Crônicas

  • Caso verdade

    Uma. Duas. Três. Já eram suficientes para tirar a paciência de qualquer um, mas não parou por aí. Aos poucos, seguindo o mau exemplo, os vizinhos começaram a depositar suas sacas de lixo na calçada alheia. Alguns moravam perto, entretanto, logo chegariam os mais distantes. Definitivamente,  já estava configurado o abuso. Educadamente o “dono” da calçada resolveu pedir à proprietária do bar em frente – responsável pela primeira saca de lixo – que, por favor, não mais deixasse lixo em sua calçada. A mulher não gostou. Foi logo dizendo que não era a única da rua a colocar o lixo no local. Ainda com paciência, o homem disse que falaria com todos e o bar apenas tinha sido o primeiro lugar a ser visitado por ele. A mulher, sentindo-se menos injustiçada, comprometeu-se a não mais depositar seu lixo na calçada vizinha. Assim também fizeram todos os outros anfitriões, confessadamente arrependidos.

    O homem voltou pra casa satisfeito. Comentou com a esposa que não mais teriam problemas. Muniu-se de um balde, desceu as escadas e pôs-se a lavar a calçada certo de que a teria limpa na manhã seguinte. 

    Um barulho furtivo acabou por despertá-lo quando dormia em frente à tv. Resolveu olhar sem  se deixar ver. Decepção! Cada um daqueles que, pela manhã, havia se comprometido com ele, agora vinha apressadamente, quase correndo deixar seu lixo  às escondidas. A mulher ofendidíssima era novamente a primeira a fazê-lo enquanto o marido já a esperava com o carro ligado. Outros fingindo naturalidade, repetiam o malfeito.

    O homem na janela espumava. Daria um jeito naquilo ou mudaria de nome.

    Quando o dia começou, o bairro agitou-se. Havia lixo espalhado em todos os cantos. Principalmente em determinados estabelecimentos e portões.  

    O morador voltava de sua caminhada matinal e a mulher do bar gritou:

    — Quero ver se é homem pra fazer na minha frente! 

    Não ouviu resposta. Aliás, nenhuma reação foi percebida. Silêncio.  

    Não se dando por vencida, ela tenta mais uma vez:

    — Deve ter ficado nervosinho. A mulher dormiu de calça jeans, brabinho?

    Enquanto ela provocava e os vizinhos comentavam, Valmir, lá de dentro do bar, estava pronto para filmar caso o homem perdesse a cabeça. Ela não paravs e o homem resistia.

    — Tu é um frouxo! Quer bancar o nervosinho? Vem me encarar! — disse, batendo no peito. — Tá com medinho? 

    Boa tarde!

    Seguem texto e sugestão de imagem.

    Atenciosamente,

    Valeria Soares

    De súbito o portão se abre e uma esposa furiosa vai com tudo pra cima da mulher do bar. 

    — Vavá! Socorro!

    — Você tá provocando meu marido pensando que ele vai cair na sua armadilha?! Manda o Vavá filmar agora.

    Só a polícia conseguiu separar as duas. Ninguém foi preso. Ultimamente a calçada anda limpíssima. Cada um deu um jeito de cuidar do próprio lixo  sem poluir o bairro. Todo mundo aprendeu a lição.

     Principalmente: ninguém quer cair nas garras da esposa.

  • Colóquio – simples e grandioso demais – de um café da manhã domingueiro

    — Eu queria tomar um café com alguém que parecia um livro interessante, mas dormi antes de chegar ao primeiro capítulo — disse Clara, mexendo o café fumegante, como que procurando um tête-à-tête com a leitura da borra, submersa, no fundo da xícara.

    Joaquim não ergueu os olhos do caderno.

    — Isso soa como frase de alguém cansada.

    — É exatamente isso.

    — Não. Parece uma frase de alguém que está tentando transformar cansaço em teoria.

    Ela riu.

    — Ainda me surpreendo com esse seu super poder de ler minha mente, gêmeo insuportável.

    — Eu conheço o começo da crônica antes de você.

    Ela levou a xícara aos lábios e fez uma pausa. Do lado de fora, mesmo sendo domingo, a cidade seguia seu costume de correr para algum lugar urgente: pneus arrastavam-se pelo asfalto da avenida. Portões metálicos recolhiam-se como quem se espreguiça. Portas batiam, entre o abrir e o fechar. Cachorros latiam. Alguém discutia ao telefone nalguma varanda vizinha. Aos fundos, os Dois Irmãos permaneciam imóveis, como fazem as montanhas e os irmãos que já disseram tudo um ao outro. Entre os de pedra e os de carne – estes, gêmeos -, a primeira manhã de inverno seguia seu curso quando Clara quebrou o ruído branco à mesa.

    — Outro dia li que existem milhões de brasileiros solteiros.

    — 81 milhões, segundo o Instagram. E, claro, você resolveu investigar.

    — Resolvi pensar.

    — O que é ainda pior.

    Ela ignorou a interrupção.

    — E me ocorreu que talvez boa parte dessas pessoas – nós, inclusive – não esteja solteira por falta de amor.

    — Mas?

    — Deduzi que estamos todos exaustos.

    Ele finalmente levantou os olhos.

    — Ah.

    — Ah?

    — Agora chegamos à crônica.

    Ela apoiou os cotovelos na mesa.

    — Trabalhamos demais. Sonhamos demais. Pagamos boletos demais. Focamos em construir carreiras pensando nas aposentadorias de um mundo com regime CLT em extinção… Estamos sempre falando de projetos, empresas, casas, versões melhores de nós mesmos… E, quando encontramos alguém interessante…

    — Dormimos.

    — Exatamente.

    — Isso é quase ofensivamente contemporâneo.

    Ela sorriu.

    — Você está dizendo que o desencontro de hoje em dia não é geográfico?

    — Não, Joca… se fosse isso, a internet já teria resolvido.

    — Tampouco cronológico?

    — Ah-ãh — Clara complementa a fala com o dedo indicador em riste, de um lado para o outro.

    — Então..?

    Ela apontou para a própria xícara.

    — Energético.

    Ele riu.

    — Essa palavra vai irritar metade dos seus leitores.

    — E a outra metade vai se sentir representada. E brindar com o café. – E erguendo a xícara para o irmão, disse:

    — Tim-tim!

    Ficaram em silêncio por alguns segundos.

    — Então o café não aconteceu.

    Ela o encarou.

    — Como você sabe?

    — Porque, quando acontece, você não escreve sobre ele.

    Ela tentou conter o sorriso.

    — Talvez.

    — Parecia interessante?

    — Parecia um livro interessante.

    — E?

    — Dormi antes do primeiro capítulo.

    — Isso realmente não é lá muito você.

    — É, pois é.

    Ela largou a lapiseira sobre a mesa.

    — E o pior: nem foi desinteresse. Foi apenas exaustão. A semana foi intensa, quase não consegui dormir. Imagine a pessoa aqui — apontou para si mesma — trocando um café por um travesseiro, sem qualquer heroísmo…

    — Escandaloso.

    — Eu achei.

    Ele voltou a rabiscar.

    — Então essa crônica é sobre homens?

    — Curiosamente, não.

    — Claro que não.

    — Como assim, claro que não?

    — Porque você nunca escreve sobre homens quando diz que está escrevendo sobre homens.

    Ela cruzou os braços.

    — E sobre o que estou escrevendo?

    — Ainda não sei.

    — Plantas.

    Ele assentiu, como se já soubesse.

    — Faz sentido.

    — Ah, é?

    — Você comprou um girassol, uma gelosia e uma ficus na semana passada…

    — E?

    — E já transformou todas em personagens.

    Ela fingiu indignação.

    — Das três, apenas a de folhas grossas e tronco mais vigoroso parece sobreviver ao meu ritmo.

    — A Magda.

    — A própria.

    O silêncio voltou a ocupar a mesa.

    — Então essa é a metáfora? — perguntou ele.

    — Quem sabe…

    Ela observou a espuma que resistia na borda da xícara.

    — As plantas que exigem presença constante sofrem comigo. Água na hora certa. Sol na hora certa. Atenção na hora certa.

    — E os homens?

    — Talvez padeçam pelo mesmo motivo. Mas homens não são plantas. Convenhamos.

    Ele terminou de escrever alguma coisa numa folha do caderno e a arrancou. Empurrou o papel para o outro lado da mesa.

    “Não julgamos os livros pela capa; às vezes só
    chegamos cansados demais ao primeiro capítulo.”

    Clara sorriu. Lá fora, a cidade continuava correndo. Ali dentro, entre duas xícaras de café e um punhado de folhas rabiscadas, surgia uma descoberta simples e grandiosa demais, partilhada entre duas mentes da mesma safra, para um domingo comum:

    Bem provável que o amor contemporâneo não esteja morrendo. Provável — muito provável — que estejamos, todos, apenas frustrados demais com tamanha falta de agenda.

  • Fantasias

    — O que foi dessa vez, Noêmia?

    — Sei lá. Não está funcionando.

    — Você sabe o trabalho que me deu arrumar essa fantasia de bombeiro, né?

    — Calculo.

    — E não era isso que você queria? Um bombeiro para apagar seu fogo com uma mangueira enorme?

    — Então…

    — Então, o quê?

    — Mangueira enorme, uma piada…

    — Sem ironias, Noêmia.

    — A questão foi que você não ficou bem de bombeiro, meu amor.

    — Sério isso? Já tentamos piloto de avião, você implicou com o meu quepe; vim de médico e você reclamou da falta de um estetoscópio; inventou um salva-vidas e faltou a boia. Agora a mangueira é o problema. Assim não dá.

    — Tive uma ideia.

    — O que será dessa vez, Noêmia?

    — Super-heróis. Sempre tive atração por super-heróis.

    — Pronto! Só falta agora me vestir de Batman.

    — Não, você está mais para Robin.

    — Que tal, He Man?

    — Inviável, você não tem a “Força”. Tinha pensado no Homem-Aranha.

    — Não acredito!

    — Você até se parece um pouco com o ator que faz o Peter Parker.

    — Nem sei quem é.

    — Começamos a conversar e você já mostra um desânimo danado. É broxante, sabia?

    — Você levou em conta, Noêmia, que aquela fantasia de Homem-Aranha deve dar um calor danado? Está fazendo quase 38 graus.

    — Ligamos o ar.

    — Não vai dar certo.

    — Você não disse que faria tudo para me satisfazer?

    — Mas não me desidratar.

    — Então, o Hulk.

    — O da televisão?

    — Não, o verde.

    — Onde vou arranjar tinta para o corpo? E também vai sujar a nossa cama toda.

    — Pensei também no Homem de Ferro, mas acho que não vai combinar com você…

    — Por quê?

    — Deixa pra lá. Apaga a luz. Vamos dormir.

    — Ei, Noêmia, sabe o que pensei? Posso me fantasiar de Wolverine. O que você acha da ideia?

    — Você está mais para Professor Xavier, querido.

    — Depois não vá reclamar que não quero participar das suas maluquices.

    — Wolverine é demais, meu amor. Deita e dorme.

    — O que foi agora, Noêmia?

    — Pensei na Mulher-Maravilha.

    — Fantasias homossexuais a esta altura?

    — Por quê, não posso?

    — Não vou passar por esse ridículo.

    — Bobagem, você ficaria uma graça de maiô com cinto e uma peruca.

    — Sem chance…

    — E aí, Noêmia, gostou?

    — Foi bom. Mas rápido demais.

    — Mas você não pediu o The Flash?

    — Não era ao pé da letra. A rapidez era só para tirar a minha roupa.

    — Sabe de uma coisa, melhor deixarmos pra lá esse negócio de sexo com super-heróis.

    — Logo agora que eu tinha pensado no Thor?

    — Desisto…

    —

    —

  • O Rei, o poeta, a mulher e o mar

    Conto publicado no livro O rei, o poeta, a mulher e o mar

    Um reino é algo muito sério. É algo místico, um poema, embora inacabado – posto que um reino situa-se no lugar dos sonhos, em terras longínquas da memória – mas vivo e pulsante. Tudo já se desfez, tudo se desfaz e tudo ainda está por se desfazer. Uma canção do tempo sem tempo.

    O rei, homem culto, sabedor dos livros, das histórias de paz e das histórias de guerra, era angustiado ser. Conhecia das nuvens o mistério, dos gritos do mar os apelos, da musicalidade do tempo o motivo. Conhecia os palmos, os metros, os quilômetros, enfim, a extensão real e a extensão imaginária do seu reino. De cor e de olhos e de boca e de memória sabia os rios, as matas, as aves, os bichos todos. Sabia os rostos e os nomes dos soldados vivos e mortos do seu exército.

    Quando abria as mãos, as linhas que se desenhavam nas palmas pareciam os limites, as fronteiras postas, justas, expostas. Aquelas que se alargariam com o tempo e com as batalhas e com o sangue de muitos.

    O rei fitava, do alto da torre mais alta e mais larga, tudo o que conquistara e tudo o que deixara: mocidade, amores, filhos…Vislumbrava uma riqueza sem tamanho e sem medida. Entretanto, o que há pouco tempo era motivo de orgulho e sagacidade, transformara-se em silêncio e tristeza. Silêncio primeiro.

    Tristeza depois.

    Os barcos iam e vinham do leste a oeste, de uma ponta a outra, com o frio e com o calor… Inúmeras bandeiras: vermelhas, amarelas, azuis e brancas…

    Velas e mastros inúteis. Marujos e mais marujos imprestáveis! Muralhas, pedras, visgos estéreis. Exército desassombrado de espadas sujas e pó. Heróis e nada.

    Léguas e léguas e terras e terras sem fim. Havia um fim. O homem que sabia e tinha tudo e que era senhor das coisas e de outros homens e de outros sonhos não via mais sentido em nada.

    De súbito, deixou o trono, no canto largou também as vestes reais, depositou a coroa sobre a mesa e de si para si pensou que o viço do mar o vislumbrava, que o barulho das ondas o chamava, que o cheiro do amor o excitava…

    Do grito do mar os apelos. Os apelos. Os apelos!

    Abriu as grandes portas de madeira e os soldados, mudos e espantados, não ousaram perguntar o motivo da nudez real. O rei, por sua vez, olhou um a um, de cima a baixo. Homens servis e sem vontade própria. Apenas temor e obediência. Basta!

    Avançou para o pátio e a guarda, também atônita e silenciosa, acompanhava os seus movimentos cada vez mais rápidos, cada vez mais decididos. Após atravessar toda a extensão do pátio central chegou ao portão primeiro, àquele chamado de principal. Do mesmo modo, os que guardavam mais uma entrada nada disseram, nada fizeram…

    A rua, as ruas. Pequenas. As casas, as pessoas, os bichos, as plantas, todos olhavam para o rei. Este, com passos largos e firmes, seguia em direção ao cais. Os apelos do mar!

    Mas eis que um velho e louco poeta o interrompe. Estava nu! Um rei nu! Não podia estar nu! Ninguém ousara dizer, contudo, ele dissera. Estava nu e pronto! Imagine um rei nu! Prestava-se a um papel ridículo!

    Os olhos reais, graves e sérios, emudeceram o poeta. Não! Não estava nu! Estava livre… Completa e absurdamente livre! O reino era uma coisa inventada, um poema, um conto quem sabe! O rei, uma peça, um senão, um coitado! O que diria o poeta com as suas mais belas e fortes palavras? Hein? Escreveria sobre o ouro do sol e das paredes do palácio, das tempestades e do mito real destroçando um monstro marinho. Heróis e nada! Os apelos do mar… Nem mesmo as palavras o prenderiam… O poeta, estupefato, tentou tocar-lhe o ombro, no entanto, a decisão estava tomada: era o mar. E prosseguiu acelerado rumo ao cais. Maravilhado pela vontade real, o poeta resolveu acompanhá-lo, mudo, mas feliz em ver um homem tão firme em seus propósitos.

    Agora dois homens buscavam o mar.

    A medida em que caminhavam, deixavam mais pessoas boquiabertas. Vilas ficavam para trás. E outros bichos e outras gentes contavam a respeito do rei nu e do velho e louco poeta que atravessavam o reino em busca do mar. Dois homens que andavam firmes e ligeiros. Dois homens apenas…

    Uma mulher.

    E isso tem significativa importância para uma história – qualquer que seja – a presença de uma mulher. Não era tão bela, não era tão baixa, não era tão triste. Uma mulher que carregava um enorme saco, o rosto cansado, cabelos longos e claros e os olhos que denunciavam lágrimas de outrora. O poeta a viu. O rei a viu. A mulher os viu. Postos os olhares e as almas, a mulher largou o que tinha e os seguiu sem dizer palavra. Sentiu-os como a brisa, sentiu-os como o mar… O rei estava livre, o poeta estava absorto e a mulher… Bem, a mulher levava consigo os pensamentos, o coração e os sentidos de uma mulher…

    O mar já próximo estava daqueles três seres. O cheiro e o sabor das águas tomavam cada qual de um jeito: a excitação real, a translucidez do poeta e os sentimentos da mulher. Força, palavra e coração. Vento, barco e desejo.

    O último obstáculo: a montanha do sul. Elevada formação rochosa. Pedra. Pedra-pedra. Pedra-só. Pedra inteira e decididamente pedra. Três criaturas que voavam pelo caminho, deixando poeira e mais gentes e bichos perplexos. A história do rei e do velho poeta agora contava, também, com uma mulher de olhos cansados. Decerto desamara a infeliz. Desamara a vida. Desamarrara, no entanto, o que havia feito, pensado, sentido. Estava pronta para o que ainda não fizera, pensara ou sentira.

    O vento forte daquelas terras castigava todos os três. De mesma forma. Mesma medida. Pele seca, carne pouca, mãos pesadas, ouvidos raros, porém, olhos acesos e pisadas precisas… Toda pedra tem sua função de pedra. Toda pedra tem sua porção de mal: machuca, rala, corta, sangra, corta, rala, machuca, sangra, corta. Mas passa.

    O mar… O mar já se via! O mar já se via! Ah! O cheiro do mar e o gosto do mar e o sabor das ondas… As águas e os olhos. Assim como um poema breve, como um poema apenas. E os três caminhantes respiravam já o mar, sentiam o que se tem para sentir quando se busca o mar: amor água sal vento vela palavra muda descoberta.

    Não demorou nada e as mãos reais tocaram as águas e as lágrimas da mulher e as palavras do poeta se misturavam àquela cena. Um barco queria. Um barco só. E os homens que estavam no cais não disseram coisa alguma, apenas consentiam com o baixar de cabeças. Tomou-lhes o barco branco, cujo nome, AURORA, fazia gosto, desde o primeiro olhar, ao coração da mulher.

    Sobreveio a chuva.

    As amarras foram retiradas e os ventos desenhavam as ondas e o amor impulsionava a embarcação. Uma nau e sua pequena tripulação. Todos os que assistiam tão insensata cena, horrorizados estavam com o tempo e com a chuva e com os fortes ventos. Ninguém vai ao mar assim! Ninguém vai ao mar assim! O que se quer é a morte. O que se quer é o fim…

    Mas.

    O rei, o poeta e a mulher não responderam. Não olharam para trás. O barco, a nau, os sonhos, o que quer que sejam, estavam soltos estavam no mar. Eles eram o mar agora.

    Nenhum ser daquele reino jamais voltara a vê-los. Entretanto, no dia da partida não anunciada, os que se lembravam do rei, do poeta e da mulher, guardaram nos olhos, na cabeça e nos sentidos vários o último contorno da embarcação na linha do horizonte…

  • Quem foi Maria?

    Outro dia fiquei alarmada com a possibilidade de ficar demente a ponto de não reconhecer mais quem sou. Pensei: vou escrever para mim mesma. Um diário, talvez possa ajudar a resgatar a minha identidade. Um fio de esperança porque não há garantia de que tal leitura venha a me atrair no futuro: recordar o passado pode nem interessar a essa outra pessoa em que eu terei me transformado.

    Melhor deixar para lá. Afinal, mais cedo ou mais tarde, vamos desaparecer como todos os nossos antepassados, tanta gente que nos precedeu e a quem devemos tanto, mas que já perdemos de vista. Quase nada deles chega até nós, e a maioria do que chega vem como histórias repetidas ao longo de gerações em que verdades e invenções andam lado a lado.

    Só vamos em geral até aos avós, quando muito aos bisavós. Fazemos árvores genealógicas com nomes e datas, mas ninguém sabe quem realmente foi Maria, como pensava, se foi feliz, qual a sua cor predileta, se gostava de feijão.

    Viraremos cinzas. Talvez por isso insistamos em deixar uma marca para a posteridade. Alguns conseguem, nem todos por boas razões. A posteridade é um ente imaginário e real que habita um futuro que não viveremos. Uma quimera que perseguimos e que, como disse o Groucho Marx, nunca fez nada por nós. Ainda assim a desejamos, vá entender. Acho que essa contradição está no cerne do medo que temos de perder a nossa pouca importante individualidade.

    Quando menina tive um diário. Reli e não vi nada de interessante. Eu já fui aquela pessoa, ainda sou, mas também não. Será o mesmo se escrever um novo. Deixar a vida seguir talvez seja o melhor caminho, a demência é mais problema dos outros do que do demente em si. Pode até ser menos doloroso, quem sabe?

  • A alegria das pequenezas

    — Olha o que eu achei!

    — O que é isso?

    — Um mixer, menina! Um mini mixer! E ainda funciona à pilha. Já pensou? Posso levar para qualquer lugar.

    — Levar? Para onde?

    — Para onde eu quiser!

    — Você só pode estar doida. Tanta alegria por causa de um mini mixer?

    — Ah, e você? Ficou quase uma semana comemorando a caça aos caramujinhos do jardim.

    — Como assim? — perguntou Ana. — Que duelo de esquisitices é esse?

    — Foi a Márcia quem começou — disse Tânia. — Veio com uma conversa de “alegria das pequenezas”.

    — Não foi bem assim! Eu só perguntei se você já tinha reparado na quantidade de coisas pequenas que conseguem deixar a gente feliz.

    — E eu respondi que não fazia a menor ideia do que você estava falando.

    — Pois eu expliquei.

    — Explicou demais.

    As três riram.

    — Ana, eu resolvi prestar mais atenção nessas pequenas alegrias. Não casa, carro, viagem ou joias. Estou falando de um cheiro, um objeto, um hábito, uma coincidência qualquer. Dessas coisas miúdas que aparecem no meio do dia e passam despercebidas.

    — E o mini mixer entrou nessa lista?

    — Entrou! Como não entraria? Pequenininho, leve, à pilha… achei uma graça.

    — Aí ela começou a rir de mim — disse Márcia. — Só que eu lembrei dos caramujos.

    — Ah, não…

    — Ah, sim! Você me telefonava toda contente: “Hoje encontrei trinta!” No outro dia eram vinte. Depois dezesseis. Parecia que estava vencendo uma batalha histórica.

    — Está bem… admito.

    Ana balançou a cabeça.

    — O que a falta de boleto, marido, filhos e preocupação faz com uma pessoa…

    — Ah, faça-me o favor! — respondeu Márcia. — E o seu pijama de bolinhas?

    Ana começou a rir.

    — Não vale.

    — Vale, sim. Você entrou aqui em casa dizendo: “É de plush! É de plush!”, como se tivesse ganhado um prêmio.

    — Eu amei aquele pijama.

    — Está vendo?

    Ana ficou alguns segundos pensando.

    — Quer saber? Acho que vocês têm razão.

    — Sabia! — comemorou Márcia.

    — Espera. Também tenho minhas pequenezas.

    — Agora ficou interessante — disse Tânia.

    — Arroz-doce.

    — Não vale! — protestou Tânia. — Tem que ser uma coisa que surpreenda. Tipo gostar de cheiro de querosene.

    — Você é impossível. Então vamos lá: lençol de quatrocentos fios; controle remoto com pilha nova; aproveitar os restinhos de batom e fazer um blush exclusivo; olhar a pracinha bem cedo, antes da algazarra das crianças; maçã gelada; ônibus chegando na hora; e, claro, meu pijama de bolinhas.

    — Gostei do blush — disse Márcia.

    — Agora é a sua vez, Tânia.

    — Eu?

    — Sim. Quero ver.

    Tânia pensou um pouco.

    — Gosto de entrar no carro e perceber que tem gasolina suficiente. Gosto do cheiro da chuva. Gosto quando minha secretária chega pontualmente.

    Fez uma pequena pausa.

    — E gosto muito de recolher roupa do varal.

    As duas olharam para ela.

    — Não riam. Acho aquilo quase filosófico. Tiro um pregador de um lado, depois do outro, dobro a roupa, coloco no cesto… não sei explicar. Aquilo me dá uma paz enorme.

    Márcia sorriu.

    — Logo você, que fez pouco caso do meu mini mixer…

    — Está bem, está bem. Já entendi.

    — Entendeu mesmo? — perguntou Márcia.

    — Entendi. A partir de hoje vocês não me pegam mais.

    — Quero só ver.

    Dois dias depois, o celular de Márcia apitou.

    Era uma mensagem de Ana:

    “Meninas… descobri um sabonete que tem cheiro de infância.” 

    🌷

  • Qual seu sonho hoje?

    Talvez a melhor maneira de realizar sonhos seja reparti-los em porções diárias. Se sonhar é a realização de desejos, como disse Freud, o pai da psicanálise, até mesmo os que se disfarçam de pesadelos tentam construir novos significados para abrir nossos caminhos.

    O sonho sempre está noutro lugar, ali onde não estou. Ele está no outro lado da montanha, na caída do sol, no ano seguinte, no tardar da maturidade, no horizonte do ideal e assim nosso imaginário viaja para longe do real.

    O encontro marcado com o sonho já produz, por si, prazer.

    O entusiasmo que nos proporciona sonhar nos inebria feito realizar, então, guardamos sonhos sempre as mãos, para que não nos escapem. Quando se realizam, se acabam, como a lua cheia que míngua tão logo atinja sua plenitude.

    Assim como o desejo só se interessa por desejar, o sonho só quer sonhar. Quando mais jovens, aprendemos que adultos precisam ter a sabedoria de adiar as gratificações e a satisfação imediata, que devem plantar com esforço e esperar com paciência para colher. Difícil mesmo é suportar o angustiante tempo da espera, não é à toa que dela, da espera, nasceu a esperança e nos agarramos a ela, na aposta de um ‘Royal street flush’ e lançamos nossa bola para os céus na tentativa de um ´strike´.

    Mas se para viver é preciso plantar e colher todos os dias, não deixe que a fantasia da grande safra do porvir atrapalhe seus planos. Quando “+ adultos” somos, sabedoria é perceber que nunca deixamos de ser crianças, que de maduros só temos a casca e que de imortal só mesmo o inconsciente.

    A vida é uma atleta de alta performance. Corre rápido demais.

  • Regulação emocional

    Há um aquário dentro do meu peito. É uma caixa de vidro invisível onde as emoções nadam como peixes de cores e tamanhos diversos. Alguns pequenos e ágeis, prateados como a alegria de uma manhã de sol depois da chuva. Outros são lentos, escuros, quase como enguias que se escondem nas pedras, como a mágoa que insiste em não desgrudar do fundo.

    Hoje pela manhã, acordei com um peixe-elétrico no aquário. Era a ansiedade, nadando em círculos rápidos, fazendo as plantas do equilíbrio balançarem como se um tremor as atingisse. No café, quase derrubei a xícara. As mãos pareciam pertencer a outra pessoa. O peixe-elétrico soltava descargas: “Você esqueceu de responder aquele e-mail importante”, “E se a reunião das dez der errado?”, “O mundo é um lugar perigoso e você não está preparado”.

    Antigamente, eu teria jogado mais comida no aquário. Comida envenenada: rodadas de pensamentos catastróficos e repetições mentais, como uma tempestade que turva a água completamente. Ou então, tentaria pescar o peixe-elétrico à força, com as mãos nuas, só para levar um choque mais forte e assustar todos os outros peixes.

    Mas o tempo me ensinou a respirar antes de agir. Parei diante da janela e observei o vaso de espada-de-são-jorge sobre a mesa. Inspirei fundo, como se pudesse oxigenar a água do aquário por dentro. Nosso centro emocional não se trata de matar o peixe-elétrico, mas sim me alertar e manter vivo.

    Essa “Regulação emocional” não é uma guerra, é jardinagem subaquática. É cuidar para que o peixe da raiva não cresça tanto que engula o peixinho da serenidade. É não alimentar em excesso o dragão-marinho da autocrítica, que adora devorar os coloridos cardumes da autoestima.

    Ao longo do dia, usei as ferramentas simples do regente de aquários:A rede da pausa: O filtro da perspectiva, e as pedras do ritual.

    Não somos donos das emoções que nascem em nós. Elas surgem como peixes num viveiro. Somos responsáveis pela qualidade da água, pelo equilíbrio do ecossistema interior. Às vezes, um peixe triste precisa nadar até o fim. Ao final do dia, o aquário não está cristalino, porque a vida não é assim. Mas a água está mais translúcida e por isso consigo ver o fundo, minhas convicções e meus valores. O peixe-elétrico ainda está lá, mas agora ele nada mais devagar, sem descargas. Ao lado dele dança o peixe-dourado da gratidão, e assim aprendemos que a regulação emocional não é sobre controle rígido. É sobre criar um habitat onde todos os peixes, até os mais escuros e pontiagudos, possam coexistir sem envenenar a água. É a arte sutil de ser, ao mesmo tempo, o aquário, o peixe e o cuidador. E seguir nadando, mesmo quando a água parece escura, basta respirar, esperar e cuidar.

  • O entregador

    O café esfriava enquanto eu assistia à saga do entregador, em frente à portaria, tentando descarregar do furgãozinho um pacote grande e pesado. A situação era cômica: ele andava de um lado para o outro, movia a encomenda pra lá e pra cá, e terminava sempre com a mão no queixo, pensativo. Por certo, não tinha carrinho de transporte nem experiência.

    O porteiro não deixou a guarita e certamente nem pensou em ajudar. Aliás, complicaria um pouco a vida do coitado, pedindo todas as referências possíveis para atrasar ainda mais o recebimento da encomenda, com cara de quem comeu e não gostou. Ele é bastante conhecido no condomínio, faz o tipo que reclama de tudo. Arrisco a dizer que se ganhasse na Mega-Sena, reclamaria três dias seguidos por ser obrigado a se apresentar no Banco para receber o dinheiro. Depois, reclamaria dos familiares e amigos, eternos pedintes. Depois, é óbvio, arrumaria outra e mais outra e mais outra coisa para reclamar. Um reclamante assíduo, crônico. Confesso, às vezes me pareço com ele.

    O velho do 101 apareceu, retornava do passeio matinal com o seu companheiro canino. Pois bem, vendo a situação do entregador, se ofereceu para ajudar, mas o cachorro pulou para dentro do furgão e causou um baita alvoroço. Imagino que quase nada lá dentro se manteve no lugar, o próprio furgão chegou a balançar com o cão pulando entre as encomendas. Os dois demoraram um bocado para capturá-lo e, logo depois, o entregador agradeceu e dispensou a ajuda com um sorriso amarelo. É claro, não consegui ouvir palavra alguma, mas me era tudo tão nítido que eu poderia narrar a situação como se estivesse sentado o tempo todo no banco do carona.

    Quando lembrei do café já era tarde. Pois é, talvez eu tenha perdido a hora bisbilhotando a vida alheia. Nem sequer olhei para o relógio, peguei rápido a mochila e fui para o trabalho. Como de praxe, o porteiro não respondeu ao meu bom-dia. Quando passei pelo furgão, ainda estacionado na frente do prédio, percebi o entregador empilhando caixas lá ao fundo e, estampado com letras garrafais, na incômoda e pesada encomenda, o meu nome.

  • Adalberto, O Invejoso

    Dizem por aí que o Sr. Adalberto de Castro venceu na vida. Conforme seu obituário, esse dedicado empresário do setor têxtil aprendeu, desde cedo, o valor do trabalho. Ainda menino, começou a trabalhar como engraxate. Sem muito tempo para frivolidades, abandonou os estudos e foi tentar a sorte na cidade grande. Apesar dos inúmeros percalços, tornou-se um reverenciado empresário, dono de várias indústrias espalhadas pelo País. Para a opinião pública civilizada, um visionário empreendedor. Para seus bárbaros detratores, um capitalista sem escrúpulos.

    Não se sabe, exatamente, o que levou Adalberto a tal precoce desfecho. Dizem que trabalhava muito. Era deveras devotado à administração de suas empresas. Sentia prazer em dar ordens a seus subordinados. Mas, nos últimos anos, os negócios já não iam mais de vento em popa. Por certo, tudo piorou desde que o atual governo tomou posse! Afinal, suas qualidades como gestor e administrador eram irrefutáveis. Com o tempo, as duplicatas acumulavam-se, os fornecedores exigiam a quitação de suas dívidas, os gerentes de banco, antigamente tão solícitos e atenciosos, já não o tratavam com a mesma deferência. Ainda assim, continuava a ser um distinto cidadão, pois aos aduladores de sempre interessavam menos os balanços patrimoniais de suas empresas do que o status de sua persona.

    O que poucos sabiam, no entanto, é que Adalberto era um homem invejoso. Não tinha inveja de seus concorrentes, visto que nenhum deles dispunha do mesmo tino comercial que a sua intuição foi capaz de agraciar-lhe. Para surpresa até mesmo dos mais íntimos, o que seus penetrantes olhos escuros não revelavam era o ciúme que nutria das pequenas conquistas de seu primo Felisberto Leão. Homem simples, de temperamento tranquilo, com aquele olhar irritante de um bovino em engorda, Felisberto representava tudo o que era, simplesmente, inatingível para Adalberto. Tinham quase a mesma idade, costumavam brincar juntos quando crianças. Felisberto era daqueles medíocres que tão comumente conhecemos aqui e alhures. Não era bom nos esportes, não tocava nenhum instrumento musical, não sabia dançar. Mas teimava em ser feliz! E o pior: gostava de viver naquele fim de mundo! Não tinha grandes pretensões, não pensava no amanhã, não planejava seu futuro.

    Esse comodismo indolente de Felisberto irritava, profundamente, Adalberto – pessoa inquieta, insatisfeita e gananciosa. Após a mudança deste para a capital, os dois parentes afrouxaram o laço de sua antiga amizade. Raramente se viam, mas o bem-sucedido empresário recebia, com certa frequência, notícias de seu primo por meio de sua irmã mais velha. Nada o deixava mais amuado do que um compromisso indelegável em sua cidade natal. Mas as suas origens teimavam em se revelar na curiosidade com que perguntava de seus antigos conhecidos. Como quem tentasse manter velhos sentimentos enterrados sob a fleuma de um rico homem de negócios, Adalberto lutava para manter uma certa distância de seu passado pobre e interiorano.

    Tudo isso fora, enfim, desfeito quando a notícia da morte de Adalberto de Castro difundiu-se por aquelas duas cidades. Passado e presente convergiram para as exéquias daquele nobre senhor. Entre lamentos e lamúrias, suas qualidades eram ressaltadas e seus defeitos, ignorados. Todos queriam valorizar o tipo de relação que haviam tido com o falecido – não sendo Felisberto Leão uma exceção entre eles. Para o saudoso primo, Adalbertinho sempre havia sido seu melhor amigo. Esteio moral e financeiro da família Castro, a irmã e seu marido esforçavam-se, também, para mostrar aos alcoviteiros de plantão o quão irreparável seria aquela prematura partida. Mas, como tudo na vida, aquele espetáculo fúnebre chegava ao seu fim. As máscaras eram retiradas, o figurino era guardado, o cenário era desfeito – e o morto era enterrado.

    De volta a sua pequena cidade, Felisberto se dirigiu, como de costume, ao boteco do Seu Manuel. Não querendo mais rememorar lembranças do querido amigo, já que as almas também devem descansar, resolveu abrir o jornal local para inteirar-se a respeito das novidades municipais. Para seu desgosto, o diário havia feito um grande especial sobre aquele filho ilustre. Que piegas, meu Deus! Sua impressão era de que o mundo havia parado para lamentar a morte de Adalberto! Mas já não era mais possível suportar tamanho luto! Basta! A vida exigia resignação e perseverança dos que ficavam! Sendo assim, após revisitar os tantos feitos empresariais do finado, atirou o jornaleco sobre uma das mesas e, entre dois goles de uma caninha, exclamou resoluto:

    — E, além de tudo, aquele filho da puta era feliz! Também pudera! Com todo aquele dinheiro! – Era o desabafo de quem havia vivido sempre à sombra do primo famoso. A partir de então, liberto dos grilhões que o finado havia lhe imposto, nunca mais falou de Adalberto. Leve como uma pluma, sua mente e seu coração foram purgados da inveja que sempre sentiu do endinheirado parente.

  • A Copa das geladeiras

    Existem fenômenos que a ciência ainda não conseguiu explicar.

    As pirâmides do Egito.

    A matéria escura.

    O motivo pelo qual abrimos a geladeira durante os jogos da Copa do Mundo.

    O melhor é que todo mundo faz isso. Se você está assistindo a Copa do Mundo com um grupo em sua casa, veja bem se não é assim mesmo.

    O jogo está empatado, faltam três minutos para acabar, o atacante avança pela direita, o estádio inteiro prende a respiração… e quem está no meio do sofá empurra os outros e se levanta para verificar se, por acaso, surgiu um pedaço novo de queijo desde a última inspeção realizada há exatos quatro minutos.

    Outro, torcedor fanático, rói as unhas.

    A amiga, que não entende nada de futebol, caminha pela sala torcendo as mãos.

    Independentemente do método escolhido para lidar com a tensão, mais cedo ou mais tarde todos acabam diante da geladeira.

    Lógico que são pessoas íntimas, mas, em circunstâncias normais, nenhum deles mantém uma relação tão próxima com a minha Samsung Duplex.

    Quanto mais decisivo o jogo, mais frequentes as visitas.

    E tem inserções específicas por perfil:

    – O fiscal de refrigerante, que conta quantas latinhas ainda sobraram;

    – o explorador de potes, que abre recipientes à procura de algo que não sabe nem dizer o que;

    – o supersticioso, que procura por um raminho de quatro folhas na gaveta de hortaliças;

    – e o peregrino da luz branca, que apenas contempla o interior da geladeira em silêncio, como quem procura respostas existenciais entre a margarina e o pote de azeitonas.

    Na final da Copa, a porta da geladeira passa mais tempo aberta do que fechada.

    Talvez a Copa não revele apenas como torcemos.

    Revele como esperamos.

    Porque diante da ansiedade, da incerteza e dos noventa minutos que parecem eternos, fazemos o que os seres humanos sempre fizeram: procuramos conforto.

    Alguns encontram na fé. Outros na estatística.

    Nós, brasileiros, procuramos na geladeira.

    E, quase sempre, encontramos apenas a mesma garrafa de água que já estava lá no primeiro tempo.

    Mas voltamos.

    Porque a esperança, assim como a Copa, é uma coisa que se alimenta sozinha.

  • Voos mais altos que nós mesmos

    O piso são nuvens; entre o céu e a terra, tal qual um dito rodapé, eis o cinturão cintilante que traz a cor das bagagens, no compartimento acima da cabeça e no nível do pé: laranja e amarela. Sigo fotografando estrelas sobre o oceano, a 12km de altitude, alaranjando a escuridão que me faz perceber Avior brilhando perto da ponta da asa metálica que me atravessa a madrugada e tantos tempos.

    Após turbulências tantas em terra, céu de brigadeiro, enfim.

    Enquanto isso, sem porto, me aproximo do lugar que meu pai me guarda. Trago a alma leve; no clarear do dia, Romeu e Julieta, versão Los Hermanos, chega-me ao coração pelos ouvidos.

    Tudo se ajeita depois das tempestades. A vida é a urgência das coisas extraordinariamente simples do dia-a-dia.

  • VÂNIA está nua

    Vânia sempre sonhou morar em Santa Teresa. Tinha um monte de amigos por lá. Frequentava os bares da moda, andava de bonde e se admirava com a quantidade de centros culturais e casarões históricos, subindo e descendo pelas ladeiras de paralelepípedos e trilhos.

    Todos tinham cara de artistas ou se vestiam como artistas. O bairro respirava boemia e contracultura e isso a fascinava. Pontos de artesanato e ateliês em cada esquina.

    Conseguiu alugar um apartamento no Largo dos Guimarães, lugar icônico do bairro. Vânia teve sorte. Uma amiga voltou para sua cidade natal e passou o aluguel para ela. Não era amplo, mas charmoso e bem decorado. Na cozinha, mal cabia a geladeira. Secar a roupa era uma complicação, o sol da tarde não ajudava. O cafofo era descolado, embora úmido no inverno. O maior atrativo era a vista. Da sua janela via um casarão antigo e, mais ao lado, o ponto de parada do bondinho. Bem perto, lojas de artesanato e um mercadinho de secos e molhados.

    Vânia se sentia no paraíso.

    Na janela do casarão que dava para seu quarto, Vânia começou a notar a presença de um rapaz de cabelos longos, barba e óculos escuros, que ficava olhando fixamente para dentro do apartamento dela. A antiga moradora não havia colocado cortinas, para a claridade entrar e ela acordar cedo. Dizia ser saudável despertar com a luz do sol. Vânia reparou que o tal rapaz não era feio. Quando ela o encarava, ele olhava para o céu. E assim ficava por um bom tempo. Esquisito.

    Ela se sentia invadida, vigiada. Total desconforto com aquele homem da janela do casarão. Não podia nem andar de calcinha e sutiã. Quando saía do banho, tinha que passar enrolada com a tolha no corpo. Todo o tempo, ele lá, firme, como uma sentinela em seu posto de observação.

    Resolveu enfrentá-lo, foi até a janela e mostrou o dedo do meio. Ele pareceu não se intimidar. Permaneceu olhando o céu, com o semblante mais deslavado do mundo. Até aparentava sorrir. Além de voyeur, um debochado.

    De um amigo a quem contou o que acontecia, ouviu a dica direta: “Fica logo pelada, amiga, que ele vai terminar cansando. Tipos assim gostam do suspense, da surpresa, têm o prazer de observar as pessoas na intimidade, mas não curtem a nudez escancarada”.

    Vânia simpatizou com a ideia, ainda mais que, sem querer admitir abertamente, estava começando a se interessar pelo vizinho estranho. Quem sabe, ele se animava e fazia contato, em vez de ficar só espiando com cara de pateta.

    No início, ela ficou inibida de passar nua pela janela. Como tivesse um corpo bonito e desejo de ser notada por isso, não demorou a, não só se despir, como também ensaiar poses eróticas. Passava a mão pelos seios, virava de costas e se abaixava, jogava os cabelos para trás e repetia caras e bocas. Colocou até música e experimentou um strip-tease amador.

    E o bonitão de óculos escuros lá, impassível. Olhando tudo para depois esquecer do mundo, enebriado com o céu. Coisa mais sem sentido. O que será que esse idiota vê lá em cima? Eu aqui, nuazinha em pelo e ele com essa pose de filósofo grego. Que se foda…

    Vânia resolveu esquecer o voyeur da janela e tratou de seguir a vida. Já se acostumara com a presença dele por ali, uma costumeira
    rotina.

    Em uma festa com amigos, ela soube que aquele seu vizinho era deficiente visual. Bastante conhecido no lugar, figura querida, sempre de bom humor e falante com as pessoas. Tinha a mania de repetir que era cego, mas conseguia ver as estrelas.

  • Comédia romântica

    Quando dois olhos se olham de uma maneira inesperada e se encontram e se sabem tão íntimos e tão inteiros, sente-se o fogo que arde sem se ver. Quando dois seres se veem próximos o bastante para dizer e celebrar o momento, vive-se o não contentar-se de contente. Quando duas bocas esperam, ansiosas, o suave toque ou o roçar de leve, percebe-se a dor que desatina sem doer.

    Quando duas almas dançam a canção imaginária dos amantes e ninguém os vê, e ninguém os interrompe porque há um tempo só deles, entende-se o solitário andar por entre as gentes.

    Quando duas histórias se entrelaçam e se fazem uma. Risos, brincadeiras, beijos e abraços, contemplação. O céu não é céu. As estrelas não são estrelas. Tudo é invenção. E inventam-se horas e coisas. Inventa-se a sensação. Quando duas mãos se aproximam e se querem. Quando dois sonhos se cruzam. Não importa o real.

    Importa a imaginação.

    Quando tudo isso acontece, a gente chama ou acha ou pensa ou diz que é amor. E vemos e vivemos intensamente o mundo inteiro. Os filmes, as músicas, os poemas, os comerciais, os bilhetes e o cartaz. As flores e a cena congelada do beijo entre a mocinha e o rapaz, Tudo é nada e nada é tudo ou tanto faz. Há muitos riscos, há muitos medos, mas queremos mais.

    E quando, enfim, acaba o quase infinito sentimento, o coração está ao chão, despedaçado. Mas não há motivos para o eterno sofrimento. Novos capítulos são escritos e novos personagens se inserem à trama. Suor, olhos arregalados e calafrio. Calor, contentamento e desafio. O amor?

    Mais uma crônica, mais um poema e mais uma canção…

  • Amor

    Movimento I – Primeiros passos.

    Uma noite, à beira mar em um bar numa cidade no vasto litoral brasileiro…

    Ele disse: um centavo por seus pensamentos.

    Ela disse: valem menos do que isso.

    Ele disse: um verso por seus pensamentos.

    Ela disse: de quem?

    Ele disse: meu.

    Ela disse rindo: passo.

    Ele disse sorrindo: de um poeta maior.

    Ela disse: mais alto que você?

    Ele disse: em estatura poética, um gigante.

    Ela disse: e quem é esse que você vai em busca?

    Ele disse: um que nunca me faltou.

    Ela disse: nunca te faltou nas suas cantadas por ai?

    Ele disse: nunca me faltou quando a poesia se faz necessária.

    Ela disse: agora por exemplo?

    Ele disse: precisamente.

    Ela disse: e por que a poesia se faz necessária?

    Ele disse: para traduzir o sentimento.

    Ela sorriu e disse: e quem é o seu salvador?

    Ele disse: Tom Jobim.

    Ela disse: ah sim…

    Ele disse: me permite?

    Ela ameaçou rindo: se vier com Desafinado eu desapareço.

    Ele disse: fujo do óbvio.

    Ela disse: será que o óbvio foge de você?

    Ele disse: ele não sabe onde eu ando.

    Ela disse: mas o óbvio é ardiloso, engana os jovens aspirantes a poetas.

    Ele disse: mas não sou aspirante a poeta.

    Ela disse: além dos declamadores profissionais.

    Ele disse: declamo porque gosto não para viver.

    Ela disse: ao menos é habilidoso na retórica.

    Ele disse: ao contrário do óbvio, ela é minha amiga faz tempo.

    Ela disse: convencido.

    Ele disse: sincero.

    Ela disse: me diga então o que tem em sua manga poética?

    Ele disse: ah, minha bela…

    Ela disse: estou escutando meu belo…

    Ele disse cantarolando: eu você, nós dois, aqui nesse terraço à beira mar.

    Ela disse admirada: mas não é que o moço não é óbvio.

    Ele sorriu vitorioso e disse: sozinhos neste bar à meia-luz.

    E uma grande lua saiu do mar.

    Ela ronronou sorrindo: huuumm.

    Ele continuou contente: Parece que este bar, Já vai fechar, E há sempre uma canção para contar.

    Ela olhou em volta sorrindo e voltou a mira-lo em silêncio.

    Ele prosseguiu confiante: Aquela velha história de um desejo, Que todas as canções têm pra contar.

    Ela olhou firme nos olhos dele.

    Ele se aproximou e completou sussurrando: E veio aquele beijo.

    E se beijaram muitas vezes naquela noite.

    Movimento II – Descompasso virtual.

    Há quilômetros e meses de distância…

    Ele escreveu: tudo bem?

    Ela escreveu: sim mas quem é você?

    Ele escreveu: esqueceu de mim?

    Ela escreveu: seu número não está salvo no meu telefone.

    Ele escreveu: então não é sua memória?

    Ela escreveu: não é a do aparelho.

    Ele escreveu: vou dar uma dica.

    Ela escreveu: por favor.

    Ele escreveu: Tom Jobim.

    Ela escreveu: o que tem ele?

    Ele escreveu: ué, em nosso encontro citei Tom Jobim.

    Ela escreveu: sem ofensa mas sabe quantas vezes eu ouço alguém soprar no meu ouvido letra do Tom achando que é original?

    Ele escreveu: são tantos assim?

    Ela escreveu: mais do que minha paciência suporta.

    Ele escreveu: não sabia que era assim tão requisitada.

    Ela escreveu: pois é né?

    Ele escreveu: ah tá, então pelo visto não causei impressão alguma.

    Ela escreveu: seu bobo, sempre causa.

    Ele escreveu: todos causam.

    Ela escreveu: todos não, só os mais sutis.

    Ele escreveu: mas se tem tanta gente citando Tom Jobim para você, seus ouvidos nem dão mais atenção.

    Ela escreveu: ah mas aí é que você se engana sobre um aspecto.

    Ele escreveu: e posso saber qual?

    Ela escreveu: nem só com ouvidos se escuta Tom Jobim.

    Ele escreveu: e com o que mais se escuta?

    Ela escreveu: ah..deixa ver..com o coração.

    Ele escreveu: ah..sim com o coração..entendo.

    Ela escreveu: então se meu coração tiver percebido você, mesmo que tenha soprado algum Tom Jobim bem manjado, você acaba se sobressaindo.

    Ele escreveu: mas o que seria um Tom bem manjado?

    Ela escreveu:  algo fora do compasso.

    Ele escreveu: ou desafinado você quer dizer?

    Ela escreveu: por aí mesmo.

    Ele escreveu: ah então ponto para mim.

    Ela escreveu: posso saber por que, mocinho?

    Ele escreveu: porque não cometi o pecado da obviedade e não citei Desafinado.

    Ela escreveu: salvou-se uma alma no purgatório.

    Ele escreveu: também não é para tanto.

    Ela escreveu: mas quase.

    Ele escreveu: então pelo visto o que te disse deve ter sido escutado pelo seu coração.

    Ela escreveu: pode ser que sim.

    Ele escreveu: claro, naturalmente, entre tantos.

    Ela escreveu: entretanto só poucos fizeram meu coração palpitar.

    Ele escreveu: e o seu palpitou?

    Ela escreveu: não.

    Ele escreveu: descompassou?

    Ela escreveu: é, dá para dizer que o ritmo ficou comprometido.

    Ele escreveu: bom saber.

    Ela escreveu: por que?

    Ele escreveu: e diria que ele, o seu coração, nesse movimento sutil de alteração de ritmo poderia ter entrado em outra sintonia?

    Ela escreveu: possivelmente.

    Ele escreveu: e poderia ter sintonizado no meu?

    Ela escreveu: dependendo do que ele tiver escutado, quem sabe.

    Ele escreveu: mas quanta incerteza.

    Ela escreveu: mas meu lindo, o amor é incerto.

    Ele escreveu: é estou vendo mesmo.

    Ela escreveu: vendo o que?

    Ele escreveu: como o amor é incerto.

    Ela escreveu: não exagere.

    Ele escreveu: sem exagero, é só simples constatação.

    Ela escreveu: mas o que mais..me diga…

    Ele escreveu: mais nada porque ao que parece minhas intenções românticas se perderam entre outras de outros.

    Ela escreveu: não diga isso.

    Ele escreveu: é a pura verdade.

    Ela escreveu: não peraí, calma.

    Ele escreveu: fique bem.

    Ela escreveu: não faz assim, fala comigo.

    Ele – :

    Ela escreveu: eu estava brincando.

    Ele -:

    Ela escreveu: puxa…

    Movimento III – Dança romanceada.

    Um tempo incerto depois…

    Ela disse: onde estava esse tempo todo?

    Ele disse: longe de você.

    Ela disse: por vontade própria?

    Ele disse: por escolha infeliz.

    Ela disse: sua ou minha?

    Ele disse: de ambos.

    Ela disse: sentiu minha falta?

    Ele disse: o tempo todo.

    Ela disse: por que não me procurou?

    Ele disse: porque te perdi profundamente.

    Ela disse: como decidiu me achar?

    Ele disse: no dia em que respirei fundo e subi à superfície.

    Ela disse: e foi difícil saber para onde ir?

    Ele disse: encontrei seu rastro em toda parte.

    Ela disse: era forte assim?

    Ele disse: ao contrário, muito sutil.

    Ela disse: então foi difícil me distinguir entre outras?

    Ele disse: não foi difícil, mas exigiu atenção e dedicação.

    Ela disse: e onde me encontrou?

    Ele disse: curiosamente não tão distante quanto eu achava.

    Ela disse: lembro de ver você ao longe.

    Ele disse: te contemplava.

    Ela disse: teve medo de se aproximar?

    Ele disse: medo de me atrapalhar.

    Ela disse: bastava vir em linha reta.

    Ele disse:  prefiro fazer curvas.

    Ela disse: a menor distância entre dois pontos é uma reta, não sabia?

    Ele disse: pode ser a menor mas não é a melhor.

    Ela disse: demorou por que escolheu o melhor caminho ao invés do menor?

    Ele disse: demorei porque meu caminho não foi reto mas sinuoso.

    Ela disse: sinuoso como o quê?

    Ele disse: como suas curvas.

    Ela disse: minhas curvas tiram você do rumo?

    Ele disse: suas curvas me põem na direção certa.

    Ela disse: e se estiver escuro?

    Ele disse: na noite mais escura, seu olhar ilumina meu caminho até você.

    E nunca mais se desencontraram.

  • O rouxinol

    O tio Argemiro gostava tanto de lendas, que tudo era pretexto para tirar uma do fundo do baú da memória, nem que fosse inventada – que a memória é assim, uma boceta de Pandora que tudo guarda, tudo inventa, tudo cria.

    Eis que numa tarde linda um beija-flor azul, tchibum!, mergulha de repente nas águas limpas de seus olhos.

    Não, não era um beija-flor, e não era azul; no remoinho da memória do tio Argemiro, o beija-flor tinha se transformado num rouxinol, com um canto doce como um sonho. Tinha uma cor que era a suma de todas as cores para o tio, um preto retinto, tão preto que brilhava no espelho d’água do pequeno lago do jardim.

    – Filomena! – disse o tio Argemiro, encantado.

    E não adianta insistir que Filomela era a princesa grega transformada num rouxinol para não ser sacrificada; ele teima, no seu encantamento, repetindo:

    – Filomena!

    E é como se a sua Filomena ressurgisse das cinzas do tempo nas asas de um pequeno beija-flor, que se transformava num rouxinol, fugindo num voo mágico das entranhas da terra onde estava sepultada há séculos.

    A escrava Filomena, que fora uma princesa na sua terra, sacrificada para que não se alastrasse a peste negra da varíola que os brancos trouxeram da Europa, voa nas asas do rouxinol, que os gregos chamaram de Filomela.

    – Filomena, o amor alado! – traduz a seu modo o tio Argemiro.

  • Dores inevitáveis

    A casa do senhor Elias cheira a livros velhos, café passado e madeira encerada. Nas paredes, não há quadros retos. Uma estante inclina-se para a esquerda, resultado de uma tentativa fracassada de montagem há quarenta anos. Ele a chama de “minha Torre de Pisa particular”. No centro da sala, sobre uma mesinha manchada de círculos de copo, há um vaso colado com esmero, as rachaduras desenhando mapas dourados pela superfície. Há quem visite Elias e veja apenas desleixo: o tapete desfiado onde tropeçou e quase quebrou o tornozelo numa noite de chuva, a janela que nunca fecha direito porque ele a pintou num dia de calor excessivo, emperrando a madeira. Pedem-lhe: “Por que não conserta? Por que não troca?”. Ele balança a cabeça, serve mais café e conta histórias.

    O vaso rachado foi um presente de uma amada, num tempo em que o amor era mais urgente do que cuidadoso. Ele o derrubou numa discussão fútil, e ela partiu antes que a cola secasse. Olhar para aquelas rachaduras não lhe traz arrependimento pelo amor, nem pela raiva. Traz a textura nítida daquela tarde, o cheiro do jasmim do jardim, o gosto amargo das palavras não ditas e, depois, o cuidado paciente de unir os cacos. O vaso guarda a história inteira, não apenas a parte bonita.

    A estante torta foi montada na véspera do nascimento do primeiro filho, entre ansiedades e sonhos. As peças foram mal encaixadas, mas o tempo era curto e o coração estava cheio de um futuro que batia no peito da esposa. Ela riu quando viu o resultado. “Parece que vai dançar”, dissera. E a estante dançou, suportando enciclopédias, romances, fotos de formatura, até ficar cansada e inclinar-se para um lado. Consertá-la seria apagar a pressa sagrada daquela véspera.

    Elias abriu uma pequena oficina de restauro, que o sustentou com mais alegria do que aquele cargo público jamais o faria.

    Senhor Elias sabe que os arrependimentos são os pesos mais pesados que carregamos para a velhice. São fantasmas de caminhos não andados, de palavras engolidas, de medos que nos paralisaram. Seu avô, no leito de morte, não chorou pelos tropeções ou pelas xícaras quebradas. Chorou pelos beijos não dados, pelas viagens adiadas, pelas cartas que nunca enviou. Chorou pelo vazio, não pela bagunça. Cada lasca, cada trinca, cada coisa fora do prumo é um marco em sua geografia pessoal. A casa não é um museu de perfeições, é um diário em três dimensões. Ao anoitecer ele não sente o frio do arrependimento, mas o calor de uma vida habitada. Os erros foram portas, alguns que levaram a salas escuras, outros a jardins inesperados. O corpo já traz suas dores inevitáveis, por que carregar também o fardo pesado e inútil do “e se”? É melhor conviver com uma estante torta, que sustentar livros bem amados com a perfeição imaculada de uma prateleira vazia. Nessa falta de arrependimento, encontra uma estranha e tranquila sabedoria: a de que uma vida inteira pode caber nas rachaduras de um vaso.

  • Egocentrismo

    O alarido invade meus ouvidos ofendidos. Quero silêncio. Não tenho.

    Ainda é manhã e vespertino. Talvez até anoiteça, madrugue. Não sei.

    O barulho continua. Eu continuo. Queria poder parar os dois. Dormir? Acho que não. A vida me chama. Só a queria um pouco mais silenciosa. Estou sensível! A poeira me incomoda o nariz, a claridade, os olhos, o barulho… Maldito!

    Quero o silêncio de música escolhida. Quero o silêncio do livro preferido, quero o silêncio de amigos queridos por perto, quero o silêncio de estar em casa, em família. Quero o silêncio da agenda fechada. O silêncio de sonhar de olhos abertos, de escolher o que contemplar. Quero o silêncio do sol de outono sobre a pele…

    Quero discrição, segredo, intimidade.

    Quero esquecimento.

    Quero lembrança.

    Quero de novo o mesmo.

    Quero! E-go-ís-ti-ca-men-te!

    Um outro lugar que não seja aqui.

  • Fragilidades Humanas

    Todos nós temos um talento especial para dar nomes elegantes aos nossos defeitos.

    A preguiça vira “cansaço acumulado”. A teimosia atende por “firmeza de convicções”. O excesso de compras costuma ser tratado como “aproveitar uma oportunidade imperdível”. E ninguém jamais admitiu ter sido fofoqueiro; no máximo, estava “bem-informado”.

    Talvez essa seja uma das fragilidades humanas mais universais: a habilidade de encontrar explicações generosas para comportamentos que, vistos de fora, pareceriam apenas escorregões bem comuns.

    Foi pensando nisso que me deparei com um documento capaz de elevar essa arte a outro patamar. Em um site especializado encontrei o testamento de um Monsenhor, datado de 1863. Depois das fórmulas de praxe — estar em perfeito juízo, temer a morte em hora incerta, professar a fé católica e desejar nela viver e morrer — surge a seguinte declaração:

    “Declaro que, por fragilidade humana, tenho sete filhos (7) já reconhecidos e legitimados por carta imperial.”

    Sete.

    Não um deslize momentâneo. Não um episódio isolado. Sete filhos devidamente reconhecidos, legitimados e registrados para a posteridade.

    O mais curioso não é sequer a existência da numerosa descendência, mas a explicação escolhida. Enquanto alguns de nós classificamos como fragilidade humana devorar a última coxinha da festa ou comprar um sapato desnecessário em liquidação, o Monsenhor trabalhou em outra escala.

    E o melhor vem depois: ele passa a relacionar os herdeiros um por um, como quem apresenta com legítimo orgulho os resultados de sua fragilidade.

    Confesso que achei difícil não admirar a sinceridade do homem. Afinal, se era para assumir a fraqueza, assumiu com método, persistência e excelente produtividade.

    Talvez por isso eu tenha lembrado de um trecho bíblico que parece combinar perfeitamente com a situação: “Se devo orgulhar-me, que seja nas coisas que mostram a minha fraqueza.”

    Nesse quesito, convenhamos, o Monsenhor tinha material de sobra.

  • Tenho medo dos idiotas

    Tenho medo dos idiotas…

    Porque os idiotas são todos extremistas!

    A resposta está sempre certa! Não importa argumento, não importa exemplo, não importa explicação!

    Tenho medo dos idiotas…

    Porque eles têm a voz e a vez!

    E não têm vergonha da medíocre pequenez!

    Eles se multiplicam aos milhões! E por mais que causem estragos, não há condenações!

    Tenho medo dos idiotas…

    Porque eles podem ser presidentes, dizer bobagens e matar muitas gentes!

    Podem apertar botões e iniciar a terceira guerra mundial! Tudo é banal!

    Tenho medo dos idiotas…

    Porque posam de autênticos quando, na verdade, abrem a boca para destilar preconceitos e muita aberração! Sem nenhuma
    preocupação!

    Os idiotas, sempre eles, idolatram a fúria, o fuzil, dizem até que a ditadura nunca existiu!

    Os idiotas também se candidatam pra tudo quanto é função: vereador, deputado, senador, presidente… Não importa se o que
    falam é indecente!

    Tenho medo dos idiotas…

    Porque eles mandam e desmandam em tudo!

    Gostam de jogar bombas e de erguer muro!

    Tenho medo dos idiotas…

    Porque eles não entendem poesia!

    Não têm sensibilidade nem melodia!

    Tenho medo dos idiotas porque eles são muitos!

    Os idiotas performam o tempo todo nas redes sociais! Dizem as maiores bobagens e se transformam em símbolos nacionais!

    Os idiotas não têm pudor ou culpa da própria idiotice, ao contrário, se vangloriam da triste fanfarronice! É o culto à ignorância! Sem cerimônia e com muita militância!

    Uma pena que cada vez mais idiotas se sentem no direito de tudo mandar!

    Os idiotas não gostam da natureza, não gostam de verde e não gostam de amar!

    Tenho medo dos idiotas!

  • Glória e o dia dos namorados

    No início não dei tanta atenção. Podia ser só implicância ou mania besta. Cismou com o meu biquíni de oncinha. Até aí, tudo bem, tentei relevar. A maioria dos homens é inseguro mesmo. O curioso é que ele não via problema com as outras mulheres.

    — Glória, você vai à praia com esse biquíni?

    — Vou, por quê?

    — Tem pouco pano pra muito peito.

    Eu tentava manter a calma.

    — Você acha?

    — A calcinha está entrando na bunda.

    — Tem dó, Ernesto, todo mundo usa assim.

    O biquíni só era indecente no meu corpo. Estava começando a me irritar com aquilo. Agora dera também para reclamar do vestido, das calças justas, da blusa transparente, tudo era motivo de discussão. Troço mais chato.

    Procurei uma blusa sem manga e não achei. Podia ter deixado no varal. Revirei as gavetas, fucei todo o armário e nada. Deixei pra lá. Me lembro de o Ernesto ter comentado que era curta demais e deixava o umbigo à mostra. Na semana seguinte, a calça jogging desaparece. Não podia ser coincidência. Ernesto estava sumindo com minhas roupas, justamente as que ele criticava. Claro que negou, Ernesto não assume seus erros. Imagine se eu resolvo sumir com as sungas dele.

    Ele argumenta que não quer me ver exposta ao ridículo, que me vejam como vulgar. Diz que só quer me proteger. Muita cara de pau. Isso não é amor, apenas dominação. Disso, eu sei bem.

    Ernesto nunca me bateu. Nem meus pais me bateram, não seria ele. Mas me sinto agredida quando ele quer me impedir de sair para beber com minhas amigas. Tentou sugerir que eu devia selecionar as amizades. Amiga solteira não presta para companhia, me avisava. Para mim, são as melhores, mais alegres. E vivas.

    “Glória, aonde você vai? Vai sair com quem? Glória, você vai de novo ao shopping gastar com bobagens?”. Me sentia vigiada, bisbilhotada, invadida. Se dependesse dele, eu teria de dar satisfação de cada ato, de cada passo. Por falar em satisfação, o pior é que meu tesão foi para as cucuias. Custo a me excitar e torço para não ser tocada. Ernesto não quer saber e se eu ameaço recusar, ele diz que não o amo mais. Faz drama. Vou para a cama coagida, para manter a paz e as aparências. Faço sexo e penso no Matt Dillon.

    Ernesto se queixa da minha frieza. Distante. Gelada. Pergunta se tenho outro homem. Na hora, respondo “que bobagem é essa, Ernesto? Claro que isso nunca me passou pela cabeça”. Internamente, vivo sonhando com isso.

    O casamento anda por um fio e ele nem nota. Ou pouco se importa. Num raro acesso de autocrítica, ele, uma noite, me perguntou se o problema com o sexo era dele. Pensei duas vezes e resolvi dizer que não, que ele era ótimo, coisa e tal. Menti descaradamente para não parecer que mentia a mim mesma.

    Não sei por quanto tempo vou esticar a corda. Ernesto é tóxico e se acha o suprassumo do homem moderno, compreensivo e calhorda. O calhorda é por minha conta.

    Decidi que não consigo – nem pretendo – mudar meu marido. Pau torto que nasce torto…Por falar em pau, o Ernesto tem o dele pequeno.

    Há limite para tudo.

    O amor, que antes parecia um filme romântico da sessão da tarde, tinha virado um Almodóvar do início de carreira, com cenas de um casamento imaginadas por Bergman, de mau humor e exilado numa ilha da Suécia em pleno inverno. Nosso amor deu uma esfriada. Eu e Ernesto, perdidos em um labirinto sufocante. Quando me olho no espelho, percebo o quanto de mim desapareceu para caber nas expectativas dele.

    12 de junho. Ernesto não esquece o dia dos namorados. Anoitece. Ambiente com luz indireta, velas seria um exagero. Mesa posta para dois. Lasanha. Ernesto adora lasanha. Bem podia colocar veneno de rato no molho bolonhesa, mas minha índole é pacífica. Vinho na taça. Malbec com toques de cicuta, revelando um vinho com mais tempo de envelhecimento. Como nosso relacionamento. Podre de velho. Meu maior presente neste dia continua sendo o silêncio confortável de um filme mudo. Daqui a pouco o Ernesto está chegando.

  • O amor de Cristo

    São Paulo, cidade agraciada com o nome do mais célebre apóstolo do cristianismo, serviu de palco neste mês de junho a dois eventos de naturezas aparentemente irreconciliáveis que, no entanto, guardavam algo em comum: a capacidade de aglutinar multidões. De um lado, a Marcha para Jesus e, de outro, a Parada LGBT+.

    Ao presenciar essas duas manifestações aparentemente tão díspares, uma dúvida me veio à mente: em qual delas Jesus caminharia?

    A pergunta pode soar provocativa, até insolente. Afinal, de um lado, temos uma manifestação de caráter declaradamente religioso dedicada à enfatizar a fé em Jesus. De outro, um evento aparentemente pagão e depravado, com pessoas em trajes provocativos que representam o oposto do que a tradicional religiosidade cristã professa. Corpos seminus entregues ao hedonismo, música alta e danças sensuais que ferem o sagrado decoro litúrgico.

    Mas se perscrutarmos além das aparências e de pré-julgamentos, a resposta não seria assim tão óbvia.

    A Marcha para Jesus, embalada com música gospel e refrões de louvor ao Senhor, reuniu legiões de fiéis disciplinados, com vestes discretas e cabelos alinhados. O que me leva a imaginar que Jesus com suas sandálias de tiras, suas vestes rústicas, barbudo e cabeludo (mais próximas à estética hippie) causaria certo desconforto.

    Em contraste, na Parada LGBT+, ao som de batidas eletrizantes, cada um se apresenta como melhor lhe convém. Paetês, plumas, glitter, leques e vestimentas cintilantes esparramam-se espalhafatosamente pela avenida numa explosão de cores. Reivindicam, a seu modo, reconhecimento e respeito, glorificando a diversidade e celebrando a Vida. Partindo da ideia de que Deus é Vida, não deixa de ser instigante pensar que essa manifestação pode ser lida como uma espécie de experiência espiritual psicodélica.

    Apesar de Marcha para Jesus, em tese, aceitar qualquer indivíduo que queira participar, na prática, os discursos prevalecentes são as conhecidas ladainhas pentecostais. Nesse meio, não são recebidos com entusiasmo aqueles que professam outros credos, como os que idolatram imagens (católicos) ou os que acreditam em reencarnação (espíritas). São especialmente mal vistos (talvez com uma dose disfarçada de racismo) os que praticam religiões de origem africana (umbanda, candomblé) cujos deuses e mentores espirituais (orixás etc.) são comparados a demônios.

    Também são segregados os que têm condutas sexuais condenáveis, como gays e travestis que, reprimidos e enquadrados, deveriam se submeter a ‘curas gay’ para se comportar como um ‘temente a Deus’.

    Verdade seja dita, esse comportamento não é generalizado, havendo comunidades evangélicas ‘progressistas’ que acolhem pessoas necessitadas independentemente de sua conduta pretérita e sua orientação sexual. Mas o pensamento mainstream estimula uma atitude persecutória contra homossexuais, feministas e aquelas que praticaram aborto, ainda que sejam meninas vítimas de estupro, todos sujeitos a arder eternamente no fogo do inferno.

    Já a Parada Gay aceita de bom grado todos os que queiram participar, sem exigir profissão de fé ou filiação religiosa. Nela convivem católicos, evangélicos, espíritas, umbandistas, budistas, judeus, muçulmanos e ateus. São também bem recebidas pessoas de diversas orientações sexuais: homossexuais, heterossexuais, bissexuais e transexuais. Onde alguns enxergam promiscuidade, a primeira palavra que me ocorre é inclusão.

    Lendo os Evangelhos, encontramos um Jesus que se aproxima justamente daqueles que a sociedade preferia manter à margem. Devemos nos reportar às ações do Mestre que acolhia indistintamente prostitutas, leprosos, deficientes, mulheres (vistas à época como categorias inferiores), gentios que professavam outras religiões e samaritanos vindos de outras paragens. O amor divino não se destina apenas aos integrantes de um círculo fechado, reservado aos moralmente impecáveis. Como um coração de mãe, no colo de Deus Pai havia lugar a todos os que praticassem o bem.

    Na marcha que se diz cristã, outra coisa que me chamou a atenção, a profusão de bandeiras de Israel. Nada de errado em celebrar os vínculos entre duas tradições com raízes históricas próximas. O que me intriga é a idealização quase religiosa de um Estado que, como qualquer outro, está sujeito a críticas. Pergunto-me por que uma manifestação dedicada a um líder espiritual que pregava a paz precisa demonstrar identificação com um país envolvido em constantes conflitos territoriais com vizinhos.

     Enquanto a guerra produz milhares de vítimas civis inocentes em Gaza e gera denúncias de graves violações de direitos humanos, muitos líderes religiosos parecem demonstrar solidariedade incondicional a um dos lados do conflito, sem a mesma empatia pelas sofridas populações palestinas atingidas. Tenho dificuldade em conceber Jesus alinhado à lógica de um apoio seletivo. Consigo imaginá-lo, isso sim, ao lado das vítimas, dos refugiados, dos que perderam familiares e seus lares e não têm para onde fugir.

    Fixados numa visão literal do Antigo Testamento, essa vertente evangélica encara que os hebreus têm direito bíblico à Terra de Abraão, ainda que isso implique em impor sofrimento aos ‘infiéis’ que ali residiam.

    Discriminam eles os filhos de Alá, assim como os de Exu, os de Tupã. Trata-se de uma lógica perversa que hierarquiza crenças e elimina a complexidade de diferentes expressões espirituais, que a seu modo, buscam o bem, a ética e o desenvolvimento pessoal.

    Também não consigo evitar uma certa estranheza diante da prosperidade dos pastores midiáticos. Jesus perambulava pelas estradas da Galileia sem patrimônio e sem qualquer sinal de ostentação além da força da sua palavra. Passados dois mil anos, vemos impérios milionários de comunicação, jatinhos particulares, e pregadores que parecem mais próximos de grandes empresários do que de humildes pescadores. Isso sem falar da insistente associação entre fé e prosperidade financeira e da recomendação para recolhimento do dízimo, transformado em requisito para contrapartida da graça divina. O que diria Jesus ao encontrar a fé transformada em produto, o púlpito convertido em plataforma de influência e a contribuição dos fiéis apresentada como caminho para bênçãos divinas?

    Os ensinamentos de Jesus ressaltavam claramente a preferência pelos pobres e necessitados em versículos como “é mais difícil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus” (Mateus, 19:24). Essa profissão de amor pelos despossuídos não parece se sintonizar com os mandamentos dos pastores que ostentam vidas de luxo. Tampouco a centralidade conferida à contribuição financeira induzida dos fiéis que parece mais se afinar com o comportamento mercantilista dos vendilhões que assaltavam os templos e provocando a ira de Jesus.

    Retomando a palavra do apóstolo que emprestou seu nome à metrópole que abriga tribos tão diferentes, e dizia “aceitem-se uns aos outros da mesma forma que Cristo os aceitou, a fim de que vocês glorifiquem a Deus” (Romanos 15:7), volto a indagar: qual seria a escolha de Cristo?

    *Opiniões dos colunistas não representam necessariamente a visão do Crônicas Cariocas.

  • Reabastecer o Amor

    Há pessoas que nos ensinam sem perceber.

    Ao longo da vida vamos colecionando ideias, frases, hábitos e pequenos exemplos que, por alguma razão, nos chamam a atenção. Nem sempre compreendemos imediatamente por que ficaram guardados. Mas ficam. Adormecidos em algum canto da memória, esperando o momento de reaparecer.

    Lembrei-me disso recentemente ao recordar uma funcionária que trabalhou comigo há muitos anos.

    Era uma mulher linda.

    Casada com um homem igualmente bonito. Tinham dois filhos que poderiam ser modelos, atores e estampar páginas de revistas. Formavam aquela família que costumamos olhar e pensar: “Parece um comercial de margarina.”

    Mas não foi a beleza deles que ficou registrada em minha memória.

    Certa vez, numa conversa sem importância aparente, ela me contou algo que nunca esqueci.

    Disse que, de vez em quando, surgiam aqueles momentos de desânimo que atacavam sem avisar. Independente de riqueza, de beleza ou dos acontecimentos. Dias em que a rotina pesava mais do que deveria. Ou as dúvidas incomodavam e apareciam sem motivos. Ou a vida parecia descolorida e sem graça. 

    Quando isso acontecia, ela tinha um ritual.

    Pegava seu álbum de casamento.

    Sentava-se sozinha e folheava as páginas lentamente.

    Observava os rostos, os sorrisos, os abraços. Revivia a alegria daquele dia. Reencontrava nos olhos dos noivos a esperança, os planos, a emoção e a certeza que haviam sentido ao iniciar uma vida em comum.

    Segundo ela, aquelas fotografias tinham o poder de reabastecê-la.

    Não porque a vida tivesse permanecido igual àquele dia. Pelo contrário. Havia contas para pagar, filhos para criar, preocupações e cansaços. Como em qualquer casamento.

    Mas as imagens a ajudavam a lembrar por que tudo havia começado.

    Ela dizia que, ao fechar o álbum, sentia-se mais forte. Como se tivesse voltado a beber água numa fonte antiga que existia dentro dela mesma.

    Na época achei curioso.

    Hoje acho sábio.

    Talvez todos nós devêssemos possuir um álbum assim.

    Não necessariamente de casamento.

    Pode ser uma caixa de fotografias, uma carta guardada, um bilhete antigo, uma lembrança de família ou qualquer coisa que nos reconecte ao melhor de nós mesmos.

    Porque a vida, às vezes, nos afasta dos sentimentos que um dia nos construíram.

    E talvez a arte de seguir em frente esteja justamente nisso: voltar de vez em quando ao lugar onde o amor começou, apenas para lembrar que ele ainda mora ali.

  • Um Fim de Tarde

    A agitação urbana de um fim de tarde qualquer esconde a beleza dos detalhes de uma rotina, por vezes, sufocante. O encontro involuntário de corpos esconde histórias de superação e de fracasso. Rostos pálidos, corpos suados, almas vazias. A garotinha olha pela janela do vagão. Alguns ficaram na estação! Não houve tempo, mas haverá uma segunda chance. O silêncio dos que entraram convida-me à observação. São Bento, Sé, Japão-Liberdade. Mais pessoas entram no vagão; outras tantas ficam pelo caminho. Meu destino está longe, ainda há tempo para reflexões.

    O jovem à frente carrega em sua mochila diversos sonhos. Em meio a tantos livros, suas habilidades vão sendo, aos poucos, lapidadas. Em breve, alguém poderá até pagar por elas. Mas, hoje, o dia não foi dos mais gratificantes. Seu rosto expressa a decepção por uma resposta mal formulada. A única pergunta que não poderia ser feita foi, justamente, uma das escolhidas por seu algoz. Uma só questão capaz de soterrar o esforço de uma noite em claro. Sim, apenas uma noite! Convenhamos: outros afazeres eram, igualmente, inadiáveis. Mas a resignação é o remédio mais barato com que saudamos nossas impotências.

    A senhora ao lado leva consigo um bolo cuidadosamente mantido sobre seu colo. O esmero é tanto, que fico até constrangido por parecer indiscreto. Mas não posso deixar de notar um certo ar de satisfação e de orgulho pela obra finalizada. Foi ela que ficou encarregada de fazer a sobremesa, já que para seus comensais são as mãos dela as mais competentes na arte da culinária. Tamanha responsabilidade nada mais é do que o reconhecimento por um talento aperfeiçoado pelos serviços diários de uma brava dona de casa. Sua netinha mais velha, adentrando a adolescência, merece mais esse empenho! Ai de quem ousasse tirar dela essa saborosa tarefa!

    Olho para o outro lado, e vejo um rapaz. Não mais carrega dentro de si aquela ingenuidade tão típica dos jovens, mas ainda não sucumbe ao peso das próprias frustrações. Sua coluna ainda é ereta; seus braços ainda são rijos. Suas escolhas, porém, não foram as melhores. O contraste entre a vida sonhada e a vida vivida faz dele um ser humano, talvez, infeliz. Nem sempre está pensativo, pois raramente tem tempo para essas coisas! Mas, nesta tarde, o seu olhar vazio e a sua coluna arqueada denunciam a melancolia de sua existência. Até mesmo os trabalhadores mais eficientes podem envergar sob o peso de decepções tão profundas. É necessário continuar, seguir em frente! “Amanhã vai ser outro dia” – é o que costuma dizer um tal de Chico por aí.

    A dois passos de mim, a jovem concentra sua atenção na tela de seu celular. Pelo movimento de seus dedos e o sorriso em seus lábios, mantém uma conversa bastante animada. Quiçá por descuido, lança um breve olhar em minha direção. Seus olhos não chegam a ser de ressaca, mas projetam intensidade e mistério. Está a poucas estações de encontrar sua amada. Tão jovem, tão certa de tudo! No começo, tudo foi tão doloroso, mas eles tiveram de aceitar. A mãe acolheu; o pai renegou; o irmão não entendeu. Hoje em dia, se o tabu foi quebrado, a antiga cumplicidade familiar ainda pena para ser restabelecida. Mas, um dia, ele vai dobrar os próprios preconceitos!

    Histórias de vida tão distintas que aguçam a minha curiosidade pelo desconhecido. A frenética e amorfa multidão ganha cadência e toma formas mais humanas. E eu, minha cara amiga? Por que carrego esse semblante? Tristeza, contemplação, fadiga ou apenas vadiagem? Amanhã, não terei tempo para tamanha divagação. Também faço parte da mesma engrenagem! Por ora, é preciso seguir o fluxo. De volta a uma rotina modorrenta, minha estação já está logo ali.

  • Manteiga ou margarina?

    Sempre tive aversão a manteiga. Desde a infância aquele tablete meloso e gorduroso colocado em um recipiente de vidro com tampa, invariavelmente lambuzada porque essa criatura ia se espalhando pelos cantos, me dava engulhos.

    Para meu desespero ela ocupava lugar de honra na mesa do café da manhã e era compartilhada por todos, menos eu, em nacos enormes em cima do pão francês.

    Menina estranha, comentavam, quem sabe se a gente oferecer margarina ela não prefira?

    Só aventar essa possibilidade já me dava vontade de sair da mesa – margarina, para mim, era a versão tabajara da minha desafeta, algo inventado por alguma mente pervertida.

    Ocorre que em determinadas situações fora de casa eu me via, inúmeras vezes, obrigada a aceitar o famoso pão com manteiga que me ofereciam, não só por cerimônia, mas também porque na maioria dos casos ele já vinha pronto para a mesa.

    Em outras, me vinham com a pergunta: manteiga ou margarina? Ou seja, não havia a terceira opção – nenhuma das duas. Era, então, obrigada a optar pelo menos péssimo, no caso a manteiga, mesmo que isso me desse ânsias de vômito.

    Essa encruzilhada gastronômica da infância me fez lembrar que, na vida, somos constantemente obrigados a optar pelo menos ruim, também. Isso serve para decisões prosaicas como escolher a mesa de fora em um restaurante e enfrentar o frio, ou ficar nas mesas de dentro ao lado do piano e ter dificuldade para conversar.

    Serve também para o cinema: poltronas da ponta para poder entrar e sair com mais facilidade, mas com menor visibilidade, ou no meio da fila, com vista panorâmica, mas no meio de duas pessoas comendo pipoca?

    Pensando um pouco mais a fundo, muitas vezes nos vemos frente a esse dilema na hora da decisão sobre quem serão nossos dirigentes, ou do apoio que daremos a uma ou outra corrente política, do partido que tomamos frente aos conflitos mundiais e assim por diante.

    Infelizmente muitas de nossas escolhas dependem de colocarmos na balança não o que é melhor, mas o que é menos ruim… e aí a consequência gastro-econômico- social é pior do que engolir margarina, não acham?

  • INVISÍVEIS

    Karolayne, ou Lane para os mais chegados, leva uma vida normal. Mora sozinha, de aluguel, numa casa de vila. Uma sala apertada acoplada à cozinha e, no andar de cima, um quartinho com banheiro: “minha suíte”, como ela chama. Acorda cedo, por volta das cinco da manhã, com o despertador do celular. Não que precise, seu corpo, moldado à rotina, já sabe a hora de levantar. Assim como a de dormir. Vai para a cama sempre antes das dez.

    Toda manhã parece se repetir. Escova os dentes antes e depois do café, come seu pão esquentado na torradeira e bebe de um gole o leite gelado sem açúcar. Quando não há pão, se vira com biscoitos.

    A rotina se repete como um ritual insondável e cada amanhecer traz os mesmos rumos e planejamentos. Enquanto acaba de se arrumar para sair, pensa nas tantas vezes em que sua existência se confunde com o próprio ato de seguir automaticamente.

    No caminho para pegar o ônibus e ir ao trabalho – Lane é diarista – ela reflete como a vida é difícil e, por vezes, sem sentido. Cuida da casa dos outros, tira o pó dos móveis, varre e passa aspirador, lava a louça acumulada, troca as roupas de cama, limpa banheiros e desentope ralos e pias. Pequenas ações que exigem uma vigilância constante, quase mecanizada. Lane sempre teve mania de limpeza.

    O curioso é que não tem quase tempo para si. Sua mania de limpeza termina assim que chega em casa. Se comparada com os apartamentos das madames onde trabalha, a sua moradia parece um local deixado de lado e malconservado. O cansaço justifica seu desleixo.

    Ocasionalmente, pensa desistir. Todo dia é a mesma droga. Mora afastado e pega um ônibus que leva em torno de uma hora e meia. Isso se não houver trânsito. Durante o trajeto, dentro do coletivo, geralmente em pé e espremida com outros passageiros, Lane se pergunta se o resultado do seu esforço é feito para ser invisível. O olhar cansado, os gestos repetidos, a paciência infinita, tudo transformado em banal.

    A maioria de suas patroas, com certeza, não saberia viver sem sua ajuda. Ela, no entanto, começa a perceber a condição de invisibilidade do seu trabalho.

    E se não fosse ela para arrumar a casa, ordenar as coisas, fazer as compras no supermercado, até servir de psicóloga para ouvir as queixas e lamentações das madames? As ações de Lane nunca são reconhecidas e ela, sem rancor, aparenta se resignar.

    À noite, logo que chega, toma seu banho. Chuveiro elétrico. Lane não costuma usar o chuveiro nas casas onde trabalha. Questão de princípios, que ela nem sabe a razão. Talvez cerimônia. De roupa de dormir, vai à cozinha e prepara uma xícara de chá, que fumega como um prêmio secreto. Ali, no instante em que o mundo se aquieta, ela se reconhece como uma pessoa que tem a percepção da sua própria invisibilidade, entre silêncios e coisas triviais. Reside aí um certo orgulho velado. A xícara de chá funciona como uma metáfora de recompensa e reconhecimento pessoal. Nesses raros momentos, Lane pressente que pode haver alguma poesia no ordinário.

  • Um homem, um barco e um tempo

    Havia um barco, um homem e um tempo.

    Um barco de madeira, pequeno e velho.

    Um homem cansado, derrotado e velho.

    Um tempo desgastado, encrustado e velho.

    A morte já era companheira do homem, o banco de areia, o destino do barco e os ponteiros quebrados o fim de um tempo.

    Mas, de repente… E as histórias são sempre cheias de de repentes…

    Uma tempestade e o mar agitado, mas tão agitado como jamais vira aquele homem.

    Ondas enormes como jamais sentira aquele barco.

    Um tempo sem tempo como o próprio tempo jamais fora.

    E o medo do fim.

    Do homem, do barco e do tempo.

    Agitação e horror e sal e vento.

    A escuridão da escuridão tomou o espaço.

    O homem, o barco e o tempo.

    No entanto…

    E as histórias também são cheias de no entantos…

    A força, que o homem supunha não existir, passou a ter.

    O barco, que supunha o homem não suportar, se segurou.

    O tempo, que supunha o homem não mais haver, nunca deixou de ser!

    E então, surpreendido por si mesmo e pelas circunstâncias, atravessou o mar e o vento.

    Seguiu firme até que o dia e o sol pudessem dar vista de coisa ou de gente.

    Enfim, quando assim sucedeu, o homem já estava próximo da terra, vivo e refeito.

  • O gordinho do STF

    Quando Flávio Dino tomou posse como ministro do STF, o que nele se sobressaiu não foi o currículo, a trajetória política ou as ideias jurídicas. Foi o tamanho.

    Julgar os indivíduos pela primeira impressão é um defeito do ser humano, especialmente do brasileiro, que, com sua índole zombeteira, adora rotular os indivíduos por alguma característica que lhe chama a atenção – careca, dentuço, narigudo, balofo, baixinho, gago, crioulo, japa, baiano, gay, geninho, coroa. O apelido vem antes da pessoa e não raro em tom desabonador. Quem se atreve a criticar essa postura corre o risco de ser tachado de ‘woke’, patrulheiro dos costumes, censor do humor alheio.

    Pessoas com sobrepeso carregam um fardo que vai além da massa corporal: além de preocupações com a saúde e limitações práticas, convivem com preconceitos que lhes são impostos antes mesmo de serem devidamente conhecidos.

    Quando foi indicado por Lula para uma cadeira no STF, Dino despertou desconfiança entre os adversários. Além da hostilidade da balança, pesava contra o fato de ser egresso do antigo PCdoB, partido tido como radical. Além de gordo, comunista!

    Confesso que quando o vi chegar ao STF, carregava certa prevenção contra ele (e não pelos quilos a mais). Não esperava grande coisa do homem. Seria mais um político a usurpar uma das suntuosas cadeiras da Corte. Alguém cercado de ‘aspones’ e vantagens remuneratórias, onerando a nós, contribuintes, que não entendemos bem qual utilidade nos proporciona para justificar as mordomias que usufrui.

    Apesar disso, havia algo nele que me inspirava simpatia. Talvez porque homens ‘corpulentos’ transmitam frequentemente um sentimento de afabilidade, alguns até chamados carinhosamente de ‘fofos’. Lembrava-me ele o Stay Puft Marshmallow Man, o gigantesco boneco de marshmallow evocado pelos Caça-Fantasmas. Um personagem improvável de aparência inofensiva e bonachona capaz de provocar tumultos monumentais em Nova York.

    Dino (não vou mais citar sua condição corporal para não estigmatizar o coitado), tendo ocupado o posto de governador do Maranhão, notabilizou-se por uma gestão bem avaliada. Seu jeito professoral de se expressar ajudou. Em vez de mais um integrante do Supremo a se expressar com excesso de rebuscados malabarismos léxicos, tínhamos alguém que fala a língua que os analfabetos em ‘juridiquês’, como eu, entendem. O fato de ter sido um bem sucedido político (foi também senador e deputado), facilitou, uma vez que, para ser eleito, teve de aprender a arte de se comunicar com o cidadão comum.

    O fato é que Dino tem se saído (muito) melhor do que a encomenda. Quanto a minhas objeções, fui obrigado a admitir que estava (com perdão da expressão) ‘redondamente’ enganado. Até mesmo os mais extremados opositores tiveram que se render a suas evidentes qualidades.

    Dino não hesitou em mexer em vespeiros nem desafiar dogmas firmemente estabelecidos. Orçamento secreto, penduricalhos, supersalários e aposentadoria compulsória a magistrados (vista como prêmio a condutas desviadas) são alguns espinhosos temas que o homem encarou, batendo de frente com poderosos interesses corporativos. Digno Dino voltou sua atenção não apenas a malfeitores de organizações criminosas, mas aos que estão encastelados nas diversas esferas do poder, mamando nas tetas do Estado.

    Protegido pela estabilidade do cargo, poderia simplesmente acomodar-se com as benesses que a função lhe assegura, cumprindo diariamente o ritual de despachar, analisar processos e proferir longos e sonolentos votos. Preferiu, no entanto, usar de suas prerrogativas para sair da mesmice e moralizar o serviço público.

    Se na silhueta carrega algo de Sancho Pança, é de Don Quixote que herdou o espírito guerreiro, enfrentando os moinhos da burocracia, dos privilégios e da inércia estatal.

    Lamento apenas que muitas dessas iniciativas não tenham tido a devida repercussão no polarizado debate público, incapaz de enxergar, para além de ideologias, o valor das ações em benefício da coletividade.

    Por tudo isso, penitencio-me por ter começado essa crônica preso às características físicas de Dino. Perdi um tempão falando do peso do sujeito quando o que deveria importar é o peso de suas ações.

  • Noites frias

    Adoro noites frias. Sentir aquele ar frio entrando pelos pulmões traz uma quietude, uma paz. É um convite à contemplação.

    Deixo a janela do meu quarto sempre aberta até a hora de dormir. Me cubro, cobertas pesadas imobilizantes e não deixo nem o nariz de fora. Ali imóvel meus pensamentos voam enquanto meu corpo segue inerte. É uma delícia.

    Mas antes, bem antes, há mais o que fazer. Algo quente a comer, mas sem excesso. E algo etílico a beber, mas com excesso moderado – se é que isso existe.

    Conversas boas, a meio tom de voz. Ninguém fala alto, quase sussurros. Como se o frio exigisse esse diálogo contido. Falamos nesse tom para não perturbar o frio, acho.

    Nenhum assunto polêmico. Só se fala sobre amenidades ou profundidades estéticas. Cinema, literatura, escultura, pintura, poesia. Uma citação de um autor elegante surge no ar acompanhado de um gesto circular. Ou afirmar algo com pouco embasamento mas muita vontade de ser verdade, com o que todos concordam e pouco se importam. Se é fato, tanto faz, mas o vinho das noites frias ajuda a sedimentar essa certeza efêmera.

    Ninguém segue com debates depois das noites frias. Nas manhãs frias, o tom é outro, a disposição é outra e a vida é muito outra. Tudo assume seu papel à luz do sol, chamado há muito tempo de astro-rei, mas ao redor do qual nossa vida gira. Literalmente.

    E girando segue seu curso, horas após horas, até que o entardecer se aproxima. Não precisando nem conferir o tempo no relógio. Basta sentir a temperatura cair. Sinal inquestionável que o sol vai se por.

    E teremos mais… noites frias.

  • Reflexo de si

    Ela o fez numa terça-feira comum, entre o primeiro e o segundo gole de café. Decidiu que tentaria encontrar a empatia. Não a palavra desgastada em discursos, não o conceito bonito das redes sociais. Mas a coisa viva, o fio de ouro que une as almas. A primeira tentativa foi com o barista. Enquanto ele entregava o copo, ela manteve o olhar fixo, buscando além do cansaço das olheiras, além do sorriso profissional. O que viu foi um reflexo. Sua própria imagem minúscula, curvada, nos olhos castanhos dele. Ela estava buscando o outro e encontrou a si mesma, pequena e distorcida, na superfície espelhada da íris. Foi um começo desanimador. No ônibus olhou para a senhora com as sacolas pesadas. Nos seus olhos azuis desbotados pelo tempo, parecia haver um céu nublado de preocupações. A senhora notou o olhar fixo e franziu a testa, puxando as sacolas para mais perto. O que a narradora buscava como empatia foi recebido como uma ameaça. O fio não se conectou; foi um fio cortado antes do ponto.

    A frustração cresceu. Ela começou a ver olhos por toda parte. Olhos apressados, vidrados em telas, fechados de sono, abertos de tédio. Cada um parecia uma fortaleza com as pontes levadiças erguidas. Como encontrar a empatia no olho do outro, se o olho é justamente a fronteira, a porta que só se abre por dentro? Foi então, já no fim do dia, desistindo da busca ativa, que algo aconteceu. No corredor do prédio, esbarrou no vizinho do andar de cima, um homem reservado que sempre carregava um peso silencioso nos ombros. Ele segurava um vaso com uma orquídea murcha. O acidente foi banal: uma batida de ombros, o vaso se espatifou no chão de cimento. Ela se abaixou ao mesmo tempo que ele, os dois juntando os cacos de barro e os pedaços da flor frágil. “Ela já estava morrendo”, disse o vizinho, com uma voz mais suave do que ela imaginava. “Minha esposa plantou. Faz três anos que ela se foi.” Ao ouvir, ela não olhou nos olhos dele imediatamente. Olhou para as mãos dele, tremulas, segurando o caule quebrado. E só então, quando ele suspirou, seus olhos se encontraram. E nos olhos dele, úmidos e sem tentar disfarçar, ela não viu um reflexo de si mesma. Viu um céu diferente, particular, de uma saudade que não era dela. E, por não ser dela, ela pôde respeitá-lo, acolhê-lo sem invadi-lo. A empatia não estava no olho do outro, estava no espaço entre o seu olhar e o olhar dele. A busca terminou onde não deveria ter começado: fora de si. A empatia não é um tesouro escondido na íris alheia. É a coragem de deixar seu próprio mundo em suspenso, para que o universo do outro, por um instante, possa brilhar com sua própria luz estranha, incompreensível e inteiramente digna de ser vista.

    Naquela noite, ao fechar os olhos, ela não viu mais imagens refletidas. Viu portas. E entendeu que a verdadeira conexão não está em arrombar essas portas com o olhar, mas em sentar-se respeitosamente na soleira, fazendo companhia à luz, ou à escuridão, que vem de dentro.

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