Um laço e um nó
e o engasgo e o silêncio
a palavra muda amordaçada e nada
do que fizera antes apaga
o fluxo do poema e da prosa
e as mãos frágeis do poeta-cronista
tentam a todo custo segurar o texto
o desejo
a insensatez e a loucura e o rio de letras
sílabas palavras-peixe e amores brutos
um laço e um nó e o engasgo e o silêncio
a palavra mata
e cala e se cala
afrouxa e aperta
afrouxa e aperta
e joga e rola
e deita e cola
afrouxa e aperta e água
e mais água inundam o ser e o papel
e o espaço e o universo
e a tela fala
aquela fala aquele riso
aquele pranto
afrouxa e aperta
e aperta e afrouxa
um laço e um nó.
Poesias de 1 a 99
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Poema: #12: UM LAÇO E UM NÓ
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O que há por trás do movimento antivacina em cães?
Um burburinho crescente nas redes sociais revela que muitos donos têm evitado vacinar seus cães. Como jornalista, pesquisei e apurei relatos de especialistas, estudos e depoimentos de famílias, e concluí que o preço também está embutido nessa crítica. À primeira vista, porém, a explicação mais repetida remete a ecos de movimentos políticos que já conhecemos. Foi assim na pandemia, quando a incerteza sobre a eficácia das vacinas abriu espaço para a desconfiança. Essa sombra ainda paira sobre parte da população.
Na internet, o termo “antivax” ganhou força. Designa os que rejeitam vacinas ou diminuem sua importância. Uma pesquisa do portal IG mostrou um dado alarmante: cerca de 40% dos responsáveis temem que a vacinação cause autismo em cães. É uma crença sem base científica, mas que se espalha com rapidez, como rumor em feira livre. No Instagram,também circulam frases de efeito como “pet que não sai não precisa vacinar”, “vacina é só para gripe”. Mensagens curtas, fáceis de compartilhar, que acabam banalizando uma medida vital para a saúde animal e, por consequência, também para a nossa.
Para conter essa onda de desinformação, a Associação Britânica de Veterinária (BVA, na sigla em inglês), antecipou-se e divulgou uma nota posicionando-se contra os movimentos antivacina. O tom foi direto: não há qualquer evidência científica que relacione vacinas a casos de autismo em cães. Portanto, podem levar seus animais ao veterinário sem medo.
Entretanto, atribuir a resistência às vacinas apenas à ideologia é uma visão simplista. Acompanhei, ao longo dos anos, a relação entre cães e pessoas e percebi fatores mais concretos nesse movimento. O custo das vacinas, por exemplo, é um dos grandes obstáculos. Ainda que alguns veterinários se esforcem para oferecer preços acessíveis, para muitas famílias a imunização tornou-se inviável.
Há também a questão da exigência de várias doses antes de liberar o filhote para passear. Em certos casos, entre cinco e sete. Isso compromete severamente o desenvolvimento social dos cães, sobretudo na fase inicial da vida. Quando barreiras financeiras e práticas se acumulam, muitos donos ignoram as recomendações e acabam levando seus cães às ruas antes do fim do ciclo vacinal completo. E, uma vez quebrada a regra, a lógica se impõe: se o filhote já pode ter contato com o ambiente externo, por que continuar arcando com tantas vacinas caras? O resultado é um efeito dominó que mina a confiança.
Não se trata de condenar a prática veterinária, mas é impossível ignorar a engrenagem maior que sustenta esse cenário. Quanto mais vacinas, maior o lucro da indústria farmacêutica. Reconhecer esse fato não é aderir a teorias conspiratórias, nem enfraquecer o valor da imunização. Pelo contrário: vacinar continua sendo indispensável para a saúde e a longevidade dos cães. O desafio real está em outro ponto: tornar o processo viável, transparente e acessível, para que ninguém precise escolher entre proteger o animal ou pagar as próprias contas.
Politizar o debate é perigoso. Cães fazem parte de todas as camadas sociais, e muitos responsáveis simplesmente não conseguem arcar com o custo de certos imunizantes. Em um país onde famílias esperam meses por atendimento médico, não surpreende que os animais também sofram os efeitos do sucateamento da saúde pública.
Mesmo assim, não faltam histórias de donos que se sacrificam, abrindo mão do próprio cuidado para garantir a proteção de seus cães. Esse gesto, ao mesmo tempo nobre e doloroso, revela o tamanho do vínculo que une pessoas e animais, mas também expõe, com clareza, as falhas de um sistema que deixa ambos desassistidos.
No fim, a matemática é implacável: quando o dinheiro falta, meus caros leitores, não há retórica que resolva. Não é descuido, tampouco crença, mas realidade que nenhum afeto consegue ultrapassar. A conta não fecha. Entre pagar um boleto, comprar o gás ou investir em vacinas, muitos acabam escolhendo o imediato. É duro reconhecer, mas a verdade se impõe com a frieza dos números: amor não basta quando a sobrevivência está em jogo.
Como dizia meu pai, com a sabedoria de quem viveu de tudo: “Se não tem remédio para a situação, remediado está.”
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Poema #05: Não É Aqui, Mas Perto
Estou debruçado
sob a fagulha do instante.
Me distorço enquanto crio
a ilusão de um esboço para algo
que sequer sei o quê.Ouso um salto, um pêndulo.
Giro de cá e de lá.
Laço-me à vertente de um vértice,
dobro os olhares e os reviro, o sintoma.
Tu, que me devoraste.A vertigem do hoje faz hora
Há tempo…Apressa-te, que o passo é passado.
Vagueia a tormenta, é futuro.
Perdoa o vivido, é achado.
Lamenta, já se fora perdido
feito pássaro garrido,
debatendo-se,
sangrando,
só,estilhaçado.
Tomba-me a silhueta assombrosa.
Insinuo que assim continuo.
Pesa-me o pestanejo, pelos
entulhos do mundo, filhos
da moral errante,
do tocante instrumento de voz,
secularizado pelo silêncio
nas penumbras
corriqueiras, talhados em
estantes.O momento que pulsa tenaz
é fruto bastardo, pauso.
Um entrave, acordo
em um lapso constante.
O retenho aguçado, assim apazigua-me a
centelha, o bastante.Entrelaço
um acorde dentre as
frestas da forma.
Cravo o risco em páginasonde clamo, se por forçosa a teima,
que ouça o riso da peste
que sofre, que sonha.Estão cansados os poetas.
Aos retirados à pruma
surte o rumo da crença.
E quanto à verdade, meu pai..
É certo que dela me esqueça
perene, enquanto perdure
o delíquio de vossas cabeças
renques, trépidas de um senso
cabal,
diz-se amargo
o careta.A estibordo este vórtice
que me devora, que me devora..
Sinuosa esta vida
que me despoja o agora
e que sopra, sopra…
Mas se por dizer
que escrever possa ser
velejo,e se a vida for mar…
Viver seja tornar o sopro forte
E amar, amar bem depressa,
pois querer vê-la, já
é tocar
o amor
de toda a sorte. -
Poema #38: Em Brancas Nuvens
Alguns dos meus
poemas são como
letras de música
sem música.Alguns dos meus
gestos são como
atos de uma peça
sem atores.Alguns dos meus
sonhos são como
um comício público
sem plateia.Alguns dos meus
atos são como
um filme mudo
sem cenário.Alguns dos meus
delírios são como
uma transgressão
da vida no sonho.Muitas das minhas
loucuras são como
a minha própria
vida & literatura,
inéditas no final
das contas.Inventário de Sombras
-
Poema #04: Sujeito Itinerário
Sentar-se à varanda e deliciar-se com as
passadas, dos sons da cidade,
com a corrente inóspita do tempo…Ao silêncio de um lago turvo
que se desdobra,
sobre as luzes que escapam, e a vida que
existe…como que o
mundo as retirasse de si.E notar as ondas eternas das horas
que mergulham sob a vastidão
de um verso transitório,
entre aquilo que se é
e o que se fora.Estou farto de uma existência
relapsa e
repentina; deste lampejo
imediato que submerge
e estilhaça
o vislumbre do agora,que faz do movimento
um ressentido,
detrito sintático,
repleto de esquecimento.Quero é olhar o nada e sentir preencher-me,
poder tocar em volta
e correr por sobre o vento,e sem a permissão do dito tempo
arriscar-me a
pensar em tudo;
a habitar o espaço
de um momento.É… é preciso de pouco nessa vida.
Ah, como preciso de tão pouco!
Mas, do que realmente preciso?Não sei.
O jeito mesmo
é ir vivendo. -
Poema #37: Um Vazio Suficientemente Cheio
Subtraímos da vida
a sua menor parcela
para o preenchimento
de nossas carências.Mas ao assumirmos o
controle desta mínima
propriedade, sentimosque ela não nos basta
posto que a enxergamos
apartada de sua totalidade.Acrescentamos então à vida
a parte restante que falta
para completar a visão que
nós temos do seu conjunto.Mas ao nos atribuirmos a
capacidade de dispor dos
elementos de acordo com nossa
momentânea vontade, a vidaperde a complacência concedida
e resgata a sua fração que já
tínhamos e que era a única que
podíamos aspirar em nosso desconforto.Inventário de Sombras
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Poema: #12: Exercício Pessoano
A chuva veio tomar
os meus pensamentos
e me puxou pelo braço… assim inteiro
e já não me sou…deixei de ser…
somos e não somos.
Várias vozes… absorção.
Um senão!E fica a impressão
de que a vida se abandona
na brevidade acelerada das coisas…
e não somos! Fingimos ser…
Inventamos, copiamos, fazemos um rascunho…
E nos deparamos com o sentido inoportuno
de não querer entender
e somos!Vencido o humano,
bandeiras ao vento, mastros,
coração tremulando aos farrapos…
Quando se escreve, há o momento da perda…
e, no perder-se, encontramos
o que no cotidiano…
damos o nome de poesia. -
Poema #36: Nu
O teu corpo,
pássaro esculpido
no assento do
sofá da sala
de visitas,
é uma ampla sala
onde te visito
(abolida a noção
de sonho
sob o teu vestido),
sempre que o desejo
do corpo desenha
a moldura de um
pássaro
em teu assento
Inventário de Sombras -
Poema #07: Ressaca
onda mortiça,
que oculta em seu manto de espuma?
pérola ou lixo?
fragmento de concha ou ponta de vidro?
cobertor de areia
espelho de estrela
poça onde a sereia afônica afunda os pés sem dedosO corpo inteiro afogado no poço sem fundo.
A memória em desordem de molho no sal.
O olhar que vacila(à procura de terra firme?)
vê diluir-se um segredo na força da água.no avanço
no refluxo
o vaivém ritmado
pinta no chão
uma sombra ondulada
que apagaSão suas ondas, maré postiça,
que trazem não mais que pistas
embaralhadas pelo mar,
que tragam o passo na amarra dura
da areia úmida de outro lugar. -
Poema: #11: REMANSO
Sem querer descanso
Um espanto
Voluptuosa corrente
Sente que é noite
Dentro da gente.Sem querer remanso
Manso
Mato verde molhado
Sente que é sereno
Enluarado.Sem qualquer pranto
Pronto:
Torre de vento e estrela
Sabe que é madrugada
Nada.Vem molhada de canto
Quer tanto
Boca de lua jogada
Sol quente na estrada -
Poema #06: Eco
talvez uma nota só
surge avulso na meia luz
monótono feito o canto
que se destina a embalar
o teto o chão as paredesa coreografia do pó
projeta no espaço em branco
o sonho de não morrer
o ritmo é a bolha que estoura
no silêncio da distânciarebate elástico o nó
duelo que prende a resposta
ao mesmo som da pergunta
na teia da repetição
a voz desafia o infinito -
Poema #35: BREVE E LONGÍNQUO
“… você marcou a minha vida, viveu, morreu na minha história, chego a ter medo do futuro e da
solidão que em minha porta bate… eu corro e fujo destas sombras, em sonhos vejo este passado, e
na parede do meu quarto, ainda está o seu retrato, não quero ver pra não lembrar, pensei até em
me mudar… lugar qualquer que não exista o pensamento em você”.
Edson Trindade/Tim MaiaBreve, como breve é a luz da lua cheia
Durante o eclipse solar da vida humana.Breve, como breve é a sombra da noite
Durante o sono da vida como um lençol.Breve, como breve é o sonho do amor
Durante o intervalo das ilusões perdidas.Breve, como breve é a existência do corpo
Durante o trajeto sobre o planeta terra.Breve, como breve é a presença do espírito
Durante o convívio quando se pensa em anjos.Longínquo, como longínqua é a essência dos seres
Durante o percurso no trafegar das ruas atribuladas.Longínquo, como longínquo é tudo o que se vê
Durante o passeio da câmara em panorâmica no alto.Longínquo, como longínqua é a felicidade íntima
Durante a procura pelo convívio ideal a mais de um.Longínquo, como longínqua é a música do Yes
Durante o embalo da paixão não correspondida.Longínquo, como longínqua é a ideia de um Deus
Durante o desespero batendo nas grades da prisão.O Jardim Simultâneo
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Poema #03: PRESSÁGIO
Vê onde há dor,
vá onde se avista,
doa o que não se pede,
perca o que não se dói.Foi o que não se via,
viu o que não se achava,
trouxe o que não devia,
deveu o que não se tinha.“Terei onde ser um outro,
verei o que há de novo”,
tentou ser tudo que tinha
viveu feito vivo-morto.“Saudade é da liberdade”,
cantava o finado rouco;
mas tudo o que era livre
fizera de caso pouco.Saudade é da boa turma,
teimosa que só a rima:
largava, sentia, ouvia;
era a vida do bicho solto.Onde fora tal maledicência
que só o tombo levava o rito?
O tinha o decurso, o todo
fez da fome o que tinha dito.Repetiu o que se lembrava,
calejava o suor da testa,uma vida já percorrida
se de si esquecida,
de que resta?A turma já como desfeita
anunciava o discurso às pressas;
foi o que não era
e não se via.Eis a sutileza:
Viver é afetar a vida com a espera. -
Poema #33: Sea Of Monsters
inspirado em versos de Lennon/McCartney
Estamos num barco
no meio do oceano.
Toda compreensão de mundo
que temos não ultrapassa
o nosso raio de visão.E como nossa visão é curta
(e não nos conformamos com isso),
às vezes utilizamos algum instrumento
que nos dê a sensação de transcendência.Mas por mais largos que sejam ou
possam ser nossos horizontes visuais,
o que vemos é apenas um limitado tapete
de água que escoa e se perde no vazio.Assim nossa visão de mundo
(ainda que não queiramos admitir),
acaba se restringindo ao espaço
interno do barco em que estamos.Do lado de fora do barco
(e a água bate forte no casco
tentando afundá-lo) se situa o imponderável
com suas “nuvens negras, negros pássaros;
asas partidas, lagartos, destruição”.Inventário de Sombras
-
Poema #02: Trinta e sete tonais de tinta
Foram precisos tantos
e tais quais tonais
de tons entonados
de tamanho eterno
e com ternura tal..Teria tido eu
um tempo ao qual
tenro, turvo, talho,
traços de tinta em rabiscose tirando tudo de trás…
teria eu tentado?Se tentei foi por tentar.
Tirava tudo o que me trazia,
talvez até mais…
onde coubesse tanto.Traste! – terminei traçando,
“É o que se diz”, entoei
“quando muito se tem,
pouco se tenta”.Pois quero tentar ter nada.
Ou mesmo tais tonais quais
que não tires de mim tanto
que sou tinta entornada,tecido traçado no túnel
de um tempo tirano;em torno de tudo,
envolto de tanto,
esboço de lata -
Poema #01: A Viagem
A gente corre e esquece
O tempo aquece, escorre
Se a vida dança, eu rio
Se a vida flui, eu samboDe lá eu vejo, sinto
De longe eu peço, e fico
Da rua, a terra, o transe
A moita, espreita, um tantoEu tive sede e sonho
Vivi a luz, a sombra
Timbrei um brado, um tinto
Um feixe aceso, o sangue
Da lua negra, um grito
Afresco a palo seco
Memória, o vulto, o vício
Esqueço, vejo;
Me desencontroTolice a velha sina
O ter não quer ser tido
O lado oposto, o tempoSe rompe o véu, um rastro
Um astro, um sal, um vento
A pena diz assim levanto
A vida que se espreita
Espreme, exprime, espantoDomingo eu ligo o rádio
Disfarço um beijo, encaro
A rima, um desperdício
A vida, um ter sem rumo
O ter, um tempo em brancoEu finjo um fato, um feito
Um tapa, o tom do sério
Eis a vergonha boba
Viver é só mistério. -
Poema #32: Versos Lastimosos
a gente
sempre se ressente
contra quem
supostamente
se diz muito
felizDa Essencialidade da Água
-
Poema #31: CACTOS
No meio da tarde
No meio do mundo
No meio da sala
estamos plantados
como uns cactos.No meio da vida
No meio do sonho
No meio do amor
estamos atados
como uns escravos.No meio do caminho
No meio da raiva
No meio do medo
estamos presos
como uns condenados.No meio de tudo
No meio de nada
No meio sem meios
estamos perdidos
como uns abortados.No meio da rua
No meio da noite
No meio da merda
estamos sozinhos
como uns deserdados.No meio de nós
estamos morrendo
como os antepassados
No meio ele mesmo
estamos vivendo
como num trabalho forçado.Somos uns cactos
num deserto de homens. -
Poema #30: Porém, Nada Dizia
Gosto do silêncio.
Prefiro ficar em silêncio.
Vejo as pessoas conversando
e a imagem que me fica é a
do cuspe trocado entre elas. -
Poema #05: Procura dos sentidos
Terminantemente cego pelo brilho da sua voz,
custei a compreender que o farol era oco.
Lançam-se às ondas os que não veem.
Os olhos,
mal acostumados à claridade nua,
não distinguem o contorno do timbre que os feriu.
Perfil de muitos rostos
ou nenhum.Vem de lá o jogral que arranha os ouvidos.
As letras,
maiúsculas e resolutas,
marcham e cantam
cantam e marcham
em fileiras que se entrelaçam e colidematé se emaranhar em mil espinhos
aptos a ensurdecer o toque.
O ruído das opiniões encarece o silêncio.Mas não há trégua.
A pele sem pausa se arrepia
ao cheiro que escorre das redes.
Pouco se aproveita da pescaria.
Aqui uma lesma
ali uma pedra
o resto é areia
que os dedos espalham até perder as digitais.Melhor seria se recendesse a sal.
Na disputa amarga das fragrâncias,
ao nariz resta a fratura.
E antes que alguma possibilidade de cura se apresente,
impregna o ambiente o perfume insípido dos infalíveis.A língua não quer assepsia.
Tampouco a visão da terra firme.
Temperos novos
híbridos
em vão buscam os lábios que os perseguem.
O encontro jamais consumado
afinal se junta ao rol das coisas que,
embora não devoradas,
consomem.
Qual apetite desaparecido.Despojado enfim de todos os sentidos
o corpo perde a conexão com algo além do sensível.
Sonâmbulo entre sonâmbulos
pisoteia bússolas e dicionáriosenquanto flana
em meio à multidão da praia deserta. -
Poema #4: Rondó randômico
A tosse que se ouviu pulsar,
entranhada nas dobras do ar,ouvi que nunca houve outra igual,
engasgo ou sintoma de um mal
que se ouvisse sem se escutar.Como prever em qual lugar,
incontrolável como o mar,
recairia o surto canibal
que se ouviu pulsar?Nesse jogo de sorte e azar,
tecido com ardil no tear
da imprecisão proposital,
cada lance adia o final
do giro sem fim do pesar
que se ouviu pulsar. -
Poema #30: A Voz do Silêncio
Estou acordado
e não sonho,
mas a realidade
antecipada
me envolve.A barba se me
desprende do rosto
fio a fio num frio
maior onde estou
me enregelando.Tudo se dissolve
na aparência de ossos
de que fui formado,
e que é minha forma
mais resistente no mundo.Mas a terra
(com seus vermes)
decompõe ao seu contato
todo o meu aprendizado
doloroso da vida.E uma cova me absorvendo
transforma tudo o que fui
num triste resumo de pó
que um dia se chamou homem.E que lhe deram um nome
(que tive), mas que a terra
aterra no tempo o traço
nominal dessa efemeridade. -
Poema #03: Oferenda
Da onda ao pé da praia,
recolho as relíquias do mar:
sigilo
deslumbrante encanto
pronúncia sincera de uma fé sem dogmas.Preservo meus amuletos.
Quisera crer somente na força
das águas que os trouxeram,
banhados em luz e sal,
sutil religação do corpo ao mistério.Algo estranho, porém, corta
minhas mãos, meus pés.
Fio afiado de faca
cravado nas costas da mansidão.
Em vão vasculho a areia:
misericórdia amor tolerância
estão enterrados tão fundo
que sequer a mais teimosa esperança
pode trazê-los à tona.Os detritos e os dejetos
de uma deturpada devoção
soterram sem piedade
o que um dia foi oferenda. -
Poema #29: Novas Lendas Urbanas Inventadas do Nada
Eu estava de tocaia na praça em frente à sua casa
aí ela chegou de bicicleta e quando foi abrir a porta
eu ataquei, agarrando-a por trás e já sentindo o delírio
daquelas carnes macias que me foram negadas em vida.Havia crianças por perto e então eu achei melhor
interromper o procedimento e levá-la para um lugar
escuro e deserto e então fomos a um velho cemitério
com ela protestando que preferia estar com uma amiga.Mas eu havia morrido por causa dela e não era justo
eu não levar nada daquele amor que atravessou décadas
de sofrimento e dor causadas pela sua frieza e indiferença
como quem prende um coração numa jaula suja e planejada.Nunca era tarde e agora eu a tinha entre os meus braços
dilacerados pelos cortes de navalha que ela havia operado
enquanto exercia as funções de enfermeira-chefe do posto
médico mais próximo e que era uma espelunca dos diabos.Consegui fugir das trevas do inferno e antes de executar
o intento planejado eu levei as suas filhas para a casa da avó
que morava numa aldeia vizinha de onde tudo havia começado
a cerca de 5 km de distância e já eram trinta e um anos passados.Depois retirei o seu vestido jeans de zíper nas costas e com cuidado
fui explorando todos os espaços onde a vida fora afinal consumida
entre equívocos e intervalos enquanto que ela não dizia nada como
quem já esperava pelo pior e estava resignada com a morte próxima.Mas eu estava cansado de conviver com o sangue e só queria o desfrute
daquele momento com ela viúva e única, como se eu fora um lobisomem
apaixonado pela manhã seguinte e então ficamos a noite inteira naquela
e acho que foram umas seis vezes até eu ficar satisfeito e engravidá-la. -
Poema #02: Último andar
Inunda o céu a invasão
desse voo vadio sem asas
de volteios fora do tempo
a trapacear a vertigem.Fora de ordem e selvagens
são as aves que sequer
as mais hábeis artimanhas
mantiveram na gaiola.Em silêncio, em liberdade
furam a fila das nuvens
e enganam sombras e luzes
no movimento sem freios.Ao redor do último andar
vê o caminhar derradeiro
que prescinde de convite
pra lançar-se ao recomeço.Faminto de novos ares
voa pra abocanhar o céu
pássaro infenso à censura
tecido de pensamento. -
Poema #28: ANÍMICA
quando eu tinha todos os movimentos
eu era sol entre nuvens
aves de arribação
qualquer coisa de menos sólida
por haver.
eu via cachoeiras em meus sonhos
remanso de rios
pedra grande de sentar menino
florestas a esculpir.Da Essencialidade da Água
-
Poema #10: OUÇO RUMORES
Ouço os passos do vento
Ouço e estremeço…Tempo
Entretempo
Ouço rumores de vento
E penso que sou eu
o vento
e o rumorMomento…
E o meu corpo
descolado das palavras
é brisa marinha
As ondas me invademuma a uma
e a sensação da vida e do amorpreenchem os espaços outrora vazios
preenchem cada canto
o olhar de sale as mãos que se quebram de tanto escrever
As ondas e o vento
e o meu corpo ainda intacto
Depois?Não ouço mais nada…
-
Poema #01: Entrelinhas
Repara a frente do verso.
Gêmeas, capa e contracapa
dispensam qualquer remendo.
Abrem-se livres, pois são
asas de uma ave vadia
a desnortear perspectivas
(no alto, embaixo, início, fim).Enumerar as palavras
no caderno é exercício
árduo de caligrafia.
Um sem-número de imagens
colore o branco entre as linhas,
promove encontros na rígida
geometria das paralelas.Remexe o varal das letras.
O movimento precisorevela o que antes estava
camuflado sem disfarce:
conselhos, consolos, sonhos,
denúncias…diálogo aberto
que se guarda a sete chaves. -
Poema #27: Uma Poesia a Marteladas
eu faço versos
como quem martela
as sílabas do vocabulário:
trôpego quase sempre.eu faço poemas
como quem sofre
as pancadas do destino:
difíceis como sempre.eu sobrevivo
como quem hiberna
na escuridão da noite:
dilacerado sempre e sempre.com a música do Led Zeppelin
“since i’ve loving you”
para acompanhar
o meu enterro.Da Essencialidade da Água
-
POEMA #26: AVALIAÇÃO NOTURNA
Este pedaço de céu
que me foi permitido entrever
entre os edifícios,
assemelha-se a uma parte de mim
que ainda se resguarda
para nada.
Areia (À Fragmentação da Pedra)