Fevereiro começa no domingo, como quem abre as alegorias do descanso — esse mesmo que sonha com samba no pé e os zirigundús dos foliões. Janeiro já anunciava as entradas da folia, com blocos em teste espalhados pelas ruas do Rio de Janeiro
Tive a oportunidade de presenciar um deles na feira da Glória, quando assumi a tarefa de vender artigos culinários japoneses de primeiríssima linha, na barraca do meu grande amigo Shizuto e de sua família. Vale a pena conferir as comidas de rua do Japão — barraca 71, próxima ao portão da Lapa, na Praça Paris.
Outra ocasião foi num domingo em que me lancei à capital para celebrar o aniversário da minha afilhada Lulu, quatro aninhos. Unindo encontros familiares a agendas profissionais, estiquei meus dias no meu Rio de Janeiro. No domingo passado, encontrei a Marcela no Flamengo, onde, no Planalto, nos unimos às palmas de um parabéns com glitter, estandarte, sorrisos largos e corpos carnavalescos espalhados pelas calçadas.
Antes de retornar à minha serra, tomei café da manhã no quiosque Ginga, na praia do Leme — um ponto aberto 24 horas por dia. Algo inacreditavelmente maravilhoso para alguém cosmopolita e do mundo como eu, que se acostumou a não encontrar nada aberto depois das dez da noite, durante a semana. Domingo, então…
No aguardo de uma carona prevista para as nove, caminhei pelas areias de calça jeans, cruzando os limites com Copacabana. Ah, a princesinha do mar — que hoje verei novamente. E novamente a Glória, os agitos da Praça Paris, os corredores da maratona no Aterro, o bloco da Ivete no centro e a rotina dos moradores que circulam pelas redondezas: o cotidiano de quem sai cedo para montar barracas e vender até o fim da tarde.
Em meio ao percurso ainda escurecido da partida, me espanta o amanhecer da serra: a troca de azuis, o passar espaçado dos carros, a felicidade solta na voz dos amigos no carro. Nasceres e pores do sol sempre mexeram comigo de forma arrebatadora.
São sete da manhã. Vejo o Cristo da janela.
Da janela do carona, sobre a ponte Rio–Niterói, fecho esta primeira crônica brindando ao Rio de Janeiro, a fevereiro e a março. Algo do Rio ainda pulsa em mim — um pulsar que antecede o retorno e já carrega a saudade. Como se o caminho não fosse uma linha, mas um estado.
Talvez eu viva assim — é bem provável, eu diria: chegando ao que sou agora, partindo sempre de algo que me ensinou a ficar.
Às vezes, me canso um pouco de ler as crônicas do cotidiano publicadas nos inúmeros sites e veículos de comunicação (logo eu, que sou uma delas?). E não é por conta da qualidade literária dos textos — que, na maioria dos casos, é inquestionável —, mas por sentir que estou sempre comendo aquele mesmo pudim que retorna à mesa depois de congelado.
Por isso mesmo, me deliciei com um texto novo que falava sobre os Tidsoptimistas. O termo é difícil até de pronunciar, mas desperta curiosidade — tanta que fui em frente para descobrir seu significado.
E qual não foi minha surpresa ao perceber que o texto falava exatamente de mim! Será que a autora me conhecia de alguma reunião em que ficou claro ser eu uma Tidsoptimista clássica? Ou teria captado as vibrações do meu ser de luz, sempre pronto a ajudar outras criaturas afortunadas que têm uma visão otimista do tempo, como eu?
Senti um estranho calor, como se — imagino — estivesse tomando um chá fumegante de Santo Daime, à medida que me reconhecia nas situações expostas. Estou vingada! (pensava, ticando cada uma delas). Assim que compartilhar esse texto, todos vão entender que minha intenção sempre foi boa; que o problema é apenas uma diferença de visão sobre o tempo — a deles é objetiva, a minha, subjetiva!
Para que não reste dúvida de que a autora, Becky S. Korich, se inspirou na minha pessoa para psicografar esse texto, seguem aqui algumas situações citadas:
O encontro é às 20h. Às 19h55, saindo de casa e ajeitando o cabelo no espelho do elevador, manda a clássica: “Chegando.”
A reunião é às 14h. São 13h40. Calcula: “Trânsito, 25 min; me troco em 5; dou tchau em 2; saio em 10… dá tranquilo.”
Tem um voo às 10h. Decide sair às 8h10, confiante de que tudo vai colaborar: o Uber vai chegar em 2 minutos, os faróis abrirão em sincronia, não haverá fila no check-in e o portão será logo ali.
Quem já conviveu comigo certamente poderá engrossar essa lista com muitas outras situações optimistic e… me perdoar!
São Petersburgo é uma das cidades mais espetaculares do mundo. Estive lá em três ocasiões, as duas primeiras quando ainda atendia pelo nome de Leningrado, em pleno regime comunista. Naquela época, se o visitante não tivesse incluído todas as refeições no pacote cuidadosamente preparado pela única agência de turismo que os estrangeiros podiam utilizar, a estatal Intourist, enfrentaria muitos obstáculos para encontrar um restaurante que o atendesse.
As opções eram escassas e os funcionários não se esforçavam para agradar os clientes, afinal pouco ou nada lucravam com isso. Eu e meu marido nos deparamos com restaurantes quase vazios, com garçons batendo papo, onde fomos impedidos de entrar sob a alegação de que todas as mesas estavam reservadas. Fazer uma reserva seria a solução óbvia, mas, quando solicitávamos ao hotel que a fizesse, diziam que era cedo demais para isso e pediam para voltar mais tarde. Quando voltávamos, respondiam que as reservas estavam esgotadas.
Os hotéis dispunham de restaurantes que na hora do jantar ficavam abarrotados de estrangeiros tentando conseguir uma refeição decente. Era difícil arranjar mesa, mas uma gorjeta antecipada, principalmente em moeda estrangeira, facilitava as coisas. Mesmo assim, o serviço era ineficiente e os hóspedes tinham que se conformar com o que eles pudessem servir. Boa mesmo, só a vodca.
Vimos hotéis onde existiam, espalhados pelos pavimentos, pequenos bares para lanches, igualmente lotados, mas onde era mais fácil ser atendido. Dispunham de um menu bastante limitado: pão, manteiga, caviar fresco (esqueça o Beluga, e não se iluda: há uma variedade de peixes cujas ovas se rotulam como caviar), café com leite e doces. Depois de duas ou três refeições dessas, e sem conseguir entrar nos restaurantes, você se perguntava se não seria o caso de pedir socorro à embaixada brasileira.
Numa segunda viagem a Leningrado descobrimos que, convidando os guias de turismo para almoçar, eles davam um jeitinho de resolver o problema dos restaurantes. O convite era recebido como uma oportunidade de compartilhar um ambiente que lhes era normalmente vetado por questões financeiras. Contudo nem todos ousavam aceitá-lo: dava para sentir no ar o patrulhamento ideológico, e deduzir como era perigoso ter contato demais com o mundo exterior.
Uma das guias, uma senhora mais idosa, não só recusou enfaticamente o convite, como se afastou de nós tão rápido quanto pôde. Quando nos deixou no hotel no intervalo para o almoço, vimos um pequeno caminhão vendendo bolos (inteiros) na calçada em frente. Já escaldados, achamos prudente comprar um. Havia fila e, quando chegou a nossa vez, as pessoas foram extremamente amáveis: por gestos, ajudaram-nos a escolher o sabor do bolo e a efetuar o pagamento, que, aliás, foi bem pequeno se comparado aos preços que costumavam cobrar dos turistas. Naquele dia, esgotadas todas as tentativas de conseguir lugar em algum restaurante, o almoço foi água e o bolo comprado com a ajuda do povo russo. Não sei se a culpa é da fome, mas esse bolo é uma das poucas coisas boas que me lembro de ter comido por lá.
Quando estivemos em São Petersburgo pela terceira vez, e esperamos que não tenha sido a última, a Rússia estava em processo de abertura política. No entanto, como costumes não se mudam radicalmente de um dia para o outro, ainda havia problemas com os restaurantes.
Essa terceira viagem foi realizada em um navio que ficou ancorado na cidade por dois ou três dias. Já não éramos obrigados a utilizar os serviços da Intourist, se é que ela ainda existia, mas, por precaução, achamos mais conveniente comprar duas excursões de dia inteiro organizadas pela companhia do cruzeiro. Nesses casos, era praxe do navio incluir o almoço em um restaurante local. Não na Rússia: eles providenciaram farnéis para os passageiros que iam passar o dia fora. Sinal de que, apesar das mudanças já visíveis, refeições em restaurantes continuavam sendo pontos fracos.
Agora, já soube por várias fontes, que os russos têm excelentes restaurantes, vinhos e cardápios. Todos os viajantes recentes com quem tive contato falam maravilhas da comida e do atendimento. É por essas e outras que gosto tanto da iniciativa privada. E não pensem que o povo soviético prefere como era antes.
Como assim o prêmio do concurso foi uma viagem a Gumi-si?
Onde fica? É cidade, é país? Em que continente?
Essas eram as perguntas que eu me fazia, repetidas vezes, enquanto também as dirigia ao agente de viagens que me contactou para dar os parabéns pelo prêmio recebido no concurso de literatura da Livraria Lello, em Portugal.
Não acreditei de imediato. Mas era verdade. Eu estava na lista dos escritores de língua portuguesa que participaram do certame.
Confirmado o fato, preenchidos os formulários e de posse do voucher, com todas as particularidades que compunham o prêmio, compreendi, enfim, que não se tratava de um golpe, mas de uma realidade generosa.
Fui então estudar o meu destino. Gumi-si é uma cidade sul-coreana, localizada no continente asiático, com aproximadamente quatrocentos mil habitantes. Uau. Já gostei. A ideia de não ser uma em um milhão aguçou meu senso de pertencimento.
Decidida, preparei minha mala. Antes, porém, consultei a meteorologia, os pratos típicos, as vestimentas, a cultura e as opções de entretenimento, ainda que tudo isso fizesse parte do próprio prêmio.
E que prêmio!
Ao chegar, impressionei-me com a organização, a ordem, a disciplina e a gentileza dos meus anfitriões. A partir daí, mesmo sem sorrisos largos ou palavras expansivas, senti-me acolhida.
Encantei-me com os detalhes. Um banco bem posicionado, uma faixa de pedestres respeitada com solenidade, um silêncio coletivo que não constrange. Caminhar por Gumi-si foi perceber que o cuidado pode ser uma forma de gentileza, que a ordem não precisa ser opressão, que a disciplina também pode ser afeto.
Vocês conhecem o meu estilo de vida. Jovem, carioca, baladeira, inserida em um grupo como o nosso: atores, escritores, modelos e todos os que circulam nesse meio.
Foi surpreendente descobrir que eu cabia naquele mundo onde a beleza, a poesia e o encanto não dependiam de grandiloquência, onde a moderação é elegante e o silêncio não intimida.
Gumi-si fez-me descobrir um lado meu desconhecido. A sensação de estar do jeito certo, no lugar certo, sem atrapalhar. Voltei impressionada e, de certa forma, transformada. Descobri que posso ser eu mesma e que há em mim um silêncio atento, uma presença serena que eu ainda não conhecia.
Gumi-si foi um dos presentes mais valiosos que recebi.
Foi ali que a minha presença desvendou a minha essência.
Ao final de um dia silenciado pela perda de uma amiga querida, bagunçado por estilhaços de memória, invadiu os meus ouvidos um som de infância vindo do parquinho do condomínio. Uma leveza quase me alcançou, não fosse a rispidez com que a tristeza amordaçou minha criança interior. Não foi a primeira vez que ela acabou contida, calada e desacreditada.
Tento estender-lhe a mão, mas ela não confia mais em mim. Foram muitos os abandonos.
Busco convencê-la de que aquela felicidade ingênua de viver sem dar-se conta da morte jamais voltará a nos fazer sorrir sem medo. Perdemos a inocência, a ilusão da presença eterna das pessoas que amamos.
Ela balança negativamente a cabeça. Não crê no meu desespero de realidade. A criança que fui ainda pulsa quando a emoção me toma. Move os lábios, acena como se quisesse alertar sobre a existência de botes para as tormentas.
Não ouço o que diz. Só penso em naufrágios.
Ela sorri, embora sofra todo tipo de escárnio e xingamento. Tola, burra, ingênua, boba. Não percebe que a vida é injusta, cruel, indecente no uso de seu poder e apadrinhamento?
Não perdoo sua falta de malícia. Rasgo suas roupas bordadas de esperança.
Ainda assim, minha criança vive, dança, corre, rodopia, gargalha, sonha e é feliz. Mesmo excluída do direito de se pronunciar. Esperta, bate os seus pés no canto do pensamento, inaugurando um novo código Morse que implora nossa salvação.
Soterro sua presença em resíduos de insegurança, medo, ansiedade, angústia e preocupações. Dou-lhe as costas. Exercito a frieza da maturidade.
Deixem-me crer no amargor dos sábios e seguir encastelada na certeza do desfecho triste. Agora, tudo parece morto dentro de mim. Olho uma última vez para não restar dúvidas sobre o seu fatídico destino.
Lá do fundo de tudo que há em mim, seus dedinhos emergem como prova do seu resistir. Ao longe ouço sua voz a me chamar para brincar de ser feliz. Renuncio às condecorações de guerra. Bandeira branca a minha menina. Ela nunca me causou mal algum.
Machucada, trêmula, assustada, ela corre para os meus braços. Acolho. Acaricio seus cachos. Dou colo.
Nesse encontro do que fui com o que desejo voltar a ser, renasce a aposta no agora, na eternidade do amor e na ingenuidade da paz.
Rimos juntas dessa garotinha desafiadora e abusada chamada vida.
Aconchegue-se no sofá e prepare a pipoca. Esqueça preocupações do trabalho, problemas domésticos, aluguel, guerras, corrupção, mudanças climáticas, contas atrasadas, taxa de colesterol e todas as coisas chatas sobre as quais, quando questionado a respeito, você responde “e eu com isso?”, empenhado que está em direcionar sua atenção para assuntos mais aprazíveis como futricar na vida alheia.
Vai ter início o BBB. A partir de agora, você será transportado para um maravilhoso mundo de fantasia, tão arrebatador quanto um papo casual com o vizinho no elevador, ou sobre o comportamento do poodle da moça da fila do supermercado. Nesse contexto, não há relatos edificantes, dramas épicos ou sátiras de costumes. Nem mesmo um enredo ou um roteiro. Apenas uma sequência de vai-e-vens dos personagens da sala para a cozinha e da cama para a privada, entremeada por diálogos niilistas sobre as virtudes da apatia e do ócio.
Embora voltado para indivíduos com reduzida capacidade cognitiva e mentalidade psicossocial infanto-juvenil, não se confunde com contos de fada ou de aventuras. Nele não há príncipes, donzelas, castelos, dragões, criaturas mágicas e super-heróis. Apenas adultos ‘comuns’ e insossos tipo os que habitam diuturnamente o Facebook e o Tik Tok. Tão estúpidos quanto seus espectadores.
São barrados pelos experts em audiência da Globo intelectuais, pessoas reflexivas, questionadoras e artistas (exceto os ‘popularescos’). Os participantes são selecionados pelo grau de babaquice, em sintonia com o sentimento de identificação dos telespectadores.
São priorizados aqueles que gostam de fazer intrigas, injunções fúteis e tenham capacidade de partilhar sua estreita visão de mundo com gente de sabedoria construída em grupos de whatsapps. Assuntos que, não servindo para qualquer matéria jornalística de relevo (afora revistas Caras e Contigo), são suficientes para provocar acaloradas discussões dos ‘especialistas’ em coisa nenhuma que frequentam os programas diurnos de Ana Maria Braga, Sonia Abrão e Nelson Rubens. Que conseguem a proeza de superar em chatice as bizantinas mesas redondas de futebol que debatem o duvidoso pênalti do zagueiro flamenguista com a eloquência retórica de Cícero defendendo a República Romana.
Gente que, se não estivesse 24 horas na Globoplay exibindo sua frivolidade, estaria junto a você, do outro lado da tela, tornando o reality show campeão de audiência e corroborando as palavras de Nelson Rodrigues: “os idiotas vão tomar conta do mundo, não pela sua capacidade, mas pela quantidade; eles são muitos”.
Tais pessoas, invisíveis na turba ante sua insignificância, ganham visibilidade na TV, fazendo do ofício do Big Brother orwelliano um mar de tédio. Os detalhes do seu comportamento são prescrutadas por centenas de câmaras e microfones estrategicamente posicionados na casa/estúdio para acompanhar minuciosamente os movimentos e reações dos participantes. Captam desde uma coçada de saco e peidos acidentais até opiniões preconceituosas acompanhadas de risadas de cumplicidade.
Nesse circo, você poderá exercer sua vocação cívica elegendo o infeliz que vai para o paredão com a seletividade que lhe faltou na escolha do deputado do Centrão que seu voto colocou no parlamento, cujo nome certamente lhe fugiu da memória, sobre cujas maracutaias você reitera com desdém: “e eu com isso?”
A coisa mais triste do mundo era a vó Ana me fazer as tranças. Eu ficava com a cabeça cheia de caroços de tanto croque que tomava para ficar quieta. Mas todo mal tem o seu bem: a compensação era ouvir a vó Ana falar dos seus maridos.
Estavam pendurados na parede da sala, todos com a mesma idade, parecia, uns trinta anos, e todos um a cara do outro: ruivos, com a bochecha meio pipocada, um bigodinho aparado bem fininho, o beiço caído, de choro, e os olhos mais tristes que já se viu.
São a minha galeria de heróis, dizia a vó Ana, e ia apontando: o vô Joaquim, o vô Afonso, o vô Alfredo, o vô Macico, o vô Juca, o vô Pacheco, o vô Vicente, o vô Inácio.
O vô Alfredo aguentou seis meses; o vô Afonso, só dois; o vô Joaquim, cinco meses; o vô Juca, nove – ia enumerando, orgulhosa, a vó Ana. O que durou mais foi o vô Macico: dezoito meses! Puxa, vó!, eu dizia. A vó Ana falava de-zoi-to, pausadamente, enchendo a boca.
Só um que não aguentou nada, contava a vó Ana, com o ar de desprezo que Deus lhe deu. Só um que era um frouxo! Nem deu tempo de tirar um retrato. Ou a vó Ana nem quis saber de retrato. Esse nem nome não tem: é o nono marido.
Saiu do quarto na primeira noite, ia buscar fogo para o pito, e nunca mais voltou. Esse negou fogo, dizia a vó Ana. No lugar do retrato, um quadro representando uns cachos de uva, murchas, desconsoladas.
Vou te falar, adotar essa postura tem evitado que eu me aborrecesse com mais frequência. Você tira a emoção das palavras e responde praticamente ao pé da letra tudo que te perguntam. Em alguns casos repete a mesma resposta se a pergunta for igual ou bem parecida.
E como é que isso dá certo?
As pessoas ficam sem muita alternativa para conversar porque você tira o espaço para estabelecer qualquer conexão que gere um diálogo mais extenso. Sem agressividade você cria uma barreira de desconforto diante dos demais seres humanos.
Mas ninguém estranha, não acha você meio maluco por causa desse jeito assim…
Assim como? Antissocial.
Ah, bom, é isso pode acontecer. Um efeito colateral dessa postura é, as pessoas ao seu redor, criarem uma imagem pública a seu respeito que varia entre a maluquice e a grosseria. Pode resultar também em um certo isolamento social, sabe as pessoas param de te mandar memes, de te convidar para sair, entre outras atividades da vida em sociedade. Mas tem suas vantagens sim.
E onde isso pode ser vantajoso?
Você se livra do convívio de uma pensa de gente desagradável. Faça as contas, dos corpos humanos que orbitam ao seu redor, o número dos que merecem a sua atenção não cabem nos dedos das suas duas mãos juntas.
Bom, pensando dessa forma eu acho que você tem razoa em parte.
Viu? Essa seleção social é mais fácil se você se portar como uma IA, neutro, sem emoção e irritantemente funcional.
Mas isso não parece com IA.
Isso é o que menos importa porque na percepção das pessoas, por falta de repertório para conseguir definir o que você está fazendo, te classificam como IA. Admito que esse jeito de falar também me remete aquele personagem maravilhoso do cinema.
Qual deles, o robô de Perdidos no Espaço?
O robô não era do cinema, mas da televisão e a voz dele era carregada de emoção.
Então quem?
Hannibal Lecter.
Você não pode estar falando sério.
Estou sim.
O Lecter é o psicopata dos psicopatas.
Ah mas é um grande personagem, concorda?
Claro, totalmente, mas deixa te perguntar uma coisa.
Sim, claro, o que é?
Seu plano de saúde cobre tratamento mental também?
Até os melhores poetas já escreveram os piores versos, mas só os piores poetas os publicam. Isso já foi dito e redito, e aqui digo mais uma vez, porque parece extremamente certo e ainda necessário. A questão que se coloca é a da seleção dos poemas na formação de um livro e como a obra de um poeta se apresenta ao público.Aí o problema assume contornos matemáticos, de proporcionalidade. Porém, não se trata de porcentagem ou de qualquer expressão em valores numéricos propriamente (afinal, em termos de literatura, jamais poderia ser desse modo, bem como por falarmos em matemática mais em termos metafóricos), mas das impressões no leitor e no crítico.
O tempo entre a publicação de um livro e outro precisa exceder o da escrita dos poemas que o leitor encontrará disponível para a leitura. Precisa ser maior não porque o poeta necessite observar esse ditame estabelecido e esperar para o lançamento, tendo o seu livro guardado. Mas porque se alcança uma quantidade de poemas suficiente para compor um livro antes, no entanto, se publicado prontamente, provavelmente, sua qualidade não será boa. Se selecionados criteriosamente, os poemas se reduzem em número, alarga-se o tempo necessário do livro.
Alguns autores publicam livros quase que anualmente, com 100 poemas ou mais. A percepção que fica é a de que publicam absolutamente tudo que lhes sai da pena, sem qualquer crivo crítico e, como aparece em muitos casos, sem sequer revisão ou ajuste, o que é expelido da cabeça vai ao livro. Assim, em meio a bons versos que saem de todos os poetas de qualidade ou medíocres, estará uma enxurrada de ruins e médios poemas, suficientes para rebaixar a qualidade do livro na avaliação e na experiência que o leitor terá dele e com ele.
Há poetas apressados, que procedem do referido modo pela freima de ver seu nome na capa de mais um impresso. Isso acontece principalmente com os iniciantes, que naturalmente possuem uma ânsia maior pela publicação e por serem lidos. Essa pressa pode conduzir facilmente à desilusão e ao fracasso. Se é isso que almejam, digo: publiquem tudo que escrevem, sem crítica e sem seleção, aqui está uma receita perfeita. Mas, se não for isso, esse cronista (que é também poeta) diz: é necessário ter, sobretudo, calma. Calma na escrita, na seleção e na publicação.
Até os poetas mais experientes sabem disso, não deixam de escrever seus versos ruins, só não os publicam. Ou, alguns até fazem. Já se falou bastante como em meio à grandiosidade de Augusto Frederico Schmidt há certos desníveis, ou como existem poemas fora da curva na obra de Carlos Drummond de Andrade, marcada pela extrema qualidade.
Mas, se não fosse suficiente, é necessário ter uma preocupação com a posteridade. Não para mim, poeta menor, que não serei objeto de estudo, mas para os grandes poetas ou os que pretendem ser um dia (e pretendam ser grande um dia). Imagine, você sempre realizou suas seleções muito bem, publicando os bons poemas e escondendo os ruins, porém guarda esses em casa. Após sua morte, um pós-graduando ou um crítico vai pesquisar em seu acervo pessoal e decide publicar seus inéditos. Pois é, estarão publicados os poemas ruins, eles contrabalançarão tendendo a prejudicar o juízo que se fazia sobre sua obra. É necessário estar de olhos abertos até após a morte. Lêdo Ivo talvez estive atento a isso, quando, em A queimada, deu-nos o seguinte conselho: “Destrua os poemas inacabados, os rascunhos, as variantes e os fragmentos Que provocam o orgasmo tardio dos filólogos e escoliastas. Não deixe aos catadores do lixo literário nenhuma migalha.”
As coleiras com espinhos, consideradas um dos primeiros dispositivos de proteção para cães, foram criadas na Grécia antiga.
Apesar de parecerem rudimentares pelos padrões atuais, essas coleiras cumpriram um papel essencial na segurança dos cães da época, especialmente contra uma das maiores ameaças: os lobos.
Na Grécia antiga, os cães eram usados para diversas funções, como pastoreio e proteção.
No entanto, os ataques de lobos, representavam um risco constante.
Para proteger os cães, os gregos desenvolveram uma solução engenhosa: a coleira com espinhos. Esse dispositivo era feito com pontas afiadas que se projetavam para fora, formando uma barreira física ao redor do pescoço do animal.
Quando o lobo tentava atacar, os espinhos dificultavam o acesso ao pescoço do cão, prevenindo ferimentos graves e aumentando as hipóteses de sobrevivência.
Essa proteção não só garantia a segurança dos cães, mas também melhorava sua eficiência nas tarefas diárias, essenciais para a vida cotidiana da época.
O “design” dessas coleiras reflete a criatividade e a praticidade dos antigos gregos, que buscavam soluções eficazes para os desafios que enfrentavam.
Embora as coleiras modernas ofereçam novas tecnologias, as mais antigas com espinhos Gregos, representam um marco importante na história dos equipamentos de proteção animal. Elas mostram como a preocupação com a segurança e o bem-estar dos animais é uma prática que vem de longa data, destacando a evolução e a importância da inovação ao longo dos séculos.
De volta para o futuro, observamos a existência de coletes fabricados em fibra de carbono, a prova de balas, facadas, porretes e espinhos. Eles fornecem proteção ao homem e são muito leves para transportar, sendo assim são o topo da proteção de vidas humanas, fragilizadas imensamente pela violência desmedida.
Que coleira ou colete você imagina que possa lhe proteger do bombardeio das pessoas dizendo para fazer mais, ser mais e comprar mais, ao invés de nos dizer como levar uma vida melhor e mais feliz. Nos tiram do sério quando dizem para ignorar os sinais de alerta de que a vida está levando a melhor sobre nós. É sempre bom ouvir um “Você Consegue”, ao invés do frequente “desista, não é para você”.
Eventualmente uma ajuda bem que viria a calhar, principalmente quando estamos enrolados com trevas de nossas dúvidas.
Não sei quanto a vocês, mas acho que o bom humor anda em falta no mercado. Houve um tempo em que bastava virar pro sujeito no ponto de ônibus, reclamar da demora, e alguém já emendava uma piada. O dono da banca comentava o calor, o porteiro dizia qualquer bobagem, o manobrista ria de si mesmo, o flanelinha improvisava um comentário espirituoso, a moça da farmácia devolvia o troco com uma graça inesperada. A gente ria no meio do dia, sem perceber. De uns tempos pra cá, perdemos esse jeito tão brasileiro de ser, trocar o mau humor por uma boa risada virou exceção.
Pensei nisso quando reli a oração de São Tomás More, inglês do século XVI, nascido em Londres em 1477, juiz conhecido pela honestidade, de quem o Papa Francisco tanto gostava. “Dai-me, Senhor, um pouco de sol, algum trabalho e um pouco de alegria”, pedia ele. Veio a pandemia, depois a morte do Papa, e alguma coisa se perdeu pelo caminho. As pessoas andam sérias demais, economizando o riso, como se ele fosse artigo de luxo, reservado às festas de família.
Não sou lá muito religioso, mas desconfio que a alegria seja a coisa mais sagrada. Mesmo sem missa aos domingos, faço dela a minha. “Dai-me uma boa digestão e algo para digerir”, rezo no trânsito, parado, olhando o sinal fechar outra vez. Todo mundo deveria pedir o mesmo, criança, velho, adolescente, marido, mulher, jovem. O bom humor sempre foi traço do nosso povo, algo espontâneo, quase automático.
Condenado por não aderir ao cisma religioso, São Tomás More escreveu essa oração na prisão. “Dai-me a graça de encontrar o bom sentido”, suplicava. Nós também vivemos cercados, cada um em sua pequena prisão particular, o trânsito, as contas, a solidão. Um sorriso ao porteiro, retribuído, ainda faz diferença, mesmo que a gente não saiba medir.
Me apaixonei, ou pelo menos acho que me apaixonei; fui a uma festa e perdi a cabeça. Comprei um cavalo que não preciso de jeito nenhum. Regras. Não ofereça preço por algo que você não precisa. Ao chegar a um baile, convide alguém para dançar imediatamente e dance uma valsa ou uma polca com essa pessoa. Pense em maneiras de organizar meus assuntos esta noite. Fique em casa.
25 de Janeiro de 1851
Mormaço em Copacabana; brunch no Leme e um copo suado me espera pelas entranhas do Flamengo. A luz é perfeita; Jobim canta ao pé do meu ouvido, sua respiração quase roça minha nuca, numa versão acústica em que o som se propaga, encontra os meus poros e traduz-se em arrepio. Meus olhos observam o entorno, meus sentimentos exalam bossa nova e transformam o banal nessa crônica (não sei se haverá fôlego para chegar ao final):
Os sapatos, importam
Desde sempre. As solas se aprimoraram ao longo dos tempos para que, integralmente, a pele do peito do pé não endureça. Engenharia, borracha, costura, cálculo. Os sapatos importam tanto ou mais que os relacionamentos, que acabam por endurecer os corações. Não protegemos nosso centro vital com a mesma engenharia obsessiva dedicada às solas.
Me deparei, por acaso — dessas coincidências que fingem surpresa, ou não passam de meros algorítimos— com um diário de Tolstói. A data do registro é a mesma deste domingo. As palavras não envelhecem nem obedecem à finalidade de quem as trouxe ao mundo; apenas se deslocam. Cento e setenta e cinco anos depois, arrebentam como ondas inesperadas no asfalto carioca.
“Fique em casa”. Reverbera enquanto entro no Uber, ar climatizado e motorista sisudo. À primeira vista.
Comprar um cavalo. Fazer as malas. Esperar quem não volta.
Tolstói faria disso um erro juvenil. Eu, com algum acúmulo de maturidade gasto na sola dos sapatos, chamo de insistir no que já deu sinais de fracasso. Meu uber me guia para caminhos com cheiro de casa. Avançava devagar. Chovia daquele jeito que não é chuva — é o teste de humor do carioca. Tudo ficou cinza. A expectativa do por do sol nubla.
Anteontem choveu muito. Quando chove assim, a gente aumenta a atenção, ele disse. Um carro passou na minha frente, bem aqui perto. Era tudo água. Do nada, uma onda engoliu o carro. Pense no desespero.
Fiquei em silêncio. Era exatamente o tipo de coisa que Vinícius diria, apoiando o cotovelo numa mesa da Glória, antes do segundo chope.
A vida acontece nesses momentos, eu continuei. Do nada, um carro surge na contramão; um pedestre corre fugindo de um assalto; um motorista cauteloso tem a esposa a parir no banco de trás. A vida não é planejamento. A gente se ilude achando que tem controle sobre uma coisa qualquer. Nem sobre o mundo, nem sobre o que existe dentro da gente. Às vezes, nem sobre a própria pele. Do nada aparece uma gripe.
Mas sempre podemos fazer uma tatuagem a nossa maneira, sorriu o astuto motorista. Desci.
Jobim cantaria isso com um piano manso, como quem sabe que não há solução — só caminho. E o caminho, meus caros, só serve aos pés.
Já escrevi diários prometendo preenchê-los até o fim. Hoje prefiro anotações em folhas avulsas, presas por argolas metálicas: a ilusão honesta de que posso reorganizar tudo depois. A arquitetura me ensinou que o processo de criação não é linear. O Chico parece ter aprendido isso cedo, quando desgarrou de arquiteto para artista. Eu ando experimentando o mesmo tipo de sapatos. A vida acabou me sinalizando que os pensamentos também não são lineares, tampouco unidimensionais. Sequer o tempo é regido por algo que seja levemente parecido.
Logo pela manhã, ao despertar ao lado de Copacabana, em inércia horizontal, a pele é nua; os pés nem chegam a sentir o peso do lençol. Há preguiça, há coerência, há segurança. Levantar é sempre um risco. O encerado do piso chega antes à cabeça que ao toque dos pés. Por isso calçamos sapatos, sejam eles despojadas havaianas: para atravessar o dia enganando-nos de algum controle.
Se Tolstói não trajasse sapatos, talvez o registro fosse outro. Protegendo as solas para chegar às festas, perdeu a cabeça — e quem sofreu, coitado, foi o peito. Qual não seria o estrago se os pés sentissem sem amortecer o impacto?
Há paixões que são lindos girassóis. Há encontros que despertam uma das partes mais bonitas que temos dentro de nós, honestamente livres, que vivem apenas de chinelo nos pés. Não pesam nada, não prometem nada. Destravam a intensidade, a vontade de viver e excesso de medo que trazemos dentro. Tiram nossos sapatos e fazem a conexão instantânea dos pés à cabeça. Não protegem. E cumprem exatamente isso: vida. Há quem chame esses tipos carioca. Não é o gentílico, mas um tipo cultural de se existir. Podemos encontrar cariocas por todo o mundo. A liberdade alheia não é o problema; é a insistência de um turista em levar adiante idealizações alimentadas promessas regadas a pele bronzeada e sorrisos com sabor de água de coco. Amores que vivem melhor no papel do que no chão, porque no chão, a sola protege. Na espera, no entremeio, na possibilidade há segurança.
Comprar um cavalo. Fazer as malas. Esperar quem não volta.
O sentimento é o mesmo de se ver, da janela, o Corcovado e o Redentor. Que lindo.
Existe esse conselho antigo — e suspeito — de que o poeta só é grande quando sofre. Sofrer e gastar muitas solas de sapato. Antônio acreditava nisso. Um exímio amante dos sapatos. Eu desconfio: a grandeza, quem sabe, não esteja no sofrimento, mas na travessia. Em se saber quando não comprar o cavalo. Em desfazer a mala. Em não confundir chuva com destino.
Nossa casa querida, que não é o Rio de Janeiro, em si, nas as entranhas desprovidas de segurança do nosso corpo, é como amendoeiras à espera de jacarandás. Vida e sonho.
Achegue-se, meu bem. O mundo é mal, mas leva — se levar — outra vez a um caminho que pede solas novas. Me abrace simplesmente, diz a árvore, sábia com seus troncos largos. Não fale. Não lembre.
Porque eu sei — e você sabe — que a distância não existe. O que existe é o chão.
E todo grande amor só parece grande quando é triste porque, no fundo, nos obriga a caminhar descalços por territórios para os quais não nos preparamos. O poeta sofre, dizem, porque anda demais. Talvez sofra porque insiste em proteger os pés quando o corpo inteiro pede impacto.
Se é para doer, que doa sem amortecedor. Se é para seguir, que seja com as solas nas mãos.
Há caminhos que não pedem sapatos, pedem presença. E o coração vai sentir — de um jeito ou de outro.
Sempre é tarde quando se pede perdão. Tarde demais para apagar o que não devia ter sido feito, falado, sentido, e até pensado, mas que explodiu algumas vezes em uma súbita golfada, outras em uma enxurro daquilo que fermentava há tempos.
E aí, a dor é sufocante, a vergonha chega a ser desoladora. Saber que o único caminho é pedir perdão consome as entranhas e cutuca insistente, como um alfinete esquecido na roupa.
Na tentativa de minorar a culpa, a busca de alguma justificativa que abrande o remorso, acalme o coração.
Mas eu não sabia que você sabia. Que a vida é tão boa.
Não sabia, não queria, não, não…a negação brota e floresce com a proposta de um bálsamo para a dor do erro. Escusa que se repete como um mantra e ressoa, na esperança da complacência divina, humana, ou da própria consciência. Há perdão para quem não percebe a grandeza da vida?
Se é tarde, me perdoa. Eu cheguei mentindo. Eu cheguei partindo. Eu cheguei à-toa.
Ninguém chega à toa nessa vida. A chegada é uma porta que se abre para qualquer direção.
Chegar partindo é chegar mentindo para si mesmo, como se nada houvesse entre o nascente e o poente. É como quebrar a bússola que orienta o caminho da existência, para que ela nãoMmostre os desencantos do amor ao Sul, os banhos de lágrimas ao Leste, mas também o quentura do amor ao sol do Leste. Somente o ponto Oeste da redentora despedida.
Em cima da mesa, um bilhete dobrado. Maria sentou-se para ler, ainda atordoada pela partida de João. Chegou como quem chega do nada, nunca esteve totalmente presente na relação, e do nada se afastou. A que veio então? O bilhete assim dizia:
Se é tarde, me perdoa. Trago desencantos. De amores tantos pela madrugada. Se é tarde me perdoa. Vinha só cansado.
Tema de inspiração: Carlos Lyra / Ronaldo Bôscoli: Se é tarde, me perdoa
É… Não sei em que ponto e não sei e talvez nunca saiba o momento exato em que deixamos de ser heróis para nos transformarmos em vilões!
Não deveria ser assim, mas é…
Quando crianças, olhamos nossos pais como nossos heróis, prontos para nos defender! Entretanto, com o passar do tempo e o embaçar ou desembaçar das horas, passamos a olhar de forma diferente. E olhamos, ou melhor, questionamos essa imagem!
Mas… e quando nós somos olhados dessa forma?
Deixamos o uniforme de herói para virarmos vilões. E revelamos, conscientemente ou não, nossas fragilidades e nossos erros…
E, sim, ficam à mostra homens e mulheres com suas fraquezas, suas rabugices e suas limitações!
E, sim, ficam à mostra homens e mulheres com seus genuínos defeitos, marcas, cicatrizes atemporais…
E a vida segue!
Afinal, o baile não para e não pode parar!
Entre palavras não ditas e seus silêncios perturbadores, entre palavras que não deveriam ser ditas, mas foram à exaustão, entre reticências e pausas provocadas ou não, vamos nos construindo e nos desconstruindo, tudo ao mesmo tempo…
E ser um herói durante muito tempo não impede que você se torne um vilão! É assim, num deslize, em uma contramão… Mas como disse, nunca sabemos esse momento exato…
E desse jeito, viramos o vilão da história ou das histórias! E não, não é vitimização, mas a mais objetiva e sincera constatação!
No meio disso tudo, vamos sobrevivendo e aprendendo, reaprendendo e ensinando, entre lágrimas e sorrisos, olhares e soluços… Seguimos!
E talvez seja essa a grande essência da nossa caminhada, um aprender continuamente!
Não somos perfeitos e nunca seremos.
E justamente na nossa imperfeição, vamos escrevendo as nossas várias histórias.
Histórias de conquistas, histórias de fracassos, histórias de amor, histórias de horror, simplesmente, histórias humanas…
Você que me vê um pivete mau caráter, um delinquente montado numa moto assassina, presta atenção. Não fosse o motoboy aqui, o folgado aí não teria em domicílio o game das crianças, a ração do dogue ou o tênis da patroa comprado barato no aplicativo. Você me deve essa, mano.
Então vê se te recolhe no teu mundinho mixuruca e para de praguejar do jeito que eu dirijo. Ou você acha que seguindo o guia de boas maneiras do Detran, eu faria a mágica de chegar no teu sofá hoje o bagulho que você pediu ontem no Shopee? Sou o zé-ninguém faz-tudo que dá conta do delivery do supermercado e da farmácia. O curinga que garante a marmita fresca do I-Food e a pizza quentinha no teu portão.
Passo sim farol vermelho. E daí? Queimo as faixas, subo as calçadas, atropelo coroas ceguetas, entro na contramão. E não tem ‘otoridade’ que me enquadre, nem radar que anote minha placa coberta. Eu não importo pros caras.
Mas nas ruas das cidades grandes só dá eu. Você pode cantar de galo no jardim da tua casa, no pátio do teu condomínio boiola. Mas dos muros pra fora, é do meu jeito que as coisas rolam. Fica na tua e bico calado.
Os trouxas ficam cagando de medo dos pontos na carteira por queimar a faixa das avenidas. Já eu costuro, faço malabarismo, passo pela direita e ninguém é macho pra encarar ou caguetar o Zé-Mané aqui. Então vê se tira esse carango fedorento da frente ou arranco fora teu espelho. E nem vem arrumar perrengue pro meu lado senão chamo os chapas e o prejuízo do retrovisor vai sair pior pra você, véi. Aceita que dói menos.
Regrinhas de velocidade não vão me barrar de cumprir minha escala e faturar meu ganha-pão. Não tenho opção. Não tenho um puto no bolso. Não tenho carteira assinada. Não tenho férias. Não tenho plano de saúde. Não posso dar bobeira. Se um maluco passar de caminhão por cima, viro mais um presunto a entrar pras estatísticas de acidentes. Já era.
Recebo por entrega e tem uns algoritmos atrozes que me fazem trabalhar como um camelo, sem tempo pra mijar ou bater umazinha pra aliviar. Fico sob estresse o dia todo, tiro do vale-miséria e dos trocados da caixinha os custos pra manter a máquina ativa. Nessa guerra desigual minha chance de sobrar inteiro é pequena. Mas se eu sair vivo dessa, um dia abrirei um trampo só meu, sem ninguém pra encher o saco. Pode crer.
Sou produto do caos urbano e das tretas sociais sem saída. Venho das favelas, onde polícia não entra, juiz quer distância e político bambambã não apita. Lá manda quem pode mais. Uns traficam pó, outros se seguram com metranca. Minha arma pra me manter limpo e garantir o feijão do meu muquifo é minha fiel motoca.
Trago para os bairros dos bacanas o som dos pancadões da perifa e libero os decibéis dos escapamentos envenenados para assombrar tuas noites de sono. É pra te lembrar que eu existo. E não tem GCM bunda mole que me faça aquietar.
Por isso, bro’, arranca da minha frente e fica esperto. Eu sou motoboy e exijo respeito.
O encontro durou dias, e mesmo assim teve gosto de quero mais…
Não teve atrasos, cada um chegou no seu tempo…
Tinha tema, mas não script. O comando era a vontade e a alegria em participar.
O sorriso feliz de cada participante ao chegar ao local do encontro e mais ainda ao sair, dá a certeza de que as memórias dos dias felizes vividos vai ser um oásis guardado no fundo da alma e, durará para sempre, pois será contado entre pais, filhos, primos, parceiros e amigos desta e até os das próximas gerações!
Três amigos se encontravam com frequência em um botequim no Bairro dos Prazeres. Depois de uns goles de cerveja, ganhava fôlego o debate sobre as idiossincrasiasda humanidade. A cada semana uma nova reflexão.
— Ser humano é um bicho engraçado. Reclama da falta de sorte, de tempo, de oportunidade, mas quando surge uma chance de mudança se angustia, perde o sono com medo do risco, do desconhecido.
— Sim, verdade. Mas o que eu acho mais bizarro é a síndrome do insatisfeito. A pessoa sofre por tanto desejar uma determinada coisa e quando consegue, em pouco tempo, a graça se vai. Sem falar que o que pertence aos outros é sempre muito mais interessante.
─ Para mim, o que considero mais intrigante é o maldito apego ao sofrimento. As experiências ruins, as relações traumáticas, as decepções geram marcas existenciais insuperáveis. Nenhuma felicidade, sorte, conquista ou vitória é capaz de restaurar o estado inicial de alegria ingênua. A marca da insegurança fica ali eternamente ecoando a necessidade de atenção ao perigo. Uma vez perdida a fé na vida, para sempre o martírio do medo de sofrer.
— Concordo com você, em parte, porque tem gente que apresenta uma inclinação natural para as relações desastrosas. Nutrem uma atração mortal pelos ordinários. Não aprendem com a experiência.
— Sim, mas defendo que mesmo nesses casos, onde há um certo prazer no drama, não podemos descartar a existência do apego ao sofrimento. Embora talvez se apresente disfarçado de uma esperança masoquista.
— Pois eu já penso que o maior infortúnio da condição humana é essa necessidade de ser genial. Quanto mais necessitamos dos louros do reconhecimento, mais nos distanciamos de nós mesmos. Fica latente aquele medo de não corresponder às expectativas do outro, de não ser o melhor, o majestoso. Dou crédito às palavras do Freud: “Nós ser muito melhores se não quiséssemos ser tão bons”.
─ Setúbal, aproveite que você está servindo a nossa cerveja e nos brinde com um pensamento sobre a vida.
É assim, quando você pinta aquarela você se põe diante de uma situação que beira a ficção. No momento em que você coloca as tintas sobre o papel tem início uma relação estranha, quase surreal, entre artista e cores.
Veja bem, você sabe o que você quer pintar mas depende da colaboração da tinta.
Você não comanda as cores, elas são surdas aos seus apelos desesperados quando se espalham à vontade e aleatoriamente pelo papel.
Se a superfície estiver seca, elas vão reagir de uma forma. Se o papel estiver úmido, a estória é outra e, claro, vai sempre depender do grau de umidade da superfície. E, por falar nela, a umidade, há outra muito importante, a do ar, que interfere decisivamente na consistência das tintas à medida que deixam os tubos onde jaziam no escuro, compactas e imóveis. Pintar aquarela no deserto do Thar não deve ser a mesma coisa que pintar em Belém do Pará, pode estar certo.
Assim, quando o artista aperta o tubo tem início uma reação que dificilmente ele terá controle completo. Não há diálogo possível com substâncias que se movem ao seu bel prazer. As tintas são manhosas, caprichosas, donas de suas efêmeras vidas. Se espalham da forma que querem e na direção que decidem, independente da vontade da pintora ou do pintor. Ao artista cabe somente tentar corrigir o curso que as cores tomam à sua frente.
Alguns conseguem, outros não. Na fúria de não ver seu talento expresso pelas tintas, muitos rasgam o papel e o atiram a lixeira, encerrando o que as tintas decidiram fazer, se obra de arte ou esboço colorido. Como saber? Não há, e por vezes é um teste supremo de paciência. Mas uma coisa eu tenho certeza é que as melhores aquarelistas do mundo, como a Gemma Capdevila ou a Anna Mason, com certeza sabem conversar com as cores. Elas, assim como os demais expoentes dessa bela arte, seguramente falam a língua das cores, elas falam tintês.
E, você, minha amiga, já aprendeu esse idioma misterioso?
Ainda não, mas me disseram que tem um aplicativo de tradução universal que é uma coisa!
A composição de um mosaico de histórias, pode ser aprendido nas páginas de um livro bem narrado, que nos transporta ao momento da escrita do autor.
Se o livro for mal-ajambrado, e não nos levar ao fundo dos sentimentos do personagem, fica difícil ser atraente para um leitor mais crítico, que busca temáticas diferentes, sensíveis ao coração humano.
A desconstrução de uma tradição, serve como alavanca para o desenho de uma nova narrativa, descrita pelos olhos e a percepção do escritor, envolvido na trama de uma obra de arte.
Sendo orgânica, não deve ter um fio desencapado onde o personagem está escorado em outro, como naquele momento em que Pedro ao falar de Paulo, transgride sua narrativa em forma de fofoca, e passamos a conhecer mais sobre Pedro do que sobre Paulo.
O Jornalista Italiano Tomaso Debenedetti costumava transgredir a verdade em seus textos, e como descrito acima, debochava do leitor. Trabalhou entre 1994 a 2010 para jornais locais em seu país de origem e criou uma conta falsa no Twitter onde anunciava a morte de personalidades, e com simplicidade estratégica utilizou aquele espaço, imitando um perfil confiável.
Lançava seu torpedo falso, para minutos depois anunciar que tudo não passava de uma pegadinha, coisa que repetiu por 10 anos, lucrando nessa toada.
Uma delas deu errado, e ele assumiu sua jornada como “campeão da mentira”, como gosta de ser classificado. O mais incrível é que nunca foi processado por suas vítimas de seu ataque verborrágico jornalístico. O que o inspira é “dizer a verdade pela mentira” como definiu Mário Vargas Llosa.
Essas formas textuais ganharam nome atualizado de fake news, e ele escancarou as fraquezas do jornalismo com suas publicações reais e falsas, na primeira página de portais de notícias importantes.
Quando suportamos as confidências de um desconhecido, a revelação de seus segredos nos enche de assombros. Depois disso, devemos situar seus tormentos no drama ou na farsa?
Depende de nossa benevolência ou de nossa fadiga. O fraco de atenção sempre sofre mais que os outros, porque os olhos que o cuidam são cegos.
Igual a uma terra que não cuida de seus mortos, e que provavelmente está sendo governada pela morte.
Não deixe se esconder de você mesmo tão profundamente, pode ser difícil retornar ao mundo dos vivos e de suas rotinas.
Seu destino com dedos cruzados é de responsabilidade unicamente de suas mãos, as mesmas que desenharam em canetas, poesias de sua história.
Os mortos não podem modificar suas esquinas, esses já encerraram as possíveis paixões.
Quanto a você, faça valer seus dias de glória junto aos seus, assumindo decisões escolhidas a dedo. Cada letra tem sua palavra pra juntar, e essa, suas famílias, que podem mudar de ideia, eventualmente de uma só vez.
Reconectar, rever, retomar a amizade – foi o mantra de Clô ao receber o convite para a festa dos 40 anos de formatura. Quarenta! Ela leu a lista de colegas com um sorriso nostálgico no rosto e um pensamento ligeiramente suspeito:
“Que tempos maravilhosos… mais ríamos do que estudávamos, e ainda assim conseguimos o diploma! Milagre puro. Laís, Marina e eu éramos uma trinca imbatível!” Sabiam tudo da vida uma da outra – inclusive os detalhes mais cabeludos.
Só que a vida, essa bagunceira, foi jogando cada uma para um lado. “Como estarão agora? Bonitinhas, como éramos? Ou detonadas pelo tempo, como todo mundo?”
Aí veio o pânico, aquele clássico pânico feminino com data marcada.
Dois meses até o evento. Tempo suficiente para virar uma versão 2025 de si mesma – sem filtro, sem Photoshop, ao vivo e em HD.
Missão Clotilde em modo turbo: -Reforçou a academia (alô, personal trainer); -Clareamento nos dentes (tchau, café e vinho); -Mechas loiras (tom “iluminada e despreocupada”); -Botox e uma esticadinha nas pálpebras (cirurgia rápida, que ninguém precisa saber); x Harmonização facial? Quase. Mas faltou coragem. Ainda bem.
Chegou ao evento com a autoestima no volume máximo. O espaço era charmoso, mesas e sofás espalhados, vibe “sunset de senhora elegante”.
E lá estavam elas: Marina e Laís. Reconhecíveis, porém… um pouco vencidas pelo prazo de validade.
“Gastei horrores pra nada. Estão caidinhas. Ufa!”
Mas Clô era educada. E disfarçava bem.
Abraços, beijinhos, aquela conversa-padrão de reencontro: “Casou?” “Tem filhos?” “Trabalha ainda?” “Mora onde?” “E seus pais, vivos?”
Checklist da vida em andamento.
Logo vieram umas lembranças – aquelas piadas internas que antes causavam ataques de riso e agora só rendiam sorrisos educados.
A festa seguia animada: bebida boa, DJ animado, comida de primeira… tudo propício ao tal reencontro inesquecível.
Menos… na mesa de Clô.
Ali, o silêncio começou a pesar como prataria herdada.
Ela olhou para as “meninas” e viu… duas estranhas. Nada da antiga conexão, nenhuma faísca do trio explosivo que um dia foram.
Sem rodeios, soltou: — Gente… que tal dar uma voltinha por aí?
Levantou-se, ajeitou o vestido, ergueu o queixo renovado pelo botox e, ao dar o primeiro passo, lembrou de uma frase que leu num cartão postal ou num biscoito da sorte, sei lá: “O rio nunca passa duas vezes no mesmo lugar.”
E, naquele momento, ela achou a metáfora perfeita.
Não sei se vocês já repararam, mas, depois dos 40, o mundo parece decretar: “Pronto, acabou o estoque de incentivos”. Aos 20, todo mundo te empurra pra frente — “Estuda! Viaja! Conquista o mundo!”. Aos 30, ainda rola um “Vai lá, compra a casa, casa, tenha filhos”. Mas aos 40? Silêncio radioativo.
É como se a sociedade tivesse investido tudo em você e agora só contasse os prejuízos. “Já casou, já doutorou, pós-doutorou, comprou o carro, a casa na praia, aprendeu três idiomas. E agora? Desiste, vai”. Ninguém mais te motiva a recomeçar. Ninguém diz: “Ei, e aquele sonho engavetado? Corre atrás!”. Aos 40, você vira um capítulo fechado no livro alheio.
Só muito tempo depois eu parei e pensei: espera aí, onde foram parar aquelas frases motivacionais que eu ouvia tanto aos 20? “Cara, você consegue! Não desiste, não! Você ainda tem muito tempo pela frente. Tem muitos amores pra você viver ainda. Aprende um quarto idioma, por que não? Você consegue, você é novo, inteligente! Para de sofrer por este ingrato, é essa ingrata. Vai viajar o mundo!”.
Mas o que muda — e o que torna essa fase fascinante — é que você só conta com você mesmo. Precisa encontrar seus próprios motivos pra levantar da cama de manhã. Precisa ser um pouco maluco, porque a felicidade depois dos 40 é uma espécie de maluquice. Se encontrar simplesmente aquilo que te faz feliz e correr atrás. Nessa idade, se for esperar alguém empurrando, a gente nem sai da cama. Aquelas frases bonitinhas — “Você consegue, você chega lá” — param quando você faz 30.
Eu olho pros lados e vejo amigos fingindo contentamento, mas no fundo é um vazio quieto. Onde foram parar aqueles “você consegue”? Talvez a gente precise se incentivar sozinho agora. Ou quem sabe inventar nossos próprios troféus — um idioma novo aos 45, uma viagem maluca aos 50. Porque parar de ser incentivado não significa parar de voar.
A sobrinha perguntou para o tio no churrasco da família: ‘Quando você percebeu que estava fodido e não tinha mais volta?’
O tio respondeu: ‘Desde cedo, nos anos 70, no primeiro dia na escola, aos quatro anos. Eu apenas não sabia expressar em palavras o que sentia, mas sabia que a jornada seria terrível desde aquele momento.’
Sobrinha: ‘Qual era o sentimento?’
Tio: ‘Era o sentimento de que a vida, da forma como era vivida pelas pessoas que eu conhecia, e pelo que via na televisão, não fazia sentido.’
Sobrinha: ‘Por quê?’
Tio: ‘Porque somos escravos e a maioria das pessoas é cega em relação a isso, e por medo e para defender uma falsa segurança, defendem a própria condição de escravos a qualquer custo.’ Sobrinha: ‘Você já pensou em se suicidar?’
Tio: ‘Sempre pensei que fosse melhor ir até o fim, só pra ver o que acontecia, porque de qualquer forma todo mundo morre no fim.’
Sobrinha: ‘Eu penso a mesma coisa, só que na juventude já convivo com pandemia e guerra, e na sua juventude não havia nada disso.’
Tio: ‘Mas você já nasceu com a internet, ela serve como escapismo. Na minha juventude a bizarrice era tanta que você pode imaginar apenas remotamente. Não havia nem mesmo o sentimento pela falta de algo que não existia, como a internet. Na minha juventude havia o medo da AIDS, o racismo era considerado normal, a guerra era em casa mesmo, pra decidir quem escolhia o canal de televisão a ser assistido. Na escola havia bullying, que nem tinha esse nome e era considerado normal, e as crianças eram deixadas ali para se matarem. Esses atos eram praticados sem que os autores sequer temessem o repúdio. Na minha juventude brasileira houve a ditadura, e depois o que se convencionou chamar de fim da ditadura, o que é uma falácia tão cretina quanto todas as mentiras que ouvimos de políticos até hoje. Mas hoje vocês tem a internet e ficam cada um na sua bolha, o que é terrível, mas antes não havia nem mesmo essa possibilidade. Na minha infância e juventude, os mais velhos ora diziam que a juventude deles era melhor, ora diziam que era pior. Isso variava de acordo com os interessem momentâneos dessas pessoas, que na maioria morreram. Os que sobraram estão aí pra você tirar suas próprias conclusões’.
Sobrinha: ‘Por que você não tem filhos?’
Tio: ‘Porque tenho uma mágoa enorme por ter nascido, e não faria o mesmo com outra pessoa. E também porque não tenho condições financeiras para isso. E sobretudo porque tenho essa convicção desde cedo, desde um tempo em que as pessoas mais velhas diziam que com o tempo, eu mudaria de idéia. E também porque seria questionado sobre coisas para as quais não tenho as respostas.’
Sobrinha: ‘Mas eu gosto das respostas que você me dá!’
Tio: ‘Mas é porque isso só nos encontramos de vez em quando.’
Sobrinha: ‘Mas meu pai é obtuso e nem fala desses assuntos comigo!’
Tio: ‘Não sei o que responder sobre isso. Ele deve achar que é errado falar sobre essas coisas.’ Sobrinha: ‘Você tem fama de pegador. Por que nunca casou?’
Tio: ‘As mulheres que mais me intrigavam eram as que me rejeitavam e desprezavam. Mas com a internet pude ver o que elas se tornaram, e se há algo pelo qual sou agradecido na vida, é o fato dessas pessoas terem me desprezado.’
Sobrinha: ‘A sua namorada nem tinha nascido quando você fazia faculdade. Nunca vai casar com ela?’
Tio: ‘A única razão pela qual ela me suporta é o fato de que ela pensa como eu em vários aspectos. Cada um na sua casa é melhor para nós.’
Sobrinha: ‘Ela é rica, bonita e jovem. Por que você reclama tanto?’
Tio: ‘Antes de conhece-la, eu já tinha décadas de uma bagagem que até hoje não sei ao certo como usar. Quando ela nasceu, eu era bem mais revoltado. Hoje em dia eu continuo odiando certas coisas, mas sei que nunca vou poder mudá-las. Continuarão existindo políticos, as pessoas continuarão saindo de casa em dia de eleição, e não apenas votarão nesses políticos, como farão propaganda não remunerada pra eles. Esse foi o primeiro exemplo que me ocorreu sobre coisas que continuo desprezando, mas que provavelmente não vão mudar enquanto houver humanidade.’
Sobrinha: ‘Quais são as cinco melhores bandas de rock?’
Tio: ‘Se você me perguntar a mesma coisa amanhã, ou se tivesse perguntado ontem, a resposta talvez fosse diferente. ‘
Sobrinha: ‘Essa é a parte legal disso. Responda sem pensar muito!’
Tio: ‘Kinks, Husker Dü, X Ray Spex, Jesus and Mary Chain e Big Star. Menções honrosas para Teenage Fanclub e Replecements‘.
Então olharam ao redor. Um outro tio estava bêbado e escolhia só músicas ruins.
O calor voltara, sem dó, piedade ou qualquer advertência de brisas amistosas. Já desgastada do clima instável, como da própria prudência em largar o vício do sedentarismo, Cíntia tinha na ponta da língua todas as séries numéricas que a identificavam:
— Data de nascimento? — CPF…? — CEP..? — Telefone, com DDD: — Sabe seu peso?
Inacreditável como um arsenal de números insiste em sintetizar quem somos. Sorriu, mentindo sobre o real valor de sua altura. Registro facial bem-sucedido, criptografado no sistema sob a forma de incontáveis outros dígitos. Catraca liberada. Mais um número: 853, surgiu no visor digital ao atravessar os braços esterilizados e refrigerados.
Vamos lá. Um passo. Outro. Mais um (já são 3!)
Pessoas em quantidades consideráveis. Nenhum conhecido. Alguns olhares. A maioria perdida entre movimentos ensaiados e ritmos particulares que cada um compartilha consigo mesmo, sem fios, nos minimalistas fones de ouvido.
Detestava, mais do que qualquer outra coisa, o ambiente colorido, suarento e repleto de reflexos, equipamentos e câmeras das academias.
Essa é diferente, você vai ver!
Até agora, nada novo: a manifesta vontade de sair correndo por onde a haviam taxado 853, naquela manhã de janeiro de 2026. R$ 99,90 por 3 meses… Compreendia que não duraria tempo suficiente para descobrir o valor legítimo da mensalidade.
Aproximou-se de uma parede repleta de portinhas. Escolheu a 23. Escrutinou o ambiente na surdina ao deixar seus pertences ali. Não tinha cadeado — anotou mentalmente a necessidade de trazer um na segunda aparição, que faria, se fizesse. Alguns passos para a esquerda. Bebedouro à direita. Um QR code com a programação das aulas.
Retorna ao armário. Zíper da bolsa laranja. Tateia até sentir o celular. Alguém a esbarra.
O que as pessoas veem em ambientes assim?
Encosta a portinhola. Volta ao QR code. Analisa as possibilidades que a deixariam distantes da esteira com vista para a TV de 60‘.
8h06, informa o canto superior direito do seu smartphone. 8h10, aula de alongamento. É isso.
Procura a sala. Porta 5. Lá dentro, lâmpadas tubulares coloridas no forro pintado de preto.
8 mulheres. 2 homens. Sorri cabisbaixa querendo sumir. Escolhe um colchonete no fundo da sala. A professora sobe num pequeno palanque. Sucessão de gestos copiados, respirações contadas no “1,2,3” Suspensão de oxigênio. “6,5,4,3,2…”. E de novo.
Estalo de ossos. Músculos doloridos, pouco a pouco descontraem-se. 45 minutos depois, fim. Está de novo à deriva.
Recorre ao QR code. Próxima aula… zumba… não. 9h30,bike.
Gastar 25 minutos conhecendo a academia? Fingir fazer algo importante no celular? Beber água. Fila no bebedouro. Trazer garrafinha.
O próximo a hidratar-se, curvando o pescoço e exercitando o abdômen involuntariamente, é um ex-professor da faculdade. Sente-se desconfortável. Abre uma rede social qualquer e finge curtir tudo o que aparece — finge ou curte mesmo, culpa da aflição.
Ele passa. Ela suspira. Um barulho ao longe. Ganha força. Volume. Balança a cabeça. Novamente o bip bip insistente. Rotaciona o pescoço. Direita. Esquerda.
Fecha os olhos, tentando descobrir de onde vem tal balbúrdia incômoda. Inspira. “1,2,3” Abre os olhos. O teto mostra números luminosos.
7:01. Levanta o dorso. Pisca. Não entende. Não passara de um sonho. Desliga o alarme com a mão esquerda e volta a dormir. Pelo menos não era real, essa história de academia…
—
De novo o alarme. 7:06.
Levanta-se atordoada. Banheiro. Lava o rosto. Escova os dentes. Os cabelos são um amontoado de nada com nada.
Cozinha: limão, água, pão e manteiga. Cafeteira: café. Banheiro, novamente. Topper. Camisa de manga curta. Calças legging. Meias. Protetor solar facial. Ensaia um sorriso. Penteia os cabelos. Rabo de cavalo. Bolsa laranja. Tênis. Fecha a porta.
Elevador. 2º andar. Pátio descoberto. O calor voltara, sem dó, piedade ou qualquer advertência de brisas amistosas. Já desgastada do clima instável, como da própria prudência em largar o vício do sedentarismo, dirige-se, por 1ª vez a uma porta envidraçada de bordas pretas. Entra. Recepção. Cíntia tinha na ponta da língua todas as séries numéricas que a identificavam.
— Data de nascimento? — CPF…?
Olha com uma sensação de estranha familiaridade para o seu reflexo, quadruplicado. Um espelho está de frente para um outro. Atrás de si, um visor acende. Barulho inquietante. Um número pisca.
7:01
O alarme — em algum tempo, no mesmo lugar — se prepara para tocar outra vez.
Desconfio que, em vidas passadas, andei frequentando a Casa Verde do Simão Bacamarte. Não que eu me dedique profissionalmente ao estudo da loucura, mas traçar o perfil das manias alheias é um talento que cultivo com facilidade — e um tantinho de desfaçatez.
Outro dia quase me levantei da mesa e despedi com uma desculpa qualquer quando um amigo passou álcool num copo de vinho antes de se servir. Mas o leitor há de convir que essa neura de contaminação acaba com qualquer romantismo de um encontro, não?
E o que dizer daquelas pessoas que, em qualquer situação, soltam um sonoro “Louva Deus”? Um cacoete religioso? Ou uma saudação digna dos fanáticos de Handmaid’s Tale — “Bendito seja o fruto”? Só mesmo rebatendo com um bem-humorado “Que o Senhor abra”.
Repassando as loucuras que identifico nos outros, cheguei ao fascínio por simetria. Convidada para um almoço, a pessoa entra na minha casa e pede permissão para arrumar o quadro que está um pouco fora do alinhamento. Em seguida, comenta que a mesa de almoço não está centralizada com o lustre, e termina perguntando se eu não me importo dela alinhar os talheres. Dou aquele sorriso bem-educado, e digo “fique à vontade”, com vontade de trocar o “i” pelo “u”.
Cheia de razão (assim eu achava), rotulei esses comportamentos como TOC — Transtorno Obsessivo-Compulsivo. Pobres criaturas, devem sofrer com isso… por que não buscam uma ajuda psicológica?
Até que, outro dia, ao organizar as pastas no computador, percebi que estava renomeando aquelas que fugiam do padrão. Se começo usando maiúsculas no nome da pasta, todas precisam estar em maiúsculas. Inadmissível misturar!
Epa… será que eu também tenho o meu TOC?
Mas vejam bem: nem de longe isso me preocupa. Afinal, como já dizia Bacamarte, de médico e de louco todo mundo tem um pouco. Agora, com licença que vou ali renomear umas pastas fora do padrão.
Toca, por primeira vez em meus ouvidos, uma canção intrigante: I’m All I Got, de um grupo chamado Dead Brothers. O nome não passa incólume. Há algo ali que cheira a flores murchas, deixadas tempo demais num vaso a mercê de sabe-se-lá-o-quê. Palavras que já foram belas, mas agora exalam um odor agridoce, quase fétido. O conjunto de palavras ressoa, reprisa, ritmada insiste — e me tira por completo da leitura. A melodia dançante também, em contraste quase cruel. Passei a ter o hábito de usar fones de ouvido para ler quando o entorno me entristece — ou quando quero me sintonizar com o presente, totalmente. Sinto-me dentro de uma redoma, protegida. Se ‘todo homem é uma ilha’ – ed è vero –, cada um de nós cria seus próprios mecanismos para embarcar nessa solitude que somos nós mesmos, mesmo quando ela se parte, se afunda, some e sangra.
Entre páginas de milhares de livros que me circundam, móveis com mais biografia que meus avós, objetos que simbolizam tantas memórias, minhas pernas se cruzam, esticadas, sobre a superfície gentil da escrivaninha. Respiro fundo. Concentro-me, tortuosa, entre letras recém-nascidas de músicas estrangeiras, páginas que exalam palavras traduzidas para meu idioma materno; minhas mãos carregam camadas de esmaltes que se complementam — resquícios de réveillon — escolhidos pelo tom de amarelo e por trazerem “artista” em seu nome de cor. Pequenas combinações concentradas em 8ml, garantia sem devolução de autoestima.
Só escolho meus esmaltes pelos nomes. Assim como escolho minhas vestimentas pelo que meu coração me nomeia, diariamente. Orgulho-me por não ter um estilo único. Talvez porque estilos fixos também acabem cheirando a flores mortas quando insistimos demais neles. E lá se vão dias úteis neste ano com cheiro de caderno novo. E, ainda assim, tempestades e raios me lembram da promessa que me fiz de não cometer mais os mesmos poemas, nos mesmos versos e estrofes — como quem tenta não repetir feridas já infeccionadas. Pele cicatrizada é cura, não fecho-éclair. É tudo novo, me repito. É página em branco.
Eis o ponto em que a pele deixa de ser sombra da morte, perde o espanto e se torna rotina.
“Suportar” e “sobreviver”: dois verbos que carregam duras penas, tão necessárias a nossa existência. Duros e honestos verbos… Como ter uma vida longa sem tais ações? Impossível. O provável é acostumarmo-nos a elas. Torná-las menos pesadas aos sentidos. Abusar, para isso, do lado racional do qual fomos providos. Quem sabe aceitar que algumas palavras nem sempre se perfumam para nos encontrar; vêm fétidas e com mal hálito, para que percebamos o quanto ainda estamos vivos.
Ao zanzar neste sábado, pela casa que é parte minha e, ao mesmo tempo, reflexo parcial de tantas existências, li um poema que decreta: a garganta fica entre a mente e o coração. Dei-me, assim, de encontrão com as minhas infecções de garganta, quando pequena. Lembrei-me de como sangravam. E de como aquela dor era infinitamente menor do que os sangramentos atuais da mente e do coração.
“Adultez”, chamar-se-ia isso, fosse um potinho de esmalte. Padecem desse mal todos os abençoados com vidas longas — ou relativamente alargadas. Sentimos. Experimentamos. Falhamos. Nos envaidecemos. Choramos, seja por alegrias ou arrasamentos da alma. Estamos vivos. Existimos. E seguimos colecionando momentos e memórias neste labirinto que traz placas em línguas diversas (traduzirei para vocês):
Minha filha se diz triste na noite de Natal. Informo-lhe que ninguém é alegre ou triste conforme o calendário. Explico-lhe que, por uma espécie de imposição da data, todos “devemos” nos sentir alegres nessa ocasião. Como nem sempre isso acontece, fatalmente confrontamos nosso estado com o que a regra determina – aí sim, acabamos ficando tristes de verdade. Ou seja: entristecemo-nos por não estarmos tão alegres quanto se exige que estejamos. É um típico fenômeno de época, alimentado por uma economia intrínseca ao calendário. E ninguém é alegre ou triste conforme a folhinha – repito-lhe na tentativa de tranquilizá-la.
Minha filha agora se diz mais triste por “não ter entendido nada”.
* * *
Aconteceu quando eu voltava do Recife, à tardinha, e já estava quase na estação rodoviária. Perto havia um bar, e no bar alguns homens. Um pouco ao lado, deitada entre os homens que bebiam, uma vaca. Ninguém lhe prestava a mínima atenção. Malhada, episcopal, a vaca reinava entre os homens que tentavam esquecer – erma de si mesma, ela já naturalmente esquecida. Talvez por isso ninguém a percebesse. Era apenas mais um espírito evadido, um ser sem angústia nem pressa no manso burburinho do bar.
Eu me dei conta de que só ali aquela cena era possível. Somente num bar, e com tamanha naturalidade, uma vaca dividiria o espaço com o homem – os dois fazendo quase a mesma coisa. Tentasse o animal entrar numa igreja – por exemplo, na missa de domingo à tarde – e seria enxotado com horror. Esqueceriam o nascimento de Cristo entre cabras, porcos, jumentos, e rechaçariam essa vaca ao vivo. Pois no templo, conforme se vê nos presépios, ela só pode figurar como ícone, adorno, jamais com suas orelhas e seu rabo.
A imagem desse quadro me ficou, confundida com a gravidade do crepúsculo. A vaca tão solene e tão pura, com o seu olhar desabrochado e líquido. Entre homens desocupados e sozinhos, que ali pastavam a vida.
* * *
Mais um ano se passa. Meu primeiro e natural impulso é dizer: e eu com isso? Queria ignorar a data, a convenção expressa na folhinha, e atravessar indiferente a passagem de um ano para o outro. Ignorar o tempo, como ele nos ignora. Acordar no novo ano sem ter me despedido do anterior, isto é, sem ter passado pela ingênua solenidade com que, vestidos de branco ou azul, nos postamos à beira de um túmulo invisível, vendo enterrar-se um cadáver feito de pequenas partes de mim, de ti, de nós.
O ano velho é o rótulo sob o qual alinhamos nossos feitos – tantos deles, em verdade, malfeitos – a fim de proceder a uma espécie de contabilidade filosófica. Através dela buscamos provar que os bons momentos compensaram os maus, e que a vida, no fim das contas, vale mesmo a pena de ser vivida.
Com filosofia ou não, o certo é que o tempo passa. É melhor não resistir e encarar isso com bom humor. Imaginando, por exemplo, como cada um dos tipos abaixo saúda a chegada do novo ano:
o otimista: “Um ano a mais!”
o pessimista: “Um ano a menos…”
o religioso: “Um ano… Amai!”
o niilista: “Um mal a menos.”
o agiota: “Um mais ao ano.”
o leiloeiro: “Um ano, e quem dá mais?”
o condenado: “Um ano, ao menos!…”
o asmático: “Um ano. Ar menos.”
o indiferente: “Mais ou menos um ano, tanto faz.”
o medíocre: “Um ano mais ou menos.”
o matemático: “1 ano é + e –”
o banqueiro: “Um ano e mais, mais, mais…”
o indeciso: “Um ano, a menos que…”
o belicista: “Um ano. Armemo-nos!”
E um proveitoso 2026 para os leitores que tiveram a paciência de chegar até aqui!
No ano que começou agora há pouco desejo menos organização e mais espontaneidade. Mais espaço para contemplação e menos para observação.
Compromisso só nas obrigações, porque são implacáveis. No mais, vamos levando em espirais diáfanas.
Planejar é preciso, certo, mas não pode ser um ato imperativo em nossas vidas. Umas boas doses de imprevisto, reunidas a golpes de vista felizes, não farão mal algum.
Caminhar por caminhar. Espiar e deixar o olhar seguir até onde a vista alcança para só aí decidir se vamos por essa estrada ou por aquela ou, até, por nenhuma.
Que nossas escolhas de onde ir possam seguir o que Robert Frost soprou suavemente em seu poema O caminho não percorrido:
“Duas estradas divergiam em uma floresta, e eu… Peguei o menos percorrido, E isso tem feito toda a diferença.”
Sim, fazer a diferença por nossas escolhas ainda é uma sábia opção.
Que no próximo ano uma parte dos nossos movimentos sejam em direção ao estático. Parar por parar. Parar porque é bom.
Olhar para um lado ao invés do outro e vice-versa.
Escutar, falar, sorrir, chorar.
Conter-se, expandir-se, rir-se.
Deitar, dormir, sonhar.
Sonhar acordado, sonhar enlevado por uma doce lembrança.
E, para encerrar, desejo que tenhamos mais confiança e que olhemos mais para dentro de nós mesmos. Atitudes que só podem nos trazer coisas boas.
Nem que nos conduzam somente à citação de Walt Whitman, na “Canção da estrada aberta”:
Certa vez, um grande amigo do poeta Olavo Bilac queria muito vender uma propriedade rural, um sítio que lhe dava trabalho e despesas. Ele reclamava que era um homem sem sorte, pois, as suas propriedades davam-lhe muitas dores de cabeça e não valia a pena conservá-las. Pediu então ao amigo poeta para redigir o anúncio de venda do seu sítio para publicá-lo no jornal, pois, acreditava que se ele descrevesse a sua propriedade com palavras bonitas, seria muito mais fácil vendê-la.
E assim, Olavo Bilac, que conhecia muito bem o sítio do amigo, redigiu o seguinte texto:
“Vende-se encantadora propriedade onde cantam os pássaros, ao amanhecer, no extenso arvoredo. É cortada por cristalinas e refrescantes águas de um ribeiro. A casa, banhada pelo sol nascente, oferece a sombra tranquila das tardes, na varanda”.
Meses depois, o poeta encontrou seu amigo e perguntou-lhe se tinha vendido a propriedade.
— Nem pensei mais nisso — respondeu ele. — Quando li o anúncio que você escreveu, percebi a maravilha que possuo. Desisti de pronto.
Algumas vezes, só conseguimos enxergar o que possuímos quando pegamos emprestado os olhos alheios.
Isso nos serve de lição para melhor observar também o outro, que nos cerca e anda de mãos dadas conosco, e sorri todos os dias quando tomamos a iniciativa de uma bela atitude.
Por vezes não sabemos o valor do que nos envolve, e nos parece que ainda não acordamos de um sonho onde tivemos que dizer adeus.
Mas como sobrevivemos, percebemos que onde quer que andemos, gostaríamos que fossemos seguidos. Porque ninguém tem o amanhã garantido, e por isso necessitamos amar toda noite como se fosse a última.
Se o mundo acabar amanhã, quem você gostaria que estivesse a seu lado?
Ou, se a festa tivesse terminado e nosso tempo na terra também, quem você gostaria de abraçar, só por mais um instante?
Às vezes, não tiro uma foto do momento que estou contemplando, porque ela vai atrapalhar. O mais importante, é só ficar nele, como está se passando em meus olhos, transmitindo uma sensação única que a fotografia não vai gravar, porque as coisas belas não pedem atenção.
Escolha seu melhor para oferecer a quem deseja atrair, vai que o outro pense da mesma forma e aquela ponte emocional tão esperada, se perpetua como exemplo.
Meu coração transborda desejos teimosos, daqueles que povoam o peito da gente e não arredam pé. Que no ano que se aproxima o amor seja maior que o ódio, e nenhum ser humano neste Brasil de meu Deus fique sem almoçar, tomar café da manhã ou jantar.
Que o carnaval, de fora a fora no Brasil, siga firme e forte, pois brincar ainda é coisa séria, e a fantasia é o que nos ajuda a suportar a vida. Desejo que os homens, ao se separarem de uma mulher, ergam a cabeça e saiam andando, sem jamais cogitar levantar a mão. Que cada vizinho sorria e dê um bom-dia ao triste e solitário, todos os dias, sempre com um sorriso de acompanhamento. Que o amor pela leitura contagie crianças, velhos, idosos, homens ou mulheres.
Desejo que filmes, livros, exposições de arte, música e poemas — tudo isso que chamamos de cultura — entrem na cesta básica de todo brasileiro. Ainda que aprendamos a conviver com quem pensa diferente: o que votou no outro candidato, o que curte outra música, o que nasceu em família oposta à nossa. Que essa pessoa jamais seja inimigo, mas tratada com respeito e cordialidade, até nas redes sociais.
Que quem gosta da cachacinha beba só o necessário, sem exageros; que o amor jamais saia de moda, e tenhamos liberdade para amar e desejar quem quisermos. Que a luta por um mundo mais justo não nos tire os olhos do amor, guiando escolhas políticas e relações privadas. Que ninguém saia a roubar o bem alheio, mas conquiste desejos com trabalho digno e condições justas. Que apreciemos as coisas supérfluas da vida, não só o essencial.
Que os jovens redescubram o prazer da vida ao vivo e a cores, sem telas o tempo todo; que vivamos em harmonia com peles, finanças e idades diferentes, velhos e moços aprendendo uns com os outros. Que ninguém fume exageradamente, que ignoremos desaforos no trânsito, e que quem tem fé seja respeitado — assim como quem não tem. Esses são os votos mais sinceros do meu coração para o ano que vem. Até a próxima.
Depois de muitos anos de resistência, Brasilino, respeitado pesquisador brasileiro, aceitou sair de seu país e ir fazer uma palestra na maior universidade dos Estados Unidos.
Os norte americanos estavam eufóricos por conseguirem levar ao seu país um dos responsáveis por grandes contribuições no ramo da saúde nos últimos anos. Seu Brasilino, no entanto, não se sentia da mesma forma e sempre viu com maus olhos a saída de terras brasileiras.
Logo ao descer do aeroporto, ele foi abordado por uma série de jornalistas americanos que disputavam espaço para ver quem seria o primeiro a fazer uma pergunta. Então, uma bela repórter ostentando cabelos loiros e olhos azuis indagou o brasileiro:
— Qual é a sensação que o senhor sente em palestrar na maior universidade do maior país do mundo? — Perguntou em inglês.
— Maior país do mundo? — respondeu Brasilino em português.
— Em inglês, por favor. — pediu a repórter em inglês.
— Eu sou brasileiro, falo português.
— O senhor não sabe falar inglês? Como pode um dos maiores cientistas não saber falar inglês? — seguiu a jornalista em tom mais debochado ainda falando inglês.
Brasilino limitou-se a agradecer a todos os repórteres presentes (em português) e dizer que estava cansado em razão da viagem e que iria descansar.
Após sua declaração, um furioso repórter gritou para o brasileiro em inglês:
— Você deveria respeitar o nosso país, sem ele nada do que você descobriu seria possível!
Brasilino então, respirou fundo, deu meia volta a foi até os jornalistas. Sem dar espaço para nenhuma pergunta, ele começou a falar:
— Eu sou do Brasil. Minha terra possui riquezas sem fim. Essas, muito antes dos colonizadores chegarem, já eram utilizadas por nossos indígenas para viver. Fomos extorquidos pelas grandes potências mundiais de forma sequencial, cada uma no seu respectivo momento de hegemonia. Ainda assim, temos o país mais lindo da face da terra. Falo não só de nossa natureza, mas também de nossa cultura. Eu venho do país onde nasceu o samba, a bossa, uma música popular riquíssima. Um país que produziu Gonzagas, Gonzaguinhas, Chicos, Caetanos, Gals, Grandes Otelos, Nelsons Pereiras dos Santos, Glauber Rochas, Miltons Nascimentos, Cassias Ellers, Marias Bethanias e tantos, mas tantos outros grandes personagens. Vocês acham mesmo que eu irei concordar que o país de vocês é o maior do mundo?
Brasilino falou tudo isso em um bom e sonoro português. Depois, pegou suas malas e entrou novamente em seu avião. Sentado na cadeira, só disse mais uma frase:
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