Crônicas

  • Mais lúdicos e sutis!

    Na história do Reino Unido, a era vitoriana foi o período do reinado da Rainha Vitória, de Junho de 1837 até sua morte em Janeiro de 1901. 

    Aqueles foram árduos anos para o povo famélico que andava pelas ruas difíceis e vazias. 

    Muitos homens não tinham casa para dormir e se reuniam com outros, em espaços exíguos, para respirar e descansar. 

    A pobreza da época em Londres fazia com que o povo optasse por dormir em caixões do tamanho de seu corpo, caso tivesse como pagar quatro centavos por noite, e ganhavam cobertores feitos de plástico. 

    Se o cidadão tivesse em seu bolso, somente dois centavos, a única opção seria sentar em um banquinho e pendurar-se com os braços, em uma longa corda, que impediria de cair caso adormecesse. 

    A mesma corda segurava outros pobretões esfomeados que tinham tão pouca saúde, quanto dinheiro em seus casacos rasgados.

    De qual lamúria ou incômodo você se compara com aqueles que tentavam sobreviver em tempos onde pouco se tinha, inclusive esperanças?

    Vivemos embriagados com ofertas consumistas e estéticas da última moda, com intenso apego ao valor monetário das vidas que cruzam nas redes sociais ou com os carrões coloridos que se mostram nas esquinas mais limpas, parecendo desfile de Carnaval fora de época.

    A geração da ressaca de dois centavos, assistiu a palavra tornar-se associada ao álcool no século passado. 

    Ela apareceu pela primeira vez no vocabulário inglês no século XIX como uma expressão para descrever negócios inacabados de reuniões, mas foi somente em 1904 que a palavra começou a surgir em referência ao álcool. 

    Na realidade, o significado relacionado ao álcool é um desdobramento de seu conceito anterior, para se referir a negócios ruins ou às consequências de outros eventos.

    Há uma expressão em inglês que diz o seguinte: “he could sleep on a clothesline”, que significa que uma pessoa pode dormir em qualquer lugar. 

    Podendo ser daqueles lugares para passar a noite que a expressão se originou.

    Diferente daquele povo, ao despertar todos os dias, poderíamos ter a mesma sensação de um garoto cigano que vive num vilarejo das colinas da Transilvânia. 

    Que assiste cavalos e carroças descerem a estrada, vacas voltando devagar para o vilarejo no cair da noite, e durante o dia perseguir patos e filhotes.

    Histórias como essas de momentos sanguíneos, merecem consternação, assim como os mais lúdicos e sutis, que nos servem para exercitar a vida entre um respirar e outro.

  • Valeu, Mestre Ciça!

    João Pedro é um menino de 9 anos nascido na cidade de Niterói. Como todo garoto, costuma ocupar seu tempo fazendo coisas que outros de sua idade também fazem. Estuda, vai ao colégio, joga videogame, usa seu celular para ver o que acontece nas redes sociais e passar o tempo se distraindo com games.

    O menino sempre acompanhou a paixão de seus pais pela escola de samba de coração, a Viradouro. Os sambas da escola sempre fizeram parte dos churrascos de domingo com sua família. Durante a cerimônia familiar, o garoto sempre ficava se perguntando por qual motivo aqueles que o trouxeram ao mundo amavam tanto esse tipo de música que ele nunca conseguiu gostar.

    No ano de 2026, Pedro sentiu uma euforia além do normal em sua casa, ele via seu pai bradando pelos quatro cantos sua empolgação pelo enredo que homenagearia Mestre Ciça. Até então, o garoto não fazia a mínima ideia de quem se tratava. Resolveu, então, então perguntar a Roberto, seu genitor, que tentou explicar de todas as formas, mas, ainda assim. o garoto não conseguia compreender tamanha empolgação.

    Seu pai, então, resolveu fazer um convite, o chamou para assistir ao desfile da Unidos do Viradouro que aconteceria na madrugada do dia de segunda para terça. Cansado, após fazer muitas coisas ao longo do dia, João dormiu, mas foi acordado no horário por Silvia, sua mãe. Um pouco contrariado, foi ele assistir ao tão aguardado desfile.

    No início, pouco entendeu sobre o que estava acontecendo. No entanto, ao ver a comissão de frente que trazia um garoto com idade semelhante, ele começou a se interessar. Daquele menino, surgiu a figura homenageada içada ao ponto mais alto de um tripé da comissão de frente que parecia visivelmente emocionado ao ser saudado por todo o Brasil. Naquele instante, o garoto entendeu que algo diferente estava acontecendo e passou a assistir vidrado a tudo o que acontecia na avenida.

    Cada figura que aparecia, fazia o curioso Pedro perguntar aos pais de quem se tratava. Desse modo, o menino conseguiu entender o inexplicável. Percebeu que a mágica dos desfiles acontece dentro da avenida. Dali para frente, assim como seus pais, Pedro se tornaria mais um apaixonado pelo samba e quis assistir a todos os desfiles seguintes.

    Nesse texto, o menino João é apenas um nome fictício para representar as milhares de crianças que, assim como o garoto Ciça, se apaixonaram pelo carnaval e pelos desfiles das escolas de samba em algum momento da vida.

    Eu mesmo, sou um deles.

    O sambódromo é um local onde o inimaginável se materializa em forma de emoção e faz a mágica acontecer. Coisa que pouquíssimas experiências conseguem realizar de forma tão eficiente como ocorre no carnaval. Ciça, após a Viradouro ganhar o título, disse que esse não é um título próprio, mas um título que cada sambista e apaixonado pelo carnaval carrega junto com o mestre. Essa frase demonstra um espírito de solidariedade que raramente pode ser vislumbrado em uma sociedade capitalista como a que vivemos. Mais do que nunca, precisamos não só viver o carnaval das escolas de samba, precisamos ser o carnaval das escolas de samba.

    Que mais crianças como João Pedro possam entender a magia dessa festa e que o espírito do carnaval seja proliferado.

    Valeu Viradouro! Valeu Mestre Ciça! E. por último, um valeu especial a todos os sambistas antigos e os novos que ainda surgirão!

  • In-cels ou In-hells?

    Numa conversa de bar, ouvi, na mesa ao lado, alguém chamar um colega de trabalho de “incel”.

    A palavra me chegou torta. Pensei ter escutado “in céu” — algo estrangeiro mal pronunciado, desses modismos que sobem à cabeça depois do segundo chope.

    Nada disso.

    As amigas se entreolharam com um susto breve — desses que duram menos que a espuma no copo.

    — Justo ele? Bonito, cargo alto, vida ajeitada… um pouco inseguro, talvez. Mas isso?

    — Escuta o que ele anda dizendo — respondeu a outra. — No cafezinho começou a atacar uma colega.

    Disse que as mulheres estão “com poder demais”. Que ela recusou sair com um amigo dele porque o rapaz não é um “Chad”.

    A mesa quase tremeu.

    — Chad?

    Risadas curtas.

    — Esses machos-alfa de fórum. Os eleitos. Os que, segundo eles, monopolizam as mulheres.

    A palavra incel voltou a circular como uma moeda gasta.

    Celibatários involuntários. Homens que transformam rejeição em tese. Frustração em teoria.

    Desapontamento em trincheira.

    O bar seguia alto, indiferente. Mas ali, naquela mesa, algo tinha escurecido. Não era apenas a falta de encontros amorosos — era a construção paciente de um ressentimento com gramática própria.

    Disseram que há fóruns, comunidades, códigos. Que o Brasil figura entre os que mais alimentam essas conversas. Que às vezes o discurso não fica só na tela.

    O copo bateu no mármore com um som seco.

    Pensei na minha audição equivocada do início da noite.

    Não era “no céu”.

    Era um outro lugar.

    E agora me pergunto: estamos falando de incels — ou de pequenos infernos cultivados em silêncio, mesa a mesa, tela a tela?

  • CRISES

    As crises são produtivas e mesmo desejáveis. Precisa-se delas para crescer. Isso é verdade tanto para a História quanto para os indivíduos. Historicamente, a períodos de crise sucedem outros de euforia e progresso (os pós-guerras atestam essa verdade). No que diz respeito às pessoas, há relatos de crises que ensejaram profundas mudanças existenciais.

    O problema é quando elas se tornam frequentes e mesmo viciosas. Há quem se acostume a viver em conflito consigo mesmo e cultive com certa morbidez o mal-estar que isso traz. Para gente assim, os momentos críticos não são estágios para o amadurecimento pessoal; persistem como uma espécie de segunda natureza. 

    Tenho um amigo assim. Sempre que conversamos, ele diz que está insatisfeito com a vida e se preparando para mudanças radicais. Ora pretende largar o emprego, ora se dispõe a deixar a mulher (que nunca deixa, por medo de ficar sozinho). Quando lhe pergunto quais seriam os novos planos, ele não sabe responder. Quer dar uma guinada na vida, mas ignora em que direção.

    As conversas com ele me lembram o adolescente que fui – cheio de dúvidas e temeroso do futuro. Com quem namorar? Que carreira seguir? Que amigos cultivar? Questões como essas não raro me tiravam o sono, mas na adolescência isso é natural. Está-se numa encruzilhada quanto a escolhas que vão repercutir no restante da vida – e sabendo muito pouco do que a vida é. Vivenciar tal paradoxo, convenhamos, precipita qualquer um no torvelinho da crise.     

    Às vezes esse emaranhado de indecisões persiste em estágios posteriores, chegando à idade adulta e se projetando na velhice. Geralmente quem passa por isso diz que ainda não se encontrou (é tão longo esse “ainda”, que faz pensar em “nunca”). Quando enfim se dará esse encontro, para o qual a pessoa parece não estar (ou não ser) preparada?

    Meu amigo fez análise, mas depois de algum tempo desistiu. Espirituoso, me disse que seu problema não é o inconsciente, mas excesso de consciência. Esse diagnóstico pode ser interessante como jogo de palavras, mas encobre um ceticismo que beira a desesperança. Se ele rejeita a análise mas não consegue se livrar do pessimismo renitente, que procure outra alternativa. No limite, mesmo autojuda pode servir – desde que seja com fé.

    Faz dias que não nos vemos, mas sei que ao reencontrá-lo vou me deparar com o mesmo semblante sombrio e as velhas queixas. Ele me falará de suas novas deliberações e me pedirá que opine sobre elas. De que adiantaria opinar? Quem não consegue ouvir a si mesmo não vai querer ouvir os outros. Mas serei complacente quando ele começar, como das outras vezes: “Rapaz, agora é sério! Nunca estive tão mal…”.  

  • Rugas virtuais

    Nunca me preocupei com a velhice, embora não acredite naquele papo de melhor idade, isso eu sei que é balela. Como eu poderia viver a melhor fase da minha vida sem enxergar um palmo à frente do meu nariz e ainda por cima na companhia de anti-inflamatórios e médicos de todas as especialidades?

    Não que seja horrível envelhecer, mas a crença na velhice como o melhor dos tempos é a reencarnação do coelhinho da Páscoa. Sei que é preciso alguma ilusão para aguentarmos o tranco de lidar com o ganho de peso, o ressecamento da pele e aquela sensação térmica exclusiva e independente do resto do mundo. Mas chamar de melhor idade, convenhamos, é uma apelação insustentável.

    Os homens não passam por essas agruras. Para eles o envelhecer oferece um certo charme, um quê a mais de sedução. Sim, o tempo é tendencioso.

    Quanto a mim, também uso minhas gambiarras emocionais para lidar com as transformações impostas pelo vivido. Por um lado, é muito irritante ter um código de barras no centro do pescoço. Por outro, hoje sou vacinada contra uns tipos que antes me adoeciam de paixão. Nessa perspectiva, o resultado da conta existencial se mostra positivo.

    Além disso, sempre botei fé na crença de que cada um tem a idade que deseja ter. Que delícia a promessa de viver meus vinte anos eternamente, sem dar importância às celulites, à flacidez dos braços, às linhas de expressão ou, por que não dizer, o caderno de caligrafia ao redor dos olhos. Sentir a juventude nos poros da alma.

    O paraíso seria assim, não fosse o fato de que nesses tempos modernos a velhice se impõe através de rugas virtuais fincadas na autoestima.

    Você pode ter corpo de quinze, mente de vinte, uma vida saudável, alimentação balanceada, rotina de exercícios físicos, mas, se não tiver investido na linguagem computacional, você está velho ou nos termos atuais off.

    Ouço as músicas da moda, estou em todas as redes sociais, faço dancinhas para viralizar, mas não sei usar filtros, aplicar efeitos, fazer downloads, salvar no drive, escanear documento no celular ou resolver problemas da impressora.

    Você pode ser jovem em tudo, mas é ancião de acesso.

    É como querer comer quebra-queixo com prótese dentária, abrir pote de geleia com tendinite no pulso ou pagar boleto sem óculos para perto. Aliás, o tamanho dos números nos códigos de barra é o primeiro sinal de que as portas do futuro são estreitas e sem acessibilidade.

    Não tem disfarce que esconda essa falta de colágeno binário. A tela do computador e do celular funcionam como um espelho moderno e cruel a berrar que eu estou fora.

    Quem disse que aceito essa realidade? Eu resisto. Luto contra as evidências da minha velhice digital. Baixo aplicativos como quem usa hidratante anti-idade, só não consigo o efeito rejuvenescedor esperado. Esqueço as senhas, envio e-mail sem o anexo, me enrolo com os links de acesso. Por fim, me dou por vencida e chamo o jovem da casa para resolver o conflito. Bastam quinze segundos e dois toques, tudo resolvido.

    Para manter a honra, mostro interesse em aprender o processo. Minutos depois não lembro mais onde clicar, já não sei o que fazer. Travo. A cada tropeço nasce uma nova ruga virtual. Uma linha de expressão, escrita em negrito, fonte Times New Roman, tamanho 28: você está oldline ─ deixem-me criar uma nova categoria em inglês para os anciãos do acesso e para ter o gostinho de estar na crista da onda.

    A sorte é que a memória falha e o idoso é teimoso.

    Pensando bem, envelhecer talvez seja uma pirraça. Das boas.

  • A madrinha

    Um estranho. Para as pessoas distraídas, apressadas, pensativas, envolvidas em seus pensamentos ou problemas, em que mudar a marcha do carro vem a ser um ato automático, o rapaz parado ali naquele cruzamento praticamente não existia ou era apenas isso: a figura de um estranho.

    Em vez de empatia despertava irritação, talvez.

    Não era transparente, mas era como se fosse. Como se ali não houvesse ninguém.

    Gabriela passava todos os dias naquela esquina e por acaso o viu. Bastaram poucos segundos para sentir-se curiosa em saber quem era aquele rapaz, qual a situação que o levou a mendigar uma moeda, um trocado.

    Não que ela não soubesse. Sabia sim, sua cidade já há algum tempo tornara-se o destino de pessoas e até famílias sem teto.

    Havia muitos pedintes que ficavam nas esquinas das ruas olhando a vida passar. A vida da qual não faziam parte.

    — Como é o seu nome? perguntou

    — Ramón

    — Toma Ramon, disse e lhe passou um sanduíche enrolado em papel alumínio.

    Minha mãe ainda acha que sou criança! Ela ri e arranca com o carro. Não eram mais estranhos, embora não fossem amigos. Criou-se um vínculo sem nome, entre eles.

    Gabriela criou um enredo onde faltavam todos os porquês, e não se conformava por não completar a história sobre o estranho.

    Como ele era? Um rapaz banal. Nem alto nem baixo, moreno, jovem, cabelos pretos, roupas bem usadas, de dias de uso. No cartaz em suas mãos estava escrito a sua nacionalidade e um pedido de ajuda.

    Gabriela elucubrava, não por interesse pessoal nele, mas por um início de consciência que estava adquirindo em sua recém iniciada vida acadêmica. Dia após dia, ao fechar o sinal, ela parava justamente no local onde ele fazia “o seu trabalho.” Trocavam um “bom dia”, “hoje está quente”, e seguiam em seus mundos.

    Como em um flashback, ela o imaginava em seu país de origem conversando com seus colegas, fumando um cigarro, falando do governo, questionando o presente e talvez o futuro.

    O sinal abria e Gabriela seguia seu caminho e o esquecia. Até o outro dia.

    O trajeto para a faculdade, o sinal de trânsito, o estrangeiro e seu cartaz e a imaginação da garota.

    Gabriela passou a pensar em si mesma e em como a vida era estranha. Lembrou-se do seu sonho de adolescente e de como ela não foi capaz de o sustentar quando se viu frente a frente com a real possibilidade de estudar fora. Sua família, seus amigos, seu país. Não! Ela não se sentiu preparada e desistiu.

    Ao ver o estrangeiro, intimamente ela se justificava.

    “Como ele pode deixar o seu país? O país é mais do que só uma palavra. O país são os bosques, os rios, as planícies, as rochas. É o trajeto para a cidade onde mora a minha avó e a minha tia. É o amanhecer e o escurecer. É o cheiro do mato molhado pela chuva. São os barulhos dos bichos ao amanhecer, são tantas coisas…”

    Passaram-se os meses, o semestre do curso quase acabando, Gabriela acalmou seu coração e seguiu sua vida.

    No início do semestre seguinte, ao passar pela avenida onde Gabriela faria um estágio, eis que ela vê Ramon.

    Mudou de esquina. Foi para uma avenida arborizada. Continuava lá, com sua roupa surrada, seu cartaz nas mãos, passando por entre os carros, catando as moedas que lhe davam, até que o sinal abrisse e ele voltasse para o canteiro.

    Ele vem rápido para perto de uma árvore do canteiro central e entre um sinal fechar e abrir, abaixa-se para tomar um gole de água oferecida por uma jovem grávida a quem ele sorri e dá um beijo.

    Gabriela olhou pelo retrovisor e viu que eles se olharam e sorriram um para o outro.

    Gabriela também sorriu.

    Que país, que nada, pensou ela.

    Amanhã mesmo vou falar com quem for preciso. Eles não vão ter meu afilhado na rua, não mesmo!

  • Onde foi que erramos?

    Um grupo de renomados cientistas das mais variadas áreas uniu-se para criar o ‘relógio do juízo final’ (‘doomsday clock’), um instrumento que estima o tempo restante para o fim do mundo, a ocorrer à meia-noite em ponto. Como num conto de Edgar Allan Poe, o soturno soar das 12 badaladas anuncia a chegada da morte.

    O escalar das horas, ao contrário dos relógios convencionais, não ocorre em função do decorrer regular e inexorável do tempo, mas do processo de deterioração das condições que mantêm o organismo vivo. 

    Em 2026, os ponteiros desse cronômetro macabro foram ajustados para o horário de 23:58:35, ou seja, míseros 85 segundos aquém do horário fatídico em que daremos adeus ao planeta azul que nos abrigou por tantos milênios. A marcação que vinha oscilando para cima e para baixo, nunca chegara tão perto do apocalipse final como agora. E nada indica que vá reverter sua marcha funesta rumo ao precipício.

    A maioria das pessoas é persuadida pelos negacionistas que essa ameaça, mesmo que fundamentada em estudos gabaritados de especialistas, não é para ser levada a sério. Esse relógio fictício não passaria de obra fantasiosa de cientistas catastrofistas com intenções malévolas. Podemos continuar agindo com irresponsabilidade, egoísmo e negligência que nada de ruim vai acontecer. Nossa civilização, fundada na lógica otimizadora do mercado, sempre ‘dará um jeito’ de manter tudo funcionando, não devemos nos preocupar.

    Será? Um idôneo check-up revelaria que a nossa idosa e judiada Terra apresenta um quadro clínico de degeneração grave, prestes a ser levada à UTI. O diagnóstico é que infelizmente está vivenciando os últimos suspiros de senilidade, açoitada pela corrida armamentista, guerras sem fim, mudanças climáticas, pandemias, descontrole da tecnologia etc.

    Um fator determinante que fez disparar o temporizador fatal foi a ascensão ao poder de governantes de qualidade deplorável que romperam os já frágeis acordos internacionais e deram as costas para a destruição ambiental. Trump e Putin, os mais poderosos estadistas em capacidade bélica da atualidade, lideram essa safra de maçãs podres, a mando de Tânatos ou Lúcifer.

    Os seres desprezíveis que estão conduzindo nossa existência à derrocada ainda se dizem religiosos e representam eleitores tementes a Deus que deturpam os ensinamentos dos grandes mestres espirituais do passado. Para usar a parábola bíblica, transformaram a água límpida do amor no vinho azedo do ódio.

    Jesus que difundiu o perdão e o amor ao próximo teria vergonha dos pastores evangélicos mercenários e de pregadores racistas e supremacistas que se dizem seus adeptos. Maomé que propagou a caridade e a justiça social deu cria a células jihadistas sanguinárias, tipo Estado Islâmico. Moisés ensinou aos hebreus leis morais e sociais que redundaram no sionismo e em genocidas como Netanyahu. Os preceitos de Buda, voltados à não-violência e à compaixão, foram sucedidos no Extremo Oriente pelas tiranias de Pol Pot e Kim Jong-un.

    Nossa civilização tem produzido cada vez menos pessoas de valor como Aristóteles, Confúcio, Lao Tsé, São Francisco de Assis, Dalai Lama, Gandhi, Chico Xavier, Bezerra de Menezes, Mãe Menininha de Gantois, Irmã Dulce, Madre Teresa de Calcutá, Rabino Sobel e Dom Paulo Evaristo Arns.

    Personalidades com visões diferentes, mas que têm em comum o anseio por um mundo mais igualitário e maior solidariedade entre seus habitantes, independente de suas crenças. Se pudessem ser reunidas numa sala, esses seres abençoados deixariam suas divergências de lado, dariam as mãos e subscreveriam um manifesto ecumênico pelo bem da Humanidade.

    Cada vez mais escasseiam cidadãos da estirpe de Nelson Mandela, Martin Luther King, Malcolm X, Albert Einstein, José Mujica, Papa Francisco, Ailton Krenak, Cacique Raoni, Malala e Greta Thunberg.

    Como fazem falta brasileiros de caráter como Ruy Barbosa, Joaquim Nabuco, Ulysses Guimarães, Teotônio Vilela, Sobral Pinto, Hélio Bicudo, Oswaldo Cruz, Paulo Freyre, José Lutzenberger, Roberto Burle Marx, Cândido Rondon, Dorothy Stang, Chico Mendes, Betinho, Abdias do Nascimento!

    Sem contar artistas e escritores que lutaram ou continuam lutando pelo bem comum como: Charlie Chaplin, Hannah Arendt, George Orwell , Ken Loach, John Lennon, Bob Marley, Bob Dylan, Bono, Peter Gabriel, Nina Simone, Joan Baez, Villa Lobos, Portinari, Machado de Assis, Carlos Drummond,  Carolina de Jesus, Guarnieri, Vinícius de Moraes, Renato Russo, Cazuza e tantas outras mentes iluminadas que fizeram da arte instrumento para transformar o mundo.

    Tanta gente que poderia fazer diferença sucumbiu ante dirigentes abjetos que conduzem nossa civilização para a desgraça, líderes que deveriam nos envergonhar, mas que continuam nos guiando com nossa humilhante anuência.

    Nossa civilização que foi capaz de promover avanços inimagináveis na ciência e na qualidade de vida, falhou miseravelmente na simples tarefa de conservar a Terra habitável.

    Foram os povos primitivos, chamados de atrasados, que mantiveram uma relação verdadeiramente sagrada com o planeta. Nela, o tempo subordina-se aos ciclos naturais que fazem com que o relógio do juízo final seja apenas uma inútil quinquilharia. Entre eles, a vida pode seguir seu curso e ser gozada em sua plenitude.

  • Ah! Se eu pudesse

    Sou um cara que desconhece muito de música. Em particular os novos nomes que têm surgido, seja aqui seja no exterior. Por que? Ah não sei, acho que me dá um pouco de preguiça acompanhar tendências, sabe?

    Por isso para mim foi uma surpresa enorme descobrir que uma cantora, que eu só conhecia de nome, gravou uma bela canção do Roberto Menescal, que eu sei quem é. Ela é a Luisa Sonza.

    O nosso encontro se deu assim. Um dia explorando os meandros da televisão a cabo desci o cursor até “música”. A maior parte do acervo não me interessava mas achei uma aba – acho que o termo serve também – com sucessos do Menescal. Legal da parte da operadora destacar um cara bacana como ele.

    Entrei, cliquei, deixei o som rolar e me virei para tocar uns trabalhos ligados ao doutorado, que não vou contar quais são porque é provável que minha orientadora leia esse texto. Dito isso, lá estava eu lendo e escrevendo, com musica de qualidade ao fundo.

    De repente, não mais que de repente, entra pelos meus ouvidos a agradável canção “Diz que fui por aí”. Estava preparado para escutar Nara Leão quando a voz que veio não era a dela. Fiquei parado um instante tentando reconhecer quem cantava mas sem sucesso. Dei uma espiada e li “Luisa Sonza”.

    Não acreditei. Mas essa moça canta, canta, canta o que mesmo? Bom, canta algumas coisas que eu nunca escutei. Mas hoje, e agora, ela cantava bossa nova.

    E canta bem. Faz aquela vozinha meio rouca, meio baixa, que combina com as letras. Aquela voz de travesseiro, que é novidade para uns mas para outros, como eu, faz abrir sorrisos. Parei o que estava fazendo – por bem pouco tempo, juro!!! – para ver qual seria a canção seguinte. E veio “Ah! Se eu pudesse”.

    Que delícia. Música que agrada aos ouvidos não é só pela qualidade estética dela, que sou incapaz de avaliar porque me faltam conhecimentos. Mas, para mim, pela capacidade de acionar alguma lembrança.

    Lembranças suaves, lembranças boas. Com pessoas do passado, que fiz sorrir e que me fizeram sonhar.

    Dois minutos e trinta e seis segundos de puro enlevo. Ai, acabou. Eu desliguei o som, voltei ao estudo e fiquei com os ecos da voz dela nos meus ouvidos me sugerindo ver o mar “dizendo aquilo tudo quase sem falar”.

    Suspiro e recomendo.

  • CONFITEOR

    Hoje eu cheguei em casa, mais uma vez, com uma vontade doida de me matar. Somente é possível raciocinar com o fígado. É a história de Prometeu, e vem o abutre e lhe rói o fígado. Por isso o homem é o desgraçado que é. Não é dono do seu destino, nem do seu próprio fígado.

    Existe alguma coisa chamada destino? Predestinação? Deveria haver alguma coisa assim para justificar a minha vida, sempre sem sentido. Dizem que a ocasião faz o ladrão. O homem é produto do meio em que vive? Se eu vivesse no meio de assassinos, ladrões, drogados, teria que ser necessariamente um drogado, ladrão, assassino? É só a questão de estar ali, na hora certa. Ou na hora errada. Pode ser que o grande culpado seja o tempo.

    Existe predestinação? Se Deus é eterno, se para Deus o tempo não existe, não é preciso predestinação. Deus apenas sabe, tudo acontece no presente para Deus.

    Hoje estão descobrindo que o tempo não existe, que é invenção dos homens, convenção. Grande novidade. E a ordem do universo não é mais do que o caos. Nós nunca nos lembramos do caos que vivemos, que sensações, que ideias, que catástrofes, que emaranhado mental viveu a nossa pobre cabeça em determinado período. Tentamos entender o homem, o homem tenta entender a si mesmo. Não há nada a ser entendido. O caos não se entende. O caos do universo ou o caos da cabeça de um homem. Dizer-lhe que tudo que acontece é a vontade de Deus e que tem que corresponder a essa vontade? Na mente de Deus fui predestinado para ser santo: tenho que ser dono do meu destino e fazer-me santo na marra? Que predestinação é essa que depende de mim? Se Deus quer, faça-se. Que Deus é esse que não sabe querer? Mas como Deus pode querer se o tempo não existe? Então queriam que eu fosse mais do que Deus? Cuidado, o anjo virou diabo por causa disso. Mas queriam que eu fosse mais do que Deus, que fizesse com que a vontade de Deus se cumprisse. “Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.” Parece que o querer de Deus ou o sonhar do homem dependem muito é da obra. A obra é que nasce, acontece. Tudo é fenômeno.

    Com mais de cinquenta anos de idade, nada sei da minha vida. As coisas aconteceram. O homem na vida inteira não tem capacidade de tomar decisões. Toma-as, se as toma, com um pé no acaso, outro na circunstância. Não adianta saber que o acaso é um deus muito pequeno. O inferno dos outros faz a nossa circunstância? A maior decisão é se vale a pena ou não viver. Que todo mundo vive adiando, por medo, por imbecilidade. Não transmitir a nenhuma criatura a miséria da nossa existência. Se é miséria, por que existirmos? Cioran cansou-se de elogiar o suicídio, única ação nobre a fazer na vida, com a vida, e viveu mais de oitenta anos. Incongruência? Somos todos incongruentes. Viver não faz sentido. Nenhuma decisão na vida faz sentido. Muito menos sobre o próprio viver. Ainda mais que não somos donos de nossas decisões. Decidem por nós. Quem? Deus, o diabo? “O diabo na rua, no meio do redemunho.” Gosto dessa frase. É fácil pôr a culpa de tudo no diabo. Ou em Deus. Estou defendendo uma fenomenologia das decisões. Tudo acontece. Ou deixa de acontecer, o que já é um acontecimento.

    Escrevo a próxima frase ou não escrevo? O que escrevo? Preciso escrever? Cheguei à verdade a que quero chegar? À minha verdade? Mas se é minha, não é verdade. Não importa. Quero a minha verdade. Todo mundo quer a própria verdade. Sou um Bentinho casmurrento raspando o fundo do tacho da amargura? O que quero descobrir? Capitu me traiu, e daí? A vida é danada de gostosa, mas é Capitu: vive a nos trair. Mas, e daí? Que prazer é esse de ficar cozinhando a própria amargura? Masoquismo, deixa Capitu para lá. Tudo é fenômeno, por que sofrer?

    Ser ou não ser, eis a questão. O que eu ganharia com isso? Mas tem que se ganhar alguma coisa, sempre? Só se faz alguma coisa por interesse? Bom. Eu tenho que ter algum objetivo para realizar alguma tarefa. Algum porquê. Só posso me libertar desse fardo carregando-o até o alto da montanha. Sísifo não foi mais infeliz, carregou seu fardo. O abutre roeu o fígado de Prometeu? Ele carregou seu fardo. Quando depositá-lo no chão, quando todas as costuras estiverem cosidas, bem ou mal, estarei livre dele. Não precisarei mais ficar cozinhando as minhas amarguras. O abutre poderá deixar meu fígado em paz. Mas Sísifo teve paz? Prometeu teve paz? Sísifo não morre nunca. Prometeu não morre nunca. A miséria não tem fim. Quem disse isso? É preciso imaginar Sísifo feliz – disse Camus. Não sei como. Chegou um tempo em que não adianta morrer – disse o poeta Drummond.

    O acaso de uma vida. Tudo que vivemos passa a fazer parte de nós. Não somos feitos apenas de circunstâncias. Há um eu carregado de passado, que é um gerador de tensões. Ninguém existe como um indivíduo. Eu é um mundo. Ego, id, superego? Um mundo. O que fizeram de mim. O que eu fiz de mim. Sem chorar o leite derramado. Tenho que cumprir. Sei que posso viver porque sei que posso me despedir da vida a qualquer hora. Não esperem que eu não seja incongruente. Quem está para morrer tem o direito de se contradizer. Imagine Sísifo feliz: sou eu. Imagine Prometeu feliz: sou eu. O abutre e o meu fígado.

  • Mirar no espelho!

    Possuo muitas bibliotecas perdidas em sonho, que descrevem experiências que vivi. 

    Não lembro de alguns detalhes saborosos de minha infância, mas recordo que meus pais me deram muito amor e carinho, e que eu gostaria de rever, trocar novamente aquela risada longa e espontânea, recheada de sorriso e abraço.

    Quando fui a escola pela primeira vez, senti vontade de ficar mais tempo por lá com os amigos, porque aquela, era a melhor parte da aula, encontrá-los, brincar e viver amizades que nasceram para toda vida.

    Meus aniversários com bolo colorido e gente ao redor, sempre foram uma diversão a parte, haviam presentes, e toda garotada estava lá.

    Você também deve ter muitas bibliotecas na mente, que guardam livrinhos com histórias únicas. 

    Momentos que se foram, mas que continuam a mostrar o quão passageiro é nosso tempo respirando.

    Que minuto você reservou para saber quanto tempo vai aguardar para realizar o seu sonho, ou de alguém que você ama? 

    Diversas vezes paramos para entender que talvez nossa hora de fechar a cortina esteja bem mais próxima do que pensamos. 

    Um fio de esperança quer que façamos nosso melhor e deixemos para outro dia o pesar de nossas falhas. 

    Aquela reflexão mórbida e tênue, que corre em nossos olhos, cor de cinza com arco-íris, confunde o teste com a realidade, suspira longo para pensar mais tempo. 

    O fato mais concreto é que deixamos de rever o que nos fez bem, e a quem possibilitou novas oportunidades em nosso caminhar zeloso. 

    Não somos independentes em quase nada, até para respirar precisamos pegar o que tem no ar e jogar aos alvéolos, sedentos de pressa em se preencher a cada instante vital.

    É uma busca de sentido como a Eudaimonia, termo grego que literalmente significa “o estado de ser habitado por um bom daemon, um bom gênio”, traduzido como felicidade ou bem-estar, é o viver de acordo com a natureza, como foi a máxima do estoicismo. 

    Sendo dessa forma a melhor maneira de valorizar o ser humano, porque hoje o que está na moda é sempre o que é novo, e o velho sábio que pode colaborar com a sapiência da próxima geração é esquecido na prateleira. 

    No passado, os velhos é que tinham poder político e cultural. Se o que nos falta é consideração a essa geração, está passando o tempo da mudança de atitude e desmedida ação em reparar esse erro.

    Não se avalie um perdedor pelo que deixou de viver, não vale a pena sentir-se mal ao mirar no espelho.

  • A cuíca, a ruivez e o smartwatch – sexta-feira 13 como comissão de frente

    Comprou um relógio para controlar seus batimentos cardíacos. Descobriu que, ao ter o combo de medições de oxigenação, estresse, sono e ciclo menstrual, tornava seu pulso um criador de conteúdo.

    Dados. Gráficos. Percentuais.
    O coração, finalmente, auditável.

    As notificações de redes sociais, e-mails ou o contar do tempo passaram a ser meros gadgets. O que importava era o número que subia e descia como se fosse destino. O corpo, agora, tinha analytics.

    Com o intuito — primeiro e quase exclusivo — de mapear o próprio coração, passou a utilizar a pulseira flexível de cor laranja (também havia a opção preta, mas… quem quer ser discreta em fevereiro?). Dormia com o apetrecho; acordava com um vibrar incessante no punho, notificações piscando como quem dá bom dia e já cobra produtividade emocional.

    Os picos de estresse reinavam entre a hora do levantar — rush de mensagens — e o fim do expediente, que, por ser autônoma, oscilava entre as 18h e as 2h40 da manhã. Raras vezes sua “rotina” não mudava. Aliás, rotina era uma palavra que lhe caía grande demais — como vestido emprestado, sobra um pouco no busto, aperta no quadril. Num confortável marca-passo, aprendeu a desconfortar-se da realidade.

    Tudo passou a ser normal enquanto durasse a bateria do smartwatch.
    O mundo cabia nos 67% restantes.

    O acessório laranja combinava perfeitamente com seus óculos de ciclista urbana. A cidade, que desde as novas lentes, em um tempo outrora, se enferrujara de sol e desejo, agora fazia do verão o agente ruivificante: rubicundou-se em pleno fevereiro; enrusbeceu não de vergonha, mas de coragem.

    Cortou as pontas dos cabelos e converteu-se.
    O laranja passou a ser sua segunda cor favorita — a que a identificava, a que gritava antes dela.

    Nos cinco dias de carnaval, ruiçou aos poucos, como quem aceita arder. Ardeu seu desconforto onde antes calava. Arder é uma forma sofisticada de não adoecer.

    Concentrou-se no encontro fugaz dos corpos fantasiados: as máscaras injetam uma pseudo-coragem pelas veias — um placebo de liberdade. Teatro de verdade, no rés do chão do espaço público. Deixou-se boiar nos braços de um passado transfigurado de pessoa comum, mais magra, olhos mais sinceros, vigilante e contábil de afetos, mesma leveza sustentada por um viés infantil e escorregadio.

    Liberdades hoje em dia confundem-se com libertinagens — diria alguém com sobrancelha arqueada, talvez do século XIX.

    Há um choque entre gerações jamais visto antes. Há um colapso das formas sociais estabelecidas. E isso pode ser bom. Ou pode ser apenas inevitável. Desconforto sentido, interiorizado e meditado.

    E foi então que tudo começou por uma intrépida sexta-feira 13.
    Pleno carnaval.

    Comprou um ticket de cinema para uma sessão vazia. Enquanto a cidade, lá fora, ensaiava gargalhadas com cuícas e paetês, ela escolheu o escuro climatizado. O coração — balde de pipoca à mão — ocupando uma fileira inteira de si mesma. No topo de um Mirante, na Tonelero, horas antes, era horizonte.

    Agora era plateia.
    O smartwatch marcava batimentos estáveis. Mas… e a alma? Entre a piscina do topo e o mar do térreo, como estabilizar uma coisa qualquer?!

    Purpurina everywhere. A cuíca rindo com os dentes cerrados. Um riso friccionado ecoando pelas finas paredes, soníferas de um cansaço acumulado. Um fingimento alegre. Um som que nasce do atrito — como quase tudo que importa.

    Ao tensionar sinapses, ao se permitir solitude e pausa, colapsou com quem acha que a entende e já a julga. Mas não se jogou do parapeito. Desceu de lá com graça.

    Aprendeu que pulsar não é performar.
    Abraçar as mudanças vem de um movimento corporal que envolve mente e coração.

    E talvez — só talvez — desligar as notificações seja o primeiro ato verdadeiramente revolucionário de fevereiro. Mesmo que a pulseira ainda a identifique na multidão.

  • Pierrô e Colombina


    Aquela canção no rádio e os pés e as mãos que batem e se batem. Chão e mesa. Suor e serpentina. Confetes e alegrias. E o moço de pierrô olha para a moça de colombina. E se olham mais até o virar da esquina.

    Bom, o carnaval chegou e o ano, enfim, começa a partir daí. Quantos não vivem dizendo isso a cada novo carnaval, a cada novo fevereiro? Todos ficam em compasso de espera. Tudo parece inerte. A expectativa é enorme, assim como as filas e a falta de paciência. E eis que a festa da pretensa liberdade dá o seu tom. Os carros alegóricos que transitam pela avenida e levam cores e delírios e gritos histéricos, além das notas dos jurados, formam um comboio de fantasia. Uma cara fantasia! A melodia é difícil? A letra é sofrível? A voz do ‘puxador’ falseia? Não importa, é carnaval!


    Aquela canção no rádio e os pés e as mãos que batem e se batem. Chão e mesa. Suor e serpentina. Confetes e alegrias. E o moço de pierrô olha para a moça de colombina. E se olham mais até o virar da esquina.

    Engarrafamentos e arrastão. Praias com águas mornas e sol acima dos 40ºC. “Aquecimento” é isso aí! Há muito gringo para ver o desfile limpo e organizado e delimitado e amordaçado e bonitinho. É a festa da liberdade, diga-se de passagem! Mas cuidado com o cronômetro!

    Há muito dinheiro envolvido na grande festa popular. Muito brilho. Negociações e aplausos e apertos de mão. Não esqueçamos as fotos com os políticos: sorrisos e acenos. Não esqueçamos também dos famosos: uma imagem é tudo! E as notas então? Beleza! Beleza! Silicones e músculos: força em ação! Mas a festa é de libertação! Olha o flanelinha aí! Não tem vaga não!

    Bandeira branca amor não posso mais… Ô abre-alas eu quero passar… Mamãe eu quero mamar… Olha a cabeleira do Zezé, será que ele é? Será que ele é?

    O ano, de fato, levanta e sacode a poeira (não sei se dá a volta por cima) e tudo segue como sempre. E mais fotos e escândalos, mais flanelinhas, mais arrastões, mais filas e filas… E o calor que derrete o asfalto? E as chuvas que atormentam a cidade? O preço do leite e do pão e da carne e do açúcar?

    O poeta olha para o relógio e escuta as marchinhas do seu tempo. O cronista transcreve. Mas o carnaval passa, não passa? E passa para mais um carnaval passar… A crônica não está atrasada, não é? Palavras ao vento. Palavras como serpentinas. Palavras e o tempo…

    E o velho tempo ri dos homens e das coisas porque a maior fantasia, o maior carnaval é a própria vida. Às vezes, a gente se esquece…

  • Poema #03: Habitar o intervalo

    “A tapeçaria é uma articulação singular entre linhas e vazios, flexibilidade e resistência, o que faz do tear a metáfora por excelência da criação narrativa: porque o ar circula entre os fios como o silêncio entre as palavras.” *

    Os emaranhados da vida
    tapeçaria mal tecida
    De palavras sufocadas por amarras
    por nós
    Arremates enrijecidos do tempo
    entre as costuras

    Vida vivida
    em monobloco

    Esgarçar a tessitura
    do tempo mal vivido

    Esburacar a trama
    de pontos suturados

    Criar um circulador
    de silêncios no espaço

    Arear lembranças
    do que resta calado

    (*) Lara Manesco, em Entre Tecer e Narrar

  • A solução vive nas cinzas

    A dúvida é mesmo a assombração da humanidade, o veneno do existir. Não importa a situação. Se nos deparamos com a necessidade de fazer uma escolha ou se somos tragados pela incerteza da continuidade de algo que nos é fundamental, vem a maldita nos mastigar por dentro. 

    Quem nunca passou uma noite em claro matutando sobre o melhor caminho a seguir? Largo meu emprego de anos por uma oportunidade promissora? E se tudo der errado? Troco de curso na faculdade? E o tempo que já cursei? 

    No amor também não é diferente. Quando a insegurança monta casa em nossa mente, a alegria cede lugar à angústia. O medo de perder a prioridade na vida da pessoa amada ganha ares fantasmagóricos: Ele/Ela está diferente, será que não me ama mais? Será que vai terminar comigo? 

    Quem nunca se viu preso na areia movediça da dúvida a respeito da sinceridade do ser amado? Quer coisa pior do que não sabermos se a pessoa escolhida é realmente digna do nosso amor? 

    O inferno da incerteza não para por aí. Não termos ciência do nosso tempo de validade no mundo também acarreta todo tipo de perturbação. Seja porque adotamos a máxima “só se vive uma vez” e, com isso, perdemos o luxo da ponderação, seja porque nos travamos diante da afirmação: “o amanhã ninguém sabe como será.”

    Por isso, acredito que a quarta-feira de cinzas merece toda a nossa enaltação. Ela é a melhor solução para os impasses da dúvida, do medo e da insegurança. É ela que agiganta as emoções e o colorido dos dias de carnaval. Como faz isso? É simples: delimita com clareza o momento do fim, desenha a borda do buraco onde nos atiramos. É ela que assevera: faça tudo o que desejar, porque vai acabar, COM CERTEZA! 

    A catarse inigualável que o carnaval promove vem da garantia de que não nos perderemos em meio as nossas fantasias. SEJA TUDO QUE DESEJAR, porque a quarta-feira de cinzas vem te catar, te envelopar e reconduzir ao lugar de origem.  É feito um salto de bungee jumping, só que com a confiança de que a corda não arrebentará.

    Quer leveza maior? Chego a sentir o vento no rosto. 

    E a danada é tão assertiva que marca a hora do encontro. Ao meio-dia, as obrigações civilizatórias te enlaçam, te puxam pelo tornozelo. O pulo acontece em um abismo controlado. Mas e na vida e no amor, como é possível viver essa explosão de alegria sem que a opressão da dúvida venha nos assolar?

    Não sei… Talvez a solução esteja no caminho inverso. Na valorização das cinzas. Pouco importa quanto vai durar ou quando vai acabar. É por não saber que devemos apostar todas as fichas no desejo. Também somos o que acabou.

    E se eu sofrer? E se eu me decepcionar? Me frustrar? Me arrepender? Ah, para de medinho.

    Todo ano tem carnaval!

  • Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos

    “Debaixo dos caracóis dos seus cabelos, uma história pra contar de um mundo tão distante” (Roberto e Erasmo Carlos)

    Os saudosos anos 60, além de propiciar nova consciência, clamor pacifista e efervescência artística, colocaram nos moços longas cabeleiras. Encaracoladas, cacheadas, naturais, lisas, afro, black power, rebeldes, mas invariavelmente compridas.

    Depositários inconformados de valores de uma sociedade decrépita que exaltava a grana e a guerra, os jovens ansiavam por uma nova ordem onde floresceria o amor e a solidariedade universal.

    Os profetas da Nova Era atribuíam o movimento à irrupção da Era de Aquário. “Quando a lua está na sétima casa e Júpiter alinha-se com Marte”, dizia a canção-símbolo do musical “HAIR” (cabelo).

    As mesmas cabeças que, turbinadas por alucinógenos, hospedavam interiormente loucos devaneios de libertação, faziam brotar exteriormente caracóis psicodélicos e fios emaranhados rebeldes.

    Cabelos longos significavam também transgressão à virilidade e à classificação dos gêneros segundo a tradição moralista cristã que dividia o ser humano em 2 categorias absolutas: o homem e a mulher, definidas respectivamente pelas cores azul e rosa.

    As mulheres que tinham nos abundantes cabelos a marca registrada da feminilidade como protótipo de beleza, agora enfrentavam a concorrência masculina, numa época em que os limites que separavam as duas tipologias biológicas tornaram-se mais fluidos.

    Os militares machões que promoviam a guerra e a repressão sempre tiveram aversão por cabelos compridos, enfileirando-os em pelotões capilares uniformes através de cortes tipo reco.

    O sistema opressor para impor os valores burgueses exigia do indivíduo apresentação visual condizente. As vestes e o penteado deveriam retratar disciplina e ordem. Cabelos e roupas desalinhados eram sinal de desleixo, desrespeito, rebeldia.

    A marcha inexorável do tempo sepultou os anos 60 e com eles a quimera por um mundo melhor. “O sonho acabou”, proclamou o cabeludo John Lennon.

    Com o passar dos anos, os cabelos tornaram-se grisalhos, cresceram tanto que ficaram frágeis, começaram a cair como folhas no outono.

    Cabelos compridos saíram de moda. Também saiu de moda o empenho em acabar com as guerras e salvar o planeta.

    Adveio uma nova leva de jovens individualistas com aspirações de ascensão social e fortuna material. Essa espécie em expansão era representada por um figurino asseado, bem trajado, de cabelos aparados.

    A nova safra de jovens das gerações X, Y e Z, ao invés de colares, fitas, pulseiras artesanais com a insígnia de paz e amor, portava roupas e acessórios de grife. Os hippies de outrora tornaram-se capitalistas de terno e gravata e investidores do mercado de ações e em criptomoedas.

    Alguns mais extremados ostentavam, orgulhosos, símbolos neonazistas, muitos deles… carecas. O radicalismo execrava radicalmente a presença de fios subversivos.

    Carregavam metralhadora numa mão e Bíblia noutra. Respaldam seu ódio nas palavras do mesmo Cristo que, triste ironia, pregava amor e usava vestes simples, sandálias, barba e… cabelos compridos.

    Talvez eu seja apenas um saudosista que me apegue a um passado cabeludo que não volta mais.

    Mas no alto das minhas décadas de vida, reluto em ir ao barbeiro cortar periodicamente os cabelos. A eles me apego, como uma ingênua esperança de voltar a sonhar por um mundo melhor.

  • Fantasia de Carnaval

    “Resort com all inclusive, garçons bronzeados, bíceps à mostra, tapa-olho de pirata, buffet internacional e drinks tropicais… Música dos carnavais antigos, marchinhas singelas ou picantes ressoando, sem atrapalhar a conversação… Praia de areia branca, som do vai e vem das ondas… chuveirões e piscinas de borda infinita a poucos passos… Espreguiçadeiras, guarda-sóis, serviços de massagem, banhos de imersão e tratamentos corporais… Um livro, um chapéu, óculos de sol e minhas quatro amigas da vida toda! Detalhe: tudo pago. Amo vocês.”

    Esse foi o aviso que apareceu no “záp-zap” da família. Afinal, o Carnaval é feito para brincar, sonhar, ser Cleópatra, a Rainha de Sabá, a loira da escola de samba, se é que me entendem…

    Além disso, o ano precisa começar. Já chega de réveillon. E logo vêm as contas para pagar, viver, ter, ser, morar. Ufa.

    Quero um pouco de ousadia, fantasia, alegria e folia.

    Sendo assim, vou me divertir.

    — Ah, mas isso pode ser em qualquer época do ano — dirá a desmancha-prazeres.

    — Não vai inventar moda, mamãe! — a apavorada.

    — Não vá gastar à toa! — esse é o “gestor de finanças”. Das minhas finanças…

    — Já falou com seu médico? — a hipocondríaca.

    — Mamãe, à tardinha nós vamos aí, está bem? Precisamos conversar com a senhora.

    Hã? O quê?

    Ah, crianças, do que vocês estão falando?

    Aviso? Não mandei nada hoje. 

    Onde estou? Em casa, escrevendo minha crônica semanal.

    Para a revista, ora! Qual? a revista online.

    Ah, sim, o tema?

    Escolhi este: Fantasia de Carnaval.

    Beijos, também amo vocês…

  • Alguém salve a Língua Portuguesa!

    Queria falar de literatura. De literatura brasileira, especificamente. Gostaria, na verdade, de escrever sobre algumas das obras de Erico Verissimo, como O prisioneiro, que, por acaso, li os últimos capítulos hoje mesmo. E, preciso dizer, quanto mais leio as obras do Erico, mais certeza tenho de que se trata de um escritor absolutamente extraordinário. No entanto, não abordarei nem o romance e nem a guerra, sua temática principal. Falarei de Grêmio.

    E, vamos combinar, como tem sido difícil falar de Grêmio. Nossa geração cresceu vendo o Grêmio ganhar tudo e mais um pouco nos anos noventa. Passamos por uma década e meia sem títulos, é verdade, mas geralmente com times aguerridos, figurando quase sempre na parte de cima da tabela. Em 2016 veio a Copa do Brasil, depois a Libertadores, a Recopa e uma sequência de Gauchões. Também passamos por uma queda trágica para a segundona e, no retorno, tivemos um ano mágico com Suárez e companhia quase beliscando o título brasileiro.

    O fato é que hoje, ao assistir aos jogos, tenho vontade de criar palavrões. Sinto essa necessidade, às vezes, mesmo antes do início das partidas, bebendo ou não uma cervejinha. Nada contra o nosso novo treinador, nem contra os jogadores, que, em geral, respeito e admiro. O problema é que não há um palavrão específico que retrate exatamente a situação. Por vezes os jogos são tão constrangedores que nem mesmo o grande Erico Verissimo (caso fosse gremista) conseguiria descrever.

    No fim das contas, trata-se de um impulso, de uma onda de raiva, de ódio, de repulsa, de indignação, como só um futebol mal praticado consegue nos proporcionar. Durante os noventa minutos fico a cogitar neologismos e não encontro nada que represente tamanho desentrosamento. Falando sério, eu não sei qual urucubaca lançaram sobre o tricolor, mas passou da hora de nos desfazermos dela.

    De certa forma, sinto-me como o Tenente, de O prisioneiro, que, preso ao passado, não consegue seguir em frente, recaindo em elucubrações, questionamentos e fantasias das mais absurdas. Devo confessar que ainda sonho com as defesas do Marcelo Grohe, com a classe do Maicon, com a força do Edilson, com a canhota do Douglas, último camisa 10, e, claro, com a eterna dupla Geromel e Kannemann. Que saudades.

    Sei que para uns e outros pode parecer bobagem, mas a língua de Camões, de Machado de Assis, de Erico Verissimo, não precisa de palavrões criados durante uma partida de futebol. Já existem palavrões demais e geralmente eu os utilizo em demasia, inclusive em momentos não oportunos. Não adianta, nem nos porões do idioma há uma expressão de baixo calão que defina o futebol praticado pelo Grêmio nos últimos tempos. E, convenhamos, quem sou eu para querer criar neologismos? Deixemos isso para quem conhece. Perdão, Guimarães Rosa. Por isso, peço encarecidamente à equipe que não me permita fazer isso e passe a se apresentar de uma forma, ao menos, mais aprazível. Se não for pela taça, pela torcida, pela história do clube, que seja pela Língua Portuguesa…

  • Ofensas mal disfarçadas

    Para viver em sociedade é preciso estar atento. Olhos bem abertos e ouvidos bem sintonizados.

    Por que existem várias maneiras de se ofender alguém sem usar palavreado de baixo calão. Por exemplo, atribuir à sorte as conquistas dos outros é uma delas. É uma forma velada de desprezar a preparação e o esforço que outros tiveram.

    Como se as coisas só dessem certo para uns como resultado da ocorrência de eventos positivos, favoráveis ou inesperados. Coisas que acontecem fora do controle ou da vontade humana mas que nunca dão errado. Aleatório puro ou sorte em estado bruto.

    Para essa classe de escolhidos não é preciso fazer esforço algum. Basta ficar lá sentado, embaixo da árvore como aquele primo do pato Donald, o Gastão, que o universo se movimentará a seu favor. Afinal, eles foram ungidos pela sorte, sem saberem porque e sem terem feito nada para isso.

    Bem feitas as contas, é maluquice das boas imaginar que a vida possa se organizar dessa forma. Mas para gente que acredita em terra plana, achar que a sorte é só para uns e não para outros é café pequeno.

    Outra forma de ofender sem arreganhar os dentes é mostrar surpresa ante uma demonstração de esforço genuíno ou conhecimento. Nesses casos a frase do ofensor vem acompanhada de um sorriso, ou mesmo riso, em que diz “nunca imaginei que você fosse capaz de se classificar” ou “nunca pensei que você conhecesse Moliére” (ia escrever Shakespeare mas decidi dar uma folga ao britânico).

    Nos dois casos, para ficar só em dois, não raro o ofendido não percebe que está sendo espezinhado. Fica meio atônito, sem ter o que falar direito, tentando compreender se aquilo que escutou é elogio ou crítica. É quase paralisador.

    Mas há raros momentos em que percebe a ofensa e reage, mesmo fazendo uso de ironia para não perder a linha nem provocar uma briga. Aí, o efeito é devastador contra…ele próprio! O ofensor se ofende e diz que não se pode elogiar. Faz uma bela volta no salão interpretando a vítima, em um papel escrito com a mais fina arte da manipulação. Envergonhado, o ofendido se cala e se esconde ante a culpa que lhe impingem. Quanta maldade.

    Se você chegou até aqui é porque testemunhou – ou foi vítima – dessas formas de ofensa. E se arrepende de não ter dado a resposta adequada ou ter se afastado diplomaticamente, sem oferecer o espetáculo patético da sua falta de ação.

    Isso agora é passado. O que foi não pode ser mudado. E mesmo que você consiga enterrar no mais profundo de si essas ofensas sofridas, isolando essa bagagem da superfície onde vive, o reflexo delas ocasionalmente vai latejar na sua mente. Pode não ser sempre mas em algum momento, quando você escutar um elogio, aquele parasita desprezível vai rastejar para fora do buraco em que você o confinou. Só para plantar a dúvida em você, tirando o gosto doce das coisas boas e legítimas da vida.

  • 5ª Escola a Desfilar: Mocidade – Rita Lee, a Padroeira da Liberdade

    “Sou independente, fácil de amar/ livre de qualquer censura/ Vem, baila comigo/ Só de te olhar, posso imaginar loucura’’. É dessa forma, e de outras, que a Mocidade, na letra de seu samba enredo, apresenta sua homenageada. Nem é preciso perguntar quem é, pois o próprio nome do enredo já deixa evidente. Como será que a Escola pretende homenagear a gigantesca Rita Lee?

    Em comparação aos enredos já comentados aqui nessa página, acredito que o mais semelhante ao da Mocidade é o da Imperatriz Leopoldinense. Isso porque, as duas escolas optaram por homenagear duas figuras gigantescas da música brasileira. Ney em uma homenagem em vida e Rita, infelizmente, de forma póstuma. Uma outra semelhança entre essas duas figuras está na incontestável presença do feminino. Os dois tiveram que chutar as barreiras do patriarcalismo para viver da forma como queriam. Fizeram, conseguiram e inspiraram muitas pessoas.

    Nesse sentido, a Mocidade deixa claro em seu enredo que sua homenageada: “Veio ao mundo para arrombar a festa e escandalizar um Brasil que já perdia seus matizes para um opressivo cinza chumbo”. Ou seja, uma mulher de força que, em um dos mais tristes momentos da história brasileira, ousou desafiar o regime vigente.

    Além disso, enquanto “ovelha negra” de toda uma família tradicional brasileira, ela revolucionou misturando rock britânico com ritmos brasileiros e construindo uma carreira musical impecável.

    Rita é tão infinita que fica difícil encontrar as palavras certas para defini-la. Por isso, vou tomar a liberdade de fazê-lo por meio de um parágrafo que a própria

    Mocidade colocou em sua sinopse de enredo, segue o trecho: “Plural. Pluralíssima. Muitas em uma só. Rainha do rock. Cantora, compositora, instrumentalista, atriz bissexta, escritora e apresentadora. Ativista. Super-heroína dos animais. Defensora dos “frascos e comprimidos”. Padroeira da Liberdade. Sagrada e profana. Maldita pela igreja. Bendita pelos fãs. Santa Rita. De sampa. Feiticeira das palavras e atitudes contra o preconceito e a caretice, com ou sem a guitarra nas mãos. Bruxa raiz qie cruzou a lua amarela. Energia esotérica de outras dimensões. De outros planetas. De outros carnavais”.

    Ou seja, simplesmente, Rita Lee.

  • Ato saudável

    Minha vida vai muito além das limitações do eu.

    Subir os degraus de qualquer monumento todas as manhãs, me traz a oportunidade de tudo ficar claro. 

    Seria bom passar esse brilho aos olhos dos outros. Está tudo incrivelmente bem, e agora entendo que os limites entre ruídos e sons, são convenções, e todos estão à espera da transcendência. 

    É possível transcender qualquer convenção se você imaginar que pode fazê-lo. Por isso entendo que minha vida vai muito além das limitações do “eu”.

    Ser, é ser percebido, portanto, conhecer a si mesmo só é possível através dos olhos dos outros a natureza de nossas vidas mortais está nas consequências de nossas palavras e ações que continuam a se perpetuar ao longo dos tempos.

    Talvez haja um mundo melhor esperando por nós e que não estejamos mortos por muito tempo.

    Nossas vidas não são só nossas, do útero ao túmulo, estamos ligados uns aos outros. No passado e no futuro, em cada crime e em cada bondade, renascem as esperanças.

    A morte talvez seja apenas uma porta, e quando uma se fecha, outra se abre. Se não pudermos imaginar o céu, imaginemos uma porta se abrindo, e atrás dela, estará a esperança.

    Se um dia você encontrasse com a criança que já foi, aquela pessoa insegura, inexperiente, frágil e esperançosa por carinho, abraço e amor, o que você diria a ela para que pudesse chegar em seu hoje bem melhor?

    O que não vale é mentir sem sentido como descreveu brilhantemente Jean Jacques Rousseau em seu frenesi no último livro chamado “Devaneios do Caminhante Solitário”. Ele escreveu que “Mentir para vantagem pessoal é impostura, mentir para vantagem de outra pessoa é fraude, mentir para prejudicar é calunia”. “Mentir sem proveito ou prejuízo para si ou para outrem não é mentir”. 

    É ficção. 

    Não se poderia dizer que alguém mente quando dá dinheiro falso, a um homem a quem não deve”.

    Com tantas possibilidades em mentir, creio que devemos procurar ser sempre verdadeiros, e correr os riscos desse ato saudável por nossas almas.

    O universo não responde à ansiedade, ao desespero, à pressa. Ele responde à confiança, ao equilíbrio, e à entrega.

    Quanto menos você força, mais tudo acontece.

    O mundo não deve nada a você, então assuma a responsabilidade pela sua vida.

  • 4ª Escola a Desfilar: G.R.E.S. Estação Primeira de Mangueira- Mestre Sacaca doEncanto Tucuju – O Guardião da Amazônia Negra

    “Çai Erê, Babalaô, Mestre Sacaca/ Te invoco do meio do mundo pra dentro da mata”. É dessa forma a Estação Primeira de Mangueira pretende fazer uma conexão Rio-Amapá fazendo com que o público do carnaval conheça as tradições desse Estado por meio de uma figura pouco conhecida por muitos brasileiros. Essa é Mestre Sacaca. Você sabe quem é?

    Segundo o próprio enredo, trata-se de um “curandeiro, folião, marabaixeiro e defensor dos povos da Floresta”. Como a escola falará sobre essa figura?

    Nessa história Mangueira é personificada e está no Turé, um importante ritual sagrado e de resistência de diversos povos indígenas do Brasil que leva a conexão com os encantados. Nesse caso, após entrar em transe xamânico em razão do ritual, ocorre uma conexão da escola personificada com Mestre Sacaca.

    Dai em diante, o mestre será responsável por guiá-la aos encantos da floresta, sejam eles da curé medicinal do poder das águas, dos tambores ou da força das tradições amapaenses representadas por Sacaca.

    É muito interessante como, durante esse processo de transe, Mangueira vai se conectando a tudo o que vai acontecendo durante o ritual e vai percebendo o quanto sua existência é carregada de brasilidade e ancestralidade.

    Ou seja, Sacaca e a Estação Primeira representam um Brasil que jamais pode ser esquecido, um Brasil de tradições que precisam ser valorizadas, como o samba e o Turé. Esse enredo cumpre um papel didático muito importante ao ensinar o público amante do carnaval sobre tradições que, possivelmente, não fazem parte de suas vivências. Nisso também reside a beleza do carnaval.

    Salve a Estação Primeira de Mangueira.

  • Gastando a Vida nos Bloquinhos

    Outro dia, me lembrei de uma frase que me caiu no colo de graça no Instagram. É de Mário de Andrade: “Viver é gastar a vida e não conservar a vida”. E eu penso: às vezes, a gente economiza tudo – até o que não era pra economizar. Economiza amizade, esperando a pessoa perfeita, aquela que preenche todas as necessidades, que não enche o saco, não cobra e não liga na hora errada. O amigo sem defeitos. E, com essa exigência toda, quantos amigos a gente deixa passar?

    Às vezes, economiza o riso. Ri pouco, preocupado se alguém está olhando. Queremos gargalhar de uma piada boba ou dançar soltos, mas guardamos tudo. Esses dias, fui no Bloco do Padreco – um pré-carnaval aqui em Belo Horizonte, no mesmo dia da Banda Mole. O bordão diz que “o carnaval só começa quando a Banda Mole passa”. Pra mim, só começa quando o Bloco do Padreco sai. Perto dos músicos, na comissão de frente, um grupo de freirinhas que se reúnem todo ano atrás da igreja. Fui com um amigo: duas freirinhas desgarradas rezando no meio do bloco. Tinha de tudo ali – freiras perdidas, padres bêbados, homem das cavernas, Batman. Ninguém economizava nada. Risos? Sambavam à vontade, dançavam e quebravam tudo até onde a coluna permitia. No resto do ano, essa turma só se encontra no pré-carnaval.

    Fico pensando: em que época do ano a gente gasta a vida sem ser no carnaval? Em que momento chega pra um estranho, ali meio sozinho na porta de um bar, e o leva pro meio do bloco? “Ei, não fica sozinho, vem brincar com a gente!” Gasta-se torto e a direito aquilo que não era pra economizar: amor, amizade. Quando pinta um clima, uma paquera, basta olhar de longe e sorrir com os olhos, esperando o convite. No resto do ano, a gente se quer, mas olha pro lado – tanta pressa de ganhar dinheiro, fazer coisas, pagar contas.

    A chuva não poupou ninguém. A multidão se aglomerava, se espremia perto da padaria na Praça Geraldo Torres. De vez em quando, alguém se animava e voltava a dançar na chuva. Fora do carnaval, mal nos olhamos. Vestida de freira, rezando pela alma dos pecaminosos, vi uma Kombi com “Carreto” escrito. Anotei o número, tirei uma foto sensual e mandei pro cara. O carnaval liberta, solta. Enquanto o bloco cantava “Asa Branca”, de Luiz Gonzaga, “Marcha do Saca-Rolha”, “A Cabeleira do Zezé”, a energia que a gente economizou ia pro ralo. Gastamos a vida e, de certa forma, nos renovamos. Não há tristeza que sobreviva àquela algazarra toda – ela vai pra algum lugar.

    Carnaval deveria ser o ano inteiro. No fim do bloco, comentei com um amigo: “As pessoas andam tão sozinhas, só os celulares conversam pelas ruas. Mas é daquilo que a gente fez no Bloco do Padreco que sentimos falta”. Aquele abraço amigo em gente desconhecida, quando o estranho vira parceiro e os olhos sorridentes viram possível amor. E a música? “Toque que a gente vai pro meio do bloco e não se segura”. É disso que precisamos o ano todo – disso que vivemos em quatro dias intensos.

  • Nas alturas, um café com o Redentor

    Próximo ao céu, onde nenhum obstáculo além de uma escada de marinheiro me separa do Cristo Redentor, a certeza de que nada é estável me invade. A mutabilidade da paisagem, colorida a cada noite por nuances de distintos pigmentos primitivos — esparsas, turvas, momentâneas — fere um órgão qualquer, apertado entre oxigênio, responsabilidades e preocupações.

    (— Não dói porque é frágil, diz uma voz que não vem de mim. Dói porque ainda sente.)

    Vejo, a princípio, uma face altiva e quase saudosa, a guardar uma das sete maravilhas do mundo moderno. Nada mais importa, por toda a eternidade. Eis o grandioso que se inclina, curioso, diante do que é genuíno, ainda quando o rosto é o morro dos Cabritos.

    (— Eternidade também cabe no intervalo de um gole, murmura Ele, sem mover os braços.)

    Telhas sombrias e arbustos naturais, adornados por flores hipotéticas, transbordam sabedoria a respeito da irrealidade do tempo presente. A noite tem cor de um veludo azul, feito em máquina de tinta de catálogo. Parece reproduzível, parece transportável — mas não é; depende da base.

    (— Depende de quem olha, suspira o corpo ao lado, em repouso confiado. Eu entendo.)

    Damos sentido às coisas pelo breve capricho de acharmos que tudo tem de fazer sentido. O mundo não faz sentido: respira, sente, reage, morre e nasce todos os dias. Ainda que luzes vigilantes enrubesçam os céus para que humanos notívagos brinquem de ser pássaros – cruzem altitudes, pulem de um país para outro, de uma cidade para outra, de um parapeito no térreo de uma serra para um na cobertura de uma praia.

    E então, como se quisesse confirmar a metáfora, um pássaro atravessa a noite e pousa quase ao meu lado. Assusta. Meu corpo reage. O coração dispara. Mas o reflexo vem mais leve do que antes. O medo passa rápido. O alívio afrouxado em um riso maduro vem depois.

    (— Ainda há espaço para o inesperado.)

    Grilos cantam em um e em outro lugar. A brisa é mais fresca nas horas adormecidas, embora janelas sem cortinas — ou pessoas calorentas — permitam que suas intimidades sejam mais soltas quando quase todos dormem. Prédios inteiros estão sem luz; alguns se destacam por suas temperaturas de cor muito particulares: branco quente, branco neutro e tantas cores possíveis pela tecnologia em que células programadas para telefonar transfiguraram-se em extensões de nós.

    Ouço música clássica pela saída do áudio do celular, cigarras nas matas dos arredores, motores de máquinas que se dizem silenciosos, conversas ininteligíveis ao longe, motos, carros e um pingar compassado de alguma torneira, não muito distante. Repousa ao meu lado uma xícara de café e uma presença que reconhece meu tempo — não pede explicações, não exige permanência.

    Com ela atravesso sinais fechados sem perder impulso: sigo na garupa da bicicleta enquanto as rodas descrevem círculos breves, atentos, até que o mundo permita a passagem. De madrugada, numa avenida larga e quase vazia, o som alto ocupa o espaço e o volante vira dança. A cidade se abre como se fosse só nossa — não por posse; coincidência rara. Existem encontros que não pedem promessa, só
    reconhecimento.

    O tempo é relativo. As pessoas são relativas. E as pessoas são as mesmas de antes: sorrisos que despertam sentimentos de nós mesmos, tão endurecidos pelo correr dos dias.

    Choro, sentada no parapeito. Me sinto uma coruja com minha cafeína líquida. Um pouco de mim se desfaz a cada segundo e tenho medo de o mundo acabar num instante — como acabou para o meu pai, para o meu avô, e há de acabar para o meu cachorro, e para meus filhos, se um dia existirem.

    Tenho em mim a sede genuína de um viver desembestado, um cavalo selvagem em meio a um descampado. Livre. Leve. Vivo. Sem destino pré-concebido.

    De esguelha, entrescondo a pergunta que Ele já sabe que aflige meu peito:

    Quanto tempo?

    Quanto até que meus olhos se fechem pela última vez, aqui?

    Quanto até o último café, o último beijo, o último êxtase, a última visão, a última palavra?

    Quanto de tempo hão meus cabelos, pele, sangue e respiro de testemunhar, para que minha mente se aquiete com tanto a se fazer e conhecer?

    Sentada nesse parapeito, em conversa honesta e silenciosa com o Redentor, choro.

    Não sei se de tristeza, de felicidade, ou apenas de equilíbrio — nessa minha vida em que as energias poderiam se carregar por um apetrecho qualquer, desenvolvido para me manter desperta. A todo momento.

    Que pode ser o derradeiro.
    E também o único.
    E o primeiro.

  • Poema #02: Sem alarde

    Não era o primeiro a chegar
    também não era o último
    ficava no meio.

    Lugar pouco disputado,
    onde ninguém posa
    e quase ninguém repara.

    Enquanto alguns se apressavam em brilhar
    e outros reclamavam da falta de luz
    ele aguardava.

    Não parecia esperar nada específico
    talvez só o tempo exato em que algo se revela
    sem fazer alarde.

    Foi assim que aprendi:
    nem toda claridade quer vencer a noite
    algumas só querem caber dentro dela
    por um instante e depois seguir

    vagalumeando

  • Super pobres

    Muito se fala dos super ricos, grupinho reduzido de privilegiados que amealham fortunas tão descomunais que fazem o Tio Patinhas parecer um pobretão.

    Erguem mansões em localidades diversas com dezenas de cômodos em mármore maciço e um séquito enorme de serviçais, bunkers antinucleares, coleções de carros blindados, iates, jatinhos, joias e objetos de luxo. Possuem zoológicos particulares com animais exóticos (em extinção). Constroem banheiras de ouro e privadas cravejada de brilhantes para dar um tratamento vip até à saída de seu cocô.

    Investem em terras, fazendas, gado, ilhas paradisíacas, fundos exclusivos, startups, e outros ativos cujos rendimentos e valorização lhes permitem fazer o seu patrimônio crescer indefinidamente. Tal qual seu ego. E sua ambição. Sonegando impostos para perpetuar a riqueza em sua integralidade.

    Não sabendo o que fazer com tanta grana acumulada, promovem festanças nababescas em hotéis 6 estrelas com shows de artistas super stars (super ricos também) e organizam turismo espacial de lazer para outros super ricos gastarem seu tempo em frivolidades inacessíveis aos demais mortais.

    Não bastasse, fazem lobby sobre os governantes para direcionar os rumos das políticas para atender a seus propósitos particulares de maneira que os destinos da humanidade a eles se subjuguem.

    Não se importam também em rapinar os recursos da Terra em benefício próprio, ameaçando a existência de todos os seres vivos, inclusive deles próprios. Colocam os bens materiais acima de tudo inclusive da vida.

    Na outra ponta, na base da pirâmide social, uma imensa maioria de indivíduos padece de fome e sede e luta pelas migalhas que os permitam sobreviver: são os super pobres.

    Para um visitante do espaço que descesse à Terra, tamanha desigualdade seria inconcebível. Qual a lógica em os terráqueos aceitar passivamente uma sociedade em que muito poucos têm bilhões enquanto bilhões têm muito pouco?

    A chave para a compreensão desse quadro bizarro é que os super ricos contam paradoxalmente com a condescendência dos super pobres para manter o status quo.

    Os super pobres não se revoltam, nem se organizam para pressionar por mudanças que melhorem sua situação relativa. Aceitam humildemente a superexploração a que são submetidos. São também super pobres de espírito.

    Opostamente ao que imaginara Marx em sua ‘luta de classes’, esses falsos ‘coitadinhos’ enxergam como seus reais inimigos não os abastados donos do capital, mas os demais pobres a que consideram fracassados e os imaginam como concorrentes na batalha para a ascensão social. Se não obtiveram sucesso nessa empreitada utópica para ‘subir na vida’ é por não terem se esforçado suficientemente. E passam a trabalhar dobrado, tornando-se além de super pobres, super esgotados.

    Acatam a ideia de que aqueles que se encontram em situação aflitiva foi por desígnios de um Deus que premia materialmente apenas quem é bem sucedido como empreendedor.

    Admiram os bem aquinhoados que, graças a seus esforços, teriam alcançado a bem aventurança traduzida por uma vida de luxúria, ao gosto do Cristo corporativo que dirige a humanidade não de um trono celestial, mas acomodado numa cadeira ergonômica de couro num smart office com ar condicionado. Que está mais para CEO do que para o céu.

    São os super pobres que abastecem com seu dízimo os pastores charlatões. São eles que elegem com seu voto os políticos corruptos e que enriquecem com sua atenção influencers picaretas. São eles que seguem os mandamentos dos impostores midiáticos que os convencem sem questionamento de lorotas persuasivas.

    Os super pobres menosprezam a educação que poderia fazê-los compreender a exploração e ignoram a palavra daqueles que os exortam a entender a dura realidade. Preferem viver na ilusão e se apegar à religião que lhes ensina o conformismo e a submissão.

    Sim, os super ricos podem continuar a se esbaldar à vontade. Contarão sempre com a benevolência dos super pobres.

  • Solidão x Solitude

    Costumamos dizer que seguimos com a mesma garra, a mesma força, a mesma independência, os mesmos “superpoderes”, embora já tenhamos atingido determinada idade.

    No fundo, porém, penso que isso talvez seja uma escolha. Optamos, de forma racional, por manter uma aparência de força. Decidimos seguir.

    Ainda assim, creio que nos tornamos, sim, mais fragilizados, mesmo quando estamos bem de saúde, com autonomia e em boa forma física. É como se, pouco a pouco, fôssemos esvaziando o estoque da nossa força emocional.

    Passamos a querer andar sempre em dupla. Reparem como muitos casais idosos realizam quase todas as atividades juntos. Ou mãe e filha, duas irmãs, dois amigos inseparáveis. Essa constatação se deu tanto pela observação de outras pessoas quanto pela observação de mim mesma.

    Há, no entanto, aqueles que preferem a solidão. Gostam de estar sós, apenas consigo. Desses se diz que cultivam a solitude. Ficam sós por escolha e sentem-se preenchidos de si mesmos.

    A solitude pode demonstrar força, garra e independência. Ou talvez revele pessoas que, com o avançar da idade, tornam-se mais recolhidas, avessas a reuniões, festas e encontros. Arredias…até ermitãs, chegando a ser intolerantes.

    Eu mesma me percebo dividida entre esses dois tipos de idosos.

    Creio que há também aqueles que são emocionalmente frágeis, mas optam por não demonstrar essa fragilidade. Em razão disso, afastam-se da vida social. Recusam situações em que se espera afabilidade, troca, interesse pelo outro, como festas, reuniões e encontros.

    Reflexões. Apenas reflexões. 

  • Ser surpreendido

    Não tenho vergonha alguma em ser surpreendido. Já superei faz muitos anos aquela necessidade de ter que mostrar que sabia de tudo antes de todos.

    Desprezo a sensação de poder que a clarividência traz.

    A verdade é que adoro não saber das coisas antes que elas aconteçam.

    Toda vez que eu converso com alguém que me diz “eu já sabia” eu me alegro por nada saber antecipadamente. Sou curioso, como todo mundo, mas não perco meu tempo tentando adivinhar.

    Por dever de oficio de escrita sinto prazer em imaginar situações, futuros alternativos, caminhos diferentes. E se ao invés de entrar naquela pizzaria às moscas eu tivesse ido embora para casa? E se ela tivesse jogado fora meu bilhete ao invés de ler o pedacinho de papel, sorrindo com a ousadia? Pois é, esse exercício é legal porque não antecipa algo na sua linha do tempo mas propõe alternativas para o que já passou.

    Voltando.

    Não quero ser adivinho. Não desejo ser blasé ou falar com tom morno e fazer aquele ar superior que acompanha as três palavrinhas “eu já sabia”. Dispenso o pedantismo expresso nessas palavras.

    Antecipar o trivial, o cotidiano é perder a oportunidade de voltar a se portar como criança. Sim, criança mesmo, rindo do novo porque é novo, é inédito. Com aquele riso frouxo carregado de esperança porque a novidade veio para nos alegrar.

    Por isso repudio a soberba dos que olham altaneiramente a vida, com eterno ar de deja vu.

    Quero ser testemunha da estréia.

    Quero participar dos fatos.

    Quero me emocionar com as novidades.

    Quero sorrir ante a surpresa.

    Quero deixar o coração saltar alegre pelo inesperado.

    Quero porque quero nada saber e tudo descobrir.

  • Capacitismo

    A discriminação e o preconceito social contra pessoas com alguma deficiência, são vistos como normais em sociedades desinformadas ou mal-intencionadas, e essas pessoas são entendidas como exceções; eles creem que a deficiência é algo a ser superado ou corrigido, se possível por intervenção médica.

    Um exemplo de postura inadequada, é dirigir-se ao acompanhante de uma pessoa com deficiência física, ao invés de dirigir-se diretamente à própria pessoa.

    Atitudes renascentistas como essa, desfilam nos lares das cidades que as acolhem, ocupados com números, objetos, teorias preconceituosas, ou por vezes, nada.

    A história nos mostrou que os franceses condenados, nos anos de 1757, eram levados a praça pública para cumprirem sua punição no fogo, cera e enxofre, porem menos de cem anos depois, o vigiar e punir, foi  transformado em treinamento aos detentos, com disciplina, e frequência às aulas, em dois períodos diários, sendo uma demonstração de progresso e desenvolvimento humano. Naquela França do século XVIII, era clara a evolução das mentes, voltada para um objetivo, a busca da inserção social. E cada sociedade se constituiu, no desejo de ser acolhida como um entendimento ao progresso intelectual de seu povo, sem desfile de capacitismo.

    Hoje assistimos o povo Afegão batendo de frente novamente com o islamismo, praticado ao pé da letra pelo Talibã, esse mal milenar. As mulheres voltam a perder seus direitos, o povo se vê oprimido, e o poder se instaura de forma retrógrada e destruidora.

    O estilo fiscalizador do talibã, pune radicalmente seus opositores, e anuncia cumprir a cartilha da Sharia, com bases ditatoriais.

    Estabelece as mesmas antiquadas regras e tabus de convivência, com armas em punho, sem direito a suplício.

    O que o Talibã faz, segundo o professor, Atilla Kus, mestre e doutorando em Ciências da Religião pela PUC-SP, é se utilizar dos conceitos religiosos, para justificar condutas e aglutinar apoio entre segmentos de sociedades que vivem no islamismo.

    No imaginário ocidental, a Sharia é descrita como uma tradução literal da lei islâmica, tal como está escrita no Alcorão, o livro sagrado da religião muçulmana para a vida cotidiana.

    Foi utilizada para justificar a proibição de meninas e mulheres, estudarem ou trabalharem.

    Vendo aqui esse movimento similar ao capacitismo, cada um a sua intensidade e interesse, sabemos que é desumana a relação com as supostas interpretações de quem o pratica, sejam contra os deficientes ou às mulheres afegãs, classificando-as como criaturas inferiores.

    O que nos resta é denunciar grupos deformados mentalmente como o talibã, atrasados socialmente, azedados pelo sangue em suas mãos sujas e carregadas de morte, que deveriam se esfacelar de nosso convívio.

    Lamento incluir esse clã na raça que faço parte no planeta azul, que de tanto girar não consegue soprar com seus ventos secos e nobres, essa lama de maus exemplos de convívio.

  • O grande acontecimento

    Ele tinha se tornado a principal atração daquela cidade à beira do mar. Quem lá fosse certamente ouviria na volta: “E aí, foi ver o…? O que achou?”, “Me conte, como é o…?”, “Não me diga que não foi ver o…!”. Era quase uma obrigação, para qualquer turista, visitar o… Ver o… era a revelação de um segredo, a que só pessoas especiais tinham acesso.

    No dia mesmo de minha chegada fui avisado pelo guia turístico de que naquela noite haveria o grande acontecimento: o… iria aparecer. Para vê-lo, eu deveria ir à praia junto com os demais visitantes. Estava já anoitecendo quando uma multidão, em silêncio, pisou a areia. Com devoção e seriedade, todos fixaram o olhar na espuma branca sobre a água escura. Ficamos ali, atentos por horas, esperando o surgimento do… Não se ouvia um pio nem se via movimento ou qualquer gesto de impaciência. Tínhamos todos o sentimento de que iríamos presenciar algo jamais visto. “O sublime”, alguém se atreveu a sussurrar. “A Pombagira, tenho certeza”, murmurou outro. “O enviado do céu”, choramingou a senhora de lenço na cabeça e terço na mão.

    A noite avançava e, quando já não se enxergava nada além da brancura das ondas, um homem saiu do mar. Surgiu da imensidão líquida, de onde não é possível que alguém surja. A água circundava sua cintura quando pudemos vê-lo com nitidez. Tinha barba, altura mediana e o olhar esgazeado, como se olhasse para tudo e nada visse. Chegou até o ponto onde o mar lambe a areia e se ajoelhou. Ergueu os olhos para o céu e assim ficou por muitos minutos. Depois baixou a cabeça e, tão lentamente quanto uma vaca se abaixa para abocanhar o capim, beijou a areia e em seguida escreveu algo com o dedo no chão molhado. Todos esticamos o pescoço para ver o que era, mas o mar foi mais rápido e apagou tudo. O homem virou-se de costas e, assim como veio, desapareceu na água escura sem que entendêssemos como.

    O mar voltou à mesmice de sempre e todos se levantaram e saíram da areia pensativos. Apenas eu permaneci lá, sob a lua, aguardando o grande acontecimento.

  • Meu primeiro grito de carnaval

    Sempre fui tímido. E, para piorar, me meti muito cedo com os livros. Só através da imaginação eu viajava — na vida real, não. Todo carnaval, eu me escondia: procurava ler uma montanha interminável de livros, me informava sozinho no cinema ou passava horas tediosas vendo televisão. Aquela alegria lá fora não me pertencia.

    Até que um dia cansei de ficar em casa. Vou para a rua, nem que seja para fazer uma caminhada, bater perna, invejar a alegria dos outros.

    De repente, ali no centro, descendo a Rua dos Goitacazes e chegando à Rua da Bahia, um rapaz me parou. Ele estava fantasiado: usava um vestido rosa, batom, luvas. Estava acompanhado de uma senhora vestida de bruxinha.

    — Você sabe onde tem um bloco legal por aqui?

    — Infelizmente não — respondi.

    — Um bloquinho com a gente?

    Eu disse que sim. E aqueles dois carnavalescos foram me levando.

    Subimos de volta a Rua dos Goitacazes, sentido Barro Preto, e figuras hilárias foram passando por nós. Um palhaço se aproximou e falou para mim:

    — Descubra os braços, moço!

    A bruxinha e meu outro amigo riram. Logo depois, cruzamos com um casal: o moço vestido de Mulher-Maravilha, a mulher de Superman.

    — Ô, casal, vocês sabem onde tem um bloquinho bacana? — perguntou a bruxinha.

    — Não. A gente também está procurando.

    — Quer ir procurar um bloquinho com a gente?

    O casal se recusou, desejou bom carnaval, e nós seguimos.

    No Shopping Cidade, o segurança — depois de segurar o riso — nos informou que ali na Augusto de Lima, perto do fórum, tinha um bloquinho. Não sabia o nome. Rumamos para lá.

    No caminho, vimos um homem fantasiado de Chaves, segurando uma maçã. Um rapaz vestido de Quico pegou a maçã dele e saiu correndo.

    — Ora, meninos, não brinque! — disse a bruxinha.

    Passou um padre — um homem fantasiado de padre — e realizou um casamento de brincadeira entre mim e a bruxinha, nos convidando a dar um selinho. Uma policial me colocou contra a parede.

    Quando chegamos à Augusto de Lima, cantamos abraçados: “Alalaô, mas que calor!”. Depois: “Olha a cabeleira do Zezé, será que ele é, será que ele é?”. A multidão se espremia, se abraçava, se apertava, mostrando que, na rua, em dias de carnaval, a gente nem precisa saber sambar.

    Daí em diante, decidi que nunca mais ia para o carnaval — sem fantasia.

    Como não fui até hoje.

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