Numa ocasião em que eu estava (como das outras vezes) prestes a me naufragar no abismo do delírio, houve um sorriso de dentes postiços.
Mas eu já não queria mais cair na cilada do amor fugaz e preferia estar quieto e fugir para longe do alcance de uma outra decepção.
Então eu me internei num hospício e amarrei as minhas mãos ao pé de uma árvore frutífera de onde eu poderia escavar o chão de barro.
Ao fim do terceiro dia de psicopatia veio a diretora dizer que eu deveria partir para um lugar que não sabia e me deram um endereço e o contato.
Era um lugar acolhedor e distante coberto de grama e cerca de arame mas quando fui atravessar a ponte um cão vampiro me atacou de noite.
Sobrevivi como alguém que se esqueceu da longa noite passada e caminha como se o dia estivesse amanhecendo de novo, apesar do rastro de sangue e a boca seca.
Havia uma casa deserta e eu pensei em largar tudo o que eu não nunca tive e vir morar aqui no meio dos bichos que comunicam-se através de sinais e apitos.
Lembro de uma escada pintada de verde e uma mulher bonita que veio me atender com as mãos estendidas e um sorriso encorajador para que eu dissesse tudo.
Não havia o que contar além do fato de eu ter andado ausente e perdido e que, nesse período, eu havia criado enredos irreais para me manter vivo.
Tudo era então uma simples questão de fechar os olhos para os pássaros e viver tranquilo como os homens banidos de si e que se refugiam no labirinto do amor.
Ai que delícia que é poder acordar e dizer que estou vivo, mesmo não tendo nada ao redor a não ser o microfone em que digo isso e acompanhar o seu eco no abismo.
Nada consta. Consta que seja um nada em face a uma constância de extremos inarredáveis. Enfim um nada consta sobre outro consta um nada — A vida incerta do homem — Nas folhas gastas do mundo não consta nada em detrimento desse nome. Um simples nome em meio a tantos outros no arquivo de uma gaveta metálica.
“o peixe sabe de tudo e nada” autoria desconhecida, século XIII
tenho dois meses para morrer o ódio me circunscreve como camadas de água que vem inundando tudo, desde as primeiras células aos últimos fios de cabelo e são águas salobras, escuras de quando faço a descida da ponte para beber desta água, o líquido, mas ai, tem gosto de peixes putrefatos peixes analógicos e peixes digitais.
“São voltas da vida, voltas da vida”, como dizia o enfermo Valdemar em seu leito de morte e honradez.
lembro de ser abominado pelo meu próprio sangue, por ser alcoolizado e desistente (“mas eu não sei por que me sinto assim, vem de repente um anjo triste perto de mim”). Ah, que merda! e algumas e diversas era esse o meu mote para a distração em histórias em quadrinhos e as primeiras letras e composições em cadernos.
sessenta anos, soa o sino em meu tímpano.
meu prazo e o peso desta incongruência dobra-me o pé direito na sandália surrada “Casa da Eternidade”, que em hebraico se escreve, bet kevarot, mas já não sou digno de cheirar o ar, a água límpida, o pensamento puro, inoxidável.
deverei ficar circunscrito a este cemitério de angu, atolado até os joelhos junto com as fezes dos porcos que se procuravam alimentar para o sacrifício final, num circo fúnebre onde seriam então recheados com “pêlo de gato, pêlo de um aleijado, chocalho de cascavel, pés de rã, orelhas de sapo, dentes de cão e garras de coelho”, para o cardápio da criança ingênua pensando que ao sair da escola, ah,
e ele pensava, defeituoso e ingênuo das Gerais “chegando em casa vou pegar uma jantinha”. o controle 44 era uma tecla onde soava uma música em todos os dias (July 28th) e era singela como as lembranças que não puderam ser nesta (sic) encarnação: “lembrei de nós, do que ficou, se ficou não vai ter final”.
mas antes há de vir o controle 72, do aniquilamento, da vida quando se torna um fardo pestilento, e eu bato a cabeça no travesseiro como uma lagartixa inútil, de olhos arregalados e o estômago e o cérebro entupido de remédios num quadro consolidado e sem volta, assim como do meu pai.
“São voltas da vida, voltas da vida”, como dizia o enfermo Valdemar em seu leito de morte e honradez.
queria ter a grandeza e a percepção da vida num leito de hospital para morrer fazendo este balanço isento de que tudo. “são voltas da vida, voltas da vida”, e no dia seguinte o Sr. Valdemar já não acordava mais. que venha esta noite, em mim também, ó morte, como num plenilúnio será que, depois disso, a vida deixará de dar as suas voltas? acho que não. o que eu tenho hoje são resíduos, resquícios de ressaca e sequelas “sofrendo com as calças e tudo” como o parente eunuco já dizia,
e o que quer que isso tenha significado para ele de pés em perpendicular. durante toda aquela noite de veneno e cobra eu implorava o advento da morte para, ao menos, dentro dos dois meses subsequentes, eu pudesse acordar, invariavelmente menor, com um resto de vida e uns versos de circunstância como esses de agora e me faço então um urso plausível, criando forças para criar em meio a esse caos de tantas dores e os músculos retesados repuxando no braço como fosse me virar do avesso, o que faz com que a minha cabeça não consiga pensar mais e eu lanço tudo no livro das horas, antes de fechar a brochura contábil.
“A Solidão Clandestina” foi demais e única companhia, amigo, falecido antes de mim. “O Himalaia de um Vaso” era alto demais para eu escalar, falecido conterrâneo, e então eu caía de borco com a cara no meio do barro, palhaço, cheio de livros e dentes partidos.
Se ao menos eu tivesse tido, o quanto antes, a droga de um buril e punhais amolados.
Um escritor nunca escreve sozinho… Antes, escreve com todas as vozes Que sussurram a todo instante histórias e versos Acertos e desacertos Melodias e ilhas Desconcertos…
Sou Cecília… Oswald, Mário, Carlos… Andrades! Sou também Bandeira!
Camões, Pessoa, Castro e muito mais.
Sou Clarice… Veríssimo, Graciliano, Rosa, Sou também o cais.
Jorge e Murilo e muito mais.
Sou o que sou: olha só os tais! Pouco, muito… E até coisas banais.
E desfaço o ser quando entender… e é o que basta, mas
não sou sozinho, sou inteiro, sou vários, por vezes inabitável, propenso e líquido
e, ao mesmo tempo, uma cidade inteira contrassenso
Sou Mia, Leminski, Milton Caetano! E não há engano!
Sou Machado E o texto, ironicamente, É mais afiado.
Sou Carlitos, o vagabundo, Sou parte itinerante
Das lembranças do mundo! Sou e não sou a cada hora. E o relógio não tarda.
Agora Sou todos os textos e canções Sou todas as rimas e emoções
Um escritor nunca escreve sozinho… Antes, escreve com todas as vozes Que sussurram a todo instante histórias e versos Acertos e desacertos Melodias e ilhas Desconcertos…
foi preciso que eu fosse envelhecendo para entender (em parte) o erotismo tardio nos poemas de Drummond.
é que precisamos ir perdendo para poder reconquistar. é preciso ir morrendo pra aprender a gostar da vida e tentar (quando não é mais possível) usufruir da beleza da água
Cinco anos depois da pandemia ser anunciada, revisito este texto que nasceu em meio ao isolamento — ecos de um tempo que ainda ressoa.
O horizonte anunciou um desafio Na época que traria Tanta luz e liberdade Chegaram tempos de trevas Fomos convidados ao exílio Um inimigo invisível Uma tal gripezinha Que surgia na China E, de repente, fez vítima, Seu José da esquina E com o perigo iminente
Me isolei Nos tempos das quaresmeiras Roxas como um suplício Pré-milagre de Cristo
Me isolei Ou melhor, nos isolamos Em um paraíso distante Em um refúgio externo Ou no silêncio que guardo
Me isolei Perdi a vaidade Tentei assumir os brancos Quase raspei os cabelos Mas recobrei a sanidade
Me isolei Adotei duas gatas Meu amor surtou Elas ronronaram Ele se apaixonou
Me isolei Quis morrer Quis sumir Quis viver Ressurgi
Me isolei Perdi um tio Perdi uma prima Chorei Como você também chorou
Me isolei Conversei com amigos Voltei a falar com meus primos Me senti parte de algo Dentro do meu vazio
Me isolei Fiz máscaras de beleza Pintei as unhas Emagreci Engordei
Me isolei Vi ministros humilhados Nossos poderes desnudos Ouvi o que não queria Falaram o que não devia
Me isolei Acordei de maneiras várias TPM´s, alegrias Senti saudades Do que não tinha
Me isolei Li tantos livros Escrevi quase diários Poemas curtos Contos que criei
Me isolei Descobri mais de mim De você Ou até do outro Já nem sei
Me isolei Fui amiga do sol Companheira na chuva Me perdi Me encontrei
No silêncio sepulcral desta noite abro a janela e recebo a visita do demônio. Juntos travamos um pequeno diálogo acerca da destruição do mundo.
Depois percorremos os cemitérios e os ninhos dos pássaros agourentos, respiramos o hálito da morte e compactuamos da miséria dos homens.
A noite era fria e indiferente aos nossos propósitos de celebração. Com dedos trêmulos cavamos o altar de nosso macabro ritual.
Antes, porém do sacrifício final fomos resgatar a memória dos corpos e garantir a permanência dos zumbis sobre a face andrajosa do planeta.
Abrimos um caixão e uma brisa vaporosa, que era ao mesmo tempo fúnebre e sensual, despertou nossos instintos de espécie e pouco depois e para sempre estava consumado o ato lascivo e sagrado.
Chegamos depois ao altar fatídico, e sob asquerosos protestos de ódio à vida social e fútil dos vivos, pegamos os punhais do sacrifício e nos entregamos ao suplício eterno.
Nossos filhos nascem cegos pela poeira do nosso tempo. Nós ainda enxergamos porque já entendemos o mundo a partir da poeira que há nele, e que não nos incomoda muito.
Quando acordei do coma eu já não tinha mais a mobilidade de antes. Olhei para as paredes de vidro do isolamento e já não tinha a mesma visão de antes a mesma audição de antes.
O mundo parecia ser outro.
Perna e braço direitos estavam paralisados, dormentes e um sono de letargia na noite fria com pedras de gelo no peito, do lado esquerdo, assim penso.
O mundo já não era o mesmo.
Dois dedos do pé esquerdo haviam sido afetados e minhas afeições e percepções já não eram as mesmas. Fúria de não ter sido antes.
Minha intimidade e meus defeitos haviam sido expostos como escaras do tempo.
Nunca mais quis tirar fotografias.
Havia um corpo estranho no meu corpo fragilizado e uma tela no estômago de baixo para cima eu havia sido atingido por um golpe do destino e várias cirurgias.
Não tinha mais condições suficientes para poder trabalhar, sobreviver e tive que depender de apoio, de cestas básicas da vida como um doente a quem falta alguma coragem.
Remédios para a goela grande das farmácias.
Acordei como quem entra no pesadelo e já não podia sonhar acordado ou dentro de uma noite normal e previsível. O eixo de tudo continuava gasto como o eixo do mundo, ANTES.
– Fala o poeta de vanguarda: A estrutura do verso está invertida em meu caleidoscópio. Preciso de uma máquina rápida e perfeita para fazer uma circuncisão mental: “Quero que a estrofe gravada ao jeito do vídeo cassete saia nítida, sem um defeito”.
– Fala a crítica especializada: A infraestrutura do verso está evoluída em meu laboratório. Preciso de um computador rarefeito e sem defeito para efeito de análise poética: “O crítico é um digitador, digita tão completamente que chega a digitar a dor, a dor que sua mãe sente”.
– Fala o homem pensante: A superestrutura dos acima está equivocada em minha concepção histórica. Preciso de uma filosofia autêntica e própria agora para escrever um poema-amostra: “A sombra projetada de um homem exclui o mecanismo da repetição alheia, pois a condição intrínseca dele mesmo exige que seu poema se faça de ideias e despreze a vida enquanto justificativa para o erro de se caminhar junto ao tempo”.
– Fala um observador imparcial: Poesia significa abrir caminho para o abismo e pedir que nos devolvam o nosso sonho antiatômico.
hoje eu mordi um chumaço de papel higiênico para estancar (ou tentar conter) o sangramento da língua dilacerada: como um cadáver antecipado que devora o seu próprio sudário.
O primeiro verso é um pouco como o ar Palavras soltas, palavras para cá e para lá Mas mãos cuidadosas vão caçando no brincar E o céu poético se ordena e tudo lá está.
O quinto verso, já encorpado, é como a terra Palavras fortes e consistentes que criam raiz E mãos habilidosas escolhem no tempo de espera E o chão poético é desejoso e tudo diz.
O nono verso movimenta-se ágil como a água Veloz como as corredeiras e quieto como lago Percorre a vida a noite inteira e depois deságua
E quando tudo parece a morte – derradeira cena As cinzas das brasas voltam ao natural estado O último verso dissolve-se e é o fim do poema.
#05 – EXERCÍCIO POÉTICO
E vai e vem e vem e vai e agora cai Um verso e mais outro e outro mais E de novo, mais um e mais um e mais um E a rima certeira se aconchega em “algum”
E vem e vai e vem e vai e de novo cai Mais um verso e mais outro e outro mais A rima, no momento, se aproxima do “cais” E então, a estrofe, mais uma, vai…
E assim segue o poema um pouco escorregadio Inteiro, em pedaço, movediço e quebrável Todo, completo e depois o vazio e o nada!
E assim segue o poema um pouco vadio O primeiro ou o último, inteiriço, mas mutável Item por item, som a som, palavra por palavra
#04 – TEMPO
Horas… as horas… é o tempo que passa e passa o tempo todo o dia inteiro independente do que faça ou não faça devagar e impreciso ou certo e ligeiro.
Curioso é que tudo muda nessa trama: o sentimento que se sentia já não sente o amor com que se amava já não ama todas as coisas passam, assim, de repente.
No fim de tudo, até os sentidos somem e transitamos entre o que há e o que não há: o improvável, o contraditório, um senão…
Tempo, palavra antiga, antes do homem… Marca do que foi, do que é e do que será máscara de sonhos, momentos, desilusão.
#03 – LÍNGUA
Língua breve, toda clara, toda escura, Aos poucos caminha, para, continua. E entre o areal, a bruma, a leve chuva. A face se mostra, inquieta e muda.
Língua instante – objeto nada – rara, pouca. Para, continua, para, tonta e louca. Ensaia um grito, uma palavra, outra, A voz se insinua, miúda e rouca.
No entanto, nas contradições do descaminho, Faz-se a língua na própria língua Faz-se o verso em todo o canto.
O poeta, imagem irreal, o instinto, Busca a palavra, suga-lhe o sentido. Regurgita o poema sob aplausos e espanto
#02 – SOMBRAS, PEDRAS E RIOS
Sombras, rios, sussurros ou delírios? Delírios, sombras, rios ou sussurros? Pedras, muitas pedras correm com os rios. Com os rios correm os murmúrios.
Rios, sussurros, delírios e sombras. Pedras, muitas pedras correm com os rios. O resto são assombros e tu contas Que escrevo um poema? Delírios!
No primeiro terceto faço questão: Pedras, muitas pedras correm com os rios. Sombras, sussurros, mas o que são delírios?
Imaginar que faço o poema e não Importa-me o verso que segue… São fios E tu a acreditares nas pedras e rios?
#01 – É A ROSA
Nas rodas antigas o freio e a vida É a rosa, desgosto, gosto do mundo Frágil, sublime, aos poucos ferida Viva num instante, morta num segundo.
A entreter o poeta num beijo longo Ao desfalecer é pedra, mar e cio, Conchas de luz no céu onde ponho Um poema um tanto escorregadio.
E foge de mim assim como o mar, E foge de mim sem sequer pensar, E foge de mim sem mesmo olhar.
É a rosa, tanto doce quanto amarga, É a rosa metade da madrugada, É a rosa, poeira e mais nada.
“sob a luz de neon, o silêncio cresce como um câncer. as pessoas se curvaram e rezaram para o deus de neon que elas criaram. as palavras dos profetas estão escritas nas paredes do metrô e nos corredores do cortiço” Simon & Garfunkel
era a noite fria e chuvosa então eu saí como um zumbi para criaturas que, como eu, vivem nas sombras.
sob a luz de neon o câncer se espalha e as pessoas se curvam ao som de Simon & Garfunkel.
rezas, aspersões de água benta e nada resolve: o deus de barro que criaram se esfarela como um pó seco.
as palavras dos profetas estão rabiscadas nas portas dos banheiros sujos das rodoviárias promíscuas.
cortiços, neons resplandecentes, silêncios e o escuro breu da noite sem almas a sufocar nos corredores do metrô 147.
palafitas, águas podres, restos de comida, latas, lixo reciclável, “estercoraria argila preta”. O Déjà Vu.
“entre os anos de 1764 e 1767 os habitantes da pequena província francesa de Gevaudan, atualmente parte de Lazere, próximo das montanhas Margueride foram aterrorizados por uma criatura lupina que passou a ser conhecida como La Bête Du Gevaudan ou “A Besta de Gevaudan”
eu já fui quase do tamanho de um touro ou de um urso, meu braço e dedos direitos, em função de sequelas, pareciam garras afiadas e o conjunto todo era de uma aparência medonha.
a primeira mulher atacada conseguiu escapar e chegar até ao seu vilarejo, de onde passou a adotar um comportamento estranho e agressivo. Após esse episódio, seguiu-se um tempo de calmaria, mas próximo ao natal o cântaro de água derramou e mais uma pessoa desapareceu e localizaram os seus restos terrivelmente mutilados em uma ravina. Suspeitaram então que um nobre renegado estava por detrás daquelas mortes, transformando-se em um lobo demoníaco em noites de lua cheia. as pessoas do vilarejo foram ficando incomodadas com essa presença lupina comendo a sua comida, remexendo os campos e invadindo as suas propriedades. Montaram então uma expedição de militares com um arsenal de 50 mosquetes, lanças com mais de dois metros de comprimento, armas que disparavam setas de ferro, bombas explosivas de pólvora negra, armadilhas e correntes para capturar o intruso animal. Os homens da expedição usavam armaduras negras de couro batido e metal cheio de espinhos, cabelos moicanos e pinturas de guerra. As suas peles eram besuntadas com os despojos de uma loba no cio para atrair a fera sanguinária. Esses trajes exalavam um fedor nauseabundo. Tudo preparado para fazer o abate, mas a besta atacou antes e matou várias pessoas da tropa. Então os aldeões revoltados se armaram com ferramentas, paus e pedras e um desespero de iconoclastas, e nada. Tudo fracassou e contrataram então um taxidermista de Paris. A nova expedição ou empreitada contava com 40 caçadores e uma dúzia de cães farejadores. Os homens concentraram-se em uma área rochosa, repleta de ravinas e onde se dispunha de água potável ao que tudo indicava ser o covil da fera. Esta última tentativa se enveredou pela floresta tendo como líder um taxidermista especialista em folclore e superstições e que, armado com projeteis e balas de prata que foram abençoadas pelo pároco local. Chegaram num bosque próximo de Gevaudan onde recitaram uma série de orações e cantigas místicas. E logo a fera, na forma de um lobo, apareceu e então todos dispararam com suas pistolas e os projeteis de pura prata que vararam o corpo da besta que caiu fulminada. Para alguns aquela era de fato a besta carniceira e quando tiraram a máscara de pelos e sangue era um homem com trajes de um maluco monge e assim foi queimado e as suas cinzas espalhadas ao vento. Foi preciso o decurso de algumas semanas até que dessem falta do homem tosquiador e descobriram então que a besta não passava do camponês que tosquiava as ovelhas e se chamava “O Monstro” e a sua descrição batia ipsis litteris com aquilo que eu era na aldeia.
eu já fui quase do tamanho de um touro ou de um urso, meu braço e dedos direitos, em função de sequelas, pareciam garras afiadas e o conjunto todo era de uma aparência medonha, ectoplasmática.
Da Essencialidade da Água
(*) transcrição livre e poética do famoso caso ocorrido na França do século XVIII
Noite fria, sombria, quieta. Ele, calado, encolhido, matutando. Eu, na espreita, alerta, sentinela. Nós, famintos, sedentos, enjeitados. Olhos remelentos, húmidos, arregalados. Corpos esquálidos, caquéticos, patéticos. Dentes que bambeiam, rareiam, vadios. Garrafa vazia, gamela vazada. Burburinho no beco, grupinho do boteco. Garotada excitada, bebida exagerada. Sanduba na mão, churrasco no pão. Passo apressado, casaco amarrado. Rota traçada, calçada apertada. Molecada bloqueada, assustada Carroça encostada, coberta rasgada. Ele apagado, encolhido, deitado. Eu agitado, pescoço esticado. Abano o rabo, procuro um afago. Vira-lata esfaimado, tá necessitado. Não tem culpa, merece um sanduba. Comida de gente, pro cão indigente. Acordo o parceiro, meeiro, hospedeiro. Cão de mendigo, pão repartido. Aninho, carinho, comunhão. Vida de rua, verdade nua e crua. Entre um cão mendigo e um mendigo no chão. O que abana o rabo é que garante o pão.
Acendi uma vela, e me veio De outro plano que não eu, mas era eu, também Acender 8 o 8, deitado, é o infinito 8, em pé, conforme as coloquei tornou-se fogueira
O fogo ardeu, ardeu e enquanto eu vivia o momento presente As duas coisas ligaram-se Dançado ardentemente Pavios como mãos dadas Fogo fátuo, feito, farto
De repente minha atenção recor- tou-se em du-as duas e eu estava um olho em algo, outro na labareda, e quando as parafinas finas de cada vela comprida – enfim fundiram-se em uma só coisa ardente pude ver-me eu como mãe de mim mesma e minha filha – que ainda não veio e mais um ser, nós duas em 1 Três Três Três chamas que dançavam como que se conversassem por horas Anos Gerações E então o ar tornou-se perfume o perfume das mil velas que queimam dentro das catedrais E meu ventre tal qual um oráculo divino Escureceu Não era peso ou dor, Mas silêncio um peso nuvem Um descanso
Hibernação Libertação dentro de uma jornada que se finda
Aos poucos Infinitamente Para Três Três almas Três sabores a vida lançou-se para o infinito para cima potência de início – a chama única dentro do pote de vidro enegrecido abraço de fim. E Adormeci Nova para um novo amanhã
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