quando eu tinha todos os movimentos
eu era sol entre nuvens
aves de arribação
qualquer coisa de menos sólida
por haver.
eu via cachoeiras em meus sonhos
remanso de rios
pedra grande de sentar menino
florestas a esculpir.
Da Essencialidade da Água
quando eu tinha todos os movimentos
eu era sol entre nuvens
aves de arribação
qualquer coisa de menos sólida
por haver.
eu via cachoeiras em meus sonhos
remanso de rios
pedra grande de sentar menino
florestas a esculpir.
Da Essencialidade da Água
Ouço os passos do vento
Ouço e estremeço…
Tempo
Entretempo
Ouço rumores de vento
E penso que sou eu
o vento
e o rumor
Momento…
E o meu corpo
descolado das palavras
é brisa marinha
As ondas me invadem
uma a uma
e a sensação da vida e do amor
preenchem os espaços outrora vazios
preenchem cada canto
o olhar de sal
e as mãos que se quebram de tanto escrever
As ondas e o vento
e o meu corpo ainda intacto
Depois?
Não ouço mais nada…
Repara a frente do verso.
Gêmeas, capa e contracapa
dispensam qualquer remendo.
Abrem-se livres, pois são
asas de uma ave vadia
a desnortear perspectivas
(no alto, embaixo, início, fim).
Enumerar as palavras
no caderno é exercício
árduo de caligrafia.
Um sem-número de imagens
colore o branco entre as linhas,
promove encontros na rígida
geometria das paralelas.
Remexe o varal das letras.
O movimento preciso
revela o que antes estava
camuflado sem disfarce:
conselhos, consolos, sonhos,
denúncias…diálogo aberto
que se guarda a sete chaves.
eu faço versos
como quem martela
as sílabas do vocabulário:
trôpego quase sempre.
eu faço poemas
como quem sofre
as pancadas do destino:
difíceis como sempre.
eu sobrevivo
como quem hiberna
na escuridão da noite:
dilacerado sempre e sempre.
com a música do Led Zeppelin
“since i’ve loving you”
para acompanhar
o meu enterro.
Da Essencialidade da Água
Este pedaço de céu
que me foi permitido entrever
entre os edifícios,
assemelha-se a uma parte de mim
que ainda se resguarda
para nada.
Areia (À Fragmentação da Pedra)
A paixão
é a antessala
de uma paranoia
na qual entramos
com um sorriso largo
de quem não sabe
que penetrou num túmulo.
A Sentinela em Fuga e Outras Ausências
“meu Deus, porque me abandonaste?
se sabias que eu não era Deus,
se sabias que eu era fraco”
Drummond
protagonista
de minha vida pregressa
hoje sou coadjuvante
de ruinas.
nas águas do rio
fiz algumas tentativas
mas acabei afogando
na correnteza.
mudei de fase:
virei pescador
de sonhos frustrados
à beira dos barrancos.
galopei como quem
sonha por estradas
poeirentas de Minas
Gerais, sozinho.
empinei pipas e
papagaios em céus
nevoentos de minha
infância distante.
virei (ou tentei virar)
compositor de vanguarda
e fiz parcerias utópicas
com célebres defuntos.
amante de belezas glacias
as mulheres passaram
por minha vida como
barcos à vela naufragados.
fui poeta das condolências
em velórios de interior
quando o defunto era
o que menos importava.
candidatei a representante
do povo, mas não tinha
propostas viáveis no bolso
da algibeira rota e furada.
Da Essencialidade da Água
.
“e ficam tristes e no rastro da tristeza chegam à crueldade”
Drummond
fica estabelecido que
os meus concidadãos,
mesmo aqueles que
moram em águas-furtadas
serão livres à maneira deles.
fica estabelecido que
apesar do sonho já
ter acabado desde
o anúncio de John Lennon,
será permitido às crianças.
“deus é um conceito
pelo qual medimos
nossa dor”
eu vou dizer novamente
“deus é um conceito
pelo qual medimos
nossa dor.”
essa é a realidade!
Da Essencialidade da Água
.
Vozes inaudíveis
golpeiam meu silêncio
de bicho entocado.
Sou perseguido por fantasmas
(desdobramentos de mim)
e os apascento
em precária unidade.
Sei da existência sem vida
e dos hálitos fétidos da morte
que povoam a noite dos túmulos.
Meu corpo é um mapa
onde se cruzam
os mais diversos caminhos
da imaginação fantástica.
Tenho todos os demônios
empalhados no quarto
e cada dia escolho um
para sustentar os pesadelos.
E sobre os meus despojos
carcomidos pelo tempo
e pelas mortes diárias
que impus a mim mesmo,
nascerá uma flor infernal
para devorar todos os homens.
O Acaso das Manhãs
Numa ocasião em que eu estava
(como das outras vezes) prestes
a me naufragar no abismo do delírio,
houve um sorriso de dentes postiços.
Mas eu já não queria mais cair
na cilada do amor fugaz e preferia
estar quieto e fugir para longe do
alcance de uma outra decepção.
Então eu me internei num hospício
e amarrei as minhas mãos ao pé
de uma árvore frutífera de onde
eu poderia escavar o chão de barro.
Ao fim do terceiro dia de psicopatia
veio a diretora dizer que eu deveria
partir para um lugar que não sabia
e me deram um endereço e o contato.
Era um lugar acolhedor e distante
coberto de grama e cerca de arame
mas quando fui atravessar a ponte
um cão vampiro me atacou de noite.
Sobrevivi como alguém que se esqueceu
da longa noite passada e caminha como
se o dia estivesse amanhecendo de novo,
apesar do rastro de sangue e a boca seca.
Havia uma casa deserta e eu pensei em
largar tudo o que eu não nunca tive e
vir morar aqui no meio dos bichos que
comunicam-se através de sinais e apitos.
Lembro de uma escada pintada de verde
e uma mulher bonita que veio me atender
com as mãos estendidas e um sorriso
encorajador para que eu dissesse tudo.
Não havia o que contar além do fato
de eu ter andado ausente e perdido
e que, nesse período, eu havia criado
enredos irreais para me manter vivo.
Tudo era então uma simples questão
de fechar os olhos para os pássaros e viver
tranquilo como os homens banidos de si
e que se refugiam no labirinto do amor.
Ai que delícia que é poder acordar e dizer
que estou vivo, mesmo não tendo nada
ao redor a não ser o microfone em que
digo isso e acompanhar o seu eco no abismo.
O Jardim Simultâneo
Nada consta.
Consta que seja um nada
em face a uma constância
de extremos inarredáveis.
Enfim
um nada consta sobre
outro consta um nada
— A vida incerta do homem —
Nas folhas gastas do mundo
não consta nada em
detrimento desse nome.
Um simples nome em meio
a tantos outros no arquivo
de uma gaveta metálica.
O Acaso das Manhãs
.
“o peixe sabe de tudo e nada”
autoria desconhecida, século XIII
tenho dois meses
para morrer
o ódio
me circunscreve
como camadas
de água que vem
inundando tudo,
desde as primeiras células
aos últimos fios de cabelo
e são águas salobras, escuras
de quando faço a descida
da ponte para beber
desta água, o líquido, mas ai,
tem gosto de peixes putrefatos
peixes analógicos e peixes digitais.
“São voltas da vida, voltas da vida”,
como dizia o enfermo Valdemar
em seu leito de morte e honradez.
lembro de ser abominado pelo meu próprio sangue,
por ser alcoolizado e desistente (“mas eu não sei
por que me sinto assim, vem de repente
um anjo triste perto de mim”). Ah, que merda!
e algumas e diversas era esse o meu mote
para a distração em histórias em quadrinhos
e as primeiras letras e composições em cadernos.
sessenta anos, soa o sino em meu tímpano.
meu prazo e o peso desta incongruência
dobra-me o pé direito na sandália surrada
“Casa da Eternidade”, que em hebraico se escreve,
bet kevarot, mas já não sou digno de cheirar o ar,
a água límpida, o pensamento puro, inoxidável.
deverei ficar circunscrito a este cemitério de angu,
atolado até os joelhos junto com as fezes dos porcos
que se procuravam alimentar para o sacrifício final,
num circo fúnebre onde seriam então recheados
com “pêlo de gato, pêlo de um aleijado, chocalho
de cascavel, pés de rã, orelhas de sapo, dentes
de cão e garras de coelho”, para o cardápio da
criança ingênua pensando que ao sair da escola, ah,
e ele pensava, defeituoso e ingênuo das Gerais
“chegando em casa vou pegar uma jantinha”.
o controle 44 era uma tecla onde soava uma música
em todos os dias (July 28th) e era singela como as
lembranças que não puderam ser nesta (sic) encarnação:
“lembrei de nós, do que ficou, se ficou não vai ter final”.
mas antes há de vir o controle 72, do aniquilamento,
da vida quando se torna um fardo pestilento, e eu bato
a cabeça no travesseiro como uma lagartixa inútil, de olhos
arregalados e o estômago e o cérebro entupido de remédios
num quadro consolidado e sem volta, assim como do meu pai.
“São voltas da vida, voltas da vida”,
como dizia o enfermo Valdemar
em seu leito de morte e honradez.
queria ter a grandeza e a percepção da vida num leito de hospital
para morrer fazendo este balanço isento de que tudo. “são voltas da vida,
voltas da vida”, e no dia seguinte o Sr. Valdemar já não acordava mais.
que venha esta noite, em mim também, ó morte, como num plenilúnio
será que, depois disso, a vida deixará de dar as suas voltas? acho que não.
o que eu tenho hoje são resíduos, resquícios de ressaca e sequelas
“sofrendo com as calças e tudo” como o parente eunuco já dizia,
e o que quer que isso tenha significado para ele de pés em perpendicular.
durante toda aquela noite de veneno e cobra eu implorava o advento da morte
para, ao menos, dentro dos dois meses subsequentes, eu pudesse acordar,
invariavelmente menor, com um resto de vida e uns versos de circunstância
como esses de agora e me faço então um urso plausível, criando forças para criar
em meio a esse caos de tantas dores e os músculos retesados repuxando no braço
como fosse me virar do avesso, o que faz com que a minha cabeça não consiga
pensar mais e eu lanço tudo no livro das horas, antes de fechar a brochura contábil.
“A Solidão Clandestina” foi demais e única companhia, amigo, falecido antes de mim.
“O Himalaia de um Vaso” era alto demais para eu escalar, falecido conterrâneo, e então
eu caía de borco com a cara no meio do barro, palhaço, cheio de livros e dentes partidos.
Se ao menos eu tivesse tido, o quanto antes, a droga de um buril e punhais amolados.
Da Essencialidade da Água
.
Um escritor nunca escreve sozinho…
Antes, escreve com todas as vozes
Que sussurram a todo instante
histórias e versos
Acertos e desacertos
Melodias e ilhas
Desconcertos…
Sou Cecília…
Oswald, Mário, Carlos… Andrades!
Sou também Bandeira!
Camões, Pessoa, Castro e muito mais.
Sou Clarice…
Veríssimo, Graciliano, Rosa,
Sou também o cais.
Jorge e Murilo e muito mais.
Sou o que sou: olha só os tais!
Pouco, muito…
E até coisas banais.
E desfaço o ser quando entender…
e é o que basta,
mas
não sou sozinho, sou inteiro,
sou vários, por vezes inabitável,
propenso e líquido
e, ao mesmo tempo,
uma cidade inteira
contrassenso
Sou Mia, Leminski, Milton
Caetano!
E não há engano!
Sou Machado
E o texto, ironicamente,
É mais afiado.
Sou Carlitos, o vagabundo,
Sou parte itinerante
Das lembranças do mundo!
Sou e não sou a cada hora.
E o relógio não tarda.
Agora
Sou todos os textos e canções
Sou todas as rimas e emoções
Um escritor nunca escreve sozinho…
Antes, escreve com todas as vozes
Que sussurram a todo instante
histórias e versos
Acertos e desacertos
Melodias e ilhas
Desconcertos…
.
Na penumbra
me faço grande
como minha sombra na parede.
Porém a parede
não é intacta
como a cerâmica do banheiro.
Suas imperfeições
remetem-me para além dela mesma
e me vejo em cada detalhe
mal sucedido de sua arquitetura.
Na penumbra
me faço gente
como as presenças que me povoam.
Porém o sonho
não corresponde
à realidade imaginada.
Os monólogos com a sombra
remetem-me para além de mim
e me sinto em cada possibilidade
de acender a lâmpada
e não perder o mágico domínio.
O Acaso das Manhãs




.
Tudo é poesia
A agitação da rua
O sinal
E a correria!
A voz do vendedor
O som do dia.
Tudo é poesia
A propaganda
O chafariz
Até a melancolia
O engarrafamento
O papelão pra noite fria.
Tudo é poesia
Os menores na esquina,
Uma bola ou um limão
Acrobacia
No alto dos edifícios
A vida silencia!
Tudo é poesia
Nas placas, andaimes,
Guindastes
Não há monotonia.
Há tremor, rumor
A amarga dor,
Sinestesia!
E quando tentam tirar
As coisas do seu devido lugar
Autofagia!
Não importa!
Pois tudo na cidade
É poesia!
foi preciso
que eu fosse
envelhecendo
para entender
(em parte) o
erotismo tardio
nos poemas de
Drummond.
é que precisamos
ir perdendo para
poder reconquistar.
é preciso ir morrendo
pra aprender a gostar
da vida e tentar
(quando não é mais possível)
usufruir da beleza da água
que acabou de passar.
Da Essencialidade da Água
Da janela da casa onde moro
aguardo a chegada de alguns
amigos para a festa de
aniversário.
Nada se move, exceto a minha
sombra na varanda, vazada de
angústia, silêncio e noite.
Fecho as janelas da casa
onde moro e ainda dou
uma última olhada através
das frestas da veneziana.
Nada se move, exceto a noite
com a sua noção de simultaneidade
do tempo, das pessoas e das coisas.
Nada se move, exceto o silêncio
que domina o ambiente e repousa
na visão do telefone emudecido
e inútil sobre o criado-mudo.
Fecho a porta do meu quarto
e a casa onde moro fica escura,
imersa na solidão dos cômodos.
Inventário de Sombras
.
Sob uma chuva de outubro
o germe penetrou
no solo árido de mim,
onde as emoções se resguardavam.
Mas o sol e o raciocínio
dos meses subsequentes
atrofiaram o germe ávido
que havia trazido o amor.
E foram tantos os desencontros
do clima naquele ano
que a meteorologia afetiva
justifica-se culpando a ambos.
Agora, numa sala de espera
contígua à do esquecimento,
resta-nos como única saída
a eutanásia cúmplice
do que restou do sonho.
O Acaso das Manhãs
Cinco anos depois da pandemia ser anunciada, revisito este texto que nasceu em meio ao isolamento — ecos de um tempo que ainda ressoa.
O horizonte anunciou um desafio
Na época que traria
Tanta luz e liberdade
Chegaram tempos de trevas
Fomos convidados ao exílio
Um inimigo invisível
Uma tal gripezinha
Que surgia na China
E, de repente, fez vítima,
Seu José da esquina
E com o perigo iminente
Me isolei
Nos tempos das quaresmeiras
Roxas como um suplício
Pré-milagre de Cristo
Me isolei
Ou melhor, nos isolamos
Em um paraíso distante
Em um refúgio externo
Ou no silêncio que guardo
Me isolei
Perdi a vaidade
Tentei assumir os brancos
Quase raspei os cabelos
Mas recobrei a sanidade
Me isolei
Adotei duas gatas
Meu amor surtou
Elas ronronaram
Ele se apaixonou
Me isolei
Quis morrer
Quis sumir
Quis viver
Ressurgi
Me isolei
Perdi um tio
Perdi uma prima
Chorei
Como você também chorou
Me isolei
Conversei com amigos
Voltei a falar com meus primos
Me senti parte de algo
Dentro do meu vazio
Me isolei
Fiz máscaras de beleza
Pintei as unhas
Emagreci
Engordei
Me isolei
Vi ministros humilhados
Nossos poderes desnudos
Ouvi o que não queria
Falaram o que não devia
Me isolei
Acordei de maneiras várias
TPM´s, alegrias
Senti saudades
Do que não tinha
Me isolei
Li tantos livros
Escrevi quase diários
Poemas curtos
Contos que criei
Me isolei
Descobri mais de mim
De você
Ou até do outro
Já nem sei
Me isolei
Fui amiga do sol
Companheira na chuva
Me perdi
Me encontrei
.
sabe,
há um momento
em que a lua
fica escura.
é quando,
a escuridão maior
vinda dos montes
cobre a Rua Fácil.
e tudo,
vira um só quadro
negro, uma lousa
fria que antecede
a morte.
Da Essencialidade da Água
E todo verso que faço
Um pedaço de mim está e fica e se vê
Um outro ninguém sabe, um laço
que não se sabe onde fica e nenhuma vista lê
E toda estrofe que nasce
Meus sonhos e verdades lá estão
Num outro canto, outras verdades
No esquecimento ficarão
Quando o poema, inteiro, surge diante de mim
É meu o rosto e é meu o nome
Mas é um outro que não sou eu
Não sei se isso é o começo ou o fim…
E então me refaço e me reescrevo
Junto ou em pedaços o tempo inteiro
Sou e não sou, tenho ou não tenho
É este o poeta e o seu ofício primeiro
No silêncio sepulcral desta noite
abro a janela
e recebo a visita do demônio.
Juntos travamos um pequeno diálogo
acerca da destruição do mundo.
Depois percorremos os cemitérios
e os ninhos dos pássaros agourentos,
respiramos o hálito da morte
e compactuamos da miséria dos homens.
A noite era fria e indiferente
aos nossos propósitos de celebração.
Com dedos trêmulos cavamos o altar
de nosso macabro ritual.
Antes, porém do sacrifício final
fomos resgatar a memória dos corpos
e garantir a permanência dos zumbis
sobre a face andrajosa do planeta.
Abrimos um caixão e uma brisa vaporosa,
que era ao mesmo tempo fúnebre e sensual,
despertou nossos instintos de espécie
e pouco depois e para sempre estava
consumado o ato lascivo e sagrado.
Chegamos depois ao altar fatídico,
e sob asquerosos protestos de ódio
à vida social e fútil dos vivos,
pegamos os punhais do sacrifício
e nos entregamos ao suplício eterno.
O Acaso das Manhãs
.
Nossos filhos nascem cegos
pela poeira do nosso tempo.
Nós ainda enxergamos
porque já entendemos o mundo
a partir da poeira que há nele,
e que não nos incomoda muito.
Areia (À Fragmentação da Pedra)
Quando acordei do coma
eu já não tinha mais
a mobilidade de antes.
Olhei para as paredes
de vidro do isolamento
e já não tinha a mesma visão
de antes
a mesma audição
de antes.
O mundo parecia ser outro.
Perna e braço direitos
estavam paralisados,
dormentes e um sono
de letargia na noite
fria com pedras de gelo
no peito, do lado
esquerdo, assim penso.
O mundo já não era o mesmo.
Dois dedos do pé esquerdo
haviam sido afetados
e minhas afeições e
percepções já não eram
as mesmas. Fúria de
não ter sido antes.
Minha intimidade
e meus defeitos haviam
sido expostos como
escaras do tempo.
Nunca mais quis tirar fotografias.
Havia um corpo estranho
no meu corpo fragilizado
e uma tela no estômago
de baixo para cima eu havia
sido atingido por um golpe
do destino e várias cirurgias.
Não tinha mais condições
suficientes para poder
trabalhar, sobreviver
e tive que depender
de apoio, de cestas básicas
da vida como um doente
a quem falta alguma coragem.
Remédios para a goela grande das farmácias.
Acordei como quem entra no pesadelo
e já não podia sonhar acordado ou dentro
de uma noite normal e previsível.
O eixo de tudo continuava gasto
como o eixo do mundo, ANTES.
Da Essencialidade da Água
.
– Fala o poeta de vanguarda:
A estrutura do verso
está invertida
em meu caleidoscópio.
Preciso de uma máquina
rápida e perfeita para
fazer uma circuncisão mental:
“Quero que a estrofe
gravada ao jeito
do vídeo cassete
saia nítida,
sem um defeito”.
– Fala a crítica especializada:
A infraestrutura do verso
está evoluída
em meu laboratório.
Preciso de um computador
rarefeito e sem defeito
para efeito de análise poética:
“O crítico é um digitador,
digita tão completamente
que chega a digitar a dor,
a dor que sua mãe sente”.
– Fala o homem pensante:
A superestrutura dos acima
está equivocada
em minha concepção histórica.
Preciso de uma filosofia
autêntica e própria agora
para escrever um poema-amostra:
“A sombra projetada de um homem
exclui o mecanismo da repetição alheia,
pois a condição intrínseca dele mesmo
exige que seu poema se faça de ideias
e despreze a vida enquanto justificativa
para o erro de se caminhar junto ao tempo”.
– Fala um observador imparcial:
Poesia significa
abrir caminho para o abismo
e pedir que nos devolvam
o nosso sonho antiatômico.
O Acaso das Manhãs
O homem dos muros
É um ser sombrio,
Sua imagem causa arrepio
E gera confusão.
O homem dos muros
Grita e divide
E com força Insiste
Em mais desunião.
O homem dos muros
É uma grande desgraça
Incita arruaça
Morte e destruição.
O homem dos muros
Nem parece um homem
A razão e o senso somem
Na sua louca ambição.
O homem dos muros
É um menino mimado
Birrento e enjoado
O caos é a sua motivação.
O homem dos muros
É o pior presidente
Não gosta de gente
Não tem empatia nem coração.
Coitado do mundo!
Que dano profundo
Se um outro discípulo
Medonho e ridículo
Pudesse aparecer!
Coitado do mundo!
Que dano profundo!
Se um louco varrido
De pedra cingido
Pudesse crescer!
Ainda bem que no Brasil
Um país muito gentil
Isso não há de suceder!
Aqui o buraco é mais embaixo!
Tão incerto e tão escuro
Que não dá nem pra ver!
Coitado do mundo
Que dano profundo
Se outro homem dos muros
De atos impuros
Pudesse aparecer!
Não haveria mais poesia
Seria tudo monotonia
Difícil sobreviver!
Mas enquanto for possível o poema
Mas enquanto for possível a escrita
A palavra liberdade estará em cena
A palavra resistência terá vida!
hoje eu mordi
um chumaço de
papel higiênico
para estancar
(ou tentar conter)
o sangramento
da língua dilacerada:
como um cadáver
antecipado que devora
o seu próprio sudário.
Um Andarilho Dentro de Casa
.
A ilha com seu silêncio
me comunica a morte
dos seres espectrais
que nela vivem ou já viveram.
A ilha cercada por mangues
é um poço de lama e óleo.
Os pescadores da ilha
me comunicam o fim
dos pescadores da ilha.
Os pescadores da ilha
me apresentam a pesca de um dia,
nada.
A ilha com sua morte
me comunica o silêncio
dos seres superiores
que a mataram e matam.
A ilha abandonada pelos banhistas
é um deserto de espuma e água.
Os frequentadores da ilha
me comunicam o desastre
das praias da ilha.
Os frequentadores da ilha
me apresentam o bronzeado de um dia,
petróleo.
A ilha com sua sorte
me comunica o crime
dos seres continentais
que seguem impunes.
Os pescadores da ilha
me comunicam o fim dos peixes
e voltam tarde para casa.
O Acaso das Manhãs
.
cheguei cansado para deitar
sobre a cama de papelão no chão
e debaixo da marquise gotejante.
uma poça de água da pingadeira
sobre o passeio do mercado desativado
onde dormiam indigentes à espera do fim.
dormir é dócil como o bebê embriagado
desapercebido dos planos de Deus.
Um Andarilho Dentro de Casa