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Tudo é poesia
A agitação da rua
O sinal
E a correria!
A voz do vendedor
O som do dia.
Tudo é poesia
A propaganda
O chafariz
Até a melancolia
O engarrafamento
O papelão pra noite fria.
Tudo é poesia
Os menores na esquina,
Uma bola ou um limão
Acrobacia
No alto dos edifícios
A vida silencia!
Tudo é poesia
Nas placas, andaimes,
Guindastes
Não há monotonia.
Há tremor, rumor
A amarga dor,
Sinestesia!
E quando tentam tirar
As coisas do seu devido lugar
Autofagia!
Não importa!
Pois tudo na cidade
É poesia!
foi preciso
que eu fosse
envelhecendo
para entender
(em parte) o
erotismo tardio
nos poemas de
Drummond.
é que precisamos
ir perdendo para
poder reconquistar.
é preciso ir morrendo
pra aprender a gostar
da vida e tentar
(quando não é mais possível)
usufruir da beleza da água
que acabou de passar.
Da Essencialidade da Água
Da janela da casa onde moro
aguardo a chegada de alguns
amigos para a festa de
aniversário.
Nada se move, exceto a minha
sombra na varanda, vazada de
angústia, silêncio e noite.
Fecho as janelas da casa
onde moro e ainda dou
uma última olhada através
das frestas da veneziana.
Nada se move, exceto a noite
com a sua noção de simultaneidade
do tempo, das pessoas e das coisas.
Nada se move, exceto o silêncio
que domina o ambiente e repousa
na visão do telefone emudecido
e inútil sobre o criado-mudo.
Fecho a porta do meu quarto
e a casa onde moro fica escura,
imersa na solidão dos cômodos.
Inventário de Sombras
.
Sob uma chuva de outubro
o germe penetrou
no solo árido de mim,
onde as emoções se resguardavam.
Mas o sol e o raciocínio
dos meses subsequentes
atrofiaram o germe ávido
que havia trazido o amor.
E foram tantos os desencontros
do clima naquele ano
que a meteorologia afetiva
justifica-se culpando a ambos.
Agora, numa sala de espera
contígua à do esquecimento,
resta-nos como única saída
a eutanásia cúmplice
do que restou do sonho.
O Acaso das Manhãs
Cinco anos depois da pandemia ser anunciada, revisito este texto que nasceu em meio ao isolamento — ecos de um tempo que ainda ressoa.
O horizonte anunciou um desafio
Na época que traria
Tanta luz e liberdade
Chegaram tempos de trevas
Fomos convidados ao exílio
Um inimigo invisível
Uma tal gripezinha
Que surgia na China
E, de repente, fez vítima,
Seu José da esquina
E com o perigo iminente
Me isolei
Nos tempos das quaresmeiras
Roxas como um suplício
Pré-milagre de Cristo
Me isolei
Ou melhor, nos isolamos
Em um paraíso distante
Em um refúgio externo
Ou no silêncio que guardo
Me isolei
Perdi a vaidade
Tentei assumir os brancos
Quase raspei os cabelos
Mas recobrei a sanidade
Me isolei
Adotei duas gatas
Meu amor surtou
Elas ronronaram
Ele se apaixonou
Me isolei
Quis morrer
Quis sumir
Quis viver
Ressurgi
Me isolei
Perdi um tio
Perdi uma prima
Chorei
Como você também chorou
Me isolei
Conversei com amigos
Voltei a falar com meus primos
Me senti parte de algo
Dentro do meu vazio
Me isolei
Fiz máscaras de beleza
Pintei as unhas
Emagreci
Engordei
Me isolei
Vi ministros humilhados
Nossos poderes desnudos
Ouvi o que não queria
Falaram o que não devia
Me isolei
Acordei de maneiras várias
TPM´s, alegrias
Senti saudades
Do que não tinha
Me isolei
Li tantos livros
Escrevi quase diários
Poemas curtos
Contos que criei
Me isolei
Descobri mais de mim
De você
Ou até do outro
Já nem sei
Me isolei
Fui amiga do sol
Companheira na chuva
Me perdi
Me encontrei
.
sabe,
há um momento
em que a lua
fica escura.
é quando,
a escuridão maior
vinda dos montes
cobre a Rua Fácil.
e tudo,
vira um só quadro
negro, uma lousa
fria que antecede
a morte.
Da Essencialidade da Água
E todo verso que faço
Um pedaço de mim está e fica e se vê
Um outro ninguém sabe, um laço
que não se sabe onde fica e nenhuma vista lê
E toda estrofe que nasce
Meus sonhos e verdades lá estão
Num outro canto, outras verdades
No esquecimento ficarão
Quando o poema, inteiro, surge diante de mim
É meu o rosto e é meu o nome
Mas é um outro que não sou eu
Não sei se isso é o começo ou o fim…
E então me refaço e me reescrevo
Junto ou em pedaços o tempo inteiro
Sou e não sou, tenho ou não tenho
É este o poeta e o seu ofício primeiro
No silêncio sepulcral desta noite
abro a janela
e recebo a visita do demônio.
Juntos travamos um pequeno diálogo
acerca da destruição do mundo.
Depois percorremos os cemitérios
e os ninhos dos pássaros agourentos,
respiramos o hálito da morte
e compactuamos da miséria dos homens.
A noite era fria e indiferente
aos nossos propósitos de celebração.
Com dedos trêmulos cavamos o altar
de nosso macabro ritual.
Antes, porém do sacrifício final
fomos resgatar a memória dos corpos
e garantir a permanência dos zumbis
sobre a face andrajosa do planeta.
Abrimos um caixão e uma brisa vaporosa,
que era ao mesmo tempo fúnebre e sensual,
despertou nossos instintos de espécie
e pouco depois e para sempre estava
consumado o ato lascivo e sagrado.
Chegamos depois ao altar fatídico,
e sob asquerosos protestos de ódio
à vida social e fútil dos vivos,
pegamos os punhais do sacrifício
e nos entregamos ao suplício eterno.
O Acaso das Manhãs
.
Nossos filhos nascem cegos
pela poeira do nosso tempo.
Nós ainda enxergamos
porque já entendemos o mundo
a partir da poeira que há nele,
e que não nos incomoda muito.
Areia (À Fragmentação da Pedra)
Quando acordei do coma
eu já não tinha mais
a mobilidade de antes.
Olhei para as paredes
de vidro do isolamento
e já não tinha a mesma visão
de antes
a mesma audição
de antes.
O mundo parecia ser outro.
Perna e braço direitos
estavam paralisados,
dormentes e um sono
de letargia na noite
fria com pedras de gelo
no peito, do lado
esquerdo, assim penso.
O mundo já não era o mesmo.
Dois dedos do pé esquerdo
haviam sido afetados
e minhas afeições e
percepções já não eram
as mesmas. Fúria de
não ter sido antes.
Minha intimidade
e meus defeitos haviam
sido expostos como
escaras do tempo.
Nunca mais quis tirar fotografias.
Havia um corpo estranho
no meu corpo fragilizado
e uma tela no estômago
de baixo para cima eu havia
sido atingido por um golpe
do destino e várias cirurgias.
Não tinha mais condições
suficientes para poder
trabalhar, sobreviver
e tive que depender
de apoio, de cestas básicas
da vida como um doente
a quem falta alguma coragem.
Remédios para a goela grande das farmácias.
Acordei como quem entra no pesadelo
e já não podia sonhar acordado ou dentro
de uma noite normal e previsível.
O eixo de tudo continuava gasto
como o eixo do mundo, ANTES.
Da Essencialidade da Água
.
– Fala o poeta de vanguarda:
A estrutura do verso
está invertida
em meu caleidoscópio.
Preciso de uma máquina
rápida e perfeita para
fazer uma circuncisão mental:
“Quero que a estrofe
gravada ao jeito
do vídeo cassete
saia nítida,
sem um defeito”.
– Fala a crítica especializada:
A infraestrutura do verso
está evoluída
em meu laboratório.
Preciso de um computador
rarefeito e sem defeito
para efeito de análise poética:
“O crítico é um digitador,
digita tão completamente
que chega a digitar a dor,
a dor que sua mãe sente”.
– Fala o homem pensante:
A superestrutura dos acima
está equivocada
em minha concepção histórica.
Preciso de uma filosofia
autêntica e própria agora
para escrever um poema-amostra:
“A sombra projetada de um homem
exclui o mecanismo da repetição alheia,
pois a condição intrínseca dele mesmo
exige que seu poema se faça de ideias
e despreze a vida enquanto justificativa
para o erro de se caminhar junto ao tempo”.
– Fala um observador imparcial:
Poesia significa
abrir caminho para o abismo
e pedir que nos devolvam
o nosso sonho antiatômico.
O Acaso das Manhãs
O homem dos muros
É um ser sombrio,
Sua imagem causa arrepio
E gera confusão.
O homem dos muros
Grita e divide
E com força Insiste
Em mais desunião.
O homem dos muros
É uma grande desgraça
Incita arruaça
Morte e destruição.
O homem dos muros
Nem parece um homem
A razão e o senso somem
Na sua louca ambição.
O homem dos muros
É um menino mimado
Birrento e enjoado
O caos é a sua motivação.
O homem dos muros
É o pior presidente
Não gosta de gente
Não tem empatia nem coração.
Coitado do mundo!
Que dano profundo
Se um outro discípulo
Medonho e ridículo
Pudesse aparecer!
Coitado do mundo!
Que dano profundo!
Se um louco varrido
De pedra cingido
Pudesse crescer!
Ainda bem que no Brasil
Um país muito gentil
Isso não há de suceder!
Aqui o buraco é mais embaixo!
Tão incerto e tão escuro
Que não dá nem pra ver!
Coitado do mundo
Que dano profundo
Se outro homem dos muros
De atos impuros
Pudesse aparecer!
Não haveria mais poesia
Seria tudo monotonia
Difícil sobreviver!
Mas enquanto for possível o poema
Mas enquanto for possível a escrita
A palavra liberdade estará em cena
A palavra resistência terá vida!
hoje eu mordi
um chumaço de
papel higiênico
para estancar
(ou tentar conter)
o sangramento
da língua dilacerada:
como um cadáver
antecipado que devora
o seu próprio sudário.
Um Andarilho Dentro de Casa
.
A ilha com seu silêncio
me comunica a morte
dos seres espectrais
que nela vivem ou já viveram.
A ilha cercada por mangues
é um poço de lama e óleo.
Os pescadores da ilha
me comunicam o fim
dos pescadores da ilha.
Os pescadores da ilha
me apresentam a pesca de um dia,
nada.
A ilha com sua morte
me comunica o silêncio
dos seres superiores
que a mataram e matam.
A ilha abandonada pelos banhistas
é um deserto de espuma e água.
Os frequentadores da ilha
me comunicam o desastre
das praias da ilha.
Os frequentadores da ilha
me apresentam o bronzeado de um dia,
petróleo.
A ilha com sua sorte
me comunica o crime
dos seres continentais
que seguem impunes.
Os pescadores da ilha
me comunicam o fim dos peixes
e voltam tarde para casa.
O Acaso das Manhãs
.
cheguei cansado para deitar
sobre a cama de papelão no chão
e debaixo da marquise gotejante.
uma poça de água da pingadeira
sobre o passeio do mercado desativado
onde dormiam indigentes à espera do fim.
dormir é dócil como o bebê embriagado
desapercebido dos planos de Deus.
Um Andarilho Dentro de Casa
O primeiro verso é um pouco como o ar
Palavras soltas, palavras para cá e para lá
Mas mãos cuidadosas vão caçando no brincar
E o céu poético se ordena e tudo lá está.
O quinto verso, já encorpado, é como a terra
Palavras fortes e consistentes que criam raiz
E mãos habilidosas escolhem no tempo de espera
E o chão poético é desejoso e tudo diz.
O nono verso movimenta-se ágil como a água
Veloz como as corredeiras e quieto como lago
Percorre a vida a noite inteira e depois deságua
E quando tudo parece a morte – derradeira cena
As cinzas das brasas voltam ao natural estado
O último verso dissolve-se e é o fim do poema.
E vai e vem e vem e vai e agora cai
Um verso e mais outro e outro mais
E de novo, mais um e mais um e mais um
E a rima certeira se aconchega em “algum”
E vem e vai e vem e vai e de novo cai
Mais um verso e mais outro e outro mais
A rima, no momento, se aproxima do “cais”
E então, a estrofe, mais uma, vai…
E assim segue o poema um pouco escorregadio
Inteiro, em pedaço, movediço e quebrável
Todo, completo e depois o vazio e o nada!
E assim segue o poema um pouco vadio
O primeiro ou o último, inteiriço, mas mutável
Item por item, som a som, palavra por palavra
Horas… as horas… é o tempo que passa
e passa o tempo todo o dia inteiro
independente do que faça ou não faça
devagar e impreciso ou certo e ligeiro.
Curioso é que tudo muda nessa trama:
o sentimento que se sentia já não sente
o amor com que se amava já não ama
todas as coisas passam, assim, de repente.
No fim de tudo, até os sentidos somem
e transitamos entre o que há e o que não há:
o improvável, o contraditório, um senão…
Tempo, palavra antiga, antes do homem…
Marca do que foi, do que é e do que será
máscara de sonhos, momentos, desilusão.

Língua breve, toda clara, toda escura,
Aos poucos caminha, para, continua.
E entre o areal, a bruma, a leve chuva.
A face se mostra, inquieta e muda.
Língua instante – objeto nada – rara, pouca.
Para, continua, para, tonta e louca.
Ensaia um grito, uma palavra, outra,
A voz se insinua, miúda e rouca.
No entanto, nas contradições do descaminho,
Faz-se a língua na própria língua
Faz-se o verso em todo o canto.
O poeta, imagem irreal, o instinto,
Busca a palavra, suga-lhe o sentido.
Regurgita o poema sob aplausos e espanto
Sombras, rios, sussurros ou delírios?
Delírios, sombras, rios ou sussurros?
Pedras, muitas pedras correm com os rios.
Com os rios correm os murmúrios.
Rios, sussurros, delírios e sombras.
Pedras, muitas pedras correm com os rios.
O resto são assombros e tu contas
Que escrevo um poema? Delírios!
No primeiro terceto faço questão:
Pedras, muitas pedras correm com os rios.
Sombras, sussurros, mas o que são delírios?
Imaginar que faço o poema e não
Importa-me o verso que segue… São fios
E tu a acreditares nas pedras e rios?

Nas rodas antigas o freio e a vida
É a rosa, desgosto, gosto do mundo
Frágil, sublime, aos poucos ferida
Viva num instante, morta num segundo.
A entreter o poeta num beijo longo
Ao desfalecer é pedra, mar e cio,
Conchas de luz no céu onde ponho
Um poema um tanto escorregadio.
E foge de mim assim como o mar,
E foge de mim sem sequer pensar,
E foge de mim sem mesmo olhar.
É a rosa, tanto doce quanto amarga,
É a rosa metade da madrugada,
É a rosa, poeira e mais nada.
.
“sob a luz de neon, o silêncio cresce como um câncer.
as pessoas se curvaram e rezaram
para o deus de neon que elas criaram.
as palavras dos profetas estão escritas nas paredes do metrô
e nos corredores do cortiço”
Simon & Garfunkel
era a noite fria e chuvosa
então eu saí como um zumbi
para criaturas que, como eu,
vivem nas sombras.
sob a luz de neon
o câncer se espalha
e as pessoas se curvam
ao som de Simon & Garfunkel.
rezas, aspersões de água
benta e nada resolve:
o deus de barro que criaram
se esfarela como um pó seco.
as palavras dos profetas
estão rabiscadas nas portas
dos banheiros sujos das
rodoviárias promíscuas.
cortiços, neons resplandecentes,
silêncios e o escuro breu da
noite sem almas a sufocar
nos corredores do metrô 147.
palafitas, águas podres,
restos de comida, latas,
lixo reciclável, “estercoraria
argila preta”. O Déjà Vu.
Da Essencialidade da Água
.
“entre os anos de 1764 e 1767 os habitantes da pequena província francesa de Gevaudan, atualmente parte de Lazere, próximo das montanhas Margueride foram aterrorizados por uma criatura lupina que passou a ser conhecida como La Bête Du Gevaudan ou “A Besta de Gevaudan”
eu já fui quase do tamanho de um touro ou de um urso, meu braço e dedos direitos, em função de sequelas, pareciam garras afiadas e o conjunto todo era de uma aparência medonha.
a primeira mulher atacada conseguiu escapar e chegar até ao seu vilarejo, de onde passou a adotar um comportamento estranho e agressivo. Após esse episódio, seguiu-se um tempo de calmaria, mas próximo ao natal o cântaro de água derramou e mais uma pessoa desapareceu e localizaram os seus restos terrivelmente mutilados em uma ravina. Suspeitaram então que um nobre renegado estava por detrás daquelas mortes, transformando-se em um lobo demoníaco em noites de lua cheia. as pessoas do vilarejo foram ficando incomodadas com essa presença lupina comendo a sua comida, remexendo os campos e invadindo as suas propriedades. Montaram então uma expedição de militares com um arsenal de 50 mosquetes, lanças com mais de dois metros de comprimento, armas que disparavam setas de ferro, bombas explosivas de pólvora negra, armadilhas e correntes para capturar o intruso animal. Os homens da expedição usavam armaduras negras de couro batido e metal cheio de espinhos, cabelos moicanos e pinturas de guerra. As suas peles eram besuntadas com os despojos de uma loba no cio para atrair a fera sanguinária. Esses trajes exalavam um fedor nauseabundo. Tudo preparado para fazer o abate, mas a besta atacou antes e matou várias pessoas da tropa. Então os aldeões revoltados se armaram com ferramentas, paus e pedras e um desespero de iconoclastas, e nada. Tudo fracassou e contrataram então um taxidermista de Paris. A nova expedição ou empreitada contava com 40 caçadores e uma dúzia de cães farejadores. Os homens concentraram-se em uma área rochosa, repleta de ravinas e onde se dispunha de água potável ao que tudo indicava ser o covil da fera. Esta última tentativa se enveredou pela floresta tendo como líder um taxidermista especialista em folclore e superstições e que, armado com projeteis e balas de prata que foram abençoadas pelo pároco local. Chegaram num bosque próximo de Gevaudan onde recitaram uma série de orações e cantigas místicas. E logo a fera, na forma de um lobo, apareceu e então todos dispararam com suas pistolas e os projeteis de pura prata que vararam o corpo da besta que caiu fulminada. Para alguns aquela era de fato a besta carniceira e quando tiraram a máscara de pelos e sangue era um homem com trajes de um maluco monge e assim foi queimado e as suas cinzas espalhadas ao vento. Foi preciso o decurso de algumas semanas até que dessem falta do homem tosquiador e descobriram então que a besta não passava do camponês que tosquiava as ovelhas e se chamava “O Monstro” e a sua descrição batia ipsis litteris com aquilo que eu era na aldeia.
eu já fui quase do tamanho de um touro ou de um urso, meu braço e dedos direitos, em função de sequelas, pareciam garras afiadas e o conjunto todo era de uma aparência medonha, ectoplasmática.
Da Essencialidade da Água
(*) transcrição livre e poética do famoso caso ocorrido na França do século XVIII
Noite fria, sombria, quieta.
Ele, calado, encolhido, matutando.
Eu, na espreita, alerta, sentinela.
Nós, famintos, sedentos, enjeitados.
Olhos remelentos, húmidos, arregalados.
Corpos esquálidos, caquéticos, patéticos.
Dentes que bambeiam, rareiam, vadios.
Garrafa vazia, gamela vazada.
Burburinho no beco, grupinho do boteco.
Garotada excitada, bebida exagerada.
Sanduba na mão, churrasco no pão.
Passo apressado, casaco amarrado.
Rota traçada, calçada apertada.
Molecada bloqueada, assustada
Carroça encostada, coberta rasgada.
Ele apagado, encolhido, deitado.
Eu agitado, pescoço esticado.
Abano o rabo, procuro um afago.
Vira-lata esfaimado, tá necessitado.
Não tem culpa, merece um sanduba.
Comida de gente, pro cão indigente.
Acordo o parceiro, meeiro, hospedeiro.
Cão de mendigo, pão repartido.
Aninho, carinho, comunhão.
Vida de rua, verdade nua e crua.
Entre um cão mendigo e um mendigo no chão.
O que abana o rabo é que garante o pão.
.
ressoam em meu cérebro
ecos de canções que eu
nunca escreverei jamais.
mas existem em mim
como acordes tangíveis
do que se aspira a ser.
à sombra do músico adormecido
eu vivi a minha vida inteira assim
disfarçado de poeta como se fosse
um andarilho dentro de casa.
O Jardim Simultâneo
.
Acendi uma vela, e me veio
De outro plano
que não eu, mas era eu, também
Acender 8
o 8, deitado, é o infinito
8, em pé, conforme as coloquei
tornou-se fogueira
O fogo ardeu, ardeu e
enquanto eu vivia o momento presente
As duas coisas ligaram-se
Dançado ardentemente
Pavios como mãos dadas
Fogo fátuo, feito, farto
De repente
minha atenção recor-
tou-se em du-as
duas
e eu estava
um olho em algo,
outro na labareda,
e quando
as parafinas
finas de cada vela comprida –
enfim fundiram-se em uma
só coisa ardente
pude ver-me eu
como mãe
de mim mesma
e minha filha – que ainda não veio
e mais um ser,
nós duas em 1
Três
Três
Três chamas que dançavam
como que se conversassem
por horas
Anos
Gerações
E então o ar tornou-se perfume
o perfume das mil velas que queimam
dentro das catedrais
E meu ventre
tal qual um oráculo divino
Escureceu
Não era peso ou dor,
Mas silêncio
um peso nuvem
Um descanso
Hibernação
Libertação
dentro de uma jornada que se finda
Aos poucos
Infinitamente
Para Três
Três almas
Três sabores
a vida lançou-se para o infinito
para cima
potência de início –
a chama única dentro do pote de vidro
enegrecido
abraço de fim.
E
Adormeci
Nova
para um novo amanhã
Estou hoje calado
como se houvesse
roubado o silêncio
dos mortos.
Estou hoje tranquilo
como se a calma
fosse um atributo
dos homens enfermos.
Estou hoje festivo
como se estivesse
numa festa, e lúcido,
como se a lucidez
fosse a própria festa.
Estou hoje vencido
como se soubesse a verdade
e sozinho vou indo mesmo
a uma festa, atendendo ao
convite dos mortos.

cérebro inchado
em recônditas gavetas,
minha cabeça não deixa
de doer. fui de mim
o meu maior inimigo.
Liberdade ilusão
Vontade reprimida
Prisão de si mesmo
Encaixe em moldes
DECEPÇÃO…
Nunca foi o que realmente era, considerava o seu próprio ser repugnante aos grandes olhos dos filtros sociais. Lamentava, vestia a máscara e… FIN-
GI-A…
DECEPÇÃO…
Continuava a Tentar…Encaixar…
Nos moldes | Nos padrões
Eram pequenos, causavam desconforto
O Desconforto… DESconfortava
DECEPCIONAVA…
Necessidade de…FUGA
Medo/co…co…co…co…
CORAGEM!
Coragem/necessidade
ATITUDE…
Olhos fechados ao alheio
Poder sobre as próprias escolhas
Atitudes e… CORAGEM
NOVA VIDA | VIDA NOVA
Estou cercado de objetos
sem expressão ou significados
(utensílios para o desempenho
de um trabalho sem utilidade).
Tenho as mãos ocupadas
na tarefa de preencher
o vazio com papéis
de números impressos.
A cabeça gira à procura
de lembranças que possam
desviá-la do tédio
de ver gentes.
Arquiteto planos
sem propósito algum
além de preencher
as horas de um expediente.
Estou cercado pelos
quatro lados de um cômodo
onde recebo clientes
de um banco de dados.
Tudo é muito lento
como o motor ligado
de um ar-condicionado
a esfriar meus pés.
Tenho um olhar cansado
de olhar o silêncio e
estar calado, ouvindo
vozes que não decifro
e tenho medo.
Inventário de Sombras
A chuva cessou de chover
e já agora eu posso
tirar as mãos dos bolsos
e atravessar a rua.
Mas já não tenho mãos
e nem tampouco posso
atravessar esta rua, pois
a água levou-me as pernas.
E a rua, embora chovida, está seca.
Eu fui a chuva que choveu e ninguém viu.
Milton Rezende in “O Acaso das Manhãs”