Crônicas

  • Metacrítica

    Como uma sugestão literária pode desencadear reflexões íntimas

    A taça agora reflete um leve nuance púrpuro, apenas; eu, nesta fria estadia serrana, pretendia perder-me entre os dois novos volumes machadianos, ou, quem sabe, afogar-me nos sentimentos mais belos e tristes que só um romance épico da literatura infanto-juvenil de Budapeste apresenta-nos. Mas é fim de setembro, principia o inverno e a neve não virá, como sempre. Minhas mãos voltam-se para as teclas do computador, são obrigações da vida adulta que por ora me prendem a esta tela. Entre análises gráficas, e-mails e discussões acadêmicas, presenteio-me com a possibilidade de libertar meu eu lírico em pequenas doses de literatura singela. Crio, pois, meu próprio grund, dentro de um edifício que talvez já tenha tido seu espaço defendido por heróicos meninos do antigo primário. Sinto-me resfriada, e a dúvida oscila entre a mudança de temperatura e banhos frios em águas inimigas. E ponho-me a chorar, silenciosamente, pela morte de um grande soldado raso (agora capitão). E ponho-me a gritar interiormente pela vitória de um espaço que perderei em breve. E ponho-me a pensar em todas as injustiças que acontecem ao meu redor. E sinto, pois, que crescer é deveras dolorido, mas que, por fim, minha infância não foi só um belo conto-de-fadas.

    Ao fundo, nenhum acorde ousa quebrar este silêncio honrado. Nenhuma cor sobressai perante o cinza nostálgico dos meus dias de “Os Meninos da Rua Paulo”. Só o vinho do liquido aventura-se a atravessar a garganta, amolecendo o peito e aquecendo o corpo contra os graus fajutos que lá fora brincam com o vento cortante.

    Eis a história que não podem deixar de ler. Bia Mies indica “Os Meninos da Rua Paulo”, de Ferenc Mónar, reeditado recentemente pela editora Cosac Naify.

  • O botox da Monalisa. Quando a estética paralisa também os sentimentos

    O sorriso é universal e uma das únicas expressões que já nascemos sabendo fazer e reconhecer, não importa o lugar do mundo onde estejamos. 
     
    Segundo o dicionário, é uma expressão em que os lábios se curvam nos cantos, e é essa curvatura que acaba dando o tom do sorriso. Normalmente, com os cantos voltados para cima expressam alegria, contentamento, felicidade. Ao contrário, se fizerem uma curvatura ligeiramente para baixo ou de forma assimétrica podem expressar ironia, malícia e, até mesmo, loucura ou maldade.
     
    Interpretar o sorriso de alguém é uma tarefa para o nosso córtex frontal, que pode processar essas informações e dar um feedback emocional positivo ou negativo, dependendo do tipo de sorriso captado. Nesse sentido, a neurociência veio ao nosso auxílio com uma descoberta que pode minimizar o efeito de qualquer sorriso maldoso que recebemos – o retorno com um sorriso largo, mesmo que não sincero.
     
    Falso? Sim, mas o resultado dessa falsidade traz um benefício incrível, segundo os estudiosos Kraft & Pressman da Universidade do Texas. Segundo eles, sorrir pode realmente enganar nosso cérebro e impulsionar o humor. Quando sorrimos, mesmo que não estejamos genuinamente felizes, engajamos regiões cerebrais que desencadeiam uma resposta de neurotransmissores como a serotonina e a dopamina, associados à sensação de prazer e bem-estar.
     
    Os resultados desses estudos sugerem que o feedback facial não apenas amplifica sentimentos de felicidade preexistentes, mas também pode iniciar um ciclo virtuoso. Assim, forçar um sorriso pode ser o primeiro passo para iniciar sentimentos de felicidade, mesmo em contextos não favoráveis.
     
    Tudo muito interessante, mas…atenção! a ausência de expressões faciais pode reduzir a intensidade do feedback emocional e, nesse sentido, criou-se um problema para quem é adepto de aplicações de Botox.
     
    Pesquisas mais recentes (Vannini et al., 2018) revelaram que a interação entre a toxina botulínica e o embodiment, ao paralisar os músculos faciais altera a maneira como nosso cérebro percebe e experimenta as emoções, o que pode reduzir o impacto direto do sorriso em nosso estado emocional geral.
     
    Isso nos coloca frente a um dilema digamos estético-emocional: sorrir às bandeiras e rugas desfraldadas, ou emparedar a serotonina num sorriso de Monalisa?

  • As voltas que o mundo dá

    Cada dia mais me convenço de que o universo se comunica com a humanidade por sinais sutis e precisos. Essa linguagem delicada costuma ser nomeada, por muitos de nós, como coincidência ou intuição. Eu, de minha parte, acredito tratar-se de um idioma ancestral, com o qual perdemos o contato, há muito tempo, mas permanece cifrado no nosso íntimo. Vez por outra, algo reconecta a sintonia perdida e decodifica a mensagem. Exemplo disso aconteceu hoje: estava me preparando para escrever essa crônica, cujo tema seria a importância de se estabelecer limites na relação eu/outro para preservação da saúde mental, quando me deparei com a notícia de que a terra ultrapassou 7 dos 9 limites planetários necessários à manutenção do equilíbrio ambiental no planeta. Coincidência? Com certeza, não! Certamente, foi um sinal do universo para quem precisa refletir. Vou fazer uma tradução livre da situação do planeta e vamos ver quem de nós se identifica:

    Por mais que oferte o meu melhor com empenho, me desdobre para atender às necessidades e expectativas dos que me cercam, trabalhe exaustivamente para garantir amparo e proteção aos que amo, sem reclamar vantagens ou prioridade, cedendo quase sempre a minha vez, sem deixar faltar nada para ninguém, no final do dia, me sinto só. Sem cuidado, afago ou reconhecimento. 

    Eu preciso aprender a dar limites aos outros e valor a mim.

  • Dia dos amantes

    Outrora eram somente os santos e as figuras históricas. Hoje praticamente todo profissional tem o seu dia. Mesmo fora das profissões, basta alguém pertencer a uma categoria para ter a sua data especial, tornando-se alvo de homenagens cujo objetivo não é outro senão incrementar o comércio. Há um dia para tudo e para todos, do faxineiro ao vendedor de picolé – o que, quanto a este, é muito justo. Num país quente como o nosso, o picolezeiro tem a nobre função de refrigerar os corpos e desentorpecer as almas, deixando-nos mais dispostos para enfrentar estações como o verão.

    A prova de que o hábito se disseminou é que no dia 22 de setembro comemorou-se o Dia dos Amantes. Catei nos jornais alguma referência mais extensa a tão curiosa efeméride, e nada encontrei; mas os amantes bem que mereciam uma crônica. Vejam que a data não se refere aos amados, ou às amadas, que são entidades nobres e gozam do prestígio da sociedade. Refere-se aos que amam com ímpeto transgressivo, o mais das vezes burlando normas e atropelando os papéis sociais. Os amantes são “os outros”, que por razões óbvias não podem se declarar. Daí a curiosidade que um dia dedicado a eles provoca.

    Machado não os tinha em alta conta – certamente pelo bom casamento que fizera com D. Carolina. Vejam o que ele diz no breve Capítulo XXXVIII de “Quincas Borba”, capítulo esse que antecede o da confissão amorosa do ingênuo Rubião à sagaz e interesseira Sofia: “Rubião estava resoluto. Nunca a alma de Sofia pareceu convidar a dele, com tamanha instância, a voarem juntas até às terras clandestinas, donde elas tornam, em geral, velhas e cansadas. Algumas não tornam. Outras param a meio caminho. Grande número não passa da beira dos telhados…”. Se os envolvidos retornam com as almas velhas e cansadas das “terras clandestinas”, melhor seria que por elas não se aventurassem… Mas não vai ser esse reparo, típico do Bruxo quanto a essa e outras falhas humanas, que vai enfraquecer o nosso registro.

    Fala-se que amantes são todos os que amam com paixão, sejam eles namorados ou esposos. Haverá nesse argumento um eufemismo interesseiro, cujo objetivo seria descaracterizar os homenageados a fim de incluí-los mais amplamente, e sem remorso, entre os que merecem os mimos adequados à ocasião. Tudo para vender mais. Os amantes habitam mesmo o “outro lado”, não são os parceiros institucionalizados do amor. São antes cúmplices, por isso não deixa de ser curioso escolher para eles um dia, à semelhança do que se faz com os santos, os avós, os pais e as mães.

    Notei que pouco se falou na data, mas certamente ela foi comemorada. Por meio não de cartões ou telegramas explícitos, mas de e-mails cifrados que atravessaram a Internet levando o apelo ansioso e triste de dois corpos solitários. Talvez em encontros furtivos num desses motéis promocionais, que além do preço módico prometem sigilo absoluto. Pois esse é o tipo do dia para se comemorar na surdina, à meia-luz, por debaixo do pano.

    Enfim, leitor, sem hipocrisia nem cinismo enalteçamos os amantes no seu dia. Deles é a glória da indústria de perfumes e lingeries. Sem falar de quanto faturam os sex shops numa ocasião como essa. Se hoje as datas valem sobretudo pelo que vendem, e os amantes têm lá a sua fatia de mercado, comemoremos sem preconceito a data a eles dedicada. Sem preconceito e com a sinceridade de reconhecer: que ser humano já não se deixou tocar pelo tentador mistério das “terras clandestinas”?

  • Tempo da mudança de atitude!

    Possuo muitas bibliotecas perdidas em sonhos, que descrevem experiências que vivi. 

    Não lembro de alguns detalhes saborosos de minha infância, mas recordo que meus pais me deram muito amor e carinho, que eu gostaria de rever em meus olhos, tocar novamente aquela risada longa e espontânea, recheada de sorriso e abraço.

    Quando fui a escola pela primeira vez, senti muita vontade de ficar mais tempo com os amigos, porque aquela era a melhor parte da aula, encontrá-los, brincar e viver amizades que nasceram para toda vida.

    Meus aniversários com bolo colorido e gente ao redor, sempre foram uma diversão a parte, haviam presentes, e a garotada estava lá.

    Você também deve ter muitas bibliotecas na mente, que guardam livrinhos com histórias únicas. 

    Momentos que se foram mas que continuam a mostrar o quão passageiro é nosso tempo respirando.

    Que minuto você reservou para saber quanto tempo vai aguardar para realizar o seu sonho, ou de alguém que você ama? 

    Diversas vezes paramos para entender que talvez nossa hora de fechar a cortina esteja bem mais próxima do que pensamos. 

    Um fio de esperança quer que façamos nosso melhor e deixemos para outro dia o pesar de nossas falhas. 

    Aquela reflexão mórbida e tênue, que corre em nossos olhos, cor de cinza com arco-íris, confunde o teste com a realidade, suspira longo para pensar mais tempo. 

    O fato mais concreto é que deixamos de rever o que nos fez bem, e a quem possibilitou novas oportunidades em nosso caminhar zeloso. 

    Não somos independentes em quase nada, até para respirar precisamos pegar o que tem no ar e jogar aos alvéolos, sedentos de pressa em se encher a cada instante vital.

    É uma busca de sentido como a Eudaimonia, termo grego que literalmente significa “o estado de ser habitado por um bom daemon, um bom gênio”, traduzido como felicidade ou bem-estar, é o viver de acordo com a natureza, como foi a máxima do estoicismo. 

    Sendo dessa forma, a melhor maneira de valorizar o ser humano, porque hoje o que está na moda é sempre o que é novo, e o velho sábio que pode colaborar com a sapiência da próxima geração é esquecido na prateleira. 

    No passado, os velhos é que tinham poder político e cultural. Se o que nos falta é consideração a essa geração, está passando o tempo da mudança de atitude e desmedida ação em reparar esse erro.

    Não se sinta um perdedor pelo que deixou de viver, não vale a pena deixar de se sentir bem, ao olhar em seu espelho.

  • O que há por trás do movimento antivacina em cães?

    Um burburinho crescente nas redes sociais revela que muitos donos têm evitado vacinar seus cães. Como jornalista, pesquisei e apurei relatos de especialistas, estudos e depoimentos de famílias, e concluí que o preço também está embutido nessa crítica. À primeira vista, porém, a explicação mais repetida remete a ecos de movimentos políticos que já conhecemos. Foi assim na pandemia, quando a incerteza sobre a eficácia das vacinas abriu espaço para a desconfiança. Essa sombra ainda paira sobre parte da população.

    Na internet, o termo “antivax” ganhou força. Designa os que rejeitam vacinas ou diminuem sua importância. Uma pesquisa do portal IG mostrou um dado alarmante: cerca de 40% dos responsáveis temem que a vacinação cause autismo em cães. É uma crença sem base científica, mas que se espalha com rapidez, como rumor em feira livre. No Instagram,também circulam frases de efeito como “pet que não sai não precisa vacinar”, “vacina é só para gripe”. Mensagens curtas, fáceis de compartilhar, que acabam banalizando uma medida vital para a saúde animal e, por consequência, também para a nossa.

    Para conter essa onda de desinformação, a Associação Britânica de Veterinária (BVA, na sigla em inglês), antecipou-se e divulgou uma nota posicionando-se contra os movimentos antivacina. O tom foi direto: não há qualquer evidência científica que relacione vacinas a casos de autismo em cães. Portanto, podem levar seus animais ao veterinário sem medo.

    Entretanto, atribuir a resistência às vacinas apenas à ideologia é uma visão simplista. Acompanhei, ao longo dos anos, a relação entre cães e pessoas e percebi fatores mais concretos nesse movimento. O custo das vacinas, por exemplo, é um dos grandes obstáculos. Ainda que alguns veterinários se esforcem para oferecer preços acessíveis, para muitas famílias a imunização tornou-se inviável.

    Há também a questão da exigência de várias doses antes de liberar o filhote para passear. Em certos casos, entre cinco e sete. Isso compromete severamente o desenvolvimento social dos cães, sobretudo na fase inicial da vida. Quando barreiras financeiras e práticas se acumulam, muitos donos ignoram as recomendações e acabam levando seus cães às ruas antes do fim do ciclo vacinal completo. E, uma vez quebrada a regra, a lógica se impõe: se o filhote já pode ter contato com o ambiente externo, por que continuar arcando com tantas vacinas caras? O resultado é um efeito dominó que mina a confiança.

    Não se trata de condenar a prática veterinária, mas é impossível ignorar a engrenagem maior que sustenta esse cenário. Quanto mais vacinas, maior o lucro da indústria farmacêutica. Reconhecer esse fato não é aderir a teorias conspiratórias, nem enfraquecer o valor da imunização. Pelo contrário: vacinar continua sendo indispensável para a saúde e a longevidade dos cães. O desafio real está em outro ponto: tornar o processo viável, transparente e acessível, para que ninguém precise escolher entre proteger o animal ou pagar as próprias contas.

    Politizar o debate é perigoso. Cães fazem parte de todas as camadas sociais, e muitos responsáveis simplesmente não conseguem arcar com o custo de certos imunizantes. Em um país onde famílias esperam meses por atendimento médico, não surpreende que os animais também sofram os efeitos do sucateamento da saúde pública.

    Mesmo assim, não faltam histórias de donos que se sacrificam, abrindo mão do próprio cuidado para garantir a proteção de seus cães. Esse gesto, ao mesmo tempo nobre e doloroso, revela o tamanho do vínculo que une pessoas e animais, mas também expõe, com clareza, as falhas de um sistema que deixa ambos desassistidos.

    No fim, a matemática é implacável: quando o dinheiro falta, meus caros leitores, não há retórica que resolva. Não é descuido, tampouco crença, mas realidade que nenhum afeto consegue ultrapassar. A conta não fecha. Entre pagar um boleto, comprar o gás ou investir em vacinas, muitos acabam escolhendo o imediato. É duro reconhecer, mas a verdade se impõe com a frieza dos números: amor não basta quando a sobrevivência está em jogo.

    Como dizia meu pai, com a sabedoria de quem viveu de tudo: “Se não tem remédio para a situação, remediado está.”

  • Mano velho

    Já não tenho tempo para nada, com oitenta e nove anos. Ele, o dono de tudo, se esvai, mais lento que outrora. Não suporto os achaques e as dores, que me atacam diuturnamente. A velhice é uma covardia, uma falsa esperança. O que posso esperar daqui para a frente? Muita coisa mudou. Minha amada esposa, Salete, se foi muito cedo – mais cedo do que eu previa, com sessenta e cinco anos. Ela, como quase todas as mulheres de sua família, teve câncer de mama. Um pouco descuidada, permitiu que a doença se espalhasse e, por fim, a metástase tomou quase todo o seu corpinho miúdo.

    Ela deixou, desde aí, uma lacuna muito grande em minha vida, a ponto de eu abandonar muitas das atividades que fazíamos juntos, de que tanto gostava, como passeios no parque, idas aos bailes, ou mesmo um almoço ou jantar num restaurante de nossa preferência. Como disse Chico Anysio, a morte, a consequência, é uma pena – mesmo eu querendo viver com saúde; doente é um sofrimento desnecessário. Devia me nutrir de ânimo pelos meus netos, mas como posso se estão grandes e mal me dão importância?! Têm seus interesses particulares: um se aventura no cinema, outro na tecnologia, e a mais nova na medicina. Quando eram pequenos, iam para o sítio que tínhamos e amavam ficar brincando colados com o vovô. Íamos à lagoa, fazíamos fogueira à noite, para brincar de floresta; acampávamos para ver o luar e as estrelas.

    Tudo isso se perdeu com o tempo. Parece que têm vergonha de andar com o vovô. Maurício, o mais velho, é quem ainda faz algumas coisas comigo, como ir ao supermercado, ao médico ou algo do tipo. Mas faz um pouco a contragosto, às vezes vai à força – noto, sem ele me dizer nadinha. Nem com os filhos posso contar tanto, não pela má vontade, mas porque trabalham demais, e sou a última opção de atenção. Para complicar mais, meus dois filhos não se entendem, depois de uma briga danada de herança, então, quando temos encontros de família, tenho de chamá-los separadamente, em horários ou dias diferentes. Onde já se viu?! O Natal, de que tanto gostava, na época em que estávamos com a minha amada esposa, é agora um momento triste e enfadonho.

    Os dois filhos e netos passam rapidinho para dar “um alô” e vão curtir em outras famílias, na casa das sogras etc. Salete parece que agregava tudo, era o nosso elo, porque depois de sua ida à casa do Pai a vida se fragmentou em cacos pungentes, inservíveis. Isso não é viagem de um velho louco, mas, sim, de um velho que não tem tanta força para resistir aos acontecimentos. Veja, pedi tanto que meus filhos se entendessem, que cheguei ao ponto de me desligar completamente dessa arenga, para o meu bem. Que se fodam, falando a sério! Imagine quando eu morrer… Tudo irá pelos ares! É um horror viver assim. Suplico a Deus que abrevie a minha dor. Mas estou seguro de que Deus se esqueceu de mim.

  • Reencontros

    Reencontrar alguém é como ganhar presente de Natal antecipado, de aniversário ou de amigo oculto. É como se, de certa forma, fosse possível voltar ao passado, reviver um tempo antigo de alegrias e ingenuidade.

    Outro dia reencontrei uma amiga que não via há três ou quatro anos. Ela é médica e, há vinte anos, ajudou a criar um grupo de teatro para adolescentes. Na Faculdade de Medicina de Belo Horizonte, naquele campus cheio de árvores e flores, vivi alguns dos momentos mais lindos da minha adolescência. Uma vez por semana, às terças, sentávamo-nos no chão com folhas de papel A4 e canetas, escrevendo juntos peças de teatro. Duas vezes por ano, apresentávamos as peças — podia ser no campus da Alfredo Balena, podia ser na Pampulha. Foi ali, no final do ano, na Escola de Enfermagem, depois de uma apresentação, que essa médica fez algo que nunca esqueci: leu poemas em voz alta e nos inspirou a fazer o mesmo.

    Anos depois, num sarau em Santa Tereza, aqui em Belo Horizonte, revi essa médica. Cheguei cedo, escolhi uma mesa e esperei. De repente, a vi entrar com a irmã, que também é poeta. Fui até elas. Nos abraçamos. Sentamos juntos. Foi como se tudo voltasse: escrever peças, apresentações de fim de ano, rodas de conversa — e eu ali, menino de novo.

    Aí pude dizer, como um personagem antigo de Machado de Assis, o José Dias, de Dom Casmurro: “A vida é lindíssima”.

  • Um beijo é só um beijo ou qual é o filme?

    “Um beijo é só um beijo”. Esse é titulo do livro do crítico literário e cinematográfico João Batista de Brito. Editado pela Manufatura, aqui mesmo nestas plagas parahybanas, o livro foi lançado em 2001. Pois é. Eu conheço muito bem o seu autor. Somos, talvez eu mais do que ele, jaguaribenses, do bairro de Jaguraibe, capital da Parayhyba.

    Sabia há muito, uma noticia passada por ele mesmo, que o livro havia sido lançado e muitos cinéfilos e não cinéfilos correram para comprar o dito cujo. Mas, infelizmente, andando por aí, presente no meio dessa gente eu não estava.

     Anos depois, mas precisamente 15 anos após o seu lançamento, por acaso, visitando um dos nossos sebos culturais encontrei o seu – dele – “Um beijo é só um beijo”.

    Antes, só não me lembro de quando nem onde, em papo com o autor, perguntei-lhe onde encontrar o referido, pois, não o tendo até aquela oportunidade, cinéfilo de carteirinha que sou, queria adquiri-lo. A resposta? Esgotou. Nem em casa tenho em duplicidade. Mas, como disse neste parágrafo, depois de muito procurar, finalmente, encontrei o procurado em um de nossos “sebos culturais”.

    “Um beijo é só um beijo” é um livro fininho, apenas 129 páginas, como deve ser todos os livros lançados em nossos dias. Isso tudo considerando o fato de que o brasileiro ler apenas 4 livros por ano, sem conseguir, por incrível que possa parecer, chegar ao fim dos 4 livros que resolveu ler. Ah, mesmo considerando aqueles considerar aqueles que “caem” no vestibular. Tem mais; desses chegam ao fim de apenas 2,1 livros. Está na pesquisa.

    “Um beijo é só um beijo” é um livro de pequenas 28 histórias, espécies de miniconto, com cada uma delas, como o autor faz questão de esclarecer na sua apresentação, relacionada a um filme.  Diz mais: é fiel ao filme, mas encontra uma forma criativa de narrar, sem entregar o filme (no sentido do conto) ao leitor.

    Li-o de uma só tirada. É assim que costumo me referir a uma leitura primeira e prazerosa. Ele, porém, o autor, por mais que diga não “entregar o filme” nos seus minicontos, para o cinéfilo, aquele mesmo viciado, a “charada” morre logo nas primeiras linhas. Nenhuma dúvida que o livro intitulado de “um beijo é só um beijo”, também poderia ser muito bem chamado, sem deixar de despertar a curiosidade do leitor, de “Qual é o filme”?

    Uma coisa, porém, mais que ululante e mais ainda que o óbvio que o antecede, é que não assistindo ao filme, por mais que se esforce o cinéfilo, ele não conseguirá “adivinhar” o filme ali transformado em miniconto pelo autor. Verdade. Por outro lado, esse fora da tela, qualquer pequeno cinéfilo tendo assistido ao filme “mincontado”, logo nas primeiras linhas, prestando atenção ao que o “narrador oculto” conta, a charada ou mesmo filme estará resolvido.

    E não é nem pela forma de contar do autor, pois, ma vez que ele, João Batista, tudo faz para esconder o filme “camuflado” nos seus minicontos.  Por outro lado, esse do lado de fora da tela, alguns elementos que ele usa para dar vida a sua narrativa, por mais que se esforce em escondê-los, acaba entregando o filme sem perdão.

    Um exemplo é o conto que deságua no filme Casablanca, “Um beijo e só um beijo”, titulo do livro. Nele, Rick – esse em especial – e Victor, esses dois fortes personagens do drama dirigido por Michael Curtiz, que trazem o nome de Casablanca na pele como tatuagem. E agora?  Só faltou Ilsa. Mas, sendo ela quem narra o conto, seria demais pedir que a própria se identificasse.  Assim a entrega seria, como dizemos por aqui, de bandeja!

    No caso do miniconto “Palavras Cruzadas”, apesar de “suas viagens semanais a Milford”, é a trilha sonora que entrega o nome do filme. E o “marido traído” e perguntando, enquanto faz as suas palavras cruzadas, “Ela gosta de Rachmaninoff, mas por que por a música tão alta?” E a citação do médico que encontra em Milford e com ele jantara?

    Pois é, mesmo sendo um breve encontro, esse ficará na sua memória. Conclusão: só poderia ser Desencontro (Brief Encounter), o filme de David Lean, do ano 1945. Por sinal um excelente e belo filme. O título desse miniconto é um achado -“Palavras Cruzadas”. Um título meio assim como “vidas cruzadas”. Não dá pra esquecer. Fazer palavras cruzadas é uma das manias do marido de Laura (ah, sim, “Laura” também é uma entrega).

    Mas, para ficar por aqui, pois afinal são 28 deliciosas histórias ou minicontos, como ele deseja asism chamar, não se esquecer do Concerto para Piano nº 2 de Rachmaninoff, acelerado, lembrando o trem da partida do personagem. Em síntese, o livro e João Batista, os minicontos por ele escritos são deliciosos.  O cinéfilo que se preza, mesmo com o “produto” em falta no mercado, como vocês viram, deve procurar. Eu procurei e achei.

  • Sobre vida, arte, educação, democracia, anistia, blindagem…

    Além da crônica ou do conto, hoje vou com um texto de opinião que, perdoem o pleonasmo, vem em primeira pessoa. Tenho acompanhado com bastante curiosidade os últimos acontecimentos políticos que tem ganhado destaque neste país lindo, e controverso, chamado Brasil. Como roteirista amador e apaixonado por cinema, acho incrível como a realidade brasileira consegue igualar, ou até mesmo superar, a criatividade dos maiores escritores mundiais desse gênero. É tanto plot twist que eles devem ter inveja. Agora, pensando em todos esses acontecimentos em relação a minha trajetória de vida, não posso deixar de fazer algumas considerações que deixarei soltas neste singelo texto.

    Minha primeira graduação foi em Direito. Desde então, tenho convivido com muitos questionamentos pessoais em relação a essa profissão. Entretanto, apesar desses, eu não tenho como diminuir a importância que essa ciência tem para a sociedade e para a democracia. O direito é um instrumento essencial para a garantia desse termo hoje tão falado, mas cujo real significado poucos realmente conhecem. Será que os jovens não aprendem sobre seu significado nas escolas? Ou será que nosso ensino se tornou tão mercadológico e finalista que seu significado se perde dentre outras milhares de exigências? Essa é uma discussão que poderia gerar teses sobre educação e que não vale o aprofundamento aqui. Polemizando um pouco, talvez falte um pouco mais de Paulo Freire, apesar de muitos dizerem que esse é o grande problema da nossa educação.

    Voltando ao tema democracia, talvez ela não seja um modo perfeito de governo. Aliás, será que a perfeição existe fora do seu significado? Apesar disso, considero que ela seja o melhor modelo, pois permite que a pluralidade humana coexista em espaços comuns. Ou seja, somos seres plurais e, por isso, precisamos respeitar o que cada um pensa. Não importa se uma pessoa é de direita ou esquerda, heterossexual ou homossexual, conservadora ou liberal ou qualquer outra coisa, o que deve sempre prevalecer é o respeito. Além dele, a liberdade de todo o indivíduo se expressar livremente, desde que isso não prejudique os direitos de outro. Seguindo, nesse regime todos são iguais perante a lei, ainda que as vezes seja preciso garantir que, aqueles que são prejudicados pelo sistema, possam usufruir de políticas para minimizar desigualdades, como a política de quotas, por exemplo. Somos iguais nos direitos e nos deveres.

    Todo esse brainstorm de características remete a questões tão obvias que, certamente, o leitor desse texto está se perguntando o porquê estou falando tudo isso. Talvez eu volte a questão dos roteiros do primeiro parágrafo para entrar na seguinte questão, o absurdo. Pensando em um contexto sem nenhum tipo de ideologia de esquerda ou de direita. Será que alguém concordaria que nossa democracia pode ser colocada em risco por qualquer pessoa que tente um golpe de estado? Será que seria razoável permitir que alguém, junto com seus pares e colegas, decida se ele(a) mesmo irá decidir sobre um crime que cometeu? Acho que a resposta para ambas é negativa. Ao menos, espero que seja. Se o é, por qual motivo alguns tem aceitado renunciar a elementos tão caros e importantes a nossa democracia pelo fato de defender certo posicionamento político? Será que isso vale a pena?

    Não se trata aqui de ser de esquerda ou de direita. Hoje, apesar de qualquer posicionamento político, eu me considero um fã da democracia. Talvez essa tenha sido uma das principais lições que aprendi ao cursar direito. Precisamos defender esse modelo para que possamos realmente conservar nossa liberdade de expressão para opinar, seja lá como for, dentro dos limites que exigem a legalidade. Não existe ditadura benéfica aos humanos, sejam elas de direita ou de esquerda. Qualquer tipo de restrição ao ser livre é burro.

    Finalmente, chego aos atos realizados no dia 21 de setembro de 2025 em todo o Brasil. É muito bom ver que, independente de correntes ideológicas, tivemos milhares de pessoas lutando por um objetivo tão nobre, ou seja, defender a nossa democracia. O ato mostra como o Brasil é lindo e gigantesco culturalmente, como temos talentos que fazem ter orgulho real por sermos brasileiros. precisamos cuidar desse país para que toda essa pluralidade floresça cada vez mais. Nisso consiste o real patriotismo.

    *Textos assinados são de responsabilidade de seus autores e não representam, necessariamente, a opinião do Crônicas Cariocas.

  • O retratista fiel

    Folhear álbuns de fotografias antigas — em papel ou digitais — tem me causado um certo estranhamento, uma sensação de que os ambientes, as pessoas, as fisionomias não eram bem assim como estão retratadas.

    Na foto do meu aniversário de 15 anos, o vestido que, à época, me fez sentir uma princesa hoje mais parece um tule de cobrir bolo. Difícil acreditar que fui eu mesma quem escolheu aquela roupa, que em nada me valorizava.

    Na varanda da casa onde morei com meus filhos pequenos — e que, aos meus olhos, parecia abrigar a família inteira —, a foto mostra um espaço em que mal cabiam quatro cadeiras. E nada tinham a ver com os móveis charmosos de jardim que eu havia comprado.

    Meu bolo de aniversário com cobertura de chocolate, que à luz das velas me pareceu brilhante e festivo, aparece seco, simples demais para a importância daquela comemoração.

    No começo, pensei que a culpa fosse das fotos: iluminação ruim, ângulo errado, talvez o dia nublado tivesse apagado as cores. Mas, aos poucos, percebi que não eram elas que me traíam — era minha memória, minha lente afetiva, que guardou lembranças muito além dos flagrantes de uma máquina, seja ela qual for.

    Minha memória registrou o que foi captado pelos sentidos: o olhar de admiração que me fez feliz naquele vestido, o som das risadas gostosas que ampliaram a varanda, o gosto de chocolate do beijo depois do bolo que iluminou minha boca.

    Sabem de uma coisa? Aprendi que é melhor confiar no que ficou registrado em mim: a memória é o mais generoso dos retratistas.

  • QUARENTENA

    Com um sobressalto, fui arrancado da cama por um sonho apocalíptico. Ainda grogue e alarmado, abri as cortinas e meu humor logo mudou. Lá fora, me acenava um maravilhoso céu azul. Era sábado de aleluia. Aleluia! Que lindo sol! Um dia claro com temperatura amena, típico do início de outono. Perfeito para uma caminhadinha ao ar livre.

    Os gerânios do jardim do vizinho pareciam mais vivazes do que nunca. Um par de borboletas azuis bailava graciosamente a seu redor. Era a vida que pulsava mais forte ou meu bom humor que fazia tudo parecer belo? Até o ar parecia mais leve hoje, com menor presença de gases tóxicos produzidos por automóveis. Nem mesmo consigo perceber o azucrinante ruído rotineiro do ronco de motores, buzinas e motos turbinadas.

    Falando nisso, cadê os carros? Só vislumbro alguns estacionados a meio fio, como se tivessem sido abandonados há séculos por seus donos como peças de um museu a céu aberto. Suas pálidas cores metálicas contrastam com o verde vívido emanado pelas imponentes seringueiras que protegem o passeio com sua centenária serenidade vegetal.

    Andei até o final da quadra. Nenhuma alma viva. Um silêncio austero, quebrado apenas pelo alegre gorjeio dos passarinhos que pareciam mais felizes hoje, cantarolando com maior vigor do que o habitual. Aquela quietude (na verdade, apenas a ausência dos irritantes ruídos urbanos) deveria ser celebrada mas, nas circunstâncias, tornou-se perturbadora.

    10h15min. A esse horário, o vai-e-vem costuma ser intenso. Ok, sábado o movimento é menor. Uns 20% menos gente. Mas… ninguém na rua! Muito esquisito!

    O mais estranho é o comércio fechado. A loja de armarinhos da esquina. Fechada. O pet shop que aos sábados fervilha de cães latindo e donos tagarelando. Fechada também. Será que emendaram o feriado de sexta-feira da Paixão com o domingo de Páscoa?  E a vendinha do ‘seu’ Josué? Abre até mesmo aos domingos e feriados no período da manhã. Fechada também. Não! Definitivamente, há alguma coisa muito errada por aqui.

    Veio-me à memória um daqueles episódios sinistros da antiga série Além da Imaginação (“Onde estão Todos?” era o título), em que o personagem principal se vê vagando pelas ruas de uma cidade com casas e estabelecimentos comerciais perfeitamente conservados mas não encontra nenhum habitante. E baixa o desespero. O mesmo que começo a experimentar agora.

    Teríamos sido vitimados durante a noite por uma maciça invasão de naves extraterrestres que, em pouco tempo, dizimaram a população com seus artefatos de destruição em massa? Isso explicaria o pesadelo tenebroso dessa noite…

    Enquanto meu cérebro maquinava elucubrações cada vez mais catastróficas, vislumbrei, ao longe, adiante, alguém caminhando. Ufa! Não estou só no mundo. O vulto do que parecia ser um solitário homem se desloca, com uma aparência suspeita, em minha direção com passadas rápidas e estridentes que reverberavam tetricamente na calada daquela inusitada manhã.

    Seria mesmo uma pessoa? Ou talvez um alienígena, perscrutando os meandros do planeta desabitado, em busca de terráqueos sobreviventes (eu, por exemplo) para concluir a ação de extermínio? Já o imaginei, sacando de seu arsenal intergaláctico, uma arma letal e me abatendo impiedosamente.

    Ele continua se aproximando ameaçador. Pensei em furtivamente atravessar a rua para evitar que nossos caminhos se cruzassem, o que parecia, em função das trajetórias em curso, inexorável. Mas abandonei essa estratégia ingênua de fuga pois o expediente não seria capaz de afastar o perigo eminente nem me manteria fora do alcance de seus braços de plasma dilatável. Sua visão de raio X e sua arma mortífera me convertiam em presa fácil.  

    Ao chegar mais próximo, uma constatação terrível aumentou ainda mais meu pânico. Ele vestia no rosto uma sinistra máscara negra que cobria a maior parte de seu semblante!! E luvas plásticas envolviam suas mãos (ou seriam ganchos?). Não restava dúvida. Estava eu à mercê da criatura, e nada poderia mudar meu destino. Prossegui titubeante como um boi rumo ao matadouro, resignado ante o desígnio cruel que me aguardava.

    Ao chegar a poucos metros, verifiquei com um misto de alívio e decepção, que se tratava tão-somente de um reles rapaz de carne e osso de seus 30 anos, o qual ignorava minha presença, entretido que estava com seu celular (sua única ‘arma’, ao que parecia) e ia passando indiferente, sem sequer encarar minha expressão de pavor que, aos poucos, se dissipava.

    Mais calmo mas ainda sob tensão, procurei aquietar meu coração acelerado. Quando a curiosidade superou o medo, resolvi, num ato de bravura, a ele indagar:

    – Me desculpe. Poderia me dizer por que as ruas estão vazias e está tudo fechado?

    – Ué, o senhor não está sabendo da pandemia de coronavírus?

    – Hã. Corona… o quê?

    Minha vida estava salva. Acho. Pelo menos momentaneamente. 

    Uma pandemia? O que isso significa? Devia ser algo grave pra tirar todo mundo assim de circulação naquele sábado reluzente de outono.

    Seja lá o que for, melhor voltar pra casa que, pelo visto, é o lugar mais seguro.

    Mas quem vai salvar as seringueiras, os passarinhos, os gerânios, as borboletas?

  • Enxurrada

    Quem morou em cidades do interior, em tempos idos, vai se lembrar da enxurrada. Do barulho, da intensidade, da cor, do tempo que durava.

    Hoje, talvez, poucas crianças tenham visto, ou até mesmo ouvido falar dela. Esse fenômeno da natureza não era o evento em si, mas a consequência. Ainda assim, tinha tanta força que me deixava suspensa na janela, olhando. A causa era a chuva torrencial.

    Quando amainava, virava pingos esparsos, ou garoa fininha. Só então poderíamos sair de casa. Quando a enxurrada já tivesse diminuído, até se tornar uma fina lâmina de água que seguia em busca de seu destino final.

    Do qual eu não fazia ideia. Mas sabia que levava tudo em seu roldão: gravetos, brinquedos esquecidos na porta das casas, pintinhos distraídos, caso a galinha não tivesse tempo de protegê-los.

    E toda sorte de tralhas e sujeiras que encontrava pelo caminho.

    Por que me veio essa memória?

    Pelo cuidado.

    O cuidado e a responsabilidade que devo ter ao escrever as crônicas do meu cotidiano.

    Escrever é ato solitário.

    Mas, ao soltar o texto, ele deixa de ser meu e toma vários caminhos, pode circular pelo mundo virtual, ficar estagnado em uma gaveta, virar papel de embrulhar…

    Essa é a razão que me fez pensar no cuidado… ao escrever não devo me comportar como a enxurrada: bela, intensa, mas misturada ao lixo que recolheu pelo trajeto.

    Quero ser o fio de água que desce pela rua depois da tormenta.

    Manso.

    Sob a leveza da garoa fina.

  • Eu vejo flores em você

    Não tem nesse mundo quem nunca escutou falar que as palavras têm poder, seja para tornar realidade o que estava no campo dos sonhos, seja para elevar ou destruir alguém. Eu mesma lembro de algumas palavras que, atiradas contra mim, me fizeram sangrar por um tempo, assim como guardo na memória outras que funcionaram como unguento.

    Além do poder que lhes é peculiar, acredito, que elas também possuem altura, largura e profundidade, mas nem sempre nos damos conta.

    Exemplo disso acontece quando, ditas numa conversa, são capazes de inaugurar sentidos (largura), iluminar e fomentar ideias (altura) ou promover conexões, interpretações que abrem estradas para as emoções (profundidade).

    Mesmo cientes do seu poder de cura, não devemos esquecer de que, no bolso, as palavras carregam uma lâmina de corte afiada.

    Quantas vezes usamos a navalha sem intenção? Porém, para quem escuta, a ausência de motivação para a hostilidade não diminui a gravidade do ferimento. Daí a importância de se ter cuidado ao manipular a faca afiada.

    É comum ouvirmos o álibi: “esse é o meu jeito de falar, foi sem querer, não me leve a mal.” Levamos sim! Ninguém merece arcar com o custo da falta de coragem de mudar, seja de quem for. Fala sério!

    A palavra não é o pijama velho que vestimos para dormir.  Não, ela é tecido delicado, fino, requer cuidado e manutenção. Senão, encarde e perde seu encanto e beleza.

    Toda palavra é feita de pétalas e espinhos. Prestemos atenção na forma com que entregamos cada rosa no nosso dia a dia.

  • A verdade e o sonho

    Ele estava seriamente desconfiado de que Papai Noel não existia. Os pais protestavam, não queriam que se despedisse tão cedo da infância (como se não houvesse razões mais fortes que levavam a isso!), mas ele achava que o estavam tapeando. Enganavam-no além do tempo em que deveria ser enganado. De qualquer modo, com os seus onze anos, não tinha certeza.

    Valtinho, o melhor amigo, garantia que Papai Noel era uma invenção dos adultos para fazer as crianças irem para a cama mais cedo. E Valtinho sabia das coisas – foi ele quem lhe disse, por exemplo, que não existia cegonha. Se existisse, como explicar a barriga enorme das mulheres grávidas antes de descansar? Munido desse argumento ele interpelou a mãe, que desarmada lhe confessou a verdade. A cegonha era uma fantasia para enganar as crianças muito pequenas… Ao ouvir isso, ele se sentiu vaidoso. Estava se aproximando do mundo dos adultos, e um dia seria um adulto pleno, ou seja, alguém para o qual a vida não tinha segredos. “Ser adulto, saber tudo” – essa era a grande conquista que faria no futuro.

    No entanto a mãe, que desistira tão fácil da mentira da cegonha, insistia que Papai Noel não era uma fantasia. Vinha nas noites de Natal e deixava os presentes que as crianças pediam (anos depois, já adulto, ele criticaria a “irresponsabilidade social” dessa versão). O pai confirmava tudo, mas atualizava o contexto da história – em vez de trenó puxado por renas, por exemplo, falava num pequeno veículo movido a turbinas que permitia ao velhinho visitar numa noite todas as crianças do mundo. Era uma pequena concessão à inteligência do garoto, que ainda assim desconfiava da conversa.

    Por isso resolveu fazer um teste. Se Papai Noel vinha mesmo de noite, ou de madrugada, queria estar acordado para vê-lo entrar no quarto. Faria um esforço para não dormir e desvendar o enigma. Nos anos anteriores adormecia logo para abreviar o tempo e chegar a manhã do dia seguinte – mas essa era uma atitude de criança. Agora que estava se tornando adulto, e queria saber tudo, a melhor estratégia era fugir do sono… e do engano. Foi com essa disposição que se deitou na hora que os pais estabeleceram (não convinha resistir, para não despertar suspeitas) e ficou ali, de olhos arregalados, acompanhando o movimento da casa.

    Risos, fragmentos de conversas, barulho de talheres… De início tudo isso chegava ao seu quarto com uma intensidade que o incomodava; depois foi-se tornando distante, virando surdina, parecendo por fim uma cantiga de ninar. Ele aguentou o quanto pôde, mas terminou adormecendo. E teve um sonho. Sonhou que a porta se abria, aos poucos, e alguém entrava no aposento com o presente que ele pedira. Silenciosamente, para não o acordar, deixava o videogame ao lado da cama e se retirava depois de o beijar de manso na testa. Pelo vulto, e sobretudo pelo beijo, ele percebeu que era sua mãe.

    No dia seguinte, mal abriu os olhos, deu-se conta do seu fracasso. O propósito era manter-se acordado, mas não tivera forças para isso. Adormeceu como uma criança e teve aquele sonho… No sonho revelava-se o embuste, mas sonho é diferente de realidade. Sonhou com o que queria que acontecesse, pois desejava muito ser grande. Certamente não vira a mãe real, vira a mãe com que tinha sonhado. E como ficava a questão de Papai Noel? Existia ou não?

    No próximo ano ficaria “mesmo” acordado e descobriria a verdade. Com esse pensamento animador, ele começou a desfazer o embrulho do videogame novo.

  • Com um tirano na barriga

    “Fulano tem um rei na barriga”, todos conhecem o dito e, sem dúvida, ao menos uma pessoa que se enquadra no tipo que ele procura representar. De igual maneira, há quem possua um tirano na barriga. Mesmo que nunca tenha ouvido a expressão, tenho certeza de que o leitor conseguirá apontar alguém com essa característica.

    Esse tirano é também rei. Por vezes, crê ser um deus. O certo é que sempre corresponde a um déspota, mas nunca esclarecido (especialmente sobre si). Todavia, essa tirania só possui fundamento na mente do próprio indivíduo, repleta de megalomanias e delírios de poder.

    Ele está em todo lugar, no trabalho, dentro de casa, nas repartições públicas, na direção das empresas privadas, pode até ser você. Só há um lugar em que não é capaz de o encontrar: no consultório de psicologia. Aí, jamais! O divã se transforma em uma verdadeira maca cirúrgica, a partir de onde o tirano será extraído.

    Para comandar, não precisa da opinião alheia; afinal, se difere da dele, você está errado e é um ignorante. Em nenhuma hipótese, ouse discordar de Sua Alteza, a detentora da verdade universal e absoluta. Aliás, se há quem ainda acredite nesse tipo de verdade, são esses senhores, que não a veem na ciência ou em qualquer entidade religiosa, mas em si.

    O ideal de humano, claro, é ele próprio, o arquétipo da perfeição. Os outros habitantes da Terra, vis e repletos de defeitos, são hierarquizados de acordo com a proximidade ou distância das características divinas representadas nele. Casos de flagrante diferença não serão aceitos pacificamente em seu reino; pelo contrário, o anormal e problemático terá de ser açoitado e inferiorizado cotidianamente.

    Detentor do poder sobre tudo (poder outorgado e aclamado por ele mesmo), buscará reger o mundo, governando pela ordem e pelo arbítrio, como um autocrata. Casos de desobediência são julgados como lesa majestade. Quem tentar seguir um caminho diferente do decretado, estará sujeito à fúria do tirano.

    Sabedor de todas as verdades, não se equivoca nas suas ordens, que devem ser acatadas e cumpridas. Quem tem um tirano na barriga cobra obediência. Não é para menos, imagina-se em uma posição de direção e mando. Anda como um capataz a vigiar os subordinados; com estes, só se comunica de cima.

    Nada pode se suceder no espaço sob sua jurisdição sem que passe por ele. No seu domínio, tudo precisa estar nos conformes (vale dizer, nos seus conformes). Não espirre quando o ser supremo não quiser, ainda que não saiba da indisposição desse sujeito para tão pequeno e incontrolável ato.

    O cuidado é sempre necessário e deve ser constante, não se sabe o que pode despertar aquela ira. Todavia, isso não basta, a nação vive ao sabor das flutuações do ânimo da potestade. Ao acordar, reze para que ele tenha despertado bem.

    Não é só o referido procedimento cirúrgico que corresponde ao motivo pelo qual não vemos esses sujeitos no psicólogo. Quem carrega um tirano na barriga nunca irá aceitar a necessidade de ser acompanhado por um profissional dessa área. Aliada ao preconceito que ainda existe em torno da terapia, a empáfia dessas pessoas não permite isso.

    Admitir que possui problemas, aceitar que carece de ajuda? De maneira nenhuma. No tirano, abunda a sobranceria. Seus devaneios de superioridade não permitem qualquer ato que possa parecer fraqueza ou rebaixamento ao nível dos mortais. Aquela suposta posição cimeira precisa ser defendida a qualquer custo e a todo momento, inclusive diante dos casos mais fúteis e que não trazem nenhum questionamento.

    No fundo, o tirano todo-poderoso sente sua enorme fragilidade.

  • Ruptura

    Toda vez que olhava pela janela era em busca de distração. A vista não era de frente para o mar mas também não era para alguma parede. Do alto de sua janela avistava a cidade com sua arquitetura confusa e mista. Prédios clássicos que evocavam o passado de glória do bairro resistiam em meio a edifícios decadentes e lançamentos imobiliários de residências claustrofóbicas.

    Durava pouco a tentativa de desviar a atenção. Invariavelmente algo a puxava pelo pé e seus olhos voltavam para as obrigações. Agora, chamadas de obrigações mas que um dia foram recebidas com entusiasmo porque faziam parte de sua escolha.

    A opção por essa vida tinha sido sua há 20 anos. Era mais jovem do que hoje, naturalmente, mas ainda estava em boa forma. Toda manhã se olhava no espelho e sorria constatando: ainda sou um mulherão.
    Mesmo com sua rotina pesada e complexa, não abria mão dos cuidados essenciais. Unhas toda semana, para citar somente um aspecto, em nome do que ela chamava ser seu pacote básico feminino.

    Por dentro, mantinha alguns hábitos de higiene intelectual, como cinema e encontros com as amigas. Ver um filme, como ela sempre falava, era a forma de enxaguar seu cérebro. E encontrar as amigas era para deixar a gargalhada em forma. Mulherão por dentro e por fora, era assim que se definia.

    Por conta do seu cotidiano hiper atarefado era chamada de guerreira. Houve uma época em que sorria envaidecida quando escutava isso. Nos últimos anos, no entanto, esse suposto elogio a tirava do sério. Não era mal criada, longe disso, mas não deixava passar em branco.

    Toda vez que escutava que era “guerreira” respondia: guerreira não, sou sobrecarregada. Intimamente sempre soube que um dia teria que dar um fim a isso tudo. Aquela vida que um dia fora boa hoje se tornara um tormento. O problema estava em pegar a faca e cortar as cordas. Romper é um processo doloroso e necessário. Para ela, se desvincular e seguir adiante se tornaram situações que um dia ela teria que vivenciar.

    Só não imaginava que romperiam por ela. Doeu fundo quando escutou as palavras duras. Por fora manteve a postura corajosa, afinal é uma mulher adulta e independente. Mas por dentro escorreram lágrimas por sua alma que por pouco não transbordaram.

    Dedicara mais de 20 anos de sua vida para ser dispensada sem mais nem menos. Mas honestamente, ela esperava o que? Um número musical? Mãozinhas dadas e palavras doces?

    Sem chance. A vida era dura e isso fazia parte dela.

    Ergueu-se, ajeitou o vestido e olhou em volta para ver se faltava algo a ser levado. Parecia que estava tudo encaixotado, mas talvez ainda precisasse dar mais uma olhada. No coração, as mágoas que sentia pela ruptura ainda pulsavam. Arqueou as sobrancelhas e disse para si mesma: pode doer agora mas nada disso vai me abalar.

    Nesse instante lembrou-se das sábias palavras de uma amiga do tempo de escola. Sorriu para si e concluiu que naquele instante aquele conselho se tornara um imperativo em sua vida.

    A amiga disse certa vez: Para estar sempre preparada tenha à mão um bom advogado…trabalhista!

    Suspirou fundo e pensou: sem emprego mas isso não vai me abalar porque ainda sou um mulherão. E foi em busca de mais uma caixa de papelão.

  • Mundo Além das Quinas!

    Há uma caixa no centro da mesa. Você a conhece bem: é quadrada, de paredes rígidas, com cantos precisos. Dentro dela cabem todas as respostas que você aprendeu a repetir, os “porquês” que não precisam mais ser questionados e os caminhos que todos já pisaram. O pensamento dentro da caixa é seguro, previsível, quase um ritual. Mas e se, em um dia comum, você resolvesse escalar suas paredes e olhar para além das quinas?

    Acontece que o “fora da caixa” não é um lugar, mas um verbo. É o ato de duvidar da primeira resposta, de inverter a pergunta, de perguntar ao invés de responder. Lembro-me de uma vez em que uma criança, em uma sala cheia de adultos sérios, apontou para um quadro na parede e disse: “Por que aquele homem está triste?”. Todos riram, porque o quadro era abstrato, apenas formas e cores. Mas a pergunta permaneceu, como um convite a ver o invisível. Talvez pensar fora da caixa seja manter essa coragem de enxergar rostos onde outros veem apenas linhas.

    A história humana é uma coleção de escapes de caixas. Quando alguém duvidou que à Terra fosse plana, quando outro imaginou que máquinas poderiam voar, ou quando uma mulher decidiu que sua voz merecia ecoar além da cozinha. Acreditamos no que está escrito nos manuais, nos hábitos, nas tradições, no que é imutável. Há quem diga que “pensar fora da caixa” é uma habilidade rara, um dom para iluminados. Discordo. Basta observar os artistas de rua que transformam lixo em esculturas, os feirantes que improvisam soluções com arame e criatividade, ou a avó que reinventa a receita do bolo porque faltou um ingrediente. O difícil, na verdade, é resistir à tentação de voltar para a caixa quando o vento lá fora parece frio demais.

    No fim das contas, a caixa não é inimiga, ela existe para ser desmontada, remendada, ou abandonada. Porque lá fora, onde não há cantos definidos, há espaço para riscos, para erros que se tornam acertos, e para ideias que nascem frágeis. Talvez pensar fora da caixa seja lembrar que somos maiores que qualquer quina.

    E você, já olhou para além da sua caixa hoje?

  • Brazilzão

    Não falo de Clarisse, pelo contrário, ela se mostra ser uma pessoa de bem, engajada, fervorosa com os princípios das “quatro linhas da Constituição”. Falo de Sérgio, que se debandou para lá, pro lado comunista. É um tremendo de um traidor e vacilão. O casamento deles está um pandemônio. Imagine conviver com um comunista, que está pronto para matar um adversário a qualquer hora; que está repleto de ideais do mal; que quer ver a desgraça de toda uma sociedade de bem. Clarisse não tolera a virada de casaca de Sérgio, que hoje condena Bolsonaro – que ironia terrível. Até pouco tempo atrás, Sérgio dormia em acampamento em frente ao quartel, manifestava – até com certo excesso, que nós tínhamos de contê-lo –, idolatrava mesmo o nosso chefe maior, como um ser divino, enviado dos céus. Tudo que ele falava era lei. Hoje está do lado de Xandão. Disse que foi iluminado por um sonho tresloucado, só pode. Viu Jesus caminhando com os pobres, os vagabundos, os bêbados, os viados e os nordestinos. Onde já se viu?! A Bíblia não diz nada disso. Ao contrário, a Bíblia é santa, é o nosso guia e de Bolsonaro, declarando as palavras certas e duras, para o nosso bem e santidade. Não prega, jamais, a balbúrdia, que esse povo baixo prolifera. Você já viu o comportamento desses infiéis? Vi uma vez aquele Pablo Vittar e me escandalizei, e determinei que minha neta nunca mais assistisse a qualquer coisa dele. É um demônio disfarçado de gente. Foi preparado para destruir a cabeça dos jovens, para se virarem contra as leis de Deus. Veja só a inscrição do nome de Bolsonaro: Jair Messias Bolsonaro. Messias, viu aí?! Ele foi chamado por Deus para livrar o Brazil do comunismo. Voltando ao Sérgio, ele está absolutamente errado, se vendeu por nada. Fico perplexa com a desfaçatez do sujeito, que até outro dia se dizia ser nosso amigo. Chegou a frequentar a minha casa, justamente na comemoração daquele fatídico ano de 2018, quando o chefão se tornou presidente, para a honra e glória do nosso País. Observe como as coisas são bem articuladas: tudo que Bolsonaro está passando é somente uma prova para, com a ajuda dos alienígenas, refundar a nova ordem XWO. O que é Xandão na frente de criaturas superiores?! Deus e Elon Musk mandarão logo, logo, antes de uma inventada prisão de Bolsonaro, seres celestiais, de outras galáxias, para limpar o Brasil, e deixar nessa terra dourada somente os brazileiros de estirpe. Vão fazer uma limpa como jamais se viu! Os primeiros a serem exterminados serão Lula, Alckmin, Xandão e todo o STF. E Trump está intermediando esse plano, que começará no Brasil e passará por Venezuela, Cuba e afins – já viram os indícios de ataque a Maduro? São sinais dos novos tempos. Claro que agora vai dar certo. Só tenho pena de Sérgio, antes tão aguerrido; será dizimado junto com os comunistas.

  • O menino que pintava cidades

    Sempre identifiquei as cidades pelas cores. Mesmo antes de visitá-las, ainda garoto – empinando pipas nos arredores de casa ou jogando bola dente-de-leite pelas ruas – eu já sabia que o Rio de Janeiro era azul, igual ao céu em dia claro, e São Paulo, de um cinza faiscante.

    Pensava nisso e começava a desenhar em um papel pequenos quadrados, dentro dos quais escrevia os nomes das cidades. A partir dali, cada uma passava a ser classificada por uma cor: Curitiba-Cor-de-Gelo, Salvador-Alaranjado, João Pessoa-Azul-Anil e Espírito Santo-Cor-de-Mel. Abaixo de cada nome, colocava um número. Dependendo do tempo que eu tivesse, aquele quadrado ganhava contorno, ornamento ou traço estilizado. Ao lado, em uma coluna paralela, repetia os números, indicando a posição das cidades no “meu mapa”. Assim, podia provar a autenticidade da criação quando mostrava para minha família ou a algum amigo das brincadeiras.

    Para muitos, claro, parecia uma ideia estapafúrdia.

    — Tá maluco? Onde já se viu dizer que cidade tem cor, menino? O que tem é ladrão e gente doida, isso sim — retrucava minha mãe, toda vez que eu insistia no assunto.

    Às vezes, ouvia dos mais velhos que São Paulo era a “cidade da garoa”. Isso me deixava intrigado: tentava imaginar a cor turva de um dia chuvoso, em um lugar que, para mim, só podia ser cinza faiscante.

    Tinha meu amigo Zeca, o único que acreditava nessas descobertas. Mas ele não espalhava nada, porque acreditava em tudo o que eu falasse.

    — Qual é mesmo a cor de Brasília? — perguntava em tom provocativo.

    — Brasília-Branco-Neve, Zeca — respondia, exibindo o número correspondente nas folhas dobradas que carregava no bolso.

    Um dia, ele me lançou uma pergunta que mudaria para sempre o rumo do meu raciocínio:

    — E a nossa cidade, que cor ela tem?

    Fiquei paralisado, tentando imaginar. Mas simplesmente não havia resposta. Durante semanas, busquei a cor certa para a nossa cidade. Fechava os olhos e nada me vinha. Comecei a evitar o Zeca, temendo que descobrisse meu vazio. “Como não saber a cor da nossa cidade, se você sabe até a cor de Nova Iorque?”, provavelmente ele diria.

    Cansado de esperar, Zeca tentou por conta própria. Disse-me, certa vez, que sua cabeça chegou a doer de tanto esforço em traduzir uma cidade inteira em uma única cor.

    — Na nossa tem casa de tudo que é cor, primo — disse.

    O tempo passou. Muitas coisas mudaram, e eu ainda pensava nas cidades coloridas, mas já sem o mesmo entusiasmo infantil. Perdi o contato com minhas raízes; Zeca virou lembrança. Conheci algumas das cidades rabiscadas no meu caderno, e elas se apresentaram exatamente como eu havia imaginado: o Rio de Janeiro é mesmo o azul intenso do mar em dia ensolarado.

    Esta manhã, acordei pensando no Zeca. Queria contar-lhe o quanto fiquei preso àquela questão: a cor da nossa cidade. Mas ele já não está entre nós. Passados quase quatro décadas daquele episódio, ainda sonho com a resposta. E hoje, enfim, posso dizê-la: nossa cidade tem cor, sim. É verde-limão.

  • Entre Rolês e Rodeios

    Já disse em algum lugar — não lembro onde — que nem o cronista descansa: se deixa o bloco de anotações em casa, não importa. Você ouve uma frase no táxi, na pastelaria, na farmácia, no Uber e sente aquele chamado para a escrita, algo como: ali dá uma crônica da boa.

    O meu, outro dia, foi a palavra rolê. Com o controle remoto, pulando de canal em canal, vi uma garota falando: “eu acho que a minha grande crítica a esse rolê dos suplementos”. Rolê? Será que os suplementos pegam Uber sozinhos, fazem caminhada ou nós é que vamos num rolê até a academia mais próxima? Achei engraçado.

    Em outro momento, num vídeo da internet, o rapaz falou: “este rolê da Bíblia é algo diferente”. Pronto. Já imaginei os apóstolos subindo o Monte Sinai de short, tênis da moda, garrafa de água e barra de cereal. Tomando Gatorade no meio da revelação divina. Moisés, coitado, descendo com as tábuas da lei debaixo do braço e reclamando que não tinha wi-fi lá em cima.

    É curioso como, sem perceber, a pessoa encalha numa palavra e vai usando para tudo. A palavra funciona como um tênis velho, um jeans e uma camiseta que servem para qualquer ocasião. Como se as palavras fossem a roupa do corpo quando a companhia aérea perde a mala da gente: você não tem outra escolha, vai de calça surrada até no casamento. É o rolê virando uniforme oficial da fala.

    Rolê da Bíblia, rolê dos suplementos, rolê da missa, rolê da gula, rolê do vestibular, rolê dos livros clássicos. Daqui a pouco, terá rolê da TPM, do Pix que não cai, da geladeira que pinga água no chão. E a gente, claro, embarca em todos esses passeios — mesmo sem ter comprado ingresso.

    Antes, você chamava um amigo para um chope ou uma ida à praia e falava: “vamos dar um rolê?” Ia bater perna, sair em boa companhia, ir pra farra. Hoje, com essa macaquice de rolê, ninguém sabe mais o que significa. O que era passeio virou conceito, mania, tique verbal.

    Fico imaginando o Deus-nos-acuda que deve ser um estrangeiro aprendendo português. Deve ficar com a cuca fundida, saindo fumaça pelas orelhas. Afinal, esse rolê de novas línguas leva tempo. O sujeito mal decorou o “bom dia”, e já tem que enfrentar o “rolê do boleto” e o “rolê da psicanálise”. Coitado.

    Mas acontece que, de região para região deste meu Brasil, cada palavra tem seu charme. É uma característica de cada povo, uma particularidade, um jeito. O rolê, não. É o primo pobre das gírias atuais, aquele que todo mundo usa sem saber por quê, que se espalha feito vírus e não deixa saudade.

    O problema é que, sentadas cada uma na sua casa, as pessoas desaprenderam o rolê verdadeiro. Com o cachorro ao redor do quarteirão, com o seu amor no cinema, com os filhos na passagem de ano. Daí vem esta macaquice linguística: rolê da Bíblia, rolê dos suplementos, rolê do vestibular.

    Mas deixa eu sair de fininho antes que, pego de calças na mão, alguém venha me inventar o rolê da crônica. Só faltava essa. Pernas pra que vos quero.

  • O Chute na tomada

    Bueninho era o vocalista da banda ‘Impunes’.

    Ele saiu do metrô na estação Liberdade, a caminho da Rua da Glória.

    Faltavam sete minutos para as treze horas.

    Logo chegou ao portão do prédio em que moram Zími e Mila Cox, que juntos são a banda Crop Circles.

    Era um trajeto curto, onde ele pensou em como algumas influências musicais deles podiam ser identificadas.

    Mas eram influências obscuras, e eram numerosas também.

    Muitas delas poderiam ser mais populares do que são, mas estão fora do radar das massas, e era isso que o atraía.

    As letras de Mila Cox e Zími eram muitas vezes em inglês, por opção estética, e embora fossem simples, conseguiam não apenas ridicularizar a sociedade, como também apresentar verdades incômodas.

    O estado sendo uma doença que se apresenta como cura, a igreja fazendo lavagem cerebral nas massas através do medo e outros assuntos que a essa altura ainda são tabus.

    A simbiose entre eles era apenas musical. Cada um tinha e prezava loucamente por sua individualidade.

    Mila Cox parecia uma jovem Lydia Lunch, e Zími lembrava um Slim Jim Phantom de quase cinquenta anos.

    Bueninho tem dezenove anos.

    Ele foi chamado porque Zími viu o clipe feito para o primeiro single que a banda ‘Impunes’ tinha lançado recentemente.

    Musicalmente, aquilo era o som do álbum ‘Metal Machine Music’, com algumas intervenções vocais e instrumentais por cima.

    Se fosse lançado em 1976 ou 1977, seria vanguarda.

    Mas o que agradou a Zími foi que o vídeo começa com um cachorro caminhando em direção a uma parede, então levanta a pata, e mija sobre uma tomada, causando um caos apocalíptico, com imagens de centenas de pessoas em desespero, explosões, destruição em massa, e um diabo cristão interpretado por Bueninho, que gargalhava de maneira esquizofrênica.

    No dia em que foi à casa dos Crop Circles, Bueninho vestia uma camiseta do New Model Army e levava um carrinho com uma bolsa térmica cheia de latas de cerveja.

    Ele havia tentado beber destilados com Zími com Tito, baterista da banda Provetas, depois de um show que aconteceu em Avaré, no dia em que se conheceram.

    As três bandas haviam tocado no evento.

    Bueninho deu um vexame horrendo, e desde então, o pouco que se lembrava do episódio era suficiente para deixá-lo completamente deprimido.

    Na madrugada seguinte ao evento, ele acordou pelado, enrolado numa toalha, no sofá de uma casa em que nunca havia estado antes.

    Todos na casa dormiam, com as portas dos quartos fechadas.

    Ele ouvia roncos e televisão ligada.

    Ele não encontrava suas roupas e documentos.

    Nunca se sentiu tão ridículo.

    Algum tempo depois, quem saiu de dentro de um dos quartos foi Tito.

    Tito contou que Bueninho saiu bêbado no meio de uma conversa.

    Pensaram que ele tinha ido mijar e logo voltaria.

    Como Tito era da cidade e também estava bêbado, voltava a pé para casa e viu

    Bueninho deitado no chão de um posto de gasolina que estava fechado. Acordou-o e o levou para sua casa.

    Tito havia chamado as bandas e ajudado a organizar aquele festival, realizado numa casa onde funcionava uma sociedade de amigos do bairro.

    E agora, enquanto subindo naquele elevador, Bueninho sentiu certo nervosismo, pensando se seria ou se já estava sendo motivo de chacota pela sua bebedeira.

    Ao sair, viu Zími praguejando na sala do apartamento, que estava com a porta aberta para o corredor.

    Aquela visão mostrava a ele alguém com uma vida bem diferente da sua.

    Mas acima de tudo, mostrava a Bueninho que eles eram na vida cotidiana o mesmo tipo de gente que eram quando saíam para tocar.

    A embriaguez de Zími ainda não era aguda, e ele estava desenrolando um monólogo.

    Enquanto gesticulava para que Bueninho entrasse, Zími dizia:

    “O diabo cristão nunca vai ser tão horroroso quanto algumas pessoas com as quais ainda preciso lidar de vez em quando. Um tipo que eu sei que existe, que não precisam e nem deveriam fazer parte do meu convívio social. Se eu saio pra comprar cigarros a cinquenta metros desse prédio, essa saída rápida pode se tornar uma epopéia, apenas porque pessoas me abordam gratuitamente. Seria glorioso poder evitar. Ainda não sou livre a esse ponto. Ao longo da minha vida, a pior parte da luta era quando me interrompiam enquanto eu estava tentando virar o jogo. As pessoas conseguem estragar tudo, só por estarem no meio do caminho. Algumas vezes foi preciso abrir mão de certas coisas materiais, pra que junto delas eu me livrasse de certas pessoas. De um modo geral, as pessoas tem um potencial enorme pra estragar tudo. Estão condicionadas a isso. São patrulhas ideológicas e comportamentais. Sempre tive atração pela decadência, mas quando falo sobre isso, preciso explicar para não ser mal interpretado. Eu sei que um artista, por exemplo, precisa melhorar com o tempo. No rock, ele pode estar melhor como músico depois de envelhecer, e será chamado de decadente. Ele pode, quando jovem, produzir algo de acordo com sua idade, mas se suas temáticas forem juvenis, ele terá que se adaptar ao envelhecimento. Caso contrário fará papel ridículo e se mostrará realmente decadente. Muitas vezes será lembrado pelos hits antigos. Mesmo tendo lançado grandes álbuns mais maduros, muitas vezes essa evolução é completamente ignorada. Odeio a palavra ‘amadurecimento’ quando usada pra pessoas que envelhecem. Há também muitas que pioram com o tempo. Mas esse tipo de suposta decadência artística em que o artista continua produzindo mais e melhor, e mesmo assim as mídias ignoram, ah, esse tipo me interessa. Muito mais do que a decadência dessa sociedade podre, onde a qualidade humana só deteriora.”

    Zími estava completando quarenta e oito anos naquela sexta-feira, e a sua banda, Crop Circles, não tinha show marcado no fim de semana.

    Sua parceira musical Mila Cox já dizia que estavam num hiato de shows.

    Tinham músicas novas que nunca haviam sido tocadas ao vivo.

    Ela disse para Zími que o aniversário dele deveria servir como um motivo a mais para tocarem naquele dia, ou no dia seguinte.

    Parece ter ficado brava e foi para a janela.

    Olhou para a rua, e bastaram dois minutos para lembrar exatamente porque estava ali.

    Virou-se de volta à reunião e ficou quieta.

    Então eles não marcaram show porque estavam na festa de Zími, no apartamento de sessenta metros quadrados que ele dividia com Cox e Zími repetiu várias vezes que dizia para sua mãe que nunca chegaria aos trinta anos de idade.

    Olhando para Mila Cox, Zími falou: “A parte mais louca é que se eu olhasse quando tinha a sua idade pra quem eu sou agora, muitos anos depois, acho que ficaria feliz, apesar de tudo. Foi uma vida que eu mesmo considero errante. Meus pais achariam pior ainda, então está tudo certo. O que eles queriam que eu me tornasse é aquilo que nós criticamos na música e na vida.”

    O ambiente parecia o camarim que Zími idealizou para usar sempre que fosse tocar, onde quer que fosse.

    Não havia deslumbramento,nem luxo. Havia um padrão utópico.

    Janela grande, banheiro, refrigerador, controle sobre quem entra e sai. Os camarins nunca eram assim. Eram geralmente improvisados e precários.

    Mas o que interessava mesmo é que agora ele tinha um lugar decente para viver.

    Zími estava morando num armário localizado no corredor de uma pensão perto dali, porque estava sem computador para exercer o trabalho de copywriter, que agora paga suas contas.

    “Havia naquele lugar um cara que limpava a bunda com sabugos de milho, e os atirava na casa vizinha, causando uma série de problemas.”

    Essa era uma das histórias que ele repetia muito.

    Mila Cox também vive do trabalho de copywriter.

    Ser baixista e vocalista dos Crop Circles não lhe dá lucro e nem prejuízo financeiro. Na sala do apartamento também estava Lola, que é baixista e toca na banda Main Drags.

    Foi ela quem pediu para que Bueninho levasse cerveja, mas àquela altura estava tomando vodka com suco de maracujá com Mila Cox, enquanto Zími e Silvano tomavam rum com limão e hortelã.

    Silvano é o vizinho uruguaio que mora no apartamento ao lado.

    Ele é um guitarrista que tem uma Kombi para fazer carretos e poder pagar as contas, e também para transportá-los em dias de show,quando geralmente também se apresentava, fazendo uma mistura de punk rock, blues e rock a billy.

    A nuvem de maconha ali era tão intensa que teria disparado qualquer alarme contra incêndios que estivesse numa distância razoável.

    Bueninho pensou: “Meu Deus, como eles aguentam? Devem cheirar pó no banheiro pra aguentarem!”

    Na frente dele, Silvano mostrava perícia manuseando a faca para cortar hortelã e fazer os drinks que bebia com Zími em copos grandes.

    O problema alcoólico de Bueninho depois do show em Avaré não havia sido mencionado.

    Duas semanas haviam se passado, e no fim de semana anterior, a banda de Bueninho tocou em Santo André sem que ele bebesse nada de álcool.

    Ele gostava de beber, mas havia descoberto isso há pouco tempo, e não tinha o vício da bebida.

    E morava com os pais, que eram advogados, e repudiavam a idéia de Bueninho levar música mais a sério do buscar uma carreira acadêmica.

    No ano anterior, ele havia concluído o ensino médio a duras penas, e não conseguia se ver novamente sentado num banco escolar.

    E era ainda mais desesperador imaginar uma vida nos moldes que seus pais planejavam para ele.

    Isso era o que ele sabia que não queria, muito antes de conceber algum caminho viável para sua vida.

    É claro que havia a opção de mandar tudo às favas, arrumar um emprego, alugar um lugar para morar, e se ainda houver tempo e energia, seguir com a música.

    Ele pensava nisso todos os dias.

    Bueninho não é um instrumentista, não sabe ler música, canta apenas músicas que sua voz pequena permite, e sua banda, formada por mais três jovens com problemas similares aos dele, tinha apenas um single lançado na internet.

    Além disso, largaram-no no interior quando ele ficou bêbado depois do show e acabou sumindo na cidade.

    Então ele foi à geladeira pegar mais uma cerveja e quando virou-se de volta, Zími estava de pé e, quase exaltado falou:

    “A vida tem que começar de verdade em algum momento. É preciso tirar o band-aid. A minha vida já terminou e recomeçou várias vezes pra que eu não cumprisse o que dizia pra minha mãe sobre não passar dos trinta anos. Um dia, quando eu morava numa pensão abandonada, dormia num armário fodido no corredor, eu passei aqui perto, descendo a Brigadeiro Luís Antônio, voltando pra casa, com o saco cheio da vida, cansado da rua e cansado do lugar em que eu morava, e então passei pela praça e havia no centro dela uma tenda armada, e havia um evento religioso. Passei olhando o evento cheio de som e luzes, e do nada, chutei algo sem querer e, simultaneamente, as luzes do culto piscaram e se apagaram. O gerador de luz era a bateria de um carro estacionado na calçada ao redor da praça. Continuei andando, num sentimento que era um mix de vergonha e perplexidade, enquanto cerca de oitenta pessoas olhavam pra mim, também parecendo perplexas. Eu andava e eles olhavam. Virei pra frente, segui o caminho até sair do campo de visão do grupo. Quando já estava numa padaria perto de casa pra usar o wi-fi, acendi um cigarro e não havia ninguém me seguindo. Depois de fumar, entrei na padaria, e havia uma mensagem da Cox me convidando pra tocar bateria num experimento musical caseiro que ela estava tramando. Ela morava na Penha, com a mãe e a avó, estava com o saco cheio e queria se mudar dali. Então nos juntamos pra pagar o aluguel desse apartamento. Tive que fazer um empréstimo, que depois me sugou até o tutano, mas já está quitado. Precisei comprar um computador e outras coisas. Mudamos pra cá, trabalhando em casa e saindo pra tocar. O momento satisfatório que vivo agora custou. Um dia contei a história do chute na tomada pro Falkner, o porteiro daqui do prédio que te anunciou no interfone. Ele disse que certamente aquele episódio libertou pelo menos meia dúzia de ovelhas daquele pastor, mesmo que tantas outras tenham ficado sob o domínio dele. Não chegamos a uma conclusão sobre a relação desse episódio com o fato da minha vida ter mudado a partir de então. Pode ser coincidência também. Mas aconteceu. E você precisa fazer alguma coisa também. Aquele clipe que vocês gravaram pode ter sido decisivo. E hoje é melhor você dormir nesse sofá pra não chegar bêbado em casa. Sei que ainda não está bêbado, mas provavelmente vai ficar, e deve evitar atritos na sua casa. Saia de casa de vez antes que atritos mais sérios surjam.”

    Mila Cox foi até Bueninho, dando-lhe um copo grande de vodka com suco de maracujá.

    Ela falou: “Já que não tem show e estamos aqui, tome esse drink e deixe a cerveja pro café da manhã.”

    As horas se passaram com Bueninho anotando nomes de bandas e ouvindo conversas sobre música alternativa e anarquia.

    Acordou no sofá na manhã seguinte sem se lembrar do momento em que adormeceu. Ninguém mais ali parecia ter dormido.

    Para o terror de Mila Cox, que é vegana, Zími e Silvano fritavam quantidades astronômicas de bacon e continuavam com as bebidas fortes.

    Bueninho foi até a geladeira e as cervejas ainda estavam todas lá.

    Ele quase morreu de tristeza ao recusar as fartas porções de bacon oferecidas por Zími, porque estava apaixonado por Mila Cox e não queria decepcioná-la.

    Inclusive mentiu a ela dizendo que também era vegano.

    Não iria jamais contá-la que estava apaixonado, mas mesmo assim preferiu manter alguma chance, apelando para a questão do veganismo por ter sido a primeira que surgiu.

    Sua autoestima era extraordinariamente baixa, e ele montou uma banda para tentar melhorar essa condição.

    Passou todas aquelas horas longe da tela do celular, e o lado ruim disso, é que iria sofrer opressão ao voltar para casa.

    Começou a pensar em sair de casa e largar a banda para tocar sozinho, com um teclado Casio que compraria usado.

    Arrumaria um emprego tosco, só pelo salário e pela revolta, que seria canalizada através de músicas contra o sistema.

  • Poema #37: Um Vazio Suficientemente Cheio

    Subtraímos da vida
    a sua menor parcela
    para o preenchimento
    de nossas carências.

    Mas ao assumirmos o
    controle desta mínima
    propriedade, sentimos

    que ela não nos basta
    posto que a enxergamos
    apartada de sua totalidade.

    Acrescentamos então à vida
    a parte restante que falta
    para completar a visão que
    nós temos do seu conjunto.

    Mas ao nos atribuirmos a
    capacidade de dispor dos
    elementos de acordo com nossa
    momentânea vontade, a vida

    perde a complacência concedida
    e resgata a sua fração que já
    tínhamos e que era a única que
    podíamos aspirar em nosso desconforto.

    Inventário de Sombras

  • A “calçada da fama” carioca

    No início dos anos 2000, quando o Rio ainda sentia o peso das filas intermináveis em frente ao Consulado Americano, um homem simples, de fala mansa e sorriso largo, decidiu reinventar a espera. Seu nome: Edson Ferreira Maia, o homem que inventou um ponto de encontro em frente ao Consulado.

    Foi ele quem criou o Baggage Keeper, Cel. Phone, uma tenda de guarda-volumes instalada na Rua México. A ideia, aparentemente banal, era fruto de uma astúcia tipicamente carioca: transformar um problema em oportunidade, e a oportunidade em convivência.

    Antes disso, Edson trabalhava como “guardador de vaga” para os que buscavam o visto. Quando os atendimentos passaram a ser agendados por telefone, alugou cadeiras. Mas veio o 11 de setembro, e com ele a proibição de objetos pessoais no interior do Consulado. Era o fim de uma fase — e o início de outra.

    Com autorização da segurança, Edson montou seu pequeno império colorido com as cores da bandeira americana. Ali, celulares, câmeras e mochilas eram guardados com cuidado, embalados em sacos plásticos e catalogados com números. Havia promoções camaradas: uma família inteira pagava como se fosse apenas um aparelho. Mais que serviço, era acolhimento.

    A calçada da fama de Edson

    Rapidamente, o espaço virou atração. Edson passou a colecionar fotos com artistas que utilizavam seus serviços: Bussunda, Beth Carvalho, Tony Garrido, Gabriel, o Pensador, bandas como Revelação e Detonautas, além de dezenas de globais.

    Ele próprio batizou o mural de “Calçada da Fama”. Quem passava pela Rua México dificilmente resistia a parar para espiar as centenas de fotografias expostas, cada uma delas testemunho de encontros casuais e da espontaneidade carioca.

    O sumiço e o silêncio

    Passados quase vinte anos, o rastro de Edson Ferreira Maia se perde no asfalto. O Baggage Keeper desapareceu, o painel de fotos já não está mais lá, e quem cruza a rua em frente ao Consulado encontra apenas a pressa cotidiana.

    Não há registros recentes em jornais, tampouco nas redes sociais. Como se aquele pedacinho de história tivesse sido engolido pelo tempo.

    E, no entanto, permanece a saudade. Quem conheceu Edson guarda a lembrança de uma figura simpaticíssima, capaz de transformar um espaço burocrático em ponto de encontro, de fazer da espera um espetáculo, de transformar gente apressada em plateia.

    Mais que um serviço, uma memória

    Hoje, ao revisitar a história de Edson, não há como não enxergar ali um retrato maior do espírito carioca: inventivo, solidário, capaz de rir das dificuldades e criar pontos de convivência onde antes havia apenas tensão.

    “Quero transformar este espaço em um point para os cariocas.” — Edson Maia

    Se conseguiu ou não manter o sonho vivo, o futuro não respondeu. Mas o passado, esse sim, confirma: por alguns anos, aquele pedaço da Rua México não foi apenas passagem para vistos e burocracias. Foi palco de encontros, fotografias e histórias que merecem ser lembradas.

    📌 Nota do editor: Se alguém souber por onde anda Edson Ferreira Maia, escreva para nós. Talvez seja hora de reencontrar não apenas o homem, mas também a memória de um tempo em que a calçada era lugar de festa, curiosidade e afeto.

  • Música Brasileira

    Ah! Que saudade da travessia de Milton, das noites com sol de Venturini, do palco de Gil, da construção e das construções de Chico!!

    O coração aperta com a alegria e as alegrias de Caetano, com as águas de março de Tom e, generosamente, faz lembrar de Madalena de Ivan.

    O som alcança corpo, alma e coração e, diante de mim, surge um lindo lago do amor, um lagode Gonzaguinha. Faz brotar mais água e um oceano inteiro em Djavan.

    Devagar, devagarinho, chegam os versos de Martinho e outros versos, os de Cartola, ensinam que o mundo é um moinho!

    Caymmi mostra entre os acordes o que é que a baiana tem e Gonzaga, o Gonzagão, apresenta uma Asa Branca e os perigos do sertão.

    E entre melodias, rimas e cantorias, a crônica celebra Pixinguinha, outra Gonzaga, a Chiquinha, Villa Lobos, Roberto e Erasmo, Marisa Monte, Lulu Santos, Hebert Viana e tantos nomes geniais.

    É a música brasileira pedindo passagem, deixando a mensagem de uma língua vibrante!

    É a música brasileira que se faz crônica, poesia, inúmeros romances e nuances de um idioma eletrizante!

    E entre confetes e serpentinas, vibra a Colombina e o vozeirão de Ed Motta.

    Mas como é que não se nota?

    O descobridor dos sete mares e de Tim Maia as excentricidades!?

    Com tanta música boa e malemolência do canto, há sempre mais encanto e mais sabor! Há também a ovelha negra da Rita  e o Maluco beleza de Raul.

    E entre melodias, rimas e cantorias, a crônica celebra Gal Costa, Maria Betânia, Gabriel o pensador. Celebra Lenine, Moraes e Alceu! Celebra Cazuza, Renato Russo e a guitarra de Pepeu!

    São tantos os tons, de pele e de sons, são tantos os nomes e rostos e histórias que um texto só não dá conta de mostrar!

    Esta é a crônica da música brasileira, a melhor que há!

    E assim, quando a tarde cair feito um viaduto, canta feliz a menina apimentada, a pequena Elis. E ela nos diz que a esperança equilibrista sabe que o show de todo artista tem que continuar.

  • Tatibitate

    Meu amorzinho, vamos começar. Vou explicar para você direitinho o que vai acontecer, não se preocupe, estou aqui pra ajudar, viu amorzinho? Qualquer dúvida pode me perguntar, eu estou aqui do seu ladinho o tempo todo. Vamos lá? coloque o pezinho aqui, assim amorzinho, um pezinho pra frente, o outro pezinho pra trás. E a mãozinha precisa estar firme assim, viradinha.

    Quem lê esse parágrafo logo imagina um adulto conversando com uma criança bem pequena, que ainda não domina totalmente a linguagem, correto? Ledo engano. Ouvi esse diálogo em uma sala de teste ergométrico, em que a pessoa que estava sendo testada era uma senhora na faixa de sessenta anos. Constrangida, ela tentava se desvencilhar desse linguajar da assistente de enfermagem sem sucesso.

    O que percebo é que alguns comportamentos da sociedade acabam por eliminar o período entre a infância e a velhice. É como se, na hora de desenhar a linha do tempo, os anos da vida adulta não existissem.

    Infância e velhice se tornaram uma categoria única, com a diferença que, aos olhos principalmente de quem atende o público, essas crianças longevas sofreram uma perda significativa de senso crítico, autoestima, raciocínio e capacidade cognitiva.

    Assim, a partir dos sessenta anos, os denominados “da terceira idade” se veem frente a situações cômicas, se não fossem odiosas.

    Uma delas é essa mania de usar diminutivos, uma linguagem quase tatibitate. Os idosos não tem membros, tem membrinhos. Não são tratados como senhor e senhora e sim como senhorinha e senhorzinho. Tem sapatinhos e não sapatos e carregam malinhas e não uma mala.

    Esse uso constante do diminutivo reduz o idoso a uma condição infantilizada e o interlocutor a praticamente um tutor daquele ser incapaz. Isso para não falar do sorriso condescendente que acompanha o diminutivo, quase de comiseração.

    Vivemos em um país com trinta e sete milhões de pessoas (18% da população) com mais de sessenta anos e essa parcela da sociedade cresce a 2,5% ao ano. Há que se pensar, portanto, em uma reciclagem dos treinamentos para atendentes do público pois, no andar da carruagem, o diminutivo assumirá o comando na língua portuguesa.

    Está na hora de esticar a linha do tempo e encurtar o tratamento com diminutivos!

  • ………….|….|…|…|.|.|…|.

    Uma pena
    Rubra, rubor – ruído ruivo
    Feito item desejado
    Jaz – ainda que repleta de vida
    No papelão bonito de onde veio

    Nunca
    Sequer
    Dali
    Saiu

    Enquanto observa o líquido

    – mesma cor
    rubra, rubor – ruído ruivo
    Dançar serelepe em cristal humano
    Apaixona-se e queixa-se da sina que lhe
    Cabe
    Abre
    Fecha
    Resta

    O rubor vem do entalhe
    Afinação do cálamo
    Calado a observar
    Rêmige de primeira linha
    Ave-falante-de-peito-roxo
    Ares exóticos
    Mas
    É
    Brasileira

    – brasileiríssima, embora
    rubra, rubor – ruído ruivo
    Do sul

    A bebida reluz

    As barbas eriçam

    Deve ser sonho

    Ar condicionado

    Condição de um seu delírio
    Quer ser algo
    Escrita
    Grita

    Pensa nas curvas delineadas
    Êxtase encontro seu com a bebida
    Mergulho
    Líquido que de si
    Então tinta
    A ponta
    Uma linha
    “O” ponto
    .

    Rubro

    Rubor

    ………….|….|…|…|.|.|…|.
    Ruído ruivo

  • Para mim e por mim

    Hoje eu acordei disposta a me elogiar, admirar meus feitos, reconhecer minhas lutas, relembrar todas as vezes que me levantei de tombos dolorosos e segui em frente.

    Acordei sedenta da minha essência, de abraçar com carinho minhas cicatrizes, as lágrimas escorridas por trás do muro da fortaleza. Perdoar as escolhas feitas com ingenuidade, que tanto me culpei por achar burrice. Sorri orgulhosa do meu jeito brejeiro de dar nó em pingo d’água…

    Hoje eu quero celebrar a descoberta da minha importância, significado e especificidade, independente da validação dos outros.

    Envelhecer não é só contar primaveras, atravessar invernos, gozar verões e aguardar outonos. É também um encontro com as escolhas, possibilidades, desejos e encantos que resistem a oxidação dos dias.

    Salve a minha coragem.

  • Realidade Adversa

    “Da minha infância querida, que os anos não trazem mais…”

    “Maringá, Maringá, depois que tu partiste, tudo aqui ficou tão triste que eu garrei a imaginar…”

    “Vento que balança as palhas dos coqueiros, vento que encrespa as ondas do mar…”

    Aqui, sentada na varanda, Felícia aos meus pés, o sol de setembro ainda ameno e o trinar dos passarinhos me zoando aos ouvidos, eu penso.

    Sem pressa, sem ódios, sem amor. Como trilha sonora, busco deliberadamente os sons que embalaram as minhas inquietações juvenis.

    Não, não é fuga. Não é alienação. E nem poderia ser.

    Tantas coisas acontecendo no mundo… de santos a demônios, de guerras em palavras, intenções e atos…

    De surpresas a favas contadas…

    De descaso em vida a homenagens póstumas…

    Como abstrair? Como brincar de faz de conta?

    A dicotomia permeia tudo: céus e terra, humanos e não humanos.

    Os bruxos estão soltos…

    Ou talvez sempre tenham estado.

    No ar, nas ideias, nas esquinas e nos templos. E se disseminam nas ondas invisíveis que o homem, esse ser maravilhoso, “à imagem e semelhança de Deus”, colocou à nossa disposição.

    De ondas eu entendo, pois foi nelas que me refugiei desde a idade em que meus pensamentos se tornaram perguntas e porquês.

    E sigo aqui, entre ondas…

    As que me acalentam e as que me desafiam. Ondas de mar, de rádio, de pensamento… sempre elas a me lembrar que a vida não cabe em extremos, mas se move no vai e vem do tempo.

    E, nesse movimento aonde me encontro, entre idas e vindas, sigo buscando abrigo…

    Pois mesmo que eu veja, ou só mesmo perceba do meu ponto de vista, a realidade adversa por onde a humanidade caminha, se eu me alienar, deixo de cumprir o meu lugar no mundo.

  • Montanha

    A inspiração é forte. A concentração, igual.

    Olha-se adiante, para cima, em busca de cada reentrância na pedra que permita firmar as mãos ou só os dedos. Meio pé em um calço é o suficiente para subir mais um pouco no paredão.

    Visto por baixo, a parede parece lisa e impossível de ser conquistada. De perto, a visão é outra.

    Apoios para as mãos e pés se multiplicam, mas não estão expostos. É preciso atenção e muita observação para achá-los.

    A cada momento da jornada, entre um trecho de parede íngreme e outro, surge um platô mais amigável. Está ali para lembrar que ainda há mais a ser escalado.

    A sensação de estar lá, subindo devagar e firme, é única. Nada melhor que sentir a pedra quente nas mãos. A montanha firme, imóvel, e você subindo por ela.

    Silêncio profundo. Há vida à sua volta. Mas nenhum som chega até você. Impera a quietude.

    Um vulto passa longe. Você vira o rosto um pouco e vê um urubu voando. Sorri, e a ideia de a presença dele ser um presságio brinca na sua mente. Mas, qual nada. É só um urubu aproveitando uma térmica, a corrente quente ascendente. Ou, como diria Tom Jobim, dormindo na perna do vento.

    Admirar o voo do urubu serve para descansar um pouco. Mas agora, adiante. Aspirar o ar puro do alto da montanha. E seguir. Sem pressa, domando a ansiedade que cresce à medida que o cume se avizinha.

    O topo é o final da jornada. Cume ou chapadão, é para lá que você vai. O prazer da conquista é só seu. Egoísta? Nem de perto.

    Ninguém pode sentir o que você realmente sente nesse momento. Ou em outro qualquer da sua vida. Nenhuma narrativa, nenhuma imagem captada, nada na tecnologia humana é capaz de passar a outra pessoa o que você sente. A sensação, seja ela qual for, sempre será unicamente sua.

    No topo, você olhará para os lados. Para baixo. Vai suspirar satisfeito com sua conquista, para depois tomar o caminho de volta. Por onde subiu, vai descer. No mesmo ritmo, com o mesmo cuidado.

    E, a cada movimento para baixo na descida pelo paredão, a cada parada nos platôs, vai se lembrar de que cada conquista é única, mas não definitiva.

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