Crônicas
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abr- 2026 -22 abril
O fantasma do ferro-velho
Nunca fui de me impressionar com coisas sobrenaturais. Acho-as, inclusive, enfadonhas e desnecessárias, pois em nada contribuem para a vida prática. Trata-se de um mercado tão comum como qualquer outro. Primeiro criam um problema, depois vendem soluções fracionárias, sempre à mercê de um adicional aqui ou ali. Enrolam um pouco falando dos benefícios daquilo, simulam algum imperdível desconto e pronto, venda concluída. E não adianta, nessas e noutras, só ca
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21 abril
As 7 Palavras de Cristo na Cruz
A pergunta foi direta como um chute do infalível Bruce Lee em seus melhores dias: por que as últimas 7 palavras de Cristo na cruz? E o poeta, sem querer fazer poesia, respondeu na sua forma sertaneja de ser. Mas, afinal, por que “sertaneja”? Simples. O poeta, escritor e dramaturgo premiado no Concurso Nacional Universitário de Peças Teatrais, promovido pelo Serviço Nacional de Teatro do Rio de Janeiro, com a peça “A Cruz da Menina”, nasceu na cidade de Pat
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21 abril
A certeza que cansa o olhar
Otto Lara Resende escreveu uma das minhas crônicas favoritas: “Vista cansada”. Li pela primeira vez na faculdade de Letras. Depois, voltei a ela muitas vezes, sempre com o mesmo incômodo. É uma crônica triste, muito triste. Diz que, de tanto ver, chega uma hora em que já não se vê mais ninguém — nem o porteiro, nem a mulher, nem o vizinho. Mas o que fica, mesmo, não é só a tristeza. É a suspeita. Ao ler Otto, me ocorre que a gente não deixa de ver por dist
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19 abril
Duas sessões: um respiro, apesar de # e @
Quanto mais Inteligência Artificial, maior a cobrança por performance, por entrega, por prazos que já deixaram de ser humanos. O mundo segue tendo seus ciclos — noite e dia, dias que viram semanas, semanas que viram meses — e, num piscar de olhos, os anos passam. A urgência urge. Respirar é um ato de vida: ar que entra, ar que sai — e, nesse intervalo mínimo, quase imperceptível, algo em nós se reorganiza. Quem já parou para meditar sabe: criamos espaço. S
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19 abril
Vigília
O relógio marcava três da manhã. Maria Augusta se revira na cama pela enésima vez. Maldita insônia. Olha agora o teto do quarto e procura entender por que não dormia. Luzes apagadas, silêncio, tinha acordado cedo, sentia-se cansada, mas o infeliz do sono não vinha. Havia contado ovelhas que pulavam uma cerca invisível. Desistiu quando elas começaram a querer dançar uma rumba em vez de saltar. Devia estar ficando louca ou as ovelhas mancomunadas com sua ins
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19 abril
O corpo de palavras
O corpo de palavras é o poema e o conto e a crônica e o romance. O corpo de palavras. A palavra serpenteia, ondeia, se insinua e, nua, causa alvoroço no poeta, no romancista, enfim… A palavra e o corpo. O corpo de palavras por si só basta. E afasta. E afasta as coisas e o mundo e a realidade. Pensa ser real. Quer se aproximar do real. Mas não é. É corpo. Corpo de palavras que se fazem e se desfazem e se querem e se afastam. E afasta. E por si só bastam. Ba
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19 abril
Alienação facial
Ontem sonhei com o E.T., aquela figurinha de cara achatada do filme de Spielberg, lançado no Brasil em 1982. Um alienígena do bem, de rosto triangular, boca rasgada e grandes olhos azuis. No meu sonho, ele tinha voltado ao seu planeta para relatar como andava sua missão: transformar todos os habitantes do planeta visitado em criaturas à sua imagem e semelhança. Assustada, procurei me distrair um pouco com a televisão para conseguir pegar no sono novamente.
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19 abril
Audição criativa
Vamos falar de surdos. Surdos no sentido coloquial, não surdos de verdade, isso é assunto para especialistas. Só percebi a diferença quando assisti a um diálogo entre um senhor e a atendente de uma loja que vendia aparelhos auditivos. Quando ele se queixou de que era surdo, ela foi objetiva: — O senhor não é surdo, se fosse eu não poderia ajudá-lo. Seria mais ou menos como fazer um cego enxergar usando óculos. Sua audição é deficiente. Tenho vários desses
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18 abril
Uma imagem ou mil palavras?
Sou de uma época em que se acreditava que uma imagem era a mais perfeita expressão da realidade. Aquilo, cuja existência era testemunhada por esses olhos que a terra há de comer, estava lá de verdade. A tarefa de descrever retoricamente tal imagem era uma vã tentativa de convertê-la, através de símbolos (denominados palavras) em algo compreensível, para os que não a presenciavam. Por mais habilidoso que fosse o narrador no manejo dos vocábulos, jamais alca
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17 abril
O fiteiro
Quando fui conhecer o lugar em que viria a residir em Recife; minha mãe, que me acompanhava na ocasião, assinalou: “já sei por onde Lucas vai andar”. Referia-se a um fiteiro, elemento tão presente nas cidades brasileiras e tão característico delas. Contudo, este tinha uma particularidade; não estava na rua, como usualmente ocorre, mas dentro do condomínio, pertencendo a um morador, que tocava o negócio com mais dois irmãos. Instalado no apartamento, o fite
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16 abril
Tempo da mudança de atitude!
Possuo muitas bibliotecas perdidas em sonhos, que descrevem experiências vividas. Não lembro de alguns detalhes saborosos de minha infância, mas recordo que meus pais me deram muito amor e carinho, que eu gostaria de rever em meus olhos, tocar novamente aquela risada longa e espontânea, recheada de sorriso e abraço. Quando fui à escola pela primeira vez, senti muita vontade de ficar mais tempo com os amigos, porque aquela era a melhor parte da aula, encont
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14 abril
O outro pior encontro casual
Antônio Maria, numa crônica intitulada “O pior encontro casual”, uma das minhas preferidas, diz que o pior encontro na noite é com o homem autobiográfico que, mal te encontra, num bar, por exemplo, já começa a crônica de si mesmo. Nesta crônica, vou dar uns palpites, falar sobre o pior encontro casual para mim. Quanto a mim, um personagem que eu detesto encontrar por acaso — não só na noite, mas até na mesma calçada — é o “intelectua
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12 abril
Venerandas folhas amarelas que não são do outono
E teve vontade de tocar piano, só para se sentar por ali e acordar uma melodia quase alegre, aguardando o parceiro que a acompanharia, a quatro mãos. Entretanto, não havia um; se houvesse, não saberia tocá-lo. Estava sozinha entre páginas fustigadas e quase oleosas, alguma poeira, nada além. Era só àquela hora da madrugada, dentro do sebo que herdara da bondosa vizinha solitária — a que fazia bolos, a chamava de neta e a ensinara a usar o forno do seu fogã
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12 abril
Cansaço miúdo
Ele fazia questão de enrolar as grandes meias em pequenas bolinhas para guardar na grande gaveta do pequeno armário. Organizava tudo com zelo: bolinhas de grandes meias alinhadas aos globos das pequenas, como se cada par soubesse exatamente o seu lugar — e ousasse não saber. As meias usadas iam para pequenas cestas na lavanderia. Esperava recebê-las limpas, enroladas, devolvidas aos seus lugares com a mesma precisão com que haviam saído. Pequena tarefa que
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12 abril
Coisas de vento para prosa
Coisas de vento, bola no chão, areia, rosto no campo e suor. Pedras. Pedradas. Horizonte longe e nada. Mais nada além da bola e da vontade do jogo entre os moleques. Sol a sol e coisas de vento, sem tempo. Momento. Momento de pensar nas coisas do tempo que passou. O menino que fui um dia joga na estrada. Pedras nas janelas. Pedradas. E corre, corre. As pernas tremem de tanto correr sem direção. Sol a sol. Horizonte muito. Dispersão. Coisas de vento que nos
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11 abril
O Circo
Vinha de vez em quando. Talvez uma ou duas vezes ao ano. Mas mudava os ares da cidade toda. Meu irmão que andava lá para o centro da cidade chegava gritando: — Anita, Anita! Você não acredita o que eu vi? — O que você viu, guri? Conta logo! — Eu vi uns três ou quatro caminhão chegando e entrando lá onde ficava o circo! — Verdade? — Eu juro, ele falava beijando os dedos em cruz. Pronto! Era verdade sim! Criava um frenesi. Tudo começava com o carro de som. N
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11 abril
Líbano libre
Sou descendente de libaneses. Com muito orgulho! Todos os meus quatro avós provieram daquele exótico e restrito pedaço de terra, cujo tamanho não chega à metade do menor estado brasileiro, Sergipe. Mesmo sendo um país tão pequetito, enviou para o Brasil, ao longo do século XX, tanta gente que hoje há mais descendentes libaneses no Brasil do que no próprio Líbano! Um em cada 20 brasileiros. São por volta de 10 milhões de ‘turcos’, como erroneamente costumav
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10 abril
Cinema com meus olhos
Ver filme é um prazer solitário, mesmo em grupo. Porque não se vê o filme pelos olhos dos outros. Você compartilha a experiência do momento e, não raro, as sensações que cada um teve na exibição. Mas o entendimento e os sentimentos que nascem a partir dessa reflexão são únicos. Não há como transferi-los ou recebê-los. Nunca li resenha de filme antes de assisti-lo. No máximo, uma sinopse bem curtinha para saber se é faroeste ou argentino. Nada além disso. N
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9 abril
Um tom diferente na tinta da retina!
No Renascimento foi inventada a sopa fortificante e restauradora, feita de carne de boi, carneiro e legumes, servida como refeição no século XVIII aos viajantes ou indivíduos extenuados, após um longo dia de trabalho. Era servida nas estalagens, tabernas e hospedarias, e devido aos seus efeitos benéficos, ganhou o nome de restaurant. Esses lugares não entregavam refeições para quem batesse em suas portas, e não seguiam o conceito de apresentar um cardápio
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7 abril
Dias melhores
Você já imaginou se a vida te convidar para uma experiência incrível num dia que, para você, não seria dos melhores? Ocorre-me que pode nos acontecer algo extraordinário, justamente quando a gente não está no melhor dia. Você não está com a melhor roupa — estava com pressa, pegou a que tinha e saiu. Uma chuva te pega no meio do caminho, um carro passa em alta velocidade e ensopa a sua roupa inteira. Ou então você pisa numa poça d’água e o seu sapato fica n
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6 abril
Jogo das palavras
O homem não é o que fala; na maioria das vezes, é o que sente, e o que ele sente, ele não fala; por isso, muitas vezes, no silêncio, engana. E então, o homem não é homem, é puro sentimento? Estranhos são os jogos das palavras; confundem e nem sempre se entende o que se quer dizer. O tempo nos faz endurecer, segurar as lágrimas, e entramos no jogo da vida sarando as nossas feridas. E então, deixa-me falar, deixa-me dizer aquilo que não queres ouvir. O erro
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5 abril
A era do instantâneo
Tirar uma foto, fazer uma selfie, mostrar-se e mostrar os outros o tempo inteiro, todo o tempo. Caras e bocas e frases de efeito, curtidas e vídeos, imagens para todos os lados! O que estamos fazendo com o nosso tempo? Nem mesmo Narciso seria tão cruel consigo mesmo! O século XXI tem promovido, além da revolução digital e do avanço vertiginoso da inteligência artificial, contraditoriamente, a involução das coisas e, pior, das pessoas. Nunca, em tão pouco e
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5 abril
Reintegração das águas em si: páscoa
— Onde estamos?— Não muito longe do seu destino.— Parece faltar muito… Essa viagem é infinita,mamãe…— Duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana. Mas, em relação ao universo, ainda não tenho certeza absoluta.— Você é muito filosófica, mãe.— Eu não inventei isso. Foi o Einstein. Albert Einstein.— Ele é bom de…— Bond. James Bond. Dez a doze músculos da face contraíam-se antes de terminar a frase. Sempre antes. O puxar dos cantos da boca que s
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5 abril
AUGÚRIO
Durante grande parte de sua vida, Suely dava expediente lendo as linhas das mãos, jogando búzios e ainda posando como astróloga. Madame Suely. Sua especialidade era o tarô. Manejava as cartas e seus arcanos por instinto e fazia suas reflexões livremente, orientando seus clientes sobre situações de vida, amor e trabalho. Na maioria das vezes dava certo e Suely persistia. Madame Suely interpretava alguns acontecimentos, pressentia sinais de problemas futuros
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4 abril
Digníssimo canalha
Pelo presente instrumento, venho desrespeitosamente dirigir-me a vossa excelência, em minúsculas, na dimensão da pequenez moral que encarnas. Refiro-me a ti, nobre calhorda, investido que estás da augusta prerrogativa, intransferível e vitalícia, de decidir o destino dos que habitam o mundo dos vivos, já que o dos mortos foge à tua jurisdição, embora almejes equiparar-te ao Ser Supremo que, inobstante os acórdãos do teu STF, exerce deliberações irrevogávei
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2 abril
Trama subjetiva nas mentes!
O poder político mantém certas ideias para gerir uma nação, desenha caminhos fartos de opções no cotidiano do povo, que está à espera de sua colaboração e sustento. O poder da biologia carrega em suas raízes a capacidade de escrever a data de seu velório. O poder espiritual, sustenta a igreja com certas regras e posturas limitadas pela fé, diferenciado substancialmente com espírito e alma aos pés de sua prole. Carrega a eternidade como salvaçã
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mar- 2026 -31 março
Afinal, quem serve quem?
Ninguém está aqui para nos servir. As empresas de ônibus, os garçons de restaurantes, o moço do guichê do metrô, o barman — todos parecem estampar nos olhos a mensagem: “você trabalha para mim”. Por esses dias, um grande amigo veio a BH passar uns dias. Depois dos compromissos que tinha por essas plagas mineiras, fomos a um shopping tomar um café. Meu amigo, assim como eu, não se furta ao prazer de, junto de um cafezinho quente e fumegante, comer uma sabor
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29 março
Anamnese
Tenho muito respeito pela palavra anamnese que une de forma inusitada duas consoantes, o que lhe confere um ar imponente de cultura e refinamento. Por vaidade literária fútil sempre desejei usá-la, mas por não ser da área de saúde nunca consegui. Agora resolvi esse problema: criei meu próprio formulário de anamnese, que, em primeira mão, compartilho com vocês. Trata-se de uma série de perguntas simples para quem se interessar em ser meu amigo, oxalá alguém
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29 março
curvas, exclamações tesas e duplos olhos castanhos
Pela primeira vez percebo as curvas orgânicas da fechadura que sustenta a chave da porta mais usada do meu armário, enquanto uma música conhecida reverbera pela caixa de som. A cortina de linho, fina, balança em câmera lenta, descortinando aos vizinhos — imersos em suas rotinas — a intimidade do meu corpo quase nu sobre a cama. Sinto olhares sobre mim, mas não vêm de fora; repousam baixos, quietos, sem pressa. Entre pensamentos, me perco, até que os acorde
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29 março
Nelson a conhece
No ônibus lotado ela vai enfiando o corpo nos menores espaços, dá licença, fala baixinho, não olha nos olhos, vai passando por uma senhora gorda com várias sacolas, por um garoto voltando mais cedo da escola, por moças, por rapazes, por velhos; troca a mão de lugar, consegue um vãozinho para pôr o pé, até chegar o mais próximo possível do lugar procurado e ali segurar na alça de apoio e parar. Não olha para as pessoas, mas também não vê o cenário que passa
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