Crônicas

  • A busca de ser lembrado

    Gosto do termo “brumas” para figurar o esquecimento. O que vivemos se perde numa massa brumosa que dissipa as impressões do que passou. Não se revive nada, toda lembrança é o registro de uma perda. Ainda assim insistimos em lembrar, pois disso depende em grande parte a nossa identidade. 

    Outro vocábulo que também representa o que na memória se perdeu é “oblívio” – mas desse ninguém se lembra. É um vocábulo erudito e um tanto assustador. Por também significar repouso, tem alguma ligação com a morte. 

    “Amnésia”, sim, é patológico. Sugere uma perda temporária das lembranças devido a lesão cerebral ou à ingestão de determinadas substâncias. Seu radical evoca Mnemosine, a deusa que para os gregos determinava a lembrança e o esquecimento. Segundo a mitologia, os mortos que bebiam da água do seu poço relembravam suas vidas. 

    O esquecimento é o que mais tememos na morte, por isso o tema da memória provoca de forma tão intensa o nosso interesse. Quando se pensa em não morrer, ficar “para sempre”, pensa-se na verdade em permanecer na memória das pessoas. 

    A morte se consuma, não quando perdemos a vida, mas quando o que fomos desaparece por completo da lembrança dos vivos. Daí o empenho em que fique registrado o nosso nome nas obras de arte ou no acervo de instituições como academias, confrarias religiosas, associações de notáveis – que às vezes nem são tão notáveis assim, mas fazem questão do registro; o importante é que o nome esteja lá. 

    Nesse esforço de ser lembrado há quem desconheça a fronteira entre o bem e mal. Pouco importa se o recordam como um monstro ou um psicopata, desde que seus atos imprimam uma marca indelével na memória dos outros. Nesse grupo se enquadram os assassinos de celebridades ou os que, no exercício de funções delicadas como a de pilotos de aviação, produzem tragédias que levam à destruição de inocentes.  

    Muitos fazem tudo pela glória póstuma esquecidos de que o essencial mesmo é “permanecer”        enquanto estiverem vivos. Isso significa atuar, comprometer-se, ser determinante na vida dos que deles dependem ou com os quais mantêm vínculos de afeto.   

    Quem falha nessa tarefa, muitas vezes em prol de uma duvidosa notoriedade aos olhos dos pósteros, está condenado ao esquecimento em vida (um esquecimento que por vezes se confunde com desprezo). E deve amargar para sempre os efeitos da escolha errada.

  • Destino

    Ela buscava a perfeição nas pequenas coisas. Não por vaidade – que tolice seria pensar assim – , mas porque temia que, se um detalhe lhe escapasse, o resto se desfaria junto. Como se a vida fosse tecida de minúcias frágeis, e bastasse um único fio solto para que tudo se desfiasse.

    Naquela tarde, após o encontro inesperado com alguns colegas do antigo curso de Arquitetura, decidiu retardar a volta para casa. Um happy hour. Um instante de distração. E nesse gesto havia quase um crime: quebrar a rotina perfeita que sustentara por vinte anos de casamento. Estranho como a alegria, quando não estava prevista, parecia culpa.

    A noite avançava. Os amigos insistiam para que ficasse. Ela sabia que não devia prolongar aquele instante. O corpo dizia: fique. A consciência sussurrava: vá. Riam, insistiam, queriam retê-la. Ela ponderou: a música era boa, fazia tanto tempo que não tinha momentos só dela. Mas não conseguiu se entregar. Sentia-se dividida: entre o prazer de estar ali e a voz severa dentro de si, que lembrava sempre o “certo”. Presa ao medo de parecer chata, quase cedeu. Sempre houvera em sua vida um juiz oculto, vigilante, capaz de tolher qualquer leveza. É curioso como, às vezes, o que nos prende não é a obrigação, mas o receio da opinião alheia.

    Entre eles, Augusto. Não era apenas um amigo antigo. Era a lembrança de um caminho perdido. Ao vê-lo, sua alma estremeceu, frágil, como uma casa durante um terremoto. Pensou: se não tivesse obedecido à ordem das mulheres de sua família. Casar, ter filhos, cuidar da casa, como sua mãe fizera e a mãe de sua mãe antes dela, talvez tivesse permitido uma aproximação, quem sabe uma aventura. Recordou os corredores da PUC, os bancos da praça de alimentação, as conversas que nunca chegaram a ser promessa. E agora ele estava ali, diante dela, intacto. Como se o tempo não tivesse passado. Como se tivesse ficado, de propósito, à sua espera.

    E, de repente, bastou uma frase. Palavras comuns, triviais até, mas que carregavam o peso de uma chave guardada por décadas:

    – Nos trilhos somos livres. De uma estação a outra, seguimos nosso destino.

    Ela respondeu sem pensar, como se a voz não fosse dela, mas de algo mais antigo:

    – Para onde quer que você vá, levará consigo você mesma.

    Riram, mas não das palavras em si. Riram de si mesmos, do espanto de se ouvirem repetir o que soava tão gasto, tão decorado. O clichê, afinal, não estava nas frases escritas anos antes, por Augusto e por ela, no banco da praça: estava no tempo que haviam perdido. E foi por isso que aquelas palavras banais soaram como um segredo enfim revelado.

    O silêncio seguinte foi decisivo. E, de repente, já não importava mais a música, os protestos dos amigos, nem a madrugada que avançava. No olhar entre eles havia já um pacto. Sem despedidas, sem desculpas, de mãos dadas, abandonaram o bar.

    Daquele dia em diante, ela nunca mais foi a mesma. Começou a perceber fissuras no mundo perfeito que construíra: os filhos já não pareciam os mais belos, o chulé do marido lhe dava enjoo, a toalha molhada esquecida no banheiro tornara-se insuportável. Não era novidade nenhuma, mas agora ela via. E ver é diferente de saber.

    Numa manhã de sol quente, desceu as escadas para atender à campainha. Era Augusto, com dois envelopes timbrados de uma companhia aérea. Não houve palavra entre eles. Apenas o gesto. Um convite mudo. E ela aceitou.

    Enquanto partia, teve a impressão de que não deixava nada para trás. Ou talvez deixasse tudo: os filhos, o chulé, a toalha molhada, a casa perfeita. Ainda assim, não se despedia de nada. Era como se permanecesse ali, presa ao corpo que caminhava, à casa que ficava, aos seus demônios interiores. Ele, ainda embriagado pelo acaso. Ela, estranhamente vivendo a sensação de ter encontrado a si mesma, ao mesmo tempo, de estar se perdendo para sempre.

    E se perguntou: quem é que parte, afinal?

  • Desumanização

    Acompanho a minha esposa na fisioterapia. Como vocês sabem, ela fraturou o braço há um mês e está entrando numa fase longa de recuperação. Estou cagado de cansado, de um dia todo de trabalho; peguei um trânsito maldito e estou agora, 18h30min, num tal Ginásio 2 – Pós-operatório, no prédio do plano de saúde. Foi uma correria até chegar aqui. Antes, pegamos uma fila razoável para a marcação inicial. Ela foi chamada minutos depois – não demorou muito. Fico numa salinha ao lado esperando. Tocam (gritam), simultaneamente, a televisão, sintonizada na novela – e que novela ruim, meu Deus do céu –; o “divulgador” das senhas, a todo instante chamando um paciente, “Atenção, fulano de tal, senha de número 883, compareça ao Ginásio 2 – Pós-operatório”; e o celular alto de uma senhora, de seus sessenta anos, muito carrancuda, ouvindo a pregação de um pastor atentado. Procuro relaxar um pouco, fuçando o Instagram, para me dispersar, mas num momento ou outro o fuleiro do pastor berra. É decerto um desses pastores da Nova Era, um pastor treinado para a conversão das pessoas ao Deus dinheiro; um típico pastor coaching – e, como todos sabem, tenho abuso a coaching, com suas receitas milagrosas, doidos para angariar seu rebanho endinheirado. O cabra ainda teve o desplante de chamar Davi bíblico de “um tremendo de um malandro”. Não sei bem quem é Davi, mas sei que um religioso não devia se portar desse jeito. Um bom religioso não deve, a meu ver, se mostrar, deve ser discreto e imbuído das melhores intenções, para salvar as almas perdidas. Como vocês sabem, também, sou autista, nível de suporte um, e por isso tenho meus incômodos com sons variados, tocando ao mesmo tempo, principalmente. A vizinha sentada ao lado esquerdo resolveu ligar para a amiguinha, e está de conversa fiada, falando sobre um tal namorico: besteirol. Ri alto e fala como se estivesse na sala de casa. Levanta e se senta descoordenada, agoniada. Parece que tem algum problema na perna, talvez seja o motivo de estar ali. Não tem o menor constrangimento de falar em sexo no meio de uma sala lotada. Disse que o carinha que estava pegando era brocha, e assim, rindo, cada vez que mencionava o sujeito, o tratava como “o brocha”. É assim que as mulheres fazem nas suas conversas “particulares”? Não creio. Mãe e filho, à frente, conversam sobre estudos, estando o menino hiper-ansioso para passar de ano. Sem querer, escuto histórias que não queria escutar, às vezes se misturam, e viram um aglomerado sonoro insuportável. Haja paciência para a falta de senso das pessoas. Pensando em sair e esperar a minha esposa fora do prédio, ela alivia a minha ansiedade e a minha pressa para fugir e aparece na portinhola. Sai e pega na minha mão, forte. Voltamos ao carro e, logo, seguimos em direção à casa. Mais um dia superado com certa aflição.

  • O Edgar tem cada uma

    Para Luis Fernando Verissimo, com saudade*

    O Edgar está longe de ser bonito, mas anda empenhado em virar um grande sedutor. Acha que é só questão de lábia, de saber xavecar do jeito certo: o papo, o feeling, o timing. Nos sebos, vai direto à estante dos livros de autoajuda, escritos por coachs que ensinam o menino cheio de espinhas a chamar a menina mais bonita da escola para o cinema.

    Ao comprar um desses livros, Edgar tem uma exigência: não aceita conselho de gente encalhada. Primeiro confere se o autor ou autora é casado, tem filhos, aparece em foto de família em coluna de jornal. Se for assim, vale a pena ouvir.

    De tanto procurar, achou na estante o livro da canadense Rebecca Gibson:
    Título em inglês: Ten Secret Rules to Become a Man Able to Give What Every Woman Needs
    Subtítulo: A Practical Guide for the Hopeless, the Clueless, and the Terminally Single

    Eu, pessoalmente, tentei ajudá-lo:
    — Que livro mais idiota, Edgar.
    — Ora, idiota nada. Por quê?
    — Edgar, pensa bem. Se são dez regras secretas para um grande sedutor, por que elas estão na capa?
    — E daí? — me perguntou, enquanto o garçom trazia bolinho de feijão e cerveja.
    — O que é segredo, a gente não conta. Por isso acho o fim da picada você colocar sua vida amorosa nas mãos de um livro tão burro.

    — Pelo menos a autora não é encalhada.
    — E isso basta?
    — Ajuda.
    — Você tem cada uma, Edgar.

    Dei uns tapinhas nas costas dele. O garçom trouxe a cerveja e os bolinhos de feijão. Ficamos os dois ali, rindo.

    A tática que meu amigo leu era simples: bastava usar uma aliança no dedo, fingindo ser casado. Segundo Rebecca Gibson, uma loira canadense bochechuda e linda de doer, as mulheres gostam mesmo é de disputar o homem das outras. Gostam da rivalidade, da adrenalina. Para ela, amizade entre duas mulheres não existe, já que toda amiga é, em potencial, ameaça ao romance da outra. Em suma, Edgar só precisava se passar por um homem casado de respeito, dedicado aos filhos, cara fechada, sem inclinação para trair. Nada de errado nisso — afinal, solteiro, morava com a mãe idosa. Só estava jogando os dados a seu favor.

    E assim passou a usar aliança. Camisa sempre abotoada até o último botão — homem casado se preza. Cabelo penteado de lado, água de colônia discreta. Nada de virar o pescoço para a estagiária, nada de reparar no decote da Dagmar, advogada da sala ao lado. Ah, esqueci de dizer: Edgar é advogado numa firma. Passou a chamar clientes de senhora ou senhorita, conforme a idade.

    Outro dia, a estagiária reparou:
    — Edgar, que aliança bonita. Sua mulher deve ter muita sorte.
    — O sortudo sou eu.
    — Quantos filhos?
    — Um bebê e uma menininha de um ano.
    — Que bonito. É raro ver homem assim.

    Edgar passou a ser visto como homem de respeito. Homem de bem. Zeloso pela família.

    O plano funcionou: o homem casado, pai amoroso, sério. As pretendentes começaram a aparecer, provando que Rebecca Gibson, casada com um CEO de revista americana e mãe de um bebê adotado na África, tinha razão. A primeira foi Laura, garçonete da padaria, que se comovia com a aliança dourada. Pegava carona, evitava pagar ônibus, entrou no motel acreditando que “era só pra conversar”. Depois vieram a cozinheira do restaurante, a depiladora da livraria, a Sabrina mascando chiclete sem parar, estagiária do banco, que topava o motel antes ou depois do expediente.

    A aliança do Edgar virou feitiço.

    Vaidoso, começou a ir à manicure, à perfumaria, ao cabeleireiro, à estética.

    Agradecido, escreveu um e-mail para Rebecca Gibson:
    “Thank you so much, Miss Gibson. I truly appreciate your tips. You made me a brand new man.”
    Rebecca respondeu dois dias depois:
    “Thank you for your support.”

    A vida dele ia de vento em popa, causando inveja. Até que, certo dia, na praça de alimentação do shopping, de mãos dadas com uma morena da contabilidade, uma velha conhecida bateu no ombro dele:
    — Grande Edgar.
    — A senhora me conhece?
    — Respeita sua madrinha, seu malcriado.
    — A senhora o quê?
    — Finalmente arrumou uma mocinha para casar.

    Foi embora, deixando os dois a sós.
    — Então você não era casado? Colocou essa aliança só pra me fazer de besta?

    Ela pegou o molho da macarronada e jogou na camisa branca dele. Pegou também a cerveja e derramou na cabeça. Saiu furiosa. Mulheres não suportam homens mentirosos. Ainda que mintam para a esposa, para elas nunca. Rebecca Gibson até fez um bom livro, mas esqueceu de incluir um capítulo sobre como praticar em cidades pequenas como Belo Horizonte.

  • A Velha e o Mosquitão

    Dona Maria costumava se gabar por ser a maior espectadora de televisão do planeta. Havia alguém responsável por lhe conceder esse nobre título? Sim, no caso, ela mesma. Moradora de uma vila de pescadores, tinha uma vida bastante simples. Acordava de manhã, sentava-se em sua poltrona e ligava sua televisão. De lá só saia quando alguém batia em seu portão querendo comprar os sacolés que vendia para as pessoas daquela região.

    Toda essa calmaria ficou abalada quando um dia, enquanto assistia ao seu programa favorito, o plantão telejornalístico interrompeu sua programação com a seguinte notícia.

    — Informamos aos moradores desta cidade que amanhã receberemos a maior invenção deste século, o barco nuclear. Projetado com o tamanho de uma simples embarcação de pesca, ele será capaz de fornecer energia para todas as fábricas da nossa cidade. A crise energética enfim acabou. O equipamento ficará atracado na vila dos pescadores.

    — Por que diabos essa geringonça vai ser colocada aqui para iluminar as fabricas do outro lado da cidade? – indagou a senhora.

    No dia da inauguração, jamais tinham sido vistas tantas pessoas esquisitas naquela localidade. Era uma gente vestida de terno que andava com a cabeça tão levantada que quase alcançava o céu. Foi até estranho para os moradores daquela região verem o prefeito e vários vereadores comparecerem ao vilarejo fora do período eleitoral. Após todos os discursos e pompas, estava inaugurado o gerador de energia.

    Logo depois, começou um zunido infernal naquela localidade. Nenhuma pessoa conseguia mais fazer nada sem ser atormentado por um barulho ensurdecedor em seus ouvidos. Dona Maria já não conseguia mais ver ser programas de televisão. Como uma senhora obstinada, ela não poderia deixar aquela situação permanecer daquele jeito. Pensou logo em bolar um plano.

    Durante dois dias, ficou observando o ir e vir do pessoal que tomava conta daquele mosquitão. Percebeu que, uma vez ao dia, durante a troca de turno, o local ficava sem ninguém de vigia. Essa era a hora perfeita. Então, a Super Senhorinha saiu de sua casa, adotou passos cuidadosos e chegou em frente ao seu objetivo. Agora, precisava saber de onde vinha aquele barulho. Ela não titubeou, com sua perícia de cientista do lar, observou tudo durante algum tempo e percebeu que o som deveria vir de um cabo dentro daquele equipamento. Foi lá e desconectou tudo. Na mesma hora, o barulho parou. Saiu de lá vencedora.

    No dia seguinte, a paz voltava a reinar naquela casa, como era incrível a sensação de poder assistir televisão sem nenhum barulhinho para atrapalhar. Estava nas nuvens. De repente, sua programação voltou a ser interrompida pelo plantão.

    — Informamos que, por motivos ainda desconhecidos, o funcionamento do barco nuclear foi interrompido. A concessionária responsável está tentando adotar todas as medidas para restabelecê-lo o mais rápido possível, mas ainda conseguiu detectar o problema. Sendo assim, é necessário informar que estamos correndo um grande perigo, pois essa interrupção no equipamento por mais de 36 horas poderá causar uma explosão que destruirá nossa cidade. Os desenvolvedores do barco nuclear criaram esse mecanismo para nos proteger contra possíveis ladrões de tecnologia.

    Dona Maria ficou espantada com a notícia, mas sabia que não tinha tempo a perder. Esperou a hora que já conhecia muito bem e lá foi mais uma vez em direção ao mosquitão que tanto desprezava. Como já sabia exatamente o que fazer, não demorou nem 5 minutos. De repente, começou o zunido de novo, todos os funcionários correram para ver o que havia acontecido. Quando olharam para trás, somente viram uma senhora andando vagarosamente. Ela olhou para todos e disse:

    — Tentei voltar a ter paz para assistir meus programas de televisão, esse barulho estava complicando minha vida. Agora, se para ficar viva eu preciso aguentar o barulho desse mosquitão, que ele continue — disse Dona Maria contrariada após restabelecer o zunido muito a contragosto.

  • FERIADO

    Estou sentado, sozinho, na mesa de um bar, numa dessas noites perdidas. Lá fora a chuva impede-me de sair e eu fico observando este meu impedimento que na verdade é fuga a uma determinação que não tenho tido. Olho para a chuva e vejo a sua cortina de indiferença. A chuva escorre e a água correndo parece trazer-me uma espécie de nostalgia semelhante à náusea. A chuva forma com suas goteiras algo parecido com uma delimitação de espaços, de vivências, de ansiedade pura. Aqui dentro a vida que tenho tido como espaço permitido ao corpo. Lá fora a vida que eu poderia (talvez) ter se imperasse o sonho de estar além do espaço físico, como uma antevisão de um espaço neutro concernente à paz. Acrescento ainda que esta noite é de finados e a questão é transpor ou não o limite da porta.

     Inventário de Sombras

  • Poema: #12: Exercício Pessoano

    A chuva veio tomar
    os meus pensamentos
    e me puxou pelo braço… assim inteiro
    e já não me sou…deixei de ser…
    somos e não somos.
    Várias vozes… absorção.
    Um senão!

    E fica a impressão
    de que a vida se abandona
    na brevidade acelerada das coisas…
    e não somos! Fingimos ser…
    Inventamos, copiamos, fazemos um rascunho…
    E nos deparamos com o sentido inoportuno
    de não querer entender
    e somos!

    Vencido o humano,
    bandeiras ao vento, mastros,
    coração tremulando aos farrapos…

    Quando se escreve, há o momento da perda…
    e, no perder-se, encontramos
    o que no cotidiano…
    damos o nome de poesia.

  • Oscilações

    Um corpo que envelhece, expressões sem fôlego. Vera move-se em vaievéns curtos, sem, contudo, se entregar à queda. No espelho, vendo o que não queria – ou tentando não o fazer; momentos antes, a caixa… dezenas de momentos em papel fotográfico, seu os tantos sorrisos congelados em uma linha torta e encantadora de tempo. Via-se em cada instante eterno, ainda feita de sonhos. Como se o vento do mar Tirreno jamais tivesse parado de soprar em seus cabelos, tingidos tantas e tantas vezes, de tantas cores, desde então. Quase quarenta anos em um sopro. Sequer precisava fechar os olhos: bastava respirar para que o passado lhe viesse inteiro, sem convite ou pedido de licença.

    Sente um burburinho atravessar a caixa e está de volta a Rimini, Maranello, Venezia, Napoli, Capri, Milano. Quatro décadas resumidas em quarenta segundos, alisar dos dedos em unidades fotográficas brilhantes. Quarenta amontoados de papéis dentro da mesma caixa, tudo mofo e saudade.

    Não só quarenta, nunca são; os passaportes perfurados pela aposentadoria documental precoce, carimbos:
    ■ Sofia, a língua complexa, as construções monumentais, neve, amigos, entender a palavra банан (banana), se encantar com o suco de sua fruta favorita e, desde então, fazê-lo sempre para as visitas em sua casa;
    ■ Budapeste – o rio Danúbio e os deslumbramentos de passear à noite e em pleno domingo cheio de vida urbana;
    ■ Bruxelas – sabor das belgium fries, batatas fritas duas vezes, chocolates, o manneken pis que urina orgulhoso na fonte desde 1619, os raios de luz dentro das Igrejas.
    ■ Fez – com o arrastar do sari pela medina, todas as compras inusitadas dentro de uma farmácia, os curtumes e hortelã, o passar pela Al Quaraouiyine, mais antiga universidade do mundo;
    ■ Deserto do Saara – com suas tempestades de areia e neve, babuínos e artistas que pareciam entender e responder todas as línguas do mundo;
    ■ Londres, com seus ônibus duplex vermelhos, táxis pretos; pubs, cultura, chuva e a inesperada gentileza e atenção inglesas;
    ■ Paris e seus odores particulares – deveras compreensível o lançamento das fragrâncias mundiais tão emblemáticas -, os picnics pelos bancos, a surpresa de ver Notre Dame (antes do incêndio) pela primeira vez, percurso com os olhos fechados por dedos carinhosos e as lágrimas que não cessavam perante tanta beleza;
    ■ Versalhes sem adentrar o Palácio, mas vivenciando a cidade, as feirinhas locais.
    ■ Poissy para única e exclusivamente conhecer in persona os sete pilares do modernismo original, a morada do sonho coletivo de então;
    ■ Plovdiv, as ruínas romanas, a cidade repleta de pedras.
    ■ Praga, suas pontes, seus artistas, tantos passos ao sabor do que quis fazer sozinha.
    ■ Porto – restrito ao Porto da mesma cidade, as passagens vívidas pelas janelas do trem.
    ■ Lisboa, pastel de Belém, teleférico com vista para o Tejo e um cartão postal em cortiça.
    ■ Barcelona, as ramblas, o desejo de experimentar ser uma local.

    De além mar:
    ■ Montevideo e
    ■ Colonia del Sacramento, chorizo, cerveza e lindas recordações de registros perdidos nos Hds da vida.

    A maioria dos cartões dos hotéis, notas fiscais de restaurantes, supermercados, rastros das experiências cuja tinta despreende-se da realidade. Croquis apressados em cadernos de capa mole, telefones que não levarão a lugar algum, trajetos riscados à caneta bic, nanquim e grafite 0.7 de lapiseira. A coleção de bótons de cada país visitado. Uma miscelânea de coisas que só para ela são tesouro. Para o resto do mundo, apenas tralha.

    Um enjoo sem causa, nascido do nada, como se o mundo oscilasse para frente e para trás: ecos de músicas, um acordeão inesquecível em um beco em Perugia desafia o artista performático – que toca instrumentos demais concomitantemente – em uma ponte praguense. Sol de inverno, chuva de verão. O amigo mexicano ao lado, rindo com ela. Perugia volta ao seu coração como quem pisca. Quatro anos depois, o mesmo acordeonista a reverencia em uma foto já desbotada. Era um festival de chocolates, o sabor dos baci ainda grudados na língua.

    Mais uma vez um mal-estar súbito. O visco da pele fotográfica parecia o mesmo, até confrontar-se com o espelho. O chão parece escapar-lhe dos pés. O amor pela vida sobrevive, mesmo com as desventuras insistindo em fazer fila nos últimos anos. Tem certeza de ser a mesma dos registros instantâneos de outrora.

    Havia ainda outros retratos: a terma solitária, na qual fora seguida por um brutamontes local, nenhum falando a língua do outro, o pânico. A terma seguinte, cheirando a enxofre, com o namorado que durou. A famosa rua vermelha holandesa, maconha única e sem efeito – pura imersão cultural -, um ex-marido rindo. A saga por casas de um euro com o namorado que costurara sua vida, tantas histórias que nunca se tornaram registros. Cartas de amores e amigos. Um affair da internet que mandava envelopes pelo correio, um namorado da faculdade que a fizera conhecer o sul do Brasil em um evento como se fosse aluna de outro curso. O primeiro passeio de metrô e de barca, a primeira vez na Confeitaria Colombo, todas as primeiras coisas com o primeiro amor, quem a ensinou a jogar xadrez, a escrever e a dirigir. Os planos de uma viagem com um ex que se tornou amigo e nunca aconteceu. A promessa de desbravar o mundo, sozinha ou acompanhada.

    Tudo em um breve e intenso espaço de quarenta anos… – como passa depressa..!

    “La vita è adesso” (a vida é agora), diria um Renato Russo confinado em CD de capa amarela. “La vita è troppo breve per mangiare e bere male” (a vida é breve demais para comer e beber mal) – a máxima estampada em um mercado italiano que já chegou ao Brasil, e que faz todo o sentido.

    Sobre o sofá-cama aberto, esse objeto solitário como Vera, feito para viver entre duas funções e seguir indefinido, a caixa, uma taça de vinho tinto, pães e azeite. Um vinil garimpado em sebo toca no portátil que presenteara ao pai, e lhe coubera de herança. A conversa muda entre Marcel Proust e Byung-Chul Han sobre a busca de outro tempo e o tempo perdido. O tempo nunca cronológico, sempre perfume, presença, ferida, doce, salgados e amargos e mergulhos num passado por vezes modificado. Um pretérito que perfura o presente, deixando de fora smartfones. A roomate turca, o último passeio no mini-metrô perugino. Ela radiante pela liberdade enganosa de não ter que usar véu fora de seu país, o noivo que a impedia pelo telefone de passear com os novos amigos. Tudo aconteceu há tanto tempo..! Perderam contato, Vera se pergunta sobre a felicidade atual da amiga, quando o véu já não é mais obrigatório por lei em Istambul. Quase irmãs, graças al bel paese. Quase desconhecidas, graças ao tempo.

    O chiado da agulha pede o outro lado do vinil. A garrafa de vinho parece um conta gotas com o que resta do líquido. As quinquilharias jazem à meia-luz, inertes na indecisão do mobiliário entre cama e sofá. Um odor extasiante de recortes e invencionices inocentes, lembranças de outrora – utopia juvenil? – impregna todo o ambiente, mas termina por adquirir o sabor cítrico, crítico e desilusório na memória de uma adulta de avançada idade. No banheiro estreito, metálico, Vera outra vez no espelho sorri. Atenta como há muito não fazia. Os lábios suavisam, vê-se vazia, pele enrugada, olhar triste e perdido. A vida já passara por ali, agora vinha como aquela visita inesperada, que ninguém quer receber.

    Aurora, quase. Água quente na pia. Rosto refletido, defletido, molhado. Não sabe o que vem vindo: pela janela escotilha só água, único horizonte. Dizem que tudo se cura em água salgada: suor, lágrimas e mar. Vera sorri; o navio balança. É a vez do mar.

    — Memória datada de 07 de setembro de 2045, no Estreito de Gibraltar (35.972705, -5.702652).

  • O diário secreto de Miss Marple

    O ritual da noite era sempre o mesmo: minha irmã fechava as portas do armário, apagava a luz e decretava silêncio. Só então eu podia, sorrateiramente, pegar o meu livro, lápis, um caderninho e me esgueirar para o meu refúgio de leitura noturna – o banheiro– nada confortável, convenhamos, mas privativo, o que considerava um privilégio.

    O livro escolhido era adequado a essa leitura furtiva – algum título da coleção de Agatha Christie que minha mãe guardava na biblioteca. O Assassinato do Expresso Oriente, Morte no Nilo, Appointment With Death, Poirot Perde uma Cliente…. lia avidamente todas essas histórias que envolviam mistérios, crimes, e finais surpreendentes. Me encantava com Poirot, o investigador astuto e bigodudo e Miss Marple, uma velhinha a quem não se dava o menor crédito como investigadora, mas era brilhante ao tecer a linha de raciocínio dos assassinos e chegar ao desfecho do crime.

    Na minha mente infanto-juvenil me imaginava parte da trama, escondida atrás de uma cortina a observar uma atitude suspeita, aflita para poder trocar ideias com Poirot sobre as minhas hipóteses. No silêncio espesso da madrugada pensava: E se fosse ali, na minha banheira amarela, que encontrassem o próximo corpo? Isso me fazia esquecer completamente a pouca luz do ambiente, a dor nas costas de ficar sentada no chão e o silêncio da casa que, muitas vezes, me fazia imaginar que alguém abriria a porta e eu é que seria a próxima vítima.

    Aquelas anotações noturnas foram meu primeiro ensaio de investigação – mas não de crimes, e sim de mim mesma. Naquele pequeno banheiro de ladrilhos amarelos, cercada de meus companheiros da noite, eu tinha voz própria, acolhimento e o respeito que me faltava pela singularidade de menina fora da roda.

    Minha leitura era intercalada por momentos em que registrava no caderninho reflexões sobre a vida fora da fantasia, as descobertas reais sobre mim e sobre os outros participantes do duelo entre a inocência da infância e a impiedade da adolescência… enigmas que nem Miss Marple, com sua clarividência própria de uma mulher, conseguiria decifrar.

    Esse diário foi a porta de entrada para, muitas décadas mais tarde, me aventurar pela escrita criativa, refugiada em um outro espaço ladrilhado que foi o isolamento durante a Pandemia.

    Fui buscar lá no fundo minha veia investigativa para me dedicar aos contos de ficção, deixando sempre uma porta aberta no final dos textos para que o leitor pudesse fazer a suas próprias descobertas. Não é por menos que o meu primeiro livro de contos, se chama “Conto ou não conto”. Tenho certeza de que Miss Marple gostaria desse título.

  • Não se faz omelete sem quebrar os ovos

    Para muitas pessoas, a aproximação do aniversário inaugura o inferno astral, tempo no qual tudo que poderia dar errado, dará. Não sei se acredito nisso, mas fato é que, semanas antes do glorioso dia, tem início, dentro de mim, um misto de desassossego e agonia para decidir: como, onde e quando vou comemorar? Quem vou convidar?

    Penso na roupa que vou vestir, na playlist que vai tocar. Faço, mentalmente, a lista de convidados, mas antes mesmo de resolver se será churrasco ou festa anos 70, começo a pesquisar preço de viagem, roteiros. Quando me dou conta, novamente, escolhi viajar. 

    Os amigos reclamam, eu me cobro, prometo fazer diferente no próximo ano, mas acabo não resistindo à tentação de me jogar no mundo. 

    Quem vê de fora pode pensar que não gosto de estar com os amigos; eu adoro de paixão. Podem achar que na infância não tive festinhas. Enganam-se. Uma das lembranças dessa época é a minha vó cortando quilos de batata para fazer maionese e servir com arroz, pernil e farofa na grande celebração do meu nascimento. Lembro de amar a fase dos preparativos e me divertir muito com o evento.  

    Também não tenho problema para revelar idade nem sou daquelas pessoas que considera o aniversário um dia qualquer.  Para mim, é uma data especialíssima. Me alegra ser lembrada, receber o carinho das pessoas. Só não me animo o suficiente para tocar o projeto festa. Contudo, admiro os festeiros, invejo a facilidade que eles têm de juntar diferentes grupos num mesmo lugar e dar conta de tornar divertido e harmônico.

    Eu não desisti da ideia de fazer um churrasco com pagode, um lanche com karaokê, uma festa flashback, só não será dessa vez. 

    Prometo me programar, e, daqui a três anos, fazer uma grande comemoração para inaugurar os 60 anos. 

    Ainda nem escolhi o tema da festa e já me bateu a vontade de pesquisar sobre aurora boreal. 

    Não tenho culpa, vamos combinar, aquele céu verde neon é sedutor demais…

    De todo jeito, envelhecer é poder assumir, sem muita firula, a pessoa que nos tornamos. E, pelo visto, essa versão atual de mim não curte muito fazer festa. E tudo bem!

    Por sorte, envelhecer também traz uma habilidade para descartar a culpa. Talvez por isso chamem de melhor idade.

  • Ou nada, ou tudo

    Costumo rezar sozinha.

    Não por falta de fé coletiva, mas por necessidade de compreender o sentido da prece: se é pedido, agradecimento ou louvor.

    Nas igrejas e templos , percebo a oração como um ato comunitário.

    Já em casa, no silêncio, ela se transforma em diálogo íntimo, sem medo nem pressa.

    Essa percepção nasceu dos meus intervalos de “nada a fazer”.

    Paradoxalmente, nesses vazios sempre encontrei invenção e força.

    A vida me exigiu muito cedo: de menina curiosa a mulher adulta, mãe de quatro filhos, de cuidada a cuidadora. 

    Entre tarefas e cansaços, descobri nos pensamentos e nas preces uma forma de preservar a sanidade.

    Hoje, quando paro para divagar, também observo o mundo:

    as preocupações das pessoas, a política que interfere em suas vidas, as esperanças ou frustrações, diante do futuro.

    Nesse cenário, a prece ganha nova importância.

    Não apenas individual, mas coletiva: por filhos, pela chuva, pelos desamparados, pelos que sofrem. 

    É um gesto que acalma a mente e fortalece o espírito.

    Não me envergonho de reconhecer o valor dessas pausas.

    Ao contrário: me aplaudo.

    Trago comigo amor-próprio, antídoto contra julgamentos.

    Manoel de Barros dizia que alguns aprendem a carregar “água em peneira”.

    De certo modo, também aprendi.

    Nos instantes que pareciam não servir para nada, encontrei a diferença entre rezar em coro e rezar em silêncio.

    Hoje sei: no meu nada, a oração se fez tudo.

  • O segredo do nervo vago

    Dentro de nós e dos cães corre um fio invisível chamado nervo vago. Ele não aparece em exames, mas é peça central do sistema nervoso autônomo. Atua como maestro da calma: regula os batimentos cardíacos, conduz a respiração, organiza a digestão e até equaliza o tom da voz. O fisiologista Stephen Porges, criador da Teoria Polivagal, chama esse nervo de “ponte biológica da segurança”, pois traduz nossos estados emocionais em respostas corporais.

    Nos cães, esse nervo também está presente, mas sua ativação acontece de forma natural. Basta observá-los deitados de lado, barriga entregue pra cima, respirando devagar: nesse instante, o corpo inteiro se ajusta em harmonia. Para eles, o descanso não é estratégia; é vida. Eis a razão pela qual têm o dom de não se prender ao passado nem ao futuro. Já nós, humanos, tendemos a desafinar: corremos mais do que o coração suporta, comemos sem mastigar, falamos alto demais e tomamos decisões precipitadas. Assim, os instintos se confundem e a ansiedade toma espaço. Como lembrava Epicuro, “quem não sabe viver com simplicidade, não sabe viver com serenidade”.

    O aprendizado silencioso

    Quando passamos a mão no peito de um cão, percebemos algo que a ciência confirma: o toque lento e constante estimula o nervo vago, reduzindo a frequência cardíaca e induzindo calma. É nesse instante que surge a pergunta inevitável: afinal, quem ensina quem? Eles, que vivem o óbvio, ou nós, que inventamos protocolos para reencontrar o caminho da tranquilidade? O filósofo Viktor Frankl recordava que o ser humano precisa de um “sentido” para suportar a vida. Talvez o cão nos lembre justamente disso: respirar com atenção, mastigar devagar, confiar no vínculo e viver o presente.

    No fim, o nervo vago não é apenas uma linha que liga órgãos e funções: é o elo entre corpo, mente e laço afetivo. Em nós, exige disciplina e consciência. Nos cães, acontece como respiração: sem esforço, sem cálculo. E é justamente nessa diferença que se oculta a lição – aquela que nos distancia deles. Os cães vivem o que, muitas vezes, para nós sequer faz sentido.

    Cada respiração lenta, cada mastigada devagar, cada toque silencioso é um convite para retornar ao essencial. O cão não nos pede teorias; pede ação, plenitude, compreensão. E talvez seja essa a maior prova de sabedoria: enquanto nós buscamos protocolos para reencontrar a paz, eles a oferecem de graça, no simples gesto de existir tal como são.

    Assim, quando dono e cão respiram juntos, não é apenas o corpo que se acalma; é a vida que se afina, como dois acordes vibrando em uníssono, lembrando ao mundo que a serenidade não se explica, apenas se pratica.

    A seguir, uma sugestão prática para ativar diariamente o seu nervo vago.

    🐾 Ativando o nervo vago junto do seu cão

    1. Respiração conjunta:
    ■ Sente-se ao lado do seu cão, em silêncio. Busque um ambiente sossegado.
    ■ Coloque a mão suavemente sobre o peito dele, sentindo o ritmo da respiração.
    ■ Inspire fundo pelo nariz e solte o ar devagar. Ele tende a espelhar seu ritmo.
    ■ Repita por 3 a 5 minutos.

    2. Toque calmante:
    ■ Apoie a mão aberta no peito ou na base da orelha do cão.
    ■ Faça movimentos lentos e circulares, sem falar.
    ■ Permaneça assim por 5 minutos. Observe sinais de relaxamento: bocejo, respiração lenta, olhos semicerrados.

    3. Mastigação consciente:
    ■ Ofereça um petisco pequeno e crocante. A mastigação estimula a deglutição, ativando o nervo vago.
    ■ Observe o ritmo dele e acompanhe com calma, sem distrações ou pressa.

    4. Voz serena:
    ■ Fale com ele em tom baixo, compassado.
    ■ Pode ser uma canção suave, uma oração curta ou apenas sons suaves.
    ■ Controle as suas emoções.
    ■ Mantenha esse exercício por 2 a 3 minutos.

    5. Caminhada atenta:
    ■ Faça um passeio com seu cão e deixo-o explorar, sem agitá-lo.
    ■ Evite o celular e concentre-se apenas nos movimentos dele.
    ■ Observe como ele fareja, para, respira. Acompanhe o ritmo dele, sem pressa.

    ✨ Repita esse ritual uma vez por dia, de preferência em um momento de calma (pela manhã ou à noite). Aos poucos, você perceberá que não é apenas o cão que relaxa: você também se harmoniza.

    Referências: *Porges, S. (2011). The Polyvagal Theory: Neurophysiological Foundations of Emotions, Attachment, Communication, and Self-Regulation. **Epicuro. Carta a Meneceu. ***Frankl, V. (1946). Em busca de sentido.

  • Rua do Bispo

    Quando criança, costumava jogar futebol a 50m de casa, em um terreno baldio, no bairro do Paraíso. Ficava numa rua simpática e pouco movimentada que começava onde os bondes faziam um balão no início da Av. Paulista e terminava 5 quadras depois, próximo a um campo de futebol de várzea. Chamava-se Rua do Bispo. Não sei de onde surgiu esse pitoresco nome nem me importava saber, voltado que estava para questões mais importantes, como brincar e ser feliz.

    Moleques peraltas, não nos incomodávamos de jogar bola em campos improvisados sobre paralelepípedos desencontrados, nos tempos em que o leito irregular de uma rua era o bastante para que fosse transformada em arena futebolística. Os minguados automóveis passavam numa frequência risível para os padrões atuais, ao que conferíamos ao solitário usuário da via, reverenciosa deferência, interrompendo respeitosamente o jogo até o proprietário do veículo importado acabar de desfilar sua altivez motorizada.

    Todo o fim de semana reuníamo-nos ‘religiosamente’ na Rua do Bispo, para jogar uma nada pecaminosa ‘pelada’. Simpática rua. Lembra-me traquinices e bem aventuradas diabruras.

    Vivíamos no Paraíso, até revogarem a Rua do Bispo. Fosse ‘Rua Bispo Fulano de Tal’ ninguém mexeria no santo nome. Não era o caso daquele simplório epíteto, adquirido possivelmente em função de, em tempos imemoriais, ali haver residido um homem de Deus, quem sabe um indulgente benfeitor. Esse detalhe histórico foi naturalmente atropelado. Não fosse assim, o incógnito clérigo não teria sido importunado.

    O fato é que, à revelia da santa madre igreja, a rua do bispo (com minúscula mesmo já que o santo não era forte) passou a ostentar o pomposo nome de Rua Desembargador Eliseu Guilherme.

    As placas afixadas nos muros das casas, que outrora exibiam aquele prosaico letreiro de 5 caracteres, passaram a estampar a nova denominação, onde dezenas de letras se atracavam para não ficar de fora daquele nome que ninguém conseguia decorar. Os encontros futebolísticos, agendados para a rua do bispo, passaram a ser marcados ‘para a esquina’.

    Sendo, por natureza, um perseverante crédulo na boa índole da raça humana, faço força para acreditar que houvera sido o desembargador um homem honrado, de caráter ilibado, que desembargava com incansável precisão e justiça salomônica as demandas que tinha a incumbência de, por dever de ofício, apreciar.

    Pode parecer que esteja empenhado nesta insana cruzada para recuperar o título sagrado do pontífice anônimo, cometendo irreparável injustiça com o Dr. Guilherme. É possível que fosse alguém de bem, alheio às injunções espúrias que se fizeram em seu emplacado nome. A verdade é que lhe criei certa antipatia, talvez improcedente, pelo fato de ter usurpado o nome original daquela rua tão marcante de minha infância. O homem… nageado que, há décadas deixou o reino dos viventes, deve estar se remoendo no caixão por ser tratado de maneira tão vil e descortês por esse escriba fariseu mal informado. Preferiria talvez ter o desembargador esse assunto desembargado de polêmica.  O fato é que o seu nome ficou fincado na Rua do Bispo, como eu, insubordinadamente, continuo-a a chamar, indiferente aos olhares perplexos dos atuais moradores, desinformados das peculiaridades históricas daquele logradouro.

    O tempo passou, o leviatã urbano irrompeu, rendeu os paralelepípedos irregulares, os bondes, os campos de várzea e os prelados anônimos, o Paraíso virou inferno.

    Mas continuo a lembrar-me da Rua do Bispo com saudade…

  • Doce Maria

    Nada vem por acaso. Acredito no destino, fé e sorte. O que tem de ser será. Marcelo saiu com a mãe para passear. Foram ao restaurante do avô, para visitá-lo e brincar com os primos e amiguinhos que moram nas redondezas, no bairro Antônio Bezerra. Lá, entre brincadeiras, meu filho viu uma gatinha abandonada, que ronronava com ardor, pedindo carinho. Marcelo pegou a pequena e não queria mais soltar. Levou-a à mãe, para mostrar a novidade. A mãe de cara se apaixonou. Todos viam que a gatinha era meiga, carinhosa e precisava de um lar. Mayara logo me mandou mensagens pedindo para trazer a gatinha para a nossa casa. “Mas, Mayara, já temos dois adultos. Não dá certo. Não insista”. Marcelo mandou áudios, dizendo que queria muito e que seria seu presente de aniversário – falta um mês para o grande dia dos seus cinco aninhos. Pegou o pai de jeito. Encarreguei-me de falar com a avó. Também não queria. Mas aí eu já considerava o caso e servia de advogado do meu filho. Amo bichos, nossa casa poderia receber mais um bichano, sim. Expliquei à minha mãe, que mora conosco, e que também deveria aceitar ou não, que a pequena gatinha seria vacinada e banhada no dia seguinte. Minha mãe permaneceu reticente, impondo condições. A gata não poderia ficar circulando em casa, até aprender onde devia fazer cocô e xixi. A gata não poderia sair do perímetro do banheiro. A gata não poderia, ainda, se aliar aos outros gatos. “Meu filho, os gatos já estão estragando o sofá. Mais um gato será o fim”. E indicou mais algumas restrições, com as quais concordamos. Pronto, a matriarca aceitou. Ficamos animados, eu, o meu filho e a Mayara. A gatinha chegou em casa cansada, mas, desbravadora, queria conhecer a sua nova morada. Logo ele me disse que tinha colocado o nome de Dulce Maria, por influência de uma pessoa que estava lá e era fã do RBD. Eu acabei gostando do nome, porque representa Doce Maria. Constatei que realmente ela era muito carinhosa, doce, uma menina que viria para somar. Marcelo, enfim, com o seu amor, nos convenceu de que deveríamos ter mais um membro na família. No sábado de manhã cedo levamos à veterinária, fizemos exames e demos vacinas. Resultou tudo certo. A gatinha era saudável, mas estava magrinha por conta da vida mundana. A médica avisou que ela poderia ficar molinha esse dia. Passou suplementação alimentar, para ganhar logo peso. Disse que ela teria de três a quatro meses e que o peso de um quilo e seiscentos gramas estava muito abaixo da média. Foi um dia puxado para a gatinha, então passou o resto da tarde dormindo – mas feliz e esperta em alguns episódios. E, hoje, um dia depois, nos admiramos e nos encantamos com a bela surpresa que a vida nos proporcionou.

  • O que a última Virada Cultural diz sobre nós

    Fui ver uns shows na Virada Cultural de BH, onde moro, no sábado e no domingo, dias 23 e 24. No sábado, assisti ao show das meninas do Fat Family, homenageando Tim Maia. No domingo, voltei para ver o Olodum e, logo em seguida, Carlinhos Brown, numa apresentação afinadíssima com a Orquestra de Ouro Preto. Os shows foram uma delícia: todos fazendo a gente sacudir o esqueleto, tirar o pé do chão, dançar. Desta vez, não quis virar a noite. Fui para casa dormir e voltei no domingo. Notei que BH mudou muito, eu mudei também — e o mundo, mais ainda.

    Se em outras viradas eu ficava até seis horas da manhã e acabava comendo uma broa de fubá com um pingado na lanchonete, desta vez voltei cedo e dormi o sono dos justos. No caminho de casa, fiquei pensando no que esta Virada Cultural de 2025 diz sobre a gente.

    A primeira coisa que me veio foi uma saudade de quando a gente ainda se comia com os olhos. Olhei ao meu redor e percebi: ninguém mais se comia com os olhos, ninguém se paquerava, ninguém chamava para dançar, pedia telefone, beijo na boca, sarro. O Brown tocava “Já sei namorar”“Amor I love You”. O Olodum embalava com “Avisa lᔓOlodum pra balançar”. O Fat Family fazia a festa com “Um dia de domingo”, “Azul do mar”. Tudo para uma plateia que não sentia tesão, não queria amar, não se olhava, não flertava. Ali, as canções de amor não faziam sentido: pareciam cantadas em grego. De vez em quando, no meio de uma música suave, um grupo de dois ou três berrava desafinado: “Sem anistia! Sem anistia!”

    Por um momento, no show de sábado, enquanto as meninas cantavam, lembrei de um show do Tom Zé que vi há alguns anos, na Guaicurus. Depois da apresentação, ofereci uma cerveja a um homem que estava com dois rapazes. Acabamos nós três bebendo Brahma, ouvindo blues e conversando na Rua Carijós. Hoje, cada papo que a gente puxa é monossilábico. O outro responde olhando para o chão, para o celular, já perdendo a paciência.

    Percebi que a política está fritando os nossos miolos. Sofremos tanto com a pandemia, com os desgovernos de Bolsonaro a Temer, penamos de um jeito que já não conseguimos mais dançar uma música tranquilos, namorar ou fazer um amigo novo.

    A multidão grita “Sem anistia”, mas logo depois joga no chão o papel do cachorro-quente, o pratinho do tropeiro, a lata de Xeque-Mate e o copo de água mineral, emporcalhando a cidade e transformando as ruas num lixão a céu aberto.

    Comemoro, como todo mundo, os avanços: a literatura feminina bombando, uma multidão lutando contra o machismo, o racismo estrutural, o fim do bolsonarismo. Mas vejo, infelizmente, que tiramos os olhos do amor. Estamos adoecendo.

    Belo Horizonte virou uma cidade triste, cheia de gente séria demais, deprimida, revoltada e irritadiça. Por isso, não deu vontade de virar a noite — não colou. Deu saudade de outra BH, de outros tempos, quando a gente sabia rir.

    O que me confortou foi, sem dúvida, a música de Carlinhos Brown, Fat Family e Olodum. Enquanto chacoalhava o esqueleto, torcia para ter minha cidade de volta, para ver o sorriso de novo no rosto das pessoas.

  • Poema #08: Contrato

    A palavra dada tem valor
    insuscetível de medir.
    Pode-se apenas estimar o peso
    na palma da mão estendida.

    O corpo intui o preço
    que o verbo não soube exprimir.
    Em troca, a renúncia ao troco
    abrevia o lapso do som ao silêncio.

    No mercado das promessas,
    a confiança é soberana.
    Mas às vezes, submissa,
    flerta com o charme do blefe.

  • Pi-ta-da

    Pitada – palavrinha gostosa de pronunciar e quase sempre de provar. No gosto, desgosto, e até no desacerto. Tudo começou, pelo que sei, com a pitada de rapé (râper, do francês), tabaco em pó usado para cheirar e, segundo uma citação encontrada na obra clássica de João Manuel de Macedo — A Moreninha, avivar o cérebro.

    Do rapé para o uso na culinária foi uma pitada. Seu uso mais comum passou a ser uma medida do sal, recomendada nas receitas, para o desespero de quem não tem prática na cozinha. Aí a pessoa recorre àquele que é o melhor amigo dos desinformados, e lê a definição: “o que se pode segurar entre as pontas de dois dedos”. Dois dedos grandes, de um homem ou de uma mulher de dedos delgados? Dedos apertados um ao outro ou com espaço entre eles? E aí a pobre iniciante é reprovada na mesa.

    Tentar dimensionar corretamente a pitada é quase pior do que descobrir quando um bolo ou um suflê está no “ponto”, outro conceito culinário totalmente abstrato e que depende da perícia do cozinheiro.

    Voltando à pitada, alguns manuais vieram em socorro dos incapazes mestres-cucas, tentando dar uma medida menos especulativa para esse termo. Surgiu, então, um padrão que, a princípio, resolveria o problema: uma pitada equivale a 1/8 de uma colher de chá. Aliviados, os principiantes na cozinha lá se foram tentar dividir o conteúdo de uma colher de chá em oito partes – missão impossível, com potencial de levar alguns ao autoflagelo usando a própria colher, no caso de não haver uma faca por perto.

    Foi assim, creio eu, que começou um movimento de aproveitamento desse termo tão gracioso para outros fins mais poéticos, menos estressantes. A pitada passou a povoar os textos em prosa e verso, em diferentes porções: uma pitada de sorte, de poesia, de magia e, por que não, uma pitada de liberdade.

    Redimida, a pitada ganhou outro status e a licença de não se atear a nenhuma medida. Pitada é o que cabe na imaginação de cada um, é “a gosto” de quem se apropria dessa dimensão subjetiva para fazer valer a sua vontade, seu desejo, suas esperanças – inclusive de que aquele prato especial do domingo fique saboroso.

  • Malta

    Malta é um arquipélago no Mediterrâneo habitado desde cerca de 5200 AC e que foi invadido pelos mais variados povos. Os últimos a passarem por lá foram os britânicos cuja influência vai desde a língua inglesa, que divide espaço com o maltês, até a mão de trânsito pela esquerda. Tornou-se um país independente em 1964 e agora faz parte da União Europeia.

    As principais ilhas são Malta e Gozo, a primeira muito mais turística do que a segunda, mas ambas com sítios arqueológicos importantes. Quem se interessar pelo tema não deve perder as ruínas do templo de Hagar Quim datadas entre 3200-2500 AC. As construções desde os templos pré-históricos até hoje usam predominantemente a pedra calcária, a única encontrada na região. O pequeno e bem estruturado museu, The Limestone Heritage, ilustra a extração e o uso dessa pedra.

    Os malteses afirmam que por sua posição estratégica Malta foi o local mais bombardeado da segunda guerra mundial: localizada perto da Sicília e do norte da África era uma base valiosa para os britânicos e seus aliados. A reconstrução respeitou a arquitetura original e agregou elementos modernos de forma elegante. Pequenos balcões fechados e coloridos enfeitam as fachadas das casas dando às ruas um ar bastante peculiar. Valeta, a capital, é vibrante e muito bonita. Próximas ficam Vittoriosa, Cospícua e Senglea, conhecidas como as três cidades, igualmente interessantes. A costa é toda recortada e compõe cenários marítimos deslumbrantes. Há muitas marinas e passeios de barco disponíveis, uns que mostram vistas da cidade e outros que levam a grutas de águas azuis. No interior também é imperdível visitar Mdina, linda cidade com muralhas e palácios do século XV, Rabat onde existem catacumbas e Mosta com sua Rotunda que tem o terceiro maior vão livre do mundo. A história de Malta é fascinante.

    Em Valeta fica a sede dos Cavaleiros da Ordem de Malta, ou Cavaleiros de São João Batista, uma ordem religiosa fundada no Século XI como ordem hospitalar para acolher os feridos das cruzadas e que mais tarde se transformou em ordem militar; atualmente é uma organização humanitária. Restou uma grande Enfermaria que hoje é usada para fins culturais e vale a pena conhecer. Visita obrigatória é a Co-Catedral de São João Batista, em homenagem ao patrono da ordem, onde há obras de Caravaggio, um pintor excepcional e um encrenqueiro idem que se refugiou em Malta para escapar dos inimigos. Associada à ordem está também a famosa Cruz de Malta de oito pontas.

    Como destino turístico Malta, com menos de quinhentos mil habitantes, foi uma grata surpresa. Ponham na lista.

  • O crítico perfeito

    Não havia estática no ambiente coabitado por seis espaços, sexta-feira inaugural de um coquetel em meio a formas geométricas suspensas; horas que se observavam tentando segurar a respiração e manter o mesmo compasso entre os minutos.

    Perder-se não é uma brecha no tempo, pelo contrário.

    São chaves que não abrem porta alguma, mas pendulam na possibilidade. Está introduzido o conceito curatorial de luz, memória e tempo.

    São todos os fusos horários em um coro uníssono que nos convida a passar o tempo com quem mais importa: nós mesmos.

    São palavras-abismo, tic-tac fragilizado pelas letras que os retiram das horas e os tornam instalação de arte.

    Na última sala, são as sombras do público — tal corpo heterogêneo e encantado de convidados, artistas e meros transeuntes — transformadas em projeções de luz que revela a história da cidade. É o fazer arte, o abrir dos múltiplos sentidos que fazem algo conceitual existir. Corpos parados, movimento. A estática não existia, e existia: tudo é repouso, sob tensão.

    Enquanto as duas salas centrais introduziam ao mundo, por primeira vez, a versão corpórea do ser que vos fala aos domingos — eu —, em seu corpo dúbio de ser artista e um cpf trivial, abriam-se também, nas telas-smart da fachada principal, janelas outrora fechadas. Elas vazavam a exposição para o presente: o tempo movimental da cidade.

    Câmeras escondidas, como parte da própria resistência artística, desafiavam os limites do espaço físico do centro cultural, deixando escorrer, discretamente, imagens para fora da arquitetura. Palavras em suspensão reagiam aos recortes de acrílicos que desafiavam as leis da gravidade, transfigurando-se em inéditos poemas, de visualização, por vezes, única. As perspectivas beiravam uma infinutude de hipóteses.

    De todas as hipóteses, havia um ser peculiar naquele entardecer. E não se trata dos alguns de quatro patas que zanzaram com seus tutores e não assinaram o livro de presença, mas vieram. Zeca, o meu Zeca, foi um deles. Mas esse, não. Não caminhava ereto como os outros, tampouco observava com a pressa dos sabidos. Preferia o chão. A frieza do piso de pedra, a polidez que refletia o que estava em cima, embaixo. Ali, deitado, encarava o mundo com a solenidade de quem conhece o segredo das coisas que balançam. Em suas mãos, um saco industrializado, aberto e barulhento. O mastigar como forma de não perder o presente.

    Algumas pessoas passavam e notavam. Outras, focadas em suas reflexões artísticas, nada viam além das obras. Havia aqueles que apenas se preocupavam com o enquadramento da selfies perfeita e tropeçavam na existência miúda sem perceber que ali — ao rés do piso encerado — havia filosofia em estado bruto.

    As placas, suspensas por fios de nylon invisíveis, dançavam como se tocadas por uma orquestra de suspiros. Um sopro aqui, um braço ali, e pronto: uma dança ao sabor do inesperado. Eram acrílicos coloridos, mas, vistos de lado, tornavam-se lâminas de tempo, quase perigosas em sua beleza oblíqua.

    Ele — ou seria ela? — permanecia absorto, talvez tentando compreender por que o que aprendera como vermelho parecia tão roxo por baixo, ou por que o verde fazia sombra de ouro. Sons guturais saiam de sua garganta. Palavras disformes como a produção de sentido. Eis que soltou uma risada.

    Não daquelas educadas, mas uma gargalhadinha breve e torta, como quem foi pego de surpresa por uma pequena embriaguez. Silêncio em toda a exposição luminosa.

    Era água com gás.
    Bebida dos deuses, claro — mas só para aqueles que ainda não sabem que deuses existem.

    Em literatura pode-se descrever assim: um espírito antigo num corpo novo. Ou ainda: uma criança-pedra, meio estátua meio relâmpago, comendo batatas como quem consagra o instante; fantasma da manhã seguinte, vinda para lembrar que tudo o que é belo balança — e passa.

    Eu, Bia Mies, apenas observava. No entre, espacial, temporal, emocional e luminoso da minha primeira inauguração artística. Só fui entender tudo quando ouvi minha outrora assistente dizer, com um suspiro de vencida:

    — Athena… Athena. Vamos. Está na hora de dormir.

    Eis o mistério desfeito: o ser filosófico, bêbado de água com gás, era apenas uma criança de quase dois anos, que comera torradinhas demais e decidira deitar-se no chão da exposição para apreciar o tempo à sua maneira. O crítico perfeito.

  • Uma crônica para o Luis

    Eu não sei exatamente com quantos anos li pela primeira vez um texto de Luis Fernando Veríssimo. O que sei é que era ainda bem jovem. Um estudante de muitos e muitos anos atrás…

    Sei também que quando li, não parava de rir e de achar que o texto era simplesmente incrível! Leve, divertido e com uma linguagem muito acessível.

    Pra variar, o texto em questão, era uma crônica!

    E, desde então, estava com algum texto do Veríssimo pronto pra ler.

    Construí meu hábito de leitura com os quadrinhos e com as boas crônicas dos grandes cronistas de outrora, entre eles, Luis Fernando Veríssimo!

    Os grandes autores e os grandes livros são aqueles que nos tiram do sério, nos chacoalham ou então nos fazem rir! Rir do banal, do sobrenatural, da vida, do acaso, da morte, do improvável…

    E rir era o que sabia fazer com excelência!

    Ah! Luis! Você nos deixou e estamos tristes, mas nos seus textos você permanecerá vivo! Suas tiradas cômicas, sua ironia e capacidade para transformar o simples e o cotidiano em textos maravilhosos marcaram gerações!

    Em A metamorfose, trouxe Kafka para a crônica! O nome da barata não podia ser melhor: Vandirene! Em O homem trocado, os infortúnios de um homem terrivelmente azarado vira um texto inacreditável!

    No texto A foto, as questões familiares tão complexas e tensas se apresentam com a ironia e bom humor tão peculiares das crônicas desse genial escritor gaúcho.

    Eu poderia listar uma infinidade de textos hilários, mas termino esta crônica com um texto que reli alguns meses atrás para a minha irmã, Exigências da vida moderna.

    Nesse texto, a busca pela saúde e pela disciplina viram motivo para boas gargalhadas!

    E a leitura foi feita assim, entre muitas gargalhadas. Sei que o texto só terminou depois de pararmos diversas vezes, quase sem fôlego e com lágrimas…

    Luis, fica esta crônica como um abraço. Uma forma de agradecer por todas as boas histórias que contou e encantou a todos nós!

    Que a morte seja a última coisa a nos encontrar em vida!

  • Estou pobre de heroínas…

    Neste site, onde publicamos crônicas, poemas, contos e reflexões, existe uma aba chamada Autores. Lá está a nossa descrição: quem somos, o que nos qualifica como escritores, nossa formação. Enfim, um retrato resumido de cada um.

    Tenho filhos, netos, família e amigos. Estudo. Publiquei livros de contos e crônicas, além da minha autobiografia. Tenho três graduações, fiz pós-graduação e posso afirmar: estudar foi e, ainda é parte importante de quem sou.

    No entanto, minhas referências como autora em “nosso site” são as pautas que me inquietavam quando decidi me dedicar exclusivamente à escrita: envelhecer e parar de trabalhar.

    Dois dilemas que me ocupavam a mente, provocavam reflexões e despertavam temores.

    Águas passadas…

    Aposentei-me entre os cinquenta e oito e os sessenta e seis anos.

    Nesse intervalo, flertei com a leveza de não ter horários, com a liberdade de escapar da rigidez hierárquica, da dureza das opiniões e de tudo aquilo em que me transformara como funcionária pública.

    Passei a ser uma estagiária sênior.

    Gostei! E, quando cansei, deixei de vez a vida pública e me tornei aposentada.

    Quanto ao envelhecer, só me dei conta quando troquei o batom vermelho pelo “cor de boca”; quando substituí os saltos pelos tênis, seja por conforto, seja por questões físicas.

    Aos sessenta e nove anos, saudei a minha velhice com um poema. Fiz isso com galhardia, consciência e verdade.

    Resolvidos, portanto, os dilemas da idade e do tempo ocioso, restava-me outra inquietação: quem seriam, agora, as minhas heroínas?

    As heroínas!

    Aquelas que, das páginas dos romances, nos forjaram, inspiraram, despertaram inveja ou compaixão.

    Mulheres que nos fizeram pensar não só em nós mesmas, mas no mundo, nas relações, em nossos direitos…

    Ou aquelas de quem apenas copiamos modelos de roupas ou frases de efeito.

    As mocinhas destemidas, submissas ou valentes, lindas e amadas.

    E também as que sofriam, ou faziam sofrer, a quem condenávamos ou aplaudíamos.

    Também conhecemos personagens que, mesmo em sua feiúra ou pequenez, nos fascinaram a ponto de não conseguirmos abandonar a leitura antes do fim.

    Mulheres descritas de forma nua e crua, com falhas humanas, como aquela que, ao perder a beleza e os prazeres da carne, passou a comer sem parar até se tornar obesa em Shangri-la, o Horizonte Perdido?

    Ou a governanta cruel de Primo Basílio?

    O que dizer de Madame Bovary, no misto de idealização romântica, insatisfação crônica e busca por relações insustentáveis?

    Tudo mesmo já foi dito, escrito, lido?

    Não haverá mais heroínas que possam me inspirar?

    Ou será que elas continuam escondidas nas entrelinhas, aguardando que eu as descubra, como quem abre uma janela e deixa entrar um sopro de vento novo?

    Quero ainda me surpreender, enternecer, admirar…

    No meio da multidão, no silêncio dos asilos, nos cabelos brancos exaltados pelo modismo, eu busco, eu quero, eu preciso.

    Onde estão minhas heroínas?

  • A eternidade possível

    Morreu o meu primeiro beijo. Junto com ele foi enterrada uma fração da minha eternidade. Memórias dos medos compartilhados, dos sonhos impregnados na pele, do riso frouxo de nossa meninice. 

    Foram sepultadas as emoções que eu causei, as palavras e gestos que de mim fugiram para morar em sua recordação. 

    Diante da notícia crua, áspera, concretada na impossibilidade de um adeus, surge como um rito acessível, a crônica, corpo real da palavra sobrevivente do fim.

    É através dela que ofereço ao querido Alexandre Guimarães, menino sensível, doce e leal, um pedacinho de eternidade nesse mundo. 

    Para isso, registo aqui o pequeno poema que ele me escreveu no pulsar da nossa cumplicidade adolescente:

    “Você é o índice das coisas maravilhosas O resumo de tudo que é divino.”

    Embora tenhamos nos perdido nas vielas do destino, jamais esqueci as palavras desenhadas num pedacinho de papel amassado pelo tremor das mãos. 

    Desconheço se ele foi feliz, se aprendeu a lidar com o medo de ser quem era, se encontrou o amor que merecia viver ou o que pensou na hora de partir… tudo isso está soterrado sob o Nunca Mais.

    Vívida em mim, resta a lembrança do quanto nos apoiávamos para enfrentar a perseguição dos populares da escola (ainda não existia o conceito de bullying).

    Nosso primeiro encontro se deu diante da ameaça de uma surra dos mais velhos na saída da escola. Eu, menor que você, segurei seu braço e afirmei: vem comigo! Ninguém vai te bater. 

    Você, com seu sorriso de crença, ergueu a cabeça e aprumou-se como se recebesse um salvo-conduto. Sua fé foi tanta que me acreditei forte.

    Escapamos dos maus e nos inventamos num beijo inaugural para ambos. Feito muito mais de alívio do que de paixão. 

    Nos tornamos amigos porque precisávamos mais de colo do que de romance. 

    Agora, diante do luto, só me cabe celebrar a sorte do nosso encontro no tempo que nos precisávamos. 

    No final, o que se eterniza de qualquer um de nós é o que a palavra pode contar. 

  • Pontuar

    Em uma de suas crônicas, Luis Fernando Veríssimo afirma que nunca usou o ponto e vírgula. A observação do escritor gaúcho, que é antes uma blague contra os gramáticos e puristas, sugere-nos algumas reflexões sobre a arte de pontuar. Ela tem a ver com um dos atributos fundamentais da poesia ou da prosa, que é o ritmo. Literatura é linguagem ritmada, e para se imprimir ao texto o seu ritmo é fundamental o uso desses sinais, que, se a alguns aborrece e inibe, a outros empolga e mesmo encanta.

    O ritmo é uma espécie de virtude metafísica da literatura. Um erro de grafia tem conserto, basta que se consulte um formulário ortográfico. Uma falha na concordância, na regência ou na colocação pode ser sanada com uma consulta gramatical. A falta de ritmo, traduzida entre outros indícios pelo mau emprego dos sinais de pontuação, sugere que o sujeito não dá mesmo para o ofício. É um míope verbal e certamente usará de modo inadequado as palavras. Pois não há semântica adequada sem um adequado suporte rítmico. A palavra errada é sobretudo a palavra fora de tempo.

    Pontua-se como se respira, respira-se como se pontua. E quase sempre ocorrem os exageros. Há os que decompõem o enunciado, abusando do chamado fragmento de frase. E picotam o período. Às vezes sem necessidade. Apenas pelo gosto de fracionar. De separar. De isolar os componentes da oração. Sujeitos. Predicados. Complementos.

    Há, pelo contrário, os que constroem períodos densos, longos, torrenciais, desses que tendem a abusar da paciência do leitor, coitado, que parece estar atravessando um rio interminável e caudaloso, e fica na expectativa de que aquilo termine, pois, com o tempo, ele até já esqueceu o que foi dito no início da frase e tudo o que deseja, a partir de certo momento, é que o escritor se compadeça da sua paciência e mesmo do seu fôlego, que dentro em pouco lhe faltará como já lhe falta a boa vontade para prosseguir na leitura, e ponha enfim nessa teia aparentemente infindável um ponto final. Ufa!

    Há os que se exaltam à toa e abusam do ponto de exclamação. Sempre! Até sem motivo! Como se vivessem numa perpétua euforia! Ou num perpétuo susto! Há os que abusam das reticências. Esses não dizem logo tudo, fazem …suspense. Preferem deixar sempre alguma coisa no vento, no ar… Imaginam que nesse deliberado laconismo é que mora a sutileza… O gosto de sugerir, explorar as entrelinhas, sabe como é… Pois o texto fala mais, quando… Eu sei que vocês me entendem… 

    Há os que (e esses geralmente são perfeccionistas) gostam de intercalar vários parênteses em seus períodos. Como se fosse necessário (às vezes é, mas eles exageram essa preocupação) fazer contínuas ressalvas às próprias ideias (mesmo as que já se tornaram claras para o leitor). Eles têm receio de que seu discurso (que eles supõem, geralmente, traduzir uma mensagem valiosa e útil) não seja suficientemente vigoroso (e sobretudo claro, inteligível).

    Há os que não resistem ao excessivo emprego dos: dois pontos. Esses parecem estar sempre preparando: uma surpresa, um desenlace inesperado para o leitor. Que acaba deixando de se surpreender, pois os dois pontos terminam previsíveis, constituindo uma espécie de alerta falso. E já deixam o leitor: de orelha em pé.

    Há, enfim, os obreiros da vírgula, que, numa espécie de afã asmático, virgulam, com disciplina espartana, sempre que a norma determina. A esses, pouco importa que o sentido se torne claro, no próprio fluir da corrente verbal. Se a regra manda, mesmo, contra o ritmo natural da fala, eles, prestos e soldados, vão largando, a intervalos breves, curtíssimos, as suas vírgulas, que, para o leitor, equivalem a pedregulhos, ou valas, ou, enfim, a obstáculos, que dificultam o, já difícil, ato de ler.

    E tu, leitor, qual o teu ritmo? Como é que, lendo ou escrevendo, tu respiras?

  • Duas dedicatórias, duas supostas histórias

    Toda obra literária contém mais do que aquilo que o autor quis entregar nas linhas por ele redigidas. Mas os livros enquanto objetos (embora de caráter quase metafísico) também nos contam mais do que o que há impresso nas suas páginas. O processo de editoração, a capa, os paratextos, tudo isso diz algo. E há a própria história do exemplar que temos, assim como as que ocorreram em torno dele, ambas deixando os seus vestígios.

    Nesse aspecto, os antigos são infinitamente mais ricos que os virgens recém saídos da gráfica. Os sebos são verdadeiras minas. Ao longo das explorações pelas galerias de estantes e seções, damo-nos com volumes e experiências idas e vividas. Algumas destas deixaram suas marcas apenas nas pessoas, esvaindo-se com elas; outras, entretanto, fincaram-se no papel, clamando para serem exumadas.

    Esse protesto do passado contra o esquecimento se mostra de maneira especial nas dedicatórias. Sob suas diversas formas, carinhosas, de admiração ou apenas protocolares perante um pedido; essas inscrições dizem e guardam muito. A partir delas, se nos dermos o direito de imaginar, podemos recontar muitos casos e até os criar.

    Diante das várias com que já me deparei, duas despertaram minha curiosidade e fabulação. Apesar de ter sido comprado no sebo da cidade e haver pertencido a um paraibano, o oferecimento com que me deparei em O norte agrário e o império indica Recife como local do possível encontro. “A Odilon Ribeiro Coutinho, homenagem muito cordial de Evaldo Cabral de Mello. Recife, 1985”, escreveu o autor, deixando claro o erro dos editores ao gravarem o seu sobrenome na capa com apenas um “l”.

    Diplomata de carreira, Evaldo servia em Lima, quando, um ano após o lançamento daquele estudo, esteve em Recife, sua terra natal. Odilon também tinha suas ligações com a capital pernambucana, tendo se formado em direito pela UFPE e, posteriormente, vendo-se vinculado à Fundação Joaquim Nabuco. Embora nem tudo entre eles fosse semelhança, o interesse intelectual pelo que hoje compreendemos como Nordeste os unia, principalmente, o pelo Nordeste de verdes canaviais.

    Este se localizava nos seus trabalhos e nas suas origens familiares. Como também estava em Gilberto Freyre, primo de Evaldo e amigo de Odilon, que pode ter estado no centro dessa reunião, em alguma ocasião que desconheço, mas sobre a qual a fertilidade de minha mente não se nega a fantasiar.

    Não obstante aquele ainda fosse seu segundo livro, o autor de Olinda restaurada já aparecia como uma figura da maior importância para a historiografia brasileira. Certamente, poder dialogar com ele gerou entusiasmo no Ribeiro Coutinho. Produto da sua conhecida rabugice ou simplesmente falta de entusiasmo do recifense pelo seu interlocutor, convém ressaltar a secura do que foi grafado, que deve ter jogado alguma frustração no usineiro, caso este pretendesse uma maior aproximação.

    Maior afeto e cumplicidade parece ter permeado a relação entre dois poetas. “A Astier Basílio, poeta. Esta lembrança do seu novo amigo”, foi o que encontrei em um exemplar de Curral de peixe, de Lêdo Ivo, que assina a dedicatória, seguida da designação do ano, 2003.

    De um lado, Astier jovem; do outro, o já consagrado autor de Ninho de cobras. Sem data tópica, meus devaneios alcançam maior liberdade. Ainda iniciando a carreira literária, o pernambucano de Campina Grande teria entrado em contato e enviado um livro seu a Lêdo Ivo. Cortesmente, o alagoano remeteu outro, não o seu último, mas o publicado oito anos atrás.

    Devido ao reconhecimento e ao início de uma interação, Lêdo deve ter estado contente. Maior alegria teria experimentado o jovem literato, podendo encaminhar um material seu para o poeta que admira e recebendo resposta dele sobre o texto, algo que muito anima quem está a publicar os primeiros trabalhos.

    Talvez tenham existido outras trocas posteriores, através dessas amizades que muito enriquecem os escritores, tanto os que estão começando na literatura, como os que já estão terminando a vida. Odilon Ribeiro Coutinho morreu há 21 anos, dos diversos itinerários que seus bens devem ter tido, o dito exemplar acabou no sebo. Não sei o motivo pelo qual Curral de peixe caiu no mesmo lugar. Poderia procurar o destinatário daquela dedicatória para perguntar e, quem sabe, iniciar um diálogo. Talvez, faça isso um dia.

    Agora, porém, não desejo certezas, murchariam a imaginação. Nesse momento, quero apenas ficar em minhas fabulações, viajando pelas histórias que os livros contam e pelas que eu crio.

  • Conversas aos pedaços

    Nada mais moderno e urbano do que escutar parte de uma conversa. Na rua, no elevador, em uma loja, no metrô, no cinema, enfim em qualquer lugar onde seres humanos circulem falando. Você passa e capta um pedaço da frase.

    Algo como “leva o cachorro para passear antes” e não conseguia escutar mais nada. Tinha que imaginar o restante do que seria dito. Na maior parte dos casos não valia à pena o exercício mental porque era sempre algum papo trivial demais. Ao menos para você, o ouvinte, porque para quem falava devia ser algo essencial. Ou não, vai saber.

    Antes para por em prática a arte de pescar conversas aos pedaços você precisava de ao menos dois indivíduos de nossa espécie. Um falava com o outro e a gente, de passagem, tropeçava nas partes das frases. Agora ficou fácil. Basta uma única criatura munida de seu telefone celular para fazer a festa dos caçadores de pedaços de conversa.

    E a coisa se ampliou bastante nos últimos tempos. A popularização do uso dos fones de ouvido, conectados aos telefones celulares, criou um festival de gente andando e falando pelas ruas que chega a ser assustador. Circulam no maior desembaraço tagarelando em alto e bom som. É uma falta de cuidado com o que falam misturado com uma necessidade de se mostrarem ocupados que nem sei onde vão parar.

    Quando os ladrões passarem a roubar fones de ouvido essa gente vai se inibir. Já o conteúdo das conversas mudou pouco. Pode fazer o teste. A maior parte da tagarelice continua sendo bobagem.

    Minha última experiência como pescador de conversa alheia, no entanto, me surpreendeu.

    Estava caminhando no parque da Aclimação, em São Paulo. Domingo de sol que me chamou para dar umas voltas e queimar calorias. Estava na terceira volta pelo lago, não, mentira, era o fim da segunda volta. De todo modo, ia animado quando passei por uma mulher que, no exato momento em que eu a ultrapassei, disse a seguinte frase: não se arruma alguém para matar esse cara.

    Parei na hora. Me virei espantado encarando-a. Ela percebeu, deu um sorrisinho e disse que não era comigo. Olhei em volta e não vi mais ninguém espantado com a frase. Será que ela tinha o hábito de acertar essas, digamos, pendências, dando voltas no lago e falando em alto e bom som?

    A mulher, ainda parada perto de mim, insistiu que não era nada demais. Concordei, deu um sorrisinho débil, me virei e fui embora.

    Por via das dúvidas acelerei o passo e fiz o caminho em zigue-zague para dificultar a mira do atirador. Vai quê…

  • Febre de sentir!

    Algumas pessoas têm habilidade em se doar, sentir que em sua condição humana há mais espaço para atender aos interesses dos outros ao invés de suas próprias dores cotidianas.

    São indivíduos que emocionam em manter uma relação mais frequente com o outro trocando ideias, pensamentos, conversas, sem pedras nos bolsos, que são raras e caras para muitos.

    Já, as pessoas pesadas, pessimistas e invejosas, tornam as relações diárias um prato azedo e temperado com sintomas doentios, sem regras saudáveis e com grande efeito dolorido após um encontro, que mais parece um embate competitivo.

    Os invejosos, que são os que tem satisfação com o fracasso alheio, guardam em si o prazer secreto em oferecer um alívio para sua responsabilidade em buscar o melhor de si. 

    Mas que, na verdade, seus medos, os mantém distantes de qualquer crescimento que perceba facilmente ao seu redor.

    Para quem sofre esse ataque emocional, por vezes não permite ter o ato de exteriorizar o que machuca ou incomoda, de transformar experiências difíceis – físicas, mentais ou emocionais – em palavras, ou linguagem escrita, sem receios ou filtros, o que poderia trazer alívio, clareza e serenidade.

    Uma oportunidade singular de colocar pensamentos, medos, angústias e anseios em perspectiva, é transformar experiências em palavras escritas, dando um passo adiante no reconhecimento de problemas e na busca pelo melhor modo de lidar com eles.

    Segundo a psicanalista Daisy Dalmáz, a escrita por si só é um sinal de evolução. “Sabemos que o mundo das ideias pode tudo”, mas quando colocamos todo nesse universo interno na escrita, ocorre um salto de qualidade, pois, ele precisa ser organizado, precisa adquirir sentido, expressando um encadeamento de ideias e sentimentos.

    O processo precisa ser direcionado para um conteúdo que expresse SENTIMENTOS, e não SITUAÇÕES (por exemplo: “senti raiva” ao invés de “gritei muito” ou “senti tristeza” ao invés de “chorei”).

    Aos poucos, as pessoas que seguem com a prática vão se familiarizando com a elaboração dos textos, além de aguçar a criatividade e a percepção de suas emoções mais profundas, num belo processo de autoconhecimento e fortalecimento interno.

    Como escreveu Fernando Pessoa: “Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir”.

  • O paradoxo das leis de proteção aos cães no Brasil

    De vez em quando, o Brasil acerta na proteção aos animais. O Governo de São Paulo, por exemplo, tomou uma decisão justa ao proibir o acorrentamento de cães e gatos no Estado. Uma lei que soa óbvia, mas que só agora, em pleno século XXI, recorda o que qualquer responsável sempre soube: prender um animal pelo pescoço não é educar, é torturar. Cães não nasceram para viver sob grilhões. Nasceram para correr, farejar, vigiar, proteger e amar. Quando lhes roubam esse direito, não é apenas a liberdade que se perde, é a dignidade de um ser senciente que é negada.

    Nem toda lei criada pode ser chamada de necessária. Muitas vezes, são apenas cortinas de fumaça que não atingem o problema em seu cerne. A falta de conhecimento leva a legislar mal. Foi o que aconteceu em Campinas, onde vereadores propuseram proibir de vez o uso das coleiras eletrônicas, os chamados e-collars. A boa intenção é inegável. Afinal, quem gosta da ideia de dar choque em cachorro? Só que a vida é mais complicada do que a pauta de uma sessão de Câmara Municipal. Essa lei pode acabar virando um tiro no pé: condenando justamente os cães que poderiam ser salvos por um último recurso. A vida não cabe em generalizações. Há cães que não se enquadram no “sempre” ou no “nunca”. E é justamente aí que mora o perigo de uma proibição cega.

    A ciência já mostrou que reforço positivo pode ser um caminho mais adequado para substituir métodos arcaicos. Cães educados sem violência tornam-se mais estáveis, confiantes e felizes. Bater, ameaçar, causar dor, nada disso é linguagem canina. Além de não educar, semeia medo e alimenta a agressividade. Mas a realidade, áspera como é, também impõe exceções. Nos registros silenciosos das estatísticas aparecem os casos extremos: cães que se tornam ameaça constante, que atacam seus próprios donos, que colocam em risco vizinhos e famílias inteiras. Donos exaustos, depois de verem todas as técnicas falharem, encontram-se diante de um dilema cruel. Nesse contexto, sob protocolo clínico, técnico e ético, o e-collar deixa de ser castigo e torna-se ferramenta de resgate.

    A filosofia já dizia, muito antes de a ciência confirmar: a virtude está no meio-termo. Aristóteles chamava de phronesis, a prudência. Nem a tirania da dor, nem a ilusão permissiva do “tudo pode”. Entre esses dois extremos ergue-se o ponto de equilíbrio: autoridade sem crueldade, firmeza sem violência, atitude sem condenação. No Treinamento Invisível seguimos essa linha. A guia funciona como extensão do corpo, o olhar age no instante preciso; o gesto conduz sem brutalidade. Tudo isso vale mais do que qualquer mecanismo elétrico. Mas também sabemos reconhecer o imponderável. Em situações complexas, uma ferramenta pode significar a diferença entre a vida e a morte. Negar sua existência pode soar confortável, mas na prática é condenar cães ao abandono ou à eutanásia.

    Por isso, é preciso afirmar sem rodeios: sou contra cães acorrentados. A imagem de um animal acorrentado é, por si só, angustiante. Mas sejamos honestos: em alguns casos extremos, recorrer ao e-collar para evitar um fim trágico pode ser a única saída. Não é escolha fácil, nem deve ser banalizada. Só se justifica quando ciência, ética e circunstância caminham juntas, quando tudo já falhou e não restam alternativas. O risco, nesses momentos, não é apenas técnico: é moral.

    E é nesse contraste que mora o paradoxo: São Paulo quebra as correntes para que os cães vivam. Campinas ameaça abolir a última porta para que alguns condenados continuem vivos. Uma lei que liberta, outra que, se não refletida com prudência, pode aprisionar de outra forma. Entre as duas, está o desafio maior: compreender que educar não é prender nem castigar, mas também não é cruzar os braços diante do irremediável. A vida pede equilíbrio. E os cães, mais do que ninguém, estão entre nós para ajudar a trazer discernimento.

  • Que graça tem um livro?

    A graça de um livro? Ele te dá prazer. Se você não está lendo por obrigação, está envolvido na viagem mais deliciosa que poderia fazer — não apenas por países, sem precisar de passaporte, mas também por épocas. Um livro faz voltar no tempo.

    E a razão é única: prazer.

    Você escolhe uma história, se delicia lendo sinopses, acolhe a dica de um amigo e vai. Um livro não precisa te dar lições de vida, nem te deixar rico, nem transformar a sua existência.

    Eu era um simples vigilante de galpão quando viajei por vários planetas com O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry. Na vida real, cuidava de um depósito de sinalização de trânsito. Quando adolescente, antes que meus olhos fossem contaminados pela banalidade dos noticiários, li Capitães de Areia, de Jorge Amado, e me misturei a Pedro Bala, Dora, Volta Seca — meninos de rua da Bahia. Li também Cartas a um jovem poeta, de Rilke; Knulp, de Hermann Hesse, durante a crise dos 40 anos; e O Triste Fim de Policarpo Quaresma e Clara dos Anjos, de Lima Barreto, devorando-os nos ônibus, indo e voltando para o centro de BH.

    Por que eu lia? Porque gostava. E ainda gosto. Só isso.

    E o que dizer de O Bebê de Tarlatana Rosa, de João do Rio, que me transformou em folião de carnaval? Surreal: um livro me pôs na avenida, sem eu sequer sair da poltrona. Estranho, não é? Se a gente fica parado lendo, as pessoas acham esquisito. Devia estar jogando bola, sambando ou correndo. Mas não: eu lia.

    Li pela primeira vez Crônica de uma namorada, de Zélia Gattai — esposa de Jorge Amado — ainda no ensino fundamental. Era ruim de bola, preferia ler, e me fascinava o mundo que Zélia trazia. Ler era gostar de ler. Nada além disso. Nem precisava.

    Já adulto, quando o trabalho me irritava, li Bartleby, o escriturário, de Herman Melville. O patrão de Bartleby, um advogado famoso, tinha um grupo de funcionários copiando processos no escritório. E Bartleby, de repente, virou-se para ele e disse: “Prefiro não fazer.” Surreal ver um empregado falando aquilo para o patrão. Eu ria, batia palmas, pensava: “Como assim?”

    Ler é das coisas mais fantásticas do mundo — conto, crônica, romance ou poesia. Dizer que leio só porque gosto é atrevido, eu sei, mas é a mais pura verdade.

    O melhor livro é aquele que a gente escolhe sozinho, sem resenhas e sem recomendações. Entrar numa livraria e deixar a vontade decidir. Aí, nunca tem erro. Comigo, sempre deu certo.

  • Poema #36: Nu

    O teu corpo,
    pássaro esculpido
    no assento do
    sofá da sala
    de visitas,
    é uma ampla sala
    onde te visito
    (abolida a noção
    de sonho
    sob o teu vestido),
    sempre que o desejo
    do corpo desenha
    a moldura de um
    pássaro
    em teu assento

    Inventário de Sombras

  • Poema #07: Ressaca

    onda mortiça,
    que oculta em seu manto de espuma?
    pérola ou lixo?
    fragmento de concha ou ponta de vidro?
    cobertor de areia
    espelho de estrela
    poça onde a sereia afônica afunda os pés sem dedos

    O corpo inteiro afogado no poço sem fundo.
    A memória em desordem de molho no sal.
    O olhar que vacila

    (à procura de terra firme?)
    vê diluir-se um segredo na força da água.

    no avanço
    no refluxo
    o vaivém ritmado
    pinta no chão
    uma sombra ondulada
    que apaga

    São suas ondas, maré postiça,
    que trazem não mais que pistas
    embaralhadas pelo mar,
    que tragam o passo na amarra dura
    da areia úmida de outro lugar.

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