falsa e sorrir, dizendo que o menino (ou a menina) é uma graça, um presente de Deus. Por dentro, gargalho.

    Trabalhei durante uns anos numa creche. Minha implicância com crianças vem daí. Com o tempo, fui perdendo completamente a paciência. Trabalho mais aborrecido e entediante cuidar de bebês. Ainda mais dos outros. Reivindiquei adicional por insalubridade. Fui demitida.

    Como todo assassino que retorna à cena do crime, passei num concurso para professora do primeiro grau de uma escola pública, onde fiquei até me aposentar. Minha metodologia pressupunha hostilizar e perseguir os diabinhos. Quanto mais me divertia, mais eles se apegavam e me respeitavam. Criança gosta de tirania, castigos, sanções e repressões. Tudo junto. O pulo do gato era na hora dos testes e resultado das provas: eu surpreendia e era benevolente. Nunca reprovava ninguém. No íntimo, pouco me importava se no futuro estariam aptos ou não para alguma coisa. Só não queria me aporrinhar. Já imaginou ter de voltar a vê-los um outro período? Melhor não.

    O meu isolamento trouxe consequências, admito. Não posso afirmar que minha vida deu certo, que acumulei afetos ou cativei o mundo. Sigo apenas vivendo e de quase nada me arrependo. O que me incomoda é nunca receber presentes ou ser lembrada no dia das mães.

  • Habite-se!

    Habitar é um estado de bem-aventurança. Nômades ou sedentários, sempre procuramos o nosso lugar. Talvez a casa seja a palavra mais valiosa do mundo, ao lado do amor.

    Vai muito além de um conjunto de paredes, cômodos e teto. O corpo também é casa, a pele que habita a superfície da sua cor, sente frio e calor; a alma que habita a profundidade, sente no exílio, falta e saudade.

    Polvos, moreias, tubarões, passarinhos, também têm seu ninho, sua toca. A casa é o destino da rua, para onde levamos nossas conquistas e feridas e de onde podemos sonhar.

    Como num casulo, nela, abrigamos nossos ovos de ouro. Seja própria, não própria ou até mesmo imprópria.

    A casa desde sempre fez parte do nosso mundo imaginário. A da infância nem se fala, fica marcada tal qual prensada por um ferrete em brasas. Perseguimos numa corrida de obstáculos, o ideal do doce lar, àquele lá de trás, perdido desde sempre, cujo endereço era a barriga de mãe.

    Habitados pelo inconsciente, passamos a vida desejando retornar a este estado de puro prazer e assim emprenhamos de significantes a nossa casa edificada, como se a sua posse nos servisse como uma insígnia fálica.

    De repente e por assombro, metem os pés nos nossos peitos, arrombando as portas. Escancara-se assim o nosso templo sagrado. A casa invadida, outrora pensada tão protegida, cai. Mas içada, remonta-se um novo castelo e assim deixamos a nostalgia ao relento, no sereno de um tempo que já passou.

    Habite-se! Na sua própria construção, nesse lugar de afeto que poderá ser habitado com segurança. Conceder-se a propriedade do seu desejo, pode ser o maior de todos os bens. Aproprie-se do seu nome próprio, este que lhes foi dado com tantas marcas e histórias. Autorize-se das suas palavras e narrativas, essa pode ser sim, a chave tão desejada. Mas antes de destravar a engenhosa fechadura, e adentrar na casa idealizada, assegure-se que a escavação foi profunda e que a esculpiu com delicadeza. Sem esquecer de despejar os restos e as sobras. Despeje-se! Do gozo, que por natureza, carrega em si, prazer e dor. Despeje-se! Do eu cheio de si, que se desborda pela porta.

  • O coração negro do futebol

    Àqueles que acompanharam a Copa do Mundo não deve ter passado despercebida a presença maciça de jogadores negros nas partidas. Não me refiro obviamente às equipes da África Subsaariana (Cabo Verde, Costa do Marfim, Congo…) que, por sinal, a cada edição vêm melhorando seu desempenho, enfrentando de igual para igual seleções consagradas do Primeiro Mundo. E sim às poderosas esquadras europeias, que, apesar do sobe/desce dos últimos anos, permanecem na linha de frente do futebol.

    Em outro extremo, chama a atenção uma notável exceção: a Argentina, em cuja seleção não há sequer um único jogador negro. Resultado de uma política de ‘embranquecimento’ levada a cabo durante o século XIX, derivada do projeto colonialista praticado. O Estado portenho incentivou fortemente a imigração europeia e executou um recrutamento discricionário de negros para as frentes de batalha. Sem falar da incidência de epidemias que atingiu severamente os segmentos mais pobres. Tais fatores contribuíram em encolher drasticamente a presença da etnia no país. Esses movimentos fizeram com que a população negra fosse reduzida ao longo da história, ao que se estima, de 30% para menos de 1%, nível que se mantém até hoje. O resultado desse processo de exclusão racial é percebido dentro e fora dos estádios e ajuda a compreender as lamentáveis cenas de racismo expressas pela torcida celeste e… branca.

    A situação de nosso vizinho sul-americano é intrigante. Separados apenas por uma fronteira de 1200 km, partilhamos com nossos hermanos um passado colonial marcado pela escravidão e muitos pontos em comum em nossas culturas, incluindo uma paixão quase religiosa pelo futebol. No entanto, enquanto o Brasil construiu uma sociedade miscigenada (ainda que marcada por desigualdades e racismo estrutural), no país ao lado os negros foram praticamente banidos da vida política e social.   

    A Europa percorreu caminho inverso. Nas últimas décadas, o continente recebeu grandes levas de imigrantes africanos que se tornaram cidadãos franceses, ingleses, holandeses, belgas, alemães. Muitos deles, claro, tornaram-se craques de bola.

    Antes da virada do século, o padrão dos jogadores europeus era bem diferente: atletas brancos leitosos, quase róseos, robustos, bem nutridos, disciplinados e impecavelmente preparados que praticavam um jogo quadradinho, previsível e altamente técnico, frio como os Alpes austríacos, preciso como os relógios suíços. Conservando esses atributos, o futebol europeu acumulou admiráveis conquistas.

    Até que sua hegemonia foi quebrada em 1958 por um grupo de garotos morenos franzinos, bons em driblar e improvisar, provindos de um país tropical do Hemisfério Sul. Entre eles, um ‘negrinho’ camisa 10 que aos 17 anos cativou o mundo com seu toque genial, sendo entronado ‘rei do futebol’.

    A partir daí, para manter sua relevância, o futebol europeu resolveu mudar de tonalidade. Essa transformação ficou particularmente evidenciada na seleção francesa 70% black de 2026, cuja formação escancarou ao mundo um país de cidadãos com características físicas diferentes daquela que o mundo se acostumara a assistir. Alguns conferiam a esse fenômeno um tom de deboche, insinuando, numa expressão escamoteada de racismo, que a seleção da França não era integrada por autênticos franceses, como se um dos critérios necessários para definir a nacionalidade fosse a cor da pele.

    Não se tratava, é bom que se ressalte, de jogadores estrangeiros naturalizados e sim, em sua maioria, filhos ou netos de imigrantes nascidos ou criados na mesma terra de Charles De Gaulle, Edith Piaf, Monet e Simone de Beauvoir. Pessoas que participaram da construção da sociedade gaulesa contemporânea, mais plural e heterogênea. Que entoavam ‘A Marselhesa’ com o mesmo fervor dos demais e que ali estavam para dar seu sangue (igualmente vermelho) pela nação que os acolheu e exaltou com pioneirismo os ideais de Liberdade, Fraternidade e Igualdade.

    Nobres valores que parecem vir sendo deixados de lado nesses tempos em que os fantasmas do racismo e da xenofobia têm aflorado, ameaçando até os campos presumivelmente neutros do esporte, ambiente em que o princípio da equanimidade de condições deveria prevalecer. Derivados da mesma lógica que inspirou o mito da superioridade ariana, desmontado quando Jesse Owens cruzou a linha de chegada bem à frente dos atletas que Hitler colocou na raia para se tornarem imbatíveis.

    Hoje, a presença marcante de negros no ‘rude esporte bretão’ já não causa estranheza. Se o futebol é branco de nascimento, carrega em sua face nova coloração. Parodiando Vinícius de Moraes, se hoje ele é branco na estratégia, é negro demais no coração.

    E essa metamorfose foi além do futebol. Basta ver a Corrida de São Silvestre, em que a reiterada superioridade dos filhos da Mama África tornou a competição desinteressante. Não é diferente no boxe, no basquete, no atletismo e em outras categorias olímpicas em que os negros têm monopolizado as grandes conquistas. Ao contrário do que ocorre em modalidades elitistas como tênis, golfe e fórmula 1, em que o domínio de branquelos bem formados permanece. 

    Fenômeno semelhante acontece na música popular. Do jazz ao blues, do rock’n’roll ao soul, do mambo ao reggae, do samba ao maracatu, é difícil imaginar a trilha sonora do mundo sem a contribuição decisiva de artistas como Chuck Berry, Jimi Hendrix, Miles Davis, Duke Ellington, Louis Armstrong, Billie Holiday, Bob Marley, Stevie Wonder, Aretha Franklin, Michael Jackson, Ray Charles, Milton Nascimento, Gilberto Gil, Cartola, Pixinguinha e tantos outros.

    Não se trata de talento natural, inato, como se poderia erroneamente deduzir. Mas da capacidade humana que demonstraram de transmutar aflição em criação, exclusão em expressão, resistência em excelência.

    A situação no campo das ciências merece reflexão. A predominância de cientistas e pensadores brancos não pode ser dissociada das condições que favoreceram acesso à educação, instituições de pesquisa e financiamento. A menor participação de negros nesses espaços está relacionada a barreiras econômicas, sociais e políticas, jamais à limitação de capacidade.

    O mesmo ocorre em manifestações artísticas tradicionalmente associadas às elites. A música clássica, o balé, as artes plásticas e mesmo certos circuitos literários, continuam refletindo um padrão menos diverso. Essas expressões dependem de um capital cultural difícil de acumular: aulas precoces, instrumentos caros, escolas especializadas e acesso a instituições pouco permeáveis à segregada população negra.

    Durante séculos, os padrões de valorização cultural privilegiaram referências europeias, enquanto as contribuições africanas e afrodescendentes foram sistematicamente marginalizadas. O reconhecimento de sua importância na música, no esporte e em outras manifestações culturais representa, antes de tudo, a reparação por uma injustiça histórica.

    Assim, a mesma força que molda o coração negro do futebol e dita o ritmo das pistas de dança e dos palcos reluzentes precisa romper as barreiras intransponíveis das universidades e dos centros inacessíveis de poder. O talento e a resiliência que transformaram o esporte nascido inglês em espetáculo mundial de pluralidade são os mesmos que têm potencial para revolucionar a ciência e o pensamento global. Desde que as condições de largada sejam as mesmas. A história mostra que o protagonismo negro já não pede licença. Ele se impõe pelo mérito, provando que, se a tática do mundo insiste em ser monocromática, em seu peito pulsa um coração multicor.

  • O que fica?

    Ganhar é sempre bom?

    Depende.

    Pergunte a quem subiu na balança após um fim de semana prolongado:

    — Ganhei dois quilos.

    Nesse caso, “ganhar” não soa como vitória.

    Também se perde um compromisso, a paciência, o medo, uma oportunidade ou alguns quilos. A palavra é a mesma, mas o sentido muda conforme o que vai ou fica.

    As palavras têm faces.

    Como moedas, pessoas e quase tudo. 

    Outro dia ouvi alguém dizer:

    — Passou.

    Passou o quê?

    A Copa? A esperança da Argentina? Metade do ano?

    A dor? A vontade? Uma moda? A oportunidade? A festa?

    Tudo passa.

    E, quase sempre, isso é bom.

    O problema nem sempre está no que se foi, mas no que insiste em ficar.

    As vezes, a lembrança que fica dói. A dúvida corrói.

    E pior

    Fica a frase incômoda: “Eu poderia ter feito diferente.”

    Talvez sim. Ou não! 

    É fácil julgar depois. Do lado de cá, todos parecem saber mais. Analisamos gestos, palavras e silêncios como se tivéssemos todas as respostas.

    Não tínhamos.

    Fizemos o possível com o que éramos: consciência, experiência, medo e coragem.

    Ainda assim, quando algo não sai como esperado, não nos contentamos com a frustração. Acrescentamos peso.

    Não consegui.

    Logo, não sou capaz.

    Perdi.

    Logo, não merecia.

    Errei.

    Logo, sou um fracasso.

    Não.

    Uma coisa não define a outra.

    Não alcançar algo não torna ninguém incapaz. Um resultado é só um acontecimento, não uma sentença. Uma perda não mede valor. Um erro não apaga acertos.

    Como se não bastasse o desconforto, ainda nos condenamos.

    Eu me recuso.

    Recuso a ideia de que todo ganho seja vitória.

    E também a ideia de que toda perda seja derrota.

    Há ganhos que pesam, e perdas libertadoras. 

    Há portas que não se abrem porque não eram nossas. Caminhos interrompidos que revelam outros. Conquistas que brilham por fora, mas cobram por dentro.

    Toda moeda tem dois lados.

    Não um bom e outro ruim.

    Isso seria simples demais. Ambos pertencem à mesma moeda e têm valor. É preciso virá-la, observá-la, entender o que cada face revela.

    Talvez o verdadeiro otimismo não seja acreditar que tudo dará certo.

    E sim entender que, mesmo quando não dá, nem tudo está perdido.

    Que não fique, depois de tudo, uma injustiça contra nós mesmos.

    Passou.

    Tudo passa… 

  • A Revelação dos Porquinhos da Índia

    Coautora: Letícia Hyppólito*

    Na casa da minha professora particular há dois porquinhos da índia. Eu não costumo ter muito contato com eles, eu apenas os via no Pet Shop. Os porquinhos da índia são pequenos roedores, mas são majestosos porque são fofos e lindinhos (e também são descolados: fazem de 10 a 12 sons diferentes!). Porém, o que descobri sobre eles vai te surpreender…

    Em uma conversa com a minha professora, dona dos porquinhos, ela me fez uma revelação chocante: os porquinhos da índia não são porcos e não são originários da Índia! Eu fiquei extremamente chocado e desacreditado. Como isso é possível? Como alguém pode chamar “porco” e não ser porco e chamar “da índia” sendo que não vem do país indiano?

    Fui pesquisar mais sobre o assunto. Descobri que “da índia” vem por causa da confusão dos portugueses que ao chegarem no Brasil acharam que estavam “na Índia”. Já o motivo de se chamarem “porquinhos” é por causa do som que eles fazem que parecem guinchos de porcos. Na verdade, os porquinhos da índia são originários da América do Sul, nos países Bolívia, Peru, Equador, Colômbia e também são encontrados na bacia do Rio Amazonas, no Brasil. Inclusive, em certas regiões da América do Sul, há pessoas que comem a carne deles (que desnecessário!). Outra coisa que pesquisei é que o nome científico deles é Cavia Porcellus e seus ancestrais eram maiores que um furão.

    Pesquisei, por fim, como se chamam em outros idiomas e descobri que em inglês se fala “Guinea Pig”, em francês “Cochon D’Inde” e em espanhol “Cobaya ou Cuy” – o “Cuy” vem do barulho que eles produzem, mas na minha opinião devia ser “Guí” porque é muito mais parecido com o som!

    Com todas essas minhas pesquisas, refleti que não deveríamos chamar mais de “Porquinhos da índia”, mas sim “Porquinhos da América do Sul”, para ninguém nunca mais se confundir!

    Colaborou com este texto: Letícia Hyppólito, professora de Literatura

    Colaborou com este texto:
    Letícia Hyppólito, professora de Literatura*.

  • Karim, a alegria da feira

    Ele chega com cara de sono. Não está tão cedo assim, são quase onze da manhã. A feira já vai bem animada quando o garoto surge entre a barraca de flores e a primeira de frutas. Vem com a mãe e a irmã mais nova no carrinho de bebê.

    Karim está com o cabelo desarrumado. Parece que foi tirado da cama agorinha. Não reclama, não faz birra. Segue obediente ao lado da mãe. Olha ao redor e vê mais pernas e a beirada dos tabuleiros armados com frutas, legumes e tudo mais do que qualquer outra coisa. Seu campo de visão é restrito por sua altura de menino de seis anos.

    O sono é mais forte que sua curiosidade. Por isso segue comportado, sem explorar o mundo multicolorido e polifônico que o envolve. Caminha devagar quase desequilibrado, encostando de vez em quando a mão na perna da calça da mãe. Até que escuta seu nome ser gritado. Vira o rosto devagar, com um sorriso tímido. A mulher que vende bananas abre os braços para ele. A mãe sorri e dá um toque de leve no seu ombro para que vá até ela.

    A mulher sorri de orelha à orelha e o põe no seu colo. Karim dá um risinho tímido enquanto ela o enche de beijos. Pega uma banana e dá ao menino que, antes de aceitar, lança um olhar de consulta à mãe que abana a cabeça em aprovação. Karim não come mas segura firme a banana.

    A mulher circula com ele por trás das outras barracas de frutas. O menino é popular. A mãe o acompanha com o olhar. Pega Ana, sua irmã, e a segura no colo mostrando onde vai o irmão. Ela mexe no hijab da mãe que com carinho afasta sua mãozinha gorda do seu véu.

    Karim circular sempre no colo da vendedora de bananas. Mais mulheres sorriem e fazem festa para ele. A mãe acompanha e espera pacientemente que ele termine seu tour de afagos. Ela tem mais oque fazer e não veio à feira a passeio. Mas interrompe tudo por esse momento feliz. Para ela, para o filho e para as trabalhadoras da feira que todo sábado esperam a chegada dele. Karim, a alegria da feira.

  • Memórias gravadas nas paredes

    As paredes de uma casa de infância raramente são apenas tijolos e tinta. Em Belford Roxo, onde o afeto era escasso e o ódio falava mais alto que os abraços, a literatura se fez presente para mim não na lombada de livros encadernados, mas no reboco. E, mais especificamente, na porta do banheiro.

    Acho que aquele era o refúgio do meu genitor, de quem à época ainda valia a pena chamar de pai. O lugar onde ele se trancava, acendia seus baseados e tentava fugir do peso da própria rotina. Foi no verso daquela porta que ele deixou registrado o seu manifesto, numa época em que ele e minha mãe ainda tentavam engrenar a família que resolveram formar. “Queria viajar mas não tinha dinheiro, fumei um baseado e viajei o dia inteiro”, dita como de Bob Marley, dividia o compensado de madeira com a altivez de Fernando Pessoa: “Tudo vale a pena se a alma não é pequena.”

    Eu, bem criança, sem nem saber direito o que era poesia, já me fascinava pela destreza daquelas letras pintadas no refúgio dele. Soavam como um enigma poético. Havia um ritmo ali, uma rota de fuga imaginária e uma tentativa de grandeza no meio de tanta desestrutura. Anos mais tarde, o novo marido da minha genitora raspou aquelas frases da madeira, tentando apagar o fantasma e os vestígios do homem de antes. Mas a literatura tem essa teimosia: depois que entra na cabeça, não há espátula ou lixa que remova. Eu já guardava cada palavra de memória.

    Pouco adiante, na porta de entrada da casa dos meus avós, a terceira sentença marcava o território: “Se sua estrela não brilha, não tente apagar a minha.” Muito provavelmente, obra do meu avô. O patriarca tinha o hábito quase ritualístico de culpar o oculto por qualquer fracasso pessoal. Se algo dava errado, não era imperícia ou desleixo; era “macumba” feita pelos outros. Afinal, jogar a responsabilidade para o mundo sempre foi mais confortável do que encarar as próprias falhas.

    Cresci cercada por essas inscrições de dor e fuga. Uma mistura surreal de brisa de banheiro, transcendência pessoal e defensiva de ditado popular.

    Hoje sei o que é poesia, mas aprendi a lê-la no lugar mais improvável: raspada do compensado de uma porta em Belford Roxo, gravada no meu coração e na minha mente para nunca mais sair.

  • O home e o neno

    Em novembro de 1957, nos cais de Ferrol, no norte da Espanha, um instante de dor humana pura se desenhou no ar frio da manhã. Uma mãe partia deixando para trás, seu marido, um filho e a vida inteira que conhecia, para seguir rumo a um oceano que prometia futuro, mas cobrava despedidas irreparáveis. Ali, entre malas gastas e lenços úmidos, o fotógrafo Manuel Ferrol ergueu discretamente uma câmera escondida sob o casaco. O que ele capturou não foi pose teatral, foi a alma aberta de uma despedida. A fotografia, mais tarde chamada “O home e o neno”, se tornaria um dos retratos mais comoventes do êxodo europeu do pós-guerra. Na imagem, o jovem pai, Ángel Calo Marcote, de vinte e nove anos, desaba em lágrimas ao lado do filho, Juan Jesús, de apenas oito. Diante deles, Josefina López, esposa, mãe, coração da casa, embarcava no Juan de Garay, rumo a Buenos Aires. Ela viajaria com a própria mãe e o irmão, juntando-se aos que buscavam, do outro lado do Atlântico, trabalho, dignidade e esperança. Para Ángel e Juan Jesús, aquele adeus era definitivo. A fotografia eterniza esse instante, o segundo exato em que uma família se divide, não por falta de amor, mas pela violência silenciosa da necessidade. A história não registra números, mas a vida, guarda rostos, vozes, cartas tardias e ausências que nunca deixaram de doer. Para muitos, a migração não era viagem, era ruptura. O oceano tornava-se parede, o tempo, inimigo. As casas ficavam cheias de silêncio. As fotografias, de fantasmas. A Espanha dos anos 1950 ainda vivia sob a sombra severa da ditadura de Franco. Partir era uma ferida, mas ficar também era. Ferrol e sua câmera captaram não apenas o drama íntimo de uma família despedaçada, mas o retrato de um país aprisionado pela pobreza, pela censura, pela falta de horizontes. O nome do fotógrafo só veio à luz depois de 1975, quando o país voltou a respirar democracia. A composição é simples, e isso é que torna a fotografia tão poderosa, ela fala de migração não como estatística, mas como fratura do cotidiano, como amor posto à prova pela distância. Para Ángel e Juan Jesús, a partida de Josefina significava perder o ritmo da vida em comum. As refeições, os aniversários, a partilha dos dias, tudo se fragmentava no instante daquela fotografia. O que Ferrol capturou foi o nascimento dessa ausência.

    O legado de “O home e o neno” tornou-se símbolo do que fica, o vazio, o peso, a coragem silenciosa. Ferrol fotografou pessoas comuns pagando o preço extraordinário da mudança. Ele não roubou aquela dor, apenas testemunhou sua existência. E talvez seja esse o motivo pelo qual ditaduras temem fotografias, porque a verdade nelas escapa ao controle. O retrato lembra que a migração não é apenas jornada de quem parte, é também o luto silencioso de quem não tem escolha, senão ficar. “O home e o neno” não é apenas documento histórico, é um poema de perda e coragem.

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